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A Caverna do Mato Grosso fechada em 1943 pelo Exército, O Fazendeiro Achou Paredes Estranhas

O Mato Grosso é demasiado grande para qualquer história parecer impossível. Quinta desaparece atrás de quinta. Estrada vira trilho. Trilho vira mato. E depois a partir de um certo ponto, se alguma coisa acontece demasiado longe da cidade, ela não vira notícia, ela transforma-se em conversa de família. Em 1943, segundo um relato passado por três gerações, um lavrador chamado Anselmo Ferreira perdeu uma vaca num buraco que abriu no próprio pasto.

Isso sozinho não seria absurdo. O chão brasileiro tem fenda, gruta, erosão, caverna, rio escondido. A terra não é tão firme quanto gosta de fingir. A parte estranha veio depois. Anselmo desceu com uma corda, um candeeiro e a coragem comum de quem não quer perder animal caro. Ficou lá em baixo menos de uma hora. Quando voltou, saiu sem a vaca, sem o candeeiro e sem vontade de explicar.

A esposa disse que ele voltou cinzento, como se tivesse envelhecido dentro da terra. O filho disse que se sentou no chão e repetiu a mesma frase: “Aquilo não é parede de pedra”. Três dias depois, camiões do exército chegaram à quinta. Ninguém tinha chamado. A família não tinha telefone. O povoado ficava longe. Mesmo assim, os homens chegaram fardados, lona, ​​corda, ferramentas, caixas de madeira e cimento.

Entraram no buraco, passaram horas lá dentro, subiram transportando algo coberto e selaram a entrada com betão e ferro. Disseram que era uma gruta perigosa. Disseram que havia risco de derrocada. Disseram que ninguém deve tentar abrir outra vez. Esta é uma investigação sobre a gruta do Mato Grosso selada pelo exército em 1943, sobre o lavrador que entrou para buscar uma vaca e encontrou uma passagem onde a pedra deixava de ser pedra.

E sobre a pergunta que a família repetiu durante 80 anos. Como o exército soube, o interior do Mato Grosso em 1943 não era um lugar onde as coisas chegassem rápido. Carta demorava, médico demorava, peça de máquina demorava, por vezes até notícia de morte demorava. Mas o exército chegou em três dias.

Isso muda tudo, porque uma coisa é um agricultor encontrar um buraco, outra é uma autoridade aparecer antes que o assunto se espalhe. A quinta de Anselmo ficava perto de montes baixos, mata fechada e pedras escuras que os moradores evitavam, porque ali, de vez em quando, o gado sumia. Não todos os dias.

Não era um filme, mas acontecia. Os peões culpavam onça, buraco, ladrão ou assombração, dependendo da quantidade de aguardente disponível. Anselmo não acreditava na quase nada disso. Para ele, boi perdido era trabalho mal feito. E trabalho mal feito resolvia-se com cavalo, cão e bronca. Na manhã da queda, ouviu o barulho antes de ver o buraco.

Foi um som seco, como uma tampa a partir. Depois veio o mugido. Quando chegaram, a terra tinha aberto em forma oval, com bordos frescos e raízes partidas. A vaca estava viva lá em baixo, presa numa câmara rasa, talvez 6 ou 7 metros abaixo. Dava para ouvir o animal respirando. Dava para sentir o ar frio subindo.

Ar frio no Mato Grosso chama atenção. Ar frio a sair do chão chama mais ainda. Anselmo amarrou uma corda em uma árvore, pegou no candeeiro e desceu. O filho Benedito, ficou em cima a segurar a corda com dois peões. A esposa Azira ficou perto da casa fingindo que não estava a olhar. Esta é uma tradição antiga.

Quando o homem da casa faz uma disparate perigoso, a mulher observa de longe para poder dizer depois que avisou. Mesmo quando não avisou. Lá em baixo, Anselmo encontrou primeiro uma gruta comum. Chão de barro, pedra húmido, cheiro a raiz e animal assustado. A vaca estava ferida, mas viva. Havia espaço para amarrar o bicho e tentar puxar depois.

Se a história acabasse aí, seria apenas mais uma tarde mau de fazenda. Mas, no fundo da câmara, atrás de uma dobra de rocha, havia uma abertura. Não era grande. Um homem podia passar abaixado. O que chamava a atenção eram as arestas demasiado retas. limpas demais, como se alguém tivesse cortado aquela passagem utilizando régua.

A natureza faz curva, ponta, buraco, pedra que parece um bicho, mas a natureza raramente faz uma entrada com cara de porta de serviço. Anselmo aproximou o Lampião. Do outro lado, a gruta terminava, ou melhor, a gruta natural terminava, começava outra coisa. O chão era plano, não plano como barro pisado, plano como piso.

As paredes eram lisas, cinzentas escuras, sem fissura, sem marca de água, sem raiz, sem pedra a brilhar. Ele passou a mão e sentiu calor. Não calor de fogo, calor fraco, constante, como couro de cavalo depois de uma corrida. Essa foi a primeira coisa que contou ao irmão naquela noite. A parede era morna. Em uma gruta, tudo deveria ser frio.

Pedra fria, chão frio, ar frio. Aquele corredor era o contrário. O ar era pesado, a parede era quente, o silêncio parecia apertado. Deu poucos passos. O candeeiro começou a falhar. A chama ficou pequena e azul. Não apagou de uma vez. foi morrendo como se alguém estivesse a fechar o ar aos poucos. Anselmo levantou a luz e viu que o corredor seguia em frente por uma distância que o Lampião não alcançava.

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Nas laterais existiam outras aberturas, todas com bordos direitos, todas escuras, todas demasiado iguais para serem naturais. Foi aí que ouviu o som. Não era água, não era vento, não era bicho, era um zumbido baixo, contínuo, quase dentro do peito. Dizia que não escutava com o ouvido, sentia no osso.

Esta é uma frase ridícula até se imaginar um homem sozinho debaixo da terra, segurando um candeeiro moribundo, olhando para uma parede quente que não deveria existir. O Anselmo chamou pela vaca. A vaca não respondeu. Isto parece um pormenor, mas para ele foi o fim. Um animal preso, assustado, magoado, que berrava sem parar, ficou quieto exatamente quando entrou no corredor.

Ele voltou depressa, não correu porque o chão estava estranho e o candeeiro quase apagado. Tateou a parede morna até encontrar a abertura natural. Quando chegou à câmara, viu a vaca deitada, imóvel. Não havia sangue novo, não havia marca de ataque, apenas silêncio. Ele subiu pela corda. Quando o Benedito perguntou se ainda dava para salvar a vaca, Anselmo disse: “Não chega perto”.

Depois mandou todos voltarem para casa, colocou uma tábua sobre o buraco, como se uma tábua pudesse resolver um problema que tinha corredores rectos debaixo da quinta. Passou à tarde calado. Só à noite chamou o irmão mais novo, Geraldo, que vivia a algumas léguas. Foi para Geraldo, que contou a parte das paredes.

Foi Geraldo quem passou a história para a frente. Segredo contado a um irmão não morre, só aprende a falar baixo. Geraldo perguntou se podia ser obra antiga de índio. Anselmo disse que não. Perguntou se podia ser mina. Anselmo disse que mina tem marca de ferramenta, escora, buraco torto, sujidade.

Aquilo parecia feito, mas não por gente da região. Perguntou se havia desenho na parede. Anselmo disse que não. E esta resposta incomodou mais do que qualquer símbolo, porque desenho seria explicável, letra seria explicável, mas parede lisa, quente, sem emenda, por baixo de uma gruta natural, é uma coisa sem porta de saída.

No dia seguinte, um homem apareceu na quinta. Não estava fardado. Veio a cavalo, roupa clara, chapéu demasiado limpo para a estrada má. disse que era do governo e perguntou sobre um desabamento. Essa palavra pegou a família de surpresa. Ninguém tinha ido a cidade. Ninguém tinha contado ao delegado. O homem andou até perto do buraco, olhou pouco, perguntou muito e foi embora antes do almoço.

No terceiro dia vieram os camiões e aqui a história deixa de ser apenas causo. Os relatos dizem que eram dois camiões militares com lona atrás e um gip. Homens armados ficaram perto da casa. Outros levaram equipamento até ao buraco. Um oficial falou com Anselmo pelo nome completo. Isto é pequeno, mas gente de quinta guarda pequeno detalhe.

Nome completo é coisa de notário, dívida ou polícia. Não é coisa que um estranho deveria saber ao descer de um camião no meio do nada. O oficial disse que a área estava interdita por risco. Anselmo perguntou: “Risco de quê?” O oficial respondeu: “Risco para o senhor”. É uma resposta bonita, porque parece cuidado, mas também parece ameaça.

O governo gosta destas frases que usam calçado dos dois pés. Os soldados desceram em grupos, levaram cordas mais grossas, candeeiros diferentes, uma caixa metálica e ferramentas. Ficaram lá em baixo durante horas. A família ouviu batidas, vozes abafadas e uma vez um som grave que fazia os cavalos afastarem-se da cerca. Não foi explosão, foi como um trovão preso no chão.

Ao fim da tarde começaram a subir as caixas. Eram caixas de madeira compridas, pesadas, transportadas por dois ou quatro homens, todos cobertos com lona. Azira disse anos mais tarde que uma das lonas escorregou e ela viu uma peça cinzento. lisa, com uma curva perfeita, como se tivesse sido arrancada de algo maior. Ela disse que não parecia pedra.

Pedra partida deixa ponta, deixa grão, deixa pó. Aquilo parecia ter sido cortado de um material que não queria quebrar. Esta frase atravessou a família, não queria quebrar. Depois das caixas veio o cimento. Os soldados montaram uma armação com ferro. Não fecharam como quem tapa buracos de gado. Fecharam como quem não quer que ninguém, nem por teimosia, nem por acidente, volte a entrar.

A entrada foi coberta com um betão grosso. Por cima, atiraram pedra e terra. Por fim, mandaram Anselmo assinar um papel. Anselmo lia pouco. Assinou porque tinha homens fardados dentro da casa e filhos a olhar da porta. O oficial disse que a gruta era instável e que qualquer tentativa de A abertura seria considerada desobediência.

Em 1943, no meio do interior, a desobediência ao exército não era debate jurídico. Era algo que o sujeito evitava se gostasse da própria rotina. Quando os camiões foram embora, levaram as caixas, o candeeiro de Anselmo, a corda utilizada na descida e a vaca. Oficialmente, a vaca ficou perdida no desabamento.

Na prática, ninguém viu o animal sair. Ninguém ouviu mais nada vindo do buraco e ninguém teve coragem de perguntar. A explicação mais comum para este tipo de história é simples. Era uma gruta perigosa e isso faz sentido. Cavernas podem matar, podem ruir, podem ter gás, podem ter falta de ar, podem ter bicho, poço, água escondida, pedra solta.

Se alguém disser que um buraco no pasto é perigoso, essa pessoa provavelmente está certa. O problema é que o perigo não explica tudo. Perigo não explica camião em três dias. Perigo não explica caixa pesada. Perigo não explica parede morna. Perigo não explica o papel assinado. E o perigo não explica por nos anos seguintes, quando alguém da família mencionava a gruta na cidade, aparecia sempre um conselho rápido para não tocar no assunto.

O Mato Grosso de 1943 não estava isolado do mundo. Havia guerra acontecendo. O Brasil estava envolvido na Segunda Guerra. O exército prestava atenção em estrada, fronteira, minério, rádio, pista de aterragem, qualquer coisa que pudesse ter valor. Isso não prova nada sobre a gruta, mas mostra uma coisa. Em 1943, segredo militar não era absurdo, era rotina.

Se a gruta tivesse minério raro, seria encerrada. Se tivesse gás perigoso, poderia ser encerrada. Se tivesse artefacto antigo, talvez fosse estudada. Se houvesse algo que ninguém queria explicar ao agricultor, então seria selada exatamente como foi. A questão é: qual destas opções exige retirar as caixas cobertas antes do cimento? O que eram aquelas paredes? Uns dizem que Anselmo encontrou uma formação natural rara.

Existem rochas lisas, existem minerais escuros, existem grutas com paredes polidas pela água. Existem locais em que o chão fica nivelado por sedimento. Sim, tudo isto existe. A natureza não tem de pedir permissão para parecer artificial, mas formação natural não costuma ter calor próprio. Não costuma formar corredores rectos com aberturas laterais iguais.

Não costuma apagar Lampião apenas num trecho e, principalmente, não costuma atrair uma operação militar rápida para uma quinta sem telefone. Há também quem fale em base secreta. Esta explicação é popular porque parece inteligente e preguiçosa ao mesmo tempo. Se ninguém sabe o que é, diga base secreta e vá dormir.

O problema é que em 1943, construir uma estrutura daquele tipo debaixo de uma quinta, sem estrada decente, sem deixar rasto, seria quase tão estranho como encontrar uma estrutura desconhecida já pronta. A hipótese que a família de Anselmo repetia era mais simples e mais assustadora. A gruta natural não era descoberta, era a entrada acidental para outra coisa.

Isto explica porque a passagem começava depois da câmara. Explica porque é que a abertura parecia cortada. Explica porque é que os soldados foram diretos ao assunto. Explica porque retiraram peças. e explica porque selaram a entrada com demasiada força para uma simples proteção rural, mas não explica como sabiam.

Talvez o homem de roupa clara tenha avisado. Talvez já existissem mapas. Talvez a região fosse observada por causa do minério. Talvez alguém na cidade tenha escutado a história antes da família se aperceber. Talvez a chegada em três dias tenha sido exagero da memória. Toda a história oral transporta poeira.

Quem procura a verdade em relato antigo precisa de aceitar que parte do chão range, mas o pó não transforma uma parede de pedra em parede morna. Um agricultor perde uma vaca, desce para procurar, encontra uma passagem reta dentro de uma gruta, toca numa parede que não é pedra e sente calor. Ouve um som baixo, volta sem o animal.

Três dias depois, o exército aparece, retira caixas, sela o buraco e manda a família esquecer. Esta sequência é simples demais para ter enfeite e estranha demasiado para ser confortável. Talvez. Toda a boa explicação para esta história começa por talvez, e esse é o problema, porque a versão oficial, quando existe, devia começar com foi isso, não com talvez.

O Mato Grosso é grande o bastante para isso. Grande o suficiente para uma vaca cair e se tornar segredo. Grande o suficiente para camiões chegarem e irem embora sem se virarem manchete. Grande o suficiente para uma família guardar uma frase durante 80 anos. Grande o suficiente para uma parede que não era de pedra continuar às escuras, morna, lisa, silenciosa, à espera que a água encontre outro caminho.

Anselmo Ferreira entrou no terreno em 1943 como lavrador. Saiu como testemunha de algo que não sabia nomear. O exército veio três dias depois e fez o que os governos fazem quando encontram uma pergunta perigosa no sítio errado. Colocou cimento por cima, mas cimento não responde a perguntas só a dia. Mas se no fundo da câmara existir uma abertura com bordas retas e depois dela um corredor seco, plano, cinzento, sem emenda, com paredes quentes, onde nenhuma parede deveria estar morno, então a história de Anselmo não terminou em 1943.

Ela só foi selada. Inscreva-se se quiser mais investigações como esta.