“A RAIVA DELA É QUE A ESMOLA DELA FOI FEITA PELO MEU PIX!”: O covarde ataque com ácido que desfigurou Gilmara a mando da atual do seu ex-marido e a luta pela sobrevivência que chocou Salvador

A inabilidade do ser humano em lidar com a rejeição, o progresso alheio e as próprias frustrações afetivas transformou a vida de Gilmara, uma mulher de 34 anos, moradora do bairro de Pirajá, em Salvador, Bahia, em um verdadeiro cenário de horror e provação extrema. O que era para ser o início de uma nova fase de independência e superação pessoal após o término de um relacionamento abusivo de 18 anos converteu-se em um atentado hediondo com substância corrosiva, planejado de forma fria e executado sob o pretexto de uma vaidade doentia e de uma rivalidade feminina alimentada de forma criminosa.
Gilmara foi vítima de um ataque com ácido lançado diretamente contra o seu rosto e corpo, sofrendo queimaduras severas de segundo e terceiro graus que destruíram suas feições e a colocaram em coma, travando uma batalha desesperada pela vida na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral do Estado (HGE).
O crime, que chocou a comunidade soteropolitana pela crueldade dos detalhes, expõe as feridas abertas da violência de gênero e a conivência familiar no submundo da criminalidade, onde uma gravidez foi utilizada de maneira sórdida como escudo para tentar garantir a impunidade perante as leis do país.
O Histórico de Abuso e a Sombra do Narcisismo
A trajetória que culminou na tragédia de Gilmara começou muito antes do dia do atentado, enraizada em uma relação de convivência que se iniciou na adolescência, quando ela tinha apenas 14 anos e seu ex-companheiro, 19. O que começou como um namoro juvenil transformou-se, ao longo de quase duas décadas, em um cárcere emocional marcado por infidelidades contínuas, agressões físicas e humilhações psicológicas sistemáticas.
Gilmara interrompeu seus estudos aos 16 anos, no segundo ano do ensino secundário, quando engravidou do primeiro filho do casal, hoje com 17 anos. Mais tarde, tiveram uma menina, atualmente com 7 anos. Com o passar do tempo, as agressões físicas tornaram-se uma rotina violenta, levando a vítima a prestar queixas na Delegacia da Mulher baseadas na Lei Maria da Penha.
Contudo, sem o devido amparo institucional que existe nos dias de hoje e pressionada pela dependência financeira e pela necessidade de manter a estrutura familiar para os filhos, Gilmara perdoou os atos de violência e continuou arrastando o relacionamento. O ex-marido demonstrava traços clássicos de um agressor narcisista, minando a autoestima da companheira enquanto mantinha uma postura controladora dentro de casa.
O ponto de ruptura definitivo ocorreu quando o homem iniciou um relacionamento extraconjugal com a mulher que viria a cometer o crime. Longe de manter a discrição que caracteriza a infidelidade comum, a amante passou a travar uma campanha de terror psicológico contra a esposa legítima. Ela enviava de forma recorrente vídeos íntimos do casal na própria cama de Gilmara, mudava de número telefônico para driblar os bloqueios e criava perfis falsos nas redes sociais para enviar mensagens provocativas e humilhantes.
A agressora mandava o homem ligar para Gilmara de dentro de sua residência para provar que ele estava lá, invertendo os papéis e agindo como se a esposa fosse a intrusa na relação. Exausta da humilhação pública e preocupada com a saúde mental dos filhos que já testemunhavam o colapso da mãe, Gilmara tomou a decisão de se libertar daquele inferno. Ela retirou seus pertences da residência alugada e entregou a chave, decretando o fim do vínculo. “Homem não é troféu”, pensou, decidindo focar exclusivamente em sua reconstrução pessoal.
A Reviravolta de Gilmara e o Hiperfoco da Inveja
Ao contrário do que o ex-marido e a amante esperavam, Gilmara não se afundou em uma depressão crônica ou no isolamento. Determinada a recuperar os anos perdidos, ela voltou a estudar através do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), conquistou seu diploma de formação secundária e ingressou em cursos técnicos do SENAI, especializando-se em instalação e reparação de redes de computadores, além de realizar cursos na área de estética e maquiagem.
Para sustentar a casa e a filha menor, Gilmara trabalhava incansavelmente como “sacoleira”, faxineira, cuidadora de idosos e vendia quentinhas produzidas por ela mesma, carregando as bolsas térmicas pesadas nas costas pelas ladeiras de Salvador sob o sol forte. Todo o dinheiro arrecadado era economizado com um único objetivo: finalizar a construção de sua casa própria em Pirajá e mudar-se para São Paulo com as crianças, afastando-se em definitivo de qualquer sombra de perturbação.
Seu esforço foi tão recompensado que ela foi aprovada para um cargo na Secretaria de Educação do Estado e havia realizado os exames admissionais, estando prestes a assinar o contrato de trabalho com direito a plano de saúde e estabilidade. Esse progresso visível e a altivez de Gilmara diante da separação começaram a incomodar profundamente a nova companheira do ex-marido.
Mesmo após conseguir o papel formal de esposa e casar-se na igreja, a agressora continuava obcecada em destruir a paz de Gilmara. Ela chegou a comprar um ponto comercial na mesma rua da residência da vítima apenas para desferir risadas e deboches junto com amigas sempre que Gilmara passava a caminho do trabalho ou da academia.
A obsessão atingiu o ápice quando a agressora descobriu que Gilmara estava reconstruindo sua vida afetiva e financeira. A agressora utilizava mensagens para ostentar que seus móveis eram novos enquanto os de Gilmara eram velhos, mas o desinteresse da vítima em competir pelo ex-marido alimentava um sentimento de frustração doentio na criminosa. O histórico de violência física física entre as duas já havia registrado um capítulo em 2022, quando a agressora abordou Gilmara dentro de um shopping center em Salvador, desferindo agressões físicas que precisaram ser contidas por testemunhas em frente a viaturas policiais.
O Dia do Atentado e a Crueldade Premeditada
No dia 17 de novembro de 2024, a contagem regressiva para a tragédia foi acionada de forma sórdida. O ex-marido de Gilmara passou pela porta de sua residência e avisou que enviaria uma quantia de R$ 150 para ajudar nas despesas da filha caçula. Como não possuíam contato telefônico direto, a transferência via Pix foi realizada através do aparelho celular do filho de 17 anos.
Ao verificar o comprovante da transação bancária, a surpresa foi ultrajante: a transferência havia sido feita em nome da atual esposa do agressor. Minutos depois, a criminosa publicou o comprovante em suas próprias redes sociais com uma legenda carregada de escárnio e deboche: “A raiva dela é que a esmola dela foi feita pelo meu Pix. Kk”.
O filho de Gilmara, revoltado com a humilhação pública direcionada à sua mãe, foi tirar satisfações com o pai na rua. Nesse momento, a agressora, que estava grávida de cinco meses, disparou uma ameaça de morte explícita: “Eu ainda vou matar ela, o filho e a filha!”. Pouco tempo depois, Gilmara saiu de sua residência para devolver um aparelho celular que um amigo havia deixado carregando em sua tomada. Ela estava na ponta de um beco, a poucos metros de sua casa, acompanhada de duas amigas e segurando sua filha de 7 anos pelo colo.
A agressora e sua mãe surgiram de forma repentina na rua. A mãe da criminosa, pilotando uma motocicleta, trazia consigo uma sacola plástica preta contendo uma garrafa de vidro com ácido altamente concentrado. O ataque foi friamente calculado. A agressora desceu do veículo proferindo xingamentos insultuosos, tentando provocar uma reação física de Gilmara para simular uma situação de legítima defesa ou briga de rua generalizada. Mantendo a calma para proteger a filha, Gilmara recuou em direção ao corredor de entrada do estabelecimento de uma vizinha.
A mãe da agressora deu cobertura total ao crime, correndo em direção à vítima e gritando: “Ela não pode bater por causa da barriga, mas eu posso!”. Ao perceber que as duas mulheres avançavam com recipientes na mão, Gilmara arremessou um copo térmico vazio que trazia consigo apenas para tentar criar um distanciamento físico, mas foi encurralada no estreito corredor de ferro.
A agressora projetou o líquido corrosivo diretamente contra o rosto de Gilmara através de uma grade. Uma testemunha gritou desesperada: “É ácido!”, enquanto o produto químico começava a derreter a pele da vítima. Salpicos da substância atingiram as costas e as pernas da criança de 7 anos e o braço da amiga que tentava protegê-la.
Em um ato de puro sadismo e ódio cego, enquanto Gilmara tentava virar de costas para salvar seus olhos, a criminosa despejou o restante do vasilhame sobre o cabelo, o pescoço e as costas da vítima. O ácido corroeu o couro cabeludo de Gilmara de forma instantânea; ao tentar puxar as mechas para aliviar o calor insuportável no pescoço, todo o seu cabelo — que possuía comprimento até a cintura — derreteu e colou em seus dedos.
Logo após consumarem o atentado, as duas agressoras fugiram e trancaram-se em uma residência próxima. A polícia militar chegou ao local rapidamente porque a própria criminosa havia acionado uma viatura minutos antes do ataque, em um plano meticuloso para evitar o linchamento por parte dos moradores revoltados e construir uma narrativa falsa de que ela havia sido a verdadeira vítima da confusão.
O Calvário no Hospital e o Diagnóstico de Morte Iminente
O socorro inicial de Gilmara foi caótico e desesperador. O ex-marido correu ao local ao ouvir os gritos e pegou a moto de um desconhecido que passava na via para levá-la à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima. Gilmara deu entrada no posto médico despida, coberta apenas por uma toalha e com o corpo sofrendo queimaduras severas, enquanto amigas tentavam jogar leite em sua boca para conter os efeitos do ácido que ela havia engolido acidentalmente durante a agressão.
No posto de saúde, o ex-marido realizou uma cena teatral, jogando-se no chão e implorando para que os médicos salvassem a vida de Gilmara. Contudo, devido à gravidade extrema das lesões corrosivas que atingiram camadas profundas dos tecidos, as enfermeiras sinalizaram que o atendimento só poderia ser realizado no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Geral do Estado.
O deslocamento até o hospital geral foi um pesadelo de dor física e exposição. Diante da falta de ambulâncias imediatas, o namorado de uma prima de Gilmara a transportou na garupa de uma motocicleta por quilômetros ao longo de uma rodovia federal de alta velocidade (BR). O vento forte fez com que o lençol de proteção voasse, deixando a vítima exposta ao frio cortante que potencializava a ardência do ácido na derme em carne viva. O piloto precisou conduzir a moto com apenas uma das mãos enquanto segurava a perna de Gilmara com a outra para impedir que ela desmaiasse e caísse na pista durante o trajeto de urgência.
Ao dar entrada no HGE, Gilmara colapsou e perdeu os sentidos em frente ao hospital de traumas devido ao choque neurogênico provocado pela dor excruciante. Ela foi imediatamente entubada e submetida a doses maciças de morfina. O quadro clínico agravou-se drasticamente nas primeiras 48 horas quando a paciente desenvolveu uma grave infecção pulmonar bacteriana decorrente da inalação dos gases tóxicos do ácido, além de apresentar uma suspeita clínica severa de Tromboembolismo Pulmonar (TEP).
A retenção severa de líquidos provocada pelas queimaduras fez com que as veias de Gilmara secassem completamente, impedindo que os médicos encontrassem um acesso periférico viável para injetar o contraste necessário para a realização da angiotomografia computadorizada de tórax. Diante da falência iminente do sistema respiratório, os médicos foram obrigados a induzir o estado de coma profundo para preservar os órgãos vitais da paciente.
O desespero tomou conta dos familiares quando a equipe médica de plantão solicitou a certidão de nascimento original de Gilmara e chamou sua mãe para uma conversa realista nos corredores da UTI. Os médicos foram categóricos em emitir um prognóstico sombrio: dadas as complicações sistêmicas e a falta de resposta biológica aos primeiros antibióticos administrados, Gilmara possuía uma probabilidade estatística de óbito fixada em 57%.
Seu pulmão estava parando de funcionar e o oxigênio programado para durar três dias estava sendo consumido em menos de vinte e quatro horas devido ao colapso respiratório. Os médicos orientaram a mãe a preparar a família e os filhos para o pior cenário, pois as chances de sobrevivência eram mínimas e o corpo de Gilmara encontrava-se totalmente desfigurado, com as mãos e membros quatro vezes maiores do que o tamanho normal devido ao inchaço inflamatório generalizado.
O Milagre da Sobrevivência e as Cartas de Esperança
Enquanto Gilmara permanecia inconsciente na UTI isolada de queimados, uma imensa corrente de fé e solidariedade mobilizou os moradores do bairro de Pirajá. Vizinhos, amigos e fiéis de diversas denominações religiosas organizaram vigílias de oração contínua nas calçadas e campanhas de intercessão pela vida da trabalhadora. E o milagre biológico aconteceu: contrariando as estatísticas médicas desfavoráveis, o organismo de Gilmara apresentou uma virada abrupta e passou a responder de forma positiva ao novo ciclo de antibióticos de espectro ampliado.
O processo de despertar do coma foi marcado por um sofrimento psicológico devastador. Ao abrir os olhos e se deparar com os tubos de intubação na garganta e os braços amarrados à maca por medidas de segurança hospitalar, Gilmara foi tomada por uma sede insuportável e intolerável. Devido aos protocolos pós-extubação, ela foi proibida de ingerir uma única gota de água nas primeiras 24 horas para evitar o risco de broncoaspiração, o que desviaria o líquido diretamente para o pulmão comprometido e causaria morte por asfixia imediata.
O fonoaudiólogo da unidade de terapia intensiva liberou inicialmente apenas pequenas colheres de suco de goiaba espesso e água misturada com um pó espessante, que possuía o aspecto incômodo de gelatina incolor. Em meio ao desespero da restrição hídrica, Gilmara chegou a pedir a Deus que perdoasse seus pecados e levasse sua vida, pois acreditava não ter forças para suportar o calvário.
Mesmo debilitada, tendo perdido mais de 15 quilos de massa muscular e apresentando uma rouquidão severa nas cordas vocais provocada pelo tubo cirúrgico, o único combustível que manteve Gilmara firme foi o amor absoluto por seus filhos. Como a entrada de menores de idade é estritamente proibida na ala de terapia intensiva devido ao alto índice de infecção hospitalar, ela utilizou a ajuda de enfermeiras e de sua prima Sheila para se comunicar com as crianças através de cartas escritas com as mãos trêmulas.
Em pedaços de papel que guarda como relíquias de sobrevivência até os dias de hoje, ela escrevia mensagens repetitivas para confortar o coração do jovem Mateus e da pequena Mirela: “A mamãe vai voltar. Eu prometo que a mamãe vai voltar para cuidar de vocês”. A psicóloga do hospital, tocada pelo quadro de ansiedade extrema da paciente, abriu uma exceção inédita para permitir uma breve chamada de vídeo, o que deu a Gilmara a força psicológica necessária para enfrentar o doloroso tratamento de balneoterapia, onde as peles mortas e os resquícios do produto químico eram raspados diariamente com escovas cirúrgicas sob o efeito de anestesia geral no leito.
O Pós-Hospitalar e o Monstro da Cicatriz Queloide
Após 24 dias de internação contínua, Gilmara recebeu alta médica do HGE, mas o retorno para casa marcou o início de uma caminhada terapêutica significativamente mais dolorosa e dispendiosa. A queimadura química evoluiu para o desenvolvimento de queloides generalizados e extensos — uma disfunção cicatricial crônica onde o corpo produz colágeno em excesso, gerando deformações fibrosas espessas que crescem continuamente de tamanho.
O queloide de Gilmara transformou-se em uma sequela física grave e limitante. O tecido cicatricial colou a pele de seu pescoço diretamente ao ombro esquerdo, atrofiando os movimentos musculares da região superior. Atualmente, ela não consegue virar a cabeça para os lados de forma natural; para olhar para a esquerda ou atravessar uma via pública, precisa rotacionar todo o tronco e suspender o braço em um esforço mecânico doloroso.
A sensibilidade e a mobilidade do dedo médio de sua mão esquerda foram completamente perdidas devido ao encurtamento dos tendões provocado pelas queimaduras das chamas químicas do ácido. O espelho tornou-se um inimigo psicológico cruel. Gilmara, que sempre foi uma mulher vaidosa e ativa, hoje precisa transitar pelas ruas de Salvador com o corpo totalmente coberto por malhas de compressão elástica e tecidos longos, tanto para proteger as feridas abertas dos raios solares quanto para evitar os olhares intrusivos e os julgamentos preconceituosos das pessoas em locais públicos.
O custo financeiro para manter a sobrevivência básica e o tratamento tornou-se insustentável. Gilmara sobrevive exclusivamente com os recursos do programa governamental Bolsa Família no valor de R$ 700 mensais, enquanto aguarda em análise o deferimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) junto ao INSS. Ela necessita de pomadas dermatológicas específicas, fórmulas manipuladas, hidratantes de alto custo e placas de silicone em gel para conter o avanço das cicatrizes que inflamam constantemente, gerando abscessos purulentos no peito que exigem drenagens cirúrgicas frequentes no hospital de clínicas.
Sua mãe contribui comprando cestas básicas de alimentos, e seu tio, residente em Portugal, financiou temporariamente as sessões particulares de fisioterapia domiciliar. Uma doadora anônima da igreja evangélica, sensibilizada pela história transmitida nos telejornais locais, realizou a doação de um aparelho de ar-condicionado para o quarto de telha de Gilmara, uma vez que o calor excessivo da capital baiana provoca crises insuportáveis de coceira e ardência nas cicatrizes hipertróficas durante a madrugada.
A Injustiça dos Tribunais e a Cara do Deboche
No campo jurídico e policial, a indignação de Gilmara e de seus familiares atinge níveis alarmantes perante o funcionamento do sistema de justiça criminal brasileiro. Logo após o crime, a agressora e sua mãe passaram por uma audiência de custódia e receberam o direito de responder ao processo em total liberdade, sob o argumento legal de que a criminosa era ré primária, possuía um filho menor de 9 anos e encontrava-se em estado gestacional avançado.
Para a vítima, a decisão judicial foi um tapa na cara e uma demonstração clara de inversão de valores, visto que a gravidez foi usada deliberadamente como um salvo-conduto planejado para cometer uma tentativa de homicídio cruel sem enfrentar o cárcere imediato. O ex-marido de Gilmara tomou uma postura considerada imperdoável pela família: durante a primeira audiência de instrução do processo, realizada no Fórum Criminal exatamente no dia do aniversário de Gilmara, o homem compareceu ao tribunal na condição de testemunha de defesa da agressora, prestando depoimentos favoráveis à criminosa e contra a mãe de seus próprios filhos.
Frente a frente com o ex-companheiro nos corredores do fórum, Gilmara deparou-se com olhares de ódio e cinismo, enquanto a agressora mantinha uma postura blasé de falsa inocência. Após intensa fustigação do advogado assistente de acusação, que assumiu o caso de forma beneficente após a repercussão midiática na televisão, o Ministério Público acatou o pedido de prisão preventiva das duas mulheres. Elas chegaram a passar dois meses recolhidas no sistema penitenciário feminino, mas foram rapidamente libertadas por meio de recursos de habeas corpus impetrados por seus defensores públicos e hoje aguardam o julgamento definitivo em total liberdade pelas ruas de Salvador.
A audácia da família da agressora estendeu-se para o ambiente virtual das redes sociais. A irmã da criminosa passou a invadir os perfis de divulgação da campanha de solidariedade de Gilmara para desferir ataques difamatórios pesados. Em comentários públicos e postagens de status com deboche explícito, a familiar acusou Gilmara de ser “o próprio Satanás em pessoa” e afirmou falsamente que a vítima perseguia a irmã há seis anos por não aceitar o casamento com o ex-marido. Ela alegou de forma mentirosa que Gilmara já havia jogado ácido no próprio companheiro no passado e proferiu insultos de cunho preconceituoso religioso, afirmando que a magreza da agressora após a prisão era fruto de “pragas espirituais e tambores batidos” por Gilmara.
Com o auxílio de seu corpo jurídico, Gilmara registrou capturas de tela de todas as ofensas e abriu um novo processo cível e criminal por calúnia, injúria e difamação contra a irmã da agressora, exigindo retratação e punição legal em tribunal. “Eu espero que você prove cada mentira que digitou, te encontro diante do juiz”, rebateu Gilmara em suas redes. O ex-marido, que prometeu vender seu estabelecimento comercial e trabalhar dia e noite para custear as fórmulas e os medicamentos da ex-esposa hospitalizada, desapareceu por completo e nunca comprou sequer um comprimido de dipirona para aliviar as dores da mãe de seus filhos.
Atualmente, o jovem Mateus recusa-se a direcionar a palavra ao pai ou chamá-lo por essa alcunha de respeito, assumindo a responsabilidade de realizar pequenos trabalhos informais para ajudar no orçamento doméstico da mãe guerreira. Gilmara continua firme em sua fé em Deus e em sua rotina diária de exercícios de reabilitação motora dentro de seu quarto isolado. Ela optou por transformar sua dor física em um testemunho público de alerta para que outras mulheres identifiquem os sinais vermelhos de relacionamentos abusivos e narcisistas no primeiro sinal de violência.
Ela sabe que o espelho atual não reflete mais a Gilmara do passado, mas reflete uma mulher que venceu uma probabilidade matemática de morte de 57% para continuar viva, exercendo seu papel sagrado de mãe e provando que o caráter, a dignidade e a força de uma verdadeira guerreira nordestina nenhuma quantidade de ácido espalhado pelo ódio é capaz de destruir.