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ANTÔNIO BARBOSA ENTERRADO EM 1988… E EU CONVERSEI COM ELE NO CEMITÉRIO!

Em 1988, conversei com um homem que tinha acabado de ser enterrado. Estou falando de conversar com ele depois da morte. E no final desta conversa, vi-o desaparecer à minha frente, simplesmente desaparecer no ar. O meu nome é Mário Santos, tenho 70 anos, trabalhei 40 anos como coveiro no cemitério municipal de Maringá, aqui no Paraná.

Me aposentei-me em 2022. E hoje vou contar a história de António Barbosa. Mas antes de falar do António, preciso de explicar uma coisa sobre mim. Algo que quase me deixou louco quando eu era criança. Desde os 7 anos de idade que vejo coisas que as outras pessoas não vêem. E quando digo vejo não é aquela coisa de imaginar ou sonhar acordado.

É ver de verdade, com os olhos abertos. tão real quanto vê uma pessoa viva à sua frente. A primeira vez que aconteceu foi uma semana depois do funeral do meu avô. Meu avô materno tinha falecido. Enterramos ele num sábado, velório cheio, a família toda a chorar. Eu era criança, não compreendia muito bem o que era a morte. Só sabia que o meu avô tinha ido embora e não ia voltar.

Na semana seguinte, numa quinta-feira, cheguei da escola a meio da tarde, entrei em casa, joguei a mochila no sofá e fui para a sala. E lá estava ele, o meu avô, sentado na poltrona dele, a mesma poltrona onde sempre sentava-se para ver televisão. Eu congelei, o meu coração quase parou. Ele estava de calças bege e camisa branca, exatamente as roupas que usava sempre.

Ele me olhou e sorriu. Aquele sorriso que ele dava sempre quando chegava da escola. Corri para a cozinha gritando: “Mãe, mãe, o o avô está na sala!” Ela agarrou-me pelos ombros e disse: “Mário, não inventes essas coisas. O seu avô morreu. Ele não está mais aqui. Mas eu tinha visto. Eu tinha visto-o tão claro quanto eu estava ver a minha mãe naquele momento.

Passei toda a noite acordado, com medo e com a luz acesa. A minha mãe levou-me na igreja ao domingo. O padre benzeu a minha cabeça, deitou água benta, rezou um monte de oração. A minha mãe implorava: “Padre, o menino está a ver coisa. Ele está com problema. O padre disse que ia passar, que era coisa de crianças assustadas, mas não passou.

5 anos depois, quando eu tinha 12 anos, voltou a acontecer. E desta vez foi pior. Era um domingo de manhã. A minha mãe pediu-me para buscar pão na padaria. Eu saí de casa, virei-me à esquina e vi uma mulher parada. Ela devia ter uns 40 anos, vestido azul claro, cabelo castanho apanhado no rabo de cavalo.

Ela estava ali parada a olhar para mim, mas o olhar dela era estranho, vazio, perdido, como se não soubesse onde estava. Achei esquisito, mas acenei. Bom dia, minha senhora. Ela não respondeu, não acenou de volta, apenas continuou a olhar para mim. Fiquei com medo e segui para a padaria. Quando regressei com o pão, ela continuava ali, no mesmo lugar e na mesma posição.

Eu passei rápido e Fui logo para casa. Quando cheguei, A minha mãe percebeu que eu estava assustado. O que aconteceu? Ela perguntou. Eu disse que tinha uma mulher estranha na esquina. Ela voltou comigo até à esquina e quando chegámos não não tinha ninguém. A rua estava vazia. Minha mãe ficou zangada. Mário, pára de inventar história.

Você já está grande para essas coisas. Mas eu não estava a inventar. Eu tinha visto a mulher. Anos depois, quando tinha uns 20 anos, conversei com o antigo vizinho que morava na rua desde 1950. Contei da mulher que tinha visto quando criança. Ele ficou pálido. Ele abanou a cabeça. Mário, naquela esquina morreu uma mulher atropelada em 1975.

Foi aí que tive a certeza. Não era imaginação, não era invenção. Eu realmente via os mortos e durante a adolescência inteira isso perseguiu-me. Tinha medo de sair de casa, medo de enlouquecer. Os meus pais levaram-me em médico, em psicólogo, em benzedeira. Nada funcionava, porque não era doença, não tinha cura, fazia parte de mim.

Quando Fiz 18 anos, tomei uma decisão. Se eu ia viver com ele a vida inteira, pelo que não ia fugir, ia aceitar. E mais que isso, ia trabalhar com a morte, ia compreendê-la, ia olhá-la de frente. Entrei como ajudante no cemitério municipal de Maringa em Março de 1978. Tinha 22 anos e nos primeiros meses Achei que tinha sido a pior decisão da a minha vida.

Eu via vultos entre os túmulos, sombras que se moviam sozinhas, vozes baixinhas a chamar nomes. Teve noite que cheguei a casa a tremer, a suar frio, pensando em largar tudo. Mas com o tempo aprendi uma coisa. Aprendi que a maioria dos espíritos não não querem nada comigo. Não me quer assustar, não me quer fazer mal. Eles só estão ali, alguns por pouco tempo, outros durante mais tempo.

Aprendi também que alguns ficam presos, confusos, sem perceber o que lhes aconteceu. Ficam deambulando, procurando algo sem o encontrar. Durante 10 anos, de 1978 a 1988, vi espíritos no cemitério, mas eu nunca fiz nada. Nunca tentei falar com eles, nunca interferi. Fingia que não via, fazia o meu trabalho e ia embora com medo.

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Medo de não saber o que fazer, medo de piorar as coisas. Até que em Setembro de 1988 tudo mudou. Foi quando conheci António Barbosa e foi quando eu finalmente percebi porque tinha esse dom. Era quinta-feira, dia 22 de Setembro de 1988. Eu estava no escritório do cemitério tomando café quando o senhor Raimundo, o administrador, me chamou.

Mário, prepara o setor F14 para amanhã. Enterro às 3 da tarde. Peguei na ordem de serviço e li o nome. António Barbosa, de 52 anos, causa da morte, morte natural. Naquela sexta-feira de manhã, comecei a escavar o túmulo juntamente com o meu ajudante. O dia estava quente, com o sol forte. A gente trabalhava em silêncio, mas quando cheguei a metade da cova, senti aquele frio, aquele frio que eu já conhecia.

Não era frio de vento, não era frio de sombra, era um frio que vinha de dentro, que subia pela espinha, que fazia arrepiar os pelos do braço. Parei de escavar e olhei em redor. Nada, apenas outros túmulos, árvores, céu azul. Mas eu sabia, estava ali alguém. O rapaz apercebeu-se e perguntou-me: “Mário, o que foi?” Abanei a cabeça e disse: “Nada, é só o cansaço”.

Ele aceitou e continuamos a cavar. Mas o frio não foi embora. Ele ficou ali comigo o tempo todo. Terminámos o túmulo por volta do meio-dia. Deixei tudo pronto. Terra do lado, tábuas para cobrir, flores que a família tinha enviado e fui almoçar. Mas não consegui comer em condições. Aquela sensação não me saía.

Eram 3 horas da tarde quando o carro funerário chegou. O caixão era simples, madeira clara, pegas prateadas, sem enfeites, caixão de trabalhador, de gente humilde. Quatro homens de fato desceram-no devagar do carro funerário. Atrás do carro vinha a família a pé. Na frente vinha uma senhora pequena, cabelo grisalho, apanhado num coque apertado, vestido preto simples, daqueles que toda a mulher tem no armário.

Ela vinha apoiada em duas pessoas, um rapaz alto com cerca de 30 anos e uma rapariga grávida de uns 25. Atrás delas, mais gente, muita gente. Eu contei rápido, deviam estar umas 20, 30 pessoas. O padre já estava à espera. Era o padre Augusto. Eu conhecia-o, um homem baixo, gordinho, de óculos redondos e cabelo branco. Eu fiquei afastado.

A gente ficava sempre assim durante a cerimónia. Tenta ser o mais respeitador, aguardando a hora de fechar o túmulo depois de a família ir embora. O padre rezava, a família chorava, tudo normal, tudo como sempre era. Até que aconteceu a primeira coisa. A família tinha colocado uma foto do António em cima do caixão.

Ele de fato cinzento, gravata escura, cabelo penteado pro lado, pequeno sorriso no rosto. A foto estava apoiada numa coroa de flores brancas e vermelhas. Deslizou da coroa de flores e caiu no chão. Todo mundo parou e olhou. devia ser o filho mais velho. Um rapaz alto de cerca de 30 anos se baixou-se e pegou na foto, limpou a poeira com a manga do casaco e colocou de volta na coroa.

O padre continuou a rezar, não deu 2 minutos e a foto voltou a cair. A mesma coisa, deslizou e caiu. O filho de O António pegou de novo, mais nervoso dessa vez. Ele olhou para a foto e para o local onde estava apoiada. Não tinha nada de errado. O local era plano, a foto estava firme, não tinha razão para cair. Ele colocou-o de volta.

Dessa vez segurou com a mão durante alguns segundos. A foto ficou firme. Então ele soltou. Voltou para o lugar dele ao lado da mãe. O padre recomeçou a oração pela terceira vez e a foto caiu pela terceira vez, mas desta vez foi diferente. Não deslizou devagar, voou. Saiu da coroa de flores como se alguém lhe tivesse batido.

Caiu longe, a cerca de 2 metros de distância. As as pessoas começaram a entreolhar-se, sussurros e inquietação. O filho de O António foi buscar a foto de novo, mas desta vez não o colocou de volta. Segurou-o na mão. Eu vi que a mão dele tremia. A viúva apertou o braço da filha. A rapariga grávida estava pálida.

Eu senti o frio aumentar e olhei para o rapaz que estava comigo. Ele também tinha sentido. Eu pensei: “Este enterro não está normal”. O padre, sem jeito, tentou continuar, mas depois começou a segunda coisa estranha. Veio do nada, um vento forte e gelado. As pessoas em redor do túmulo começaram a encolher. Vi mulheres a cruzar os braços, a tremer, homens a colocar as mãos nos bolsos.

A filha grávida do António puxou o casaco para se cobrir. O padre parou no meio da oração e olhou para o céu confuso, porque o céu estava limpo, azul, sem uma nuvem. O sol a bater forte, não fazia sentido aquele vento gelado. O vento durou uns 30 segundos, depois parou subitamente, do da mesma forma que começou.

O silêncio tomou conta. Todo o mundo estava assustado. Ninguém percebia o que estava acontecendo. O padre estava com a voz meio trémula e percebi que ele apressou a bênção final. Parecia que ele queria acabar logo aquilo. E não era só ele. Eu também queria. Mas foi aí que aconteceu uma coisa que me fez pensar que algo estava a prender aquela alma aqui.

Quando o padre terminou e deu a palavra paraa família se despedir, a senhora, que era sua esposa, se aproximou-se do caixão muito lentamente, apoiada na filha de um lado e no filho do outro. Quando ela chegou perto e colocou a mão em cima do caixão, todos acreditando que ela ia chorar, mas ela não chorou. Ficou ali parada, com a mão no caixão, olhos fechados por um minuto inteiro.

Depois ela abriu os olhos e falou baixinho, mas eu ouvi. Todo mundo ouviu. Ela disse: “António, tu pode ir. Eu vou ficar bem. Os meninos vão cuidar de mim. A forma como ela falou não era uma despedida comum, era um pedido, uma súplica, como se ela soubesse que ele ainda estava ali, como se sentisse a sua presença e tivesse implorando-lhe para partir.

Ela abriu os olhos, olhou para o caixão mais uma vez e afastou-se. Era só eu e o outro rapaz para finalizar o serviço. Ficamos ali parados por uns instantes, olhando para o caixão ainda suspenso sobre o túmulo. E nenhum de nós queria começar, mas foi ele que quebrou o silêncio. Mário, vamos logo com isso. Quero terminar e ir embora.

Eu só concordei. Começamos a descer o caixão lentamente com as cordas. O caixão desceu firme, sem problemas. bateu no fundo do túmulo com um baque surdo. O padre fez o sinal da cruz e deu por encerrada a cerimónia. As pessoas começaram a afastar-se lentamente, em silêncio. Vi que alguns olhavam para trás com medo, como quem sente que algo está errado, mas não sabe o que é.

Em 15 minutos, todos tinham ido embora. Tirámos as cordas, pegámos nas tábuas e cobrimos. Depois a terra. Trabalhamos rápido, mais rápido do que o normal, porque nenhum de nós queria ficar ali mais tempo que o necessário. Em 20 minutos, o túmulo estava fechado. Alisamos a terra e colocamos as flores que a família tinha deixado.

Eram quase 5 horas e o sol já a começar a descer. Eu guardei a pá, peguei na minha mochila. O rapaz que estava a ajudar-me já tinha ido embora a correr, nem esperou que eu acabasse. Eu estava ali sozinho. Dei uma última olhada para o túmulo. Estava bonito e bem feito, cheio de flores. Mas aquele frio ainda estava ali, fraco, mas estava.

Eu virei-me para ir embora. Dei uns 10 passos quando algo me fez parar. Uma sensação, uma sensação forte de que eu não estava sozinho. Virei-me devagar. Olhei para o túmulo outra vez e foi aí que vi ele, um homem de pé do lado direito do túmulo, parado ali e olhando paraa lápide que ainda nem sequer tinha sido colocada, apenas estava a placa provisória com o nome.

Vestia calça marrom, camisa xadrez azul e branca, cabelo grisalho penteado para o lado, um homem comum de uns 50 e poucos anos. Meu coração disparou. As minhas mãos começaram a tremer porque o reconheci. Reconheci por causa da foto que tinha caído três vezes durante o enterro. Era António Barbosa. Ele não estava a olhar para mim.

Ele olhava fixo para lápide, para o próprio nome ali escrito. A expressão no seu rosto era de confusão total, como alguém que acorda num lugar estranho e não sabe como chegou ali. Eu Fiquei paralisado. Não conseguia me mexer, não conseguia falar, só conseguia olhar para ele. A minha mente gritava: “Vai-te embora, sai daqui, não te envolvas!” como tinha feito dezenas de vezes em 10 anos de trabalho.

Mas, desta vez, desta vez foi diferente, porque pela primeira vez não vi só o espírito, eu senti a dor dele, a confusão, o desespero silencioso de alguém que não percebe o que aconteceu e alguma coisa dentro de mim partiu-se. Eu não podia fingir que não estava a ver. Não podia ir embora e deixá-lo ali. Não, dessa vez respirei fundo, todo o meu corpo tremendo e o coração a bater tão forte no peito.

Dei então um passo na direção dele. Dei o segundo passo e as minhas pernas quase falharam. Tive de parar, respirar fundo. O meu corpo inteiro gritava para eu me ir embora, correr, fazer que sempre fiz, fingir que não via. Mas algo me segurou ali. Talvez fosse a expressão no rosto dele, aquela confusão, aquele olhar perdido de quem não percebe nada do que está a acontecer.

Era uma dor que sentia só de olhar. Dei mais um passo, depois outro, lentamente, as pernas a tremer, o coração batendo tão forte que ouvia o barulho nos meus ouvidos. Eu cheguei a uns 5 metros dele e parei novamente. Ele continuava a olhar para lápide. Ele não tinha-me visto ainda ou não tinha notou a minha presença.

Eu tentei falar, mas não saiu nada. A minha garganta parecia seca. Fechei os olhos por um segundo e pensei: “Se vais fazer isso, faz logo.” Quando abri os olhos, Consegui falar, só que a voz saiu fraca, trémula. António, ele não se mexeu e continuou a olhar para lápide. Pensei que não tinha ouvido ou que não me podia ouvir, mas depois, devagar, virou a cabeça na minha direção.

E quando os os olhos dele encontraram os meus, senti um choque pelo corpo inteiro, porque não era aquele olhar distante, meio apagado, que estava habituado a ver. Era um olhar vivo, consciente, presente. Ele me olhou durante uns tr segundos. A expressão dele passou de confusão a surpresa, surpresa para a esperança.

E então ele falou. A voz era baixa, meio rouca, mas ouvi perfeitamente. Estás me vendo? O meu estômago virou. Eu estava a falar com um morto. Depois de 10 anos a evitar isso, eu estava a fazer exatamente o que sempre tive medo de fazer. Engoli em seco, forcei a voz a sair. Estou, estou a ver-te, Antônio. Ele deu um passo na minha direção.

Instintivamente Dei um passo atrás. Ele percebeu, parou e levantou as mãos, tipo a pedir desculpa. Não, não vou chegar perto. É que já estou aqui há horas e ninguém vê-me, ninguém me ouve. Você é o primeiro. Fiquei quieto, não sabia o que dizer. A minha cabeça estava a girar. Uma parte de mim queria correr, outra parte, outra parte sentia a pena dele.

Ele continuou, a voz meio desesperada. Agora pode me ajudar? Eu estou perdido. Não sei como vim aqui parar. Não sei onde eu estou. Olhei em redor. O cemitério tava vazio. Ninguém para me ver a falar sozinho. Ninguém para pensar que eu estava louco. Mas mesmo assim o meu coração não parava de bater forte. Respirei fundo.

Tentei manter a voz firme. Você sabe o seu nome? Ele franziu o sobrolho. Claro que sei. António. António Barbosa. Você lembra-se o que estava a fazer? antes de chegar aqui. Pensou por um momento. A confusão no rosto dele aumentou. Eu eu estava em casa, estava a ver televisão, o jornal das seis.

A Irene estava na cozinha, ela estava a fazer café. Eu ouvi o barulho da chaleira a chiar e depois parou. Passou a mão pelo rosto, pela testa, como que tentando forçar a memória. Não me lembro. Não me lembro do que aconteceu depois. Só me lembro que que comecei a sentir uma dor no peito, uma dor muito forte e depois nada. Acordei aqui.

O forma como ele falava era de alguém que realmente não percebia, não estava em negação. Ele simplesmente não sabia o que tinha acontecido. Como eu ia explicar-lhe isso? Como é que eu ia dizer a um homem que ele tinha morrido? O António olhou-me diretamente nos olhos. Onde eu estou? Isto aqui é um cemitério? Eu respondi: Sim.

E o que é que eu estou a fazer num cemitério? Como vim aqui parar? Não Consegui responder na hora. Fiquei olhando para ele, para aquele homem de 52 anos, que não sabia que tinha morrido, que ainda achava que estava vivo, que queria voltar para casa, para esposa, para os filhos. Ele insistiu a voz mais elevada agora. Por favor, fala-me. Eu preciso compreender.

A Irene deve estar preocupada. Saí sem avisar. Ela não sabe onde estou. Fechei os olhos, respirei fundo. Quando o abri de novo, forcei as palavras a sair. António, lembra-se da dor no peito que sentiu? Ele respondeu: Lembro-me. Foi terrível. Pensei que ia desmaiar. Então perguntei: “Desmaiou?” Ele pensou: “Acho que sim.

Tudo ficou escuro e depois depois estava aqui. Eu fiz uma pausa, escolhi as palavras com cuidado. António, aquela dor que sentiu deve ter sido um enfarte. O seu coração provavelmente parou. Ele olhou-me sem entender. Como assim parou? Mas eu estou aqui. Estou a falar com você. Eu sei. Mas ele interrompeu-me. A voz ficando agitada.

Não, não, deve estar confundindo. Eu preciso de ir embora. Preciso de voltar para casa. A Irene, António, escuta. A Irene tá-me esperando. Ele quase gritou. Não era raiva, era desespero. Ele deu dois passos na direção da saída do cemitério, mas parou. Olhou para os próprios pés, para as próprias mãos.

E, pela primeira vez, acho que ele percebeu. Ele levantou as mãos à frente do rosto, olhou para elas, virou-as de um lado para o outro e eu vi o momento exato que ele notou. Uma transparência ligeira, quase imperceptível, mas estava ali. Ele olhou para mim, os olhos arregalados. O quê? O que tá a acontecer comigo? Não respondi, não consegui.

Olhou para o próprio corpo, tocou com a mão no peito, tocou no braço e Percebi que ele estava a sentir algo estranho, ou melhor, não estava a sentir nada. Olhou para mim de novo. Eu não sinto o meu coração a bater e não sinto a minha respiração. Eu eu não estou respirando. A voz dele estava a falhar. Agora o pânico a começar a tomar conta.

Deu mais um passo e caiu de joelhos. Não teve impacto, não houve ruído. Ele só se baixou como se as pernas não funcionassem mais da forma que deviam funcionar. Ficou ali de joelhos a olhar para o chão. E depois olhou para onde ele tava. Percebeu que estava exatamente junto do túmulo, do túmulo que tínhamos acabado de fechar, com a terra ainda fresca e com as flores em cima.

Depois olhou paraa lápide provisória e pro nome ali escrito, António Barbosa, 22 de março de 1936, 20 de setembro de 1988. Leu em voz alta devagar, 22 de março de 1936. Esta é a minha data de nascimento. E continuou a ler. 20 de setembro de 1988. Esta é, esta é ante-ontem. E depois veio um silêncio pesado.

Ele continuava olhando para lápide, sem pestanejar, sem se mexer. Depois virou o rosto para mim devagar e perguntou. A voz quase num sussurro. Ess é o meu túmulo? Não consegui falar. Só consegui balançar a cabeça. Ele olhou para o monte de terra fresca e pras flores e de volta paraa lápide. E depois, finalmente, a ficha caiu. “Morri”, disse.

Não era pergunta, era constatação. Eu morri. A voz dele quebrou. Eu estou morto. Senti as lágrimas a queimarem-me nos olhos. Não por medo, mas por dor. Pela dor que eu vi no rosto dele naquele momento. Ele passou a mão pelo rosto, pelos cabelos, pela nuca, como se ainda não acreditasse, como se esperasse acordar e descobrir que era pesadelo.

Mas não era pesadelo, era real. Ele ficou ali de joelhos por um tempo que pareceu eterno, sem falar, sem se mexer, apenas processando. Eu fiquei de pé a uns 3 met dele à espera, sem saber o que fazer, sem saber o que dizer, até que falou de novo. A voz era agora diferente, mais fraca, mais distante. A Irene, ela sabe? perguntou.

Sabe, ela estava aqui no enterro há poucas horas, respondi. Ele levantou a cabeça e perguntou: “Ela estava aqui?” Estava sim, com os seus filhos, os seus netos, havia muita gente. “Você era muito querido.” respondi eu. Ele abanou a cabeça e disse: “Eu não lembro-me. Não me lembro de nada disto, só lembro-me da dor.

E depois, depois eu Acordei aqui sozinho e sem compreender e ficou de novo em silêncio. Depois perguntou, olhando para mim: “E agora? O que faço agora?” Essa era a pergunta que eu não sabia responder, porque nos 10 anos que eu trabalhava ali, nunca tinha chegado tão longe, nunca tinha conversado com um espírito, nunca tinha ajudado um a perceber o que tinha acontecido.

E agora que eu tinha feito isso, agora que eu tinha quebrado o silêncio, não sabia o próximo passo. Mas olhando para ele, para aquele homem perdido, de joelhos ao lado do próprio túmulo, soube uma coisa. Eu não o podia deixar ali, não podia ir embora e abandoná-lo naquele estado. Eu tinha começado isso e ia ter que terminar.

Fiquei ali parado, a olhar para ele. Não tinha resposta pronta, nunca tinha passado por isto antes. Nos 10 anos que trabalhei no cemitério, sempre fugi dessa situação. E agora que tinha caído nela, não sabia o que fazer. Mas lembrei-me de uma coisa. Era uma coisa que a minha avó sempre disse quando eu era criança.

Ela dizia: “Mário, quem fica aqui preso é porque não aceita. Quem aceita vai embora. Segue o caminho. Respirei fundo, sentei-me no chão, ali mesmo na terra perto dele. António, comecei, a voz ainda trémula. Eu não sei muito bem como funciona. Nunca conversei com um e com alguém como tu antes, mas pelo que eu entendo, precisa aceitar.

Ele olhou para mim, os olhos vermelhos. E como eu aceito uma coisa dessas? Como aceito que morri, que deixei a minha mulher sozinha, os meus filhos, os meus netos. A voz dele quebrou na última palavra. Ele cobriu o rosto com as mãos, como se fosse chorar. Eu senti aquela dor. Era uma dor de quem perdeu tudo de uma hora para a outra. Fiquei ali sem saber o que fazer.

Depois de uns 2, 3 minutos, olhou para mim e disse à Irene e a mim. A gente ia fazer 29 anos de casados ​​em novembro. O O Roberto, o meu filho mais velho, acabou de ter o segundo filho. À Juliana, a minha filha, está grávida. Vai ter bebé em janeiro. A forma como falava era de quem ainda tinha planos, de quem ainda estava a viver a vida.

E de repente, do nada, tudo tinha acabado. Ele olhou para mim. Como é que eu aceito isso? Como que Vou-me embora, sabendo que não vou ver a Juliana ter a filha, que não vou ver o batizado do meu neto, que já não vou dormir ao lado da Irene? Não tive resposta porque não tinha resposta certa para uma questão destas.

Ele continuou, a voz mais desesperada agora. E o pior é que não me despedi. Não falei para Irene que a amava, não abracei os meus filhos, não disse adeus, só só apaguei. Do nada, sem hipótese de me despedir. Senti um nó na garganta, porque compreendia a dor dele. Qualquer um entenderia. Fiquei em silêncio por um tempo.

Depois falei, escolhendo as palavras com cuidado. António, não posso dizer que sei como estás a sentir, porque eu não sei. Mas posso dizer-te uma coisa. Ele me olhou à espera. Continuei. Ficar aqui não o vai trazer de volta. Não te vai dar mais tempo com a sua família. Não vai mudar o que aconteceu. Você morreu. O seu corpo está ali enterrado.

A sua vida aqui acabou. Vi a dor aumentar no rosto dele, mas continuei porque precisava de ser dito: “Mas estar preso aqui também não é viver. Vai ficar vendo a sua família sofrer e não vai poder fazer nada. Vai ver os anos passar, vai ver os seus netos crescerem sem si e vai sofrer sem parar”. Fechou os olhos. Falei mais suave agora. Viveu uma boa vida.

Abriu os olhos, pensou por um momento, depois respondeu: “Vivi, trabalhei honesto, sustentei a minha família, fui um bom marido, um bom pai, fiz o que pude. Então cumpriu o seu papel aqui. Fez o que tinha que fazer e agora? Agora precisa descansar, mas não quero ir.” Ele disse a voz num sussurro.

Eu sei, mas já não tem tempo não para si, não aqui. E se eu não quiser ir? E se eu quiser ficar? Olhei para ele. Então você vai ficar preso. Vai ficar aqui neste cemitério deambulando, sofrendo, vendo o tempo passar sem ti. Isso é o que você quer? Ele não respondeu. Ficou a olhar pro próprio túmulo, paraas flores que já começavam a murchar.

Depois de um longo silêncio, perguntou: “E se eu for? Vai doer?” Não sei, mas acredito que vai ser melhor do que ficar aqui sofrendo e vou voltar a ver a Irene. Um dia, ninguém sabe. Mas se existe algo depois, se existe um local para onde a gente vai, então sim, um dia vão se encontrar de novo. Ele ficou pensando, olhando para o céu que começava a escurecer.

Depois falou tão baixo que quase não ouvi. Está bem, eu vou. Mas antes, antes preciso que faça uma coisa por mim. Pode falar. Ele me olhou. Quando voltar a ver a Irene, da próxima vez que ela me vier visitar, pode dizer-lhe que eu estou bem, que eu entendi, que já não estou perdido. Senti as lágrimas arderem nos os meus olhos.

Asenti, digo, prometo e diz-lhe que eu a amava muito, que os 29 anos com ela foram os melhores da minha vida. Vou falar palavra. Ele respirou fundo ou fez o movimento de respirar, porque espírito não respira de verdade, mas fez o gesto como se tivesse a preparar-se para algo grande. Ficou em silêncio por mais um minuto, depois levantou-se devagar, ficou de pé, olhou uma última vez para o túmulo, pro próprio nome na lápide.

Passou a mão pela lápide, mesmo sem conseguir tocar de verdade. Virou-se para mim, obrigado por conversar comigo, por não ter ido embora, por me ajudar a compreender. De nada, António. Vai em paz. Ele virou-se e começou a andar devagar, um passo de cada vez. E, à medida que ele andava, percebia algo.

Ele estava a mudar, ficando mais claro, mais transparente, como se se tivesse tornado luz. E no décimo passo, mais ou menos, ele já não estava ali. Tinha desaparecido, simplesmente desaparecido no ar. Fiquei ali parado, sozinho no cemitério, a ver o sol acabar de se pôr, o céu ficando laranja, depois roxo, depois escuro. E pela primeira vez em muito tempo, chorei.

Não de medo, não de tristeza, mas de alívio, porque eu tinha ajudado, tinha feito diferença, tinha dado dignidade para a morte de um homem. Duas semanas depois, a dona Irene voltou ao cemitério, trouxe flores novas, ficou ali uns 15 minutos a falar baixinho com o túmulo, da maneira que as viúvas fazem. Quando ela se ia embora, aproximei-me com o coração a bater forte, sem saber como ia falar aquilo. Dona Irene, chamei.

Ela virou. Sim, respirei fundo. A senhora não me conhece. Eu sou o coiro que que enterrou o seu marido. Ela olhou para mim surpresa. Ah, está bem. Eu, eu queria dizer uma coisa à senhora. Sei que vai parecer estranho, mas no dia do funeral, depois de todos irem embora, eu eu senti a presença do senhor António, como se ainda tivesse ali confuso.

Ela ficou quieta a olhar para mim e eu continuei. E ele pediu-me para dizer uma coisa para senhora. Ele disse que amava muito a senhora, que os 29 anos com a senhora foram os melhores da vida dele. Vi os os olhos dela encherem-se de lágrimas. Ela levou a mão à boca e disse que está em paz agora, que entendeu que a senhora não precisa de se preocupar.

Ela ficou-me olhando por uns segundos e falou com o voz trémula: “Obrigada por me dizer isso. Eu senti-o no enterro. Senti que ele estava confuso, estava preso. Por isso eu pedi-lhe para ir. E agora, agora eu sei que ele ouviu. Ela limpou as lágrimas, virou-se e foi-se embora. Nunca mais a vi, nunca mais falei com ela, mas eu tinha cumprido a minha promessa.

Hoje, 38 anos depois, penso muito naquela tarde de Setembro de 1988, na conversa que tive com António Barbosa, no homem que não sabia que tinha morrido. E compreendo agora porque é que eu tenho esse dom. Não é para me assustar, não é para me fazer sofrer, é para ajudar, para dar dignidade, para mostrar o caminho para quem está perdido.

Depois desse dia, ajudei outros espíritos ao longo dos anos. Não foram muitos, talvez cinco, seis no total, mas cada um deles marcou-me, cada um ensinou-me algo. E o que o António me ensinou foi isso. A a morte não tem de ser só dor e medo. Às vezes, com um pouco de ajuda, ela pode ser uma passagem tranquila, uma despedida em paz.

Que Deus abençoe a alma do António Barbosa e de todos os que partiram sem compreender, porque todos merece partir com dignidade. E às vezes tudo o que um espírito precisa é de alguém que explique. Está tudo bem, pode ir. Se chegou até aqui, deixe um descansa paz para o António e para as próximas almas que ainda vamos ajudar. M.