As mãos trémulas de José Ribamar seguravam uma chávena de café que já arrefecera há muito tempo. Aos 72 anos, o homem que um dia foi conhecido como chapa nas estradas do Nordeste carregava um segredo que lhe corroía a alma há quatro décadas. Sentado na varanda do a sua casa simples em Feira de Santana, decidira finalmente falar.
Preciso de contar a verdade sobre o Sebastião Ferreira”, disse com a voz embargada. Aquele homem não era um bandido. Ele morreu tentando salvar a carga e limpar o meu nome. O repórter ajustou o gravador enquanto Ribamar respirava fundo, os olhos perdidos na BR16 que cortava a cidade ao longe. mesma rodovia, onde há precisamente 30 anos o seu patrão e amigo Sebastião desaparecera juntamente com o Mercedes Benz 1113 carregado de aparelhos de televisão importados.
“O Sebastião era o melhor motorista que já conheci”, continuou chapa. Conduzia aquele camião azul como se fizesse parte dele e eu fosse seu ajudante há 5 anos. confiava em mim como num irmão. Ribamar fez uma pausa, limpando os olhos com as costas da mão. Mas no dia 15 de março de 1984, cometi o maior erro da minha vida. Um erro que custou a vida ao meu patrão e transformou-me num covarde.
A brisa da tarde balançava as folhas do cajoeiro no quintal e o som longínquo dos camiões na auto-estrada parecia ecoar as memórias que estava prestes a revelar. Vocês querem saber onde está o camião do Sebastião? Eu sei exatamente onde ele foi jogado. A história começara três meses antes, em dezembro de 1983. Sebastião Ferreira era proprietário de uma pequena transportadora em Vitória da Conquista, interior da Bahia.
Aos 41 anos, era pai de dois filhos e marido dedicado de Maria das Dores, uma mulher forte que ajudava nos negócios da família. Sebastião tinha comprado o seu primeiro camião, um Mercedes-Benz, modelo de 1979, depois de anos a trabalhar como motorista assalariado. Era o seu orgulho e a sua fonte de sustento. José Ribamar, então com 32 anos, era seu ajudante de confiança.
Solteiro, sem família, vivia praticamente dentro do camião, acompanhando Sebastião nas longas viagens entre o interior da Baía e as grandes capitais do Sudeste. Sebastião tratava-me como um filho”, lembrou Ribamar. “Deu-me casa, comida, ensinou-me a ler direito. Eu faria qualquer coisa por aquele homem.” Em dezembro de 1983, a transportadora de Sebastião conseguiu um contrato valioso com uma empresa de São Paulo.
Transportar televisores importados da zona franca de Manaus para distribuidores em todo o país. Era a oportunidade que Sebastião esperava para expandir os seus negócios. O primeiro carregamento seria em Janeiro de 1984. E se tudo corresse bem, a parceria seria duradoura. Era uma carga valiosa, explicou Ribamar. Naquela época, a televisão a cores ainda era coisa de ricos.
Um aparelho custava mais do que um automóvel popular. O camião carregado valia mais de 500 milhões de cruzeiros. O valor convertido para hoje representaria mais de 2 milhões de reais em mercadorias. O problema era que Sebastião não tinha experiência com cargas de elevado valor. A sua transportadora sempre tinha trabalhado com produtos básicos, alimentos, materiais de construção, carga geral.
não conhecia os riscos das quadrilhas especializadas no roubo de cargas valiosas que já começavam a atuar nas principais rodovias do país. Mas havia alguém que conhecia muito bem estes riscos e essa pessoa aproximou-se de José Ribamar numa tarde de Dezembro, quando estava sozinho no pátio da transportadora a lavar o Mercedes azul.
Foi aí que tudo começou a correr mal”, – disse Ribamar, a voz carregada de remorço. Apareceu um sujeito que se apresentou como Nivaldo. Disse que sabia do nosso novo contrato e que queria fazer uma proposta. Nivaldo era um homem magro por volta dos 30 anos, que falava com sotaque carioca. Vestia bem, usava uma corrente de ouro e conduzia um Chevete vermelho.
Disse que representava uma empresa de segurança que protegia as transportadoras contra roubos de carga. Ele sabia pormenores que não devia saber, lembrou Ribamar. sabia o valor da carga, as datas das viagens, até ao número da apólice do seguro. Isso deixou-me assustado. A proposta de Nivaldo era simples. Por 10% do valor de cada carga transportada, a sua empresa garanti que as viagens decorressem sem problemas.
Era uma extorção disfarçada, reconheceu Ribamar. Mas na altura não entendi direito. Pensei que era proteção de verdade. O que Ribamar não sabia é que Nivaldo não trabalhava para nenhuma empresa de segurança. Era o líder de uma quadrilha especializada no roubo de cargas que operava na BR116 entre Salvador e Vitória da Conquista.
A quadrilha tinha informadores em empresas transportadoras, seguradoras e mesmo na Polícia Rodoviária Federal. Sabiam exatamente quando uma carga valiosa passaria pela auto-estrada. O Nivaldo disse-me que se eu não aceitasse a proposta, não poderia garantir a nossa segurança”, continuou Ribamar. “Que coisas más poderiam acontecer! Fiquei com medo, mas não podia tomar uma decisão sozinho.
Precisava de conversar com Sebastião. Mas Ribamar cometeu o primeiro erro. Não contou a verdade a Sebastião. Com medo de perder o emprego e preocupado em não perturbar os negócios do patrão, decidiu aceitar o acordo com Nivaldo, sem dizer nada. “Pensei que poderia resolver sozinho”, disse, abanando a cabeça. “Que idiota que eu fui”.
O acordo era o seguinte: Ribamar passaria informações sobre as viagens para Nivaldo, incluindo percursos, horários e pontos de paragem. Em troca, receberia 500.000 cruzeiros por viagem, equivalente a cerca de R$ 3.000 hoje, e a garantia de que nada aconteceria aos carregamentos. Nivaldo disse que as informações eram necessárias para que Os seus homens de segurança pudessem acompanhar o camião discretamente.
As primeiras viagens em janeiro e fevereiro de 1984 decorreram normalmente. Sebastião ficou satisfeito com o sucesso do novo contrato e já planeava comprar um segundo camião. E Bamar, por sua vez, guardava secretamente o dinheiro que recebia de Nivaldo, planeando um dia contar tudo a Sebastião e devolver o valor.
Mas em março de 1984, tudo mudou. Nivaldo apareceu novamente no pátio da transportadora, desta vez com uma proposta diferente e muito mais perigosa. Disse que a próxima carga seria especial, recordou Ribamar. Não era só televisores, tinha equipamento eletrónicos importados, gravadores, rádios, coisas que valiam ainda mais.
Disse que seria a última vez que necessitaria da minha ajuda, mas que desta vez seria diferente. A nova proposta assustou o Ribamar. Nivaldo queria que ele colocasse um pequeno dispositivo no sistema elétrico do camião, algo que desativaria o rastreador durante algumas horas. disse que era apenas uma precaução para caso algum concorrente tentasse rastrear a nossa carga, que duraria apenas duas horas e depois voltaria ao normal.
Ribamar tentou recusar, mas Nivaldo foi direto ao ponto. Já está envolvido, chapa. Recebeu o nosso dinheiro por três viagens. Se não colaborar agora, vou ter de dizer ao seu patrão que anda recebendo subornos de quadrilheiros. Era uma armadilha perfeita. Ibamar estava a ser chantageado com a sua própria ingenuidade.
Percebi que tinha caído numa armadilha, disse, mas já era tarde demais. Se contasse ao Sebastião naquele momento, perderia a sua confiança e ainda colocaria a nossa transportadora em risco. Assim, cometeu o segundo erro fatal. aceitou instalar o dispositivo. Na noite de 14 de março de 1984, enquanto Sebastião jantava com o família, Ribamar instalou o pequeno aparelho que Nivaldo fornecera.
Era um dispositivo simples, ligado aos cabos do localizador, que poderiam ser ativado remotamente. Nivaldo havia explicado que seria utilizado apenas em caso de emergência. Na manhã de 15 de março, Sebastião e Ribamar saíram de Vitória da Conquista às 5h30 da manhã em direção a Salvador, onde transportariam a carga especial.
O Mercedes-Benz 1113 azul estava impecável, revisto e abastecido. Sebastião estava animado. Se aquela viagem fosse bem-sucedida, fecharia mais dois contratos similares. Sebastião estava feliz naquela manhã, lembrou Ribamar. Falava dos planos para expandir a transportadora, de como iria dar uma vida melhor à família.
Eu mal conseguia olhar para a cara dele, sabendo da bomba relógio que estava carregando. Em Salvador, no porto, carregaram 25 televisores a cores de 20 polegadas, 15 aparelhos de som e 10 gravadores de cassetes, todos importados. A carga foi acomodada cuidadosamente no caixa do camião e selada com o selo da Receita Federal.
O valor total da mercadoria era de 800 milhões de cruzeiros. uma fortuna para a época. Às 14:30 deixaram o porto de Salvador em direção a São Paulo. Era uma viagem de aproximadamente 100 km que levaria cerca de 18 horas comparadas para o descanso. A primeira paragem seria na Feira de Santana para abastecer e comer algo.
Mas ainda antes de chegarem à Feira de Santana, Ribamar reparou que estavam a ser seguidos. Um Ford F1000 branco com dois ocupantes mantinha distância constante a quase 50 km. Sebastião também percebeu disse o Ribamar. Perguntou se eu conhecia aquele camião. Menti, disse que não. Na verdade, Ribamar reconheceu o veículo.
Era um dos camiões de Nivaldo que tinha visto algumas vezes durante os encontros. O pânico começou a tomar conta dele. Aquilo não era proteção, era uma escolta para um assalto. Em Feira de Santana, pararam num posto da BR116 para abastecer. O F1000 parou alguns metros adiante. Sebastião ficou desconfiado. Esse pessoal está nos seguindo desde Salvador, disse.
Vou falar com eles. Foi quando Ribamar cometeu o terceiro erro. tentou impedir Sebastião de confrontar os homens. Disse que podia ser coincidência, que era melhor não se meter em confusões. O Sebastião olhou-me de forma estranha, como se soubesse que eu estava a esconder alguma coisa. Saíram do posto sem falar com os ocupantes do F1000, que continuou a segui-los pela BR16.
Ao passar por Jequier, já no início da noite, Sebastião ligou o rádio PX para tentar obter informações sobre a situação da estrada mais à frente. Foi quando ouviu uma conversa que o deixou em alerta total. O Canal 19 estava movimentado, recordou Ribamar. Camionistas a falar sobre um assalto que tinha acontecido perto de Vitória da Conquista.
Um Mercedes azul carregado de eletrónicos. Sebastião gelou quando ouviu. A descrição na rádio era exata. Mercedes-Benz 13 azul, placa de vitória da conquista, carregado com televisores. Mas como podiam os assaltantes saber detalhes tão específicos sobre a carga? Sebastião parou o camião no berma e virou-se para Ribamar. Chapa, disse com voz séria.
Tem alguma coisa muito errada aqui. Como esse pessoal sabe exatamente o que estamos carregando? Foi neste momento que Ribamar deveria ter contado toda a verdade. Deveria ter admitido os encontros com Nivaldo, o dinheiro recebido, o dispositivo instalado no rastreador. Talvez ainda houvesse tempo de evitar a tragédia. Mas o medo falou mais alto.
Menti de novo disse Ribamar, a voz quebrada pela emoção. Disse que não sabia de nada, que talvez alguém do porto tivesse passado informação. O Sebastião olhou-me nos olhos durante uns longos segundos, como se pudesse ver a minha alma. Sebastião tomou uma decisão. Sairia da BR16 e seguiria por estradas secundárias até chegar a São Paulo.
Era uma rota mais longa e perigosa, mas poderia despistares os perseguidores. Saíram da auto-estrada principal na altura de poções, seguindo pela BA262, em direção a Brumado. A estrada era estreita e cheia de curvas, serpenteando pelas montanhas da Chapada Diamantina. O F hesitou alguns segundos no cruzamento, mas decidiu segui-los.
Sebastião dirigia concentrado, olhando sempre pelo retrovisor”, disse Ribamar. A cada curva esperava que o camião desaparecesse, mas ele aparecia sempre de novo. Foi quando Sebastião percebeu que não era coincidência. Eram quase 21 horos quando chegaram à região conhecida como Serra da Gibóia, um troço montanhoso entre Brumado e Livramento de Nossa Senhora.
A estrada era especialmente perigosa à noite, com curvas apertadas e precipícios de centenas de metros. Foi neste local que Nivaldo decidiu agir. O F1000 acelerou e começou a fazer sinais luminosos para que o Mercedes parasse. Sebastião, percebendo que era impossível escapar naquelas estradas estreitas, decidiu enfrentar a situação.
Parou numa zona mais larga, perto de uma ponte antiga. Lembrou o Ribamar. Desceu do camião e disse-me: “Fica aqui dentro e não sai por nada. Se alguma coisa correr mal, pega no rádio e chama a polícia. Mas Ribamar sabia que não adiantaria chamar ninguém. O dispositivo que tinha instalado já bloqueava as comunicações.
Eles estavam completamente isolados naquelas montanhas escuras. Do F1000 desceram três homens. Nivaldo era um deles. Os outros dois Ribamar não conhecia, mas viu que estavam armados com revólveres. Sebastião caminhou ao seu encontro, as mãos abertas para mostrar que não estava armado. “Sebastião era corajoso, mas não era violento”, disse Ribamar.
Tentava resolver sempre as coisas na conversa. Aproximou-se do Nivaldo e perguntou o que eles queriam. A resposta foi direta, a carga. Nivaldo disse que sabia exatamente o que o camião transportava e que Sebastião deveria entregar tudo sem resistir. Ninguém se magoaria se ele colaborasse.

Mas Sebastião não era homem de entregar fácil o resultado de meses de trabalho. Aquela carga representava o futuro da família dele”, explicou Ribamar. Era dinheiro para comprar mais camiões, dar estudo aos filhos, melhorar de vida, não ia entregar de graça. A discussão prolongou-se por alguns minutos. Sebastião ofereceu dinheiro do seu bolso, propôs dividir o lucro da venda, tentou negociar, mas Nivaldo estava irredutível, queria toda a a carga.
Foi quando aconteceu algo que mudou completamente a situação. Do alto da serra desceu outro veículo, um camião Scania vermelho sem carroçaria, apenas com o cavalo mecânico. Parou junto ao F1000 e dele desceram mais dois homens. Ribamar reconheceu imediatamente o que aquilo significava. Era o plano deles desde o início.
Percebeu? Não queriam só roubar a carga. queriam levar o baú inteiro do Mercedes e engrenar no Scania. Assim poderiam transportar tudo sem levantar suspeitas. O plano era sofisticado. Com o Scania, poderiam levar o baú do Mercedes para um local seguro, descarregar com calma e depois abandonar o cavalo mecânico de Sebastião em alguma estrada distante.
Sem o baú, pareceria que Sebastião tinha desaparecido intencionalmente com a carga. Sebastião percebeu imediatamente as implicações. Ele gritou que não ia permitir, lembrou Ribamar, que antes morria do que deixarem usar o seu nome numa falcatrua destas. A situação escalou rapidamente. Os homens de Nivaldo tentaram imobilizar Sebastião, mas este resistiu.
Mesmo sendo três contra um, conseguiu derrubar o primeiro e tirar-lhe a arma. Sebastião não era grande, mas era forte e estava desesperado, disse Ribamar. Lutava como um leão para proteger a sua honra e o seu sustento, mas a resistência durou pouco tempo. Um dos homens do Scânia, que tinha ficado mais afastado, disparou um tiro que atingiu Sebastião no ombro.
Ele cambaleou, mas continuou de pé, ainda tentando impedir que levassem a sua carga. Foi então que Ribamar tomou a decisão que o assombraria para o resto da vida. Em vez de sair do camião para ajudar o seu patrão, como deveria ter feito, ficou paralisado pelo medo. “Via tudo pelo retrovisor”, disse, as lágrimas a correrem-lhe livremente.
Via Sebastião a sangrar, lutando sozinho contra cinco homens armados e eu ali dentro, sem coragem para ajudar. O segundo tiro foi no peito. Sebastião caiu de joelhos, mas ainda tentava falar alguma coisa. Nivaldo aproximou-se e disparou o terceiro tiro, desta vez na cabeça. Foi aí que percebi que tinha matado o meu patrão disse o Ribamar.
Minhas informação, a minha cobardia, a minha ganância tinham levado o melhor homem que conhecia à morte. Os assaltantes trabalharam rapidamente, desengataram o baú do Mercedes e ligaram-no ao Escania. Em menos de 30 minutos, toda a carga valiosa tinha desaparecido serra abaixo, rumo a um destino desconhecido. Mas o que fazer com o corpo de Sebastião e o cavalo mecânico do Mercedes? Nivaldo tinha pensado nisso também.
Pegaram o corpo de Sebastião e colocaram-no na cabine do camião. Depois, com a Scânia, empurraram o Mercedes para fora do estrada por um precipício íngreme coberto de vegetação densa. O camião rebolou pela encosta e desapareceu no mato, lembrou Ribamar. Com a chuva e o tempo, logo ficou coberto de terra e plantas. Nunca ninguém encontraria.
Ribamar foi levado pelos assaltantes. Durante o percurso, Nivaldo deixou claro qual seria a sua versão dos factos. Sebastião tinha planeado o próprio assalto, contando com a cumplicidade de seu ajudante. Ambos fugiriam com a carga para o Paraguai, mas Sebastião traiu-o, matou e desapareceu sozinho com o dinheiro.
Era uma versão perfeita, admitiu Ribamar. explicava como os assaltantes sabiam todos os pormenores da carga, justificava O meu desaparecimento temporário e ainda tornava Sebastião o vilão da história. Três dias depois, Ribamar apareceu numa esquadra de Brasília com ferimentos leves e uma história ensaiada. disse que ele e Sebastião tinham sido abordados por assaltantes, que o seu patrão tinha reagido e sido morto, e que ele conseguira fugir durante a confusão.
Mas a sua versão tinha furos. Como tinha chegado a Brasília se o assalto fora na Baía? Por que não procurou ajuda imediatamente? Porque as suas lesões eram tão ligeiras se tinha participado numa luta armada? A investigação policial conduzida pelo O delegado Mário Sérgio Pontes concluiu que Ribamar e Sebastião tinham planeado juntos o roubo da própria carga.
As evidências apontavam para a participação de Sebastião. O rastreador tinha parado de funcionar exatamente no momento da assalto, o que sugeria sabotagem interna. Ibamar foi detido e confessou parcialmente. Admitiu ter colaborado com os assaltantes, prestando informações, mas negou qualquer envolvimento de Sebastião.
Disse que o seu patrão era inocente e tinha morrido tentando defender a carga, mas ninguém acreditou. A versão oficial foi a de que Sebastião Ferreira havia simulado o próprio rapto, matou o seu cúmplice, que sobreviveu por milagre, e desapareceu com 800 milhões de cruzeiros em mercadorias importadas. Ribamar foi condenado a 8 anos de prisão por formação de quadrilha e roubo qualificado.
Sebastião foi incluído na lista de procurados da Polícia Federal como líder da operação. “A família do Sebastião foi destruída”, disse o Ribamar. Voltando ao presente. Maria das Dores teve de vender a casa para pagar advogados. Os filhos cresceram, ouvindo que o pai era um ladrão. A transportadora faliu e tudo por causa da minha cobardia.
Durante os 8 anos que passou na prisão, Ibamar foi várias vezes procurado por investigadores querendo saber o paradeiro de Sebastião Ferreira. Todos acreditavam que ele sabia onde o ex-patrão estava escondido. “Eu sabia”, disse. Sabia exatamente onde estava, mas não estava vivo, escondido em alguma praia do Paraguai, como pensavam.
Estava morto no fundo de um precipício, na serra da gibóia, dentro do seu adorado Mercedes azul. Por que Ribamar não contou a verdade durante todos estes anos? Medo, admitiu Nivaldo disse-me que se eu falasse qualquer coisa diferente da versão combinada, matariam a minha mãe, os meus irmãos, toda a minha família. E eu acreditei porque vi do que eram capazes.
Ribamar saiu da prisão em 1992 com 40 anos, sem família e sem perspectivas. conseguiu alguns empregos como motorista, mas usando sempre nome falso. Não podia usar o seu verdadeiro nome, pois era conhecido como o cúmplice do camionista ladrão de vitória da conquista. Durante os anos 1990 e 2000, acompanhou de longe os esforços da família de Sebastião para limpar o seu nome.
Maria das Dores nunca aceitou que o marido fosse um criminoso. Gastou as suas poupanças contratando detetives particulares, investigadores, advogados. “A Dona Maria era uma guerreira”, disse Ribamar. “Não desistiu nunca”. Dizia que conhecia o marido como ninguém e que ele nunca faria uma coisa daquelas. Em 2010, quando a filha de Sebastião, Ana Paula, formou-se em direito, ela assumiu oficialmente a luta para ilibar o pai.
Entrou com um pedido de revisão do processo, questionou as prova, contratou peritos independentes. Foi Ana Paula quem procurou Ribamar em 2014, 30 anos depois do desaparecimento do seu pai. Ela encontrou-o trabalhando como vigia numa empresa de Feira de Santana, vivendo sozinho numa casa alugada. Ela disse-me uma coisa que mexeu comigo, lembrou Ribamar.
disse que não queria vingar o pai, não me queria prejudicar. Só queria que os netos dela soubessem que o avô era um homem honesto. Foi esta conversa que plantou a semente da confissão. Ribamar, já doente e cansado de carregar o peso da mentira, começou a considerar contar a verdade. Momento decisivo chegou em janeiro de 2015, quando Ana Paula mostrou a Ribamar um documento que mudou tudo, um relatório pericial independente sobre o sistema de rastreamento do Mercedes do seu pai.
O perito tinha descoberto vestígios de um dispositivo que não fazia parte do sistema original”, explicou o Ribamar. Era exatamente o aparelho que eu tinha instalado. Por ordem do Nivaldo, o descoberta confirmava que realmente tinha havido sabotagem interna, mas não necessariamente com a participação de Sebastião.
O dispositivo poderia ter sido instalado por qualquer pessoa com acesso ao camião. A Ana Paula olhou para mim nos olhos e perguntou: “Seu José, o senhor sabe alguma coisa sobre este dispositivo? lembrou Ribamar. Não consegui mentir para ela de novo. Foi quando decidiu contar tudo. A confissão de Ribamar foi gravada em vídeo na presença de advogados e autoridades.
Contou todos os pormenores, os encontros com Nivaldo, o dinheiro recebido, a instalação do dispositivo, o assalto, a morte de Sebastião e o local onde o corpo foi atirado. disse que estava pronto para assumir as consequências. Afirmou que não me importava ir preso de novo, desde que a honra do Sebastião fosse reposta.
Mas localizar o corpo passados 30 anos não seria tarefa fácil. A Serra da Gibóia tinha mudado muito desde 1984. novas estradas, desflorestação, construções. A vegetação tinha crescido e poderia ter cobriu completamente os destroços do camião. Foi necessário contratar uma empresa especializada em buscas e um geólogo para mapear a região.
Usando as descrições de Ribamar e técnicas de Georadar, a equipa conseguiu identificar três locais possíveis onde o Mercedes poderia estar. A primeira escavação foi em abril de 2015. Não encontraram nada para além de rochas e raízes antigas. A segunda em maio revelou apenas destroços de um carro antigo que tinha caído no precipício anos antes.
Foi na terceira tentativa, em junho de 2015, que fizeram a descoberta que chocaria o Brasil. A 40 metros da estrada, numa encosta íngreme coberta durante três décadas de vegetação densa, as máquinas encontraram o que restara do Mercedes-Benz 1113 azul de Sebastião Ferreira. O camião estava praticamente irreconhecível, corroído pela humidade e coberto por toneladas de terra e plantas.
Mas a identificação foi possível através do chassis, que ainda estava parcialmente preservado. Era exatamente o veículo que desaparecera a 15 de março de 1984 e dentro da cabine destruída os restos mortais de Sebastião Ferreira. O laudo do Instituto de Medicina Legal confirmou a causa da morte.
Três disparos de arma de fogo, exatamente como Ribamar tinha descrito, um no ombro, outro no peito e o fatal na cabeça. A descoberta provocou uma reviravolta no caso. A Polícia Federal reabriu a investigação e, com base na confissão de Ribamar e nas novas provas, concluiu que Sebastião Ferreira era inocente de qualquer envolvimento no roubo da própria carga.
Ribamar foi novamente detido, desta vez pelos crimes de homicídio qualificado por motivo fútil, ocultação de cadáver e falso testemunho. Mas a sua colaboração com a justiça foi considerada atenuante e ele foi condenado a apenas 12 anos de prisão, com direito a cumprir a pena em regime semiaberto devido à idade e ao estado de saúde.
Quanto ao Nivaldo e à sua quadrilha nunca foram localizados. O próprio Nivaldo estava provavelmente morto há anos, vítima de ajustes de contas no mundo do crime. “O que me consola”, disse Ribamar, “É que a honra do Sebastião foi restaurada. A Ana Paula conseguiu um certificado de reabilitação póstuma para o pai. O nome dele foi limpo oficialmente.
A família de Sebastião pôde finalmente fazer o funeral que merecia. Seus restos mortais foram sepultados no cemitério da vitória da conquista, com honras devidas a um homem que morreu defendendo a sua honestidade. Sebastião não era nenhum santo, disse Ribamar. Era um homem comum, trabalhador, que queria dar o melhor à família, mas era honesto e morreu porque não aceitou sujar o seu nome por dinheiro.
A história de Sebastião Ferreira tornou-se um marco na luta contra a corrupção nas estradas brasileiras. A sua morte ajudou a criar protocolos mais rígidos para transportadoras que lidam com cargas valiosas e contribuiu para melhorar os sistemas de localização de veículos. Mas para a sua família, a importância vai para além dos aspetos legais ou sociais.
É a certeza de que pai e marido foi vítima, não criminoso. “O meu pai morreu a defender a nossa honra”, disse Ana Paula durante o funeral. Ele sabia que entregar aquela carga significaria tornar-se cúmplice de criminosos. Preferiu morrer a viver com essa vergonha. Maria das Dores, então com 78 anos, pôde finalmente despedir-se do marido.
Sempre soube que ele voltaria para casa”, disse colocando flores sobre o caixão. Demorou 31 anos, mas voltou. Ibamar, que acompanhou o funeral algemado, mas com autorização judicial, pediu perdão publicamente à família.