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CAMINHONEIRO DEU CARONA PARA VIRGEM MARIA E ALGO ACONTECEU EM SUA VIDA DEPOIS…

O meu nome é Roberto Assunção, mas na estrada toda a gente me conhece como Betão do Volante. Tenho 48 anos e 32 deles vivendo entre o roncar do motor e o silêncio da estrada. Conheço cada curva deste Brasilzão como a palma da minha mão calejada. Já rodei tanto que dava para dar duas voltas à terra, o meu irmão.

E olha, muita história tenho para contar, mas esta que vou dividir com vocês agora, esta arrepia-me o pelo do braço, só de me lembrar. Era uma noite abafada, céu carregado. Parecia que ia desabar um toró daqueles. Eu vinha de um frete puxado lá de Dourados, com destino a São João da Barra, carga de grão fechada na correria, daquelas que a as pessoas não podem recusar porque o bolso está vazio e as contas estão a bater na porta.

Estava cansado, com o corpo moído depois de quase 15 horas no batente, mas não o suficiente para ignorar o que vi naquela curva fechada da BR153, a Belém Brasília, altura de Goiás. Uma mulher sozinha no meio do nada, vestida de branco dos pés à cabeça, de vé, meu parceiro, como se tivesse saído de um casamento ou de uma igreja.

Pé descalço no asfalto quente, mão levantada a pedir boleia. Devia ser umas 11 e pouco da noite, escuridão que só quem roda de madrugada conhece. Parecia uma cena de um filme ou uma reza. Misericórdia, pensei para comigo. Mulher sozinha neste fim de mundo vai acabar mal. Reduzzi. Atirei o pisca, encostei no acostamento estreito.

Acendi a luz interna da cabine para ela ver que eu não era nenhum malfeitor. Baixei o vidro e uma brisa estranha, quente e fria, ao mesmo tempo, entrou no camião. Vai para onde, minha senhora? Perguntei meio receoso. Porque naquela estrada à noite não é toda a gente que presta. Ela sorriu, um sorriso calmo, doce, o rosto iluminado apenas pelo farol do meu Scania, mas notava-se que era uma senhora dos seus 40 e pouco ano.

Tinha uma expressão serena que não combinava com com aquela situação. Os olhos dela brilhavam de uma forma que até hoje não sei expli. “Vou com o senhor, até onde o senhor for”, respondeu ela com uma voz mansa que parecia acalmar até o barulho do motor. “Rapaz, não sei explicar o que aconteceu-me naquela hora.

Eu, que sempre fui desconfiado, que já tinha passado por cada perrengue nestas estradas, que sabia que dar boleia hoje em dia é pedir para se complicar. Abri a porta sem pensar duas vezes. Abre essa porta, Roberto. Uma voz dentro de mim dizia, como se fosse natural, como se aquilo acontecesse todos os dias.

Assim, sobe aí, senhora. Mas é uma viagem longa, estás a ver? Ainda tenho umas boa hora de estrada pela frente. O tempo não me preocupa, filho. Ela respondeu, chamando-me filho, como se me conhecesse desde pequeno. Por vezes é no caminho mais longo que encontramos os atalhos da vida. Eu nem percebi bem o que ela quis dizer, mas abanei a cabeça concordando, porque há alturas que a gente só concorda mesmo sem compreender.

Ela subiu para a boleia com uma leveza que parecia não pesar nada. Nem mochila carregava, apenas uma pequena bolsa branca, pendurada no braço. Sentou-se do meu lado, ajeitou o vestido branco comprido, colocou as mão delicada no colo e ficou a olhar em frente como se já conhecesse aquela estrada. “Tá fugindo de alguma coisa, senhora?”, – perguntei enquanto engatava a primeira e voltava para o asfalto.

“Porque este lugar aqui é demasiado perigoso para uma senhora sozinha.” “Não estou a fugir, vou ao encontro.” Ela respondeu enigmática, sem tirar os olhos da estrada escu. E o perigo, meu filho, nem sempre está onde a gente pensa que está. Aquilo deu-me um arrepio na espinha, mas engoli em seco e segui Liguei o rádio para quebrar o silêncio.

Tocava uma moda sertaneja antiga, daquelas que fala de saudade e estrada. Ela começou a cantar olar baixinho, como se conhecesse cada verso. “Vai ser uma longa noite”, pensei comigo, sem imaginar que aquela seria a noite que mudaria a minha vida para sempre. A estrada estendia-se como uma cobra preta à nossa frente. A lua, que antes estava coberta por nuvem, apareceu de repente, grande e redonda, iluminando.

E ali, naquela boleia que já foi a minha casa durante tantos anos, senti algo diferente, como se o mundo lá fora tivesse parado, como se só existisse aquela estrada, aquele camião e aquela mulher misteriosa que acabava de entrar na minha vida. E foi assim, parceiro, que começou a história mais estranha que este velho camionista já viveu.

Ela entrou. Sentei-me mais direito. Um perfume de flor invadiu a cabine. Não era perfume comum, era cheiro de missa, de casa de avó, daqueles que sentimos. E na mesma hora vem recordação de infância, de domingo de manhã, de terço na mão da mãe. Coisa esquisita, já viram? O rádio que antes estava alto, de repente parecia baixo dema como se tivesse vergonha de fazer barulho perto dela.

Eu que sou falador, fiquei meio sem jeito. A mulher tinha um olhar que parecia atravessar a gente. Daqueles que lêem até o que está escondido. Obrigada pela boleia ela falou passado uns 5 minutos em silêncio. Não é qualquer um que para para ajudar nos dias de É senhora. A estrada é perigosa, mas não dava para deixar a senhora ali sozinha numa hora dessas.

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Respondi orgulhoso de ter feito a boa ação do dia. Roberto, o Sr. sempre foi assim, não é? Ajudando os outros mesmo, quando o seu próprio coração está a precisar de ajuda. Travei, gelei dos pés à cabeça. Como é que ela sabia o meu nome? Eu não tinha falado. Tenho certeza. Como? Como a senhora sabe o meu nome? Ela sorriu de novo, um sorriso de mãe.

A estrada fala, meu filho, fala muito. E quem anda por ela tanto tempo como o senhor acaba por deixar marca. Conversava pouco, mas cada palavra pesava uma tonelada. Parecia que ela soltava as frases assim de propósito para se meterem connosco. Falava mansinho, olhando mais para a estrada do que para mim. Eu, nervoso, apertava o volante com força.

Já tinha apanhado muito caroneiro esquisito nesta vida, mas aquela mulher, aquela era diferente. Perguntou-me se eu acreditava em sinal. Disse que sim, que camionista é um bicho supersticioso. Comentei do santo que carregava no painel, da fita do Senhor do Bom Fim, amarrada no retrovisor, da oração de S. Cristóvão colada ao quebra-sol. Ela apenas abanou a cabeça como se dissesse: “Não é disso que estou a falar”.

Falo dos sinais que a vida dá, Roberto, o senhor os percebe ou só segue rodando sem prestar atenção ao que acontece à volta? Aquilo apanhou-me de jeito, porque para dizer a verdade a as pessoas vivem no automático mesmo. Pega frete, entrega carga, dorme, come, segue viagem, repete tudo de novo no outro dia.

É uma vida que vai engolindo a pessoas sem que nos apercebamos. A senhora fala deuns negócios difíceis de compreender?”, comentei desconversando. Disse que a estrada sabia mais sobre mim do que a minha própria família. Ela riu baixinho. “É porque a estrada te vê todos os dias? A tua família só te vê de vez em quando, não é? Quando há tempo para passar em casa.” Aquilo doeu.

Doeu porque era verdade. Três, quatro dias por mês em casa. Quando muito, o meu filho mais novo já nem me reconhecia de a mulher, coitada aguentou o quanto lhe há um vazio aí dentro que nenhum volante preenche. Engoli como ela sabia de o buraco que trazia no peito, escondido debaixo de muita conversa fiada, de muita gargalhada forçada nos postos de abastecimento de combustível, de muito cafezinho com os colegas para disfarçar a solidão, o camião a engolir o asfalto e eu quieto a pensar.

Ela parecia esperar como se soubesse que uma hora ia abrir o jogo. E abri mesmo, porque tem hora que precisamos de falar, nem que seja para uma estranha numa estrada perdida. Comecei por falar do meu filho que não vejo há anos, o Juninho que hoje já deve ter uns 15 anos, mas que na a minha cabeça ainda é aquele miúdo de oito que gostava de brincar com camiãozinho de plástico.

Falei da última vez que o vi a prometer que voltava logo, que ia trazer um presente. E como demorei dois meses a conseguir voltar por causa de um frete que emendou no outro. Contei da Ana, a mulher que me deixou por causa dessa vida. Não aguento mais dormir sozinha”, disse no bilhete. Não aguento mais explicar ao menino porque o pai nunca está nos aniversários dele e foi-se embora para casa da mãe em Joinville, levando o miúdo junto.

Tentei ir atrás, mas o tempo, esse danado, nunca sob. Sempre um melhor frete, uma carga urgente, um patrão ameaçando cortar se não aceitar. Falei das noites a dormir no banco com saudade de uma da solidão que é tomar café sozinho num posto de beira de estrada, vendo os outros camionista falando com a família ao telemóvel, mostrando o miúdo, a mulher, enquanto eu só tinha a rádio e as estrelas como companhia.

Esta vida come-nos por dentro, dona. A gente acha que está construindo alguma coisa, mas quando vai ver, só construiu estrada. E estrada não tem um fim. Só tem mais curva, mais buraco, mais portagem. E ela ouvia como se fosse a minha mãe, sem julgar, sem dizer que eu devia ter feito diferente, sem dar conselhos fáceis, tipo, deixa essa vida.

Só ouvia com aqueles olhos que pareciam guardar o mundo inteiro. De vez em quando, ela fazia uma pequena pergunta, certeira, que me fazia falar ainda mais, como se tivesse a abrir gaveta trancada dentro de mim. E o senhor ainda tem esperança, Roberto? Esta apanhou-me de surpresa.

Esperança? Nunca tinha parado para pensar. A gente na estrada vai viver um dia de cada esperança é artigo de luxo. Acho que sim, minha senhora. Sei lá. Achamos sempre que um dia as coisas vão melhorar, que um dia vou juntar um dinheirinho, comprar o meu próprio camião, fazer o meu horário. Aí, quem sabe se consigo ter uma vida mais normal.

Ela abanou a cabeça devagar, como quem diz, “Percebo”, e ficou em silêncio por uns momentos, enquanto a gente passava por uma pequena cidade, com umas casas simples, todas apagadas aquela hora. “Às vezes, Roberto, nós procura lá à frente o que já está do nosso lado, só que não consegue ver.” Não percebi bem o que ela quis dizer, mas senti um calor estranho no peito, como se ela tivesse acendido um fósforo num quarto escuro.

A noite seguia, a estrada também, e aquela mulher misteriosa ia-me desvendando como se tivesse a ler um livro aberto. Quando cheguei ao posto de paragem perto de Tumbiara, o meu estômago estava ronc era quase 2as da madrugada. Eu precisava esticar as pernas, encher o depósito e pôr algo na barriga também. O posto era daqueles grande, 24 hora, cheio de camião parado, luz forte e churrasco a rolar na churrasqueira de tambor.

Reduzzi, dei seta e entrei lentamente no pátio de terra. Bati. Vamos parar um pouco aqui, minha senhora. Preciso de abastecer e comer alguma. Foi aí que ela me olhou de um modo diferente. Parecia assustada, coisa que não tinha visto nela até agora. Roberto, por favor, não pare aqui. Mas porquê, dona? É um bom posto.

Conheço o pessoal. A comida é limpa. Ela abanou a cabeça firme, olhando para o redor como se tivesse à procura de algo ou alguém. “Este lugar não é bom para mim. Sinto aqui uma escuridão.” Encontrei esquisito. O posto era o mais iluminado da região, cheio de gente. Escuridão, dona, está mais claro que um dia de sol.

Nem toda a escuridão se vê com os olhos Roberto. Aquilo deu-me um arrepio na espinha. Olhei melhor para o Tinha uns camionistas sentado em roda, bebendo, jogando ao truco. Uns outros a conversar com umas mulher de calções demasiado curtos para o frio que estava. Na entrada do restaurante, uns cara de cara fechada a fumar e a olhar para todo mundo que passava. Foi aí que reparei numa coisa.

Era o único posto num raio de cerca de 50 km que não tinha uma capelinha de beira de estrada, nem uma imagem de santo na entrada. Todo o posto de estrada tem, certo? Mas aquele ali nada, nem uma fitinha do bom fim. A senhora tem medo de alguma coisa aqui? Ela pediu-me para não descer.

Disse que sentia que ali não era lugar para ela. Fiquei inquieto. Pela primeira vez pensei que talvez não devesse ter dado boleia. Vai que a mulher era fugitiva ou estava metida em alguma encrenca. A senhora tem nome? Perguntei tentando quebrar o clima pesado que tinha-se formado. Ela respondeu sem olhar para mim. A Maria Ali deu-me um calafrio, porque a mulher parecia saída de um altar, a expressão no rosto dela, a pele que parecia brilhar mesmo na escuridão da cabine, uma serenidade no olhar que fazia-nos esquecer do mundo.

E agora o nome Maria, como a mãe de Jesus, como minha própria mãe, que Deus a tenha. Eu que não sou de recuar, fiz marcha-atrás. Tirei o Scania dali sem sequer abastecer. Tudo bem, dona a gente segue mais um. Tem outro posto, a cerca de 30 km para Ela sorri. Obrigada. O senhor sabe ouvir. Isso é raro.

Voltei à estrada, agora mais vazia do que antes. A lua tinha desaparecido atrás de umas nuvens carregadas e o escuro parecia mais escuro. Liguei o farol alto que varria o asfalto e mostrava um mato alto nas bermas da pista. Essa estrada é sua amiga, não é, Roberto? Tantos anos juntos, ela deve conhecer todos os seus segredos. Achei engraçado ela falar da estrada como se fosse gente.

É, dona Maria, a pessoas têm uma relação, eu e esta faixa de asfalto, mas não sei se é bem amizade. Às vezes parece mais briga. Ela ri. Um riso leve, como sinim. As melhores amizades são mesmo assim. Tem dias difíceis. O silêncio voltou, mas não era um silêncio pesado. Era como se a gente não precisava mesmo de falar o tempo.

O motor roncava firme, engolindo o quilómetro. A noite ia passando. Passados ​​uns 40 minutos, avistei outro posto, mais pequeno, mais simples, mas com uma capelinha de São Cristóvão mesmo na entrada. Senti que ali era melhor lugar. Vamos parar aqui, dona? Preciso mesmo tomar um café e esticar as pernas. Aqui sim, disse ela, parecendo mais tranco.

Este lugar tem luz verdadeira. Parei o camião num canto mais afastado, onde cabia o meu escania grandão. Quando desliguei o motor, percebi como estava mesmo cansado, os olhos a arder, a coluna a queixar-se depois de tanto tempo sentado. A senhora também quer descer? Comer alguma coisa? Não, obrigada. Prefiro ficar aqui.

Achei estranho de novo. Quem viaja há tanto tempo e não nem sequer quer esticar as pernas. A senhora não tem fome, não? Faz tempo que a gente está na estrada. Eu alimento-me de outras coisas, Roberto. Não se preocupe comigo. Cada vez mais esquisito, mas o cansaço era tanto que não fiquei pensando muito.

Saí da cabine, tranquei a porta e fui até ao restaurante. Comi um prato de feijão com arroz e bife. Tomei um café preto daqueles de coar na hora e voltei para o camião levando uma marmita pequena, caso ela mudasse de ideias. Quando regressei, ela estava exatamente na mesma posição, como se não se tivesse mexido 1 cm.

Só que agora estava a cantar olando baixinho uma música que não conhecia. Parecia coisa de igreja. Trouxe um lanche para a senhora caso queira. O senhor é amável, Roberto, mas não preciso disso. O que tenho para oferecer é algo diferente. Depois que saímos dali, ela abriu aquela bolsinha branca que transportar de dentro. Tirou um vidrinho com um líquido escuro.

É um chá de ervas especiais. Acalma o corpo e alimenta a alma. Olhei desconfiado. Nunca fui de tomar coisa estranha. Que raio de chá é este, minha senhora? É calmante, de funcho e outras ervas que cultivo. Vai ajudar o senhor a seguir viagem mais tranquilo. Não sei por, mas aceitei. Talvez porque estava mesmo precisando de relaxar.

O corpo todo duro de tensão. Talvez porque naquela altura já senti uma confiança estranha naquela mulher. Ela despejou um pouco do líquido na tampa do frasco, uma tampa que mais parecia um copinho, e entregou-mo. Beba devagar, sinta o sabor. Deixe que ele encontre os lugares dentro de si que ali precisam.

E parvo que fui, aceitei. O líquido era doce no início, depois amargo. Desceu quente pela garganta, espalhando um calor agradável pelo corpo. É mesmo bom, minha senhora. Faz tempo que não me sinto tão leve. Ela sorriu guardando o frasco. O senhor merece paz, Roberto. Merece descanso. Já carregou tanto peso nesta vida.

A minha vista começou a ficar meio desfocada. As linhas da estrada começaram a dançar na minha frente. Encostei-me no acostamento com o coração acelerado. Alguma coisa estava muito errada. Dona Maria, que que a senhora pôs nesse chá? A minha língua parecia demasiado pesada. As palavras saíam enrolada.

Descansa, Roberto, apenas descanse. Foi a última coisa que ouvi antes do mundo se apagar. Não sei quanto tempo se passou. Só sei que quando abri os olho, o céu estava a clarear. Um sol fraquinho batia-me na cara. O meu corpo estava deitado no mato, perto da estrada, com o orvalho a molhar a minha roupa.

A cabeça doía como se tivesse levado uma pancada forte, a boca seca que nem deserto, com um sabor amargo que não saía nem a cuspir. O pior nem foi isso. Foi quando me sentei meio zonzo ainda, e olhei para a berma. O camião já não estava. Esfreguei os olhos pensando que estava a sonhar, a, mas não era um sonho. Era o pior pesadelo da minha vida.

O meu Scania, o meu ganhapão tinha desaparecido juntamente com toda a carga de grão que valia uma fortuna. Levantei-me a correr, cambaleando que nem um bêbado. Rodei em redor, olhando para todo o lado. Nada, apenas a estrada vazia e o mato baixo. Algumas marcas de pneus na berma e mais nada. O meu mundo tinha desaparecido. Onde está o meu caminhão? Berrei para a estrada vazia, a voz saindo arranhada da garganta seca. Foi aí que me toquei.

Não tinha apenas perdido o caminho, tinha perdido tudo. Apalpei os bolsos, sem carteira, sem documentos, sem telemóvel, sem dinheiro. Estava que nem um mendigo na berma da estrada. Era um camião novo, liquidado com suor. Não era financiado, não. Tinha poupado se anos, pegando todo o tipo de fretes, dormindo mal, comer pior para juntar a entrada.

Depois, mais 4 anos a pagar prestação. tinha liquidado ele fazia só oito meses. O meu orgulho, a minha vida, o meu futuro e agora tudo virado pó na estrada. Levaram inclusive o que restava da minha fé. Gritei, praguejei, jurei vingança, dei um pontapé no mato, atirei pedra para a estrada, amaldiçoei o dia em que tinha nascido.

Desgraçada, filha da puta berrei, lembrando a tal, a santa do asfalto, a mulher de branco, que me tinha enganado como se eu fosse um bebé de colo, um camionista de 48 anos, rodado, experiente, calejado nas malandragens da vida, caindo num golpe velho. Pior que o golpe em si, foi a humilhação. Como pude ser tão idiota? Como aceitei aquela bebida? Mas não adiantava.

O que ali aconteceu foi mais do que um roubo. Foi uma traição que mexeu com a alma. Porque no fundo, durante algumas horas, acreditei que tinha encontrado alguém que me compreendia, que sabia da minha dor sem eu precisar de explicar, e era tudo fingimento, tudo armado para me roubar. Fiquei sentado à beira da estrada um tempão, até que um automóvel de passageiros parou.

Um senhor de idade e a esposa, com cara de assustado, perguntando se eu estava bem. Roubaram-me o camião, falei a voz embargada. Deram-me um chá com droga e levaram tudo. O senhor, que graças à Deus era boa gente, deu-me uma garrafa d’água, um pacote de bolachas e deixou-me usar o telemóvel dele para ligar para polícia.

Depois deu-me boleia até a cidade mais próxima, onde tinha uma esquadra. Cheguei lá acabado, o olho vermelho, a roupa suja de terra, parecendo um daqueles maloqueiro que pede trocado no farol. O polícia nem queria atender-me direito, achando que eu era vagabundo. Só depois de eu ter insistido muito, que mostrei a carteira da Associação dos Camionista, que por sorte estava num bolso escondido do blusão, é que ele começou a levar-me a sério.

É o terceiro caso este mês, disse o delegado depois de ouvir a minha história. Sempre nesse mesmo fui à polícia, relatei tudo. Mostrei o retrato falado da mulher que pediram-me para descrever. O delegado, um tipo com cerca de 50 anos, barriga de cerveja e olhar cansado, só abanou a cabeça quando viu o desenho pronto.

Este rosto não é o primeiro a aparecer aqui. Só muda o nome Maria, Clara, Luzia, mas sempre a mesma descrição, mesma abordagem, mesmo fim. Uma mulher bonita, de vestido branco, aparentando uns 40 anos, jeito calmo, voz mansa, pedindo boleia sozinha na estrada. “Esta quadrilha tá a agir há meses”, explicou o delegado. “Utilizam sempre a mesma mulher como isco.

Ela dá um tipo de sonífero pro condutor e depois os comparsas aparecem com um camião-guincho, levam o seu veículo e desaparecem.” “E o senhor não faz nada?”, perguntei revoltado. Fazemos o que podemos, mas é uma quadrilha profissional. Quando encontramos os camiões já tão desmontados, a carga vendida e a mulher, essa nunca ninguém pegou. Fiquei sem chão e sem rumo.

Minha carta de condução estava no camião, os meus documentos também. Meu telemóvel com todos os contactos dos clientes, dos amigos, da família distante, tudo perdido. Para completar, a transportadora, a quem prestava serviço, nem quis saber da minha desgraça. Disse que eu ia ter de pagar pela carga perdida. Como? Não sabia.

Era uma dívida que nunca ia conseguir quitar. Até que ponto uns parceiros me acolheu durante uns dias. O Tonio da Baía, um camionista antigo que conheci numa das empresas que trabalhei, deu-me pouso, roupa lavada, comida, emprestou-me uns trocado para fazer documento novo. “Não é a primeira vez que vejo este acontecer, Betão”, disse enquanto a gente tomava uma pinga na varanda da casa dele.

“Esta vida de estrada tem cada emboscada.” Deu-me boleia até um terminal de carga no outro dia. Disse que conhecia o gerente, que talvez arranjar um trabalho de ajudante para mim. Não é muito, mas dá para sobreviver até se ajeitar. Agradeci com o coração apertado, de dono de camião a ajudante de carga, de comandante a servente, mas não tinha escolha.

Precisava de comer, juntar algum dinheiro, recomeçar. Lá fiquei a saber de, pelo menos, outros três motoristas com histórias parecidas. Um deles, o Cléber Mineiro, chamou-me a um canto para contar a sua versão. “Peguei numa tal de clara, toda de branco também”, disse baixinho, como se tivesse medo de ser ouv. Mas comigo foi diferente, Betão.

Quando acordei na berma, o camião ainda lá estava, só que ela tinha desaparecido como fumo, literalmente. Deixou apenas um cheiro de vela e flores no ar. Achei que ele estava a inventar ou que tinha batido a cabeça. Perguntei pela carga se tinham roubado. Estava tudo lá, intacto. Só levaram o meu telemóvel e deixaram uma medalhinha de santo no banco.

Aquilo não fazia sentido. Porquê roubar só de alguns? Porquê deixar o camião de um e levar o de outro? Tem coisa estranha nesta história toda, comentou o Ton quando contei. Parece que cada um está vendo o que quer ver. Talvez tivesse razão. Talvez a pancada na cabeça, a raiva do roubo, nos fizesse misturar fantasia com a realidade.

Mas uma coisa era certa. Aquela mulher de branco tinha destruído a minha e, por mais que eu tentasse compreender, não encontrava explicação que fizesse sentido. Passei uma semana naquela cidade a dormir de favor na casa do Tonho. Ele deixava-me no terminal de carga todos os dias cedinho e eu ficava lá carregando e descarregando o camião dos outros.

Um trabalho pesado que espremendo dava uma miséria, mas era o que tinha. E homem que não tem escolha, agradece até pelo pouco. Com os primeiros trocado que juntei, tirei documento novo. Era demasiado estranho ter que fazer identidade. NIF, carteira de motorista, tudo de novo. Como se eu fosse um recém-nascido na vida, como se o Roberto de antes tivesse morrido junto com o desaparecimento do camião.

No quinto dia de quebradeira, ganhei coragem e fui até a polícia outra vez. Queria saber se tinham novidade, se encontraram o meu Scania. Se apanharam algum bandido. Calma, o seu Roberto, disse o delegado, o mesmo barrigudo de antes. Essas coisas demoram. A gente tem que seguir o procedimento. Percebi logo que ele estava só a enrolar-me, que na verdade não ia fazer nada.

Para a polícia é só mais um camião roubado na estatística. Mais um camionista trouxa que deu boleia paraa pessoa errada. “Quero ver o retrato falado outra vez”, pedi, tentando disfarçar a raiva que me subia pelo gogó. O investigador, um rapaz magro, que parecia ter saído das fraldas ontem, abriu uma pasta e mostrou-me o desenho que tinham feito com base na minha descrição.

Tive de admitir que ficou parecido, os traços delicados, os olhos grande e calmo, o sorrisinho fechado que a Maria tinha. O delegado só abanou a cabeça. Este rosto não é o primeiro a aparecer aqui, só muda o nome. E puxou mais umas cinco ou seis folhas de retrato. Podia jurar que eram a mesma pessoa, só que com pequenas diferença.

O cabelo apanhado ou solto, com vé ou sem, brinco ou colar. Mas o rosto, aqueles olhos, era ela, a minha Maria. O que significa isso? Perguntei, sentindo um frio na barriga. Significa que a sua amiguinha fantasma tá a fazer um estrago nas auto-estradas daqui. Já levou pelo menos oito camião nos últimos três mês.

E porque é que não a prendem? O delegado riu-se. Aquela gargalhada de quem sabe mais do que nós, porque ninguém consegue encontrar. Não tem impressão digital, não tem registo em câmara de segurança, não tem passagem por portagem. É como se ela só existisse nos relatos dos motorista. Saí de lá mais confuso que entrei.

Ou era uma quadrilha muito organizada, com uma mulher parecida, ou havia algo mais esquisito a acontecer, algo que o meu juízo não conseguia explicar. Fiquei sem chão e sem rumo, até que um parceiro me acolheu por uns dias. O Tonho da Baia, como já referi, fez-me deu uma mãozinha quando eu mais precisava. Me deu boleia até um terminal de carga.

Quem sabe se consegue uma boleia até sua cidade ou um bico de ajudante de camionista. Agradeci, mas sabia que voltar para a minha cidade era pior. Lá iam ver-me como fracassado. O camionista que perdeu tudo por causa de uma mulher na estrada. A vergonha doía mais do que a fome. No terminal fui até ao café que estava à entrada.

Juntei uns trocados para tomar um café e comer um pão com manteiga. Era ali que os motoristas reunia-se antes das viagens para trocar uma ideia, saber das condição da estrada, dos bloqueios, das blitz. Sentei-me num canto e fiquei só ouvindo. Foi quando ouvi um papo na mesa do lado. “Vocês já ouviram falar da fantasma do volante?”, perguntou um condutor mais velho.

Barba grisalha e cara marcada de sol. “Que história é essa?”, rio um mais novo, daqueles que pensa que já sabe tudo da vida. Dizem que tem uma mulher de branco a aparecer nas estradas por aí. Pede boleia, desaparece com o camião e mais ninguém vê. O meu coração disparou. Era dela que estavam a falar, da minha Maria.

Resolvi meter-me na conversa. Contei a minha história sem esconder nada. Falei do chá, do desmaio, do roubo. Os gajos ficaram a olhar para mim, uns com cara de pena, outros desconfiado. “Comigo foi diferente”, disse um camionista de Goiânia depois que acabei. Eu não perdi o camião. Ela desapareceu a meio da viagem.

Numa hora estava no banco do pendura, na outra tinha desaparecido. E o camião em movimento. “Estás a brincar”, zombou o jovem. Tô falando a sério. Estive uma semana sem dormir direito. Achei que estava a ficar doido. E ela disse-te alguma coisa antes de desaparecer? Disse que eu devia mudar de vida, que a estrada ia acabar por me matar se eu não parasse.

O café ficou em silêncio, cada um com o seu pensamento, a sua dúvida. Percebi que não era o único atormentado por aquela figura. Lá fiquei conhecendo pelo menos outros três condutores com histórias semelhantes. Um deles chegou a dizer que a mulher tinha desaparecido como fumo, literalmente. Outro jurou que depois de ela desapareceu, encontrou uma medalha de Nossa Senhora no banco.

Um terceiro disse que o camião foi encontrado, mas num lugar completamente diferente, a quilómetro de onde tinha parado. A Maria tornou-se lenda nas rodovias. Todo mundo tinha uma história para contar ou conhecia alguém que viveu algo semelhante. Uns diziam que ela era uma alma penada, mulher de camionista que morreu à espera que o marido voltasse.

Outros que era uma quadrilha profissional de roubo de carg, os mais religiosos, que era provação divina. Um senhor de idade daqueles que já transportou de tudo nesta vida, ficou a olhar-me sério durante a conversa toda. Depois chamou-me num canto. Moço, essa que o senhor apanhou não é uma mulher comum, pois não? Como assim? Perguntei já arrepiado. Ela escolhe.

Uns perde tudo, outros ganha aviso, outros só leva susto. Depende do que a pessoa precisa na vida. Está a dizer que eu precisava de perder o meu camião? perguntei já levantando a voz. Calma, filho. Tô dizendo que às vez. Saí dali mais confuso do que um vitelo desmamado. Não tinha como acreditar em assombração, em mulher fantasma, em coisa sobrenatural.

Aquilo devia ser só conversa de camionista supersticioso, história de estrada daquelas que quanto mais conta, mais aumenta. O que eu sabia, por certo, era que alguém me tinha roubado, tinha drogado, levado o meu camião, a minha carga e a minha dignidade. Mas por que todos tinham história tão diferente? Porque é que uns perdiam tudo e outros não? Se fosse um bando de ladrões comuns, o golpe seria sempre o mesmo.

A não ser que não, não podia ser. Tinha que ter explicação lógica. Naquela noite dormi mal. Sonhei com a Maria, mas no sonho ela não me roubava. só ficava a olhar para mim com aqueles olhos penetrante, dizendo que um dia eu ia compreender. Acordei suado, com o coração a bater, que nem cavalo em disparado.

“Esta mulher não vai sair da minha cabeça nunca”, pensei, olhando para o tecto da sala do Tonho, onde dormia num colchão velho. A Maria tornou-se a minha obsessão, o meu pesadelo, o meu mistério pessoal. Comecei a juntar os cacos. É o que fazemos depois que o tombo é grande, certo? vai apanhando o que sobrou, tentando montar de novo alguma coisa que pareça uma Depois de duas semanas naquela situação, consegui um bico de verdade.

Não era grande coisa, mas era melhor que carregar saco no terminal. Um amigo do Tono, dono de uma transportadora pequena, deu-me hipótese de voltar a conduzir em camião emprestado, carga leve, só para sobreviver. Não era nem de longe o que eu tinha. An. Era um Mercedes velho, a cair aos pedaços, com mais remendo que roupa de mendigo.

O banco magoava as costas, o câmbio era duro, o motor aquecia a toda a hora, mas era um volante nas mãos outra vez. Era estrada debaixo dos pneus. “Você tá com sorte, Betão?”, disse o patrão novo, um senhor baixinho de poucos conseguem voltar depois de perder tudo. Mas a cabeça não esqueci. Por mais que eu tentasse focar-se no trabalho, a imagem daquela mulher sentada no banco regressava toda a hora.

A calma, as palavras, o chá e principalmente a sensação de ter sido feito de palhaço, de ter confiado quando não. Cada boleia que pediam eu negava. Cada vez que vi alguém à beira da estrada acelerava ainda mais. Tinha virado bicho desconf. Não falava com ninguém nos postos, não contava a minha história. Só queria esquecer. Mas não tinha jeito.

A recordação era como pastilha elástica colada no cabelo. Quanto mais tenta tirar, mais enrola. Toda vez que passo naquela curva, os meus olhos. Não sei se por medo ou por saudade, aquela curva da BR153, perto de Itumbiara tornou-se um lugar assombrado para mim. Sempre que passava por ali, o coração disparava, a mão suava ao volante, ficava a olhar cada vulto, cada sombra à beira da estrada.

Que disparate, Betão”, dizia-me mesmo. “Ela não vai estar aí outra vez.” E se tivesse, ia fazer o quê? Parar e perder outro camião. Mas a verdade é que uma parte de mim queria encontrar ela de novo, olhar para aqueles olhos e perguntar: “Porquê? Porquê eu? O que fiz para merecer aquilo?” E foi aí, numa dessas viagens que entendi. Ela não roubou só o meu camião.

Ela levou a minha confiança, a minha paz, a mim deixou-o nu por dentro, mais pobre que mendigo, porque mendigo ainda tem a esperança. Eu já nem isso tinha. Comecei a perceber que o estrago era maior do que imaginava. Não dormia direito, acordando sempre a meio da noite, pensando que estava alguém na cabine comigo.

Não conseguia conversar com os outros camionistas como antes, sempre suspeitando que se estavam a rir da a minha desgraça pelas costas. Não sentia prazer em nada, nem em comer aquela comida de posto que tanto gostava, nem em beber uma cerveja no fim de semana, nem em ligar o rádio e cantar junto.

Tornei-me uma casca vazia de homem, um camião sem carga, um motor a funcionar no automático. Os meses foi passando, três, quatro, cinco, a dor foi diminuindo, mas deixou uma cicatriz grande, daquelas que altera o formato da gente, que nos faz virar outra pessoa. Estás muito fechado, Betão”, comentou o Tono. Numa das poucas noites que encontramo-nos num posto.

“Parece que deixou de acreditar nas pessoa.” “E não é isso mesmo?”, respondi: “Amar, este vida já me ensinou que confiar é disparate. Se assim for, é melhor nem viver. A gente só segue por causa dos outros. Se não tem ninguém em quem confiar, para que levantar-se da Ele tinha razão. No fundo, eu sabia, mas a ferida estava demasiado aberta ainda.

A humilhação de ter sido enganado doía mais do que a perda material. Numa tarde de domingo, estava parado num pequeno posto, esperando a hora de seguir viagem. Sentado na pequeno muro, olhando do movimento, pensando na vida. Do outro lado do pátio, vi uma cena. Um camionista mais velho ajudando uma família que estava com o carro avariado.

Pegou na mangueira, encaixou no radiador, completou a água, depois abriu o capô do próprio camião, pegou numa ferramenta e ajeitou alguma coisa no motor do carro. A família agradecendo, as crianças sorrindo. Fiquei a olhar para aquilo e a pensar: “Antes eu era assim, antes parava para ajudar. Aquela mulher não tinha levado só o meu camião, tinha levado o melhor de mim, a parte que acreditava nas pessoa, que estendia a mão, que via o mundo como um lugar onde ainda tinha bondade. E isso, isso foi o roubo.

Verdade. Um dia, conversando com um frentista num posto em Minas, falei da a minha história. Ele ouviu tudo, abanando a cabeça. Esta Maria te deixou marcado, hein, compadre? Deixou, respondi arrastando a palavra. Mas não pelo que ela fez. É pelo que deixei de ser depois dela frentista, um senhor de cabelo branco deu-me um estalo no ombro.

Sabe qual é o problema? A gente passa tanto tempo a olhar para o retrovisor que se esquece de prestar atenção à estrada em frente. Esta mulher roubou-te o passado. Não a deixes roubar o teu futuro também. Aquilo apanhou-me de jeito. Fiquei a pensar nessa frase por quilómetro e quilómetro. Não a deixa roubar-te o futuro também.

Era isso que eu estava a fazer, deixando-a continuar a roubar-me todo dia, toda hora, cada vez que deixava de ajudar alguém por medo, cada vez que fechava a cara a um estranho, cada vez que eu passava em frente por alguém precisando de socorro, era como se ela estivesse ali roubando-me de novo. Resolvi mudar. Não da noite para o dia, porque grande ferida não fecha assim rápido, mas sim devagar.

Comecei a falar mais nos postos, a conversar com os outros camionistas sobre o tempo, sobre a estrada, sobre futebol, coisa parva, mas que me ia devolvendo pr as pessoas. Parei de olhar cada estranho como se fosse um ladrão. Voltei a dar os bons dias ao frentista, para rapariga da cafetaria, pro segurança do Posto.

Pequenas coisas que nem valoriza, mas que faz parte do que é ser gente. Não voltei a dar boleia, isto não. A lição tinha sido demasiado cara para esquecer tão fácil. Mas deixei de pensar na Maria todos os dias. Deixei de sonhar com ela. Deixei de a procurar em cada curva. Era tempo de seguir viagem. A vida é estrada demasiado comprida para ficar parado na mesma paragem, olhando para o mesmo buraco.

“A estrada não tem fim, Betão”, dizia o meu pai, que também foi camionista. “Mas a viagem é sua. Você decide como quer chegar”. Meses depois do sucedido, estava num ponto mais calmo. Já não sonhava tanto com a Maria. Já conseguia fazer o meu trabalho sem estar o tempo todo a remoer. O camião velho que o patrão me deu para dirigir tinha-se tornado o meu companheiro de estrada.

Não era bonito, não era potente, mas era honesto daqueles que não te deixa ficar mal se cuidar direito dele. Numa dessas viagens a São Paulo, a rádio do camião pifou de vez. Aquele velho que já cheiava mais que tocava resolveu se aposentar. E a estrada sem música é mais comprida. Todo o camionista sabe disso.

Num posto de beira de estrada, viu uma banquinha daquelas que vende de tudo. Lanterna, boné, faca, canivete e radinho de pilhas. Juntei os trocos contado e comprei um radinho velho numa feira, daqueles pequeninos, que podia prender no quebra-sol. Não era grande coisa, mas melhor do que o silêncio ou o barulho do Liguei o aparelho e fui passando as estações.

Música sertaneja, noticiário, publicidade de loja. Até que Parei num canal que tinha uma voz grave daquelas de padre ou pastor. Era uma pregação. Normalmente passava direto. Nunca fui muito de igreja, mas alguma coisa me fez parar e ouvi. O homem falava com uma convicção que prendia a atenção. Meus irmãos dizia a voz no radinho.

Às vezes não entendemos o que Deus permite na nossa vida. as provação, as perdas, os tombo. A gente só vê a dor do momento, a ferida aberta. Aquilo parecia que era diretamente para mim. Aumentei o volume. Por vezes, Deus permite que o mal use disfarces de luz para testar se nos aprendeu a discernir. Esta frase me acertou como um murro no peito.

Disfarces de luz. Não era isso que a Maria tinha feito? Se vestido de branco, falado mansinho, parecendo uma santa, uma enviada? Só para me roubar. O inimigo conhece as nossas fraqueza continuou a voz. Sabe onde estamos vulneráveis. Se apresenta como amigo, como conselheiro, como companheiro de jornada e quando menos esperamos deita-nos no chão.

A estrada em frente ficou desfocada. Percebi que era um rasgão nos meus olhos. Encostei-me no acostamento porque já não dava para conduzir assim. Mas a queda não é o fim da história, os meus irmãos. É apenas um capítulo. Porque o que o inimigo não sabe é que Deus usa até mesmo o mal que nos fazem para nos fortalecer, para nos ensinar, para nos mostrar um caminho novo.

Desliguei o motor e fiquei ali parado, só a ouvir. Era como se aquele homem que nem sequer sabia da minha existência tivesse a ler a minha vida inteira, cada página da minha desgraça. Quando perdemos algo que amamos, um bem, um trabalho, uma pessoa. O primeiro sentimento é revolta. Depois surge o desespero, a sensação de que nada mais vale a pena, que estamos abandonado.

Era exatamente assim que eu tinha-me sentido, abandonado, roubado, não só das coisas material, mas da minha fé nas pessoa. Mas é aí, meus irmãos, no fundo do poço, que encontramos a pedra mais preciosa, a verdade sobre nós mesmos, o que realmente importa, o que ninguém nos pode roubar. Naquele dia parei num posto, saí do camião, olhei para o céu azul limpo.

Tinha um vento fresco que balançava as árvores do outro lado da pista. E, de repente, como se fosse um raio, veio um pensamento claro na minha cabeça. Eu ainda estava vivo. Podia ter sido pior. Ela podia ter-me matado, deixado-me atirado à beira da estrada. Mas eu estava ali a respirar, com saúde, com hipótese de recomeçar e agradeci não a perda, mas a lição, porque desde então ouço mais o meu instinto.

Antes era afobado, confiava fácil, atirava-me de cabeça para a situação. Agora sou mais cauteloso, penso duas vezes. Analiso melhor cada pessoa, cada proposta, cada oferta que aparece na minha e ajudo quem precisa. Mas com os dois olho bem aberto. Voltei a parar para socorrer um carro avariado na estrada. Voltei a dar informação para quem está perdido.

Voltei a conversar com os outros nos postos de abastecimento de combustível, a trocar uma ideia sobre a vida, sobre os problemas, sobre a pequena alegria. Só não voltei a dar boleia. Nisto aí, o tombo ensinou bem. Daquele dia em diante, a história da Maria começou a fazer um sentido diferente na minha cabeça.

Não que eu tivesse perdoado, nem aceitei, mas comecei a ver que talvez tivesse um propósito maior naquilo. Porque antes do roubo, eu era um camionista orgulhoso de achava que sabia tudo, que ninguém me podia passar a perna, que a estrada não tinha segredo para mim. vivia a correr, preocupado com portes, com dinheiro, sem tempo paraa família, para os amigos, para mim próprio.

Depois tive de voltar ao básico, reaprender a viver com pouco, a dar valor pras coisa pequena, a agradecer pelo pão de cada dia, pelo trabalho que aparecia, pelo tecto emprestado. Nunca imaginei que ia dizer isso, mas aquele roubo obrigou-me a descer do trono que eu próprio tinha constru trouxe-me de volta ao chão, ensinou-me a humildade na porrada.

Contei esta minha conclusão pro Tonho. Certa vez que nos encontrou num viu só. Deus escreve certo por linha torta, disse sor. É, mas podia escrever um bocadinho mais suave, não é? Brinquei arrancando gargalhadas. Mas no fundo sabemos que certas lição só entram na cabeça dura quando a bordoada é forte. E eu, cabeça dura, que só precisei de perder tudo para compreender que tudo pode ser perdido num ápice de olho, que nada é tão seguro como a gente pensa, que um camião, por mais bonito que seja, é só lata e motor.

O que importa mesmo é quem está atrás do volante. Foi nessa altura que fiz uma coisa que nunca tinha feito antes. Entrei numa igreja, não paraa missa. nem para cul. Entrei num dia de semana quando estava vazia. Sentei-me num banco no fundo e fiquei a olhar para o altar, pras imagens, pras vela acesa.

Não sabia rezar direito, nunca fui de decorar oração. Mas falei com Deus à minha maneira mesmo, pedindo direção, pedindo paz. Foi como se tivesse tirado um peso das costas, como se finalmente entendesse que não tinha de carregar aquela carga sozinho. Saí dali diferente. Não virei santo, longe disso. Continuo o mesmo Betão de sempre, com os meus defeitos, a minha raiva, as minhas falhas.

Mas agora Sei que a estrada tem mais curva do que conseguimos ver e que às vezes precisamos de perder o caminho para encontrar a direção certa. Se foi Maria, se foi só uma bandida disfarçada, se era coisa do outro mundo, não sei e talvez nunca venha a saber. Tem mistério na vida que não nos desvendar, por mais que tente.

Tem questão que fica sem resposta e com o tempo aprendemos a conviver com isso. Esta história já aconteceu faz dois anos. Hoje estou melhor, graças a Deus, e muito esforço. Não recuperei o meu Scania. Claro, este já deve ter virado peça ou foi parar à mão de algum bandidão, mas consegui endireitar-me na vida.

O patrão que me deu aquela oportunidade viu que sou um trabalhador sério, responsável. Foi aumentando a minha responsabilidade, dando-me melhor frete, carga mais valiosa. Há uns s meses, ele ofereceu-me uma parceria. Tinha um camião usado, um Volvo branco, não tão novo como o meu falecido Scania, mas em bom estado, propôs-me que pagasse aos pouco, descontando uma parte do frete.

Foi duro no início, porque o ganho tornava-se pequeno depois do desconto, mas aceitei. Era a minha oportunidade de voltar a ter o meu próprio veículo. Hoje já paguei mais de metade. Não falta muito para ser dono de É diferente de antes, porque agora dou valor diferente às. Cada prestação que pago não é só dinheiro a sair, é a independência a voltar, é dignidade recuperada.

Mas uma coisa é certa, aquela noite tirou-me tudo para devolver-me outra, a coragem de recomeçar, porque há pessoas que caem e fica no chão, a chorar a derrota. E tem gente que cai, levanta, limpa o pó e segue caminho. Antes pensava que era dos forte, que nada me der. Precisei provar do chão para descobrir que a minha força não estava em não cair, estava em conseguir levantar-se depois da queda.

Hoje, todo o frete que faço é com mais sabedoria, mais fé e menos ingenuidade. Valorizo ​​cada quilómetro percorrido porque sei o quanto custou voltar à estrada. Agradeço cada carga que chega inteira no destino. Respeito mais o camião. Cuido melhor. Não corro tanto. Não faço loucura. A vida à boleia continua dura.

Claro, estrada esburacada, portagens caras, combustível nas alturas, prazo apertado, comida de posto. Nada disto mudou. O que mudou foi o camionista, eu. E o que me assusta até hoje, o que me faz pensar nas horas mais sossegadas da madrugada, é como tudo pode mudar numa só curva, num encontro só, numa decisão errada.

Naquele dia podia ter ignorado aquela mulher à beira da estrada. Podia ter passado direto, mas parei. Abri a porta, Dei espaço, convidei a desgraça para entrar e ela entrou, sentou-se do meu lado, deu-me um chá e levou o que era meu. A vida cobra juros, dizia o meu pai, e a cobrança veio pesada.

Mas sabe de uma coisa? Paguei, liquidei a dívida e Segui viagem. De vez em quando ainda Apanho aquela curva na BR153 e ainda olho, meio sem querer, meio a querer, se há alguém a pedir carona. Nunca mais vi a Maria nem qualquer mulher de branco sozinha na estrada. Outro dia, um camionista mais jovem perguntou-me se eu acreditava em fantasma. Por quê? Qui.

Porque ouvi falar de uma mulher misteriosa que aparece nas estradas por aí. Uns dizem que ela é assombração, outros que é golpista. Queria saber se é verdade. Sorri pensando no que devia responder. Podia contar tudo nos mínimos detalhes. Podia fazê-lo arrepiar-se inteiro com minha história de terror, mas só disse. Há coisa na estrada que é melhor não encontrar, rapaz.

E há encontro que é melhor não ter. Ele ficou curioso, pediu para eu falar mais, mas mudei de assunto. Não gosto de estar a relembrar aquilo. E também há história que só faz sentido para quem vive. Contar aos outros torna-se só causo de beira de estrada, daqueles que ninguém acredita de verdade.

O que realmente importa é o que aprendi, o que ficou depois da tempestade passou e ficou muita coisa. Aprendi que só damos valor de verdade para o que tem depois que perde, que a verdadeira amizade aparece na hora do aperto, como o Tonho que me estendeu a mão quando estava no fundo, que recomeçar é possível, mesmo quando parece que acabou tudo.

Hoje olho no retrovisor e vejo o caminho que percorri desde essa noite. Quanto desespero, quanta raiva, quanto medo, mas também quanta força descobri que tinha, quanta capacidade de reagir, de reconstruir, de seguir em frente. E tu aí, meu irmão de estrada, já deu boleia a alguém que parecia mais do que era? Já confiou em quem não devia? Já perdeu algo importante por causa de um erro de julgamento? Se tá passando por um momento assim difícil, de grande perda, de tombo feio, ouve-me.

Não é o fim da linha, é apenas uma paragem forçada. O motor pode voltar a funcionar, a viagem pode continuar, a estrada não tem fim. Todo camionista sabe que depois da curva mais fechado, da subida mais íngreme, vem sempre um troço de reta, um respiro, uma vista bonita. É só não desistir antes de lá chegar. Comenta a tua história aí.

Quero saber se mais alguém já se cruzou com a Maria ou com alguma situação semelhante. Quero saber se tem mais gente que caiu e se levantou, que perdeu e reconquistou, que desistiu e depois voltou com mais força. Porque tem estrada a mais para nós, mas tem lição em cada. E é partilhando as histórias que a gente impede outros companheiros de cair na mesma armadilha.

Dirigir camião é fácil, já me disse um amigo uma vez. Difícil é conduzir a vida pros lugar certo. Eu estava perdido. Perdi-me Numa curva da BR153 quando dei boleia à Maria, mas encontrei de novo o meu rumo. Talvez esse fosse o plano desde o início. A estrada segue e eu também. Com mais calômetre na estrada, mais história para contar, mais cautela no coração, mas também com mais gratidão por cada dia, cada frete, cada amanhecer visto da boleia.

E a Maria? Bem, se um dia a voltar a encontrar, o que Deus me livre, só tenho uma coisa para dizer. Obrigado pela lição. Foi demasiado cara, doeu para caramba, mas aprendi. Porque no final do dia, seja ela bandida, fantasma ou provação divina, foi depois dela que me tornei um homem melhor, mais forte, mais sábio, mais humano.

E isto, meus amigos, isto ninguém me pode roubar. M.