Há coisa que a gente aprende na estrada que nenhuma escola ensina. Aprende que o silêncio de madrugada não é paz, é peso. Aprende que o volante frio às 3 da manhã é a coisa mais honesta do mundo, porque não mente, não desaparece, não abandona. Aprende também que existe um certo tipo de solidão, que não dói tanto de dia quando há um camião à frente, sol na cara e rádio a tocar alguma coisa.
Mas que de noite, quando a estrada fica só sua e o asfalto desaparece no escuro à frente do farol, essa solidão senta-se do seu lado como um passageiro que ninguém convidou. Eu chamo-me Valdir. Valdir Custódio Neves, de 53 anos, natural de Patos de Minas, vivendo há 12 em Ribeirão Preto, porque foi aí que a minha vida parou de um maneira que ainda não aprendi a explicar direito.
Sou camionista há quase 30 anos, transportava grãos naquela semana, soja de Ribeirão com destino a Goiânia pela BR153. Viagem de rotina, mais uma entre centenas que já fiz nesta vida. Tantas que às vezes perco a conta e confundo as cidades, confundo os postos, confundo até os rostos dos frentistas que me servem café de madrugada com aquele sorriso cansado de quem também está só passando pelo mundo sem saber muito bem para onde.
Naquela noite de quarta-feira, tinha saído de Ribeirão às 18 horas. O tempo estava fechado desde Barretos. Não choveu, mas ameaçou o tempo todo. Aquela nuvem roxa baixa que fica a pesar no horizonte como uma dívida que ainda não pagámos. O ar estava quente mesmo depois do sol ter sumido, daquele calor húmido de interior que se cola à camisa e não larga.
Eu abri o vidro um palmo, coloquei o cotovelo para fora e fui andando. O rádio tocou três músicas seguidas que não ouvi. Não é que eu não queria ouvir, é que às vezes a cabeça vai para um sítio que o rádio não alcança. Eu estava a pensar em Tereesinha, acabo sempre por pensar em Terezinha quando a noite fica assim demasiado pesada para ser ignorada.
Ela faleceu há 4 anos. Câncer. Uma daquelas doenças que a gente descobre tarde demais, que cresce lentamente no corpo da pessoa que amas enquanto estás na estrada, pensando que está tudo bem, porque ela ligava todos os dias e dizia que estava bem. Porque a Terezinha era assim, não gostava de me preocupar.
Guardava as coisas dela como quem dobra a roupa antes de guardar na gaveta. Com cuidado, sem barulho, sem fazer peso a ninguém. Eu soube do tumor quando ela já estava no estágio três. Larguei tudo, fiquei seis meses em casa. Cuidei dela da forma que sabia, que não era muito, porque eu Nunca fui homem de palavras bonitas, nem de gestos delicados.
Sou homem de fazer, de resolver, de consertar. E que eu não conseguia reparar. Ficava sentado ao lado dela, na cama do hospital, olhando para as máquinas com as mãos grandes e inúteis no colo, querendo tanto ter alguma coisa para apertar, algum parafuso para virar, alguma correia para mudar, mas não tinha. Ela foi-se embora numa manhã de sábado, com o sol a entrar pela janela do quarto.
Segurei-lhe a mão até ficar fria. Depois voltei para a estrada, não porque queria, mas porque não sabia fazer outra coisa e ficar parado dentro daquela casa vazia ia acabar-me de um jeito que a estrada pelo menos adiava. Eram quase 11:30 da noite quando passei pelo cruzamento de Itumbiara.
Tinha um posto fechado do lado direito, aquele tipo de estrutura abandonada que fica com o telhado torto e a placa desbotada, fantasma de algum tempo em que o movimento era maior por ali. Mais à frente, o asfalto esticava direito até onde a luz do farol alcançava e depois era só escuridão e o barulho das cigarras vindas do pasto de ambos os lados.
Foi quando o camião deu um solavanco diferente. Não era o asfalto. Eu conheço o barulho de um buraco. É seco, rápido, vem e vai. Aquilo foi outra coisa. Um rangido por baixo no eixo traseiro, como se alguma peça estivesse a forçar contra outra da maneira errada. Batida ligeira, mas constante. Tac, tac, tac.
Caminhoneiro experiente não ignora ruído novo. Pode ser nada. pode ser o fim de tudo. Encostei-me ao acostamento um trecho mais largo de terra batida, onde tinha uma árvore de pack torta inclinando-se sobre a vedação de arame. Desliguei o motor. O o silêncio caiu de uma vez, cheio de cigarra e de vento baixo. Peguei na lanterna no porta-luvas, uma daquelas grandes, preta, de pilha, que a minha a filha Cláudia ofereceu-me no meu aniversário, com um bilhetinho escrito à mão que ainda guardo-o dobrado na carteira. Desci. O
chão estava quente ainda, a terra libertando o calor que absorveu durante o dia. Acendi um cigarro antes de me baixar, como faço sempre, porque tem certas coisas que a gente repete sem pensar, até se tornarem parte de quem a gente é. Dei uma passa, soltei a fumo para cima e abaixei-me com a lanterna apontada ao eixo.
A luz varreu o chão e parou. A minha mão quase tocou um pé, um pé descalço, sujo de terra, com o tornozelo fino e uma mancha escura que eu não soube dizer na hora se era lama ou hematoma. Pisquei. Não entendi o que estava vendo. Empurrei a lanterna mais fundo, devagar, o coração já acelerado, a cabeça ainda tentando encontrar uma explicação que fizesse sentido.
E então a luz chegou no rosto. uma moça jovem, 20 e poucos anos, talvez, enrolada em si mesma, posição fetal, os joelhos dobrados no peito, os braços cruzados sobre o rosto, como se estivesse se protegendo de alguma coisa que não estava mais ali, mas que o corpo ainda se lembrava. Cabelo escuro e empoeirado, roupas rasgadas, uma blusa que já tinha sido branca, uma calça jeans com o joelho rasgado, uma sandália no pé esquerdo, o direito descalço.
Ela estava dormindo debaixo do meu caminhão. Por quanto tempo? Eu não fazia ideia. Fiquei parado ali, agachado, a lanterna acesa, o cigarro ainda aceso entre os dedos, sem conseguir me mover por alguns segundos. O coração batia alto, a cabeça ia rápido demais. Quem é essa moça? O que aconteceu desde quando ela tá aqui? Ela tá viva? Ela tá bem? O que eu faço agora? E foi nessa hora que a luz bateu diferente no rosto dela e ela abriu os olhos verdes, cheios de um medo que eu nunca tinha visto assim tão perto.
O tipo de medo que não é de um susto é de alguém que já aprendeu que o perigo é real. e que ele volta. O corpo dela se contraiu todo de uma vez, como mola. Ela recuou, bateu a cabeça na parte de baixo do chassi, se encolheu mais ainda e a boca abriu para gritar. Espera eu falei baixo, mas firme.
Eu não vou te machucar. Pode acreditar. Ela não gritou. ficou olhando para mim com aqueles olhos arregalados, respirando rápido, o peito subindo e descendo. Depois, com uma voz que era quase nada, tão pequena, que as cigarras quase cobriam. “Por favor, não me entrega uma pausa. Eles estão me procurando.” Eu fiquei olhando para ela por um segundo que pareceu mais longo do que era.
Pensei em Terezinha, não sei porquê. Pensei nela de um jeito rápido, quase involuntário, como quando a gente passa por uma rua que tem cheiro de casa da infância. Depois apaguei o cigarro na sola da bota. “Vem”, eu disse. “Sai daí devagar. Não precisa ter medo de mim.” Ela demorou, mas veio. Eu a ajudei a sair debaixo do caminhão, segurando o braço dela.
Magro demais, osso perto da pele. E quando ela ficou de pé, tive que segurar porque as pernas vacilaram. Ela pesava quase nada. O rosto estava sujo, o lábio inferior partido e havia uma rochidão do lado esquerdo do queixo que me apertou o peito de um jeito que eu não esperava. Abri a porta da cabine pelo lado dela.
Sobe, tem água aqui dentro. Ela subiu sem falar, sentou na beira do assento com o corpo ainda tenso, olhando para mim de soslaio, enquanto eu contornava o caminhão e subia pelo meu lado. Peguei a garrafinha no suporte, o saco plástico com o pão que tinha sobrado do jantar em Barretos, pão francês, um pedaço de queijo embrulhado em papel alumínio e coloquei no colo dela.
Ela olhou paraa comida e eu vi o exato momento em que o orgulho cedeu pra fome. Começou a comer devagar. Primeiro um gole d’água, depois um pedaço de pão. Mastigava devagar, olhando pro painel, como se estivesse com vergonha, e tentasse não mostrar. Peguei minha jaqueta do banco de trás e estendi para ela. Tá frio aqui dentro, com o motor desligado. Ela aceitou.
Ficamos em silêncio por um tempo. Lá fora, as cigarras continuavam. Um carro passou na pista sem diminuir a velocidade, os faróis varrendo a cabine por um segundo e ela se encolheu instintivamente, os ombros subindo até quase cobrir as orelhas. “Como você se chama?”, Eu perguntei sem pressa. Ela engoliu o pedaço de pão. Isabela disse.
Eu não perguntei mais nada por enquanto. Às vezes a pessoa dá um nome falso não por maldade, mas porque o verdadeiro nome é a única coisa que ainda tem. Última proteção. Eu entendi aquilo sem precisar pensar muito. Tá bem, Isabela. Eu olhei pra frente, pro escuro da estrada. Eu sou o Valdir, ela não respondeu, mas em algum momento, enquanto a noite avançava e o vento sacudia levinho a lataria do caminhão, ela encostou a cabeça na janela e os olhos fecharam de novo.
Dessa vez sem medo no rosto, só cansaço. O tipo de cansaço que vai fundo demais para qualquer coisa esconder. Eu fiquei ali sentado, sem ligar o motor, olhando pro nada pela janela da minha frente e fui pensando que naquela estrada escura de Goiás, do lado de um posto fantasma e debaixo de um pequizeiro torto, alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.
Eu ainda não sabia o quê, mas sabia que ia descobrir. Ela dormiu por quase 40 minutos. Eu fiquei no lugar, motor desligado, sem mexer. Não acendi outro cigarro para não acordar. Não liguei o rádio. Fiquei só ouvindo a respiração dela. Irregular no início. Aquele tipo de respiração de quem dormiu pouco durante dias e o corpo já não sabe como descansar direito.
Aos poucos foi tornando-se mais lenta, mais funda. Do lado de fora, a estrada continuava vazia. Dois carros passaram em 20 minutos. Nenhum diminuiu. Eu olhava para o retrovisor de vez em quando. Não sabia bem o que esperava ver. Talvez nada. Talvez alguém. A frase dela ainda estava na minha cabeça. Eles estão a me procurando.
E este tipo de frases não sai fácil, não. Fica a ecoar, batendo nas paredes da cabeça como um inseto dentro de vidro fechado. Quem eram? Quantos eram? E o que tinha feito esta rapariga ter tanto medo assim? que preferiu se esconder debaixo de um camião em movimento, em vez de pedir ajuda num posto, numa cidade, em qualquer lugar com luz e gente. Eu não tinha resposta.
Então, fiquei quieto e deixei o silêncio trabalhar. Quando acordou, levou um segundo para se lembrar onde estava. Vi o exato momento, os olhos abrindo rapidamente, o corpo a endurecer, a mão agarrando a blusão como se fosse defender-se. Depois, a cabeça rodou lentamente, me encontrou-se sentado ao meu lado e alguma coisa na cara dela relaxou 1 milímetro, só um.
“Quanto tempo dormi?”, ela perguntou. Voz rouca, “Uns 40 minutos. Ela olhou para o relógio do painel: meia-noite e 23. Preciso de ir”, disse e a mão já foi paraa maçaneta. “Não é para onde?”, perguntei sem rispidez. Só perguntei. A mão parou. Ela não respondeu de imediato. Ficou a olhar para maçaneta como se a resposta pudesse estar gravada no metal.
“Não sei”, ela falou por fim. E aquilo saiu diferente das outras palavras. mais verdadeiro, mais pesado, como quando a pessoa pára de representar por um segundo e deixa aparecer o que é de facto. Então, não vai a lado nenhum agora, disse eu, não com este pé magoado, sem sapato, no meio da BR de madrugada.
Ela olhou para o próprio pé descalço. A planta estava cortada em pelo menos dois locais, marcas secas de sangue misturado com terra. Eu tenho um kit de primeiros socorros aqui atrás. Eu disse: “Deixa-me pelo menos limpar isso”. Ela hesitou. Hesitou de uma forma que me disse muita coisa sobre o que ela tinha passado. Este tipo de hesitação não é teimosia, é aprendizagem.
É o corpo que já foi enganado antes e já não quer acreditar demasiado rápido. “Está bom”, disse ela por fim. Peguei no kit debaixo do banco de trás. soro fisiológico, gase, esparadrapo, pomada, coisas que a A Tereesinha insistia para eu carregar e que levei anos a resmungar antes de admitir que ela tinha razão, como em quase tudo.
Limpei os cortes com cuidado. A rapariga não se queixou, não gemeu, segurou o pé firme e ficou a olhar para frente com aquela expressão de quem aprendeu a não demonstrar dor. Isso também disse-me muita coisa. Quando terminei, ela olhou para mim de um jeito diferente. Não era confiança ainda. A confiança não nasce assim tão rápido, mas era algo, uma pequena abertura, uma fresta.
Por que não foi embora? Ela perguntou. Como assim? Quando me encontrou, podia ter-me deixado lá. Pensei um segundo antes de responder. Podia. concordei. Mas ia ficar com o barulho do eixo e ia ficar consigo na cabeça. E entre os dois problemas, o do eixo pareceu mais fácil de ignorar. Ela não sorriu, mas o canto do lábio mexeu-se um pouco.
Foi suficiente. Fiquei em silêncio por um instante. Depois perguntei com cuidado: “Isabela, o que é que te aconteceu?” Ela olhou para a janela. Do lado de fora, o pasto era escuro e plano até onde a vista alcançava, cortado por vezes pela sombra de uma árvore isolada, que parecia estar ali por engano. O céu tinha uma faixa de nuvens, cobrindo metade das estrelas.
“Este não é o meu nome”, disse ela. Eu não disse nada. Deixei o espaço aberto. O meu nome é Isadora. Isadora Mendes. A voz não tremeu. Ela disse aquilo como se estivesse a experimentar o próprio nome depois de muito tempo sem o utilizar, testando se ainda cabia, se ainda era dela. Isadora, repeti baixinho. Faz tempo que ninguém me chama assim.
Eu quis perguntar quanto tempo, mas percebi que ela ia chegar lá ao seu próprio ritmo e que forçar aquilo era a forma mais certa de fechar a fresta que acabava de se abrir. Então esperei. Ela juntou os joelhos no peito, abraçou as pernas e começou a falar. Falou devagar, com pausas, com algumas partes que ela saltava e eu não insistia.
disse que tinha saído de Uberaba há pouco mais de um ano. Tinha na altura 24 anos, 25 agora ou talvez já 26. Ela disse que tinha perdido a conta aos meses em algum ponto. Uma amiga tinha indicado uma vaga de trabalho em Goiânia. Casa, comida, salário fixo. Cuidar de uma idosa disse a intermédia. Coisa simples.
Quando chegou à morada combinada, a porta fechou por dentro. Ela contou que sem drama, sem alterar o tom de voz. E foi exatamente isso que me arrepiou. Quando a pessoa fala de uma coisa horrível, com calma de sobrevivente, é porque já processou tantas vezes que as palavras ficaram gastas, lisas, mas o que elas descrevem não.
Tinha grade nas janelas, disse ela. Dois homens que revesavam de 12 em 12 horas e por vezes aparecia um homem de fato. Não morava lá, mas aparecia. Quem era ele? Ela demorou a responder. Rodolfo Amaral. Disse o nome como quem solta um bicho perigoso no chão e recua um passo. Eu não conhecia o nome, mas a forma como ela falou disse-me que não precisava de conhecer para compreender o que ele representava.
Ele é conhecido em Uberaba, em Uberaba, em Ituiutaba, em Frutal. Ela fechou os olhos por um segundo. Rico advogado, tem quinta, há gente, há político na mão. O tipo de pessoa que não aparece nas notícias porque paga para não aparecer. Fiz uma pausa. E ficou quanto tempo presa lá? 8 meses. O meses? Eu tentei imaginar. Não consegui completamente.
Acho que quem não viveu não consegue. Como saiu? Ela respirou fundo. Numa madrugada, o homem que fazia a guarda bebeu demais. Adormeceu com a chave do cadeado no bolso da camisa. Uma pausa. Esperei 3 horas com ele a dormir a 2 m de mim, com medo que ele acordasse se me mexesse. Depois fui devagar. Conseguiu a chave? Não.
Arrombei a janela da casa de banho. Tirei as astes da grade com as mãos. Ela estendeu as mãos para mim à meia luz da cabine. Vi os dedos, os dedos de alguém que tirou o aste de grade de ferro com as próprias mãos. Cortei tudo, mas saí. Fiquei olhando para as mãos dela por um segundo. Depois olhei em frente, para a estrada escura.
Você foi para onde depois que saiu? Andei. Não sabia onde estava direito. Apanhei boleia com um camião de gado até Itumbiara. Quando ele parou para abastecer, vi que tinham dois homens à minha procura no posto. Reconheci um deles. Desci sem ele ver e fui a correr para a berma. Ela parou. Quando o seu camião encostou, eu estava escondida atrás de uma moita.
Desceste, acendeste o cigarro e eu pensei: “Ou fico aqui toda a noite no pasto, ou arrisco”. Você entrou em movimento com o camião a andar numa descida lenta quando quase parou para uma lomba. Ela olhou para mim. Desculpa. Eu abanei a cabeça. Não precisa de pedir desculpa. Ficou um silêncio comprido entre nós os dois.
Lá fora, o vento tinha aumentado um pouco. A copa do pequizeiro raspava no tecto da cabine às vezes. Um som seco e rítmico. Tem mais? Ela disse. Eu sei. Não é só o cativeiro. Eu imagino. Ela respirou de novo. Aquela respiração que parece preparação, que a pessoa faz quando vai falar de uma coisa que carrega há tempo e que pesa diferente das outras.
Oficialmente, estou morta há 5 anos. Eu virei-me para olhar para ela. Ela não estava a brincar. Os olhos verdes eram sérios, fixos, com aquela calma de quem já passou o ponto em que a informação ainda surpreende. “Como assim?”, eu perguntei. “A minha mãe morreu quando eu tinha 12 anos.
O meu pai nunca existiu no papel. Foi criada pela minha tia Solange. Ela disse o nome da tia do mesma forma que tinha falado o nome de Amaral, com aquele peso de quem aprendeu a ter medo de uma palavra. A minha avó paterna tinha terras, terras boas em Minas. Quando a minha avó morreu, eu tinha 16 anos.
A herança era minha, mas eu era menor. Então, a tia assumiu a tutela. E ela vendeu tudo. Vendeu por uma fração do valor real para Amaral. Ela fechou os olhos. Quando completei 18 anos e fui perguntar sobre a herança, ela disse que não tinha nada, que as dívidas da minha avó tinham consumido tudo, que eu devia estar grata por ter tido onde morar.
Mas desconfiou. Demorei a desconfiar, mas um dia encontrei documentos escondidos numa caixa da mesma. Escrituras, contratos, transferência de propriedade com data antiga, assinatura de menor de idade falsificada. Você confrontou-a? Confrontei. Uma pausa longa. Três dias depois, uma assistente social apareceu dizendo que havia uma denúncia de que era consumidora de drogas e tinha agredido a tia.
Fui levada para uma clínica privada. Ninguém me perguntou nada. Ninguém me ouviu. Ela abriu os olhos. Quando saí da clínica dois meses depois, fui descobrir que A minha certidão de óbito tinha sido emitida. Problema cardíaco, disseram. Enquanto estive viva, internaram-me. Declararam-me morta no papel. Eu não disse nada.
O que se fala depois disso? E os documentos que encontrou? Fiz cópia escondida, deixei com uma amiga em Uberaba, Denise. Pela primeira vez, algo próximo de ternura passou pelo rosto dela. Ela é a única pessoa que sabe que eu estou viva. Eu olhei para o relógio. Quase à uma da manhã, Isadora. Ela olhou para mim.
Esta sua amiga, a Denise, ela está segura? A pergunta apanhou-a de jeito. Vi nos olhos uma sombra a passar rápido. Espero que sim. Ela disse, mas a voz tinha uma pequena fenda que não tinha antes. Fiquei a olhar paraa frente por um momento. A carga de soja estava no reboque à espera de Goiânia. O prazo de entrega era amanhã à tarde.
Eu tinha compromisso, tinha um contrato, tinha histórico de não atrasar. Tudo isso passou pela cabeça e passou depressa. Uberaba fica a quanto daqui? Eu perguntei. Ela piscou. cerca de 3 horas e3. Então precisa de si acordada o caminho todo para me guiar pelas estradas menores. Pode fazer isso? Ela ficou-me olhando por um segundo que pareceu mais longo.
Vai até lá? Ela disse como se não acreditasse verificar o eixo primeiro. Eu respondi: “Se tiver bom, a gente sai agora. Desci do camião, me baixei-me com a lanterna de novo. Examinei o eixo com calma. Não era nada de grave. Um parafuso da proteção do cardan que tinha folgado batendo na carcaça. Apertei na mão com o que tinha na caixa de ferramentas solucionado.
Quando subi de volta, ela estava a olhar para mim com aquela expressão que não soube nomear na hora. Só fui perceber depois. Era a expressão de quem está à espera do golpe que não vem, de quem está pronto para ser desiludido e não está a ser. Dei a partida. O motor pegou no primeiro toque, daquele jeito bom e grave que sempre me deu uma certa tranquilidade, como se o camião dissesse que também estava pronto.
“Fala-me à primeira saída”, disse eu. Ela limpou alguma coisa na cara com o dorso da mão. Depois olhou em frente e começou a guiar. A BR452 de madrugada é uma estrada que parece não ter fim. Não porque seja longa demais, que é, mas não é só isso. É porque ela atravessa um tipo de interior que o Brasil guarda para si. Aquele interior que não aparece na propaganda de turismo, nem num jornal televisivo.
Pasto de horizonte a horizonte, rodeado por arame farpado velho, com zebu dormindo de pé perto das cercas, como estátuas esquecidas. Por vezes um silo de grãos iluminado no meio do nada. Às vezes uma cruz à beira da estrada com flor de plástico desbotada que alguém ainda põe todos os anos porque tem gente que não desiste de recordar.
Eu gosto desta estrada de madrugada ou gostava. Naquela noite ela parecia diferente, mais estreita de alguma forma, mais cheia de sombra nas bermas. Isadora ficou acordada ao meu lado, o corpo ainda tenso, os olhos varrendo o retrovisor de dois em dois minutos, como se fossem faróis atrás de nós que ela esperava ver aparecer a qualquer hora.
A blusão meu estava nos ombros dela, demasiado grande, as mangas cobrindo quase as mãos. Ela tinha o hábito de puxar as mangas para baixo quando ficava quieta. Eu notei isso. Pequeníssimo gesto de quem procura cobrir-se, fechar-se, ocupam menos espaço do que o corpo realmente tem. A gente não falou muito nos primeiros 40 minutos.
Não era um mau silêncio. Era o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas ainda estão a calibrar-se, medindo quanto espaço cada uma pode ocupar sem invadir. Eu respeito esse silêncio. Terezinha dizia sempre que eu tinha o dom de não falar quando não precisava e que isso era raro no homem. Nunca soube se era elogio ou observação.
Foi ela quem partiu primeiro. Tem família? Perguntou sem olhar para mim. Olhava pro pasto escuro do lado direito. Tenho uma filha, Cláudia, e um neto, o Murilo. Fiz uma pausa. A minha esposa morreu há 4 anos. Ela virou a cabeça para mim. Sinto muito. Obrigado. Como é que ela se chamava? Terezinha.
Isadora voltou a olhar paraa frente. Você diz o nome dela de um maneira que dá para saber que era boa. Eu não esperava aquilo. Ficou a apanhar-me de jeito por um segundo. Aquela frase simples, assim dita, sem qualquer cerimónia. Era, dizia eu, era a melhor pessoa que conheci. Outro silêncio mais curto desta vez. A minha mãe também era assim, ela falou.
Eu tinha 12 anos quando ela morreu e já se podia saber que era a melhor pessoa que eu ia conhecer na vida. Criança pensa nisso às vezes, que a mãe é especial, mas comigo era diferente. Eu sabia de uma maneira que não era ilusão de um filho. Ela era de facto uma pequena pausa. Quando ela foi, eu perdi o chão que nem sabia que era chão. Eu percebi o que ela quis dizer.
A gente só se apercebe que tinha chão por baixo dos pés quando esse chão desaparece. Quanto tempo que passou sem a mãe antes de ir viver com a tia? Três semanas num abrigo municipal. Depois apareceu a Solange. Ela disse o nome da tia sem calor nenhum, seco, como quem nomeia uma doença.
Não que ela fosse cruel logo de início, era fria. Há gente que não é cruel pela ação, é cruel pela ausência, por não olhar, não perguntar, não estar. Cresci sem que ninguém me perguntasse como eu estava de verdade. Olhei de relance para ela. Alguém te pergunta isso agora? Ela pensou. A Denise pergunta: “Então, a Denise é importante. É a única pessoa no mundo que sabe que eu existo. Aquilo caiu pesadamente na cabine.
Eu deixei pousar. Por volta das 2as da manhã, passámos por prata. A cidade dormia, as ruas iluminadas por um amarelo fraco de poste velho, uma ou outra casa com luz acesa ao fundo, padaria fechada, farmácia fechada, igrejinha com o portão de ferro entreaberto. A Isadora pediu-me para evitar o centro e apanhar uma viazinha de terra que cortava pelo lado da cidade, paralela à rua principal.
Por precaução, disse ela. Ok, eu disse. Peguei na viazinha. Era de cascalho, irregular, e o camião abanava mais do que eu gostava com uma carga no reboque, mas não era nada que preocupasse. Passei lentamente, os faróis recortando as casas baixas com muros de tijolo à vista e jardim frontal cheio de samambaia em lata de tinta.
Tinha um cão no meio da rua, um grande viraata, cor de areia, que ficou a olhar para mim com os olhos refletindo a luz dos faróis sem se mover. Tive de parar quase completo antes de ele decidir sair do caminho com aquela dignidade cansada que cão de rua desenvolve-se com o tempo. Isadora soltou um ar pelo nariz. Quase uma risada.
O dono do asfalto, disse ela, todo o vilarejo tem um destes. Em Uberaba havia um que ficava à porta da padaria do seu Armindo. Chamavam-lhe farinha porque era branquinho. Eu passava por lá todos os dias indo para o colégio. Ela parou. Parou à maneira de quem foi buscar uma memória e encontrou outra coisa junto, misturada, e agora não sabe bem o que fazer com o conjunto.
“Faz saudades?”, eu disse sem fazer pergunta. “Faz.” Ela encostou a cabeça ao vidro. “Às vezes é difícil saber se tenho saudades da cidade ou da pessoa que eu lá era. Eu ia dizer alguma coisa, mas naquele momento os olhos dela foram para o retrovisor exterior do lado dela e o corpo endureceu. Valdir, a forma como ela disse o meu nome acelerou-me o coração antes mesmo de ela continuar. Tem um carro atrás.
Olhei pro meu retrovisor, tinha um par de faróis brancos, altos que surgiu na curva atrás de nós, longe ainda, uns 300 m, mas na pequena via de terra batida, de madrugada, sem mais ninguém, a presença de qualquer veículo pesa de forma diferente. Pode ser qualquer coisa. Eu disse, pode ela concordou.
Mas os ombros dela não desceram. Mantive a velocidade. Não acelerei. Não freiei. Continuei igual. Carro que aparece atrás de camião em estrada de terra batida de madrugada. Pode ser lavrador que regressa tarde. Pode ser dono de fazenda, pode ser polícia. Pode ser muita coisa antes de ser o pior. Mas eu também não tirei o olho do retrovisor.
O carro manteve a distância durante uns 2 minutos, depois acelerou um pouco, depois abrandou. Aquele tipo de movimento que pode ser apenas adaptação ao terreno ou pode ser alguém a estudar. Não olhes para trás, eu disse-lhe baixo. Ela já estava a olhar para o retrovisor do lado dela. Quantos ocupantes consegue ver? Não dá para saber. Os faróis encobrem. Placa.
Não consigo. Ficámos os dois de olho no retrovisor por mais um minuto. O carro não acelerou mais, não fechou. Quando chegámos ao fim da viazinha e eu apanhei de volta o asfalto em direção a Uberaba, o carro virou para outro lado. Sumiu. Isadora soltou o ar que estava segurando. “Falso alarme”, disse eu. “Desta vez?” Ela respondeu e aquela resposta ficou no arre, mas a estrada ainda era longa, a noite ainda estava fechada e nenhum de nós dois tinha como saber o que vinha depois das próximas curvas. Parei num posto às
margens da cidade de Campina Verde. Estava aberto um daqueles postos de interior que funciona toda a noite porque a auto-estrada não dorme e os camionistas também não. Luz fluorescente, dois camiões parados na área de descanso, um jovem funcionário atrás do balcão a olhar para o telemóvel com o queixo apoiado na mão.
“Você fica aqui dentro”, disse eu para a Isadora. Baixa o assento, deita-se. Não aparece na janela. Ela não protestou, recostou o banco com um clique e ficou deitada de lado, a blusão puxado até ao ombro, olhando-me. Demora apenas um café e vejo se tem alguma coisa para comer de verdade. 2 minutos. Desci, fechei a porta com cuidado.
O frentista nem levantou os olhos quando eu passei. Entrei no mercadinho do posto, aquele corredor estreito com prateleira dos dois lados. Luz de teto a piscar uma vez, cheiro de pão de queijo requentado e café passado a tempo demais. Peguei em dois pãos de queijo embrulhados no papel de celofan, uma barra de amendoins, uma garrafa de sumo de caixinha.
Na hora de ir buscar o café ao balcão, o rapaz levantou finalmente os olhos do telemóvel. Era novo, 18, 19 anos. Tinha um autocolante de uma equipa de futebol na t-shirt e o cabelo cortado a direito na testa. Só o café. Dois, disse eu, com bastante açúcar num deles. Ele foi pegar. Enquanto preparava, falou sem me olhar: “O senhor vem de onde?” “Ribeirão, carregado de Goiás”.
“Ah, sim.” Colocou o copinho na beira do balcão. O senhor viu alguma movimentação estranha na estrada? Uns tipos passaram aqui há uma hora a perguntar por uma moça. Rapariga jovem, cabelo escuro, o meu coração não parou, mas deu um solavanco. Mantive a expressão igual. Não vi, não vim pela estrada secundária de prata.
Não apanhei a via principal. Ah, é que ofereceram dinheiro a quem tivesse informação. Ele encostou no balcão curioso. Aquele tipo de curiosidade de quem não compreende o tamanho do que está no meio. Disseram que era familiar, que a rapariga tem problema mental e fugiu. Olhei pro copo de café.
E você acreditou? Ele piscou. Como assim? Que era familiar? Que fugiu por problema mental? Ele coçou a nuca. Sei lá. pareciam gente de dinheiro. “As pessoas de dinheiro costumam ter problema mental também”, disse eu. Só que o deles não aparece em relatório. Paguei o café, peguei nas coisas e fui. Quando subi para o camião, a Isadora estava deitada da forma que eu tinha deixado, mas os olhos abertos à espera.
“O que foi?”, perguntou ela. “Leu alguma coisa no meu rosto?” “El estiveram aqui há uma hora.” Ela fechou os olhos por um segundo. “O que disseram? que tem problema mental e fugiu da família, uma respiração curta pelo nariz. É o que dizem sempre. Coloquei o sumo e o pão de queijo no colo dela. Ela sentou-se lentamente, recostou o banco de volta, abriu o celofane do pão sem me olhar.
Quanto falta para Uberaba? Eu perguntei. Pouco mais de uma hora. Dei a partida. Portanto, a gente chega antes do amanhecer. Ela mordeu o pão, mastigou, engoliu. Valdir. Hum. Porque é que tá fazendo isso? Ela olhou-me de lado. De verdade, não me deve nada. Não me conhece. Pode meter-se em problema sério por causa de mim.
Porque não me deixou no posto de Itumbiara e foi-se embora? Eu pensei a resposta de verdade antes de dar. Porque é demasiado fácil dar resposta rápida para pergunta difícil. E resposta rápida para pergunta difícil quase é sempre mentira ou meia verdade. Minha esposa, disse eu por fim, a Terezinha. Ela ficou doente e eu estava na estrada.
Continuei na estrada durante algum tempo, sem saber bem o que estava a acontecer, porque ela não me queria preocupar. Quando soube e voltei, já tinha perdido tempo que não voltou mais. Encarei a estrada. Eu não pude fazer nada por ela. Isso fica, esse tipo de coisas fica e pesa. E às vezes encontramos uma situação na vida em que pode fazer alguma coisa, onde há uma pessoa que precisa e uma escolha a ser feita.
E se vai embora de novo. Parei. Aí o peso duplica. E A Zadora ficou quieta durante um bom tempo depois disso. Quando falou foi baixo. Ela teria gostado de si. Quem? A Terezinha. Da forma como fala dela e da maneira que você está aqui, ela teria gostado de ti. Eu não respondi, mas alguma coisa dentro do peito afrouxou um nó que eu nem sabia que estava apertado.
A 40 minutos para Uberaba, A Isadora adormeceu de novo. Dessa vez diferente. Não o sono tenso da exaustão, mas um sono mais entregue, a cabeça tombando lentamente para o lado até encostar no vidro da janela. A respiração ficou funda e regular. Eu continuei a conduzir. A estrada tornara-se mais larga, mais movimentada.
Os sinais de cidade grande começam a aparecer, postos maiores, placas de loteamento, silos de cooperativa com o nome pintado em letras garrafais. Pensei na Cláudia, a minha filha. Fazia três semanas que não ligava. Não porque não quisesse, porque ligar paraa Cláudia significava ouvir o Murilo a gritar alguma coisa animada de fundo.
E ouvir o Murilo dava-me uma mistura de alegria e aperto que ainda me não aprendi a carregar corretamente. Ele tinha 4 anos. Cada vez que o via, parecia que tinha crescido um palmo. A vida dele estava a acontecer e eu ficava vendo de longe, de troço em troço, de visita em visita. Terezinha terá dito para eu ir mais vezes.
Terezinha teria dito muita coisa. Tirei esses pensamentos da frente e prestei atenção na estrada. A cidade de Uberaba começou a surgir nos acostamentos. Primeiro, uma empresa distribuidora de materiais de construção fechada. Depois um posto de gasolina com tótem de preço. Depois os primeiros quarteirões de casas com muro e grade.
O céu começava a perder o preto mais fundo do lado do horizonte leste. Não clarea ainda, mas já não era a mesma escuridão de antes. Ficou de um azul muito escuro, quase roxo. Aquela hora da madrugada, que já não é noite, mas também não esteve perto de ser dia. Encostei o camião a uma rua larga de bairro industrial.
entre dois telheiros fechados e desliguei o motor. Isador acordou com o silêncio. Ficou-me olhando, desorientada por um segundo. “Chegámos?”, perguntou. “Estamos em Uberaba, mas não sei onde mora a Denise. Vais ter que me guiar agora”. Ela se sentou-se direito, esfregou o rosto com as mãos, respirou fundo. Rua Marechal Deodoro.
Ela disse: “Bairro São Bento, casa de portão verde. Você foi lá antes? Fui antes de tudo acontecer. Uma pausa. Valdir, os documentos que eu deixei com a Denise, se estiverem aí intactos, é prova suficiente para derrubar o Amaral. Escrituras com assinatura falsificada, contrato de compra e venda com data adulterada, comunicação entre ele e a Solange sobre a minha declaração de óbito.
Você guarda tudo isto na cabeça? Li tantas vezes antes de esconder que decorei. Ela olhou para as próprias mãos. É tudo o que eu tenho. Peguei no telemóvel e abri o mapa. Bairro de São Benedito, rua Marechal Deodoro. A 12 minutos de lá. Liguei o motor de volta. Vamos. Ela colocou a mão no meu braço por um segundo, leve, rápida, como quem aterra. E logo se levanta.
Obrigada, disse ela. Eu não fiz mais do que a sentir com a cabeça e a engatar a marcha, mas aquela mão leve no braço ficou lá muito tempo. Depois que ela levantou-se, senti-a o caminho todo até à rua Marechal Deodoro. O portão era verde, ou tinha sido verde em algum tempo. Agora estava descascado, com manchas de ferrugem nos cantos, a tinta saindo em lasca, como casca de árvore velha.
Uma pequena casa sobrado de dois andares, muro baixo com azulejo de flor partido no topo, uma mangueira no quintal cujos ramos passavam por cima do muro e penduravam folhas escuras na calçada. Eram quase 4 da manhã. A rua estava quieta, do jeito que a rua de bairro simples fica nessa altura. Um silêncio com textura, cheio de pequenos sons que só ouvimos quando o resto para.
Grilo, frigorífico ligado dentro de alguma casa. Um cão no fundo de um quarteirão respondendo a outro mais longe. Parei o camião a cerca de 50 m do portão. Motor desligado. É essa? Isadora disse. Tem luz acesa lá dentro? Ela olhou, franziu o senho. Não. 4 da manhã. Ninguém acorda à toa. Normal. Normal. Ela concordou. Mas não de uma forma que significava que estava convencida.
Significava que estava a concordar para não demorar mais. Porque o quanto ela precisava de ver a Denise estava sobrepondo-se a qualquer cautela. Eu compreendi isso, mas não fui embora da cautela por entender. Fala-me da Denise, disse eu, como ela é. Por quê? Porque eu preciso de saber se ela vai abrir a porta para mim ou levar-me de susto.
Isadora pensou por um segundo. Ela tem uns 50 anos, cabelo curto, grisalho, trabalha num mercado, caixa de supermercado faz 20 anos no mesmo local. Criou três filhos sozinha depois de o marido ter ido embora. Uma pausa. É o tipo de pessoa que não faz barulho, mas que só se apercebe do quanto é forte quando precisa dela de verdade.
Ela sabe que ias tentar contacto. Ela sabe que se eu conseguisse sair, eu ia aparecer à porta dela. Ela pausou. Ou mandar alguém. Então ela não vai assustar-se completamente. Não, completamente. Olhei para o portão de novo. Não vais comigo. Eu disse. Ela abriu a boca. Valdir Isadora. Falei o nome dela com firmeza, mas sem rispidez.
Se tiver alguém a vigiar aquela casa à espera que apareça, você aparece e acabou. Apareço e sou um estranho, um camionista pedindo informação, qualquer coisa. Ganho tempo. Fiz uma pausa. Fica-se no camião com a porta travada. Se não voltar em 15 minutos, vai-se àquela farmácia que a gente passou na avenida, pede para ligar para o SAMU, diz que tem um homem a passar mal na rua Marechal Deodoro.
Isso traz gente sem ser polícia local. Ela ficou-me olhando. Por que não polícia local? Porque me disse que o Amaral tem pessoas em toda a região. Polícia local pode fazer parte disso”, ela não respondeu, mas a expressão dizia que eu tinha acertado na preocupação. “15 minutos?” Repetiu ela. 15 minutos. Desci do camião.
A calçada da rua Marechal Deodoro tinha aquele piso de betão irregular que levanta no meio, onde a raiz de árvore passa por baixo. E eu Andei devagar nele, sem pressa, da maneira que o homem anda quando não quer parecer que está com pressa. Mãos no bolso da calças, cabeça ligeiramente baixa, como quem vai para algum lugar rotineiro a essa hora absurda.
Varri a rua com o canto do olho, sem virar a cabeça. Um carro preto parado uns 100 metros mais à frente no lado oposto. Motor desligado, sem ninguém que eu pudesse ver. Mas os carros pretos de madrugada numa rua de bairro t uma presença diferente dos outros automóveis. Ficam a parecer que estão aguardando, mesmo quando não estão.
Continuei andando. Cheguei ao portão verde, bati com os nós dos dedos três vezes. Não forte. O tipo de batida que faz com que quem quer ser ouvido por dentro sem ser ouvido pela rua. Esperei nada. Bati de novo quatro vezes. Uma luz acendeu-se no segundo andar. Um retângulo amarelo numa janela, passos no escuro lá dentro.
Alguém a descer escadas e depois uma voz de mulher do lado de dentro do portão cautelosa. Quem é? Dona Denise, bom dia. Desculpa a hora. Mantive a voz baixa e calma. Eu sou o Valdir. Venho de parte de uma amiga sua. Ela está bem, está comigo, mas não pode aparecer aqui agora. Ela me mandou bater nessa porta.
Silêncio do outro lado. Um silêncio que pensa. Como ela chama-se? A voz perguntou. Isadora Mendes. O trinco virou. O portão abriu um palmo. Só um palmo. E apareceu um rosto de mulher com cerca de 50 anos. Cabelo grisalho cortado a direito na altura do queixo, olhos escuros e demasiado acordado para ser sono interrompido.
Olhos de quem estava acordada antes de eu bater. Ela examinou-me de cima a baixo. “Você é camionista?”, disse ela. Não perguntou. Sou. Onde está ela? No camião, na rua, a cerca de 50 m. Denise olhou por cima do meu ombro na direção que eu tinha indicado. Depois olhou para mim de novo. “Entre”, disse ela. A sala da A Denise tinha uma mesa de centro com toalha de croché, um aparelho de televisão grande encostado à parede e em cima da estante fila de fotografias em porta-retratos que iam do tamanho de cartão até ao tamanho de folha
oficiosamente. filhos, netos, uma foto de formatura com beca azul, uma foto de batizado com bolo e balão, uma casa que foi construída foto a foto, ano a ano, por uma mulher que ficou quando muita coisa e muita gente foi. Ela não ofereceu-me café, ficou de pé no meio da sala, os braços cruzados no peito, com aquela postura de quem está a ouvir com todo o corpo.
Ela conseguiu sair, disse Denise. uma afirmação, e não uma pergunta, mas com um alívio enorme embutido, que ela não deixou aparecer completamente na voz. Conseguiu, está magoada, mas está bem. Saiu do cativeiro há alguns dias, ficou a esconder-se. Dias. Ela fechou os olhos por um segundo. Que graça de Deus, dona Denise.
Os documentos que ela deixou com a senhora. A expressão dela mudou, não muito, mas mudou. uma sombra pequena a passar por cima dos olhos. E naquele segundo soube, antes que ela falasse que havia alguma coisa errada. Vieram, disse ela, quando anteontem dois homens disseram que eram da câmara municipal, fiscalização de não sei quê.
Ela apertou os braços cruzados. Eu não deixei-o entrar, mas na noite seguinte, quando regressei do trabalho, ela virou-se a cabeça para o corredor. Vem ver. Segui ela pelo corredor estreito até um quarto nos fundos. O quarto estava do avesso, não do avesso de arrombamento violento, do avesso de busca metódica e cuidadosa, de profissional que sabe o que procura e como procurar, sem deixar marcas evidentes demais.
Gaveta aberta, roupa dobrada ao lado em vez de no lugar. colchão ligeiramente deslocado, o forro do armário levantado a um canto. Eles entraram pela janela das traseiras, ela disse. Não partiu nada, cerrou o trinco e os documentos. Ela foi até ao armário, abriu a porta, empurrou as roupas penduradas para o lado. Lá no fundo, pregada atrás do armário com fita adesiva, existia uma pasta plástica fina, do tipo que se compra na papelaria, transparente, com folhas no interior.
Eu tirei daqui antes de ir trabalhar nesse dia, ela disse, não sei porquê, pressentimento. Pegou na pasta e me estendeu. Esconde-se no meu soutien quando Vou para a rua. Parece ridículo, mas ninguém vai verificar isso. Eu quase sorri, mas não era o momento. Peguei na pasta. Eram umas 30 folhas, algumas impressas, algumas manuscritas, uma delas com carimbo de notário que dava para ver mesmo sem abrir bem.
Não era meu lugar examinar, era a prova. E prova fica intacta. Dona Denise, a senhora está em perigo aqui. Ela olhou para mim. Eu sei. A senhora pode ir paraa casa de alguém, familiar, amiga, alguém de outra cidade. Tenho uma irmã em Uberlândia hoje. A senhora vai hoje. Ela não protestou. Me olhou por um segundo com aquela expressão de mulher que tomou uma decisão difícil, muitas vezes antes, e sabe a diferença entre quando a situação manda e quando é escolha.
Desta vez era a situação a mandar e ela sabia. Dá-me um minuto”, disse ela e foi para o quarto de novo. Fiquei na sala. Olhei pela janela da frente com cuidado pelo canto do vidro. O carro preto continuava lá, agora com alguém lá dentro. via a brasa de cigarro acender e apagar pelo vidro escuro.
A Denise voltou em menos de trs minutos com uma bolsa de viagem e uma bolsinha de mão, sem drama, sem chorar, à maneira de quem juntou o essencial, porque sabe que o resto pode ser reposto se a pessoa estiver viva para repor. A minha irmã tem um marido que é motorista de autocarro. Ela disse, ele vai buscar-me, só preciso ligar. Liga já.
diz que é urgente. Parei. Mas não liga do telemóvel da senhora. Ela olhou para mim. Rastreiam, disse, não sei, mas não custa. Ela foi na cozinha e voltou com um telemóvel antigo, daqueles de tampa, sem internet. Flip velho que devia ter uns 15 anos. Chip de um neto que já não usa, ela explicou.
Nem chip ativo eu achava que tinha. ligou ao marido da irmã, falou baixo, rápido, como quem está habituada a passar informação com economia. Desligou. 40 minutos. A senhora espera dentro de casa com a luz apagada. Eu disse, não abre a ninguém que não seja ele. Quando ele chegar, vai logo para o carro sem parar. Ela acenou com a cabeça na porta.
Antes de eu sair, ela segurou-me o braço. Esta menina, ela falou, Isadora. fez uma pausa. Ela passou por coisa que a maioria dos pessoas não sobreviveria e sobreviveu, mas ainda precisa de alguém ao lado. Me olhou fundo. Não desapareça com ela, pois não? Não sumo. Ela soltou-me. Saí pelo portão. Andei de volta para o camião tentando não olhar para o carro preto.
Não olhei, mas senti. Senti a presença daquilo como sentimos quando alguém fica a olhar para ti de trás. A nuca formiga, as costas ficam rígidas. Continuei andando ao mesmo ritmo, mãos no bolso, passo regular. Quando abri a porta do camião e subi, Isador estava sentada direita, os olhos fixos em mim.
13 minutos disse ela. Há algum carro parado lá em baixo? – disse eu com alguém dentro. A cor saiu do rosto dela. Viram? Você? Podem ter visto, mas não vim logo para o camião. Dei uma volta ao quarteirão antes. Dei a entender que sou residente. Ela olhou pela janela com cuidado. Os documentos? Ela perguntou. Mostrei a pasta.
Os olhos dela encheram de uma maneira que ela não deixou transbordar. Mas eu vi aquele brilho específico de quem está a olhar para a única coisa concreta que prova que a sua vida foi real. “A Denise está bem?”, perguntou ela. “Tá. vai sair daqui a 40 minutos. Ela assentiu, depois olhou paraa pasta de novo. É suficiente para um processo disse ela.
Com um advogado certo, isto deita por terra o amaral. Transferência irregular, falsificação de certidão, cárcere privado. A voz era firme, mas os dedos que seguravam a borda da pasta estavam brancos de apertar. Mas para isso precisa de chegar a alguém que não seja comprado por ele. Há alguém assim? A A Denise sempre falou de uma mulher, a dona Marlene Vasconcelos, empresária, tem relação com a Polícia Federal de Uberlândia.
Ela fechou os olhos, mas eu não sei onde fica, não tenho contacto. Não sei se ela existe realmente ou se é só a esperança que a Denise criou para acalmar-me quando ficava desesperada. Uberlândia fica a quantos quilómetros daqui? Uns 80. Dei a partida. O motor acordou grave e seguro. Então a gente vai descobrir, disse eu. Foi quando o retrovisor devolveu-me algo que não esperava ver.
O carro preto tinha saído do lugar. Vinha na nossa direção devagar. Aquele devagar calculado de quem ainda não decidiu, mas está a se posicionando para quando decidir. Valdir, disse ela. Eu vi. Engatei a marcha. Puxei devagar paraa rua, sem acelerar de repente, sem fazer nada que parecesse fuga. Camião que sai de rua de bairro de manhã cedo é invisível num país que move tudo por camião.
Mas quando dobrei a esquina e apanhei o avenida, acelerei. Não muito, o suficiente. No retrovisor, o carro preto dobrou a esquina também. Isadora estava olhando para o espelho do lado dela, o corpo rígido, a pasta segura no colo com as duas mãos. “Eles estão a seguir-nos”, disse ela. Não era uma pergunta.
“Estou a ver”, disse eu. Apanhei a avenida principal no sentido da BR. Ainda tinha pouco movimento. Um autocarro de linha no ponto, um camião de pão de madrugada, uma moto de entrega, o suficiente para eu não estar completamente sozinho naquele asfalto. O carro preto manteve distância, quatro, cinco carros de espaço.
Profissional o suficiente para não fechar. Amador o suficiente para não sumir. O que vai fazer? Ela perguntou. Eu pensei por alguns segundos. Não posso correr com um camião carregado num centro urbano, disse eu, “mas posso fazê-los pensar que não estamos a fugir como posto de combustível. A gente para para abastecer como se fosse rotina.
Eles ficam com dúvida se nos viram mesmo ou se é coincidência.” Olhei para ela. “E o teu banco? Desce o boné até ao olho, fica de costas para a janela.” Ela fez sem questionar. Eu virei num posto ché, grande de beira de avenida, luzes todas acesas, dois carros a abastecer. Parei na bomba do lado de fora, desci. Fiz sinal para o frentista.
40 L de gasóleo, eu disse num tom de quem está completamente dentro de qualquer rotina normal. O frentista começou a abastecer. Enquanto que, pelo canto do olho, viu o carro preto passar lentamente pela entrada do posto. Parou. Um vidro desceu um palmo. Eu não olhei diretamente. Fiquei apoiado na lateral do camião, um pé cruzado no outro, o telemóvel na mão, como se estivesse a ler mensagem, a cabeça baixa.
O carro ficou 30 segundos, depois arrancou, continuou pela avenida. Eu fiquei a olhar para o telemóvel até ele sumir. Depois soltei o ar que não tinha percebido que estava a segurar. O frentista terminou. Paguei, subi. A Isadora estava deitada da forma que eu tinha deixado. Foram, disse eu. Ela ficou mais um segundo assim, depois se sentou.
Havia uma gota de suores correndo pela lateral do rosto dela. Por quanto tempo? Ela perguntou. Não sei. Ela olhou para o vidro da frente. Valdir, se nos apanharem com esses documentos, não vão pegar. Mas se apanharem, não vão. A minha voz saiu mais firme do que planeei. Mas mesmo que pegassem, olhei para ela. Você já memorizou o que está ali escrito, não é? Ela olhou para mim. Palavra a palavra.

Ela disse. Então nem lhe tiram isso. Ela ficou a olhar para mim por um segundo e, pela primeira vez, desde que a encontrei debaixo do meu camião naquela estrada escura de Goiás, vi qualquer coisa no rosto dela que não era só medo ou cansaço ou fria determinação de sobrevivente. Era algo parecido com esperança, pequeno ainda, frágil, mas estava lá.
Dei a partida, saí do posto, peguei na direção de Uberlândia. Do lado de fora, o céu começava a clarear de vez no horizonte Este, aquela fina faixa de laranja que precede o sol, que aparece antes de mais e que sempre me pareceu a coisa mais honesta que existe, porque não promete mais do que vai entregar. Vai amanhecer, diz. É o que tem. Eu aceitei e fui.
O sol nasceu na altura de Uberaba para trás. Eu vi pelo retrovisor aquela bola alaranjada empurrando o horizonte de baixo para cima, devagar, como quem não tem pressa, porque sabe que vai chegar de qualquer maneira. O asfalto para a frente estava ainda na sombra do amanhecer, aquela luz cinzenta azulada que deixa tudo com arestas imprecisas, como desenho que ainda não foi terminado.
A Isadora tinha virado para o lado da janela, não estava dormindo. Eu percebia pela forma como os ombros ficavam, pela respiração que não era suficientemente funda. Estava a olhar para o pasto que passava aquela sequência de cerca e gado e erva amarelada que o interior de Minas oferece quilómetro após quilómetro sem variar muito e que ou te aborrece ou te acalma, dependendo do que traz dentro de si na hora que olha.
Eu trouxe muita coisa naquele trecho, deixei vir. Às vezes a gente passa tanto tempo a represar o pensamento que quando dá um espaço de silêncio, chegam todos juntos em fila desarrumada e não tem muito que fazer, exceto deixar passar um a um. Pensei na Cláudia. Ela tinha ligado para a semana passada ou na semana passada. Os dias viram uma coisa uniforme quando a gente passa tempo na estrada.
Ligou num mau horário. Eu estava manobrado num pátio apertado em Ribeirão. Respondi com pressa. Disse que ligava mais tarde. Não liguei. Não é que não queira falar com a minha filha, é que há uma versão de mim que a Cláudia espera encontrar quando liga. Um pai presente, tranquilo, com boa novidade para contar, com interesse nas coisas dela.
E nem sempre tenho essa versão disponível. Às vezes o que tem é só cansaço e saudade velha. E eu não sei entregar-lhe isto sem que ela fique preocupada. E eu não quero ser peso na vida da minha filha. A A Tereesinha era diferente. Com a Tereesinha, podia ligar sem ter nada para dizer. Ela já sabia que antes de atender.
Às vezes ficávamos em silêncio ao telefone durante uns minutos inteiros, eu a conduzir e ela do outro lado. E não era constrangimento nenhum, era presença. A presença de alguém que não precisa que seja nada para além do que está a ser naquele momento. Eu não aprendi ainda a ter isso com outra pessoa. Não sei se aprendo. Você tá longe? disse Isadora, sem virar o rosto da janela. Demorei um segundo. Estou aqui.
Está aqui, mas está longe. Uma pausa. A as pessoas ficam assim quando pensam em gente que já não está. Eu olhei para ela de soslaio. Como sabe? Porque eu fico assim também. Ela finalmente virou o rosto. Tinha olheiras fundas. A mancha roxa no queixo era mais visível com a luz do dia, mas os olhos verdes estavam alertas daquele tipo de alerta.
que não precisa de sono. A minha mãe, às vezes, no meio de qualquer coisa, eu desapareço por dentro sem aviso. E quando regresso, tem sempre alguém a perguntar-me o que foi. Aprendi a dizer que não foi nada. E não é nada, é tudo. Ela disse. Mas explicar tudo é trabalhoso e nem sempre há quem queira ouvir até ao fim.
Eu concordei com a cabeça. A sua esposa. Ela continuou. Como se conheceram? Não era a pergunta que eu esperava, mas saiu natural, sem curiosidade de mexer em ferida. Era o tipo de pergunta que pessoa faz quando quer conhecer de facto, não quando quer preencher silêncio. Numa festa em Patos de Minas. Eu disse, eu tinha 22 anos, ela tinha 18.
Eu não queria estar naquela festa. Fui porque um primo arrastou-me. Fiz uma pausa. Ela estava num canto a conversar com uma amiga e a rir-se de alguma coisa. E o riso dela era o tipo de riso que faz com que a sala inteira ficar mais leve sem ela perceber. E foi falar com ela? Não fui não. Soltei ar pelo nariz.
Fiquei olhando de longe durante duas horas com medo de lá ir. Foi ela que me veio perguntar se eu estava bem, porque devia estar com cara de quem engoliu algo de errado de ficar parado num canto sem tomar coragem. Isadora deu uma pequena gargalhada. Foi a primeira gargalhada a sério desde que a conheci.
Durou apenas um segundo, mas encheu a cabine de uma forma que eu não esperava. Ela era assim, disse eu, tomava a iniciativa das coisas que eu não conseguia tomar e ficava a achar que era ela a ajudar-me, mas na verdade era só ela sendo ela que era uma pessoa que não conseguia ver alguém desconfortável sem fazer alguma coisa. Você era o desconfortável.
Quase sempre era eu o desconfortável. Ela ficou olhando para mim por um momento e quando ficou doente, disse com cuidado: “Estavas na estrada”. Não era acusação, mas era verdade. E às vezes verdade dita por outra pessoa tem peso diferente de quando pensamos sozinho. Pirtava. Eu disse, ela pediu para você ficar.
Essa era a questão que nunca conseguia responder sem sentir aquele nó específico a apertar-se atrás do externo. Não respirei fundo. Ela nunca pediu. Era assim com ela, como eu já disse, não queria ser peso. Então, quando os sintomas começaram, ela foi escondendo, foi dando conta da forma dela, foi mencionando nas chamadas como se fosse coisa menor.
Cansaço, uma dorzinha, nada a preocupar. E você acreditou? quis acreditar. Essa era a parte mais difícil. Tem uma diferença entre acreditar de verdade e querer acreditar porque é mais fácil do que encarar. Eu escolhi a segunda opção por tempo demais. Quando soube de verdade o que estava a acontecer e voltei para casa. O cancro estava no estágio três.
A Isadora não disse nada, ficou-me ouvindo. E isso, apenas isso. Ficar me ouvindo sem dar resposta rápida, sem dizer que não foi culpa minha, sem diminuir, foi o mais respeitador que alguém fez com esta história em muito tempo. Estive seis meses em casa. Continuei. Cuide dela da forma que sabia que não era muito. Olhei para o asfalto.
Morreu numa manhã de sábado, com sol à janela, mão na minha mão até não ter mais como segurar. Silêncio comprido. Lá fora, uma garça branca atravessou o campo rente ao chão e desapareceu atrás de um mato baixo. “Pedes perdão para ela”, disse a Isadora. Não perguntou. Mesmo sem ter com quem falar, pede perdão.
Eu não respondi de imediato. Todos os dias eu disse por fim. Ela olhou para a frente. Eu também, à minha mãe, por coisas que já nem sei se fiz de verdade ou se inventei com o tempo. Porque quando a as pessoas perdem alguém demasiado novo, o luto fica misturado com culpa, de uma forma que separa não dá mais. Uma pausa.
Eu fico a pensar que se tivesse feito algo diferente, ela ainda estava aqui. Sei que não é verdade, mas o coração não obedece ao que a cabeça sabe. Não obedece. Confirmei. Outro silêncio, este mais tranquilo. O tipo de silêncio que acontece depois de se dizer coisa pesada e o ar fica mais limpo, não mais leve.
Mais limpo tem diferença. Limpo é quando a verdade foi falada e pode ficar ali sem ter de ser defendida ou explicada. Foram quase 40 minutos sem dizer muito. Pus o rádio baixinho, uma rádio AM de interior que tocava música sertaneja antiga, a de viola e voz, não o sertanejo que a televisão empurra. A voz do locutor aparecia de vez em quando entre as músicas com aquela dicção impostada de rádio do interior, lendo comunicado de quinta, recado de família, aviso de leilão.
Isadora ficou ouvindo com os olhos fechados, não a dormir, só ouvindo. Em veríssimo, Parei num pequeno posto para comprar água e dar uma esticada. A perna direita estava a travar, aquela dor surda de músculo que fica na mesma posição horas demais. Desci, caminhei até à bomba, bebi água na torneira do lado. O frentista era um homem velho, magro, com um chapéu de palha desbotado e um cigarro atrás da orelha que já devia estar ali há algum tempo.
“Bom dia”, disse sem entusiasmo especial. Bom dia. O senhor sabe-me dizer se tem alguma alternativa para BR050 daqui até Uberlândia? Prefiro estrada secundária hoje. Ele olhou para mim com aquela expressão de quem lida com um camionista toda a vida e sabe que quando um pede estrada alternativa é porque tem motivo.
Tem a 452 velha até ao cruzamento de Araporã, disse. Mais barro, mais buraco, mas vai tranquilo se o camião aguentar. Aguenta! Ele acenou com a cabeça. Quando voltei para o camião, o Isador estava com os olhos abertos, olhando para o tecto da cabine. “Acredita que as pessoas se encontram por razão?”, perguntou ela quando entrei.
Sentei-me, fechei a porta. “Como assim que certas pessoas cruzam o seu caminho porque precisam cruzar?” “Não por acaso. Por razão.” Pensei um segundo. Nunca fui muito de acreditar numa coisa que não se consegue ver. Eu disse, mas nestes últimos anos aprendi que o que não consigo explicar é maior do que aquele que consigo. Encarei o painel. Por isso não descarto.
Eu estive a pensar nisso essa noite toda. Ela virou-se para mim. Que camião passa por aquela estrada todos os dias? Centenas. E parou exatamente ali. Exatamente naquele ponto. Exatamente naquela altura. Uma pausa. E não se foi embora. Tinha um ruído no eixo. O barulho podia ser ignorado. Você mesmo o disse.
Eu não respondi isso porque era verdade. E às vezes a verdade não precisa de resposta, precisa apenas de espaço para ficar. A estrada velha que o homem do chapéu indicou era estreita e cheia de curva fechada, cortando entre propriedades rurais antigas, passando por aldeias que tinham nome, mas não tinham matrícula.
Numa dessas vilas, meia dúzia de casas, uma igrejinha de porta fechada, um bar com mesa de plástico vermelho na calçada, uma mulher pendurava roupa no estendal em frente da casa com uma criança pequena enroscada na perna dela tentando atrapalhar. Isadora olhou para a cena enquanto passávamos.
Ficou a olhar até desaparecer no retrovisor. “Eu queria ter tido isso”, disse ela. Baixo quase para si. O quê? Isso. Uma casa, uma rotina, alguém enroscado na perna. Ela encolheu um pouco os ombros. Parece pouco quando tem. Parece tudo quando não se tem. Ainda vai haver, disse eu. Ela não respondeu, mas também não discordou.
E para mim naquele momento foi o suficiente. Foi perto do cruzamento de Araporã que o problema aconteceu. O camião puxou diferente, uma resistência ligeira no motor, como se ele estivesse a forçar mais do que devia para manter a velocidade. Eu senti antes de ouvir, depois ouvi. Um chiado fino, agudo, proveniente do capô.
Reduzi, o ruído aumentou. O que foi? Isadora firmou-se no banco. Deixa-me ver. Encostei no berma de terra, motor ainda ligado, mas com o ruído a ficar mais grave. Desci, abri o capot. O vapor me acertou na cara antes de eu conseguir ver. Não era fumo denso, era vapor d’água, branco e quente, saindo do reservatório do radiador em jato fino.
A correia do alternador tinha rebentado. Ficou numa das metades dependada, enrolada na polia como uma cobra morta. Fui à caixa de ferramentas no chassis. Tinha correia de reserva, levo sempre. Mas a que tinha não era do tamanho certo. Tinha sobrado de outra viagem, de outro motor, guardada por precaução.
Servia de emergência se conseguisse dobrar, se as polias aceitassem. Ia ser difícil. Voltei paraa cabine. Correia rebentou. Eu disse. Tenho uma reserva, mas não é a medida certa. Vou tentar adaptar. Isadora estava a olhar paraa estrada atrás de nós. “Não há sinal aqui”, ela disse com o telemóvel levantado na altura do ombro. “Nenhum, eu sei.
E não passa automóvel nessa estrada. Vou corrigir. E se não conseguir, por isso vou demorar mais para reparar.” Olhei para ela. Fica dentro. Não desce sem eu pedir. Fui trabalhar. O sol já estava alto o suficiente para queimar o pescoço. A terra da berma estava seca e dura. rachada em quadradinhos como cerâmica velha, deitei-me debaixo do capô aberto com a correia na mão, avaliando o tamanho da diferença entre o que eu tinha e o que precisava.
Era possível, trabalhoso, mas possível. Comecei a encaixar. As polias quentes queimavam os dedos quando eu errava o posicionamento. O suor escorria pela testa e pingava no metal. Eu ia devagar. A pressa em reparação de motor é o forma mais rápida de estragar mais coisa. Tinha cerca de 20 minutos de trabalho quando ouvi a porta da cabine abrir.
Eu disse para ficar dentro, falei sem sair debaixo do capô. Tem uma carrinha vindo respondeu Isadora. A voz era controlada, mas eu conheço já o que está por baixo quando ela controla assim. Saí debaixo do capô. Uma carrinha branca, cabine dupla, vinha lentamente pela estrada de barro, placa de minas, um só homem dentro de boné, braço apoiado na janela aberta, parou ao nosso lado.
O homem era de uns 45 anos, rosto curtido de sol, o tipo de gajo que passou a vida a olhar para o horizonte de quinta e tem o tempo marcado na pele. Problema? Ele disse, olhando para o capô aberto. Correia arrebentada. Estou a adaptar uma que tenho, mas estou no detalhe. Ele desligou a carrinha, desceu sem ser convidado, veio olhar.
O tipo de homem do interior que não pergunta se pode ajudar, vai chegando, vai vendo. Tem folga a mais aqui disse, indicando o encaixe que tinha feito. Vai escorregar na polia assim que ligar. Eu sei. Tô tentando resolver esse ponto. Ele coçou o queixo por baixo do boné. Espera. Foi na carrinha, voltou com uma caixinha de ferramentas, tirou de lá uma braçadeira de metal fina.
Isto não resolve o problema, mas segura mais algum tempo, ele disse. Dá, dá para tu chegares a um mecânico. Trabalhamos os dois em silêncio durante uns 10 minutos. Ele sabia o que estava a fazer. Mão firme, sem hesitação, sem precisar que eu explicasse onde encaixar. homem que cresceu a arranjar coisa com o que tem. Quando ficou pronto, liguei o motor.
Funcionou. O ruído desapareceu. Não totalmente, mas desapareceu o suficiente. “Aguenta umas 3s horas se não forçar”, disse, enxugando as mãos num pano velho que tirou do bolso. “Obrigado”, disse eu. “O que me deve?” Sacudiu a mão no ar. “Não deve nada. Fez menção de voltar paraa carrinha, depois parou.
Virou-se com uma expressão diferente da que tinha antes, mais fechada, mais pesada. “Perdoa-me a pergunta”, disse ele. “Mas uns homens passaram pela minha propriedade ontem de tarde. Perguntaram por uma jovem com uma descrição semelhante à da sua acompanhante. Ele não olhou para A Isadora, olhou para mim. ofereceram dinheiro por informação.
O meu coração não parou, mas foi-se aproximando. O homem continuou: “Não sou de me meter em vida alheia, mas também não sou de vender informação sobre mulher que está a fugir.” Fez uma pausa. Ela está a fugir, não é? Eu olhei-o por um segundo. Tá. Ele acenou uma vez com a cabeça. Só isso. Então vai logo, disse, e apanha a saída de Araporã pela estrada vicinal do lado esquerdo, não pela principal.
A principal passa na frente de um posto onde hoje de manhã cedo vi um carro preto que não era daqui parado. Ele voltou a carrinha, ligou, foi embora, não pediu explicação, não esperou que o agradecimento, desapareceu na poeira da estrada de terra batida, como tinha vindo devagar, com aquela presença tranquila de gente do interior que resolve o que pode e não faz alarido do que fez.
Eu Fiquei parado um segundo, a olhar para o rasto de poeira. A Isadora tinha ouvido tudo pela janela entreaberta. Quando entrei na cabine, ela estava a olhar para as próprias mãos no colo. “Um estranho”, disse ela baixinho. “Um estranho nos ajudou. Segundo?” Eu disse. Ela me olhou.
Segundo o estranho que te ajuda desde ontem à noite. Eu completei. Ela ficou a olhar para mim por um momento. Depois olhou paraa frente, para a estrada de barro que se esticava entre o pasto amarelado e o céu branco de calor. “Talvez o mundo não seja só o Amaral”, ela disse, “deagar, como quem está testando o peso de cada palavra antes de deixar sair. Nunca foi só ele.
Eu disse, ele é o mais barulhento. Mas barulhento não é a maioria. Ela ficou quieta. Eu dei a partida com cuidado, prestei atenção no roncar do motor, verifiquei que a correia estava a aguentar. Estava. Peguei na estrada vicinal da esquerda, como o homem tinha dito. Era ainda mais estreita, mais barro, mais buraco.
O camião queixava-se em cada toleiro mais ia. Isadora ficou a olhar pelo vidro. Num certo ponto da estrada tinha uma enorme paineira no meio do campo, sozinha. Aquela árvore que fica sem folha no início do ano e enche-se de algodão branco plumas soltas pelo vento. Nesse momento, com o sol de frente e o vento soprando, as plumas cruzavam a estrada à nossa frente como neve lenta, como uma coisa do outro mundo, fora do lugar e linda.
Por isso, Isadora olhou para aquilo e ficou a olhar por um longo tempo depois de a paineira já ter ficado para trás. Eu não disse nada, mas guardei aquela imagem da forma que guarda coisa rara, sem apertar demais, com cuidado, com o respeito de quem sabe que certas coisas são frágeis, exatamente porque são verdadeiras. Faltava pouco para Uberlândia.
O motor segurava e eu ia. Uberlândia apareceu no horizonte como grande cidade aparece quando vimos do interior. Primeiro as torres de energia, depois os silos, depois os primeiros edifícios surgindo acima da linha do serrado, como dentes de algo enorme que vai emergindo lentamente da Terra.
Eram quase 10 da manhã, o motor segurava, mas sentia a diferença. Um esforço acrescido em cada subida, o ressonar ligeiramente mais forçado, a temperatura no painel 1 grau acima do normal. A correia adaptada estava fazendo o que podia, não ia durar muito mais. Entrei na cidade pela marginal, evitei o centro. Isadora foi guiando por ruas que ela não conhecia bem, no telemóvel, sem sinal, tentando carregar o mapa que teimava em não carregar.
A gente foi indo por lógica e por sorte, que, por vezes, são a mesma coisa. A Denise falou o nome da mulher. Eu disse, Marlene Vasconcelos. Tem algum outro pormenor para além disso? Empresária. A A Denise disse que tem uma relação com a Polícia Federal de Uberlândia. Ela franziu o senho. Uma vez a Denise referiu que ela estava no jornal há causa de um projeto social.
Não me lembro o nome do projeto, mas existe mesmo. A Denise não inventaria isso. Ela é o tipo de pessoa que não promete o que não tem. Parei num semáforo vermelho. Do exterior, a cidade acordada, motos a passar, autocarro a barrar na parada, dois homens a conversar na calçada com chávena de café na mão. A normalidade da vida de todos os dias, aquele fluxo que não para mesmo quando a vida de alguém está em pedaços do lado de dentro.
O sinal abriu. Há uma coisa que eu posso tentar. Eu disse. O quê? Liga para uma rádio local. Am. Rádio de interior às vezes conhece toda a gente que é conhecido na cidade, pede informações sobre projeto social, sobre Marlene Vasconcelos. Ela olhou para mim. Você liga para a rádio para pedir informação de pessoa? Camionista liga para a rádio para tudo.
Para saber de trânsito, de acidente, de posto fechado, de mulher que apareceu na estrada. Olhei para ela. Não é incomum. Não vai chamar atenção da forma errada. Ela pensou um segundo. Tenta. Sintonizei a rádio no mostrador enquanto andava. A M 1080, a primeira que pegou forte, locutora feminina com dicção de rádio, mas tom de conversa, anunciando o horário local entre músicas. Esperei pelo intervalo.
Liguei do meu telemóvel quando a locutora abriu o programa de recados. Rádio Triângulo, pode falar, respondeu uma voz de produção jovem. Bom dia, sou camionista Valdir Neves. Estou passando por Uberlândia e estou a tentar localizar um projeto social que vi mencionado numa revista da Associação Comercial de Minas.
Acredito que é coordenado por uma senhora chamada Marlene Vasconcelos. Alguém da equipa sabe me informar? Pausa curta do outro lado. Um momento, 30 segundos de espera. O Isador olhava para mim com a expressão de quem não acredita que este pode funcionar. Senr. Valdir, a voz voltou. A Dona Marlene Vasconcelos é conhecida sim.
Coordena o Instituto Raízes, que trabalha com reintegração de mulheres em vulnerabilidade. O instituto fica na rua Afonso Pena, número 847, no bairro dos Martins. A senhora também atende no seu consultório no mesmo morada, segundo andar. Isadora fechou os olhos. Não de alívio, apenas de algo maior que o alívio.
Muito obrigado, eu disse. Deus abençoe. Vai com Deus, camionista. Desliguei, olhei para ela. Existe, disse eu. Existe ela repetiu com uma voz que mal saiu. A rua Afonso Pena, no bairro Martins, era de um antigo palacete com fachada conservada. Aquele tipo de rua que toda a cidade do interior de Minas guarda com orgulho.
Calçada larga, árvore frondosa a cada dois lotes, um ou outro comércio elegante no térrio de sobrado histórico. O número 847 era um sobrado de dois andares, fachada amarela com janelas verdes, uma placa discreta de bronze junto ao portão. Instituto Raízes, atendimento a mulheres em situação de vulnerabilidade. Em baixo, um segundo brasão menor, escritório vasconcelos, advocacia e consultoria.
Parei o camião dois quarteirões antes. Não cabia perto. E camião parado em frente de Instituto Social chama a atenção que eu não queria chamar. Isadora, disse eu. Ela olhou para mim. Não pode entrar. Eu sei. Não porque não seja seguro aqui, mas porque se o Amaral tem gente a olhar para si andando na rua em plena luz do dia.
Eu sei, Valdir, disse ela sem impaciência. Disse como quem já pensou antes. Você vai. Vou. Mas primeiro passa-me tudo o que sabe que está nesses documentos, nome, data, notário, o que puder. Se a Marlene Vasconcelos for de confiança e pedir para ver prova antes de se comprometer, preciso de ter alguma coisa para contar. Issadora fechou os olhos por alguns segundos e começou a falar.
falou por quase 10 minutos de memória, sem parar, sem hesitação em data ou nome, escritura lavrada no cartório do primeiro ofício de Uberaba em Setembro de 2008, assinatura de Isadora Mendes Borges aposta quando tinha 15 anos e estava internada em clínica privada, sem capacidade jurídica para assinar coisa nenhuma.
Contrato de compra e venda com preço de R$ 56.000 por propriedade avaliada em mais de 1.200, certidão de óbito emitida em nome dela em março de 2018, sendo declarante a tia Solange causa mortes registada como insuficiência cardíaca aguda. Eu ouvia e memorizava o que podia. “Basta”, eu disse quando ela parou. “Tenho o suficiente.
Vai conseguir lembrar-se?” Não tudo, mas o suficiente para convencer alguém de que isso é real. Ela pegou na pasta plástica do colo e deu-me estendeu. Leva. Vai ficar sem. Se se entrar com os documentos originais, tem mais peso do que apenas a palavra. Ela olhou para mim. Eu decorei. Pode levar. Peguei a pasta.
Ela era mais leve do que parecia quando tinha tanto peso lá dentro. Valdir. A voz dela saiu diferente daquela vez, mais funda, como quando uma pessoa finalmente diz a coisa que estava guardando desde o início. Se ela não quiser envolver-se, se não der em nada, se entrar lá e for mais uma porta fechada, não antecipa.
Preciso de saber o que fazemos se não der certo. Eu pensei realmente antes de responder. Se não der certo aqui, vamos para Polícia Federal direto, unidade de Uberlândia. Fiz uma pausa. Polícia Federal tem um delegado federal. Não responde a presidente de câmara, a vereador, a homem de fato de Uberaba. É mais difícil de comprar.
E se, Isadora? Coloquei a mão no assento entre nós, não nela, mas perto, uma coisa de cada vez. Primeiro a Marlene, depois decidimos o próximo passo com o que tiver à mão. Ela respirou, assentiu. “Vai já”, ela disse. Não gosto de estar parada. A recepcionista do Instituto Raízes era uma rapariga de cerca de 30 anos com óculos de armação grossa e um ar de quem filtra bem quem entra e quem não entra.
me olhou de alto a baixo quando entrei. Homem grande, camisa de manga curta com mancha de gordura no antebraço, a pasta plástica na mão. Eu sabia o que ela estava a ver. Não tentei ser outra coisa. Bom dia disse eu. Preciso falar com a dona Marlene Vasconcelos. É urgente e é grave.
A senora Marlene tem uma agenda até ao meio-dia. O senhor tem horário marcado? Não tenho, mas o que tenho é mais importante do que qualquer horário. Ela olhou-me por um segundo com aquela expressão profissional que não entrega nada. Pode informar-me o assunto? Posso. Apoiei a pasta à beira da recepção devagar e falei baixo o suficiente para só ela ouvir. Cárcere privado.
Falsificação de certidão de óbito e de um nome que a dona Marlene vai reconhecer. Rodolfo Amaral. A expressão dela não mudou completamente, mas os ombros subiram 1 milímetro. “Um momento”, ela disse. “Foi. Voltou em menos de 2 minutos. A senora Marlene vai atender o senhor agora. Marlene Vasconcelos tinha uns 60 anos, cabelo completamente branco, curto, com aquela elegância de quem deixou de lutar contra o tempo e passou a andar ao lado dele.
Ombros direitos, roupas simples, sem jóias, sem enfeite. Uma sala funcional, secretária, dois sofás, uma estante com processo encalhado nas prateleiras do chão ao teto, um quadro na parede com a foto de um grupo de mulheres sorridentes em frente de uma horta. Ela examinou-me quando entrei.
Não da forma que examina para julgar, da forma que examina para entender. “Sente-se.” Ela disse. Sentei-me no sofá da frente. Ela ficou na cadeira atrás da mesa, os cotovelos apoiados, os dedos entrelaçados à frente do rosto. A a minha recepcionista disse que o senhor referiu Rodolfo Amaral. Mencionei. Este nome tem peso nesta região.
Uma pausa. Quem manda esse nome procurar-me? Ninguém mandou, eu vim por conta, mas há uma jovem que esteve oito meses em cárcere privado numa propriedade ligada a ele, que está viva quando o papel diz que está morta e que tem documentos que provam fraude, falsificação e sequestro. Coloquei a pasta em cima da mesa.
Esta jovem não pode aparecer em público por enquanto. Então apareci eu. Marlene Vasconcelos não tocou na pasta. Imediatamente me olhou por um longo segundo. O senhor quem é? Camionista Valdir Custódio Neves. Encontrei esta rapariga na estrada há dois dias. Não tenho interesse nenhum nesta história, além de que ela chegar a algum lugar seguro, com a verdade intacta.
Porque não foi direto à Polícia Federal? Vim aqui primeiro porque a única pessoa de confiança que esta rapariga tinha no mundo mencionou o seu nome como referência. Fiz uma pausa. Se a senhora me mandar embora ou não quiser envolver-se, eu compreendo e vou direto para federal com o que tenho. Ela ficou-me olhando por mais um momento, depois abriu a pasta, leu em silêncio, devagar, com atenção, voltando a páginas, verificando datas.
levantando folhas contra a luz da janela. Não fez barulho nenhum enquanto lia. Não comentou, apenas leu. Demorou 12 minutos. Quando fechou a pasta, ficou a olhá-la por alguns segundos. Isadora Mendes Borges. Ela disse, “Não para mim, quase para si. Eu ouvi esse nome há anos. Na altura, um advogado que trabalhava para mim estava apurando irregularidade numa transferência de terras em Uberaba.
Ele encontrou referência ao nome dela num contrato. Quando foi aprofundar, o processo foi arquivado. O advogado recebeu ameaça e saiu da cidade. Ela me olhou. Onde está ela agora? No meu camião. Há dois quarteirões daqui. Marlene Vasconcelos esteve parada durante 3 segundos, depois levantou-se, foi até ao porta e chamou a recepcionista.
“Cancela a minha agenda até ao fim do dia”, ela disse. E liga ao delegado Fonseca. fala que preciso dele aqui daqui a uma hora, que é aquele assunto que ele sabe. Voltou paraa sala. Vai buscar essa rapariga ela disse-me, pela entrada de serviço nos fundos. Eu própria vou abrir. Quando voltei para o camião e abri a porta, Isadora tinha o telemóvel na mão, olhando o sinal que tinha voltado um só tracinho insuficiente para qualquer coisa.
olhou para mim, leu a resposta no meu rosto antes de eu falar. Ela acreditou, disse a Isadora. Não perguntou, acreditou. Tem um delegado federal chegando em uma hora. Ela ficou a olhar para a frente por um segundo. Depois o queixo foi tremendo. Só um bocadinho. Ela controlou rápido, da forma que eu já tinha aprendido que era o jeito dela, apertar o lábio, piscar uma vez, respirar pelo nariz.
Mas desta vez não segurou completamente. Uma lágrima desceu pelo lado do rosto ferido. Ela não limpou, ficou ali. Vai acabar, eu disse. Ela assentiu sem falar. Isadora, ela olhou para mim. Vai ter que contar tudo ao pormenor. Vai ser difícil. Já há tempo que tudo é difícil. Mas esse difícil é diferente. Este aqui serve para alguma coisa. Ela respirou fundo.
Eu sei. Dei a volta ao quarteirão devagar. Parei o camião nos fundos do sobrado amarelo. Marlene Vasconcelos já estava à porta de serviço, como tinha dito, esperando-nos com uma expressão que não era de pena, era de respeito, tinha grande diferença. Isadora desceu do camião com cuidado, ficou de pé na calçada estreita das traseiras, a jaqueta minha ainda nos ombros, o pé enfaixado, o rosto marcado.
As duas mulheres se olharam por um segundo. Então Marlene deu um passo, colocou a mão no ombro de Isadora e disse: “Tu és real, tu existe e agora tem testemunha disso”. Isadora fechou os olhos e desta vez não conteve. Chorou de uma forma que eu nunca vi naquelas horas. Não aquele choro contido de quem tem vergonha, mas um choro fundo de corpo inteiro, que vem de local que esteve fechado por tempo demais e que quando finalmente abre, abre.
De verdade. Marlene não disse mais nada, apenas ficou com a mão no ombro dela. Eu fiquei parado do lado do camião a alguns metros, olhando para o piso da calçada, porque havia horas que a presença mais honesta que podemos oferecer é ficar um passo atrás e deixar a pessoa ter o que precisa de ter. Aprendi que tarde, mas aprendi.
O delegado federal chamava-se Fonseca. Chegou 40 minutos depois, homem com cerca de 50 anos. Paletó sem gravata, pasta de couro na mão, aquele andar de pessoa que entrou em muita sala difícil e já não perde tempo com formalidade desnecessária. Cumprimentou a Marlene, olhou para mim, olhou para a Isadora. Sentámo-nos na sala grande do segundo andar. A Isadora falou durante 1 hora e meia.
Fiquei no canto, numa cadeira perto da janela, ouvindo. De vez em quando o O delegado Fonseca interrompia com questão técnica: nome, data. Endereço exato e ela respondia sem hesitar aquela memória de sobrevivente que guarda detalhe porque entende que o detalhe pode salvar. A meio da terceira hora, Fonseca fez uma chamada, saiu da sala, voltou 15 minutos depois, com a expressão de quem confirmou alguma coisa que já suspeitava.
O sítio em Goiânia tem endereço registado em nome de empresa de fachada ligada a Amaral, ele disse, já tínhamos esse endereço em outro inquérito, nunca tinha dado resultado porque não havia vítima disposta a depor. Ele olhou para Isadora. Agora há Isadora não disse nada, mas aprumou-se na cadeira. Aquele pequeno gesto, basta sentar-se mais direito.
Só isso. Disse mais do que qualquer palavra teria dito. Foi ao fim da tarde, quando o sol batia de lado nas janelas verdes do sobrado, e a sombra das árvores da rua já cortava metade do passeio que Fonseca levantou-se e estendeu a mão para mim. Senr. O Valdir olhou para mim com uma seriedade que não era protocolo, era genuína.
O que é que o senhor fez nesses últimos dois dias? Ele fez uma pausa como quem está a medir palavra. Há muita gente que faz o cálculo errado quando encontra uma situação destas. Prefere não se envolver. O senhor fez o cálculo certo. Não fiz cálculo nenhum, disse eu. Ele me olhou. Eu sei. Ele disse. É exatamente por isso.
Apertou-me a mão firme e foi cuidar do que tinha para cuidar. Quando saí do sobrado, já eram quase 5 da tarde. O céu estava daquele laranja profundo de fim de tarde de cerrado, aquela cor que não há em mais lado nenhum do mundo, que só encontramos nestas latitudes e nessas horas, e que faz até a gente mais cansada parar um segundo. Fiquei parado no passeio ao lado do meu camião.
Acendi um cigarro, o último do maço. Tinha-me esquecido que o maço estava a acabar. E quando a última tragada termina, a gente sempre se lembra-se de coisas que tinha deixado para depois. A Isadora apareceu à porta de serviço. Veio ter comigo. Estava com o rosto lavado, o cabelo penteado para trás, ainda com o meu blusão. Alguém lá dentro deve ter oferecido alguma coisa para ela, porque a expressão estava diferente. Não aliviada completamente.
Este tipo de peso não levanta de uma vez, mas assente, com mais chão embaixo. Vão montar operação ainda essa noite. Ela disse. Fonseca disse que tem gente suficiente. Vão entrar no sítio. E a Denise? Já enviaram alguém para Uberlândia para garantir a segurança dela? Eu assenti. Ficamos parados um segundo, os dois a olhar para o movimento da rua.
“Vais embora?”, disse ela. “Não era uma pergunta. Tenho carga para entregar com dois dias de atraso e um motor que necessita de mecânico antes de sair daqui. Ela deu uma pequena gargalhada, aquela mesma gargalhada curta de dentro do camião, quando eu contei da festa em Patos de Minas. Valdir, ela olhou para mim, os olhos verdes com o laranja do céu lá dentro.
Eu vou-te perguntar uma coisa e não precisa responder se não quiser. Pergunta. Você está bem, de verdade. A pergunta me apanhou sem defesa. Fiquei a olhar para ela por um segundo. Pensei na Terezinha, no tempo que não voltou, no Murilo que estava a crescer e eu vendo de longe, na Cláudia que eu não ligava, na estrada que eu usava como desculpa para não ter que ficar parado dentro de mim mesmo.
Ainda não, já disse, mas acho que estou melhor do que estava ontem à noite. Ela assentiu. Eu também. Abraçou-me. Não, o abraço rápido de quem está a cumprir o gesto. Foi um abraço demorado, daquele maneira que abraçamos quem arrancou junto connosco de algum lugar difícil e que vai fazer sempre parte daquilo que fez-nos sair do outro lado.
Eu segurei-o de volta. Por um segundo, fui o camionista solitário de Patos de Minas, que não sabia como estar perto de coisa que importava. Mas só por um segundo. Depois fui apenas o Valdir, presente, inteiro ali. Quando ela se afastou-se, tinha algo de diferente no rosto dela. Não era só gratidão, era reconhecimento.
A mesma coisa que eu sentia a olhar para ela. Dois sobreviventes reconhecendo-se um ao outro. Vai visitar a sua filha, disse ela. Vou, disse eu. E desta vez sabia que ia. O mecânico chamava-se Eustáquio. Tinha uma pequena oficina à saída de Uberlândia, aquele tipo de sítio que não tem placa chamativa nem fachada pintada, apenas um portão de ferro aberto com massa lubrificante no asfalto à frente e o barulho de chave de fenda vindo lá de dentro como prova de que estava a funcionar.
A Marlene tinha me passado o contacto. Homem de confiança disse ela, que não fazia perguntas desnecessárias e não cobrava mais do que devia. Chegou lá, eram quase 6 da tarde. Eustáquio era um homem baixo, calvo, com as mãos mais escuras de óleo do que de pele, que veio até ao camião, ouviu o motor durante 30 segundos e disse sem cerimónia: “Correia errada no lugar de correia certa.
Quem fez isto aqui?” “Emergência rodoviária.” “Hum.” Ele andou à volta, agachou-se, olhou por baixo, levantou-se. Tenho a correia certa em stock. Uma hora de serviço. Pode fazer agora. Posso, se me deixar trabalhar sem estar em cima a perguntar como está, fico aqui quieto. Assim, pode Fui sentar-me num banco de madeira encostado à parede da oficina.
O banco estava gasto no meio de tanto estar sentado com um fundo de forma humana impresso no madeiramento. Alguém se tinha sentado ali muitas vezes à espera que o problema seja resolvido. Puxei o telemóvel, fiquei olhando para o ecrã por um momento. Tinha cinco mensagens da transportadora. Duas educadas, uma menos, duas que preferi não ler até ao fim.
Tinha uma do meu cunhado a perguntar se eu estava bem, porque a Cláudia tinha comentado que não conseguia encontrar-me. Tinha uma notificação de banco que ignorei e tinha o contacto da Cláudia no topo da lista de conversas com a última mensagem dela de há quatro dias. Pai, quando passa por Ribeirão esta semana? O O Murilo perguntou por si.
Fiquei olhando para esta mensagem por tempo demais. O Murilo tinha perguntado por mim 4 anos. E o menino perguntava pelo avô. Há coisa que a gente deixa acontecer sem se aperceber bem. O tempo passando, a distância habituando-se, a ausência tornando-se normalidade para todo mundo.
Até ao dia em que alguém de 4 anos pergunta onde está. E aí você compreende que o tempo não o esperou decidir o que fazer com ele. Digitei uma resposta à Cláudia. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei novamente. Na terceira vez enviei sem reler. Filha, estou em Uberlândia. Atraso na viagem, mas estou bem. Assim que resolver o camião, passo aí antes de regressar a Ribeirão.
Abraço o Murilo por mim. Ligo-te logo. Mandei. Fiquei a olhar para o cheque azul aparecer. 30 segundos depois, ela respondeu: “Só um coração”. Às vezes, uma pessoa resume tudo num só coração e não precisa de mais nada. Eustáquio terminou em 55 minutos, ligou o motor, ouviu, desligou, ouviu o silêncio, ligou de novo.
Fê-lo três vezes antes de se levantar satisfeito. Agora está certo, ele disse. Paguei o que ele pediu, que era justo. Apertei-lhe a mão. Obrigado. Obrigado, quem trabalhou, disse, sem falsa modéstia e sem vaidade. Só facto. Subi para o camião. O motor pegou limpo, sem esforço, aquele ronco igual e seguro que eu conhecia, como quando uma coisa volta a ser ela própria passado um tempo a funcionar pela metade.
Dá para perceber a diferença só de ouvir. Saí da oficina quando o sol já tinha desaparecido e o céu estava naquele roxo escuro de entre noite. As estrelas mais fortes a começar a aparecer nos pontos onde a nuvem abria espaço. Tomei a direção de Ribeirão Preto, mas antes passei de novo pela rua Afonso Pena.
Não parei, apenas passei devagar. As luzes do segundo piso do sobrado amarelo ainda estavam acesas. Havia uma viatura da Polícia Federal estacionada no passeio. E através da janela iluminada, consegui ver por um segundo a silhueta de Isadora sentada numa cadeira com outra pessoa ao lado e o gesto que ela fazia com as mãos enquanto falava.
Aquele gesto de quem está a contar algo que importa, de quem está a ser ouvida de verdade pela primeira vez em muito tempo. Continuei. Não precisava de mais do que aquilo. A BR050 de noite tem um jeito muito próprio. É uma estrada de traçado largo, bem asfaltada no troço de Uberlândia para ali, com boa iluminação nos troços urbanos e depois o escuro limpo do interior. Passam muitos camiões.
A gente vê-se de longe. aqueles faróis altos que se reconhecem de K e têm um código não escrito entre camionista na estrada à noite que a maioria dos pessoas não conhece. Quando pisca duas vezes para o camião que vem na contramão e ele volta a piscar, é só isso. É cumprimento, é, vi-te, estou aqui.
Boa viagem, coisa pequena que não tem nome, mas que existe há décadas nessas estradas e que sempre achei uma das coisas mais honestas. que o ser humano inventou. Fui piscando para cada um que passou. Cada um piscou de volta. Boa viagem. Boa viagem. Boa viagem. Eram quase 11 da noite quando o meu telemóvel tocou. Número desconhecido. Minas Gerais.
Atendi com o vivoz sem sair da velocidade. Olá, Valdir. A voz era de Isadora. Está a conduzir? Tô. Pode falar. Eles entraram no sítio. O meu coração disparou. Mantive a velocidade e uma pausa de 3 segundos que pareceu muito mais. Encontraram a Denise. Fechei os olhos por um segundo. Abri. Estrada. Viva? Eu perguntei. Viva. A voz dela quebrou um pouco nessa palavra.
Só nessa. Estava num quarto nas traseiras, assustada, desidratada, mas viva. Soltei o ar lentamente. Graças a Deus, disse eu, e não era uma expressão vazia, era verdadeira. Não era só ela, Valdir. Como assim? Tinham mais três mulheres no mesmo sítio, em piores condições. Ela parou. Três mulheres que não sabíamos que existiam.
Fiquei em silêncio por um momento, o asfalto a passar, o motor ronronante, o escuro lá fora e aquela informação a aterrar dentro da cabine como coisa com peso físico. O Amaral? Eu perguntei preso. Ele ainda estava no sítio quando chegaram. Não esperava a operação. Uma pausa. Os capangas também. Conduzi durante alguns segundos sem falar.
Isadora. Hum. Vai ficar bem. Ela demorou a responder. Não sei ainda uma pausa honesta, mas vou ficar. Tem diferença. Tem outra pausa. Valdir, você sabe o que fez, não sabe? Você sabe que se tivesse ido embora naquela estrada de Goiás, a Denise não estaria viva agora. Estas três mulheres poderiam ainda lá estar por quem sabe quanto tempo. Não soube o que responder.
Eu só fiquei disse por fim. Às vezes ficar é tudo. O camião passou por baixo de um viaduto e o sinal caiu por um segundo. Voltou. Cuida de ti, eu disse. Cuida também. Uma pausa. Vai visitar a sua filha. Já combinei com ela. Bom, ouvia-se o sorriso. Não via, mas ouvia. Adeus, Valdir. Tchau, Isadora. Desliguei.
Fiquei um tempo na estrada com aquela ligação a ecoar. Tinha três mulheres vivas que não estariam. Havia uma Denise viva que não estaria. Havia uma Isadora com nome de volta, com existência de volta, com prova de volta. E tudo isto tinha começou num ruído, num eixo, num cigarro acendido, numa lanterna que varreu o asfalto na direção errada e encontrou um pé descalso.
Parei num posto em sacramento por volta de meia-noite. Não porque o motor pedisse ou porque estava com sono. Estava cansado, mas era o cansaço bom, o que vem depois de coisa feita até ao fim. Diferente do cansaço vazio que eu carregava antes, parei porque precisava comer alguma coisa de verdade, uma refeição que não fosse pão de queijo de posto ou amendoim de embrulho.
O restaurante do posto ainda estava aberto. Luzes brancas, cheiro a arroz e feijão e carne grelhada, três camionistas em mesas separadas, um casal viajante com dois filhos pequenos a dormir deitados no banco do canto. Pedi prato feito completo, arroz, feijão, bife de cebolada, farofa. Comi lentamente, olhando para nada, deixando o silêncio trabalhar.
Na mesa do lado, um dos camionistas tinha ligado o rádio no telemóvel com o volume baixo, uma música sertaneja antiga, a de viola e voz naszalada, que fala de estrada e de longe e de mulher à espera. O tipo de música que não há forma de ouvir na estrada sem que alguma coisa se mova dentro do peito. Pensei na Terezinha com uma calma que não era de sempre.
Normalmente quando penso nela de noite vem junto o aperto, o arrependimento de ficar na estrada demasiado tempo, as conversas telefónicas que eu podia ter puxado para o fundo e não puxei. Os dias que ela ficou em casa com alguma dorzinha que eu ouvi e deixei passar. Dessa noite veio diferente. Veio ela rindo na festa de patos de Minas, vindo me perguntar se eu estava bem quando eu era o mais desconfortável da sala.
Veio ela dobrando roupa antes de guardar na gaveta aquele gesto que eu descrevi sem perceber para Zisadora e que é tão dela que às vezes eu acho que inventei que não pode ser real uma pessoa com esse nível de cuidado com coisa pequena. Veio ela com a mão na minha no hospital os últimos dias e pela primeira vez em 4 anos eu não fiquei com raiva de mim mesmo por não ter ficado mais perto durante o tempo que tinha.
Ficou a saudade. A saudade fica, fica sempre, mas sem aquela camada de culpa por cima que deixava tudo mais escuro. Não sei explicar direito o que mudou. Talvez tenha sido a estrada dos últimos dois dias. Talvez ter ficado quando era mais fácil ir embora. Talvez ter visto o que acontece quando a gente escolhe não olhar pro lado e o que acontece quando escolhe olhar.
Talvez tenha sido só o tempo. O tempo que a Terezinha tinha dito que ia fazer o trabalho se eu deixasse e que eu nunca tinha deixado completamente, porque ficar na estrada era jeito de não deixar. Terminei o prato, tomei um café, paguei, agradeci, voltei pro caminhão, entrei em Ribeirão Preto com o sol nascendo, a cidade grande que acorda, o trânsito ainda leve, as padarias abrindo, os ônibus vazios começando a circular.
Eu conheço Ribeirão de tanto circular por ela. Sei qual rua tem buraco, qual semáforo demora, qual padaria abre mais cedo. Mas em vez de ir direto para transportadora entregar a carga atrasada, liguei pro supervisor e avisei que chegaria em 2 horas. Ele resmungou. Eu ouvi o resmungo com paciência e desliguei.
Fui até o apartamento da Cláudia. Era cedo demais para aparecer sem avisar, mas eu tinha mandado mensagem do posto de sacramento dizendo que passaria de manhã. Ela tinha respondido com te espero e um café de emoji. O apartamento dela era num bairro residencial de classe média, prédio sem porteiro, terceiro andar.
Subi à escada porque o elevador daquele prédio sempre faz barulho demais e eu não queria acordar vizinho. Bati na porta três vezes. Passos rápidos do outro lado. A porta abriu. Cláudia tinha 32 anos e o cabelo da mãe, aquele castanho com uma onda natural que a Tereesinha nunca gostou do próprio cabelo, mas que na Cláudia ficava lindo e ela sabia.
Estava de camisola ainda, olhos com sono, mas com um sorriso que não esperava encontrar tão cedo na manhã. Pai, ela me abraçou antes de eu entrar. Que susto você me deu, sumindo assim. Eu sei. Desculpa. Entra. Tô fazendo café. Entrei. O apartamento cheirava a café e a criança. Aquele cheiro específico de casa, onde tem criança pequena, de talco e de roupa de cama e de algo indefinível. que só tem nesse contexto.
O Murilo está dormindo ainda ela disse da cozinha. Mas vai acordar em pouco tempo. Você sabe como ele é. Eu sabia. Fui até a porta do quarto dele. Estava entreaberta. Entrei na ponta do pé. O Murilo dormia de barriga para cima, com o braço de um urso de pelúcia enfiado debaixo do pescoço, como travesseiro extra, os lábios entreabertos, os cílios longos que eram da Terezinha, que a Cláudia tinha herdado, que o Murilo tinha pego sem nem pedir.
Fiquei parado na porta, olhando para ele não sei por quanto tempo. Sei que na hora que ele apertou o olho, virou pro lado, abriu um olho só, viu minha silhueta na porta e abriu os dois de vez. Vovô. Ele sentou de um fôlego. Ei, meu filho, devagarinho você vai acordar todo mundo. Ele pulou da cama, veio correndo e se jogou contra as minhas pernas com a força toda de 4 anos que não calcula bem distância nem força.
Eu me abaixei, o segurei e lembrei do que Isadora tinha dito naquela estrada de Barro de Minas, olhando pra mulher com criança enroscada na perna do lado de fora do carro. Parece pouco quando você tem. Parece tudo quando você não tem. Segurei o Murilo por mais tempo do que ele esperava, porque criança de 4 anos tem tempo de atenção curto.
E logo ele estava tentando escapar para me mostrar um carrinho novo que tinha ganhado não sei quando. Mas naquele segundo, enquanto ele ficou, eu aproveitei cada milímetro. Tomei café com a Cláudia na cozinha enquanto o Murilo brincava no quarto com a porta aberta. fazendo barulho de motor com a boca, que era a coisa mais engraçada e mais natural do mundo. Pai.
Cláudia envolveu a xícara com as duas mãos. O que aconteceu nesses dois dias? Você parece diferente. Diferente como? Ela me olhou mais presente. Tomei um gole de café. Tive uma viagem estranha. Eu disse boa ou ruim? Pensei as duas. Do tipo que muda alguma coisa. Ela não perguntou mais. A Cláudia é assim, sabe quando apertar e quando deixar. Pegou da mãe isso também.
O Murilo apareceu à porta da cozinha, arrastando o carrinho pelo chão. Vovô, vai ficar hoje? Olhei para a Cláudia. Ela encolheu os ombros com um sorriso pequeno. Fica, pai. Olhei para o Murilo. Fico disse eu. Ergueu o carrinho em sinal de vitória e voltou a correr para o quarto. A Cláudia riu-se e eu ri-me junto.
Um riso de dentro do tipo que não precisa de grande motivo para acontecer, que nasce do simples de estar no lugar certo com as pessoas certas no momento certo. Eu tinha-me esquecido do tamanho daquilo. Estava lembrando nessa noite, depois de o O Murilo dormiu e a Cláudia foi para o quarto cedo, porque trabalhava cedo no dia seguinte, fiquei sentado na varanda pequena do apartamento com um copo de água na mão, a cidade de Ribeirão de baixo, luzes, carro a passar, o ladrar de um cão em algum quarteirão, a noite morna, aquele calor de interior
que não desaparece completamente nem de madrugada só se torna mais tolerável. Meu telemóvel mostrou uma notícia no Feed às 23:40. Operação da PF desmantela esquema de cárcere privado no Triângulo Mineiro. Quatro mulheres resgatadas, um homem preso. Ainda não dava nome, mas eu sabia.
Fiquei a olhar para a notícia por um bom tempo. Depois coloquei o telemóvel no bolso. Olhei para o céu. Tinha estrela aparecendo entre as nuvens. Não muita. A luz da cidade apaga a maioria, mas algumas, as mais fortes, as que insistem. Pensei na Tereesinha. Você teria gostado dela. Eu disse em silêncio para o nada e para ela ao mesmo tempo.
Você teria gostado da Isadora. Ela tem esse negócio que tinha de falar a verdade sem precisar de muito volume, de aguentar enquanto aguenta e de chorar quando já não aguenta mais. E de não pedir desculpa por nenhum dos dois. O vento abanou a copa de uma árvore ali embaixo. Eu tomei como resposta. Às vezes aprendemos a ouvir nas coisas que não falam.
No dia seguinte, antes de ir entregar a carga com três dias de atraso e ouvir o supervisor com paciência, dirigi-me a um floricultor perto do apartamento da Cláudia. Comprei um vaso de asaleia cor-de-rosa, a cor que a A Terezinha mais gostava. Coloquei no banco do passageiro do camião. Ia ficar ali até encontrar o lugar certo para deixar. Não no cemitério.
Já levei flor suficiente para lá. E encontrar um lugar na estrada, alguma berma com árvore, algum troço de cerrado que tivesse aquela beleza sem nome que só o interior do Brasil tem, que nos faz parar mesmo sem querer parar. ia saber quando chegasse. A Terezinha tinha o dom de me dizer onde parar. Eu ainda ouvia. Há uma coisa que a estrada ensina que demora anos a compreender, que ela não é fuga, nunca foi.
A gente pensa que é sobe para o camião, coloca a primeira marcha e aquela sensação de movimento parece solução, parece resposta. Parece que ao deixar a cidade para trás, a gente também deixa o que dói. Mas o que dói vai junto. Senta-se ao lado, coloca o cinto e viaja consigo por quanto tempo você deixar. Eu passei quatro anos deixando.
Só entendi isto numa madrugada de Goiás, baixado com uma lanterna na mão, encontrando um pé descalço no asfalto. Às vezes, precisamos de um encontro assim para deixar de fugir de si mesmo. A entrega em Goiânia decorreu três dias atrasada. O supervisor da transportadora chamava-se Réges, homem de cerca de 40 anos, bigode grisalho, que gostava de fazer cara de zangado, mas que no fundo era justo.
Ouviu-me sem interromper quando expliquei o atraso. Não dei pormenores. Disse problema mecânico e desvio de rota por uma questão de segurança. Ele olhou para mim por um segundo com aquela expressão de homem que sabe que a história é maior do que o resumo, mas que também sabe quando não adianta perguntar mais.
Desconta da sua comissão desse mês disse. Tá certo. E Valdir, ele chamou-me quando eu já estava na porta. Esse camião tá limpo. Mecânico revisou enquanto estava na viagem. Obrigado, Régis. Vai logo que tens outra carga paraa próxima semana. Saí na passeio do pátio da transportadora. Com o sol do início de tarde de Goiânia pesando no asfalto.
Tirei o telemóvel do bolso. Tinha uma mensagem de número desconhecido de São Paulo. Texto curto. Valdir, sou a Isadora. Mudei de número. Estou bem. Queria que soubesse. Respondi na hora. Fico feliz. Cuida de você. 3 minutos depois. Você também. Guardei o telemóvel. Fui buscar o camião. Nas semanas que se seguiram, o caso foi abrindo nas notícias aos poucos.
Eu não acompanho o jornal de televisão. Faz anos que parei porque a rotina de estrada não combina com horário fixo de notícias e também porque há um certo tipo de coisas que a televisão mostra que prefiro filtrar. Mas desta vez fui acompanhando pelo telemóvel, pelas noites de posto, pelo rádio AM, que captava excerto aqui e trecho lá. Rodolfo Amaral foi acusado.
Hercere privado, falsificação de documentos, tráfico de pessoas, branqueamento de dinheiro por meio de transferência irregular de propriedade rural. A lista foi crescendo à medida que o inquérito avançava e outras mulheres, encorajadas pelas quatro que tinham sido resgatadas, foram prestando depoimento.
A tia A Solange foi indiciada também. Isso eu soube por mensagem da Isadora. uma mensagem mais longa que as outras, que ela mandou numa madrugada de sexta-feira e que li num posto do Mato Grosso enquanto o depósito enchia. Valdir, indiciaram hoje a Solange. Eu fiquei esperando sentir alguma coisa grande quando soubesse.
Alívio enorme ou raiva ou sei lá o quê. Mas o que senti foi cansaço, um cansaço bom. Sabe o tipo que vem depois de a coisa terminar de verdade? Como quando se deita depois de dia muito longo e o corpo afunda-se no colchão e pensa: “Acabou. Acho que nunca o tinha sentido antes.” Eu li duas vezes. Depois respondi: “Cansaço bom é sinal de que valeu a pena.
” “Dorme, Isadora”, respondeu ela com um emoji da lua. “Fui visitar a Cláudia com mais frequência. Não todas as semanas. A estrada não deixa. E eu também aprendi que prometer o que não posso cumprir é pior do que não prometer. Mas quando a percurso passava perto, eu desviava. Quando tinha fim de semana livre em Ribeirão, eu ia.
Comecei a ligar nos dias em que antes ficava sem ligar por hábito de ausência. O Murilo aprendeu que quando o camião do avô parava em frente do prédio era para saltar da cama. Eu aprendi que esta correria de criança de quatro anos em direção a mim era a melhor parte de qualquer chegada. Uma tarde de sábado, estava sentado no chão da sala do apartamento da Cláudia, ajudando o Murilo a montar um puzzle de 60 peças de mapa do Brasil.
Aquele tipo de brinquedo educativo que a Cláudia gostava de comprar e que o Murilo aceitava de boa vontade, porque qualquer coisa que virava jogo com o avô servia. Estávamos procurando o Maranhão que estava desaparecido debaixo do sofá quando a minha filha se sentou no sofá atrás de nós e ficou a olhar para nós durante um tempo que só percebi quando fez silêncio suficiente. Virei.
Ela estava com o queixo apoiado na mão, os olhos um pouco húmidos, aquele sorriso de mãe e de filha, ao mesmo tempo que eu reconheço porque é igual ao da Terezinha. O que foi? Eu perguntei nada. Ela disse: “Estou a olhar. Por que é que tá a chorar?” “Não estou a chorar. Está perto.” Ela riu-se. É que estás diferente, pai.
Desde que regressou daquela viagem estranha. Ela olhou para mim. “Está mais aqui.” Pensei um segundo. “Estou a tentar.” Eu disse. Estou vendo. O Murilo apareceu debaixo do sofá com um maranhão na mão triunfante. Achei. Achou. Eu levantei a mão para ele dar uma bofetada de vitória. Agora encontra o Goiás.
Ele mergulhou de volta debaixo do sofá com a dedicação de quem tem missão importante. A Cláudia continuou a me olhando. Ela faz-te falta? Ela perguntou baixo. Não foi preciso dizer o nome. Todo dia. Eu disse igualmente baixo. Mas você tá bem. Estou aprendendo a ficar. Ela assentiu. Enxugou o canto do olho sem drama. Ela ia gostar de te ver assim.
Ela disse: “É o que me dizem. Três meses depois da noite em Itumbiara, recebi uma mensagem com foto anexada. A foto mostrava duas mulheres de pé, em frente de uma casa simples, reboco novo, portão de ferro pintado de azul claro, jardim pequeno à frente com girassol enfileirado. Uma delas era a Isadora. cabelo crescido um pouco, roupa simples, os olhos verdes que reconheci mesmo numa foto de telemóvel tirada contra a luz.
A outra era uma mulher com cerca de 50 anos, cabelo curto, rosto redondo, com um sorriso largo, que nunca tinha visto, mas que Reconheci da forma que a Isadora tinha descrito naquela madrugada de viagem. Denise, entre as duas, pendurada no portão, uma placa de madeira pintada à mão em letras azuis sobre fundo branco.
Casa Ivone. Abrigo para mulheres abaixo da foto. A mensagem, Valdir, abrimos hoje. O nome é da minha avó. Ela que era dona das terras. Parte da herança recuperada foi para isso. A Denise vai coordenar. Eu vou ajudar quando puder. Ainda estou a reconstruir muita coisa, mas existe agora. Nenhuma mulher vai precisar de se esconder debaixo de um camião à espera de ajuda.
Obrigada por ter acendido aquela lanterna. Eu li a mensagem sentado na cama de um quarto de hotel de beira de estrada em Jataí, Goiás. Aqueles quartos que são todos iguais em todo o lugar do Brasil. Couxa floral, televisão presa à parede, ar- condicionado que faz demasiado barulho e arrefece de menos.
uma janela com vista pro estacionamento. Fiquei olhando paraa foto durante um bom tempo. Depois digitei a resposta. Uma palavra orgulho. Mandei. Deitei-me na cama com a roupa ainda, olhando para o tecto, com aquela palavra ecuando dentro de mim, de uma forma que ocupava mais espaço do que uma palavra costuma tomar.
Orgulho de uma rapariga que tinha sido declarada morta e foi mais teimosa do que a mentira. Orgulho de uma denise que guardou prova dentro do sutiã porque o pressentimento mandou. Orgulho de um homem de chapéu de palha que não vendeu informação sobre mulher que está fugindo. Orgulho de um Eustáquio, que consertou o motor sem fazer pergunta.
Orgulho de uma Marlene que cancelou a agenda porque entendeu o tamanho antes de eu terminar de explicar. A gente pensa que História Grande tem um herói, mas História Grande tem várias pessoas que disseram sim quando era mais fácil dizer não, e que ficaram quando era mais fácil ir embora, e que estenderam a mão quando poderiam ter guardado no bolso.
Eu fui um deles, só um. E isso foi suficiente. A asaleia rosa ficou comigo por mais tempo do que eu esperava. Dei água quando lembrava. Coloquei no sol quando parava de dia. Tirei do sol quando parava de tarde. O vaso ficou no banco do passageiro, onde a Isadora tinha ficado naquela viagem, onde antes ficavam só o saco de lanches e a jaqueta.
A planta foi crescendo devagar, com aquela teimosia de coisa viva, que cresce onde pode e como pode, sem pedir permissão nem perfeição de condição. Eu ia encontrando o lugar na estrada. Demorou dois meses. Foi numa tarde de terça-feira, vindo de palmas com carga vazia, passando pela região do Jalapão em Tocantins, estrada de terra vermelha, cerrado dos dois lados no pico da florada.
Aquelas árvores baixas e tortas, com flor amarela, que surgem todas juntas numa explosão que dura só alguns dias e que a maioria das pessoas nunca vê porque não passa por essa estrada nessa época. Eu passei e parei sem planejar. Só encostei o caminhão no acostamento, abaixei o vidro e fiquei olhando por um tempo que não soube medir.
O cerrado em flor é uma das coisas mais silenciosamente bonitas que eu conheço. Não é a beleza que grita. Não tem mar, não tem montanha, não tem nada que faça a gente abrir a boca. É a beleza que fica, que entra pelos olhos devagar e fica lá dentro ocupando espaço sem pedir licença. Desci, peguei o vaso de asaleia do banco do passageiro, fui andando pelo acostamento até um trecho, onde o pasto abria, numa clareira pequena, com uma árvore de IP amarelo sozinha no meio, já sem flor, mas com aquela estrutura de galho que é linda mesmo sem flor. aquele
jeito que o IP tem de parecer que está sempre em posição de oferecer alguma coisa. Coloquei o vaso no pé do IP. Fiquei ali em pé um momento. Terezinha, eu disse em voz alta. Só o nome, mas nada precisava ser dito. O vento do cerrado veio, sacudiu os galhos do IP, fez aquele som seco de folha, que é o som mais parecido com respiração que a natureza tem. Eu ouvi.
Depois voltei pro caminhão, dei a partida e fui. Hoje faz quase um ano desde a noite de Itumbiara. Ainda cruzo as estradas do Brasil com a mesma carga de sempre. Grãos de Goiás, cana de São Paulo, soja de Mato Grosso. O país que se move por dentro da carroceria dos caminhões que ninguém olha quando passa.
Ainda paro nos mesmos postos, bebo o mesmo café ruim de madrugada. Conheço os mesmos frentistas de plantão, que me reconhecem pelo rosto e pelo caminhão e às vezes pelo jeito de pedir café com bastante açúcar num só. Mas alguma coisa mudou de lugar em mim. Não é que eu parei de sentir falta da Terezinha. Essa falta não passa.
Aprendi que não passa e aprendi também que não precisa passar. Falta de gente boa é prova de que a gente foi bênção na nossa vida. E bênção não se exorciza. Fica e deve ficar. O que mudou é que agora a saudade convive com outra coisa, com presença, com o Murilo no telefone me contando que perdeu o dente da frente e que o dente de leite é menor do que ele imaginava.
com a Cláudia, que começou a mandar foto do almoço de domingo, com a legenda Tinha que ser você aqui com o meu olho que aprendeu a olhar pros lados da estrada sem só olhar pra frente, com a parada que eu faço agora, às vezes, quando o sol nasce bonito demais no horizonte de cerrado. Desço do caminhão, fico parado por 2 minutos, olho.
Antes eu nunca parava para olhar, agora paro. Na semana passada, cruzando o norte de Minas, vindo de Montes Claros, parei num posto pequeno de beira de estrada para abastecer e tomar água. Tinha uma mulher sentada num banco de cimento do lado de fora do mercadinho do posto, uns 30 anos, mochila pequena no colo, olhando pro chão com aquela expressão de quem está muito cansado ou muito perdido ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Comprei minha água. Na saída passei perto dela. Ela não levantou os olhos. Parei. Tudo bem? Eu perguntei. Ela olhou, olhos castanhos, cansados, com aquele fundo de medo que eu já aprendi a reconhecer. Tô esperando condução. Ela disse, meu ônibus não veio. Para onde você vai? Já noária. Fiz o cálculo rápido na cabeça.
Minha rota passava 40 km de Januária. Tenho boleia até ao trevo, disse eu. 40 km. De lá apanha-se a condução mais fácil. Ela olhou-me por um segundo. Aquele segundo de avaliação que a mulher faz quando o homem estranho oferece ajuda na estrada e que é justo e que eu respeito e que espero com paciência, sem qualquer tipo de pressa.
O senhor vai mesmo passar por lá? Vou. Pode confirmar no mapa se quiser. Ela olhou para o telemóvel, confirmou. Pode ser. Ela disse. Há alguma coisa no mercadinho que você quer antes de irmos? Eu perguntei. Água, alguma coisa para comer? Ela hesitou. Não precisa. Não é preciso. É oferta. disse eu sem insistir. Se quiser, aproveita.
Se não quiser, a gente vai. Ela pensou por um segundo. Tem aquele pão de queijo ali? Ela disse, indicando o balcão com um aceno de cabeça. Tem? Quer? Quero. Entrei, Comprei dois pães de queijo e dois garrafas de água. Voltei, dei para ela, fui para o camião. Ela veio logo atrás, subiu, olhou paraa cabine e acomodou a mochila no colo.
Eu dei a partida. Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. Ela ficou a olhar pela janela, o cerrado a passar, o sol inclinado de tarde, as vedações e o gado, e a poeira fina que se levanta atrás das rodas. Depois ela olhou-me de lado. O senhor é camionista há quanto tempo? Quase 30 anos. É muito tempo na estrada.
É. Fiz uma pausa, mas aprendi umas coisas. Como o quê? Pensei por um segundo antes de responder: “Que parar às vezes é mais importante do que ir.” Olhei em frente. Que a pessoa que se encontra no caminho pode ser o motivo pelo qual saiu de casa sem saber. Outra pausa. E que a estrada não é o lugar onde desaparecemos, é o lugar onde a gente encontra o que estava procurando.
Se tiver disposto a olhar com cuidado. Ela ficou a olhar para mim. Aconteceu-lhe alguma coisa? Ela disse: “Não era uma pergunta, era uma observação de pessoa que sabe ler pessoas. Aconteceu, eu confirmei. Boa ou má? Pensei na noite de Itumbiara, na lanterna. no pé descalço, nos olhos verdes, cheios de medo que foram aprendendo ao longo de uma viagem impossível, a ter espaço para outra coisa para além do medo, no homem de chapéu de palha que ajudou sem perguntar, na Denise, que guardou prova no soutien porque o pressentimento mandou,
na Marlene, que cancelou a agenda, no Fonseca que me apertou a mão com seriedade de verdade, no Murilo a correr pelos meus pés, na Cláudia com o queixo apoiado na mão, dizendo: “Estás mais aqui na Asaleia Rosa, ao pé do IP em Tocantins, na Terezinha que foi embora ensinar coisas que eu só fui compreender depois.
As duas, disse eu, do tipo que muda. Ela ficou a olhar pela janela de novo. A estrada esticava-se reta à frente, o asfalto quente a reluzir com o calor de fim de tarde, o céu começando a ganhar aquela cor de antes do pôr do sol, que é o sinal mais honesto que existe, de que o dia foi e que o que fizemos com ele foi o que ficou. Eu conduzi.
Ela ficou quieta e o silêncio entre nós os dois era daquele tipo, não de desconhecidos que não t o que falar, de pessoas que estão cada uma a pensar no que precisam pensar, no mesmo veículo, a ir na mesma direção, sem necessitar de mais do que isso por enquanto. O rádio tocou baixinho, uma música de viola, o sol foi descendo e a estrada foi passando.
Tem uma coisa que aprendi nesta vida inteira de asfalto e de poeiras e de madrugada com cigarro e de sol no pescoço e de café passado há muito tempo. Que não escolhemos tudo o que acontece connosco. Não escolhe quem perde. Não escolhe quando perde. Não escolhe onde a correia rebenta. Nem a que horas o barulho no eixo resolve aparecer no meio do nada. Mas escolhe como olha.
Escolhe baixa-se com a lanterna ou ignora-se o barulho e vai. Escolhe se fica ou se vai embora. Escolhe se estende a mão ou guarda no bolso. Eu fiz escolhas erradas durante demasiado tempo. Fiquei na estrada quando devia ter ficado em casa. Olhei paraa frente quando devia ter olhado para o lado.
Deixei o peso de dentro endurecer até se tornar uma parede, em vez de o deixar sair da forma que sai e que dói mais que limpa. Mas numa madrugada de Goiás, debaixo de um camião parado no berma, uma jovem de olhos verdes e medo de tudo olhou para mim e disse: “Por favor, não me entrega”. E eu não entreguei. Este foi o início de alguma coisa que não tem um nome exato, mas que eu sinto quando acordo e quando durmo e quando o Murilo corre pelos meus pés e quando a estrada fica demasiado bonita e eu Paro para olhar.
Parece cura, parece recomeço, parece que o luto, aquele luto pesado de 4 anos, de mão fria no hospital, de casa vazia, de café feito para dois e tomado por um, parece que ele não foi, porque o luto não vai, mas que ele abriu espaço para outra coisa crescer de lado. Uma coisa que a A Tereesinha, se pudesse, já teria mandado crescer há algum tempo e que fiquei impedindo sem se aperceber. Vida.
Do jeito que vida cresce quando a gente para de segurar a terra com as mãos e deixa a semente trabalhar. Hoje cedo, antes de pegar a estrada de volta para Goiânia com carga nova, parei do lado de fora do caminhão por um minuto. O sol estava nascendo, aquela faixa fina de laranja no horizonte que aparece antes de tudo e que promete só o que vai entregar.
Respirei o ar frio de madrugada de cerrado. Aquele ar que tem cheiro de terra molhada e de capim e de diesel e de cigarro de alguém que passou antes e que mistura tudo numa coisa que não tem nome, mas que é o cheiro da estrada, que é o cheiro da minha vida. Coloquei a mão no caminhão, a lataria fria. “Terezinha”, eu disse em voz baixa.
O vento veio, eu sorri, subi, dei a partida e fui.