Era uma terça-feira abafada quando saí de Uberlândia com o reboque carregada de soja. Destino: Porto de Santos. Mil e poucos quilómetros pela frente. Três dias de estrada, como sempre. O meu nome é Ademir, tenho 47 anos e há 20 deles. Só conheço a vida entre um frete e outro. A cabine do Scânia 113 é mais o meu lar do que o quartinho que Mantenho em Catalão, no interior de Goiás, onde passo no máximo cinco dias por mês.
O asfalto derretia sob o sol inclemente de janeiro. O ar- condicionado do camião, velho e barulhento, mal dava conta do calor. O suor escorria pela a minha testa enquanto mastigava um pedaço de rapadura. Companheira fiel nas viagens solitárias. O rádio chiava, captando apenas fragmentos de música sertanejas entre estações que se perdiam na imensidão do triângulo mineiro.
“Mais um dia, mais uma estrada”, murmurei para o porta-retratos pequeno colado no painel, onde a minha filha Aline, de 19 anos, sorria. Não havia há quase um ano. Ela vivia com a mãe em Londrina desde o divórcio há 8 anos. promessas de visitas frequentes que a estrada engoliu juntamente com tantos outros planos. A BR050 continuava monótona.
Já conhecia cada curva, cada posto, cada buraco daquele asfalto velho. O céu começava a escurecer quando passei por cristalina já em Goiás. Uma chuva miudinha começou a cair, daquelas que mais sujam o vidro do que lavam. Liguei o limpa-vidros que rangia contra o para-brisas empoeirado. Foi quando vi a figura na berma da estrada.
A princípio, pensei que fosse mais um andarilho. Reduzindo a velocidade, percebi que era uma mulher. Estava encharcada, com uma mochila pequena nas costas e o braço erguido no gesto universal de quem pede boleia. Normalmente eu seguiria em frente. A estrada ensinou-me que confiar demais pode custar caro, mas algo no sentido dela.
O olhar assustado, a postura tensa fez com que eu pisasse no travão. O camião parou alguns metros à frente. Pelo retrovisor vi quando ela hesitou. Depois, como quem não tem escolha, correu à chuva até à porta do passageiro. “Para onde vai?”, perguntei, mantendo a voz neutra quando abri o vidro. Para longe, a voz dela saiu rouca, quase um sussurro, o mais longe possível. Os nossos olhares se cruzaram.
Os olhos dela, castanhos e fundos, carregavam um medo que conheci bem. O medo de quem foge de algo pior do que a incerteza da estrada. “Sobe”, disse destrancando a porta. Ela subiu com dificuldade, os sapatos enlameados, a roupa a colar-se ao corpo magro, tremia e não parecia ser só do frio.
“Obrigada”, murmurou, abraçando a mochila contra o peito. “Eu sou Renata”, Ademir, respondi, voltando a engrenar a marcha. “Vou para Santos. Serve qualquer lugar longe daqui. Havia urgência na voz dela. O tipo de urgência que não vem da pressa, mas do desespero. Liguei o aquecedor e tirei uma toalha velha do compartimento atrás do banco. Toma, se seca um pouco.
Ela pegou na toalha com mãos trémulas. Notei um penso improvisado no pulso direito. O sangue seco manchava a borda do esparadrapo. Tem um termos com café ali embaixo. Deve estar ainda quente. O o silêncio tomou conta da cabine enquanto voltávamos para a estrada. Apenas o barulho da chuva que agora engrossava embatendo contra o tejadilho do camião e o ronco familiar do motor.
De vez em quando eu olhava de soslio para ela. Estava pálida, com olheiras profundas, os cabelos castanhos molhados colavam-se na testa e nas faces magras. “Você tá fugindo de alguém?”, perguntei finalmente quando já estávamos há quase uma hora na estrada. A Renata levantou os olhos da caneca de café que segurava com as duas mãos, como se tentasse absorver todo o calor possível.
Tão óbvio assim? A estrada ensinou-me a reconhecer quem está a correr para algum lado e quem está a correr de alguma a coisa. Ela respirou fundo. Eu era enfermeira em Goianésia. O verbo no passado dizia muito. Aguardei em silêncio, deixando-o contar apenas o que quisesse. Um miúdo morreu no meu de serviço, filho de gente importante.
Os seus olhos se encheram de lágrimas. Eles culparam-me. Disseram que Fui negligente, que não fiz tudo o que podia. Os seus dedos apertaram a caneca com força. Podia ver as articulações dos dedos ficando brancas. A família dele. Eles têm dinheiro, influência. Destruíram-me na cidade, ameaçaram-me. A sua voz tremeu. Disseram que me iam fazer pagar.
Hoje encontrei o irmão mais velho dele a me à espera à porta de casa. Engoli em seco. A estrada estava agora escura, apenas iluminada pelos faróis do camião e pelas raras luzes de outros veículos. E não tem para onde ir. Ela fez. que não com a cabeça. Tenho uma prima em São Paulo, mas tenho receio que me encontrem lá.
Olhei para a estrada à nossa frente, infinita e escura, como o futuro que se nos apresentava a ambos. Eu, um homem que fugiu da vida para as estradas. Ela, uma mulher que agora fugia até das estradas seguras da própria vida. Descansa um pouco”, disse eu, apontando para o beliche atrás do banco. “Ainda temos muita estrada pela frente”.
Enquanto ela se acomodava, pensei em todas as cargas que já carreguei nestes anos todos. Esta, porém, parecia a mais pesada de todas. A chuva apertou de vez quando passávamos por Catalão. O céu, agora completamente negro, era cortado por relâmpagos que iluminavam a paisagem do serrado durante segundos fantasmagóricos.
O limpador de pára-brisas trabalhava no máximo, mas mal dava conta da água que caía em cortinas densas. A Renata acordou assustada com o ruído de um trovão mais forte. “Onde estamos?”, perguntou, a voz ainda embargada pelo sono. Entrando em catalão, a chuva está muito forte. Vou parar no próximo posto.
Ela sentou-se, ajeitando o cabelo despenteado atrás das orelhas. Tinha dormido pouco mais de uma hora, mas parecia um pouco melhor. O medo ainda estava ali, plantado nos olhos fundos, mas havia agora algo mais, uma resolução silenciosa. “Tu moras aqui, não é?”, – perguntou ela, surpreendendo-me. “Como sabe? Tenho um comprovativo de aluguer no porta-luvas. Vi quando peguei no lenço.
Sorri fraco. Tenho um quartinho aqui. Passo poucos dias do mês. Sozinho? Faz 8 anos. Não tive de explicar mais. Ela apenas a sentiu como quem compreende o peso da solidão, sem necessidade de maiores detalhes. O posto de cruzeiros surgiu na curva, as suas luzes bruxoleantes como um farol na tempestade.
Estai a reboque num canto mais afastado, onde os os automóveis de passageiros não chegavam. Vários camiões já estavam parados, formando uma pequena comunidade temporária de homens que, como eu, viviam na estrada. Vou buscar algo para comermos”, falei desligando o motor. “Quer vir ou prefere ficar?” Ela olhou para fora, para a chuva forte e para os outros camionistas que corriam, protegendo a cabeça com jornais ou bonés entre os seus veículos e a loja de conveniência. “Vou ficar.
Tenho medo de ser reconhecida”. O medo era justificado. Goianésia não ficava tão longe e os camionistas são os melhores portadores de notícias e rumores pelas estradas do Brasil. Tranco a porta, não abra a ninguém. Na loja de conveniência comprei pão, mortadela, queijo e uma garrafa de guaraná. Enquanto esperava na fila, vi o jornal local exposto na banca.
A manchete falava sobre as condições das estradas após as chuvas, mas foi uma notícia menor no canto inferior que me gelou o sangue. Enfermeira acusada de negligência desaparece após morte de jovem em Goianésia. Abaixo estava uma foto em preto e branco, pequena e um pouco desfocada, mas reconhecível. Era a Renata. Comprei o jornal juntamente com a comida e Voltei para o camião o mais rápido que pude, a chuva encharcando-me as costas.
Quando entrei, a Renata estava no banco do condutor, olhando fixamente para o frente, para a cortina de água que caía. “Ah, precisamos de conversar”, falei, estendendo-lhe o jornal depois de sentar-me. Ela olhou para a página e o seu rosto empalideceu ainda mais. passou os dedos trémulos sobre a própria foto, como se pudesse apagá-la do papel.
“Os Mendonça”, sussurrou, são donos de metade da cidade, quintas, centrais elétricas, postos de abastecimento de combustível. A sua voz falhou. Agora estão a caçar-me como um animal. “O que aconteceu realmente?”, perguntei abrindo o pacote de pão. A Renata pegou num pedaço do pão que lhe ofereci, mas apenas ficou a segurá-lo sem conseguir comer.
Filipe Mendonça, 22 anos, acidente de motociclo na estrada rural. Chegou ao hospital já em estado crítico. Ela falava como se estivesse a ler um prontuário, a voz mecânica de quem tenta distanciar-se da dor. Eu estava sozinha na emergência. O médico tinha saído para atender outro caso grave na cidade. Chamei o médico de serviço de sobreaviso, mas demorou quase uma hora a chegar.
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Fiz tudo o que podia dentro das minhas limitações. Estabilizei, administrei os medicamentos de emergência, preparei para uma possível cirurgia. Mas o trauma era muito grave, muito grave. As suas mãos começaram a tremer. Quando o médico chegou, já era tarde.
O miúdo teve uma hemorragia interna massiva. Morreu minutos depois. A chuva castigava o tecto do camião, criando uma batida ritmada, como um coração acelerado. A família chegou logo a seguir. O pai Paulo Mendonça é o homem mais poderoso da região. Estava em Goiânia quando aconteceu. Quando cheguei para dar a notícia, agarrou-me pelos ombros, agarrou-me abanou, gritando que eu tinha matado o filho dele.
Renata fechou os olhos, revivendo a cena. No dia seguinte, fui suspensa do hospital, depois demitida. Ele usou a sua influência. Acusaram-me de negligência médica, de não seguir os protocolos. Colocaram tudo nas minhas costas. Abri a garrafa de guaraná e servi um pouco para os dois em copos de plástico.
E as ameaças começaram há três dias. Primeiro, chamadas anónimas. Depois, o carro do irmão mais velho passando lentamente em frente da minha casa. Ontem encontrei um bilhete no para-brisas. Vai pagar pelo que fez. Ela deu um gole no refrigerante, as mãos ainda trémulas. Hoje de manhã, o O irmão do Felipe, o Ricardo, abordou-me quando saía para comprar pão.
Disse que a família não ia descansar enquanto não pagasse pelo que fiz, que em qualquer cidade da região me encontrariam. Por isso estava na estrada. Peguei no que consegui na mochila e saí. Nem sequer voltei para casa. O vento uivava lá fora, fazendo com que o camião balançar ligeiramente. Outros camionistas passavam a correr para a loja, se protegendo da chuva como podiam.
“O meu quarto fica a 10 minutos daqui”, falei após um longo silêncio. “Podemos passar a noite lá? A chuva não vai parar tão cedo e conduzir assim é perigoso.” Ela olhou-me com desconfiança. Normal. Uma mulher sozinha com um desconhecido numa cidade estranha. Por que razão me está a ajudar? A pergunta ficou suspensa entre nós.
Por quê? Eu próprio não tinha a certeza. Talvez porque também conhecia o sabor amargo da injustiça. Talvez porque em algum momento também precisei de uma mão estendida que nunca chegou. A estrada ensina que hoje é você. Amanhã posso ser eu, respondi finalmente. E era verdade. Se há algo que aprendi em 20 anos de estrada, é que a diferença entre estar bem e estar na sarjeta é muitas vezes apenas uma curva apertada do destino.
Vou levá-lo até São Paulo, se quiser. Continuei. Tenho que entregar essa carga em Santos. De lá pode seguir para onde necessitar. Ela assentiu timidamente. Obrigada, Ademir. Acabámos de comer em silêncio, o barulho da chuva nos envolvendo como um casulo. Lá fora, a tempestade não dava sinais de tréguas, assim como os Mendonça, pensei, não dariam tréguas tão facilmente.
Quando voltei a ligar o camião, segui não para a estrada, mas para o pequeno bairro, periférico de Catalão, onde mantinha o meu quartinho. um lugar simples, mas que naquele momento poderia ser o único refúgio seguro para a Renata. Na escuridão da cabine, enquanto manobrava pelas ruas estreitas e encharcadas, sentiu o peso da responsabilidade que acabara de assumir.
Não era apenas uma boleia que eu oferecia, era a proteção contra uma família poderosa, vingativa e com alcance muito maior do que eu poderia imaginar. A chuva continuava a cair, implacável, como presságio do que estava para vir. O quarto ficava nos traseiras de uma casa antiga, com entrada independente por um corredor lateral.
Era pequeno, uma cama de solteiro, um armário, uma pequena mesa com duas cadeiras e um quarto de banho minúsculo. Nas paredes descascadas, apenas um calendário desatualizado de uma peça de automóvel e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Não é muito, mas tem água quente e está limpo. Falei acendendo a luz fraca.
Renata entrou, ainda molhada da chuva, e olhou em redor. O seu olhar pousou na pequena janela que dava para um quintal escuro, como se avaliasse rotas de fuga. Fica à vontade. Vou buscar umas roupas secas para si. Abri o armário e tirei uma t-shirt e um moletom velho que tinha ficado grande demasiado para mim após perder peso no último ano.
Entreguei juntamente com uma toalha limpa. A casa de banho é ali, tem água quente, mas aquece lentamente. Enquanto ela se trocava, sentei-me na beirada da cama e liguei a pequena TV de tubo que estava sobre o armário. O jornal local mostrava imagens da chuva na região. Baixei o volume e fiquei olhando para as imagens sem realmente ver.
A Renata saiu da casa de banho alguns minutos depois, enrolada nas minhas roupas demasiado largas para o seu corpo magro. Parecia mais novo assim, mais vulnerável. O cabelo, molhado, penteado para trás revelava uma pequena cicatriz na testa, perto da sobrancelha direita. Melhor, ela assentiu, esfregando os braços como se ainda sentisse frio.
Muito melhor. Obrigada. Quer um chá? Tem um fogareiro ali? Seria ótimo. Enquanto aquecia água na pequena chaleira, observei a Renata sentar-se na única cadeira, esfregando as mãos nervosamente. O penso no pulso estava começando a soltar-se. Tem um kit de primeiros socorros na gaveta da mesinha para trocar esse penso.
Ela olhou para o pulso como se se tivesse esquecido da ferida. Cortei quando estava a sair pela janela das traseiras. tinha um arame farpado. Entreguei uma caneca com chá de erva-cidreira e sentei-me na cama de frente para ela. O quarto era tão pequeno que os nossos joelhos quase se tocavam. “Como tornou-se camionista?”, ela perguntou, soprando o chá quente.
A pergunta apanhou-me de surpresa. Fazia tempo que ninguém se interessava pela a minha história. Comecei por ajudar o meu tio quando tinha 18 anos. Ele transportava gado entre Goiás e Minas. Tomei um gole do meu próprio chá. Depois que ele morreu, fiz-me à estrada sozinho. Já faz quase 30 anos. E a sua família.
O meu olhar involuntariamente se desviou para o pequeno porta-arretos na mesinha. Renata seguiu o meu olhar. Posso? Assenti. Ela pegou na foto. Eu, a Márcia e a nossa filha Aline, então com 11 anos numa praia de Ubatuba. A sua família era. Separamo-nos há 8 anos por causa da estrada, por causa de tudo, a estrada, a distância, a solidão. Fiz uma pausa.
E por causa da bebida também. Não era fácil admitir isso, mas havia algo na situação. Talvez o absurdo de estarmos ali, dois estranhos unidos pela circunstância, pela chuva, pelo destino, que tornava mais fácil dizer verdades que normalmente eu guardaria. Eu bebia muito quando estava em casa. Era como se já não soubesse viver fora do camião, como se a casa, a família, tudo aquilo fosse um lugar estranho onde eu já não pertencia.
Renata sentiu-a sem julgamento nos olhos, apenas compreensão. Numa das brigas, empurrei a Márcia. Não foi forte, mas ela caiu e bateu com a cabeça na esquina da mesa. Engoli em seco a lembrança ainda dolorosa mesmo depois de tantos anos. Foram cinco pontos. A Aline viu tudo. Tinha 11 anos na altura.
Foi quando acabou? Foi quando já devia ter acabado, mas ainda arrastamos aquilo por mais alguns meses. Eu prometi parar de beber. Fiz terapia durante um tempo. Balancei a cabeça, mas a estrada chamava-me. Era mais fácil estar sozinho no camião do que enfrentar o que tinha feito. A chuva continuava a cair lá fora, agora mais suave, batendo ritmadamente contra O telhado de zinco.
Ainda bebe? Parei há 4 anos depois de quase ter batido com o camião numa rodoviária no Paraná. Ficámos em silêncio por alguns minutos, apenas o som da chuva e o ocasional trovão distante enchendo o pequeno quarto. E você? Perguntei. Como virou enfermeira? A Renata sorriu pela primeira vez desde que a encontrei. Um sorriso triste, mas genuíno.
Sempre quis ajudar pessoas. Cresci a ver a minha mãe cuidar de todos no bairro. Ela não era enfermeira, mas todos a procuravam quando ficavam doentes. Os seus olhos brilharam com as recordações. Ela conhecia plantas, remédios caseiros. Quando eu tinha 15 anos, ela adoeceu. Câncer. Cuidei dela até ao fim. Sinto muito.
Foi difícil, mas fez-me ter certeza do que queria. Estudei com bolsa, trabalhei como técnica enquanto fazia faculdade. Ela suspirou. Finalizei a licenciatura no ano passado. Estava a começar A minha vida profissional de verdade quando este aconteceu. Levantei-me e fui até ao janela. A chuva era agora apenas uma chuvisco fino.
No céu, algumas estrelas começavam a aparecer entre as nuvens que se dispersavam. Eles vão continuar à tua procura, falei, mais para mim próprio do que para ela. Eu sei o que pretende fazer em São Paulo. Ela encolheu os ombros. A minha prima trabalha num hospital da zona oriental. Talvez arranje algo por lá com outro nome. Fez uma pausa. Mas tenho medo.
Os Mendonça tm contactos em todo o lado. São donos de centrais, fazendas. fazem parte de associações de agronegócio. Voltei a sentar-me na cama. “Estou a pensar em mudar a rota”, falei, surpreendendo-me com a decisão repentina. Em vez de ir para Santos pelo caminho normal, podemos apanhar estradas secundárias.
Demora mais tempo, mas é mais seguro. Por que razão está a fazer isso por mim? A pergunta ficou suspensa entre nós. Por que razão de facto mal a conhecia? Estava a arriscar por uma estranha, envolvendo-me numa história que não era minha. Talvez porque eu também já precisei de alguém que não apareceu respondi finalmente.
A TV ainda ligada mudou para o jornal da madrugada. O apresentador começou a falar sobre um acidente na BR057. Aumentei o volume. Um grave acidente interditou parcialmente a BR050 à altura de cristalina. Uma reboque tombou devido às fortes chuvas. O condutor teve ferimentos ligeiros, mas a A faixa sentido Brasília está parcialmente bloqueada.
Imagens do acidente mostravam o reboque atravessada na via com viaturas da Polícia Rodoviária Federal em redor. “Foi onde me encontrou”, disse Renata, os olhos fixos no ecrã. Se não tivesse parado para te dar boleia, eu poderia estar lá”, murmurei. Os nossos olhares cruzaram-se e algo silencioso foi partilhado.
A estranha sincronicidade do destino que nos colocou no mesmo local, no mesmo momento. “Devias descansar”, falei levantando-me. “Pode ficar com a cama, durmo na cadeira”. “Não, você é muito grande para aquela cadeira. Eu fico com ela. Não seja teimosa. Já passei noites piores na boleia do camião. Ela não discutiu mais.
Estava exausta, física e emocionalmente. Deitou-se na cama estreita enquanto eu me ajeitava como podia na cadeira desconfortável, esticando as pernas para o lado da mesinha. Ademir, ela chamou quando já estava quase a adormecer. Sim, obrigada, de verdade. No escuro do quarto, apenas iluminado pela luz azulada da TV muda, sorri. Hum. Descansa.
Amanhã a estrada vai ser longa. E seria, pensei enquanto ouvia-a adormecer. Uma estrada muito mais longa e perigosa do que ela poderia imaginar. Porque agora eu também estava envolvido. E se os Mendonça eram tão poderosos como ela dizia, não descansariam até a encontrar. Lá fora, a chuva finalmente parou. Um silêncio pesado tomou conta da noite, como a calmaria que precede a tempestade.
Acordei com o corpo dorido pela noite mal dormida na cadeira. Pela pequena janela, os primeiros raios de sol entravam, formando um padrão dourado no chão de cimento queimado. A Renata ainda dormia, encolhida na cama estreita, a respiração profunda de quem finalmente encontrou algum descanso após dias de terror.
Levantei silenciosamente e fui até ao pequeno banheiro. Com espelho manchado, o meu rosto parecia mais velho, os olhos fundos, pelas poucas horas de sono. Passei água na cara e esfreguei a barba por fazer, pensando no que fazer a seguir. Quando regressei ao quarto, a Renata estava acordada, sentada à beira da cama, olhando para o pequeno porta-arretos.
Bom dia”, disse eu. A minha voz ainda rouca do sono. Ela sorriu tímidamente. “Bom dia. Desculpe ter ficado com a cama. Não se preocupe. Dormiu bem? Melhor do que nos últimos dias. Ela devolveu o porta-retratos à mesinha. A sua filha é linda.” Puxou a mãe. Graças a Deus. Olhei para o relógio de pulso.
6:15 da manhã. Preciso de ligar para o despachante, avisar que vou atrasar a entrega. Peguei o telemóvel velho do bolso. Vou dizer que tive problemas com o camião por causa da chuva. Enquanto falava com o transitário da transportadora, inventando uma história sobre problemas no travão que precisariam de ser arranjados, observei a Renata ir até ao janela e olhar para fora com cautela, como um animal encurralado que testa se é seguro sair da toca.
“Tudo bem”, falei depois de desligar. “Ganhámos mais dois dias. Posso fazer o caminho mais longo por estradas secundárias?” Renata voltou-se para mim. a gratidão evidente nos seus olhos. Não sei como te agradecer. Não precisa. Guardei o telemóvel no bolso. Vou buscar algo para a gente a comer no bar da esquina. Volto logo.
O ar da manhã estava fresco depois da chuva da noite anterior. O bairro começava a despertar. Um padeiro abria as portas da sua pequena venda. Crianças com mochilas caminhavam para a escola. Um cão magro farejava uma poça d’água. No pequeno bar da esquina, pedi dois cafés e alguns pães de queijo. Enquanto esperava, folhei o jornal que estava sobre o balcão.
O meu sangue gelou ao ver na segunda página a foto de Renata novamente, agora maior e mais nítida sob a manchete. Família Mendonça oferece recompensa por informações sobre enfermeira foragida. A reportagem dizia que Paulo Mendonça, empresário do agronegócio e proprietário de várias centrais na região, estava a oferecer 50.
000 e o por informações que levassem ao paradeiro de Renata Cardoso, enfermeira acusada de negligência médica que resultou na morte do seu filho, Felipe Mendonça. Saí apressado do bar, o café e os pães de queijo esquecidos no balcão. No caminho de regresso, apercebi-me de um carro desconhecido, uma carrinha preta de vidros escuros parado perto da entrada do corredor que conduzia ao meu quarto.
Dois homens conversavam dentro do veículo. Um deles segurava o que parecia ser o jornal aberto na página com a foto da Renata. O meu coração disparou. Como a haviam encontrado tão rapidamente? Seria coincidência? Entrei por outra rua, dando a volta ao quarteirão para chegar. pelas traseiras da casa, havia um pequeno muro que separava o quintal do terreno vizinho, utilizado como depósito de materiais de construção.
Pulei o muro com dificuldade, sentindo uma fisgada nas costas. Quando cheguei à janela do quarto, bati levemente no vidro. Renata apareceu imediatamente, como se estivesse à minha espera ali mesmo. “Temos de sair”, sussurrei. “Há gente procurando-te lá na frente.” O rosto dela empalideceu. Sem fazer perguntas, começou a juntar as suas poucas coisas na mochila.
“Como nos acharam assim tão rápido?” “Não sei, mas estão oferecendo recompensa? 50.000. “Meu Deus!”, murmurou ela, as mãos a tremer enquanto fechava a mochila. Vamos sair pelos fundos. O camião está estacionado a duas quadras daqui, perto do posto. Saímos pela pequena porta das traseiras que dava para o quintal.
O sol da manhã já estava mais alto, diminuindo as sombras que poderiam nos proteger. Saltámos o muro para o terreno vizinho e seguimos por entre pilhas de tijolos e areia. Caminhamos agachados por entre as pilhas de material de construção, evitando fazer barulho. O terreno terminava numa rua estreita de terra. Olhei para os dois lados antes de fazer sinal a Renata me seguir.
“O posto fica a duas quadras para lá”, sussurrei apontando. “Vamos pelo caminho mais longo, evitando a avenida principal”. Ela sentiu-a, o rosto tenso, segurando a mochila contra o peito, como se fosse um escudo. Seguimos por ruelas de terra batida, passando por quintais, onde as galinhas ciscavam e roupas secavam em estendais improvisados.
“Como eles nos encontraram?”, perguntou Renata, a voz quase inaudível. O jornal publicou a sua foto e estão a oferecer recompensa. R$ 50.000. Rais? Ela repetiu incrédula. Eles querem mesmo me destruir. Ao virarmos uma esquina, quase cruzámo-nos com um senhor idoso que varria a calçada em frente a uma casa simples. Ele olhou-nos com curiosidade.
“Bom dia”, cumprimentei tentando parecer casual. O velho retribuiu o cumprimento com um aceno de cabeça, mas os seus olhos permaneceram fixos em nós enquanto nos afastávamos. Será que me reconheceu?”, Renata perguntou, o pânico a crescer na sua voz. “Não se preocupe, estamos quase chegando. O posto apareceu no final da rua.
O meu Scania tr estava estacionado no fundo, entre outros camiões. Nunca o espaço apertado entre os reboques pareceu tão convidativo como naquele momento. “Vá na frente”, instruí. Entre pelo lado do passageiro e baixe-se no banco. Vou dar a volta e verificar se está tudo seguro. A Renata correu até ao camião, mantendo a cabeça baixa. A mochila balançava nas suas costas enquanto ela se esgueirava entre os veículos.
Caminhei mais lentamente, observando o movimento no posto. Alguns camionistas tomavam café na pequena snack-bar, outros verificavam pneus ou conversavam em pequenos grupos. Nada parecia fora do normal. Até que vi a carrinha preta a entrar no posto. Meu coração falhou uma batida. Os mesmos homens que estavam perto da minha casa paravam agora no posto, olhando em redor com atenção.
Apressei o passo, tentando chamar a atenção. Quando cheguei ao camião, a Renata já estava lá dentro, baixada no banco do passageiro. “Eles estão aqui?”, disse eu dando o pontapé de saída. “Baixe-se e não se levante até eu avisar”. O motor rugiu, ganhando vida. Mandobrei o camião para sair do parque de estacionamento, tentando manter a calma.
Os homens da carrinha estavam agora a conversar com o frentista, mostrando algo que parecia ser o jornal. Saí do posto pela saída dos fundos, acelerando assim que ganhei a estrada secundária. No espelho retrovisor, vi a carrinha a sair às pressas do posto. Viram-nos, falei, apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Estão vindo atrás. A Renata olhou pelo espelho lateral, o rosto contorcido de medo. São eles, é o Ricardo, o irmão do Felipe, e algum capanga. A estrada de terra batida serpenteava entre as plantações de soja. Não era o caminho que normalmente seguiria, mas conhecia bem a região após anos transportando carga para as explorações locais.
A carrinha ganhava terreno rapidamente. Era mais rápida e leve que o camião carregado. “Segure-se”, avisei, fazendo uma curva apertada à direita, numa estrada ainda mais pequena, quase um caminho entre quintas. A carroçaria balançou perigosamente com a manobra, a carga de soja deslocando-se ligeiramente dentro do camião. A carrinha continuava no nosso encalço, levantando uma nuvem de poeira.
Eles vão nos alcançar, Renata disse, o pânico evidente em cada palavra. Conheço esses caminhos melhor que eles respondi tentando parecer mais confiante do que me sentia. Há uma ponte mais à frente. É estreita, mas o camião passa. Eles terão de dar a volta. A estrada ficava cada vez pior, cheia de buracos e sucos deixados pela chuva da noite anterior.

O camião sacudia violentamente, fazendo os dentes baterem. Aí, apontei, vendo a ponte de madeira que atravessava um pequeno rio. A estrutura era velha, feita para a passagem de tractores entre quintas. Nunca tinha atravessado ali com o camião carregado, mas não havia alternativa. “Isto vai aguentar?”, – perguntou Renata, olhando para a estrutura precária.
“Vamos descobrir.” Reduzi a velocidade ao aproximar-nos da ponte. As tábuas de madeira rangeram sob o peso do camião. A carrinha estava agora a menos de 50 metros atrás de nós. O coração batia em os meus ouvidos enquanto guiava o camião lentamente sobre a ponte estreita. Cada estalar da madeira parecia o prenúncio de um desastre.
Estamos quase, murmurei, mais para mim próprio do que para a Renata. Quando as rodas traseiras finalmente tocaram terra firme do outro lado, soltei o ar que nem me apercebi que estava prendendo. Olhei pelo retrovisor. A carrinha tinha parado antes da ponte. Os dois homens saíram do veículo, um deles gesticulando furiosamente.
Eles não vão passar, falei. Um leve sorriso de alívio nos lábios. A ponte é forte para tratores e camiões, mas desconfio que não vão arriscar com uma carrinha de luxo. Estava certo. Pelo retrovisor, vi os homens que regressavam para o veículo e dando meia volta. “Vão tentar alcançar-nos por outro caminho”, disse Renata, ainda tensa.
“Conhecem a região melhor que nós, mas não conhecem estas estradas secundárias melhor do que eu? respondi, acelerando novamente, e acho que sei onde nos podemos esconder por um tempo. A quinta dos Moreira ficava a cerca de 20 km dali. Era uma propriedade antiga onde eu costumava entregar os insumos e buscar a produção de soia.
O velho Moreira tinha falecido no ano anterior e a quinta estava praticamente abandonada enquanto os herdeiros brigavam na justiça. Lembra-se daquela reportagem que vimos ontem? Perguntei enquanto seguíamos por uma estrada de terra batida cada vez mais estreita. Sobre o acidente na BR050. Sim, onde poderia estar se não tivesse parado para me ajudar.
Exato. Deu-me uma ideia. Expliquei o meu plano enquanto conduzia. Era arriscado, mas poderia funcionar. Usaríamos a quinta abandonada como esconderijo temporário, enquanto eu tentava contactar um amigo camionista que estava na região. Se conseguirmos que ele leve a carga para Santos no meu lugar, podemos apanhar um autocarro para São Paulo.
Ninguém procuraria uma enfermeira fugitiva num autocarro comum. E o seu camião, o meu amigo pode deixá-lo em Santos. Pego depois, quando tudo estiver mais calmo. A Renata olhou para mim, os olhos a brilhar com lágrimas contidas. Por que razão está a arriscar tanto por mim, a sua vida, o seu trabalho? Mantive os olhos na estrada, incapaz de encará-la naquele momento.
Talvez porque estou cansado de viver apenas para mim mesmo, respondi finalmente, 20 anos na estrada, levando carga de um lado para outro, sem fazer real diferença na vida de ninguém. A quinta apareceu ao longe, um conjunto de construções antigas meio escondidas por árvores altas. O portão de entrada estava trancado com uma corrente enferrujada, mas havia uma entrada lateral utilizada pelos antigos funcionários, que provavelmente ainda estaria acessível.
Parei o camião atrás de um pequeno bosque a cerca de 200 m da entrada principal. Dali não seria visível da estrada. Vamos a pé até ao casa”, disse eu, desligando o motor. “Precisamos de verificar se é seguro”. Descemos do camião, o silêncio súbito, quase ensurdecedor, após horas com o rugido do motor. O ar cheirava a terra molhada e a eucaliptos.
Ao longe, o som dos pássaros era a única indicação de vida. Caminhamos em silêncio até à entrada lateral da quinta. Como imaginei, o pequeno portão de madeira estava apenas encostado, a fechadura partida pelo tempo. A casa principal era uma construção antiga de estilo colonial, com uma varanda ampla e janelas de madeira.
em redor, pequenas casas que um dia albergaram trabalhadores, estavam agora vazias, com portas abertas, balançando ao sabor do vento. “Parece um cenário de um filme de terror”, comentou Renata, abraçando-se enquanto olhava em redor. “É seguro. Venho aqui há anos. O velho Moreira era um bom homem. Entrámos na casa principal.
O cheiro a mofo e abandono era forte. Móveis cobertos por lençóis empoeirados. Pareciam fantasmas silencios nos quartos vazios. Na cozinha ainda havia alguns utensílios básicos. “Podemos ficar aqui hoje?”, falei, abrindo uma janela para arejar o ambiente. “Tenho comida no camião e tenho um poço nas traseiras com água limpa.
” A Renata caminhou até uma poltrona coberta e sentou-se, cansada demais para se preocupar com o pó. “E se nos encontrarem aqui? Não vão encontrar? Ninguém vem aqui desde que o velho morreu. E os herdeiros estão demasiado ocupados, lutando na justiça para se preocupar com a quinta. Voltei ao camião para pegar provisões e o meu telemóvel.
precisava ligar para o Toninho, um velho amigo camionista, que se tivesse sorte estaria a passar pela região. Quando regressei à casa, encontrei a Renata na varanda, olhando para o horizonte onde o sol começava a subir mais alto. “Está com fome?”, perguntei, mostrando o pacote com pão, queijo e fruta que mantinha no camião.
Ela assentiu e sentamo-nos lado a lado nos degraus da varanda para comer. O silêncio entre nós não era desconfortável, mas carregado de pensamentos não ditos. Liguei ao meu amigo, falei finalmente, está em Uberlândia, mas pode estar aqui até ao final do dia. Se tudo der certo, amanhã cedinho apanhamos um autocarro em Catalão para São Paulo.
E se não der certo, há sempre outro plano. Tentei sorrir, mas a preocupação era evidente. A vida na estrada ensinou-me isso. Comemos em silêncio durante mais alguns minutos. O calor do dia a começar a se intensificar. “Como é São Paulo?”, – perguntei, tentando distraí-la. “Já esteve lá antes, algumas vezes visitando minha prima”.
O seu rosto iluminou-se levemente. É incrível como tudo é grande e barulhento, tão diferente do Goianésia. Acha que se vai adaptar? Ela encolheu os ombros. Não tenho escolha. Tenho? Mas sim, acho que sim. Sempre quis viver numa grande cidade, só não imaginava que seria assim. Fugindo. O som distante de um motor interrompeu a nossa conversa.
Levantei-me de um salto, o coração acelerado. Fique aqui falei a correr para o lado da casa, de onde se podia ver a estrada principal. Uma caminhonete preta passava lentamente pela estrada, a cerca de 500 m da entrada da quinta. Não era possível ver quem estava lá dentro, mas não precisava.
São eles falei quando voltei para a varanda. Estão a vasculhar a região. O rosto de Renata perdeu a cor. Como nos encontraram tão depressa? Como sabiam que estávamos nessa direção? A resposta veio como um murro no estômago. O velho murmurei. O senhor que estava varrendo o passeio quando passamos deve tê-lo reconhecido do jornal. R$ 50.
000 é muito dinheiro”, disse ela, a voz trémula. “Temos de ir para um lugar mais escondido, decidi. Há um celeiro nos fundos da propriedade, mais distante da estrada. Vamos para lá.” Juntamos as nossas coisas rapidamente e seguimos por um caminho entre as árvores até ao celeiro antigo. A estrutura de madeira ainda parecia sólida, apesar dos anos de abandono.
No interior, fardos de feno antigos criavam pequenos montes pelo chão de terra batida. O cheiro a palha seca e madeira velha impregnava o ar. Não é o Wilton, brinquei fracamente, mas vai servir até anoitecer. A Renata sentou-se sobre um fardo de feno, parecendo subitamente exausta. “Acha que vamos conseguir?”, perguntou a voz pequena, quase infantil.
Sentei-me ao lado dela, sentindo o peso da responsabilidade que tinha assumido. “Sim”, respondi com mais convicção do que realmente sentia. Vamos conseguir. Lá fora, o sol começava a sua lenta descida para o horizonte. As sombras se alongavam e com elas a incerteza do que nos aguardava. A carrinha preta ainda circulava pelas estradas da região, como um predador paciente que sabe que eventualmente a sua presa cometerá um erro. E nós não podíamos errar.
Não, agora o dia avançou lentamente. Cada minuto parecia uma hora enquanto esperávamos escondidos no celeiro abandonado. O calor do meio-dia tornava o ar abafado e pesado. Poeira dançava nos raios de sol que entravam pelas fendas da madeira velha. A Renata dormiu durante algumas horas, exausta pelo stress e pela fuga.
Eu permaneci acordado, atento a qualquer som que pudesse indicar que tínhamos sido descobertos. A minha mente não parava, como tudo mudara em menos de 24 horas. Ontem eu era apenas mais um camionista, cumprindo o seu trabalho, seguindo a rotina que conhecia há duas décadas. Hoje estava escondido num celeiro abandonado, protegendo uma mulher perseguida por uma das famílias mais poderosas da região.
E o mais estranho, não me arrependia. Pela primeira vez em anos, sentia que estava fazendo algo que realmente importava. O telemóvel vibrou no bolso da minha camisa. Era o Toninho. Fala, compadre. Atendi, mantendo a voz baixa para não acordar. Renata Ademir, estou em Catalão já. Onde disseste que tá? Fazenda do Velho Moreira.
Conhece? Sei onde é aquela que está abandonada depois que ele bateu as botas, certo? Essa mesma. Mas olha, há uns gajos numa carrinha preta procurando por aqui. Toma cuidado. Que diabo aprontaste dessa vez, Ademir? A voz de Toninho misturava curiosidade e preocupação. Digo-te quando chegar, mas vem com cuidado. Estaciona à entrada dos fundos pelo caminho da barragem.
E tô indo. Chego daqui a uma hora, mais ou menos. Desliguei e guardei o telemóvel. A Renata tinha acordado e observava-me com olhos ainda pesados de sono. Era seu amigo? Sim. Vai chegar daqui a uma hora. Ela sentiu a passar as mãos pelo cabelo desgrenhado. Havia uma vulnerabilidade nela que despertava em mim um instinto protetor que eu nem sabia que ainda existia.
“Tem água?”, perguntou a voz rouca. Passei-lhe a garrafa que tinha enchido no poço. Ela bebeu com avidez, algumas gotas a escorrer pelo queixo. “Estou a pensar”, falei depois de um momento, “que talvez devêsemos mudar o plano. Como assim? Ir a São Paulo é demasiado óbvio. Se esta família é tão poderosa quanto você diz, vão imaginar que é para lá que se vai.
A Renata baixou a garrafa lentamente, os seus olhos fixos nos meus. E qual seria a alternativa? Norte ou nordeste? Lugares onde o alcance dos mesmos pode ser menor. Maranhão, Pará. Tenho contactos em Belém. Camionistas que fazem a rota para lá. Podíamos arranjar boleia, mas a minha prima está em São Paulo. É o único contacto que tenho.
Exatamente por isso é o primeiro lugar onde te vão procurar. Ela ponderou por alguns instantes, mordendo o lábio inferior num gesto que já tinha notado ser característico quando estava ansiosa. “Ias comigo?”, perguntou finalmente em voz baixa. A pergunta me apanhado de surpresa. Não tinha pensado tão à frente.
Estava apenas a reagir aos eventos, tentando mantê-la segura. Não sei respondi honestamente. Não pensei nisso ainda. Um silêncio desconfortável se instalou entre nós. Lá fora, o sol começava a aproximar-se do horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados. Acho que ouvi algo”, sussurrou Renata. De repente, ficando tensa, apurei os ouvidos.
No início, não ouvi nada além do vento nas folhas das árvores e o ocasional piar de um pássaro. Então, Apercebi-me de um motor distante, mas se aproximando. “Fique aqui”, falei, levantando-me. “Vou verificar.” Subi por uma escada improvisada até ao pequeno sótam do celeiro, onde existia uma abertura no telhado que permitia ver os arredores.
O coração batia acelerado enquanto me posicionava para observar. A carrinha preta estava de volta, agora acompanhada por outra, uma picap maior de cor branca. Pararam à entrada principal da quinta. Quatro homens saíram dos veículos. Reconheci dois deles da carrinha que nos perseguira pela manhã. Os outros dois pareciam ser trabalhadores, locais, provavelmente contratados como guias.
Eles quebraram a corrente que fechava o portão principal e entraram na propriedade. Caminhavam lentamente, observando tudo em redor, claramente em busca de pistas. Desci rapidamente à escada, quase caindo nos últimos degraus. São eles”, falei. “A Renata, a voz urgente. Quatro homens estão a entrar na quinta.” O pânico tomou conta do rosto dela.
“Como nos encontraram?” “Não sei, mas temos de sair daqui agora.” Peguei na mochila dela e a minha pequena bolsa. Não havia tempo para pensar num plano elaborado. “Há um caminho pelos fundos da propriedade”, expliquei rapidamente. “Leva até a barragem.” “Se conseguirmos lá chegar, podemos seguir pela margem até encontrar a estrada secundária onde o Toninho vai chegar.
” Saímos do celeiro pela porta dos fundos. O sol já estava baixo, projectando sombras longas que nos ajudavam a camuflar-nos. Caminhamos agachados entre arbustos altos, evitando fazer barulho. O caminho para a barragem era mais longo do que me lembrava, ou talvez parecesse mais longo por estarmos fugindo. Cada som, o estalar de um ramo, o farfalhar das folhas, fazia com que o meu coração disparar.
“Quanto falta”, sussurrou Renata, com a respiração ofegante. “Mais uns 500 m foi quando ouvimos vozes demasiado próximas. Ali há um celeiro”, gritou alguém. “Vamos verificar!” Congelamos por um segundo o medo paralisante. Assim, como se um interruptor tivesse sido acionado, começámos a correr. O terreno íngreme tornava a corrida difícil.
Renata tropeçou numa raiz exposta, caindo com um grito abafado. “Voltei para ajudá-la a levantar-se. Ouviu isso?” Uma voz masculina, não muito distante, vem daquela direção. Puxei a Renata pela mão, correndo o mais rápido que podíamos entre as árvores. A vegetação ficava mais densa à medida que nos aproximávamos da barragem, dificultando a nossa fuga, mas também oferecendo-nos mais cobertura.
Finalmente a barragem apareceu à nossa frente. A água calma refletia o céu alaranjado do final da tarde. Não havia ninguém à vista. “Vamos seguir pela margem?” Falei puxando Renata. Toninho deve chegar pela estrada que atravessa a barragem mais adiante. Caminhamos o mais rápido possível, mantendo-nos próximos da água. O terreno era irregular, com pedras soltas e lama da chuva recente.
Atrás de nós, vozes e o barulho de ramos partidos indicavam que os nossos perseguidores haviam encontrado o nosso rasto. Estão se aproximando-se Renata falou, o pânico evidente na sua voz. Quase a chegar na estrada, respondi, apertando-lhe a mão com mais força. O som de um motor se aproximando fez-nos parar. Por momentos, o receio de termos sido encurralados paralisou-me.
Então, reconheci o barulho. Não era uma pick-up, mas um camião, um Volvo FH. Pelo som, o camião do Toninho. É ele? Exclamei, sentindo uma onda de alívio. Apressamos agora o passo com renovada esperança. A estrada apareceu à frente, cortando a mata numa linha reta. E lá estava o camião vermelho de Toninho parado na berma.
Corremos em direção ao veículo, acenando desesperadamente. O Toninho viu-nos e abriu a porta do passageiro. Rápido! Gritou! Estávamos a menos de 100 m do camião quando um tiro ecoou na quietude do entardecer. A Renata gritou, apertando o meu braço com força. Corre!”, gritei, empurrando-a para a frente.
Outro tiro, este mais próximo, levantando poeira a poucos metros dos nossos pés. Alcançamos o camião ofegantes, o coração aos saltos. O Toninho puxou-nos para dentro, fechando a porta imediatamente. “Abaixa!”, gritou, engrenando a marcha e acelerando. Agachados no açoalho da cabine, ouvimos mais um tiro. O som do vidro estilhaçando encheu o ambiente.
A janela traseira tinha sido atingida. Toninho praguejou, pisando fundo no acelerador. O camião ganhou velocidade rapidamente, deixando para trás os nossos perseguidores. Passados alguns minutos, quando já estávamos suficientemente longe, Toninho finalmente falou: “Que diabo foi aquilo, Ademir? Quem são estes tipos atirando em vocês?” Olhei para a Renata, ainda tremendo ao meu lado, e depois para o meu amigo. É uma longa história, Toninho.
Te conto no caminho. Agora só nos tira daqui. O camião seguia pela estrada de terra, levantando poeira que ficava dourada à luz do sol poente. No horizonte, as primeiras estrelas começavam a aparecer. Havíamos escapado por enquanto. Mas por quanto tempo mais conseguiríamos fugir? E para onde iríamos agora? Renata apoiou a cabeça em meu ombro, demasiado exausta para falar.
Instintivamente, passei o braço à volta dela, oferecendo o pouco conforto que podia. A noite caía sobre o cerrado, trazendo consigo a escuridão e a incerteza do que o amanhã nos reservava. O camião do Toninho cortava à noite na BR153, a Belém, Brasília, em direção a norte. Após contarmos toda a história, o meu velho amigo não hesitou em mudar completamente os seus planos.
“Tenho um frete paraa Imperatriz no Maranhão”, explicou, olhando fixamente para o estrada iluminada apenas pelos faróis potentes do Volvo. “Vocês vêm comigo de aí podem seguir para São Luís ou Belém, como preferirem”. Renata tinha adormecido no pequeno beliche atrás dos bancos. O stress, o medo e a exaustão finalmente a venceram.
O seu rosto, mesmo no sono, mantinha uma expressão de preocupação. “Estás metido numa confusão daquelas, compadre?”, disse Toninho, abanando a cabeça. “Essa família Mendonça não é para brincadeiras. Conheço de nome. Têm influência até em Brasília. Não podia deixá-la sozinha”, respondi, olhando pela janela para a escuridão do serrado goiano.
“Sempre foi o seu problema, Ademir. Coração demasiado mole. Havia um sorriso no canto dos lábios dele. Foi o que te afastou da família, não foi? Não conseguia dizer não às coisas erradas. Ficámos em silêncio por alguns minutos, apenas o roncar do motor enchendo a cabine. “E o que vai fazer quando chegarmos a Imperatriz?”, perguntou finalmente o Toninho.
Era a pergunta que eu vinha evitando fazer a mim próprio desde que tudo começou. Não sei, admiti, ajudá-la a se estabelecer, talvez arranjar um lugar seguro e depois volta para a estrada, para o o seu camião. Não sei se posso, respondi percebendo a verdade enquanto falava. Os Mendonça devem estar à minha procura também agora.
Se me encontrarem, encontram-na. O Toninho assentiu, compreendendo a gravidade da situação. Abandonou tudo por ela. Uma estranha. Não era uma acusação, apenas uma constatação. E era verdade. Em menos de dois dias tinha abandonado o meu camião, o meu trabalho, a minha vida na estrada, tudo para ajudar a Renata a escapar.
Talvez precisasse de fazer isso. Falei baixo. Abandonar tudo. Começar de novo. Como quando deixou Márcia e Aline. A pergunta doeu como uma ferroada. O Toninho era um dos poucos que conhecia toda a história. A bebida, as as brigas, a violência, a vergonha que me corroía quando pensava nos erros que cometi. Não respondi firmemente.
Não é igual. Daquela vez fugi. Agora estou correr para algo, não de algo. Toninho sorriu, os olhos ainda fixos na estrada. Finalmente percebeu a diferença. Então, o primeiro posto de abastecimento de combustível apareceu após 2 horas de viagem. O Toninho parou para abastecer e comprar algo para comermos.
A Renata acordou com o movimento. “Onde estamos?”, perguntou, esfregando os olhos. Já em Tocantins, respondi seguindo para norte. Você está bem? Ela assentiu passando as mãos pelo cabelo despenteado. Havia uma nova determinação nos seus olhos, diferente do medo constante dos dias anteriores. “O que aconteceu ao seu camião?”, perguntou subitamente, “Com a carga que devia entregar? Toninho vai cuidar disso.
Tem um amigo que pode levar o camião para Santos e entregar a carga. Sinto muito por ter causado tudo isto. Abanei a cabeça. Foi uma escolha minha. Não se preocupe. O Toninho voltou com refrigerantes e sanduíches embalados em plástico. Comemos em silêncio enquanto o camião voltava para a estrada. A madrugada avançava.
O Tocantins deu lugar ao Maranhão, a paisagem a mudar subtilmente, o serrado, cedendo espaço para uma vegetação mais densa, anunciando a aproximação da Amazónia. O Toninho parou para dormir algumas horas num posto maior, perto de Araguaína. Dormimos os três na cabine, um sono leve e inquieto. De manhã, continuamos a viagem.
O sol nascia à nossa direita, tingindo o céu de tons alaranjados que aos poucos davam lugar ao azul intenso. “Chegámos a Imperatriz no início da tarde”, informou Toninho depois de consultar o GPS. Conheço uma pensão tranquila, onde podem ficar por alguns dias até decidirem o próximo passo. A Renata olhava pela janela, observando a paisagem com fascínio.
Para alguém que passara a vida no interior de Goiás, aquela parte do Brasil era completamente nova. “É lindo”, murmurou. “tão diferente de casa?” “Casa.” A palavra parecia agora distante, tanto para ela como para mim. Por volta do meio-dia, avistamos os primeiros sinais de imperatriz. A cidade maranhense se estendia-se às margens do rio Tocantins, misturando edifícios modernos com construções mais antigas.
“Chegámos”, anunciou Toninho, reduzindo a velocidade ao entrar na avenida principal, Imperatriz pulsava com uma energia diferente das cidades do centro-ul. O calor era mais intenso, o ar mais húmido. As pessoas caminhavam tranquilamente pelas passeios, a vida seguindo o seu ritmo próprio, alheio às nossas tribulações.
A pensão que o Toninho mencionara ficava numa rua lateral, afastada do centro. Era uma casa antiga, de dois andares, pintada de azul claro, com uma pequena placa na frente. Pensão, dona Zefa. A dona é minha conhecida”, explicou o Toninho enquanto estacionava o camião numa viela ao lado. “Não faz muitas perguntas e cuida bem dos hóspedes.
Descemos do camião, os músculos doridos após tantas horas de viagem.” A Renata ajustou a mochila às costas, olhando em redor com uma mistura de curiosidade e apreensão. A Dona Zefa era uma senhora negra dos seus 60 anos, cabelos brancos apanhados num coque, olhos vivos que pareciam ler a alma de quem encontrava.
Recebeu-nos na pequena recepção da pensão, reconhecendo Toninho imediatamente. “Meu filho, quanto tempo!”, exclamou, abraçando-o. Está mais magro, não está a alimentar-se direito na estrada? O Toninho riu, apresentando-nos de seguida. Dona Zefa. Estes são os meus amigos, o Ademir e a Renata. Precisam de um quarto para alguns dias.
Os olhos perspicazes da senhora nos avaliaram por um momento. Não havia dúvida de que ela se apercebesse que havia algo para além de uma simples viagem na nossa história. Mas, como Toninho dissera, ela não fez perguntas. Tem um bom quarto no segundo andar com vista para o quintal”, disse pegando numa chave do gancho na parede.
“Café da manhã é das 6 às 9, almoço ao meio-dia, jantar às 7, tudo incluído na tarifa.” Agradecemos e seguimos dona Zefa Escada acima. O quarto era simples, mas limpo e arejado. Uma cama de casal, um armário antigo, uma pequena mesa com duas cadeiras e um pequeno banheiro. A janela dava para um quintal com mangueiras e outras árvores de fruto.
“Vou deixar-vos se acomodarem”, disse a dona Zefa, colocando a chave na mesinha. “Se precisarem de algo, é só chamar”. Quando ficamos sozinhos, um silêncio estranho instalou-se sobre nós. Era a primeira vez desde que tudo começara, que realmente parávamos. Não estávamos a fugir, não estávamos escondidos.
Estávamos ali num quarto de pensão, numa cidade desconhecida, com um futuro incerto à nossa frente. “O que fazemos agora?”, perguntou a Renata, sentando-se na beira da cama. O Toninho tinha-nos emprestado algum dinheiro, mas não era muito. Eu tinha poupanças numa conta bancária, mas temíamos que os Mendonça pudessem rastrear qualquer movimento financeiro.
Primeiro descansar, respondi sentando-se ao lado dela. Depois pensar no próximo passo. Renata assentiu. Os ombros a cair como se o peso dos últimos dias finalmente a tivesse alcançado. Sabe o que é estranho?”, disse ela, olhando para as próprias mãos. “Uma parte de mim ainda se sente culpada pela morte daquele miúdo, como se eu realmente tivesse feito algo de errado.
” “Fez o que podia com o que tinha?”, respondi. “Às vezes é só isso que podemos fazer.” Ela esboçou um sorriso triste. É o que me tento dizer. Mas penso então na família dele, na dor que estão a sentir, procurando alguém para culpar. Estão errados em perseguir tu assim, falei firmemente. Não importa quanta dor estejam a sentir, isso não justifica.
Ficamos em silêncio novamente. Lá fora, o som das crianças brincando no quintal vizinho entrava pela janela, um lembrete da vida quotidiano que continuava apesar de tudo. Toninho bateu à porta uma hora depois. Tinha ido resolver algumas pendências do frete e preparava-se agora para partir. “Vou seguir viagem amanhã cedo”, informou.
“Tenho contactos aqui em Imperatriz que vos podem ajudar a obter documentos novos”. Se precisarem. A ideia de uma identidade nova, de um recomeço completo, pairou entre nós como uma possibilidade concreta pela primeira vez. “Obrigado por tudo, compadre”, disse eu, abraçando-o forte. “Devo-lhe mais esta. Só me devolva-o quando puder”, respondeu com um sorriso.
“E cuida desta menina, ela vale o esforço.” Depois de o Toninho sair, tomámos banho e descemos para jantar. A cozinha da pensão era simples, mas acolhedora. Outras pessoas alojadas, um casal de idosos, dois rapazes que pareciam ser trabalhadores da construção civil e uma mulher de meia-idade, viajando sozinha, partilhavam a grande mesa de madeira.
A Dona Zefa servia pessoalmente cada prato, arroz, feijão, carne guisada com mandioca e uma salada de tomate com cebola. A comida caseira era reconfortante, trazendo uma sensação de normalidade após dias de tensão. “De onde é que vocês são?”, perguntou a mulher de meia idade, enquanto nos servia um copo de sumo de maracujá. Hesitamos.
Era a primeira vez que precisávamos de criar uma história. “Goiás?”, respondi, optando por uma meia verdade. “Estamos de mudança para a imperatriz. Ainda não decidimos. Talvez sigamos para Belém. A mulher sorriu. Belém é lindíssima. Morei lá durante 5 anos. O ver o peso, as ilhas, vocês vão gostar.
A conversa seguiu superficial e amigável. Renata, que inicialmente estava tensa, aos poucos foi relaxando. Quando regressamos para o quarto, havia um novo brilho nos seus olhos. “É estranho”, disse ela, sentando-se na cama. Por um momento durante o jantar, quase me esquecia que estamos a fugir. “Talvez não precisemos mais fugir”, respondi sentando-me ao lado dela.
“Talvez possamos apenas recomeçar.” Ela olhou para mim com uma intensidade que não tinha demonstrado antes. Acredita mesmo nisso? Que podemos deixar tudo para trás e começar de novo? Não tenho a certeza de nada neste momento, admiti, honestamente. Mas sei que não quero voltar. Por quê? A pergunta ficou suspensa entre nós.
Era tempo de admitir para ela e para mim próprio o que estava realmente a acontecer. Porque antes de encontrar-te eu só existia, não vivia de verdade. A estrada, as cargas, os dias iguais. Era uma fuga constante de quem realmente era, dos erros que cometi. A Renata estendeu a mão tocando na minha levemente.
Um gesto simples, mas que enviou uma corrente elétrica pelo meu corpo. E agora? Agora, agora quero tentar viver de verdade. Naquela noite, dormimos lado a lado na pequena cama da pensão. Não houve nada para além disso. Estávamos exaustos. demais física e emocionalmente, mas havia uma intimidade crescente, uma ligação que transcendia o toque físico.
Os dias seguintes foram de adaptação. Exploramos a cidade com cautela, sempre atentos a qualquer sinal de perigo. A Renata cortou o cabelo, tingindo-os de castanho mais escuro. Eu deixei crescer a barba, mudando completamente a minha aparência. Uma semana depois, o contacto que Toninho mencionara apareceu na pensão. José era um homem baixo, de meia idade, com olhos que pareciam avaliar constantemente o ambiente envolvente.
“O Toninho falou-me de vocês”, disse simplesmente posso ajudar com documentos se precisarem. A decisão era difícil. Novas identidades significavam cortar os últimos laços com quem éramos, mas também significavam liberdade, uma hipótese real de recomeço. “Não temos de decidir agora”, falei a Renata depois de José sair. “temos tempo.
” Ela sentiu-a, mas havia algo novo no seu olhar, uma resolução. “Acho que já sei o que quero fazer”, disse finalmente. Na manhã seguinte, a Renata acordou decidida, pegou o telemóvel pré-pago que tínhamos comprado e, pela primeira vez, desde que fugiramos, ligou para alguém do seu passado. Prima, sou eu, a Renata. Escutei enquanto ela explicava brevemente onde estávamos e por termos fugido.
Do outro lado da linha, a prima parecia preocupada, mas aliviada por saber que A Renata estava segura. Preciso que faça algo por mim. A Renata continuou. Ainda tem aquele pen drive com os ficheiros do hospital que te dei para guardar. O meu coração acelerou. Que ficheiros seriam esses? Depois de mais uns minutos de conversa, Renata desligou, virando-se para mim com uma expressão determinada.
Você disse que a estrada ensinou-te que às vezes é preciso de correr para algo, não para algo. Falou, as palavras saindo-lhe firmes. Estou cansada de fugir. O que pretende fazer? Lutar com as armas que tenho. Nessa tarde, sentados à mesa da cozinha vazia da pensão, a Renata fez-me contou sobre os arquivos. Semanas antes da morte de Felipe Mendonça, ela tinha documentado problemas graves no hospital.
falta de equipamento, escalas de serviço irregulares, atrasos nos pagamentos de médicos de sobreaviso. Tudo tinha sido registado e relatado à direção. Estes documentos mostram que o problema não foi negligência minha, mas falhas estruturais no sistema”, explicou. O médico de sobreaviso demorou porque estava a cobrir outro turno em outro hospital porque não recebera os últimos pagamentos.
E estes documentos estão com a sua prima? Sim. Entreguei-lho quando percebi que as coisas estavam a piorar no hospital. Sabia que poderia precisar deles algum dia. E o que pretende fazer com eles? Vou encaminhá-los ao Ministério Público, ao Conselho de Enfermagem Regional, a imprensa, se necessário. Os seus olhos brilhavam de determinação.
Não posso passar o resto da vida a fugir, Ademir. Preciso de limpar o meu nome, mostrar que fiz tudo o que podia dentro das circunstâncias. Admirei a sua coragem, mas também temi por ela. Os Mendonça continuavam a ser uma família poderosa, com recursos para abafar qualquer denúncia. Será perigoso, alertei.
Eles não e vão desistir facilmente. Eu sei respondeu, pegando na minha mão entre as suas. Por isso, preciso de saber se está comigo nessa. A pergunta apanhou-me de surpresa. Havia ali algo mais, algo da nossa situação imediata, um convite para um caminho partilhado, fosse qual fosse o destino. Estou contigo, respondi sem hesitar. Até ao fim.
Nas semanas seguintes, o nosso plano tomou forma. A prima de Renata enviou os ficheiros digitalizados para um e-mail seguro que criamos. Estudámos cada documento, organizando as provas que mostravam como o sistema de saúde deficiente e não a negligência de Renata tinha contribuído para a morte do jovem Mendonça.
Paralelamente, integrámo-nos à vida em Imperatriz. Consegui um trabalho como mecânico em uma oficina local. Renata, com o seu experiência, encontrou emprego num pequeno centro de saúde na periferia. Usávamos nomes diferentes, mas mantínhamos os nossos documentos originais guardados. Numa tarde de domingo, trs meses após a nossa chegada à Imperatriz, estávamos sentados num banco à beira do rio Tocantins, observando o sol.
“Recebemos resposta do Ministério Público”, disse Renata mostrando o e-mail no telemóvel. vão abrir uma investigação. Era o primeiro passo concreto. Tínhamos enviado todo o material semana antes, através de um advogado que o Toninho nos indicara. “O que acontece agora?”, perguntei, passando o braço pelos seus ombros. Agora é agora precisamos de ter paciência e coragem.
O nosso relacionamento havia florescido naturalmente durante aqueles meses. Da camaradagem inicial, nasceu um amor profundo, enraizado na confiança e no desejo mútuo de redenção. Éramos dois náufragos que juntos tinham encontrado não só um porto seguro, mas também a coragem para enfrentar as tempestades que ainda viriam.
Naquela noite, deitados na cama que agora partilhávamos como um casal, Renata mostrou-me algo que havia escondido até então. Uma pequena caixa contendo fotos da sua vida anterior, uma infância simples no interior, a formatura na faculdade de enfermagem, Momentos com amigos e familiares. “Quero que conheça quem eu realmente sou”, disse passando as fotos uma a.
Não, apenas a enfermeira fugitiva que encontrou na estrada. Abri a minha carteira e tirei a única fotografia que levava sempre comigo. Eu, a Márcia e Aline na praia. Ela deve estar com 19 anos agora. Falei, olhando para o rosto sorridente da minha filha na foto antiga. Não a vejo há mais de um ano. Sente falta dela? Não era uma pergunta, mas senti-a mesmo assim, todos os dias, mas não sabia como voltar depois de tudo, depois de tantos erros.
A Renata acariciou-me o rosto, os olhos brilhando de compreensão. Talvez seja a hora de tentar. Na semana seguinte, liguei para Aline. A conversa foi tensa no início, anos de mágoa acumulada, criando uma barreira quase palpável. Mas havia também uma abertura, um desejo mútuo de reconexão.
“Estou diferente agora, filha”, falei a voz embargada. Aprendi muito nos últimos meses. Contei-lhe, em termos gerais, sobre o que havia acontecido, sobre encontrar Renata, sobre a fuga, sobre o recomeço em Imperatriz, sobre como aquela viagem me havia transformado. “Amas?”, perguntou a Aline, direta como sempre. Sim, ela fez-me lembrar de quem eu poderia ser, de quem eu queria ser.
Quero conhecê-la então e quero ver-te também, pai. O coração quase explodiu no peito com aquelas palavras. A investigação do Ministério Público avançava lentamente. Os Mendonça, como era de esperar, usavam toda a sua influência para bloquear o processo. Mas a verdade, uma vez colocada em movimento, tem força própria.
Trs mes após enviarmos os documentos, um grande jornal de Goiânia publicou uma notícia sobre as condições precárias do hospital de Goianésia, recorrendo a parte dos documentos que Renata havia reunido. A matéria não a mencionava diretamente, mas era um primeiro passo para trazer à luz a verdade. Foi quando recebemos a chamada. O Toninho, em pânico, avisava-nos que os Mendonça tinham descoberto o nosso paradeiro.
Alguém em Imperatriz nos tinha reconhecido e feito contacto pela recompensa. “Vocês precisam de sair daí agora”, urgiu Toninho. “Em poucas horas juntamos o essencial e partimos. Desta vez, não fugíamos apenas. Tínhamos um destino, tínhamos um plano. A estrada mais uma vez se abria à nossa frente, mas agora não era um caminho de fuga, era um caminho de retorno, de confronto, de redenção.
Porque como a estrada me ensinou, às vezes é preciso dar a volta toda para chegar onde realmente precisamos de estar. Epílogo. O Tribunal de Goiânia estava lotado naquela manhã de junho. Jornalistas aglomeravam-se nos corredores, tentando captar imagens dos envolvidos no que se tinha tornado um dos maiores escândalos de saúde pública do Estado nos últimos anos.
Sentada ao meu lado, a Renata apertava a minha mão com força. O seu rosto, agora mais maduro, mostrava a serenidade de quem estava finalmente encarando os seus fantasmas de frente. Um ano e meio tinha passado desde a nossa fuga desesperada. Um ano e meio de luta, de medos, de pequenas vitórias e de grandes reviravoltas.
A investigação do Ministério Público tinha revelado não apenas as falhas estruturais do hospitalar, mas também um esquema de desvio de verbas que envolvia a administração autárquica e, indiretamente os Mendonça. O poder da família, que antes parecia intocável, finalmente começava a ruir. Hoje era o dia do depoimento de Renata.
Depois de meses oculta, protegida por um programa especial para testemunhas, ela finalmente teria a hipótese de contar a sua versão. “Está pronta?”, perguntei, apertando-lhe a mão de volta. Ela sentiu um pequeno sorriso nos lábios. Mais do que nunca. Nas primeiras filas, a família Mendonça observava com olhares duros.
Paulo Mendonça, o pai, parecia ter envelhecido 10 anos desde que tudo começara. Ao seu lado, Ricardo, o irmão mais velho de Felipe, mantinha os olhos fixos em Renata, mas sem a mesma fúria de antes. A dor pela perda do filho e irmão ainda lá estava, sem dúvida. Mas a verdade, gradualmente revelada pelos documentos e testemunhos, tinha começado a deslocar a raiva para o seu verdadeiro alvo.
O sistema defeituoso, a negligência institucional, a ganância que colocava lucro acima de vidas. Quando a Renata foi chamada, ela levantou-se com dignidade. Antes de se dirigir ao banco das testemunhas, virou-se para mim uma última vez. Obrigada por estar aqui. Sempre, respondi. Na última fila do tribunal, Aline observava tudo com olhos atentos.
A nossa reconciliação iniciada naquele telefonema em Imperatriz era ainda um trabalho em curso. Havia feridas antigas a cicatrizar, confiança a reconstruir, mas estávamos a tentar e isso, por si só era uma vitória. Renata caminhou até ao banco das testemunhas, fez o juramento e iniciou o seu relato. A sua voz, antes trémula de medo, agora era firme e clara.
Contou a noite em que Felipe chegou ao hospital, sobre os seus esforços desesperados para o salvar, sobre o sistema que falhou com ambos, com ela como profissional e com ele como paciente. E quando olhou diretamente para Paulo Mendonça, havia não acusação nos seus olhos, mas uma compreensão profunda.
Sinto muito a sua perda”, disse ela, surpreendendo todos com a declaração direta. Como enfermeira, Farei sempre tudo o que estiver ao meu alcance para salvar cada vida. Nessa noite fiz o que pude com o que tinha e continuarei fazendo porque este é o meu juramento. Vi lágrimas nos olhos de Paulo Mendonça, não de raiva, mas talvez de reconhecimento, de uma dor partilhada que finalmente encontrava outro canal para além da vingança.
Depois do depoimento, encontrámo-nos com a Aline no café junto ao tribunal. O abraço que ela deu à Renata, espontâneo e genuíno, encheu o meu coração de esperança. “Vocês vão voltar para a imperatriz?”, perguntou a minha filha. Trocámos um olhar, a Renata e eu. Durante aqueles meses de esconderijo, tínhamos discutido muito sobre o futuro.
“Não”, respondi. “Estamos a pensar em um recomeço, talvez Belém ou São Luís, ou talvez mais perto”, sugeriu Renata. Olhando significativamente para a Aline. Londrina não fica assim tão longe de São Paulo. O sorriso da Aline valeu mais do que qualquer palavra. À saída do tribunal, encontramos o Toninho à espera, encostado no seu Volvo vermelho.
Pronto para mais uma estrada, compadre? perguntou, esboçando um largo sorriso. Sempre, respondi, mas desta vez estou escolhendo o destino. O camião seguiu pela BR153, agora na direção sul. A paisagem do serrado passava lentamente pela janela sob o sol do final da tarde. A Renata descansava a cabeça no meu ombro, uma mão entrelaçada na minha.
Na rádio, uma música sertaneja antiga falava sobre recomeços e destinos reencontrados. A estrada se estendia à nossa frente, como sempre fizera. Mas desta vez não era um caminho de fuga, nem um caminho sem rumo. Era um caminho consciente, escolhido, partilhado. E pela primeira vez em muitos anos, não me estava apenas a existir na estrada, estava verdadeiramente a viver.
Porque a vida como a estrada não é sobre o quanto que percorre, mas sobre as pessoas com quem decide percorrer o caminho e sobre as paragens que faz. para realmente ver, sentir, viver e sobre as mãos que se estendem na escuridão, oferecendo não só boleia, mas redenção. Então,