Em 2 de outubro de 1998, enterrei um homem no cemitério municipal de Juazeiro. As pessoas que estavam ali deixaram coisas junto ao túmulo que nunca tinha visto antes. E o que senti naquele enterro foi diferente de tudo o que já tinha sentido em anos de trabalho. E semanas depois vi aquele mesmo homem de pé no meio do cemitério.
E o que eu ali vivi dentro assusta-me até hoje. O meu nome é Lindomar Pereira Gomes, tenho 76 anos e esta é a minha história em minutos. Quando o carro funerário chegou, eu levantei-me e fui fazer o meu serviço. Mas reparei logo numa coisa. Vieram poucas pessoas a acompanhar o corpo, umas cinco ou seis, no máximo.
Isso não era tão comum assim. Na maioria dos enterramentos que tinha feito, vinha mais gente, família, amigos e vizinhos. Ali eram só aquelas poucas pessoas. Elas não choravam, não falavam entre si. Chegaram, ficaram paradas perto da cova e ficaram assim, quietas. Eu já tinha visto muitos tipos de enterramento, mas aquelas pessoas tinham um jeito que eu não sabia descrever.
Não era tristeza o que eu via nelas, era outra coisa. Eu Olhei para cada um deles, tentando identificar algum rosto conhecido, mas não reconheci ninguém. Eram homens e mulheres de idades variadas, bem vestidos, sem nada que chamasse a atenção de imediato. Só o silêncio deles incomodava. Não era a primeira vez que via pessoas assim, mas algo ali estava diferente.
E quando comecei a baixar o caixão, uma coisa fez-me parar por dentro. Não foi nada que eu vi, nada que eu ouvi. Foi uma sensação, como que de repente o ar em redor da cova tivesse ficado mais pesado. Eu não era homem de assustar fácil depois de 6 anos ali dentro, mas que me fez pausar por um segundo antes de continuar a fazer o que eu estava a fazer.
Terminei de descarregar o caixão com o cuidado de sempre, mas a sensação não se foi embora. ficou ali enquanto trabalhava, quieta, a pesar, como se alguma coisa estivesse muito perto de mim, à espera que eu acabasse. Assim, comecei a tapar a cova. Era sempre o momento mais pesado do serviço. Não pelo esforço, porque a isso eu estava habituado.
Era pelo que aquilo representava. Cada pá de terra que caía ali dentro era definitiva. Naquele dia trabalhei em silêncio, como sempre fazia. Mas o silêncio daquele dia tinha um tipo de peso que não consigo comparar com nenhum outro que eu já tinha sentido. Quando acabei de fechar a cova e nivelei a terra por cima, juntei as minhas ferramentas e dei um passo para o lado.
Foi aí que as pessoas movimentaram pela primeira vez desde que chegaram. Elas abriram um saco que uma delas transportava e começaram a tirar coisas de dentro com cuidado. Fiquei parado, olhando, não sabia o que estava prestes a ver. A primeira coisa que tiraram e colocaram junto ao túmulo foi uma garrafa escura.
Tinha um líquido lá dentro que eu não conseguia ver bem por causa da cor do vidro. Nunca tinha visto uma garrafa assim ser deixada num enterro em todos os meus anos de serviço. Ela foi colocada no chão com cuidado, perto da terra fechada, como se precisasse de estar naquele lugar exato. Depois vieram ervas secas atadas juntas com um cordel.
Tinham um cheiro forte que o vento trouxe-o até onde eu estava, mas eu não soube identificar o que era. E por último, pedaços de papel dobrado, cada um preso com linha preta. Eles foram colocados junto à garrafa no chão. Eu estava parado, a olhar para aquilo tudo, sem compreender o que significava. Quando os objetos já lá estavam todos, um dos homens meteu a mão no bolso e tirou algumas velas. Eram pretas.
Ele as acendeu uma a uma e colocou-as no chão à volta das outras coisas. A chama de cada uma pegou sem dificuldade, mesmo com o vento fraco daquela tarde. Eu Fiquei a olhar para aquilo tudo e não Consegui dizer uma palavra. Nunca tinha visto isso em enterro nenhum. As pessoas ficaram paradas em redor do túmulo depois disso. Ninguém rezou em voz alta.
Ninguém disse nada que eu pudesse ouvir. Ficaram ali uns minutos, de cabeça baixa, num silêncio que não soube explicar. Afastei-me alguns passos. porque senti que não devia estar tão perto daquilo, mas continuei a observar de onde me encontrava, sem conseguir desviar o olhar. Foi quando notei a fotografia.
Estava no chão, encostada à garrafa, virada para cima. Era uma foto antiga, com as bordas um pouco amareladas. E quando olhei para o rosto que estava naquela foto, alguma coisa em mim mudou. Eu já tinha visto aquele homem algumas vezes pelo cemitério ao longo desse ano, sempre sozinho, sempre parado diante de algum túmulo, com a cabeça baixa.
Eu nunca tinha chegado perto, nunca tínhamos trocado uma palavra, mas o rosto tinha ficado na minha memória sem eu me aperceber. E era aquele rosto que estava na fotografia. Aquele era o homem que eu tinha acabado de fechar na terra. Os colegas de serviço falavam daquele homem de vez em quando.
Diziam que ele aparecia no cemitério e ficava parado diante dos túmulos porque estava a falar com os mortos. Que os mortos respondiam para ele: “Eu ouvia estas histórias e não comentava nada. Aprendi cedo a não alimentar este tipo de conversa em cemitério, mas naquele momento, olhando para aquela fotografia, para aquelas velas negras ainda acesas no chão, para aqueles objetos que nunca tinha visto em anos de serviço naquele cemitério, alguma coisa mudou dentro de mim.
Era um peso que chegou e ficou. Eu peguei as minhas ferramentas devagar, virei as costas e fui-me embora. E o rosto daquele homem não me saiu da cabeça pelo resto desse dia. Eu fui-me embora do cemitério naquele dia com aquele peso. Tentei não pensar muito, mas o rosto daquele homem ficou-me na cabeça por um tempo. Não era algo que me metesse medo.
Era mais uma coisa que ficava ali no fundo sem sair. Passei dois ou três dias assim, voltando ao serviço e tentando deixar aquilo para trás. No trabalho, a rotina voltou como sempre volta. O cemitério não pára por causa de nenhum enterro específico. Tem sempre alguma coisa para fazer, sempre algum serviço à espera.
Então fui fazendo o meu e deixando os dias passar. Ao fim de uma semana já não pensava mais naquele enterro com tanta frequência. Era como se o tempo fosse cobrindo aquilo aos poucos, mas foi por regresso dessa mesma semana que eu Comecei a ouvir coisas dos colegas. Não era todos os dias, não era sempre. Era uma vez aqui, outra acolá.
Alguém comentava algo no início do turno ou no final, quando as coisas estavam mais calmas. O primeiro relato que me chamou a atenção foi de um colega que trabalhava no setor, que ficava junto ao túmulo do homem que eu tinha enterrado. Ele veio falar comigo certa manhã com um jeito diferente do normal. disse que estava fazendo um serviço de rotina ali perto, quando sentiu alguma coisa passar por ele.
Não conseguia explicar bem o que foi. Só disse que foi de repente. Ele disse que, juntamente com aquela sensação, ouviu um sussurro, uma voz baixa perto do ouvido dele. Não entendeu as palavras, não soube dizer se era voz de homem ou de mulher. disse que olhou à volta imediatamente e não tinha ninguém por perto. O cemitério estava quase vazio àquela hora.
Ele ficou parado por um momento, olhou de novo em volta e foi-se embora dali, sem terminar o que estava a fazer. Eu ouvi aquilo e não soube o que dizer. Tentei não demonstrar nada, mas por dentro aquilo fez-me incomodou. Não porque achasse impossível, porque num cemitério a gente aprende que as coisas nem sempre têm explicação fácil.
Incomodou-me porque não era homem de inventar história. Era um funcionário sério de muitos anos ali. Não era o tipo que ficava exagerando o que vivia. Alguns dias depois, foi a vez da mulher que fazia a limpeza dos túmulos. Ela veio falar comigo no final do dia de trabalho, quando o cemitério já estava mais vazio. Tinha um jeito diferente nela.
Nesse dia, mais quieta do que o costume, percebi antes mesmo de ela abrir a boca que alguma coisa tinha acontecido. Sentei-me do lado dela e fui ouvir o que ela tinha a dizer. Ela disse que estava a fazer a sua limpeza de rotina quando viu um homem parado em frente de um túmulo. Estava de costas para ela com a cabeça baixa.
Ela não achou estranho num primeiro momento, porque não era raro ver visitantes assim pelo cemitério. Continuou o trabalho dela e desviou o olhar por alguns segundos para terminar o que estava fazendo. Quando ela olhou de volta, o homem já não estava lá. disse que foram poucos segundos o tempo de baixar e levantar a cabeça.
Não tinha como alguém sair dali tão depressa sem ela ver. O cemitério era aberto, sem nada que servisse de esconderijo nas proximidades. Ela caminhou até onde o homem estava e não encontrou ninguém. ficou ali parada sem perceber o que tinha acontecido. Eu perguntei-lhe onde aquilo tinha acontecido.
Ela olhou-me por um segundo antes de responder, como se estivesse tentando lembrar-se. Então ela apontou a direção. Eu reconheci o setor imediatamente. Era o mesmo setor onde estava o túmulo do homem que eu tinha enterrado no dia 2 de outubro. Não precisei de perguntar mais nada. Eu já sabia. A partir daí, os funcionários começaram a chamar aquele túmulo de uma forma específica entre si.
Não era um nome oficial, era apenas a forma que surgiu naturalmente nas conversas do dia a dia. Passaram a chamar-lhe o túmulo do bruxo. Ninguém sabe ao certo quem falou primeiro, mas toda a gente usava. Eu não sou homem de acreditar em qualquer coisa que me contam. Trabalhei muitos anos num cemitério e aprendi que a imaginação da gente pode pregar partidas num lugar daqueles.
Um barulho simples vira um passo. Uma sombra no muro vira uma figura parada, a cabeça completa, o que os olhos não viram bem. Então eu tentei manter os pés no chão e não deixar aquilo crescer mais do que já tinha crescido na minha cabeça, mas os relatos não pararam. Uma semana depois, outro colega veio dizer-me que tinha ouviu um barulho estranho naquele setor.
Ele tinha ficado para terminar um serviço que não tinha dado tempo de concluir durante o dia. Disse que o barulho era baixo, quase como uma voz, e que vinha de perto do túmulo do bruxo. Fui guardando cada coisa que me contavam, não porque eu fosse anotar em algum lugar, mas porque ficavam. Cada relato que chegava ia-se juntando com o outro na minha cabeça.
E eu fui percebendo que aquelas coisas todas tinham algo em comum. aconteciam sempre perto do mesmo local, sempre no mesmo setor, sempre perto do túmulo daquele homem que eu tinha enterrado. Aí chegou um momento em que os relatos foram esfriando. Uma semana sem ninguém comentar nada, depois outra. A rotina do cemitério foi seguindo, os dias foram passando e aquilo foi ficando para trás.
Já tinham passado quase três semanas desde o dia 2 de outubro e eu, aos poucos, fui deixando de pensar tanto no assunto. Não que me tivesse esquecido, mas o dia a dia tem esse poder de ir empurrando as coisas para o fundo. O serviço continuava, as ordens de enterramento continuavam a chegar e a vida no cemitério seguia o ritmo que sempre teve.
Eu continuava a desviar-me daquele túmulo e fui achando que aquilo tinha sido apenas uma fase estranha que havia passado, mas não tinha passado. Eu só não sabia disso ainda. Continuei a fazer o meu trabalho. Continuei a chegar cedo e indo embora à hora certa. E foi numa tarde como qualquer outra, quase um mês depois do enterro, que aquilo que eu não esperava mais acontecer chegou.
E dessa vez não foi com um colega, foi comigo. Era uma tarde como tantas outras. Eu já estava no cemitério, há horas, fazendo o que tinha para fazer. Não pensava mais naquele enterro do dia 2 de outubro. Os dias tinham passado, os relatos tinham arrefecido e eu tinha virado para a minha rotina normal. estava a resolver um problema que tinha dado noutro túmulo do outro lado do cemitério.

Era um serviço simples, nada que não tivesse feito antes. A família de um falecido tinha pedido um ajuste na parte superior da sepultura e eu estava ali para resolver. Era do outro lado do cemitério. Ali eu me sentia-se mais tranquilo para trabalhar. Era um pedaço do cemitério que eu conhecia muito bem. O relógio estava perto das 18 horas, o sol já muito baixo, quase no fim.
Eu sabia que me restavam uns 40 minutos de boa luz. A maioria dos visitantes já tinha ido embora e o cemitério estava a ficar vazio, como todos os dias naquele horário. Eu estava quase a terminar o serviço. Faltava pouco. E foi então que o ouvi. Era um sussurro baixo, muito baixo. Não Consegui perceber as palavras. Parei o que estava a fazer e fiquei quieto, tentando identificar de onde vinha.
Olhei em redor. Não havia ninguém perto de mim. O setor estava vazio. Pensei que podia ser o vento a passar por alguma árvore ou pelo muro do cemitério, mas o ar estava parado naquele momento. Eu Fiquei quieto por mais alguns segundos ouvindo e nada. Respirei fundo e Voltei ao serviço. Tentei não dar importância e menos de um minuto depois o sussurro voltou.
E desta vez estava mais claro que não era o vento. Era demasiado próximo. Parecia vir de um lugar específico. Eu larguei a ferramenta que estava a usar e fiquei completamente parado. O meu corpo parou antes de eu decidir parar. Foi automático, como quando sentimos que algo não está certo. Foi nesse momento que a dor de cabeça começou forte, de repente, sem nenhum aviso.
Não era o tipo de dor que vai chegando aos poucos. Foi como se alguém tivesse apertado alguma coisa por dentro da minha cabeça de uma só vez. Eu nunca tinha sentido aquilo antes daquela tarde e não tinha motivo nenhum para aquela dor aparecer daquela maneira. A dor foi aumentando juntamente com outra coisa, uma certeza de que havia algo de muito perto de mim, não atrás, não à minha frente, perto, de lado, como se alguma coisa estivesse no mesmo espaço que eu e que não conseguia ver.
Não era uma sensação que conhecia de antes. Era nova, diferente de tudo o que tinha sentido nos meus anos de serviço naquele cemitério. E foi quando olhei para a frente e vi a cerca de três filas de túmulos à minha frente estava uma figura. Um homem [música] estava de costas para mim, com a cabeça baixa, completamente parado. Não estava a mexer-se.
Ficava ali daquela maneira, como alguém que está rezando ou esperando alguma coisa. Eu pissei os olhos e voltei a olhar. Ele ainda lá estava, não tinha saído do lugar. Eu não me mexi, só fiquei a olhar para aquela figura durante alguns segundos, sem saber o que fazer. A primeira coisa que pensei foi que era um visitante que tinha ficado depois da hora, porque isso acontecia às vezes, mas havia algo no jeito daquele homem ali parado.
Era demasiado quieto, demasiado parado, muito além da forma normal que as pessoas ficam. E aí o cemitério mudou. Eu não sei descrever isso de outra forma. Foi uma pressão que chegou de repente, como se o ar em redor tivesse ficado mais denso, mais fechado. A dor de cabeça agravou-se juntamente com isso e o sussurro que eu tinha ouvido antes voltou mais presente, mais constante, sem que eu conseguisse compreender uma palavra.
Eu tentei mover-me e percebi que estava parado. Não era que não conseguia mexer os pés, era que o o meu corpo simplesmente não foi. Como quando estamos num sonho e queremos correr, mas as pernas não obedecem. Eu estava consciente, sabia onde estava, mas alguma coisa naquele momento estava pesando em mim de uma forma que não consigo explicar nem depois de tantos anos.
Então aquele homem começou a virar. devagar, sem pressa, como se soubesse que eu estava ali a olhar. A cabeça virou primeiro, depois o corpo. Fiquei de olho fixo nele, sem pestanejar, sem respirar corretamente. A dor de cabeça chegou ao ponto mais forte naquele exato momento e a pressão que sentia no ar ficou ainda mais pesada, como se o lugar inteiro tivesse parado junto comigo.
Quando vi o rosto, deixei de respirar por um segundo. Era o bruxo, o mesmo homem da fotografia, o mesmo rosto que tinha guardado na memória sem querer, o mesmo homem que eu tinha enterrado quase um mês antes, no dia 2 de outubro, com as minhas próprias mãos. Eu estava olhando para o rosto de um homem que eu mesmo tinha fechado debaixo da terra.
A minha cabeça foi para todos os lugares ao mesmo tempo. Lembrei-me do colega que ouviu o sussurro. Lembrei-me da mulher que viu a figura desaparecer. Lembrei-me das velas pretas, da garrafa escura, dos papéis com linha preta. Lembrei-me do que os colegas diziam que aquele homem conversava com os mortos, que os mortos respondiam.
Tudo aquilo voltou de uma vez naquele momento, naquele setor do cemitério. Eu não consegui dizer nada, não me consegui mexer, não consegui não fazer nada além de ficar parado a olhar para aquele rosto. Cada coisa que eu sentia naquele momento tornou-se mais forte de uma só vez. o sussurro, a dor de cabeça, aquela pressão no ar que não tinha nome.
Aquele homem estava a olhar para mim de volta e foi quando começou a caminhar na a minha direção, um passo de cada vez, devagar. Não havia pressa naquele piso. Ele continuava a vir. Ele parecia não me enxergar. Mas eu estava de pé, mesmo no caminho por onde vinha, sem conseguir sair do lugar, esperando o que ia acontecer quando ele chegasse até mim.
Mas ele passou por mim como se eu não estivesse ali, sem se desviar, sem parar, sem me olhar. Passou pelo meu espaço como se o meu corpo não existisse. Não senti frio, não senti vento, não senti nada que pudesse descrever como um toque. Senti uma ausência, como que por um segundo o lugar onde eu estava tivesse ficado vazio de tudo, inclusive de mim.
Aquele segundo durou mais do que um segundo devia durar. Eu não sei explicar isto de outro jeito. Foi rápido e ao mesmo tempo, foi longo. E quando passou, percebi que a dor de cabeça tinha diminuído. A pressão no ar também tinha aliviado um pouco. O sussurro tinha parado. E eu estava parado no mesmo lugar, de costas para para onde tinha ido, sem ter coragem de virar.
Mas virei devagar, com muito cuidado. Virei a cabeça primeiro antes de virar o corpo e vi aquele homem seguindo em frente como se nada tivesse acontecido. Caminhando entre os túmulos com aquele mesmo passo devagar. Eu fiquei olhando-o com os olhos fixos, sem piscar. Depois parou diante de outro túmulo, ficou de frente para a lápide com a cabeça baixa, na mesma posição exata em que o tinha visto quando Olhei pela primeira vez três fileiras atrás, como se o que tivesse acontecido no caminho fosse apenas mais um passo num percurso que já conhecia. ficou ali
parado, quieto, sem se mexer, e o o silêncio voltou inteiro ao redor. Foi naquele momento em que percebi que conseguia mexer os pés. Não foi uma decisão. O meu pé direito recuou sozinho, um passo atrás, depois o esquerdo. Fui recuando devagar, um passo de cada vez, sem tirar os olhos daquele homem parado diante daquele túmulo, com medo de que se olhasse para outro lado, ele voltasse na minha direção.
E quando já estava a uma distância que dava-me algum fôlego, saí dali rápido. Não olhei para trás uma única vez enquanto atravessava o cemitério em direção à saída. Não porque tivesse decidido a não olhar, era porque sabia que se eu olhasse e ele me estivesse a seguindo, não ia conseguir continuar andando.
Então fui sem parar até passar o portão e sair para a rua do lado de fora. Naquela noite eu não dormi. Fiquei deitado, a olhar para o teto até amanhecer. Tentei perceber o que tinha acontecido. Tentei encontrar uma explicação que fizesse sentido, mas não encontrei nenhuma que pudesse aceitar. Eu tinha visto o que tinha visto e tinha sentido o que tinha sentido.
Não tinha como desfazer aquilo com nenhuma explicação que eu fosse capaz de inventar. Na manhã seguinte, quando o céu ainda estava limpo de amanhecer, levantei-me e fui para o cemitério mais cedo do que o habitual. E quando entrei pelo portão, fui direito para o setor onde estava o túmulo daquele homem. Fiquei parado diante do túmulo dele durante alguns minutos antes de falar qualquer coisa.
Então olhei para a Lápide e vi o nome pela primeira vez, Ezequiel Ferreira, nascido em 1946 e faleceu em 1998. E então rezei. Não foi uma reza longa, não foi uma reza bonita, foi a reza de um homem simples, que não sabe o que está diante dele e que só tem as palavras que tem. Eu pedi a Deus que desse aquela alma o que ela merecia, independentemente do que fez ou foi em vida.
Eu disse que não conhecia aquele homem, que nunca tinha trocado uma palavra com ele, que se ele foi uma boa pessoa, que Deus lhe desse descanso, e que se foi uma má pessoa, que pagasse pelos seus erros, era tudo o que tinha para dizer e fui embora do túmulo depois disso. Não sei dizer se aquela reza adiantou alguma coisa.
Não sou homem de afirmar o que não sei, mas posso dizer que depois desse dia não voltei a viver nada semelhante ao que vivi naquela tarde. O cemitério voltou a ser o cemitério que conhecia e voltei a fazer o meu trabalho da forma que sempre fiz, sem que nenhum outro dia se aproximasse daquilo. Ainda ouvi algumas coisas estranhas nos meses que se seguiram.
Um sussurro aqui, um barulho ali, sempre à tarde, quando o cemitério estava mais vazio. Não era todos os dias, não era com frequência. Só que nenhum daqueles momentos chegou perto do que aconteceu naquela tarde de outubro. Eu fiquei mais alguns anos a trabalhar no cemitério depois daquilo.
Saí em 2004, quando o meu corpo começou a pedir um ritmo mais tranquilo. Aposentei-me um tempo depois e a vida foi seguindo como a vida segue. Outras coisas vieram, outros anos passaram, mas o cemitério municipal de Juazeiro ficou comigo de uma forma que os outros locais onde trabalhei nunca ficaram. Nunca contei esta história a muita gente.
Não porque tivesse vergonha, mas porque aprendi que tem coisas em que as pessoas só acreditam quando vivem. Quem não viveu pensa que a gente está a exagerar ou que a cabeça pregou uma partida. Eu sei o que vi. Eu sei o que senti naquela tarde de outubro. E isto não mudou em nada com o tempo que passou desde 1998. O senhor Ezequiel Ferreira era um homem que as pessoas diziam que falava com os mortos.
Não sei se isso era verdade, nunca soube. Mas sei que depois de ter enterrado aquele homem, o cemitério onde eu trabalhava nunca foi mais o mesmo para mim. E o que eu vivia ali dentro naquela tarde de Outubro de 1998 assusta-me até hoje. Se acredita que há coisas neste mundo que a as pessoas não conseguem explicar, coisas que estão para além do que os nossos olhos podem ver, quero saber.
Escreve aqui nos comentários: “Eu acredito”. E se você conhece alguém que viveu algo semelhante, envia-lhe esse relato. Que Deus abençoe a semana de todos vós e até ao próximo relato.
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