No dia em que enterrei aquele rapaz, o cemitério pareceu diferente pela primeira vez em 9 anos. E o que aconteceu depois nunca mais me esqueci. A mãe dele dizia que era inocente, mas semanas depois, quando aquilo veio na minha direção, comecei a pensar que ela estava errada. O meu nome é Raimundo Siqueira, tenho 67 anos e esta é a minha história em minutos.
Era 22 de março de 1995, uma quarta-feira, quando cheguei ao cemitério municipal de Maringa e Encontrei um colega que trabalhava comigo. Ele estava na sala dos funcionários a tomar café e contou-me que ia haver um funeral mais cedo naquela manhã. Disse que era um rapaz jovem que tinha 26 anos. chamava-se Dirceu. Era filho de uma senhora que vivia num bairro aqui perto do cemitério.
Eu ouvi, Abanei a cabeça e perguntei se tinha mais algum serviço programado para aquele dia. Ele disse que não, só aquele, mas depois de ter terminado de falar, ficou quieto durante alguns segundos e aquele silêncio incomodou-me. Depois baixou a voz e disse que a mãe do rapaz estava muito mal. Eu disse que era normal, que nenhuma mãe no mundo aceita perder um filho jovem daquele jeito.
Ele concordou com a cabeça, mas ficou quieto depois disso e não falou mais nada. Então fomos preparar as coisas para o enterro. O cemitério estava sossegado naquela manhã, só eu e um ou dois colegas a circular por ali. O O silêncio de cemitério é diferente do silêncio de outros lugares, mas naquele dia ele parecia diferente mesmo antes de qualquer coisa acontecer.
O caixão chegou perto das 10 da manhã. Era simples, de madeira escura, sem ornamento nenhum. Quando os homens que trouxeram ele entraram pelo portão do cemitério, Senti um peso estranho no peito, como se o ar do cemitério tivesse mudado de repente. Eu já tinha trabalhado em enterros pesados. Cada um deixa um clima diferente no cemitério, mas o que eu senti naquele dia foi outro tipo de coisa.
Não sabia identificar de onde vinha, só sabia que estava ali. Então a família foi chegando aos poucos e foi-se posicionando-se em redor da cova. Eu fiquei ao meu lado com as cordas na mão, pronto para quando chegasse a altura. Eram umas 20 pessoas, talvez um pouco mais, todas em silêncio, cabeças baixas. E no meio delas estava uma senhora pequena, de preto, que mal conseguia manter-se em pé.
Foi quando a ouvi falar pela primeira vez. A voz era baixa, quase um murmúrio, mas eu estava perto o suficiente para compreender cada palavra. Ela olhava para o caixão e repetia baixinho: “O meu filho não fez aquilo. Deus sabe que o meu filho era inocente. Eu ouvi e continuei o meu trabalho, mas aquelas palavras ficaram na minha cabeça.
E nesse momento comecei a pensar no que aquele rapaz poderia ter feito para a própria mãe repetir aquilo daquele jeito. Qual seria a história dele? Eu já tinha visto muita família sofrer à beira de uma cova, mas ela tinha uma maneira de dizer aquilo que era diferente de tudo o que já tinha escutado antes. O padre começou a cerimónia, fez as orações e falou o que se fala nesses momentos.
Alguns familiares ouviam em silêncio, outros choravam baixinho, e a mãe continuava com aquele murmúrio. Eu fiquei no meu lugar com as cordas na mão, aguardando o sinal. para descer o caixão. E quando chegou a hora, eu e o meu colega começámos a descer o caixão lentamente. A família se aproximou-se um pouco e à medida que o caixão ia descendo, aquela coisa que tinha chegado com ele de manhã foi crescendo dentro daquele espaço.
Eu precisava de me concentrar no serviço para o caixão não bater, não ir torto. Mas com aquilo aumentando em redor, era difícil manter o pensamento só naquilo que eu estava fazendo. Eu respirava devagar e ia fazendo o que precisava. E no momento em que o caixão tocou no fundo da cova, eu senti a temperatura baixar e um frio atravessou-me as costas.
De uma vez, como se o calor tivesse desaparecido daquele lugar num instante. Eu olhei para o meu colega e este estava com a cabeça baixa, olhando para o chão, sem dar qualquer sinal de que tinha sentido alguma coisa. Soltei as cordas e fiquei parado durante um segundo, tentando perceber o que tinha sido aquilo.
Não tinha nada ao redor que justificasse. O céu estava do mesmo modo de antes. As pessoas ao redor estavam do mesmo jeito. Só aquele frio tinha chegado. Sem aviso e sem motivo. Acabei o que precisava. Organizei a terra, arrumei o local e fiz o meu trabalho como sempre fazia. O padre encerrou a cerimónia e a família foi saindo aos poucos e a mãe foi a última a sair.
Ela ficou parada na beira da cova durante um bom tempo antes de ir. E quando o cemitério ficou vazio e o silêncio voltou, percebi que aquela sensação ainda estava ali, no mesmo lugar, como se tivesse ficado de propósito. E em anos de trabalho, eu nunca tinha sentido uma coisa assim. Depois de todos irem embora, eu peguei nas minhas coisas e saí dali tentando pensar muito no que tinha acontecido.
Falei comigo mesmo que era coisa da cabeça, mas quando me deitei nessa noite, as palavras daquela mãe ainda lá estavam e eu continuava sem conseguir compreender o que tinha ficado naquela cova. Na manhã seguinte, cheguei ao cemitério ainda com aquilo na cabeça. Então, fui paraa sala dos funcionários.
E encontrei o vigia de serviço ainda ali sentado. Ele tinha feito o turno da noite e não tinha ido embora ainda. Normalmente, quando a gente se encontrava assim, a conversa era curta. Peguei num café, sentei-me do lado dele e perguntei como tinha sido à noite, se tinha tido muito movimento, se tinha precisado de resolver alguma coisa fora do normal, aquela conversa de sempre antes do horário de expediente.
Mas quando perguntei, ele não respondeu logo e ficou um segundo a olhar sério para a mesa antes de falar. Aquele jeito dele chamou-me a atenção. Não era o modo de quem vai contar um problema de serviço, era diferente. Deixei o copo de café na mesa e fiquei a olhar para ele. O vigia era um homem calmo, de poucas palavras, o tipo que não faz escândalo por qualquer coisa.
E ele estava visivelmente abalado naquele momento. Depois contou-me que perto da 1 hora da manhã, quando o cemitério estava completamente vazio e silencioso, ele ouviu alguma coisa vinda de dentro. Não era vento, nem animal ou barulho de rua. Era uma voz ou mais do que uma, como se tivesse gente a falar lá dentro do cemitério a meio da madrugada.
Ele levantou-se, pegou na lanterna e foi ver o que era. O cemitério à noite é outro lugar. Qualquer ruído ecoa de forma diferente. As sombras das árvores e das lápides se misturam de uma forma que desorientam a gente. Mas estava acostumado com aquilo. Fazia o turno da noite há anos. O som vinha da alad.
Ele disse que olhando diretamente para mim quando falou. E percebi logo porque ele estava a me contando aquilo. A ala D era o setor onde o Dirceu tinha sido enterrado na tarde anterior. Ele foi andando devagar nessa direção, com a lanterna apontada para a frente, prestando atenção a tudo o ao redor.
E quando chegou perto do setor, viu um rapaz parado entre as lápides de costas para ele. Devia ter uns 23 anos, talvez um pouco mais. estava parado, quieto, sem se mexer. O vigia chamou e perguntou o que ele estava a fazer ali àquela hora, mas o rapaz não respondeu e não se virou, apenas ficou parado na mesma. Então o vigia aproximou-se mais e quando chegou no local onde o rapaz estava, não tinha mais ninguém.
O lugar estava completamente vazio. A luz da lanterna tremia enquanto ele procurava alguém entre as lápides. E nada, nenhuma sombra, sem ruído, sem sinal de que alguém ali tinha estado. Era como se o rapaz tivesse desaparecido num segundo. Ele contou-me que ficou parado naquele lugar durante algum tempo, sem conseguir mexer-se.
Não era só medo, era uma coisa diferente, como se o corpo travasse por conta própria. Quando conseguiu, saiu dali rápido e foi direto paraa guarita. Ouvi tudo aquilo em silêncio e quando ele acabou de falar, tentei pensar em alguma explicação que fizesse sentido. Alguém que tinha entrado sem ser visto e que tinha saído por outro caminho ou que tinha confundido uma estátua de cemitério com uma pessoa, mas nenhuma destas fechava direito.
A ala era aberta, sem saída por perto, e ele conhecia cada canto daquele cemitério. Eu só fiquei quieto. Disse que era estranho mesmo e mudei de assunto. Mas o que ele me contou ficou ali dentro da a minha cabeça, juntamente com tudo o que eu tinha carregado desde o dia do enterro. E nesse mesmo dia, antes de partir, o vigia começou a sentir-se mal dentro do cemitério. Ficou pálido de repente.
Diz que estava com uma dor de cabeça forte e que não conseguia manter-se em pé direito. E nos dias seguintes, não apareceu no trabalho. Ficou quase duas semanas afastado. Eu fiquei a saber pelo pessoal que estava com febre alta, que não conseguia comer e que estava muito fraco. Ninguém sabia explicar o que lhe tinha dado assim de repente.
Assim, os dias foram passando e eu Continuei no meu serviço, mas passei a evitar a ala de Mas o que senti quando o caixão chegou e quando ele tocou no fundo da cova e no que o vigia tinha ouvido e visto na madrugada depois do enterro eram coisas separadas, acontecidas em momentos diferentes, com pessoas diferentes, mas todas no mesmo lugar, todas depois do mesmo enterro.
O vigia voltou ao trabalho quase duas semanas depois. parecia bem, não comentou mais nada sobre o que tinha acontecido naquela noite e nós não tocou no assunto. Três dias depois de ele voltou, um outro colega procurou-me no final do dia de trabalho. Ele contou-me que tinha passado à tarde a fazer um serviço no setor junto ao túmulo do Diceu e que durante todo o tempo que ficou ali teve a sensação de que algo o observava.
Mas não viu nada e não não ouviu nada. Só disse que era como se tivesse alguém parado ao lado dele o tempo todo. Enquanto ele falava, eu Percebi que ele estava a descrever uma coisa que eu reconhecia de algum lado. Não era igual ao que tinha sentido no dia do funeral. era diferente, mas tinha algo em comum naquilo tudo. O nome Dirseu estava no meio de tudo.

Ele disse que tentou ignorar, que foi empurrando o serviço para a frente, mas que o incómodo foi aumentando. E em algum momento ele descreveu aquilo como um peso, como se o ar naquele setor estivesse diferente do resto do cemitério, mais carregado. Assim, terminou o serviço o mais rápido que pôde e saiu de lá sem olhar para trás.
Ouvi e lembrei-me que semanas antes, logo a seguir ao enterro do Dirceu, tinha comentado com ele sobre a dor daquela mãe. Eu não sabia porque tinha contado aquilo a ele. Acho que eu precisava de falar com alguém. E ele tinha ouvido na altura sem comentar muito. E depois de me contar tudo o que aconteceu, ficou quieto durante um momento e disse que uma coisa que assusta daquela maneira não pode estar em paz e que uma alma em paz não perturba ninguém.
Então, talvez aquele rapaz não fosse assim tão inocente. Então, ele virou costas e foi-se embora. O que estava a acontecer naquele setor, naquele túmulo desde o enterro, não combinava com a ideia de uma alma em paz. E nos dias seguintes fui descobrir que ainda não tinha visto o pior. E dois dias depois já não pude evitar. O serviço do dia exigia que eu trabalhasse num setor próximo da ala D.
Não era dentro da ala, mas suficientemente perto para que eu ficasse de olho naquela direção o tempo todo. E eu sabia que desde cedo, quando vi a lista de serviços. E eu não estava contente com aquilo. Aquele dia foi dos piores que tive no cemitério. Desde cedo, tudo correu mal. Uma ferramenta partiu-se antes do meio-dia.
O serviço que deveria durar 2 horas demorou o dobro. O sol bateu forte de manhã. Deixando aquele calor pesado. Não via a hora de picar o ponto e ir embora. Perto das 17 horas, os outros colegas começaram a terminar o serviço e ainda tinha um trecho para terminar. Não era muito, mais uma meia hora e estava pronto.
E na altura não pensei muito naquilo que aquilo significava. Só queria terminar o serviço e ir para casa. Assim o cemitério foi esvaziando aos poucos. Primeiro os colegas, depois os últimos visitantes que ainda passavam por ali ao fim da tarde. O vigia do turno da noite ainda não tinha chegado e durante alguns minutos ali eu era a única pessoa dentro daquele lugar.
E já passava das 18 horas quando o céu começou a mudar de vez. A luz do dia foi ficando mais baixa, mais alaranjada. As sombras entre as lápides foram crescendo e juntando-se umas nas outras. Tentei acelerar o ritmo para terminar antes de escurecer de vez. E foi nessa hora que começou. Não foi de uma vez. Foi tão devagar que quase não me apercebi no início.
Era como se alguma coisa no o meu próprio corpo tivesse acordado de repente e começado a prestar atenção aos algo que ainda não tinha visto. Eu lembrei-me logo do que o colega me tinha contado dois dias antes, que era como se algo o estivesse a observar. Eu tinha ouvido aquilo, mas agora estava sentindo. exatamente aquilo que ele tinha-me contado.
Alguma coisa estava a me observando naquele momento e eu tinha certeza, só que não conseguia explicar de onde vinha. Eu continuei a trabalhar e obriguei a cabeça a pensar só no serviço. Mas a cada minuto que passava tornava-se mais difícil ignorar. O meu peito estava a apertar. Não era dor, era como uma pressão que não conseguia afastar.
Por mais que tentasse, deixei por um segundo e fiquei só a ouvir. O cemitério estava quieto. Não havia vento, não havia barulho de rua, nada. Era um silêncio mais fechado do que o normal, como se o local se tivesse isolado do resto do mundo. Assim, os os meus ouvidos começaram a zumbir baixinho e eu decidi ir embora. Deixei de lado o pedaço que faltava, juntei as ferramentas, coloquei-as no carrinho e comecei a empurrar na direção da saída.
Eu não corri. Esforcei-me para andar no ritmo normal, como se nada estivesse acontecendo. Mas o meu corpo estava agindo de forma diferente da minha cabeça e os os meus passos foram acelerando sozinhos. Eu ia olhando em frente, tentando olhar para os lados, mas a sensação de ser observado foi ficando mais forte a cada metro que percorria.
Parecia que quanto mais tentava ignorar, mais aquilo aumentava. O zumbido nos ouvidos foi crescendo. A pressão no peito continuava ali, sem dar sinal de que ia ceder. Foi quando ouvi. Vinha de algum lugar ali perto. Parecia uma conversa, uma voz baixa ou talvez duas. Eu parei logo. O carrinho bateu na minha perna quando bloqueei o passo.
Lembrei-me imediatamente do que o vigia tinha-me contado. Ele tinha descrito exatamente aquilo. Uma voz vinda de dentro do cemitério. A meio da noite. Olhei para a direita, nada. Olhei paraa esquerda, apenas as filas de lápides, sombras e silêncio, onde há pouco tinha sido barulho. A conversa tinha parado assim que deixei de andar, ou tinha deixou de ouvi-la.
Não sabia dizer qual das duas coisas tinha acontecido. Então fiquei parado e respirei fundo e Continuei a empurrar o carrinho, tentando focar-me nos meus próprios passos no chão. Quanto mais depressa eu saísse dali, melhor. Foi aí que olhei para a frente de novo. E foi nesse momento quando levantei os olhos para o caminho à minha frente que vi.
Havia um rapaz parado entre as lápides à minha frente, a cerca de 20 m de distância, de costas para mim. Estava parado, sem se mexer, numa posição estranha para quem estaria visitando algum túmulo. Não era normal. Parei e fixei o olhar naquele rapaz, tentando perceber quem era e o que estava ali a fazer.
Naquele instante, tudo o que tinha sentido desde que saí da Aladê veio junto de uma vez. O aperto no peito tornou-se mais forte, o zumbido nos ouvidos ficou mais alto. Eu não conseguia mexer-me. Aquilo que parecia uma conversa voltou, mas agora estava mais próximo, mais claro. Não dava para compreender as palavras, mas dava para sentir que era uma voz, apenas uma, mas como se estivesse em todo o lado ao mesmo tempo.
E eu continuava parado, a olhar para aquele rapaz que estava à minha frente. Então, a dor de cabeça chegou de repente. Ela não foi crescendo gradualmente como o resto. Foi como se alguém tivesse apertado ambos os lados da minha cabeça ao mesmo tempo. Eu fechei os olhos por um segundo e quando abri o rapaz começou a virar-se. Eu congelei.
Não conseguia mover-me. Não conseguia falar, não conseguia nem respirar direito, porque eu reconhecia aquele rosto e senti o chão escorregar debaixo dos meus pés, como se o mundo tivesse mudado de lugar. Era o Dirceu, o mesmo rapaz que eu tinha enterrado há semanas. Isso não fazia sentido nenhum. Eu tinha fechado aquela cova com as minhas próprias mãos e mesmo assim eu estava de frente para ele no meio daquele cemitério.
Ele estava caminhando na minha direção, devagar, sem pressa. O olhar estava vazio, perdido, como se estivesse a olhar para dentro de algum lugar que eu não conseguia ver. Ele não pestanejava e a voz que eu tinha ouvido antes foi ficando mais clara a cada passo que ele dava. Já não era uma conversa, era uma frase curta, repetida, sempre a mesma frase.
Tentei entender as palavras, mas a minha cabeça não conseguia focar-se em nada. As minhas pernas estavam pesadas e não conseguia sair dali. E ele continuava a vir na minha direção. Mas foi aí que percebi o que a voz dizia. Foi eu. Era isso. Duas palavras. Ele repetia aquelas duas palavras enquanto caminhava na minha direção.
Eu ouvi e não Compreendi o que significava naquele momento. Não conseguia processar nada. A cabeça não estava a funcionar. Ele estava a cerca de 10 m quando as minhas pernas cederam. Eu não caí de vez. Fui descendo lentamente, como quem perde a força aos poucos. Os joelhos foram para o chão primeiro, as mãos foram depois.
Eu estava de joelhos no chão daquele cemitério, olhando para aquele rapaz que continuava a caminhar na minha direção. E a frase continuava: “Foi eu, fui eu, cada vez mais próxima, cada vez mais clara.” E à medida que se aproximava, aquela pressão foi chegando a um nível diferente de tudo o que tinha sentido antes naquele cemitério.
Não era mais no peito, estava em todo o lado, nos ombros, na nuca. atrás dos olhos e a frase continuava sem parar. A minha visão começou a escurecer e a última coisa que lembro-me é ele parado à minha frente, bem perto. Não sei dizer quantos metros. Só sei que estava próximo o suficiente para eu ver o seu rosto com clareza e a frase ainda lá estava.
Foi eu. Depois disso, a visão fechou de vez e já não me lembro de nada. Eu Acordei sentado numa cadeira da sala dos funcionários. Não sabia quanto tempo tinha passado. O local estava iluminado, o que me disse que já era a noite lá fora. O vigia estava de pé na minha frente com uma expressão séria. Me perguntou se eu estava bem.
Eu disse que sim, mas não sabia ao certo se era verdade. E fiquei naquela cadeira durante um bom tempo antes de me conseguir levantar direito. Contou-me que tinha chegado para iniciar o turno e encontrou-me desmaiado no chão, perto da alad. Disse que chamou pelo meu nome algumas vezes, que eu não respondia e que então me carregou até à sala.
Eu ouvi aquilo e tentei imaginar o que o vigia tinha sentido ao encontrar-me naquele lugar, naquele estado. Eu contei-lhe tudo, desde o momento em que ouvi a voz até ao instante em que a visão fechou. Contei sobre o rapaz que vi parado entre as lápides, sobre o olhar vazio, sobre a frase que ele repetia enquanto caminhava na minha direção.
O vigia ouviu tudo sem me interromper uma única vez, sem fazer cara de espanto, sem questionar nada. E quando acabei de falar, esperava que ele dissesse alguma coisa, que explicasse o que tinha acontecido, que desse uma razão, qualquer razão, para o que eu tinha visto ali. Mas o que ele disse foi diferente do que eu esperava. Disse que tinha duas possibilidades para uma alma que se mostra assim.
Ou ela está a culpar-se pelo que fez, ou ela está a pagar por isso. Diz que em qualquer dos dois casos, aquilo não era sinal de uma alma em paz, e que o Dirceu, por mais que a mãe acreditasse nele, não era inocente. Depois falou uma coisa que me ficou até hoje. disse que o cemitério existe para todos os tipo de pessoas, para os que se foram em paz e para os que não foram, para os que viveram direito e para os que não viveram.
E que quando trabalhamos num sítio assim, mais cedo ou mais tarde vai deparar-se com os dois tipos. Eu pensei naquela mãe à beira da cova, no forma como ela dizia que o filho era inocente, na certeza que estava na voz dela nesse dia. Ela acreditava que de verdade. Não tinha dúvida nenhuma. E talvez ela nunca tenha sabido o que o filho tinha feito.
Às vezes estamos mais próximo é quem menos consegue enxergar. Mas o que aprendi naquele dia é que não há como escapar. Não importa o que fez, não importa quem acreditou em si, não importa o que ficou escondido enquanto era vivo. Em algum momento vai acertar as contas pelo que deixou para trás. Em vida ou em morte, não há como fugir disso. É nisso que acredito até hoje.
Nos dias seguintes, o vigia chamou um conhecida dele para ir ao cemitério, uma senhora de idade que ele disse que percebia dessas coisas. Ela foi até ao ala D, esteve lá algum tempo, rezou, fez o que ela sabia fazer naquele tipo de situação. Eu não estava presente nesse dia. Soube depois pelo vigia o que tinha acontecido.
A partir daí, as as coisas acalmaram naquele setor. O vigia não relatou mais nada. Nenhum outro colega voltou a falar sobre aquela sensação perto do túmulo do Dirseu. O lugar voltou a ser o que era antes, um setor do cemitério como qualquer outro, mas nunca mais olhei para aquela ala do mesmo modo. Eu conto que em 2026, 31 anos depois daquele dia de março de 1995. Yeah.