Posted in

EX-COVEIRO RELATA COMO, EM 1994, SE LIVROU DE UM ESPÍRITO QUE NÃO ACEITOU PARTIR

Eu só limpei a lápide errada, mas aquele erro revelou uma dor enterrada no local certo. Isto aconteceu em Blumenau, no inverno de 1991, dentro de um antigo cemitério luterano, daqueles que guardam o frio até quando o sol aparece. Eu tinha 34 anos nessa época. Hoje estou com quase 70, aposentado, vivendo numa casa simples.

E ainda tem madrugada em que acordo a recordar o som daqueles passos molhados no corredor de pedra. O meu nome é Henrique Martins. Trabalhei durante muitos anos como zelador de cemitério. Eu não era coveiro, nem pastor, nem funcionário da agência funerária. A minha função era cuidar do lugar. Eu varria os corredores, limpava lápides, lavava bancos, tirava mato dos cantos, recolhia vela queimada, mudava areia de vaso, ajeitava flores caídas e ajudava visitantes que chegavam sem saber direito onde estava o túmulo de alguém.

Com o tempo, fui conhecendo aquele cemitério melhor do que muita gente conhecia a própria rua. Sabia quais os túmulos que recebiam visita toda semana. Sabia quais os jazigos que ninguém procurava há anos. Sabia onde a água empoçava depois da chuva. Sabia qual parte do muro ficava húmida mesmo em dia seco.

Sabia que perto da capela, o vento apagava sempre as velas mais fracas. E sabia também que um cemitério não é um lugar para agirmos com pressa. Mas nesse dia eu agi. O cemitério ficava numa parte calma da cidade. Tinha um portão de ferro preto, alto, pesado, com uma cruz simples no alto. Quando eu chegava antes da abertura, ainda no escuro, empurrava aquele portão lentamente. Ele rangia sempre da mesma maneira, comprido, como se não gostasse de ser incomodado cedo.

À esquerda da capela ficava a parte mais antiga. Era ali que estavam os túmulos de famílias alemãs com apelidos difíceis, fotografias antigas, pedras manchadas pelo tempo e vasos de barro cobertos de limo. Os corredores eram estreitos e as árvores faziam sombra quase o dia inteiro.

Naquela manhã, ela, o frio estava forte. Tinha chovido durante a noite, mas a chuva já tinha parado. O chão ainda estava escuro em alguns pontos, principalmente perto do muro. Eu usava botas de borracha, blusão grosso e transportava um balde com água, escova, pano, uma pequena pá e um saco para recolher folhas. Eu precisava de limpar a quadra dos ciprestes antes de uma inspeção da administração da igreja. Era uma área antiga, bonita, mas difícil de manter em ordem.

Foi aí que tudo começou. Naquele corredor havia dois túmulos muito semelhantes. Um era de Arthur Klein, o outro era de Arn Cleman. Os dois tinham pedra clara, os dois tinham cruz simples, os dois ficavam na mesma fila. Os nomes eram parecidos, as datas também ficavam gastas pelo tempo. Para quem passava com pressa, dava para confundir. E eu confundi.

O túmulo de Arno Cleman recebia uma visita todas as semanas de uma senhora chamada Marta. Ela aparecia geralmente nas manhãs de quinta-feira, sempre com um casaco azul marinho e um ramo de flores brancas. Era uma mulher magra, de andar lento, olhar baixo e mãos muito cuidadosas. Ela não conversava quase nada. Cumprimentava com a cabeça, deixava as flores, passava os dedos na pedra e ficava alguns minutos parada. Eu sempre pensava que o Arno era marido dela. Nunca perguntei. Num cemitério, perguntar demais é falta de respeito.

Naquela manhã, estava apressado. Haveria um enterro à tarde e o administrador queria a entrada principal limpa. Resolvi terminar logo aquela fila. Havia dois vasos de barro perto dos túmulos. Um estava partido na borda, o outro estava inteiro, mas cheio de água parada e folhas podres. Tirei os dois do lugar, deitei a água fora, lavei o melhor, descartei as folhas e comecei a ajeitar a terra.

Na minha cabeça, eu estava a fazer uma coisa simples. Como a dona Marta vinha sempre, pensei que o túmulo por ela visitado merecia o vaso mais bonito. Assim, coloquei o vaso inteiro diante da lápide, que eu acreditava serta. Depois deixei o vaso partido no túmulo ao lado. Limpei as duas pedras com o mesmo cuidado. Esfreguei o musgo das letras, deitei fora umas flores murchas e segui o meu serviço. Foi um erro pequeno, pequeno para mim.

Antes de partir, ao fim da tarde, Voltei à quadra dos ciprestes para buscar o meu balde. O corredor estava quase seco. O sol fraco tinha batido ali durante algumas horas. E a pedra clara já não brilhava de humidade, mas havia marcas no chão, pegadas húmidas. Fiquei parado. Eram marcas estreitas, como de sapato masculino. Não pareciam as minhas botas. Iam de um túmulo ao outro. Do túmulo de Arthur Klein até o túmulo de Arno Cleman, olhei em redor. Não havia ninguém. O portão já estava fechado há algum tempo. O único funcionário ainda comigo era o Senr. Ernesto, o vigia.

Chamei por ele. Senhor Ernesto. Apareceu perto da capela, mexendo no molho do Chaves. Que foi, Henrique? Apontei para o chão. O senhor passou por aqui? Ele olhou para as pegadas. Hoje não está alguém dentro do cemitério? Que eu saiba não, já fechei tudo. Ficámos a olhar aquelas marcas por alguns segundos. O senhor Ernesto era um homem duro destes que não davam importância à conversa de assombração. Passou a mão pelo queixo e falou: “Deve ter pingado água das árvores. Eu Olhei para cima. Não havia ramo sobre aquele trecho. Também não havia pingos. Só as pegadas, umas a seguir às outras.

Nessa tarde fui embora com uma sensação má, mas tentei não pensar muito. Cemitério velho tem coisa que a gente não explica à primeira. Por vezes é um visitante que entrou antes do fecho. Às vezes é água escorrendo de algum lugar escondido. Às vezes é só a cabeça cansada da gente.

Mas nessa noite sonhei com o corredor. No sonho estava diante dos dois túmulos. O vaso bom estava no túmulo de Artur. O vaso partido estava no túmulo de Arno. Uma mão que não via trocava os dois de lugar devagar. como quem corrigia um erro.

Advertisements

Acordei antes do amanhecer. No dia seguinte, cheguei cedo ao cemitério. Fui direito à quadra dos ciprestes. O vaso bom estava no túmulo de Arthur Klein. O vaso partido estava no túmulo de Arno Cleman. Eu tinha certeza de que no dia anterior tinha deixado de outra forma. Fiquei a olhar para aquilo durante bastante tempo. Não toquei em nada.

A manhã ainda estava fria e o cemitério tinha aquele cheiro a terra molhada, folha velha e vela apagada. Baixei-me perto do vaso bom. Dentro dele havia uma flor branca, apenas uma fresca, recém-colocada, mas o cemitério ainda nem sequer tinha aberto para visitantes. Senti um arrepio subir pelas costas. Não era ainda pavor. Não era aquela sensação de que alguém tinha mexido num assunto meu sem falar comigo, ou pior, de que eu tinha mexido num assunto de alguém sem pedir licença.

Passei o resto da manhã a trabalho em silêncio. Por volta do meio-dia, quando o cemitério ficou quase vazio, ouvi um sonoro proveniente da mesma quadra. Tic, tic, tico. Parei com a vassoura na mão. O som era baixo, seco, repetido. Parecia relógio antigo, não relógio de parede novo. Era som de pequeno mecanismo, de relógio de bolso, daqueles que só ouvimos quando chega muito perto.

Fui caminhando lentamente pelo corredor. Tique, tque tque. Quanto mais me aproximava do túmulo de Arthur Klein, mais claro se tornava. Ajoelhei-me perto da lápide. O som parecia vir da base da pedra, e não de dentro da terra. Exatamente. Vinha rente ao chão, como se estivesse preso entre a pedra e o silêncio. Chamei o senhor Ernesto. Ele veio resmungando. O que foi agora? Escuta. Ele ficou quieto. O som continuou. Tic, tic, tic. O rosto dele mudou. Não muito, mas mudou. A boca ficou dura e os olhos foram para a lápide. “Deve ser algum inseto”, disse. Inseto a fazer barulho de relógio? Ele não respondeu. Depois de alguns segundos, o som parou de uma só vez, como se alguém tivesse fechado uma tampa.

Na manhã de quinta-feira, a dona Marta apareceu. Eu estava perto da capela, varrendo folhas secas quando vi a senhora entrar. Ela vinha como sempre. Casaco azul marinho, bolsa pequena no braço, flores brancas na mão. Fiquei a observar de longe. Ela caminhou até à quadra dos ciprestes e parou diante do túmulo de Arn Cleman. Baixou-se para colocar as flores, mas hesitou. Olhou para o vaso partido. Depois olhou para o túmulo ao lado, onde estava o vaso bom. Percebi que ela estranhou. Mesmo assim, deixou as flores no túmulo de Arno. Ficou um pouco parada e saiu mais cedo do que o habitual. Quando passou por mim, cumprimentou com a cabeça. O rosto dela estava mais pálido do que nos outros dias.

Naquela tarde, depois de ela ter sido embora, fui ver as flores. Estavam diante da lápide de Arno, mas junto ao túmulo de Artur havia uma pétala branca no chão, uma só, como se alguém tivesse levado uma parte da flor para o local certo.

Eu não dormi bem nessa noite. No dia seguinte, decidi limpar melhor as duas lápides. Talvez, pensei, estivesse a confundir nomes por causa do musgo e da sujidade. Peguei numa escova fina, num pano limpo e um balde de água morna. Comecei pela lápide de Arno Clem. A inscrição era simples. Arno Cleman, nascido em 1924, faleceu em 1986, descansa no Senhor. Depois fui para a lápide ao lado, esfreguei-a com cuidado. O nome apareceu aos poucos, como se a pedra me estivesse a deixar ler apenas quando quisesse. Arthur Klein, nascido em 1922, faleceu em 1986. O tempo não apaga o que foi amado.

Fiquei preso naquela frase: “O tempo não apaga o que foi amado.” Passei o pano mais uma vez e reparei num pormenor na base da pedra. Era uma gravação pequena, quase escondido pelo lodo, um relógio de bolso. Os ponteiros estavam a marcar 6:40. O meu estômago embrulhou. Na mesma altura, o ar à minha volta mudou. Não foi vento. Não havia vento. Foi como se o frio tivesse ficado mais próximo da pele. O cemitério inteiro pareceu baixar o volume.

Depois ouvi passos atrás de mim. Passos lentos, molhados. Virei depressa. Não havia ninguém, mas as pegadas começaram a aparecer no corredor seco. Uma, depois outra, depois outra. Não vi pés, não vi corpo, não vi sombra. Vi apenas as marcas húmidas surgindo na pedra, como se alguém invisível caminhasse diante de mim. As pegadas saíram do túmulo de Artur e seguiram até uma torneira antiga perto do muro. Ali pararam. Acima da torneira havia um quadro de avisos velho com vidro embaciado por dentro. Nele estavam o mapa do cemitério, horários de visita e avisos da administração. No vidro embaciado, alguém tinha escrito uma palavra. Marta, eu fiquei a olhar para aquilo. Marta, passei o dedo no vidro e o nome sumiu.

Não contei ao administrador nesse momento, nem ao senor Ernesto. Fui para casa com aquele nome preso na cabeça. Na quinta-feira seguinte, esperei pela dona Marta chegar. Ela entrou no cemitério à hora de sempre. Desta vez trazia flores brancas mais pequenas. Caminhou até ao túmulo de Arno Cleman e ficou parada diante dele. Eu me aproximei-me com cuidado. Bom dia, Dona Marta. Ela olhou para mim surpresa. Bom dia, Senr. Henrique. Posso fazer-lhe uma pergunta? Ela pareceu desconfortável, mas assentiu. Esse túmulo é de alguém da sua família? Ela respirou fundo. É do meu marido. Olhei para o Lápid. O seu nome era Arno. O rosto dela mudou. Ela apertou as flores contra o peito. Não, o silêncio entre nós tornou-se pesado. O nome dele era Artur, disse ela. Eu Olhei para o túmulo ao lado, Artur Klein. Depois voltei os olhos para ela. Dona Marta, a senhora sabe que aqui está escrito Arn Cleman. Ela baixou a cabeça. Sei. Então, porque é que a senhora visita este túmulo?

Ela esteve muito tempo sem responder. Quando falou, a voz saiu-lhe fraca. Porque foi o túmulo que me mostraram. Eu não disse nada. Ela continuou. Quando o Artur morreu, fiquei sem rumo. Tive febre. Estive dias sem comer direito. Quem tratou do enterro foi Edgar, irmão deste. Ele trouxe-me aqui depois e disse que era este. Eu estranhei o nome, mas ele disse que a placa tinha saído errada e que depois seria corrigida. E nunca corrigiram. Nunca. Ela olhou para o túmulo de Artur, mas desviou rapidamente. Com o passar do tempo, fiquei com medo de perguntar. Medo de parecer louca, medo de descobrir que passei anos a falar com um lugar errado. As flores tremiam-lhe nas mãos. Eu rezava pensando que Deus saberia onde ele estava, mas nunca senti paz. Nunca. Eu saía daqui mais pesada do que chegava.

Aquelas palavras atingiram-me de um jeito estranho, porque eu tinha visto as pegadas, eu tinha ouvido o relógio, tinha lido o nome dela no vidro e comecei a perceber que talvez aquela falta de paz não fosse culpa dela, talvez fosse um chamamento. Nessa noite sonhei com o Artur. Não vi o rosto dele claramente. Havia apenas um homem parado no corredor da quadra do Ciprestes, envergando um casaco escuro e segurando um relógio de bolso aberto. A névoa cobria-lhe os sapatos. Atrás dele, os túmulos pareciam mais elevados do que eram na realidade. Ele não parecia ameaçador, parecia cansado. No sonho, olhou para mim e disse: “Ela ainda pensa que cheguei zangada. Acordei a suar, mesmo com o frio. Fiquei sentado à beira da cama até amanhecer.

No outro dia, fui logo à administração. O responsável pelo cemitério chamava-se Otto Schneider. Era um homem sério, metódico, daqueles que guardavam chave em ordem e não gostavam de mexer num livro antigo sem motivo. Senr Oto, preciso de consultar os registos de 1986. Ele tirou os óculos. Para quê? Penso que há erro em dois túmulos da quadra dos ciprestes. Erro antigo. Sim, Henrique, sabes que estes registos são complicados. Houve mudança de sala, remodelação, documento perdido. Eu sei, mas é importante. Ele me observou. Importante para quem? Pensei em dizer para o morto. Mas eu disse: “Para uma viúva”. Isto bastou.

O Senr. Oto abriu a sala dos arquivos. O lugar cheirava a papel velho e madeira húmida. Havia armários altos, caixas de cartão, livros grossos de capa dura e fichas amareladas. Procuramos o ano certo. Primeiro encontramos Arno Cleman, sepultado na quadra do Ciprestes, fileira antiga, sepultura 18. Depois encontramos Arthur Klein, sepultado na mesma quadra, mesma fileira. Sepultura 16. Duas posições de diferença. Na ficha de Artur havia uma observação escrita a lápis. Pertences entregues ao Irmão Edgar Klein. Relógio de bolso não localizado. Li aquilo em voz alta. Relógio de bolso não localizado. O Senr. O Otto franziu o sobrolho. Ele era relojoeiro. Procurei na ficha. Profissão relojoeiro. Estado civil. Casado com Marta Hoffman Klein, responsável pelo funeral. Edgar Klein, irmão, sentiu uma pressão no peito. O Edgar tinha mostrado o túmulo errado a Marta. Edgar tinha recebido os pertences. Edgar tinha informado que o relógio não foi encontrado. Talvez fosse erro. Talvez fosse desorganização, talvez fosse algo pior, mas havia coisa demais apontando para o mesmo lado.

Nessa tarde fui a casa de dona Marta. Eu não costumava fazer isso. Funcionário de cemitério não deve se meter demasiado na vida dos visitantes. Mas ali já não era simples curiosidade. Havia uma mulher presa a uma culpa que talvez não fosse dela. A casa dela era pequena, de madeira clara, com jardim simples e cortinas brancas. Bati palmas no portão. Apareceu com avental e expressão preocupada. Senor Henrique, desculpe incomodar. Preciso conversar com a senhora sobre o Artur. Ela deixou-me entrar. A sala estava limpa, silenciosa. Havia uma fotografia de Artur na estante. Era um homem magro, de bigode fino, camisa clara e olhar calmo. Ao lado da fotografia estava uma marca redondo na madeira, como se algum objeto tivesse permanecido ali por muitos anos. A Dona Marta reparou no meu olhar. Ali ficava o relógio dele. Fiquei imóvel. Relógio de bolso. Ela empalideceu. Como é que o senhor sabe?

Sentei-me devagar. Encontrámos uma anotação no registo do cemitério. Dizia que o relógio não foi localizado. Ela passou a mão pelo rosto. O Edgar disse-me que tinha desaparecido no hospital. Edgar ficou com os pertences. Foi o que ele disse. A voz dela ficou baixa. O Edgar nunca gostou de mim. Achava que Artur tinha abandonado a família por a minha causa. Havia uma briga antiga por uma oficina que o pai deles deixou. Depois da morte de Artur, cuidou de tudo. Eu estava demasiado fraca para discutir. Ela olhou para a fotografia. A última vez que vi o meu marido, nós brigamos. Fiquei quieto. Era fim de tarde. Chovia. Ele ia sair para entregar um relógio reparado. Eu pedi-lhe para não ir. Ele disse que precisava de cumprir a palavra. Eu reclamei. Disse coisas que não devia. Meteu a mão no bolso, tirou o relógio e olhou para as horas. Ela fechou os olhos. Eram 6:40. Senti o corpo gelar. Ele disse alguma coisa? Disse: “Quando eu voltar, falamos sem raiva.” Depois saiu. Ela respirou fundo. Mais tarde avisaram-me que ele tinha passado mal na rua. Quando cheguei, já não consegui falar com ele. Desde então carrego isso. A última coisa que ouviu de mim foi raiva.

Fiquei em silêncio. Aquela frase do sonho voltou inteira na a minha cabeça. Ela ainda acha que cheguei com raiva. Naquele momento, compreendi que Artur não queria cobrar a Marta. Queria tirar-lhe uma culpa, mas ainda faltava uma prova concreta.

Ela apareceu alguns dias depois. O Senor Oto chamou-me na administração. Havia uma caixa velha em cima da mesa. Henrique, este caiu atrás do armário do depósito. A caixa estava coberta de pó. No interior havia etiquetas antigas, placas provisórias, recibos e envelopes esquecidos. Um envelope tinha o nome de Artur Klein. Abri com cuidado. Dentro havia uma pequena fotografia, um recibo de reloja e um papel dobrado. No papel estava escrito: “Se vier a Marta, digam-lhe que não cheguei zangado”. A frase era curta, mas mudou tudo. O Senr. O Otto ficou sério. Onde estava isso? Atrás do armário. Deve ter sido perdido na mudança da sala antiga. Virei o envelope. No verso havia uma anotação. Entregue por Edgar Klein. Não disse nada durante alguns segundos. Aquele papel dizia o que o sonho já tinha dito, mas agora não era um sonho. Era prova, era tinta antiga, era uma mensagem que nunca chegou.

Chamámos a dona Marta ao cemitério no sábado de manhã. Ela veio sem flores. Acho que já não sabia o que fazer com as mãos. Entrou pelo portão devagar, olhando para o chão. Eu e o Senr. O Otto esperamos por ela perto da capela. Depois seguimos juntos até ao quadra dos ciprestes. O céu estava limpo, mas o frio continuava forte. Havia poucas pessoas no cemitério. Uma família limpava um jazigo distante. Alguém acendia velas perto do muro. O resto era silêncio. A Dona Marta parou diante do túmulo de Arn por costume. Depois virou-se para o túmulo de Artur. Leu o nome Arthur Klein. Passou a mão na pedra muito devagar. Então era aqui, ela disse. O Senor Oto entregou o envelope. Ela abriu. Quando viu a fotografia, levou a mão à boca. Quando leu o papel, os olhos encheram-se de lágrimas. Se a Marta vier, digam-lhe que não cheguei com raiva. Ela dobrou o papel contra o peito, depois ajoelhou-se diante da lápide. Eu cheguei, Artur, disse ela. Demorei, mas cheguei.

Ninguém disse nada. O cemitério pareceu prender a respiração, então ouvimos. Tic, tic, tico. O som vinha baixo, claro, perto da base da lápide. A Dona Marta levantou o rosto. O senhor está a ouvir? Estou. Respondi. O Senr. Oto também ouviu. Vi pela forma como tirou o chapéu e ficou a olhar para a pedra. O som continuou por alguns segundos, depois parou. Foi aí que vi o objeto no chão. Encostado ao vaso de barro, estava um relógio de bolso antigo, dourado, manchado pelo tempo. Eu tinha limpado aquele túmulo naquela manhã, tinha tirado folhas, lavado o vaso, passado o pano na base da lápide. Aquele relógio não estava ali. A Dona Marta pegou no objeto com as duas mãos, abriu a tampa. Os ponteiros estavam parados em 6::40. No interior da tampa havia uma gravação pequena. Marta Klein, volto a conversar. Ela não gritou, não desmaiou, não perguntou como é que aquilo era possível, apenas fechou o relógio, apertou-o contra o peito e chorou em silêncio.

Naquele instante, uma brisa leve passou pelo corredor. Não foi vento forte, foi apenas um movimento suave, suficiente para mexer as folhas secas perto dos túmulos. A flor branca que estava no vaso caiu sobre a lápide de Artur, logo abaixo do nome dele. E senti, sem conseguir explicar, que alguém tinha deixado de esperar.

Depois desse dia, o senor Oto corrigiu o mapa da quadra dos Ciprestes, mandou limpar melhor os registos, refez as indicações e anotou a informação correta na administração. Não acusamos Edgar de nada. Ele já tinha morrido e não havia forma de saber se agiu por maldade, ressentimento ou descuido. Mas todos entendemos que ele guardou coisas que não lhe pertenciam. Dona Marta passou a visitar o túmulo certo. Todas as quintas-feiras pela manhã, ela deixava flores brancas no túmulo de Artur e passado algum tempo, começou a deixar uma pequena flor no túmulo de Arno Cleman também. Um dia perguntei porquê. Ela respondeu: “Porque ele recebeu a minha tristeza por anos sem ter culpa. Achei aquilo justo. O túmulo de Arno, que antes estava quase esquecido, também passou a ser cuidado. Um parente distante apareceu depois de a administração entrou em contacto, agradeceu a informação e disse que a família achava que mais ninguém visitava aquele lugar. No fim, até o morto errado recebeu respeito.

Quanto ao túmulo de Artur, nunca mais vi pegadas húmidas naquele corredor. Nunca mais ouvi o tictac. Nunca mais encontrei vaso fora do sítio. A Dona Marta mudou depois dessa manhã, não ficou alegre de repente. Luto antigo não desaparece de uma hora para a outra, mas o rosto dela ficou menos carregado. Ela caminhava com mais calma. Quando chorava, já não parecia alguém se punindo. Certa vez, ela sentou-se comigo no banco perto da capela e tirou o relógio de bolso da mala. Estava limpo, mas continuava parado às 6:40. “Levei a um relojoeiro”, disse ela. Ele disse que talvez desce para arranjar. “E a senhora vai mandar arranjar?” Ela abanou a cabeça. “No, agora eu compreendo porque ele parou.” Ficámos a olhar o cemitério em silêncio. Depois ela disse uma frase que nunca esqueci-me. Passei anos a pensar que ele me recusava, mas era eu que estava no sítio errado.

A Dona Marta morreu muitos anos depois. Não vou inventar que aconteceu algo sobrenatural no seu enterro, porque não aconteceu. Foi uma manhã comum, fria, com poucas pessoas, flores brancas e uma oração simples. Foi sepultada junto de Artur, no túmulo certo. Antes de fecharem o jazigo, uma sobrinha dela colocou lá o relógio de bolso dentro, parado aos 6:40. Eu já não trabalhava no cemitério, mas fui à despedida. Fiquei no fundo, quieto, respeitando a família. Quando todos se foram embora, aproximei-me da lápide e passei a mão sobre os nomes Arthur Klein, Marta Klein. Dessa vez juntos. O corredor estava seco, sem pegadas, sem som, sem sinal algum, só silêncio. Mas era um silêncio diferente, um silêncio leve. Um silêncio de coisa resolvida.

Hoje, quando alguém me pergunta se eu acredito em alma, não respondo como pastor, nem como estudioso, nem como homem que tem a certeza de tudo. Eu respondo como zelador, como alguém que passou anos a limpar túmulos e vendo pessoas conversar com pedra fria, como se ali ainda houvesse alguém a escutar. Não sei explicar o que aconteceu naquele inverno em Blumenau. Não sei quem trocou os vasos. Não sei quem escreveu o nome de Marta no vidro embaçado. Não sei de onde veio aquele relógio. Não sei porque sonhei com a mesma frase que depois apareceu escrito num papel antigo. Mas sei o que senti e sei que naquele caso o morto não queria assustar ninguém. Ele não queria castigo, não queria vingança, só queria que a mulher dele parasse de pedir perdão diante do túmulo errado. Há alma que não quer fazer barulho, só quer ser encontrada. Há mortos que não volta para assombrar. Volta, porque os vivos se perderam no caminho.

Desde esse dia, nunca mais limpei uma lápide sem ler o nome antes. Nunca mais Mudei um vaso de lugar sem pensar duas vezes. Nunca mais entrei num cemitério sem pedir licença. Porque às vezes o que os mortos pedem não é muito. É que os vivos façam a coisa certa.

Se acredita que há coisas que não explicamos, mas sentimos, escrevemos aqui em baixo: “Eu acredito que Deus o proteja a si e à sua família”. Até ao próximo relato.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.