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Grupo De Trilheiros Desapareceu Na Tijuca — 2 Anos Depois Um Foi Encontrado Em Túnel Sob A Floresta

No dia 14 de setembro de 2019, às 6:12 da manhã, Renato Bastos Cavalcante publicou uma fotografia no Instagram com a legenda Dia de Mata. Na imagem, cinco as pessoas pousavam diante do portão de entrada do Parque Nacional da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro. Mochilas leves, garrafas de água, ténis de trilha.

O sol ainda não tinha subido por completo e a serra aparecia ao fundo, coberta por uma névoa baixa que é comum naquela época do ano. Os cinco sorriam, mas nenhum deles sabia que aquela seria a última fotografia do grupo inteiro. Às 17:40 do mesmo dia, a mulher de Renato ligou para o telemóvel dele, chamou até cair na caixa postal.

ligou uma e outra vez tentou o número de Cintia Amaral, que era do grupo, depois o de Jonas, depois o de Fabiano. Nenhum atendeu. Às 21 horas, com o jantar frio em cima da mesa e o filho de 4 anos já a dormir, Márcia Cavalcante ligou para a Polícia Militar e ouviu que precisava de esperar. O que os adultos somem por vontade própria o todo o tempo, que era cedo demais para qualquer providência.

O Parque Nacional da Tijuca fica dentro da cidade do Rio de Janeiro. É a maior floresta urbana replantada do mundo. Rodeado por bairros populosos, cortado por estradas asfaltadas, visitado por milhares de turistas todos os meses. Não é um lugar remoto, não é uma serra isolada no interior do país.

É possível ouvir o barulho dos autocarros na estrada da cascatinha enquanto se caminha por certas trilhas. É possível avistar os edifícios da Barra da Tijuca de alguns mirantes. E, no entanto, há trechos daquele parque onde o mato fecha de um forma que faz esquecer que se está numa cidade de 7 milhões de pessoas. Troços onde o GPS falha, onde as trilhos antigos desaparecem sob camadas de vegetação, onde o solo cede sem aviso e revela fendas, galerias e túneis que ninguém catalogou por completo.

Cinco pessoas entraram no parque naquele sábado de setembro. eram trilheiros experientes e todos com mais de 30 anos, todos residentes na zona norte do rio. Conheciam a Tijuca como conheciam o caminho de casa para o trabalho. Faziam trilhos juntos há mais de 6 anos. Tinham um grupo de WhatsApp chamado Pé na Terra, onde combinavam os guiões, partilhavam fotos e discutiam qual caminho era mais seguro numa época de chuva.

Nenhum dos cinco voltou nesse dia, nem no dia seguinte, nem na semana seguinte. O corpo de bombeiros iniciou buscas na segunda-feira, 16 de setembro. Maí vasculhou os principais caminhos durante 11 dias. Encontraram uma mochila, um par de ténis, um cantil amassado à beira de um ribeiro seco. Nada mais.

O caso foi registado na 19ª esquadra de polícia na Tijuca, como desaparecimento coletivo. O inquérito ficou aberto. As buscas foram suspensas por falta de indícios. As cinco famílias passaram a reunir todas as terças-feiras à noite numa sala emprestada da paróquia de São Francisco Xavier, no Maracanã, para trocar informações e cobrar respostas e segurar umas às outras.

Do anos e 4 meses depois, em janeiro de 2022, uma equipa de manutenção da Seda que fazia a inspeção numa galeria pluvial desativada sob a vertente norte da floresta, encontrou um homem vivo, deitado sobre um colchão de folhas secas dentro de um túnel de pedra que não constava em nenhuma planta da câmara municipal.

O homem estava descalço, magro, com barba comprida e ferimentos antigos nas mãos e nos joelhos. Não falou durante as primeiras 6 horas. Quando finalmente disse alguma coisa, disse apenas um nome. O seu era Fabiano Rocha de Melo. Tinha 36 anos. Era um dos cinco. Esta não é uma história de selva distante, nem de uma expedição arriscada.

É a história de cinco pessoas que saíram de casa num sábado de manhã para fazer o que faziam quase todo o fim de semana, caminhar por uma floresta que fica a 20 minutos de autocarro de onde moravam e que desapareceram como se a cidade em redor simplesmente não existisse. Se este tipo de história faz repensar o que acontece nos locais que acredita conhecer bem, considere inscrever-se no canal e deixar a sua reflexão nos comentários.

A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe importa. Cada dia que passou para estas famílias precisa ser contado sem pressa. Por quanto tempo cinco famílias conseguem manter a esperança quando a própria polícia diz que não há mais onde procurar? O que leva um grupo de pessoas adultas e preparadas a desaparecer num parque urbano sem deixar rasto? E o que acontece quando um deles reaparece sozinho num lugar impossível e o que ele conta não explica nada? Estamos no Parque Nacional da Tijuca em setembro de

  1. O Rio de Janeiro vive uma primavera seca. Os trilhos estão firmes, o mato menos denso que no verão. É um dos melhores meses para caminhar na floresta. Todo o trilheiro carioca sabe disso. Renato Bastos Cavalcante tinha 38 anos. Residia em Vila Isabel e trabalhava como técnico de refrigeração industrial.

Era um homem de rotina. Acordava às 5 da manhã, de segunda a sexta-feira. Apanhava o autocarro na rua Teodoro da Silva, descia na Praça da Bandeira e caminhava até à empresa onde trabalhava havia 11 anos. Uma prestadora de serviços para supermercados e matadouros da zona norte. Regressava às 6 da tarde, tomava banho, jantava com a mulher e o filho, de assistia ao jornal e dormia antes das 10.º Aos fins de semana, a rotina alterava-se.

O Renato transformava-se noutra pessoa. Não no sentido de se transformar em alguém irresponsável ou imprudente, mas no sentido de que a floresta era o único lugar onde parecia genuinamente leve. A Márcia dizia-o com frequência. Dizia que durante a semana era um homem sério, calado, preocupado com fatura de eletricidade e prestação do apartamento.

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No sábado de manhã, quando calçava o ténis de trail e colocava a mochila nas costas, algo mudava no seu rosto. Os ombros desciam, o maxilar relaxava, ele sorria. Era Renato quem organizava as saídas do grupo. Todas as quartas-feiras à noite enviava uma mensagem no grupo de WhatsApp chamado Pé na Terra com o roteiro do fim de semana.

A mensagem seguia sempre o mesmo formato: nome da trilho, ponto de encontro, horário de saída, horário estimado de regresso, nível de dificuldade e uma observação sobre o tempo previsto, não é? era metódico, gostava de tudo o que estava planeado, tudo combinado, tudo dentro do horário. Os outros quatro respeitavam isso.

Sabiam que a organização dos Renatos era o que mantinha o grupo a funcionar sem atrito havia mais de 6 anos. Naquele sábado, 14 de setembro, o itinerário previa a subida pelo caminho do Archer até ao bico do papagaio, ida e volta em 6 horas, comparada para almoço num ponto de miradouro que o grupo já conhecia.

Era uma trilho clássico, bem sinalizado, se feita centenas de vezes por centenas de pessoas. Não havia nada de excepcional no plano. Mas às 9:17 da manhã, já dentro do parque, Jonas Teixeira Braga enviou uma mensagem no grupo que mudou tudo. Jonas tinha 34 anos, vivia no Engenho Novo e trabalhava como técnico de informática para uma empresa de contabilidade no centro.

era o mais curioso do grupo, não sentido de ser inconsequente, mas no sentido de ser o tipo de pessoa que pesquisava sobre a história dos lugares antes de os visitar. Lei sabia a data de construção de cada miradouro, a origem dos nomes dos trilhos, a história dos aquedutos coloniais que cortavam a floresta. tinha uma pasta no computador com mapas antigos da Tijuca, descarregados de acervos públicos e de fóruns de cartografia amadora.

Nessa manhã, enquanto o grupo subia pelo caminho do Archer, Jonas parou, tirou o telemóvel do bolso e mostrou-o a Renato o ecrã de uma página de espeleologia que tinha encontrado dias antes. A publicação era de 2011 e feita por um perfil que já não existia, e descrevia uma galeria pluvial do séc. XIX na vertente norte do maciço, acessível por uma picada que saía do chamado Marcos 7, um ponto de referência que aparecia em mapas antigos, mas que não constava da atual sinalização do parque. A descrição era breve. Galeria

de pedra, a aproximadamente 200 m de extensão, parcialmente colapsada, sem uso conhecido desde o início do séc. XX. Havia uma única foto desfocada, demonstrando o que parecia ser uma entrada de pedra coberta de musgo e vegetação rasteira. Jonas disse que ficava a menos de uma hora a pé da trilha principal. disse que dava para desviar, ver a entrada, tirar umas fotos e voltar a o guião original sem atrasar muito.

Renato hesitou, olhou para o relógio, olhou para o céu. O tempo estava firme, sem nuvem no horizonte. O grupo estava bem disposto, bem equipado, ninguém queixando-se de nada. O Renato perguntou aos outros e a Cyntia Amaral disse que topava. Fabiano Rocha de Melo disse que tanto fazia.

Luciana Vidal Mendes, a mais reservada do grupo, encolheu os ombros e disse: “Vamos depressa, então”. Renato aceitou. Disse que iriam ver a entrada, tirar uma fotografia e voltar, sem entrar, sem se arriscar, sem improvisar. A última mensagem registada no grupo de O WhatsApp foi enviado por Renato às 10:03. dizia, saindo do Archer, indo para o Marco 7, volta estimada para o carro às 16 horas.

Se passar das 17 horas sem eu mandar mensagem, e é porque não apanhou o sinal. Ninguém respondeu. Todos estavam juntos caminhando lado a lado. Depois dessa mensagem, todo o grupo ficou em silêncio. Os cinco telemóveis saíram de área entre as 10:15 e 10:22 da manhã. De acordo com os registos da operadora, que foram requisitados posteriormente pela polícia, a picada que levava ao Marco 7 não era um trilho no sentido formal.

Era um caminho de terra estreito, de aberto provavelmente por caçadores ou por funcionários de manutenção da antiga rede de drenagem do parque e que a vegetação tinha tomado de regressa quase por completo. O mato fechava rápido ali. Em alguns troços, era preciso de me baixar para passar sob galhos de Embaúba e Sapucaia, que atravessavam a passagem à altura do peito.

O chão era irregular. cheio de raízes expostas e pedras soltas, cobertas de musgo. O ar ficava mais húmido à medida que se descia pela vertente, e o ruído da cidade, os autocarros e as sirenes, o trânsito longínquo desaparecia por completo em questão de minutos. Ninguém sabe ao certo o que o grupo encontrou quando chegou ao ponto indicado no mapa de Jonas.

Ninguém sabe se a entrada da galeria estava visível, se necessitaram de limpar vegetação para aceder a ela, se houve discussão sobre entrar ou não. O que se sabe é que entraram e que nenhum deles enviou mensagem depois disso. Márcia Helena da Silva Cavalcante tinha 35 anos e conhecia o Renato desde os 19.

Tinham-se conhecido numa festa de São João, no quintal de uma tia sua em Cascadura. Era de bom sucesso, filha de motorista de autocarros e de costureira. Namoraram 3 anos, casaram pelo civil, num cartório da Praça Seca, e foram viver num apartamento de dois quartos em Vila Isabel, que Renato estava a pagar em prestações desde antes do casamento.

O menino Pedro nasceu em 2015. Era filho planeado, desejado, esperado. E Márcia deixou o emprego de auxiliar administrativa para ficar com ele nos primeiros do anos e depois voltou a trabalhar a tempo parcial numa clínica dentária no Grajaú. A Márcia sabia tudo sobre os trilhos de Renato.

Sabia os horários, os nomes dos trilhos, os nomes dos amigos. sabia que ele conferia a previsão do tempo três vezes antes de sair, que levava sempre um kit de primeiros socorros na mochila, que nunca, em seis anos de trilho tinha se atrasado mais de uma hora em relação ao horário combinado. Ele mandava mensagem quando chegava ao ponto de partida.

Mandava mensagem quando começava a subir, enviava mensagem quando começava a descer. Não por obrigação, por hábito, por respeito, porque sabia que a Márcia ficava esperando. Nesse sábado, a última mensagem de Renato para Márcia foi enviado às 6:08 da manhã, 4 minutos antes da foto no Instagram. Dizia: “Cheguei, está tudo certo. Regresso antes das 5”.

E Márcia respondeu com um emogi de joinha e foi acordar o Pedro para tomar café. O dia seguiu normal. Ela levou o menino na casa da avó em bom sucesso, voltou a casa, lavou roupa, fez o almoço, limpou o casa de banho, assistiu a um programa na televisão. Às 15 horas, olhou o telemóvel. Nenhuma mensagem. Não estranhou.

O Renato costumava ficar fora de área nos trilhos do alto. Às cinco olhou de novo. Nada. Mandou uma mensagem. Está voltando? A mensagem ficou com um só tick. Não foi entregue. E às 6 da tarde ligou caixa de correio. Ligou de novo. Caixa de correio. Ligou para a Cíntia Amaral, que era a única do grupo cujo número ela tinha guardado. Caixa de correio.

ligou para o fixo da mãe da Cíntia, uma senhora que morava no Grajaú e que atendeu ao terceiro toque. A mãe de A Cíntia disse que também não tinha notícias da filha. Disse que ia tentar ligar. Disse que talvez o grupo tivesse estendido a pista e perdido o sinal. Disse que não era para se preocupar que estas coisas acontecem.

Nestas 7 da noite, a Márcia sentou-se na cadeira da sala e ficou a olhar para a porta. O apartamento era pequeno, a sala dava diretamente para a cozinha e a partir daí ela conseguia ver a porta de entrada, o corredor e o quarto do Pedro. O menino apareceu à porta do quarto, dizendo que estava com fome.

Márcia levantou-se lentamente, foi à cozinha, tirou o arroz e o feijão do almoço do frigorífico, aqueceu no microondas, colocou no prato e sentou-se com ele à mesa. Pedro perguntou onde estava o pai e a Márcia disse que ele ia chegar mais tarde. O Pedro comeu, lavou os dentes, pediu para ver desenho no tablet. Márcia deixou, ficou sentada na sala com o telemóvel na mão, olhando para o ecrã a cada 30 segundos.

Às 9 da noite, ligou para os 190. A assistente pediu os dados, perguntou há quanto tempo a pessoa estava sem dar notícias. E quando a Márcia disse que desde amanhã a assistente explicou que para os adultos o procedimento padrão era aguardar um período mais longo, disse que provavelmente estava em algum lugar sem sinal.

Disse que se no dia seguinte ele não aparecesse, ela poderia registar uma ocorrência na esquadra mais próxima. A Márcia desligou sem dizer nada. Às 23 horas, ligou para a mãe de Cíntia outra vez. A senhora estava acordada, também não tinha tido notícias. Disse que o marido, o seu António, estava a pensar em ir até ao parque de manhã cedo.

A Márcia disse que ia junto. Combinaram encontrar-se no portão do parque às 6h. Nissas 2 da manhã, a Márcia ligou para o Hospital Municipal Souza Aguiar, ao centro. perguntou se tinha dado entrada a algum homem de 38 anos nas últimas horas. A atendente disse que não podia dar informação por telefone. Márcia insistiu.

A atendente disse que precisava de ir pessoalmente. Márcia desligou, dirigiu-se ao quarto do Pedro, viu que dormia de barriga para baixo com o tablet do lado. Tirou o tablet, tapou o menino com o lençol e voltou para a sala. ficou ali no escuro sentada na mesma cadeira e até o céu começar a clarear. Aquela foi a primeira noite.

Depois dela viriam muitas outras, mas a Márcia nunca esqueceu aquela. Dizia meses depois que foi nessa noite que ela compreendeu que alguma coisa tinha mudado para sempre. Não porque soubesse o que tinha acontecido, mas porque sentiu da maneira como só uma pessoa que vive com alguém há 16 anos consegue sentir que algo estava errado de uma forma que não tinha conserto.

No Domingo de manhã, 15 de setembro, e A Márcia deixou o Pedro com a avó em bom sucesso e encontrou o seu António Amaral no portão principal do Parque Nacional da Tijuca. às 6:30. O senhor António tinha 62 anos, era reformado da Marinha e tinha uma expressão calma que escondia uma preocupação que não verbalizava.

Foram até à guarita de informações do parque. Estava fechada. Não havia funcionário do ICM Bio nesse horário. Caminharam-nos pela estrada asfaltada até ao início do caminho do Archer e subiram pelo trilho chamando os nomes dos cinco. Andaram durante 4 horas. Não não encontraram nada. Não sabiam exatamente para onde o grupo tinha ido depois de sair do Archer, porque nenhuma das famílias conhecia a história do trilho lateral, nem do suposto túnel do imperador.

Essa informação só apareceria semanas depois, quando a polícia acedeu o histórico do computador de Jonas. Na segunda-feira, 16 de setembro, Du Márcia dirigiu-se à 19ª esquadra de polícia na Tijuca e registou o boletim de ocorrência. O escrivão anotou os dados dos cinco desaparecidos, pediu descrição física, perguntou o que vestiam, perguntou se havia histórico de conflito, uso de substâncias, dívidas, envolvimento em atividades ilícitas.

A Márcia respondeu a tudo com paciência. Não, nenhum deles tinha qualquer problema com nada. Eram pessoas comuns, trabalhadores, gente de família. Não, o seu escrivão anotou tudo num formulário padrão e disse que o caso seria encaminhado para o setor de investigação. No mesmo dia, o corpo de bombeiros do estado do Rio de Janeiro acionou a equipa de busca e salvamento.

O coordenador da operação recebeu a informação de que cinco pessoas tinham entrou no parque no sábado de manhã e não devolvido. uma equipa de 12 bombeiros, dois cães farejadores e um drone de mapeamento aéreo. A a busca começou de manhã e seguiu um protocolo padrão: varrimento dos trilhos principais, verificação dos pontos de água, inspeção dos miradouros e áreas de descanso e progressão gradual para as áreas de floresta densa nos arredores.

Os bombeiros percorreram o caminho do Archer por inteiro, subiram até ao bico do papagaio, desceram pelo ribeiro que leva à cascata do orto e vasculharam às zonas que marjeiam a estrada do Excelcior. Deu o drone sobrevoou a copa das árvores em busca de sinais de presença humana, vestuário, equipamento, fogueira, qualquer coisa.

Não captou nada. No terceiro dia de busca, quarta-feira, 18 de setembro, um dos cães farejadores indicou atividade numa área fora de trilho, a cerca de 800 m da picada que leva ao bico do papagaio, numa zona de floresta densa na vertente norte do maciço. Os bombeiros seguiram o cão por um caminho estreito que mal se distinguia do mato em redor.

Ali no chão, parcialmente coberta por folhas e terra, encontraram uma mochila azul marinho. No interior havia uma garrafa d’água pela metade, um pacote de castanha de caju aberto, um protetor solar com o selo rompido e um boné preto com o logótipo de uma loja de material desportivo da Saara.

No centro do rio não se encontravam documento, não havia telemóvel, não havia identificação. A mochila foi recolhida e levada para o esquadra. A Márcia foi chamada para ver se reconhecia. Disse que o boné podia ser de Jonas ou porque ele comprava coisas naquela loja, mas não tinha a certeza. A mochila não era do Renato, podia ser de qualquer um dos outros.

No quinto dia, sexta-feira, 20 de setembro, os bombeiros encontraram um par de ténis de trail tamanho 41, largado na margem de um ribeiro seco, a aproximadamente 400 m da mochila. Os ténis estavam húmidos e cobertos de lama, como se alguém os tivesse tirado com pressa ou os tivesse perdido ao escorregar.

No sétimo dia, encontraram um cantil de alumínio amolgado, sem tampa, encostado a uma pedra coberta de musgo e nada mais. As buscas continuaram durante 11 dias. Os bombeiros expandiram o raio de varrimento para 3 km para além das trilhos oficiais. Usaram equipamento de rapel para descer por encostas íngremmes.

Verificaram grotas, fendas naturais, abrigos de pedra. Convocaram voluntários do grupo de resgate em montanha do corpo de bombeiros. Em nenhum momento encontraram sinal de acampamento, de fogueira e de abrigo improvisado, de presença humana prolongada. No dia 27 de setembro, 11 dias depois do início das buscas, o coordenador da operação informou as famílias que a procura ativa seria suspensa.

disse que o terreno tinha sido coberto de forma exaustiva, que não havia mais indícios a seguir e que a operação passaria ao estado de busca passiva, o que significava, na prática, que se alguém encontrasse algo por acaso, a informação seria passada, mas ninguém mais estaria à procura de forma ativa. A Márcia ouviu a notícia na sala da esquadra, sentada numa cadeira de plástico com as mãos no colo.

Dona Selma estava ao lado dela. A mãe da Cinntia, dona Teresa, estava do outro lado. As três ficaram em silêncio durante quase um minuto depois de o coordenador terminou de falar. A Dona Celma foi a primeira a levantar-se. Agradeceu ao coordenador, apertou-lhe a mão, pegou no bolsa e saiu porta fora sem olhar para trás no corredor e encostou-se à parede e ficou ali parada.

olhando para o chão durante uns dois minutos. Depois seguiu para a paragem de autocarros na rua Conde de Bonfim e regressou ao Meia. Naquela noite, a dona Selma ligou a cada uma das famílias, uma a uma. Primeiro para Márcia, depois à dona Teresa, depois para a mulher de Jonas, uma mulher de nome Patrícia Lemos, que vivia no Engenho Novo e que até àquele momento tinha aparecido pouco, muceiro mês de gravidez e mal conseguia sair de casa de tanta ansiedade.

Depois para a irmã de Luciana Vidal Mendes, uma professora chamada Valéria, que vivia em todos os santos e que tinha assumido o papel de representante da família, porque os pais da Luciana já eram idosos e não tinham condições para acompanhar o caso. A Dona Selma disse a mesma coisa para todas.

Precisamos nos organizar. disse que não ia ficar sentada à espera que a polícia resolvesse no porque a polícia não ia resolver. Disse que elas precisavam de se juntar, dividir informação, cobrar resposta e, se fosse o caso, procurar por conta própria. Disse que conhecia o padre da paróquia de São Francisco Xavier, no Maracanã, e que ia pedir uma sala emprestada para se reunirem.

A primeira reunião decorreu numa Terça-feira à noite, 8 de outubro de 2019, três semanas depois do desaparecimento. A sala ficava nas traseiras da paróquia, no depois de um corredor estreito que cheirava a cera de vela e a madeira velha. Tinha uma mesa retangular de fórmica, oito cadeiras de plástico e um crucifixo na parede.

Apareceram 11 pessoas. Márcia com a mãe, dona Selma sozinha, a dona Teresa com o marido, o senhor António, Patrícia Lemos com a sogra, Valéria Vidal com o marido e um primo de Fabiano chamado Gilberto, que vivia em Madureira e que tinha trabalhado como investigador privado anos antes. Trouxeram cadernos e recortes de jornais.

O caso tinha saído em notas pequenas no Extra e no Odia, cópias do boletim de ocorrência, o comprovativo de registo no Sinalide que a Márcia tinha conseguido fazer através da internet e uma lista de perguntas que ainda ninguém tinha conseguiu fazer a esquadra de forma organizada. A Dona Selma conduziu a reunião, não levantou a voz, não chorou, não se descontrolou.

Falou com a firmeza de quem já tinha decidido que a espera passiva não era uma opção. Eu disse que cada família ficaria responsável por um aspecto do caso. A Márcia cuidaria do contacto com a esquadra. A dona Teresa e o senhor António tentariam falar com a administração do parque. Valéria tentaria aceder à imprensa.

Gilberto tentaria investigar por conta própria a questão do trilho que Jonas havia mencionado. Na segunda reunião, uma semana depois, apareceram 16 pessoas. Vieram vizinhos, colegas de trabalho, membros da comunidade da paróquia. Alguém trouxe café num garrafão térmico. Alguém trouxe biscoito de polvilho.

A reunião durou duas horas. No final, a dona Selma disse que se iam reunir todas as terças-feiras, no mesmo horário, no mesmo local, até que houvesse uma resposta. Ninguém discordou. A partir dessa noite, as As terças-feiras passaram a ter um significado diferente para aquelas famílias. Não era um encontro social, não era um grupo de apoio no sentido terapêutico, era uma espécie de central de operações improvisada, onde cada pedaço de informação era partilhado.

Deu analisado e arquivado num caderno de capa dura que a dona Selma mantinha debaixo do braço como se fosse um documento oficial. Aí estavam anotadas as datas de cada contacto com a delegacia. as respostas recebidas, as questões que ficaram sem resposta, as contradições entre o que um polícia dizia e o que outro dizia, os nomes dos bombeiros que tinham participado na busca e as áreas que tinham sido cobertas.

O caderno da dona Selma tornar-se-ia nos meses seguintes, ne registo mais completo e detalhado do caso, mais completo, segundo a própria Márcia, do que o inquérito policial. O inquérito foi registado na 19. Esquadra de Polícia sob o número 04107922/2019. O delegado titular, um homem que as famílias viram pessoalmente apenas duas vezes durante todo o primeiro ano, atribuiu o caso a um inspetor chamado nos registos internos da esquadra, apenas pelo apelido, Ferraz.

O O inspetor Ferraz acumulava outros 17 inquéritos abertos, mas incluindo furtos de veículos, furto em residência e um caso de burla envolvendo uma empresa de fachada na rua Hok Lobo. O desaparecimento coletivo de cinco pessoas num parque nacional era para aquela esquadra mais um processo num monte de processos.

Em outubro de 2019, um mês após o desaparecimento, as famílias foram chamadas a prestar depoimento, cada uma em separado. Márcia foi primeira e sentou-se diante do inspetor numa sala com ar condicionado desregulado, que fazia um barulho constante e que não arrefecia o suficiente. As perguntas eram burocráticas, feitas com tom mecânico, sem demonstração de urgência ou interesse particular.

Última vez que viu o marido, estado emocional dele nos últimos meses, se tinha dívidas, se consumia drogas, se havia conflito conjugal, se ela desconfiava de envolvimento dele com outra mulher, se tinha mencionado vontade de ir embora e de mudar de vida, de desaparecer, A Márcia respondeu a cada questão com paciência.

Não, o Renato não tinha dívidas para além da prestação do apartamento. Não, não consumia drogas? Não, não havia conflito. Não, ele não tinha qualquer motivo para ir embora. Tinha um filho de 4 anos, um apartamento quase liquidado e uma vida que, se não era extraordinária, era estável. O inspetor anotou tudo num formulário, pediu-lhe que assinasse e disse que entraria em contacto se houvesse novidade.

E a dona Selma foi ouvida na semana seguinte. Recebeu as mesmas questões, respondeu com a mesma firmeza. Disse que Fabiano era um homem tranquilo, trabalhador, sem vícios, sem dívidas, sem inimigos. Trabalhava como porteiro num condomínio residencial na Tijuca. auferia um salário mínimo e meio. Morava com ela no Meer e contribuía com metade das despesas do apartamento.

Aos fins de semana, saía com os amigos para os trilhos. Era a única diversão dele. Não bebia para além de uma cerveja eventual, não fumava, não se envolvia em confusão. O inspetor anotou. Dona Selma perguntou quando é que alguém ia verificar a existência da galeria que Jonas tinha mencionado. O inspetor disse que a informação estava nos altos e que seria analisada oportunamente.

A Dona Selma perguntou o que significava oportunamente. O inspetor disse que dependia do decorrer da investigação. Patrícia Lemos, mulher de Jonas, foi a última a ser ouvida e estava no quarto mês de gravidez e teve de pedir licença no trabalho para ir à esquadra. Respondeu às mesmas questões. acrescentou que Jonas era fascinado por cartografia e história colonial, que pesquisava trilhos antigos da Tijuca há anos e que o seu computador tinha pastas cheias de mapas, fotos e anotações.

Ofereceu-se entregar o computador à polícia. O inspetor aceitou. O computador foi recolhido e levado para o setor de perícias digitais. L os resultados da perícia chegaram dois meses depois. Confirmaram que Jonas tinha acedido à página de espeleologia amadora dias antes do trilho. Confirmaram que havia descarregou um mapa antigo com a indicação do Marcos 7.

confirmaram que a publicação de 2011 existia, mas que o perfil que a tinha feito estava inativo e não foi possível identificar o autor. A perícia não concluiu nada para além do que as famílias já sabiam e ninguém foi verificar se a galeria existia de facto. E a Márcia saiu da esquadra depois do seu depoimento com uma sensação que descreveu semanas depois na sala da paróquia.

com a voz firme e os olhos secos, disse à dona Selma que teve a impressão de que a polícia não estava procurando os cinco, procurava um motivo para dizer que foram embora por vontade própria. Dona Selma o viu, assentiu com a cabeça e anotou a data e a observação no caderno de capa dura. O inquérito continuou aberto, mas não andou.

Gilberto Rocha e o primo de Fabiano, que tinha experiência como investigador privado, assumiu por conta própria a tarefa de tentar localizar o trilho mencionado por Jonas. Ia ao parque aos fins de semana sozinho com um GPS de mão que comprou usado na internet e percorria os caminhos da vertente norte, procurando qualquer sinal do marco 7 ou de uma entrada de galeria.

Durante quatro meses, entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020, fez 22 incursões. Anotou coordenadas, tirou fotos, nemapeou acessos secundários, conversou com guardas do ICM Bio e com os moradores das comunidades que ficam no envolvente do parque. Ninguém tinha ouvido falar do túnel do imperador. Ninguém reconhecia o Marcos VI.

Dois Os guardas antigos disseram que existiam sim galerias de drenagem sob a floresta construídas no século XIX, mas que a maioria tinha sido abandonada e que ninguém sabia ao certo onde ficavam ou em que estado se encontravam. Lá Gilberto compilou tudo num relatório de 12 páginas que entregou à esquadra em março de 2020, uma semana antes do início da pandemia.

O inspetor Ferraz recebeu o relatório, disse que ia incluir nos autos e que seria analisado. Gilberto nunca recebeu retorno. A post de 2011 que Jonas tinha encontrado na página de espeleologia amadora era o único indício concreto de que a galeria existia, mas o post era anónima. O perfil tinha sido eliminado e a foto era desfocada e o descrição era demasiado genérica para servir de coordenada precisa.

Gilberto tentou rastrear o autor, entrou em fóruns de espeleologia, postou perguntas, enviou mensagens para administradores de páginas antigas, recebeu algumas respostas vagas. Um utente de Petrópolis disse que havia ouvido falar de galerias pluviais na vertente norte da Tijuca, mas nunca tinha visitado.

Outro de Niterói disse que um tio seu, engenheiro reformado da câmara municipal, já mencionava a existência de troços de drenagem imperial que nunca foram catalogados pela administração moderna do parque. Nada que se pudesse confirmar. Nada que gerasse uma coordenada precisa, nada que movesse a investigação do lugar onde estava.

A família de Jonas, por sua vez, guardou o computador que a polícia devolveu depois da perícia. Patrícia Lemos deixou-o em cima da mesa do escritório pequeno que Jonas tinha improvisado no quarto de casal. A mesa ficou exatamente como ele a tinha deixado. O computador, uma caneca com canetas, um caderno de notas com capa de couro falso e uma pilha de mapas impressos em papel A3, dobrados e seguros com elástico.

A Patrícia não mexeu em nada. Durante meses limpava o pó da mesa e dos objetos sem os mover de lugar. Quando a filha nasceu, em março de de 2020, no auge da pandemia, colocou o berço no quarto de casal, junto à mesa do pai, que a menina nunca iria conhecer. Setembro de 2020, chegou sem que nenhum dos cinco tivesse sido encontrado, vivo ou morto.

O aniversário do desaparecimento passou em silêncio nos jornais. A cidade estava ocupada com a pandemia. Os hospitais estavam lotados, as ruas vazias, os noticiários dedicados exclusivamente a números de infectados e de mortos. Não havia espaço na cobertura jornalística para cinco pessoas desaparecidas num par que havia um ano.

A história tinha sido publicada no início, não em notas pequenas nos jornais populares, e depois desapareceu da imprensa como se nunca tivesse existido. As famílias continuaram a se reunindo agora por vídeochamada todos os terça-feira à noite. As reuniões duravam menos. Havia novidade para partilhar. O caderno da dona Selma continuava a ser atualizado, mas as anotações eram cada vez mais curtas, sem retorno da esquadra, sem novidade do MP, sem resposta do ICM Bio sobre o acesso aos galerias. A Márcia tinha voltado a

trabalhar como assistente administrativa na clínica do Grajaú, agora em período integral. precisava do dinheiro. A prestação do apartamento continuava caindo todos os meses e o salário de Renato, que correspondia à maior parte do rendimento da casa, tinha desaparecido juntamente com ele.

A mãe de Márcia mudou-se para Vila Isabel para ajudar com Pedro, que tinha começou a frequentar a escola pública do bairro. O menino perguntava pelo pai com menos frequência no início e perguntava todos os dias, depois todas as semanas, depois de vez em quando, geralmente à noite, antes de dormir, com uma pergunta que não mudava.

Mãe, o papá já encontrou o caminho de regresso? Márcia respondia sempre da mesma forma. Ainda não, filho, mas está à procura. Não sabia se era verdade. Não sabia se acreditava nisso, mas era o que conseguia dizer. Dona Selma, no Meer manteve a rotina com uma disciplina que impressionava os vizinhos. Acordava se fazia café, limpava o apartamento e ia à padaria da esquina comprar pão francês e leite.

Voltava, tomava café, lavava a loiça e sentava-se na sala para assistir ao noticiário da manhã. À tarde ia à missa na paróquia do bairro ou visitava uma amiga que vivia no mesmo piso. À noite jantava sozinha, via a novela e ia dormir. A rotina era idêntica à que mantinha antes do desaparecimento de Fabiano. A única diferença visível era o altar.

Dona A Selma fez um pequeno altar na estante da sala, ao lado da televisão. Tem numa foto de Fabiano num porta-retratos de madeira, uma vela branca que ela acendia toda a manhã e apagava antes de dormir e um copo de água que mudava diariamente. Não era um altar de morte, era um altar de espera.

A Dona Selma fazia questão de explicar isso a qualquer pessoa que entrasse no apartamento. Dizia que o dia em que pusesse flores no lugar da vela seria o dia em que tivesse aceitou a morte do filho. E ela não tinha aceitado. Não ia aceitar até ver um corpo, até ter uma certeza. Maç vela continuou a ser acesa todas as manhãs durante os meses seguintes, durante o segundo ano, durante o início do terceiro.

Patrícia Lemos deu à luz uma menina em março de 2020, no Hospital Maternidade Fernando Magalhães, no bairro de São Cristóvão. O parto foi normal, sem complicações. A menina nasceu saudável, com 3, g. e recebeu o nome de Beatriz. Beatriz Lemos Braga. O apelido do pai estava aí, registado em cartório, se mesmo que o pai não estivesse em lado nenhum que se pudesse nomear.

A Patrícia voltou a o apartamento do Engenho Novo, com a mãe e a sogra, que se revesavam nos cuidados com a recém-nascida. O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio sem elevador, na rua Barão do Bom Retiro, e tinha dois quartos pequenos, uma cozinha exígua e uma sala onde mal cabia o sofá. A mesa de Jonas continuava no quarto com o computador, os mapas e o caderno de anotações.

De Patrícia contornou o berço e a mesa durante meses, vivendo naquele espaço dividido entre a presença de uma filha recém-nascida e a ausência de um marido que não voltou. O Ministério Público foi acionado pelas famílias em novembro de 2020, 14 meses após a desaparecimento. Valéria Vidal, a irmã de Luciana, redigiu uma carta formal com a ajuda de um advogado pro Bono, que encontrou por meio de um conhecido da freguesia.

A carta solicitava que o MP instaurasse procedimento de acompanhamento do inquérito e determinasse diligências específicas, incluindo a verificação da existência de galerias pluviais na vertente norte do Parque Nacional da Tijuca. O MP acusou o recebimento em janeiro de 2021. Em março de 2021, informou que o caso estava a ser avaliado pela promotoria de tutela coletiva.

Em julho de 2021, informou que a avaliação ainda estava em curso. Nenhuma diligência foi determinada. Dona Teresa Amaral e mãe de Cíntia começou a ter problemas de saúde no segundo ano. Pressão arterial elevada, insônia crónica, perda de peso. O Seu Antônio a levava ao posto de saúde do Grajaú duas vezes por mês.

O médico prescrevia medicação para a pressão, um ansiolítico ligeiro para a insónia e recomendava que ela procurasse acompanhamento psicológico. A Dona Teresa recusa dizia que não estava doente de nervos. Dizia que estava doente de espera. A expressão ficou gravado no caderno da dona Selma e que a anotou numa reunião de terça-feira.

Dona Teresa diz que está doente de espera. A anotação não tinha comentário nem análise. Era apenas um registo, mas dizia tudo o que havia a dizer sobre o que aqueles dois anos tinham feito com aquelas famílias. O tempo passou da forma como o tempo passa quando não há resposta. Devagar e rápido ao mesmo tempo.

Os meses acumularam-se sem que houvesse um único facto novo. Nenhuma pista, nenhuma denúncia anónima, nenhum avistamento, nenhum corpo, nada. A a Tijuca continuava a receber visitantes. Os turistas subiam ao Cristo Redentor. As famílias faziam um piquenique na mesa do imperador. Trilheiros percorriam os caminhos do Archer e do pico da Tijuca, como se cinco pessoas não tivessem desaparecido ali dentro.

A floresta seguia a sua rotina, as árvores cresciam, o mato fechava, a chuva de verão lavava as trilhos e reconfigurava os ribeiros. O que quer que tivesse acontecido naquela vertente norte de Setembro de 2019, estava a ser lentamente absorvido pela mata. E como a floresta absorve tudo, sem pressas, sem remorsos, sem registo. As reuniões de terça-feira continuaram, mas o grupo diminuiu.

Os vizinhos e colegas de trabalho que tinham aparecido no início foram deixando de vir. Não por indiferença, mas por exaustão. A vida de cada um seguia em frente e a história dos cinco desaparecidos, que no início tinha gerado como solidariedade, foi se tornando algo que as pessoas preferiam não mencionar. Como doença grave na família de alguém, todos sabem que existe, mas ninguém sabe o que dizer e o silêncio acaba por ser a resposta mais comum.

No núcleo das famílias, as terças-feiras se mantiveram. A Márcia ia, a dona Selma ia, A Valéria ia. A Patrícia aparecia quando podia, com a Beatriz ao colo. Dona A Teresa e o senhor António iam quase sempre, embora a dona Teresa ficasse cada vez mais calada, sentada no canto da mesa, com a saco no colo, ouvindo sem comentar.

Gilberto aparecia uma vez por mês e trazia atualizações das suas pesquisas no parque, que tinham diminuído com a pandemia, e repetia que a chave do caso estava nas galerias subterrâneas. Ninguém discordava, mas ninguém sabia como lá chegar. Em 11 de janeiro de 2022, 2 anos e 4 meses depois do desaparecimento, uma equipa de quatro funcionários da A Sedai, empresa estatal de águas e esgotos do Rio de Janeiro, realizava a inspecção de rotina numa rede de galerias pluviais na vertente norte do maciço da Tijuca, dos na altura do bairro do Alto

da Boa Vista. O trabalho era verificar o estado estrutural de troços antigos do sistema de drenagem, alguns construídos no período imperial e desativados ao longo do século XX, mas que ainda faziam parte do registo técnico da empresa por razões históricas e de segurança. A equipa era formada por dois técnicos de manutenção, um engenheiro civil e um estagiário.

entraram pela galeria catalogada como GP Norte 14. Tony uma estrutura de pedra com arcos de tijolo que datavam provavelmente da segunda metade do século XIX e que tinha sido utilizada para drenagem de águas pluviais da vertente norte antes da construção do sistema moderno. A galeria tinha aproximadamente 300 m de comprimento, com troços onde a altura do teto atingia os 2 m e troços onde era necessário baixar-se para passar.

O chão era de terra batida e pedra irregular, com poças de água parada em alguns pontos. O ar era pesado, húmido, com cheiro a terra molhada e a matéria orgânica em decomposição. O trabalho seguiu sem incidentes durante as primeiras duas horas. A equipa mediu a espessura das paredes em pontos marcados, verificou a presença de fissuras e infiltrações, fotografou os troços onde havia deterioração visível e anotou tudo num formulário padrão.

Ao chegar ao fim da galeria, onde a planta indicava uma muro de contenção em pedra que encerrava o troço, de um dos técnicos, um homem de 43 anos que trabalhava na Sedaí via 15, apercebeu-se de algo diferente. A parede de contenção no fundo da galeria apresentava uma abertura lateral. Não era grande. Tinha talvez 60 cm de largura e 1,20 m de altura.

estava parcialmente obstruída por terra compactada, raízes e fragmentos de pedra que pareciam ter caído de cima. O técnico achou que era o resultado de um desmoronamento recente provocado pelas chuvas do verão anterior, chamou-lhe o engenheiro. Os dois examinaram a abertura com lanternas. Viram que não se tratava de um desmoronamento simples.

Do outro lado da abertura existia um espaço, não um vão acidental entre pedras, mas uma continuação da galeria. Um trecho que não constava da planta da Sedai, que não estava catalogado em nenhum documento da câmara municipal e que, pelo aspecto da construção, parecia ser ainda mais antigo que a galeria principal.

Os quatro entraram, passaram pela abertura um de cada vez e baixando-se. Do outro lado, a galeria alargava-se. O teto subia para quase 2 m. As paredes eram de pedra em bruto, sem argamassa visível, encaixadas de uma forma que sugeria a construção manual, artesanal, provavelmente anterior às técnicas de engenharia empregues nas obras imperiais mais conhecidas da cidade.

O chão estava coberto de terra, folhas secas e detritos orgânicos que o vento ou a água tinham empurrado para dentro ao longo de décadas. O ar era mais pesado ali, mais parado. As lanternas iluminavam uma extensão de talvez 40 m antes de o feixe de luz se perder na escuridão. Caminharam devagar.

O estagiário ia na frente com a lanterna mais potente. Após aproximadamente 30 m, o corredor fazia uma curva suave para a da esquerda e abria-se num espaço mais amplo, como uma câmara de pedra com o teto em arco irregular. E ali, no canto esquerdo daquela câmara, deitado sobre uma camada espessa de folhas secas e terra compactada, havia um homem.

E o homem estava deitado de lado, com os joelhos fletidos contra o peito e os braços cruzados sobre o rosto, como se estivesse a proteger-se da luz. Não se mexeu quando o feixe da lanterna bateu-lhe. O estagiário recuou. Um dos técnicos deu um passo à frente e disse em voz alta: “Há alguém aí?” O homem não respondeu, não se mexeu. O técnico mais experiente aproximou-se com cuidado, baixou-se ao lado do homem e encostou a mão ao ombro dele.

Sentiu que estava quente, vivo, e respirava de forma lenta e superficial, mas respirava. Estava descalço. As roupas que vestia não correspondiam a nenhum equipamento de trail. Eram uma t-shirt cinzenta sem estampa e uma calça de fato de treino escuro, ambas sujas, rasgadas em vários pontos e impregnadas de um cheiro forte a terra e suor antigo.

Os pés estavam cobertos de calos e feridas cicatrizadas. As mãos tinham marcas profundas, como se tivesse escavado pedra com os dedos durante muito tempo. Os joelhos, o mesmo, crostas antigas. e pele espessada, cicatrizes sobrepostas. O cabelo estava comprido, emaranhado, colado no rosto. A barba era densa e irregular.

A pele do rosto e dos braços apresentava arranhões em diferentes estádios de cicatrização, uns mais recentes, outros há muito fechados. O engenheiro chamou os bombeiros pelo rádio. Não havia sinal de telemóvel dentro da galeria. tiveram de voltar até a entrada da GP Norte 14 para conseguir comunicação. O SAMU foi acionado e a equipa médica chegou em 40 minutos.

O o acesso ao local era difícil por uma estrada de terra batida que subia pelo Alto da Boa Vista e que nessa altura do ano estava parcialmente tomada por lama e vegetação. Os paramédicos entraram na galeria com maca portátil e equipamento de suporte. Encontraram o homem na mesma posição. Ao ser tocado pela equipa médica, abriu os olhos. Não falou.

Não resistiu, deixou colocar-se na maca sem reação visível. Os olhos estavam abertos, mas o olhar era vago, a desligado, como se não reconhecesse o que estava a acontecer ao redor. Foi transportado pela galeria, pela abertura na parede, pela GP Norte 14 até à ambulância estacionada na estrada. foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio.

Fabiano Rocha de Melo não falou durante o resgate, não falou durante o transporte, não falou durante as primeiras 6 horas de internamento, ficou deitado no leito, com os olhos abertos, recebendo soro e medicação intravenosa, sem responder a perguntas, sem reagir a estímulos verbais, sem demonstrar qualquer reconhecimento do ambiente hospitalar.

Os médicos registaram desnutrição grave, desidratação crónica, anemia, deficiência de vitamina D, compatível com ausência prolongada de exposição a luz solar, lesões cicatrizadas nas mãos, joelhos e pés, e um quadro neurológico que classificaram preliminarmente como estado dissociativo. Ao final da tarde desse dia, uma enfermeira que estava a trocar o soro perguntou por rotina o seu nome.

Ele virou a cabeça lentamente, olhou para ela e disse numa voz rouca, baixa, quase inaudível, Fabiano e depois não disse mais nada durante várias horas. A identificação formal aconteceu no dia seguinte. A polícia cruzou a descrição física com os registos do Sinalid e encontrou a ficha de desaparecimento registada pela dona Selma Rocha de Melo em outubro de 2019.

Entraram em contacto com a 19ª esquadra, o inspetor Ferraz, que ainda se encontrava designado para o caso, e foi ao hospital. levou uma foto do boletim de ocorrência, comparou com o homem no cama, ligou para a dona Selma. Dona Selma recebeu a chamada às 18:22 de uma quarta-feira. Estava na cozinha do apartamento do Meer a lavar a louça do jantar.

Atendeu o telemóvel com as mãos molhadas. Ouviu o inspetor dizer que tinham encontrado um homem que podia ser o seu filho, que estava vivo, que estava no Souza Aguiar. A Dona Selma desligou o telefone, secou as mãos no pano de loiça, ne pegou na bolsa na cadeira da sala, apagou a vela do altar e saiu.

Chegou ao hospital 40 minutos depois de autocarro. Entrou pela emergência, deu o nome do filho na recepção e foi conduzida por uma assistente social até ao quarto onde Fabiano estava internado. Quando entrou no quarto e viu o homem na cama, parou à porta. Ficou ali durante talvez 30 segundos sem se mexer, sem falar. Depois caminhou lentamente até à cama, puxou a cadeira de plástico e sentou-se ao lado dele e pegou na mão esquerda do filho entre as duas mãos dela.

Fabiano virou a cabeça e olhou para ela. Não disse nada. A Dona Selma também não disse nada. Ficaram assim em silêncio durante um tempo que nenhum dos dois soube medir. A Dona Selma ligou para a Márcia do corredor do hospital. às 9 da noite, disse: “Encontraram o Fabiano.” A Márcia perguntou onde.

A Dona Selma disse: “Num túnel debaixo da floresta”. A Márcia perguntou: “E os outros?” A Dona Selma fez uma pausa. Disse: “Só ele?” Fabiano começou a falar no segundo dia de internamento. Falou pouco, frases curtas, sem ligação aparente entre elas, com longas pausas entre uma e outra, como se cada palavra custasse um esforço que ele mal conseguia sustentar.

Os médicos e o psiquiatra que o avaliaram disseram que era esperado. O estado dissociativo em que se encontrava era compatível com trauma prolongado, privação sensorial e isolamento extremo. O cérebro estava a reconectar-se aos poucos com a linguagem, com a memória, com a capacidade de organizar o pensamento em sequência.

O que disse Fabiano ao longo dos dias seguintes foi registado pela equipa médica e, posteriormente, pelo inspetor Ferraz, que regressou ao hospital três vezes para tomar depoimento. O relato foi fragmentado, contraditório em alguns pontos, incompleto noutros, e, em momento algum, ofereceu uma explicação total do que tinha acontecido com o grupo.

Disse que tinham encontrado a entrada da galeria. que ficava num ponto da vertente norte, onde o mato era tão fechado que mal entrava a luz, que a entrada era uma abertura de pedra baixa, coberta de musgo, parcialmente escondida por um barranco de terra. disse que entraram, que o Jonas ia na frente com a lanterna do telemóvel, que caminharam por um corredor de pedra que descia suavemente, com o teto a ficar cada vez mais baixo.

disse que em determinado ponto o corredor se bifurcava, que Jonas quis ir pela esquerda, de que Renato disse que era melhor voltar, que houve uma discussão breve, sem grito, sem briga, apenas uma diferença de opinião sobre até que ponto deviam ir. Disse que foram pela esquerda. Disse que depois de mais uns minutos de caminhada, ouviu-se um barulho, um barulho surdo, pesado, que vinha de trás.

Disse que o tecto tinha cedido num ponto do corredor atrás deles. Disse que voltaram a correr e encontraram o caminho bloqueado por terra e pedra. Disse que tentaram escavar e disse que as lanternas dos telemóveis foram apagando uma a uma. disse que ficaram no escuro. A partir deste ponto, o relato de Fabiano tornava-se ainda mais fragmentado.

Disse que estiveram juntos durante algum tempo. Não soube dizer quanto. Horas, dias, não sabia. disse que tentaram encontrar outra saída, que se separaram em algum momento, que perdeu o contacto com os outros, que caminhava no escuro tacteando as paredes durante um tempo que não conseguia quantificar.

Mod disse que encontrou água em algum ponto, uma infiltração na pedra, um fio de água que escorria por uma parede. disse que encontrou a câmara onde os técnicos da Sedai o acharam, que ficou ali, que dormia e acordava sem saber se era dia ou noite, que comia o que encontrava, raízes que entravam pelas fendas, insetos, musgo, que tentou escavar uma saída com as mãos, que não conseguiu.

Quando lhe perguntaram se tinha visto os outros depois da separação, Fabiano disse que não. Quando lhe perguntaram se tinha ouvido vozes, chamamentos, qualquer sinal dos companheiros, disse que no início sim, que ouviu alguém a gritar, que tentou seguir o som, que o som parou e depois silêncio.

Quando lhe disseram que tinham passado 2 anos e 4 meses desde o dia em que entrou no parque, Fabiano não reagiu, não chorou, não se espantou, não perguntou nada, olhou para a parede do quarto durante um longo momento e depois fechou os olhos. O relatório psiquiátrico preliminar, me emitido cinco dias após o internamento, indicou estado dissociativo persistente, compatível com traumatismo prolongado, com comprometimento parcial da memória episódica e desorientação temporal severa.

O relatório médico registou desnutrição severa, desidratação crónica, anemia ferropriva, deficiência grave de vitamina D e de vitaminas do complexo B, lesões dermatológicas cicatrizadas compatíveis com abrasão repetida contra superfícies minerais e perda muscular significativa nas extremidades superiores e inferiores. Os exames de imagem não mostraram fraturas recentes, nem lesões cerebrais visíveis.

Os médicos disseram que, do ponto de vista estritamente clínico, a sobrevivência de Fabiano durante mais de 2 anos nas condições descritas era difícil de explicar. Não impossível. Havia registos na literatura médica de sobrevivência prolongada em ambientes subterrâneos com acesso mínimo a água e nutrientes, mas improvável.

E a questão da alimentação em particular manteve-se sem resposta satisfatória. As raízes, os insetos e o musgo que Fabiano referiu não seriam suficientes, segundo os nutricionistas consultados, para sustentar um homem adulto durante 2 anos, mesmo em estado de metabolismo reduzido. Algo não fechava.

Os médicos registaram a incoerência sem emitir conclusão. A polícia reabriu o inquérito no dia seguinte ao reconhecimento de Fabiano. Do inspetor Ferraz voltou à galeria GP Norte 14, acompanhado por uma equipa de seis polícias civis e dois peritos. Entraram pela abertura na parede de contenção, percorreram o troço não catalogado e chegaram à câmara onde Fabiano tinha sido encontrado.

A câmara estava vazia, exceto pelas folhas secas que formavam o leito improvisado, algumas marcas de arranhão nas paredes de pedra e uma concentração de detritos orgânicos num canto que os peritos recolheram para a análise. A equipa avançou para além da câmara. A galeria continuava por mais 60 m aproximadamente, estreitando-se e alargando-se de forma irregular, com troços onde o teto descia a menos de 1 m de altura.

Ao fim desses 60 m, encontraram um segundo espaço, maior que o primeiro, com o teto em forma de abóbada irregular e paredes de pedra bruta cobertas de humidade. Encontraram restos de tecido, fragmentos de uma t-shirt que parecia ter sido rasgada em tiras, e uma sandália de borracha tamanho 37, e marcas nas paredes feitas com pedra.

As marcas eram riscos verticais, agrupados em séries de cinco, como se alguém estivesse a contar dias. Os peritos contaram 142 riscos. Dos outros quatro, não havia outro sinal. Não havia corpos, não havia ossos, não havia outros objetos pessoais, não havia indicação de para onde teriam ido, se tinham encontrado outra saída, se tinham seguido por outro troço da galeria, se estavam vivos ou mortos.

Da galeria continuava para para além daquele segundo espaço, mas o tecto descia a um nível que tornava o avanço impraticável, sem equipamento especializado. A polícia solicitou apoio ao Corpo de Bombeiros para mapeamento do troço restante. O mapeamento foi feito duas semanas depois e revelou que a galeria estendia-se por mais 120 m antes de terminar num ponto onde o tecto tinha colapsado completamente, bloqueando a passagem, e não foi encontrado qualquer sinal de presença humana neste troço final.

O inquérito foi reaberto formalmente e reclassificado. O delegado titular designou dois inspetores adicionais para o caso. Foram ouvidos os funcionários da Sedai, os médicos do Souza Aguiar, o psiquiatra, o equipa de bombeiros que fizera a busca original em 2019 e a equipa que mapeou a galeria em 2022. Foram requisitados relatórios complementares de geologia, engenharia civil e arqueologia para determinar a idade e a origem e a função original da galeria.

O relatório geológico confirmou que a estrutura era anterior ao sistema de drenagem catalogado pela câmara municipal e que datava provavelmente do início do século XIX, possivelmente do período joanino. O relatório de engenharia civil indicou que o desmoronamento mencionado por Fabiano era compatível com as condições estruturais da galeria.

As paredes de pedra em bruto, sem argamassa, eram suscetíveis de colapso em pontos de pressão, não é, especialmente após períodos de chuva intensa. O relatório arqueológico não chegou a conclusões definitivas, mas registou que a técnica de construção era consistente com obras de escravos realizadas sob a supervisão de engenheiros militares portugueses.

Nenhum dos relatórios explicou o que aconteceu com Renato, Jonas, Cíntia e Luciana. As famílias receberam a notícia do aparecimento de Fabiano com uma mistura de alívio e devastação que é difícil de descrever sem a reduzir. Is alívio porque um deles estava vivo, devastação porque era apenas um e porque o que ele contou não oferecia esperança concreta para os outros quatro.

Márcia foi ao hospital no dia seguinte. Viu Fabiano no leito, viu as marcas nas mãos, viu o estado em que ele se encontrava e compreendeu com uma clareza que preferiu não verbalizar que se Fabiano tinha ficado naquele estado depois de do anos num túnel e a possibilidade de o Renato estar vivo em algum outro ponto dessa mesma galeria era remota.

Não impossível, mas remota. A Dona Teresa foi ao hospital dois dias depois, sentou-se ao lado de Fabiano e perguntou com voz firme se tinha visto a Cíntia. Fabiano olhou para ela durante um longo momento. Disse que sim, que a Cíntia estava com eles quando o teto caiu, que ficaram juntos no escuro, que depois se separaram e que não a viu mais.

A Dona Teresa assentiu com a cabeça, agradeceu e levantou-se e saiu do quarto. No corredor encostou-se à parede e chorou pela primeira vez desde setembro de 2019. O senhor António estava à espera do lado de fora, ofereceu o braço. Ela segurou. Desceram juntos pela escada do hospital sem dizer uma palavra.

Patrícia Lemos não foi ao hospital. mandou uma mensagem à dona Selma pedindo que qualquer informação sobre Jonas fosse repassada diretamente para ela. Dona Selma repassou. A Patrícia leu as mensagens em silêncio. Tras na cozinha do apartamento do Engenho Novo, enquanto A Beatriz dormia no berço ao lado da mesa, que ainda tinha os mapas e o caderno do pai.

Valéria Vidal foi à esquadra pessoalmente e pediu para ver as fotos da galeria, os relatórios e o depoimento de Fabiano. O inspetor Ferraz disse que os documentos faziam parte de inquérito em andamento e que não podiam ser partilhados na íntegra. Valéria insistiu. O inspetor mostrou algumas fotos.

A Valéria viu a sandália encontrada no segundo espaço. Era tamanho 37. A Luciana calçava o 37. A sandália era de borracha azul, do tipo que se compra em qualquer loja de departamento. Podia ser da Luciana, podia ser de qualquer pessoa que tivesse passado por ali em algum momento dos últimos 100 anos. Não havia como confirmar. Valéria saiu da esquadra e ligou para os pais de Luciana, que viviam em todos os os santos. contou o que tinha visto.

O O pai de Luciana, um senhor de 72 anos, que sofria de enfizema e que mal saía de casa e ouviu em silêncio e depois disse: “Pelo menos alguém saiu de lá vivo. É alguma coisa. A mãe de Luciana ao fundo não disse nada. Fabiano recebeu alta hospitalar em fevereiro de 2022, depois de 40 dias internado.

Voltou para o apartamento do Meer para o quarto que era dele antes do desaparecimento. A Dona Selma tinha mantido tudo como estava: a cama feita, as roupas no armário, o despertador na mesa de cabeceira. Fabiano entrou no quarto e sentou-se na cama e ficou a olhar para a parede durante vários minutos. Dona Selma ficou à porta observando sem entrar.

Nos meses seguintes, Fabiano passou por acompanhamento psiquiátrico e psicológico no ambulatório do Hospital do Fundão. Os relatórios indicaram melhoria gradual do estado dissociativo, recuperação parcial da memória episódica e persistência de episódios de desorientação temporal. momentos em que perdia a noção de quanto tempo tinha passado, confundia o dia e a noite e ou ficava parado durante longos períodos sem reagir a estímulos externos.

Não voltou a trabalhar. A Dona Selma assumiu os cuidados integrais. A aposentadoria dela e o benefício assistencial que conseguiram junto do INSS cobriam as despesas básicas. Fabiano nunca mais falou publicamente sobre o que aconteceu no túnel. Não deu entrevista, não publicou nada nas redes sociais, não regressou ao Parque da Tijuca.

Nossas poucas vezes em que saiu do apartamento nos primeiros meses, foram para consultas médicas e para uma visita ao paróquia de São Francisco Xavier, onde sentou-se no último banco da igreja e ficou ali durante toda a missa, sem se ajoelhar, sem rezar, sem se levantar para a comunhão. A Dona Selma sentou-se ao lado dele em silêncio, com a mala no colo e as mãos cruzadas.

O inquérito policial foi encerrado em agosto de 2022, sem conclusão sobre o paradeiro de Renato Bastos Cavalcante, Jonas Teixeira Braga e Cinntia Amaral e Luciana Vidal Mendes. O relatório final do inspetor Ferraz registou que as buscas na galeria foram esgotadas dentro das possibilidades técnicas disponíveis e que não havia indícios suficientes para determinar se os quatro desaparecidos estavam vivos ou mortos, se tivessem encontrado outra saída ou se permaneciam em troços inacessíveis do sistema subterrâneo.

O caso foi classificado como desaparecimento não resolvido e os nomes dos quatro permaneceram no Sinalid e as famílias receberam a notícia do encerramento do inquérito na reunião de terça-feira seguinte. A Dona Selma leu o ofício em voz alta, devagar, sem emoção visível. Quando terminou, fechou o caderno de capa dura, colocou-o dentro da bolsa e disse: “Pois, ninguém acrescentou nada. O silêncio durou quase um minuto.

Depois, a Márcia levantou-se, foi até ao janela da sala, olhou para a rua escura e disse quase para si mesma: “Nós continua, então?” “Continua o quê?”, perguntou a Valéria. E a Márcia não respondeu logo. Depois disse: “Continua vindo aqui, continua a lembrar, continua perguntando”. E continuaram. As ª feiras na sala da paróquia de São Francisco Xavier não pararam.

Ficaram mais curtas, mais silenciosas, com menos pessoas, mas não pararam. A Márcia continuou indo. A Dona Selma continuou a ir. Valéria continuou a ir. A Patrícia aparecia quando podia. Agora com a Beatriz já a andar, já falando, já perguntando coisas que a mãe não sabia como responder. A Dona Teresa ia com menos frequência porque a saúde não permitia, mas o senhor António ia no lugar dela e depois contava em casa o que tinha sido dito.

Gilberto, o primo de Fabiano, continuou a fazer incursões esporádicas ao parque, já não para procurar os desaparecidos. O encerramento do inquérito tinha deixado claro que a galeria tinha sido percorrida até onde era possível, mas para mapear as entradas de outros galerias na vertente norte que ele suspeitava existirem. Encontrou duas e ambas bloqueadas por desmoronamento.

Ambas sem acesso viável, sem equipamento pesado. Registou as coordenadas, tirou fotos, mandou para saguiar a esquadra. não recebeu resposta. A história dos cinco trilheiros da Tijuca nunca chegou à grande imprensa de forma significativa. Saiu em notas de jornal popular, foi mencionada num ou dois programas de televisão regionais, apareceu brevemente num podcast de casos não resolvidos em 2023 e depois desapareceu da atenção pública.

Não houve reportagem de investigação, não houve pressão mediática, não houve como nacional. Cinco pessoas desapareceram dentro de uma floresta que fica no meio da cidade mais conhecida do Brasil e a maioria dos locais nunca ouviu falar do caso. Passaram os anos, Pedro, o filho de Renato e Márcia, cresceu em 2024.

tinha 9 anos e estudava numa escola municipal de Vila Isabel. Sabia que o pai tinha desaparecido na floresta. Sabia que tinham procurado e não encontrado. Nut já não fazia a pergunta de antes. Mãe, o papá já achou o caminho de regresso? Mas, às vezes, à noite, antes de dormir, ficava em silêncio durante um tempo, que Márcia reconhecia como o silêncio de quem está pensar em algo que não quer dizer em voz alta.

Beatriz, a filha de Jonas e Patrícia, tinha 4 anos. Nunca viu o pai. Conhecia o rosto dele por fotos. Sabia que gostava de mapas. Por vezes, quando a Patrícia abria o computador de Jonas para mostrar a filha, a Beatriz apontava para os mapas no ecrã e dizia: “O papá tá aí dentro?” A Patrícia não corrigia, não explicava, apenas dizia: “O papá gostava muito dessas coisas”.

A Dona Selma continuou acendendo a vela no altar toda a manhã continuou a trocar o copo de água todo dia. A foto de Fabiano no porta-retratos foi substituída por uma mais recente, tirada no seu aniversário em 2023, quando completou 37 anos no apartamento do Meyer. E com um bolo de chocolate que a dona Selma fez na forma redonda que usava desde que era criança.

Foto nova, Fabiano está sentado à mesa da cozinha com uma fatia de bolo no prato e um sorriso que não chega aos olhos. Dona Selma olha para esta foto todos os dias, sabe que o filho voltou, sabe que está ali no quarto ao lado, respirando vivo, mas sabe também que uma parte dele ficou naquele túnel, uma parte que ela não consegue alcançar e que talvez nunca mais volte.

A vela continua acesa, já não pela espera de Fabiano, agora pela espera dos outros quatro. A Dona Selma nunca trocou a vela por flores. Disse que só fará isso quando tiver a certeza. E a certeza até hoje não veio. Renato Bastos Cavalcante, Jonas Teixeira Braga, Cíntia Amaral, Luciana Vidal Mendes.

Quatro nomes que continuam no Sinalide. Quatro fichas abertas, quatro famílias que aprenderam a viver com uma ausência que não é morte confirmada, nem vida possível. É algo no meio e algo que não tem nome na burocracia, nem nos formulários. Algo que se carrega em silêncio, dia após dia, sem saber se o que se espera ainda faz sentido.

O Parque Nacional da Tijuca continua aberto. As trilhas continuam sendo percorridas, os turistas continuam subindo ao Cristo Redentor e tirando fotos com a cidade ao fundo. A floresta continua a crescer, fechando os caminhos, cobrindo as marcas, absorvendo o que ficou para trás. As galerias sob a vertente norte continuam lá na escuridão, mas com os seus corredores de pedra que ninguém mapeou por completo e que talvez nunca sejam mapeados.

O que há dentro delas ou quem há dentro delas é uma questão que permanece sem resposta. E algures em Vila Isabel, todas as terças-feiras à noite, Márcia Cavalcante pega na mala, diz à mãe que regressa em 2 horas, desce as escadas do edifício e caminha até ao ponto de autocarro que leva ao Maracanã. A sala nos fundos da paróquia continua emprestada.

A mesa de fórmica continua no mesmo lugar. As cadeiras de plástico continuam dispostas em redor e o caderno de capa dura da dona Selma continua sobre a mesa, aberto na última página escrita, aguardando a próxima anotação, a próxima questão, a próxima terça-feira sem resposta. A história não termina com uma explicação, não termina com um culpado, não termina com um corpo encontrado, nem com um mistério desvendado.

Termina como terminam a maioria dos histórias que a cidade prefere não contar, com pessoas comuns que continuam vivendo e continuam a trabalhar, continuam a levar os filhos à escola e aquecendo o jantar no microondas. enquanto transportam dentro de si uma pergunta que nunca mais desaparece. Uma pergunta que acende toda a manhã junto com a vela e que se apaga toda a noite juntamente com a luz do quarto, mas que nunca, em momento algum desaparece por completo. Co?