“Matamos o Mocotó, quem vai ser o próximo?” O rastro de deboche que levou ao fim de Mangabinha em operação policial na Cidade de Deus

“Matamos o Mocotó, quem vai ser o próximo?”, debochava o criminoso nas redes sociais antes de ser encurralado em operação de vingança da Polícia Civil.
O Rio de Janeiro assistiu, nesta última sexta-feira, ao desfecho de uma história marcada pela soberba, pelo sangue e pela exposição digital desenfreada. Luís Felipe Honorato Romão, mundialmente conhecido no submundo do crime como “Mangabinha”, não era apenas mais um soldado do Comando Vermelho na emblemática Cidade de Deus (CDD). Ele era o que as autoridades agora chamam de “narcoinfluencer”: um criminoso que trocou a discrição das sombras pelo brilho efêmero das curtidas no Instagram e TikTok.
Atuando nas áreas conhecidas como Karatê e 13, Mangabinha era peça-chave na segurança das chefias do tráfico. Mas sua “boca grande” foi o que traçou seu destino. Diferente dos bandidos à moda antiga, ele postava diariamente fotos com fuzis, vídeos provocando as forças de segurança e, o mais grave: vangloriava-se abertamente de um crime que a Polícia Civil do Rio de Janeiro jamais perdoa.
A Morte do Agente Mocotó: O Início do Fim
Tudo começou em maio de 2025. Durante uma operação de rotina da Coordenadora de Recursos Especiais (CORE), o agente José Antônio Lourenço Júnior, carinhosamente chamado de “Mocotó”, foi morto em combate. Mangabinha, junto com comparsas conhecidos como Matuê e Ratoin, foi apontado como um dos executores.
O que se seguiu nos seis meses posteriores foi uma exibição de audácia criminosa que chocou até os investigadores mais experientes. Mangabinha passou a publicar vídeos dançando funk, bebendo cerveja e ostentando o colete balístico, sempre acompanhados de legendas que faziam referência direta à morte do policial da CORE. Ele acreditava ser intocável. No submundo, dizia-se que ele “assinou sua própria sentença de morte” ao postar cada um daqueles vídeos.
A Cidade de Deus: De Projeto Modernista a Zona de Guerra
Para entender o palco desse confronto, é preciso olhar para a história da Cidade de Deus. Construída em 1965 pelo governador Carlos Lacerda, a ideia era remover favelas de áreas nobres como Leblon e Lagoa e criar um bairro planejado, com ruas batizadas com nomes bíblicos como Israel e Jessé. No entanto, o descaso estatal e o crescimento desordenado transformaram o sonho em um dos pontos mais críticos do narcotráfico carioca.
[ASSISTA AO VÍDEO EXCLUSIVO: Veja as imagens da operação da CORE e o vídeo que Mangabinha postou horas antes de tombar no confronto]
A CDD, que já foi cenário de filme indicado ao Oscar, viu a violência ciclar entre períodos de paz com as UPPs e o retorno brutal ao domínio das facções. Em 2025, o marketing coordenado do Comando Vermelho nas redes sociais passou a recrutar jovens com a promessa de uma vida de luxo e poder, personificada por figuras como Mangabinha.
A Vingança da CORE: O Confronto Final
A resposta veio na manhã desta sexta-feira, 21 de novembro. A Polícia Civil montou uma operação cirúrgica e pesada. Mangabinha, fiel ao seu estilo “casca-grossa”, decidiu não se entregar. Relatos indicam que, mesmo visivelmente alterado — possivelmente sob efeito de álcool, como sugeria um vídeo postado momentos antes —, ele sacou sua arma e abriu fogo contra os agentes.
O tiroteio foi intenso. Moradores relataram uma chuva de balas que paralisou a comunidade. No final do conflito, o resultado era inevitável: Mangabinha caiu baleado ali mesmo, no chão da Cidade de Deus, cercado pelo luxo falso que ostentava na internet. Ele tinha dois mandados de prisão em aberto, mas sua soberba o impediu de ficar escondido. Ao seu lado, também tombaram Ratoin e Matuê, fechando o ciclo de sangue iniciado com a morte do agente Mocotó.
A Lição da Soberba Digital
O delegado Pablo Sartor, subsecretário de Segurança, afirma que o fenômeno dos narcoinfluencers é uma estratégia de marketing criminoso que a polícia agora combate com inteligência digital. Mangabinha achou que a internet era um escudo, quando na verdade era um rastreador.
Sua história termina como a de tantos outros que confundiram fama virtual com poder real. O homem que desafiou a CORE e se vangloriou da morte de um policial descobriu, da pior maneira possível, que o sistema não esquece e a realidade cobra um preço alto. O silêncio finalmente voltou às redes sociais de Luís Felipe, enquanto a Cidade de Deus contabiliza mais uma página de sua violenta e complexa história.