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O CASO QUE PARALISOU SÃO PAULO: uma mãe deixou o filho na escola e outra pessoa o levou

Era uma terça-feira comum em São Paulo. O sol já queimava o asfalto da zona leste às 7 da manhã. O barulho dos ônibus da Avenida Celso Garcia se misturava ao cheiro de pão na chapa das padarias. As mães conversavam na calçada sobre o preço do gás e a novela da noite anterior. Nada fora do lugar, nada estranho.

Era 22 de outubro de 2024 e ainda não era um dia marcado. Márcia Soares tinha 34 anos quando sua vida se partiu em duas. Ela mesma descreve assim hoje, nas poucas vezes em que consegue falar sem a voz travar, antes e depois, [música] como se aquele dia fosse uma lâmina. Márcia era cabeleireira. Tinha um salão pequeno no tatuapé, um ponto alugado que cheirava a tinta e café requentado.

Trabalhava sozinha de terça a sábado. Era uma mulher séria, reservada, dessas que não pedem ajuda até não ter mais saída. O filho se chamava Iuri. Yuri Soares, 7 anos, cabelo preto cortado curto nas laterais. Um topete que sempre caía antes da escola. Olhos castanhos quase pretos, uma cicatriz pequena no queixo de uma queda de bicicleta aos 5 anos.

Um menino calado para a idade, dos que preferem escutar antes de falar. Márcia o deixou na escola como em qualquer outro dia. Às 7:45, na porta da escola municipal professora Elsa Borges, na Vila Formosa, viu o filho entrar. viu ele atravessar o pátio com a mochila azul, a do dinossauro que já estava descolando do tecido.

Viu ele sumir entre as outras crianças e não viu mais. Antes de continuar, preciso te pedir uma coisa. Se você está assistindo, se inscreve no canal agora, deixa o like, comenta de onde você está nos vendo. É isso que permite que histórias como essa não sejam esquecidas. Já se inscreveu? Ótimo, vamos seguir. Márcia chegou para buscar Yuri às 14:40.

A saída era às 14:30. 10 minutos de atraso, nada demais. Teve uma cliente que se estendeu, mas quando ela chegou, Yuri não estava entre as crianças que saíam. Esperou. Pensou que talvez ele estivesse no banheiro, que a professora tivesse segurado ele para conversar. Esperou 5 minutos, depois 10. Os outros alunos já tinham ido embora.

O portão começou a fechar. Márcia se aproximou da grade e perguntou à senhora da cantina, uma mulher de uns 60 anos que estava sempre parada ali com o avental estampado. Perguntou se ela tinha visto o Yuri. A senhora franziu a testa. O Yuri? Esse menino já foi embora, moça. Foi cedo. Uma mulher veio buscar. disse que era a tia dele.

Márcia sentiu um frio subir do estômago até a garganta. O Yuri não tentia. A primeira coisa que Márcia fez foi entrar na escola. Não entrou calma. Empurrou o portão, atravessou o pátio vazio, chegou na diretoria com as pernas bambas sem que ela mandasse. A diretora se chamava Graciete Fontes, uns 50 anos. Óculos de armação grossa, cabelo sempre preso num coque apertado.

Quando Márcia contou o que a senhora da cantina tinha dito, a cara de Graciete fez algo que Márcia nunca esqueceria. Ficou branca, não pálida, branca, como se o sangue tivesse descido todo pros pés de uma vez. Espera aqui”, disse ela e saiu da sala quase correndo. Márcia ficou sozinha naquela salinha que cheirava a papel velho e desinfetante.

Sobre a mesa, uma foto da diretora com os filhos, uma caneca com lápis de cor, um monte de circulares sem assinatura. Márcia olhou sem ver, o coração batia na boca. Graciete voltou trs minutos depois com a professora do Yuri, Sandra Rios. uns 28 anos, jovem demais para aquela situação. Cabelo tingido de castanho, expressão de pânico mal disfarçado.

“Dona Márcia”, disse Sandra e custou a continuar. Às 13:20, uma mulher chegou na porta da sala, disse que era parente do Yuri. Disse que teve uma emergência em casa, que a senhora tinha pedido para ela vir buscar. Márcia encarou ela sem piscar. E você entregou. [música] Sandra baixou os olhos.

O silêncio pesou toneladas. Ela sabia o nome completo do menino disse Sandra com a voz quebrada. Sabia o seu nome, [música] sabia em que sala ele estava. Eu achei. Você pediu documento? Sandra não respondeu. Márcia saiu da sala, [música] saiu da escola, chegou na calçada e discou 190. O relógio marcava 15:1. [música] Faltavam 4 minutos para ela entender que aquele dia não acabaria nunca.

O boletim de ocorrência foi registrado às 15:47 na delegacia de polícia do três vezes no distrito na Vila Formosa. O delegado de plantão ouviu Márcia por 20 minutos e acionou a delegacia de investigações sobre crianças desaparecidas. Era um protocolo recente, implantado depois de uma série de casos que tinham chocado a capital nos anos anteriores.

O caso do Yuri cairia na mesa do investigador Rogério Caldeira na mesma noite. Rogério tinha 41 anos, 13 de polícia, os últimos cinco na unidade de desaparecidos. Um homem magro, de bigode ralo, com olheiras que contavam mais histórias do que o seu currículo. Chegou à esquadra por volta das 18 horas, leu o boletim duas vezes e foi direto falar com a Márcia, que estava sentada numa cadeira de plástico no corredor, com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, olhando para o chão.

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Ele fez as questões do protocolo, fotos recentes, conflitos com alguém, o pai da criança, ameaças, dívidas. A Márcia respondia por monossílabos: “Não, não, não. O pai do [música] Yuri era um homem chamado Edson Mota. Morava em Curitiba desde o divórcio, quando o menino tinha 3 anos. tinha uma visita acertada de dois em dois meses, que quase nunca cumpria.

Não havia luta aberta entre eles. Só a distância e a indiferença de um homem que decidiu ser pai pela metade. “E as câmaras da escola?”, [música] perguntou o Rogério. A diretora disse que tem à entrada. Rogério levantou-se. As imagens do sistema de videovigilância da escola Elsa Borges eram de baixo qualidade. Esse foi o primeiro problema.

Câmaras genéricas instaladas havia 4 anos compradas por um preço baixo numa loja de eletricidade da rua Santa e Figênia. Gravavam a preto e branco com uma granulação que borrava tudo, mas estava lá. Às 13:17 de terça-feira, uma figura feminina aproximou-se do portão principal. A câmara apanhou-a de frente, depois de lado, depois de costas, quando entrou no [música] pátio.

O Rogério viu o vídeo três vezes sem dizer nada. A mulher tinha a estatura média, magra, talvez 30 e tantos anos. Usava um moletom escuro com o capuz levantado, apesar do calor de outubro. Óculos escuros de armação grande, uma máscara cirúrgica cobrindo a boca e o nariz. Em 2024, máscara na rua já não chamava a atenção como antes. Qualquer pessoa podia usar sem virar alvo de olhares.

Só apareciam os ossos da face e a testa e o cabelo apanhado num rabo de cavalo baixo. O Rogério chamou o perito digital da unidade, depois voltou até Márcia, que continuava sentada no corredor. Dona Márcia, a senhora reconhece que mulher? Mostrou uma foto tirada do ecrã do telemóvel. A Márcia olhou por muito tempo. Não.

Quem é ela? O Rogério não respondeu porque não sabia e era essa a resposta que mais assustava. No Brasil, quando uma criança com menos de 12 anos desaparece, existe um protocolo denominado Alerta Amber Brasil, oficialmente implementado em 2022 pelo Ministério da Justiça. Em teoria, ele ativa uma rede de divulgação em massa, rádios, TVs, redes sociais, mensagens nos telemóveis da região.

O alerta Amber, no caso do Yuri, foi disparado às 20h10 daquela terça-feira. Quase 7 horas depois do desaparecimento, 7 horas. Nos casos de rapto infantil, as primeiras 3 horas são chamadas de janela dourada. Depois delas, as probabilidades de encontrar a criança com vida caem de forma estatisticamente significativa. O Rogério sabia disso.

Vinha sabendo havia 13 anos, mas este caso tinha alguma coisa diferente desde o início e ele ainda não sabia nomear. apertava o maxilar sempre que via as imagens da câmara, o planeamento. Aquela mulher não agiu por impulso. Chegou à escola sabendo o nome completo da criança, o [música] nome da mãe, a sala, o horário.

Sabia até que a Márcia habituava-se a atrasar 10 ou 15 minutos na hora da saída. Alguém tinha observado aquela família. Durante quanto tempo? As primeiras 48 horas foram um redemoinho. A Polícia Civil colocou três agentes no terreno. Câmaras dos comércios próximos foram revistas. As câmaras do sistema municipal da Coete, na esquina da Avenida Celso Garcia, com a rua Serra de Bragança também, e as de um posto de abastecimento de combustível a duas quadras.

No posto encontraram [música] algo. Às 13:42, 25 minutos depois da mulher ter saído com Yuri, uma Hilux cinzenta com matrículas de Osasco passou pela pista em direção à Marginal Tiet. A placa estava fria. A carrinha tinha sido furtada na madrugada de sábado, três dias antes, no bairro do Parque São Jorge, na zona norte. O Rogério olhou para o relatório e sentiu o nó no estômago voltar.

Três dias antes do rapto, uma carrinha furtada em São Paulo. No sábado, na terça-feira, essa mesma carrinha aparecia nas imagens minutos depois do menino a sair da escola. Não era um acaso, era plano. A Márcia não dormiu na noite de terça-feira. Várias pessoas confirmariam que depois, incluindo a vizinha Irene Bastos, que se instalou no apartamento dela assim que soube e não saiu durante três dias.

Irene contou numa entrevista a um repórter da Band que o que mais a preocupava era uma coisa. A Márcia não chorava. Sentava-se na beira da cama do Yuri com uma t-shirt do menino apertada entre as mãos e olhava para a parede ou caminhava da cozinha até à sala e voltava como se o movimento fosse a única coisa que a mantinha inteira. A dada altura da madrugada, Márcia disse uma frase que Irene nunca esqueceu.

Alguém estava a olhar para mim, alguém estava olhando para o meu filho e não vi nada. Irene não soube o que responder porque era verdade. Na quarta-feira, 23 de outubro, com 24 horas de busca nas costas, o caso explodiu. A foto de Yuri, retirada do Instagram de Márcia, tornou-se viral numa questão de horas.

Primeiro nos grupos locais da Vila Formosa, depois em páginas de desaparecidos de São Paulo, depois em contas nacionais. Ao meio-dia, a hascadê o Yuri estava entre as mais comentadas do país no X. Os repórteres chegaram à esquadra. Uma rapariga do SBT plantou a câmara em frente ao portão às 11 da manhã e não saiu até às 8 da noite.

Márcia fez uma declaração ao meio-dia. curta, sem adornos, saiu à frente das câmaras com a t-shirt do Yuri dobrada nas mãos. Falou sem papel, sem ensaio. O meu filho chama-se Yuri Soares, tem 7 anos. Alguém o levou ontem da escola. Se viu, se sabe de alguma coisa, devolve-me. Ele disse isso e não falou mais. Virou-se e entrou. Aquela imagem, Márcia de Costas a entrar na esquadra com a t-shirt apertada no peito, abriu todos os telejornais da noite.

O perito digital da Polícia Civil chamava-se Maurício Esteves. Tinha 36 anos, pós em análise forense de imagem digital paga em prestações durante 4 anos. Maurício apresentou as conclusões dele numa reunião interna na quarta-feira à tarde. Primeiro, a mulher tinha chegado na escola com aquilo que descreveu como um disfarce funcional. Capuz, óculos grandes, máscara, juntos cobriam 70% do rosto.

O que sobrava, [música] os ossos da face e a testa, não dava para uma identificação fiável com o software disponível. Segundo, o andar e a sua postura sugeriam uma idade entre os 28 e os 45 anos, demasiado amplo. Terceiro, e que foi a parte que congelou a sala. Essa pessoa sabia onde estavam as câmaras, disse o Maurício. Silêncio.

Em nenhum momento ela vira o rosto para a lente. Nem uma vez. Mantém sempre o ângulo que deixa as partes identificáveis na sombra. Isto não é sorte, isto é [música] ensaio. Alguém visitou aquela escola antes, estudou onde estavam as câmaras, treinou como se mover. Rogério sentiu o peito [música] apertar.

Aquela mulher tinha estado ali antes da terça-feira, talvez mais de uma vez, a estudar, a observar o Yuri. Na quinta-feira de manhã, uma mulher ligou para o número de denúncia do estado. Não deu o nome, falou com voz tranquila, quase clínica. Disse que tinha visto a reportagem do Alerta Âmbar. Disse que acreditava ter visto algo importante na terça-feira à [música] tarde em Guarulhos.

Uma mulher adulta com um rapaz a entrar numa casa de dois andares, muros altos de betão pintados de verde musgo perto do Jardim Cumbica. A chamada durou 40 segundos. A mulher desligou antes do atendente pedir mais. O Rogério ouviu a gravação duas vezes. Chamou dois agentes iam para Guarulhos.

Chegaram pouco antes do meio-dia. O problema era que a denunciante não deu morada, apenas uma região. Dividiram o trabalho, andaram a pé, perguntaram aos vizinhos. Quase ninguém falava. Estavam quase a desistir quando a agente Torres chamou pelo rádio. Rogério, achei. Era uma casa na rua de São Benedito, número 58, [música] muro de betão de 2,5 m, pintado de verde musgo, quase militar.

O portão estava encostado. Rogério aproximou-se. O silêncio dentro do terreno era denso. Nada. Sem som de casa habitada. Bateram palmas. Nada. Bateram outra vez. Nada. Empurraram o portão. O quintal estava vazio. Pavimento em cimento queimado, sem acabamento. Uma mangueira enrolada. Uma cadeira de plástico virada.

[música] A porta da frente estava aberta. Entraram com cuidado. Sala vazia, cozinha com loiça suja na pia, um cinzeiro com pontas de cigarro em cima da mesa, duas latas de guaraná amolgadas no chão. Subiram à escada. Primeiro quarto, vazio. Segundo quarto. Rogério empurrou a porta. No canto da sala, encostada na parede, estava uma mochila azul com um dinossauro estampado, o tecido descolando.

Rogério ajoelhou-se sem tocar. A respiração acelerou sem pedir licença. Era a mochila do Yuri. [música] Sem dúvida. Os cadernos no interior tinham o nome escrito: A caneta de feltro pela mãe. A garrafa térmica com um comboio pintado, os lápis de cor. Tudo estava ali, menos o menino. A casa estava vazia.

Quem lá tinha estado foi-se embora com pressa. A perícia passou o resto da quinta e parte da sexta dentro da casa de Guarulhos. Os resultados saíram aos poucos. Cada um abria uma nova questão. A mochila de Yuri tinha impressões digitais de três pessoas, as do menino, as da Márcia e um terceiro conjunto que não aparecia em nenhuma base de dados, nem estadual, nem federal.

No segundo quarto, debaixo do forro do guarda-roupa, os peritos encontraram uma folha de caderno dobrada em quatro. Letra miúda, apertada, [música] claramente feminina, segundo o relatório grafotécnico. Era uma lista. Horários, rotinas, descrições. No canto inferior, duas palavras circuladas com caneta vermelha. A Márcia trabalha. O Rogério leu a folha várias vezes.

Alguém tinha estudado o horário de trabalho do mãe. Sabia que na terça-feira ela ficava no salão até tarde. Sabia que o Yuri saía às 14:30. Sabia que ela se atrasava. Tudo foi planeado em torno disso. Na cozinha, [música] entre a parede e o frigorífico velho do canto, encontraram um telemóvel, um aparelho barato, pré-pago, com o ecrã partido, a bateria vazia.

O Maurício levou o aparelho para o laboratório na mesma tarde. Márcia recebeu a notícia sobre Guarulhos na sala do investigador. O Rogério contou tudo, a mochila, a lista, a confirmação de que Yuri tinha estado ali. Márcia ouviu sem se mexer, naquela quietude que não era calma, era contenção. Quando Rogério terminou, ela fez uma pergunta só.

Quem estava a olhar para mim? Ele não tinha resposta. Ainda é isso que estamos a tentar descobrir. A Márcia abanou a cabeça devagar. Alguém me conhece? Alguém que sabe os meus horários? Onde o meu filho estuda, como eu chamo-me, alguém que esteve perto de mim e eu não sabia. Pausou. Quão perto? Era a pergunta certa. O telemóvel encontrado em Guarulhos [música] foi o primeiro golpe de sorte real da investigação.

O Maurício levou dois dias para extrair o que quer que seja. A memória estava danificada, mas não destruída. O que sobrou tinha uma peça importante, o registo das chamadas efetuadas nos últimos 15 dias. Nove chamadas, todas para o mesmo número, um número de São Paulo. O Rogério pediu a quebra de sigilo com uma ordem judicial expedida na sexta-feira à tarde.

A operadora respondeu no sábado ao meio-dia. O número estava registado em nome de um homem, Hugo Serrão Leal, de 42 anos, morada na Vila Maria, zona norte, sem antecedentes, invisível nos sistemas. Rogério procurou o nome em tudo o que tinha acesso. Nada de relevante. Fez então o que por vezes os investigadores esquecem-se.

Abriu o Facebook. Hugo Serrão tinha perfil ativo, fotos de futebol, posts sobre um negócio, um comércio de automóveis usados na Avenida Cruzeiro do Sul, perto do metro de Santana. Rogério ampliou a foto de perfil, ficou imóvel diante do ecrã. Na imagem, Hugo estava em frente a um dos seus carros, sorrindo.

Ao lado, uma mulher, cabelo preto, liso, apanhado num rabo de cavalo baixo, ossos da face altos, testa larga. Rogério abriu a captura da câmara da escola no ecrã ao lado. Comparou, o coração disparou. Não era confirmação científica. A foto do Facebook era fraca, [música] mas passados 13 anos olhando gente, algo no ângulo do pescoço, na posição dos ombros, dizia para Rogério que era a mesma mulher.

Mandou tudo ao Maurício com uma nota de três palavras. É ela. A comparação facial formal saiu na segunda-feira, 28 de outubro. A mulher da foto e a mulher da câmara da escola coincidiam em 17 pontos morfológicos. Não era uma certeza absoluta, mas era o bastante para sustentar um mandado de prisão. O juiz assinou na mesma tarde.

O problema era que Hugo Serrão Leal tinha sumido. O comércio na Cruzeiro do Sul estava fechado. O seu novo apartamento, alugado no Jaçanã, estava vazio. Os vizinhos diziam que não viam ele havia mais de uma semana. Mais de uma semana antes do rapto de Yuri. O Hugo tinha planeou a fuga antes da mulher entrar na escola.

Rogério ligou a Polícia Federal. O caso precisava de subir. A esquadra de repressão do tráfico de pessoas em Brasília enviou um agente para São Paulo no voo das 19. Chamava-se Leandro Morais. Chegou num fim de tarde abafado. Foi direto para a reunião. Morais trouxe um dossiê. Nos últimos 18 meses, três estados tinham registado desaparecimentos parecidos.

Crianças entre os 5 e os 10 anos tiradas de perto das escolas por mulheres dizendo ser parentes. Sete casos. Minas Gerais, Paraná, agora São Paulo, sete meninos. E ninguém tinha ligado os pontos antes. Cada caso tinha ficado na mão de uma polícia estadual diferente, sem coordenação federal, sem cruzamento de dados. O silêncio depois de Morais ter parado de falar pesava toneladas.

O Rogério pensou no Yuri. Sete crianças. A Yuri podia ser a oitava numa lista maior, uma mulher com a adoção negada, um homem com um comércio de fachada, [música] um motorista pago e crianças que desapareciam no meio do caminho. Rogério começou a procurar o nome da mulher da foto, não o do Hugo, da mulher.

Num álbum antigo do seu perfil, num churrasco de fim de ano, um comentário marcava uma pessoa bonita. A Daniela. Daniela. Rogério procurou entre os contactos de Hugo no Facebook todas as Danielas. Encontrou três. A primeira passava dos 60. A segunda vivia no Recife, perfil parado havia meses.

A terceira tinha por volta das de 34 anos. Publicações recentes, nome completo visível. Daniela Furtado [música] Oxoa. O nome entrou nos sistemas. natural de Ponta Grossa, Paraná, a viver em São Paulo desde 2017, sem antecedentes. Mas houve um pormenor que chamou a atenção de Rogério, um processo em 2019, mandado de segurança contra uma decisão do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Rogério conseguiu o teor do processo, leu o primeiro parágrafo e teve de ler de novo. Em 2017, Daniela tinha iniciado um processo de adoção sozinha, mãe solteira, cumpria os requisitos básicos, emprego fixo numa transportadora em Guarulhos, casa arrendada, referências em ordem. O processo andou durante dois anos.

Em 2019, o juiz do tribunal da infância encerrou tudo. Razão oficial, inadequação do perfil psicológico da requerente para convívio com menor em situação de acolhimento institucional. Daniela recorreu, perdeu, não adotou. Rogério fechou o dossier, abriu outro, procurou denúncias envolvendo o nome dela. Demorou 2 horas.

Em agosto de 2023, uma mulher chamada Beatriz Pereira tinha registou ocorrência num distrito da zona sul. Uma desconhecida terá tentado meter conversa com a filha de 5 anos num parque infantil perto do Ibirapuera. Dizia que levaria a menina a ver muitos brinquedos. A descrição batia certo. Cabelo [música] preto, liso, magra, 30 e tantos.

A ocorrência foi arquivada sem investigação. Rogério levantou-se, chamou os agentes. Precisavam de achar Daniela antes de ela se evaporar como o Hugo. O último endereço registado dela era num prédio na Vila Guilherme. Chegaram ali ao fim da tarde. O zelador, um senhor de chinelos e jornal debaixo do braço, contou que a Daniela tinha ido embora na semana anterior. Quinta ou sexta-feira.

Chegou com umas caixas, arrumou tudo, pediu para avisar o proprietário que não iria renovar o contrato. Quinta-feira ou [música] sexta-feira, quatro ou cinco dias antes do sequestro. Na calçada, o telemóvel de Rogério tocou. Era o Maurício. Rogério, consegui recuperar um excerto de mensagem do telemóvel de Guarulhos.

É parcial, mas precisa de ver. Fala. Pausa. Diz assim: “O menino já está connosco. O o próximo é sábado. O próximo não era o primeiro, não era o último. E o Yuri não era único. A Márcia não estava em casa esperando. Isso foi algo que Rogério compreendeu tarde demais. Enquanto ele coordenava com a PF e com a Interpol de São Paulo, ela fazia o seu próprio trabalho.

Falava com os jornalistas, com grupos de mães de crianças desaparecidas, com uma associação em Curitiba que já tinha enfrentado algo semelhante anos antes. Em uma semana, A Márcia tinha uma rede de contactos que um investigador demora meses a montar, porque a Márcia não era apenas uma mãe desesperada, era uma mulher que, quando não conseguia controlar a dor, transformava ela em movimento.

Na quinta-feira, 31 de outubro, 9 dias depois do sumisso, Márcia fez um direto no Instagram. 8 minutos. Ela sozinha na cozinha do apartamento sem guião. Falou do Yuri, da mochila azul, da cicatriz no queixo, das pedrinhas que ele colecionava numa caixinha de cartão debaixo da cama e no final disse o que ninguém esperava.

Sei que há mais crianças na mesma situação. Eu sei que o Yuri não é o primeiro. Se há mães a passar pelo mesmo, me procurem. A live bateu os 400.000 1 visualizações em 12 horas. No dia seguinte, quatro mães procuraram-na. Duas do Paraná, uma de Minas, uma do interior paulista de Ribeirão Preto.

A Márcia ouviu todas. Depois levou as notas para O Rogério num caderno de espiral com letra apertada [música] e trechos grifados de vermelho. As crianças desaparecem perto das escolas, tiram sempre mulheres, dizem sempre que são parentes, sabem sempre mais do que deviam e há sempre um homem no fundo. Rogério olhou em silêncio.

Vocês já sabiam. Ela disse. Não era uma pergunta. A gente está a trabalhar nisso. Tá me pedindo para parar? Estou a pedir para ter cuidado. Estas pessoas sabem quem a senhora é. Márcia encarou-o com uma fixidez que ele não esqueceria. Eu sei, por isso não paro. Dois dias depois, Márcia recebeu uma mensagem de uma mulher em Foz do Iguaçu, uma investigadora privada, ex-polícia federal de nome Sandra Porciúncula.

Trabalhava com casos de tráfico de crianças na tríplice fronteira havia 15 anos. A Sandra tinha uma fonte dentro de uma rede que ela descrevia como pequena, mas organizada. Movia crianças pelo interior do Paraná, utilizando casas de passagem que mudavam a cada 48 horas. A Márcia comprou um bilhete de autocarro para Foz na mesma noite, 22 horas de viagem, sem avisar ninguém além de Rogério, que só pediu uma coisa.

“Ligue-me a cada 12 horas”, ela chamou. Sandra, por ciúncula, recebeu a Márcia num pequeno escritório no centro da Foz, por cima de uma casa de apostas. 51 anos. Cabelo grisalho cortado curto, jeito direto. Na parede, um quadro com fotos, mapas e notas. A Márcia reconheceu-a. Era parecido com o caderno dela.

Sandra acompanhava o caso de Yuri desde o alerta Amber. Tinha uma fonte dentro da rede. Não disse quem. Só disse que era alguém que começou a colaborar por razões próprias. Daniela tinha passado por Cascavel, depois Toledo, depois uma cidade pequena chamada Medianeira, a oeste do Paraná. E Uri tinha sido entregue lá a um casal. Os nomes Sandra ainda não tinha, mas o endereço chegou no sábado de manhã.

Uma casa na rua Castro Alves em Medianeira. [música] Bairro tranquilo de classe média. Casas com jardim na frente, o tipo de lugar onde ninguém espera. Sandra ligou para Rogério. Rogério ligou pro delegado Morais da PF. Morais acionou a superintendência em Curitiba. Em menos de 4 horas, um grupo da PF, da Polícia Civil do Paraná e da Rotam [música] estava a caminho.

Márcia e Sandra seguiram de carro 500 km sem parar para comer, só para abastecer. A operação começou às 17:20 do sábado, 9 de novembro de 2024. Márcia esperava numa rua atrás, dentro do carro de Sandra. Morais tinha sido claro. Se algo desse errado, a presença de civis seria um desastre. Márcia ficou olhando o para-Brisa, mãos cruzadas nos joelhos, igual 17 dias antes, no corredor da delegacia da Vila Formosa.

O rádio dentro do carro transmitia trechos da comunicação do grupo, códigos, portas abrindo, vozes rápidas. Depois de um silêncio de 30 segundos, que foi o tempo mais longo da vida de Márcia Soares, em seguida, três palavras. Temos o menor. Márcia não ouviu o resto. Saiu do carro antes de Sandra terminar de processar. Correu os últimos 100 m.

Morais assegurou no perímetro. Ele tá bem. Tá com os socorristas. Preciso que a senhora espere 5 minutos. Protocolo: Márcia encarou ele. 5 minutos foram os mais longos de tudo. Yuri estava sentado no degrau traseiro da ambulância, enrolado numa manta cinza, topete desarrumado, olhos grandes de quem não entende direito o que tá acontecendo.

Quando viu Máccia a 20 m, desceu do degrau antes dela dizer qualquer coisa. correu na direção dela. Ela se abaixou no asfalto e os dois ficaram ali enquanto os agentes em volta desviavam o olhar. Rogério soube 3 minutos depois, quando Morais ligou, não disse nada por um tempo, depois disse obrigado e desligou.

Ficou sentado na delegacia em São Paulo com o telefone na mão, olhando as fotos coladas na parede. A câmera da escola, a foto do Facebook de Hugo com Daniela. O fragmento da mensagem recuperada. Iuri tinha voltado depois de 18 dias, mas Hugo continuava foragido. Daniela Furtado Oxoa foi presa na própria casa em Medianeira, duas quadras do local do resgate.

O casal que tinha recebido Yuri também. Um homem e uma mulher de meia idade, comerciantes locais, tinham pago R$ 150.000 pelo menino. Acreditavam, segundo a primeira declaração, estar em um processo de adoção alternativa intermediada por terceiros. Yuri foi examinado em Cascavel naquela noite.

Os resultados, dentro do cenário que todos temiam, foram o melhor que se podia esperar. sem violência física direta, sinais de estresse pós-traumático agudo, pesadelos, dificuldade de concentração. Tinha perdido 2 kg, mas estava vivo. Falava, perguntava coisas. Hugo Serrão Leal foi localizado em dezembro de 2024 em Goiânia, morando sob nome falso.

No celular dele, que dessa vez ele não conseguiu destruir a tempo, estavam os arquivos que Morais descreveu depois como suficientes para dois anos de investigação. Contatos, pagamentos e um álbum. Fotos de crianças em escolas, em praças, em calçadas. 23 nomes. Yuri era o 14. Isso queria dizer 13 antes dele, nove depois. Nove famílias que ainda não sabiam que alguém andava olhando.

Rogério passou muito tempo encarando aquela lista antes de começar o trabalho. Das seis crianças desaparecidas antes de Yuri, quatro foram localizadas nos meses seguintes. Duas continuam sem paradeiro. Seus casos permanecem abertos. Suas mães continuam procurando. Yuri levou meses para dormir uma noite inteira.

Márcia o levou à terapia especializada em trauma infantil num centro em São Paulo. O processo foi longo, não foi linear, mas Márcia percebeu uma coisa nas primeiras semanas e Uri não tinha jogado fora a caixinha de pedrinhas. Continuou catando pedras no chão, continuou enchendo a caixa. Essa pequena constância foi o primeiro sinal real de que ele ainda era ele.

Daniela foi condenada em 2025, 18 anos de prisão por tráfico de pessoas, sequestro e associação criminosa. Durante o julgamento, ela disse uma única frase espontânea. Disse que acreditava estar dando ao menino uma vida melhor. A promotora respondeu com outra frase que também ninguém esqueceu. Uma vida melhor não se constrói em cima de uma mãe destruída.

Em 2025, Márcia, junto com duas mães cujos filhos também passaram pela mesma rede, fundou uma associação civil em São Paulo, dedicada à prevenção de sequestros infantis e ao acompanhamento de famílias. O nome do Yuri não aparece no logo. Márcia sempre diz que a organização não é um monumento, é uma ferramenta para que o que aconteceu sirva para algo para além da dor.

E há uma foto na parede do escritório da Sandra na Foz. É o Yuri de costas, de mão dada com a Márcia no dia em que voltou para casa. A Sandra colocou ali no dia seguinte ao do resgate. Não como troféu, como lembrete de porque é preciso continuar.