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O CASO QUE PAROU BRASÍLIA EM 2026: CASAL DESAPARECEU DURANTE VIAGEM DE LUA DE MEL NO RIO DE JANEIRO

Thiago Marcelino tinha o tipo de paciência que só se desenvolve quando a vida ensina desde cedo que as coisas boas não chegam rápido. Cresceu no Recanto das Emas, uma das regiões administrativas mais densas do Distrito Federal, filho de uma auxiliar de enfermagem e de um servidor público aposentado por invalidez após um acidente de trabalho.

Desde os 15 anos, ajudava nas contas de casa com bicos de fim de semana, lavando carros no estacionamento de um supermercado na Samambaia. Não era uma infância de privação extrema, mas era uma infância onde o futuro precisava de ser construído tijolo por tijolo, sem atalhos, sem heranças, sem rede de proteção.

Formou-se técnico em contabilidade pelo IF e foi aprovado num concurso autárquico aos 26 anos. Era o tipo de conquista que na família Marcelino festejava-se com churrasco no quintal e lágrimas que ninguém admitia depois. Tinha 29 anos quando conheceu Camila. Camila Rezende era natural de Ceilândia, professora de educação infantil numa escola pública, filha única de uma costureira e de um motorista de aplicação que tinha sido por quase 20 anos motorista de autocarros antes da empresa fechar.

Era uma mulher de energia constante, das que chegam num ambiente e reorganizam tudo, não por imposição, mas porque simplesmente vê onde as coisas funcionam melhor. tinha 27 anos, usava o cabelo natural e ria com o corpo inteiro. Eles se conheceram numa fila, não fila burocrática ou universitária, como costuma acontecer nos guiões românticos clássicos, mas na fila de um food truck de tapioca durante a feira do distrito, um evento cultural que realiza-se anualmente no Parque da Cidade.

O Thiago estava sozinho. Camila estava com duas amigas que desistiram da fila. Passados 10 minutos ela ficou e os dois estiveram a conversar durante 40 minutos com a tapioca a arrefecer na mão, sem que nenhum dos dois se apercebesse. Namoraram durante 2 anos e 8 meses. Era um relacionamento feito de coisas simples, com significado profundo.

Moços na casa das mães, domingos no Parque da Cidade, discussões honestas sobre dinheiro e sobre futuro, uma cumlicidade construída na rotina e não apesar dela. Thago era o tipo de homem que anota as coisas num caderno físico porque acredita que o que está escrito existe de verdade. Camila era o tipo de mulher que se lembra do aniversário de todos e que, mesmo cansada, depois de 6 horas com crianças de 4 anos, encontra energia para perguntar como está o outro.

A proposta aconteceu numa tarde de sábado, no miradouro da Chapada Imperial, a 60 km de Brasília. Thago tinha planeou tudo com três semanas de antecedência, inclusive verificado a previsão do tempo para garantir que o céu estaria limpo. Levou um piquenique, uma garrafa de suco de caju que Camila adorava e um anel comprado numa joalheria pequena no centro de Itaua, [música] escolhido com o critério de quem sabe que o símbolo importa mais do que o valor de mercado.

A Camila disse que sim antes de ele terminar a frase. O casamento foi em março de 2026 numa igreja batista no Recanto das Emas, onde a mãe de Thago era membra há 18 anos. A cerimônia durou 50 minutos. A festa durou até à meia-noite no salão paroquial, com buffet organizado pelas tias dos dois lados, bolo de três andares feito por uma confeiteira do bairro e playlist montada pelo primo de Camila, que fazia DJ nos fins de semana.

Não foi um casamento de revista, foi um casamento real, quente, barulhento, com crianças correndo entre as mesas e avós que dançaram mais do que qualquer outra pessoa. A lua de mel no Rio de Janeiro era um sonho com data. Tinham começado a poupar 18 meses antes da cerimônia, cortando gastos com a seriedade discreta de quem não quer pedir ajuda a ninguém.

Thago abriu uma conta separada só para a viagem. Camila parou de assinar dois serviços de streaming e passou a dar aulas particulares de reforço escolar nas tardes de quinta e sexta. Cada depósito feito naquela conta era uma confirmação de que o sonho estava ficando real. Escolheram o rio porque Camila nunca tinha visto o mar de perto, tinha 30 anos e nunca havia pisado numa praia.

Tiago tinha ido uma vez criança, numa excursão da escola que se lembrava mais pelo ônibus quebrado do que pelo oceano. A ideia de ver o mar juntos, pela primeira vez como casal, tinha um peso emocional que os dois carregavam sem precisar de verbalizar. reservaram uma pousada em Santa Teresa, bairro histórico na colina central da cidade, [música] recomendada por uma colega de Camila, que havia passado o reveillon por lá.

Tinham seis dias planejados, roteiro construído com cuidado, misturando o Cristo Redentor, o Museu do Amanhã, uma tarde em Ipanema e um passeio de barco pela baia de Guanabara. Partiram de Brasília no dia 12 de abril de 2026. As famílias foram ao aeroporto. Há fotos desse momento. Thago e Camila a sorrir na fila de embarque.

As mães dos dois com o visível orgulho de quem viu aquelas pessoas a crescer e agora vê-as partindo para viver algo que mereciam há muito tempo. Essa foi a última vez que qualquer membro das duas famílias os viu pessoalmente. O avião pousou no Galeão às 11 da manhã de uma segunda-feira de abril, com o céu completamente aberto sobre a baía de Guanabara.

Camila olhou pela janela quando a aeronave começou a descer e ficou em silêncio por um momento longo. O tipo de silêncio que não é ausência de palavras, mas excesso de sentimento. Thago segurou a mão dela sem dizer nada. Não era necessário. O táxi da chegada atravessou a cidade no sentido da zona sul e depois subiu pelas curvas estreitas de Santa Teresa com a naturalidade de quem conhece cada pedra daquele asfalto.

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O motorista, um homem de seus 50 anos com sotaque carioca carregado, foi comentando os pontos que iam passando com aquela informalidade característica da cidade. contou um conhecido tasco. Mencionou um famoso sambista que havia morado numa rua paralela. Reclamou do trânsito com a leveza de quem já aceitou que o trânsito é uma condição permanente da vida.

Camila absorvia tudo com os olhos abertos. A vegetação densa que descia pelos morros, as casas coloridas apertadas umas contra as outras, [música] os gatos deitados nos passeios, os fios cruzando entre os postes como uma teia improvisada. Havia uma beleza caótica naquilo tudo que ela não sabia exatamente como descrever, mas que sentia como algo verdadeiro, não de postal, mas de cidade que existe de verdade e pulsa nas as suas próprias contradições.

A pousada ficava numa rua de paralelepípedos [música] a 200 m do largo dos Guimarães. Era uma construção do início do séc. XX, com janelas altas, paredes grossas pintadas de amarelo ocreanda de ferro forjado com vista para o casario da colina. A dona, uma mulher de cabelos brancos chamada Iracema, recebeu os dois com sumo de maracujá gelado e um mapa do bairro marcado à mão com as melhores opções de restaurante.

A Camila comentou depois com a mãe por áudio que aquele tinha sido o primeiro sinal de que a viagem ia ser exatamente aquilo que imaginavam. Os dois primeiros dias foram plenos. Na terça-feira subiram ao Cristo Redentor ainda de manhã, antes do fluxo mais intenso de turistas. Camila esteve parada na plataforma durante vários minutos, olhando para a cidade aberta em baixo, as favelas e os bairros nobres dividindo o mesmo horizonte, o mar entrando pela baia, os edifícios brancos do centro a brilhar no contra-aluz.

tirou fotografias, mas disse a Thago que nenhuma delas conseguia apanhar o que os olhos estavam a ver. Ele concordou e sugeriu que talvez fosse assim que deveriam guardar aquele momento, só na memória. À tarde, desceram para o centro e visitaram o Museu do Amanhã, nas margens da Baia de Guanabara.

Camila, professora que era, ficou mais tempo do que o roteiro previa nas instalações vocacionadas para as alterações climáticas. e futuro das cidades. Thago seguia-a sem pressa, fazendo de vez em quando algum comentário que a fazia rir. Jantaram num restaurante pequeno no bairro da Lapa, recomendado pela Iracema.

Comeram bacalhau com azeite português e sobremesa de doce de leite com queijo coalho. Na quarta-feira foram a Ipanema. A Camila entrou no mar com a cautela de quem não tem intimidade com ondas e a emoção de quem esperou décadas por aquele momento. Thago ficou na areia a observar, sorrindo com o tipo de alegria que advém de ver alguém que ama-se vivendo algo que sempre quis.

Ela saiu da água a rir com o cabelo todo guisado e disse que o oceano era muito maior do que imaginava. Não no tamanho, porque isso ela sabia, mas numa dimensão que não cabia em palavras. [música] Nessa noite, de regresso à pousada, Camila enviou um longo áudio de voz para a mãe. Descreveu o dia com pormenor.

Mencionou o sabor da água salgada, o barulho das ondas, a sensação de areia fina entre os dedos. A mãe respondeu com outro áudio chorando de felicidade. O Thago enviou uma fotografia para o grupo da família no WhatsApp. Os dois na areia de Ipanema, o sol na diagonal, a expressão de quem está exatamente onde quer estar.

O seu pai respondeu com um emogi de coração. Era um homem de poucas palavras, mas Thago sabia ler o que havia por detrás de cada uma delas. Na quinta-feira de manhã, os dois saíram da pousada às 8h40. Iracema viu-os partir da varanda e acenou com a mão. A Camila levava uma mochila leve com protetor solar, garrafa de água, o caderninho onde tinha começado a anotar impressões da viagem e o telemóvel.

[música] Tiago transportava a máquina fotográfica que tinha emprestado do primo para a lua de mel, o documento e algum dinheiro em espécie. O plano do dia era o passeio de barco pela baía de Guanabara com partida do Cais da Praça X às 10 horas da manhã. Caminharam pelo bairro descendo em direção ao ponto de autocarro.

A câmara de segurança de uma padaria na esquina da rua registou os dois a passar às 8:52 da manhã. Camila olhava para o lado, apontando algo que O Thago também parou para ver. Os dois sorriram, continuaram a caminhar, nunca chegaram ao Cais. O barco partiu às 10 horas com a lista de passageiros confirmados. O nome de Thiago Marcelino constava na reserva.

Ninguém atendeu quando o funcionário chamou. A mãe de Camila, dona Vera, [música] tinha o hábito de dormir com o telemóvel na mesa de cabeceira com o volume no máximo. Era um costume que havia desenvolvido quando a filha começou a viver sozinha. uma vigilância afetiva que nunca tinha sido necessária até agora.

Na quinta-feira à noite, o telemóvel não tocou. Na sexta-feira de manhã, quando Vera se apercebeu que não havia recebido nenhuma mensagem desde o áudio da noite anterior, enviou um texto simples. Bom dia, minha filha. Como foi o passeio de barco? A mensagem ficou com um único tique que cinzento durante horas. Vera esperou até ao meio-dia antes de ligar.

A chamada caiu diretamente na caixa postal. Ligou de novo. Caixa Postal enviou outro texto. Ficou a olhar para a ecrã com aquela sensação que as mães reconhecem antes de conseguir nomeá-la. Não era pânico ainda. Era um desconforto profundo, uma voz baixa dentro do peito, dizendo que algo estava fora do lugar. Às 2as da tarde, telefonou ao pai de Thago, o senhor Adalberto, em Brasília.

Os dois não tinham grande intimidade, eram cordiais nas reuniões familiares, trocavam cumprimentos nas festas, mas não se ligavam sem motivo. Quando a Vera explicou que não conseguia falar com Camila desde a noite anterior, Adalberto ficou em silêncio durante alguns segundos e disse que iria tentar contactar o filho.

Desligou, ligou ao Thago, [música] caixa de correio, enviou mensagem no WhatsApp, um tic cinzento. O primeiro tique cinzento numa mensagem para o filho foi a coisa mais assustadora que o Adalberto tinha experimentado em muitos anos. Às 16 horas de sexta-feira, os dois lados da família já estavam em contacto direto.

Vera, Adalberto, a irmã mais nova da Camila, que vivia na Ceilândia, e o primo do Thiago, o mesmo que tinha emprestado a câmara. Alguém sugeriu que talvez o telemóvel tivesse caído na água durante o passeio de barco. Alguém sugeriu que talvez estivessem numa área sem sinal. eram explicações razoáveis [música] e todos fingiram acreditar nelas durante algumas horas, porque a alternativa era insuportável.

Adalberto ligou para a pousada em Santa Teresa às 17h20. Iracema atendeu e disse com uma calma que escorregou rapidamente para a preocupação que o casal tinha saído de manhã e ainda não havia regressado. As camas estavam desfeitas, as malas estavam no quarto. Os pertences pessoais, incluindo os documentos de Camila, continuavam sobre a cómoda, onde ela os tinha deixado antes de sair.

EMA disse que havia presumido que eles tinham saído para um passeio mais longo, que havia esperado, que estava ela também estranhando a ausência. Adalberto desligou e ficou olhando para a parede do seu apartamento no recanto das emas durante um tempo que não soube medir. Depois pegou o casaco e as chaves do carro, ligou para Vera e disse que estava indo à esquadra.

A Delegacia de proteção ao Turista no Rio de Janeiro recebeu o registro na sexta-feira à noite. O atendente que processou a ocorrência [música] foi cordial e técnico. Explicou que para adultos desaparecidos, o protocolo exigia um período mínimo de 48 horas antes de escalar a investigação. Adalberto explicou que o casal estava em lua-de-mel, que os documentos estavam no quarto da pousada, que os celulares não respondiam desde manhã.

>> [música] >> O atendente anotou tudo com atenção e disse que as buscas seriam iniciadas, mas que era importante manter a calma, porque a maioria dos casos se resolvia em poucas horas. Adalberto regressou à pousada. Iracema o recebeu sem disfarçar a angústia no rosto. Mostrou o quarto ao pai de Thago. As malas abertas com a roupa organizada, a máquina fotográfica na bolsa de transporte sobre a cadeira, o carregador de telemóvel de Camila ainda ligado à tomada.

Sobre a mesinha estava o caderninho de notas de Camila. Adalberto não lhe tocou. olhou para ele com o cuidado de quem entende que aquilo pertence à outra pessoa e que aquela pessoa vai voltar para o buscar. No sábado de manhã, sem qualquer contacto novo, a Vera apanhou o primeiro autocarro de Ceilândia até à estação rodoviária e depois o primeiro voo disponível para o rio.

Chegou com uma mala pequena e os olhos vermelhos de uma noite sem dormir. Iracema recebeu-a e fez café. As duas mulheres sentaram-se na varanda da pousada, sem dizer grande coisa durante os primeiros minutos, porque algumas situações não tem palavras à altura. A Polícia Civil do Rio enviou uma equipa à pousada no sábado à tarde.

Dois investigadores que fizeram perguntas metódicas anotaram os dados do casal, fotografaram o quarto e recolheram os documentos da Camila como material de registo. Pediram acesso às câmaras de segurança da rua. Iracema forneceu o contacto do administrador do condomínio vizinho, que tinha câmara exterior. Foi assim que surgiu a única imagem conhecida do casal nesse dia, a gravação da padaria da esquina, mostrando o Thago e a Camila a passar às 8:52 da manhã de quinta-feira, sorridentes, sem pressas, com a naturalidade de quem está a viver um bom

momento. Depois daquele frame, nada. Nenhuma câmara das quadras seguintes capturou imagens utilizáveis. A cobertura era fragmentada, com câmaras partidas ou posicionadas em ângulos que não cobriam a calçada. O percurso mais provável até ao ponto de autocarro para a praça 15 passava por duas ruas onde não havia registo disponível nesse período.

O domingo chegou com o silêncio ainda intacto. A Vera ficou no quarto da Camila na pousada, dormindo na cama que a filha tinha dormido, com o caderninho de notas que finalmente abriu naquela noite, com cuidado, como se as páginas pudessem quebrar. A última anotação era de quarta-feira à noite, [música] depois do jantar na Lapa.

A letra de Camila, redonda e inclinada para a direita, [música] dizia: “O rio é assustador e bonito ao mesmo tempo. Acho que é por é isso que ele é tão difícil de esquecer. Amanhã, o mar de dentro da Baia.” Vera fechou o caderno e ficou sentada na beira da cama [música] até ao amanhecer. A história chegou a Brasília não pelos canais que a deveriam ter recebido primeiro, mas pelo caminho que as histórias percorrem quando as instituições ficam em silêncio pelas pessoas.

Era a irmã mais nova de Camila, Priscila, 23 anos, professora substituta e administradora compulsiva de redes sociais, quem publicou a primeira mensagem. Era domingo à noite, 48 horas após o desaparecimento confirmado. Ela publicou no Instagram uma foto do casal tirada na cerimónia de casamento. Thaago de fato [música] escuro, Camila com o vestido branco simples que havia escolhido com a mãe numa tarde em Itaguatinga e escreveu um texto direto sem recursos dramáticos, apenas os factos, os nomes, as datas, o hotel, o trajeto, o silêncio dos telemóveis, o

pedido de informação a quem estivesse no Rio ou soubesse de algo. Em 2 horas, [música] a publicação tinha sido partilhada por 400 pessoas, em 6 horas por [música] mais de 4.000. A comunidade do Distrito Federal nas redes sociais tem uma coesão específica, construída pela consciência de que Brasília é uma cidade de migrantes.

[música] Quase ninguém é dali por gerações. Quase toda a gente tem família espalhada pelo Brasil. E isso cria uma solidariedade de diáspora interna. que ativa-se rapidamente quando alguém de lá está em perigo. Na segunda-feira de manhã, o caso de Thago e Camila já circulava em grupos de WhatsApp de moradores do Recanto das Emas, de Ceilândia, de Samambaia, de Itaguatinga.

Professoras, colegas da Camila partilhavam com outras professoras. Colegas de concurso de Thago encaminhavam para grupos de servidores municipais uma rede informal de amplificação que nenhum assessor de imprensa conseguiria replicar com orçamento ou estratégia. Foi através desta rede que a história chegou ao gabinete da deputada Renata Souza Campos do Distrito Federal na tarde de segunda-feira.

A assessora parlamentar da deputada viu a publicação de Priscila partilhou por uma prima sua, que vivia em Ceilândia. Encaminhou para a deputada com uma nota rápida, dizendo que o caso estava a tornar-se viral e que havia pressão nas redes por posicionamento. Renata Campos leu o texto, olhou para a foto do casal e ficou alguns segundos em silêncio antes de pedir que levantassem todas as informações disponíveis.

A deputada ligou pessoalmente para o Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro nessa tarde. Não obteve resposta imediata. ligou para o Ministério da Justiça em Brasília e foi encaminhado para um assessor de segundo escalão [música] que prometeu verificar o andamento do caso junto da Polícia Civil Fluminense.

Renata Campos não era parlamentar de grande visibilidade nacional, mas era conhecida pela consistência com que acompanhava casos de violência e desaparecimento envolvendo cidadãos do DF. havia construiu ao longo do mandato uma rede de contactos nas forças de segurança que agora acionou com urgência. Na terça-feira, outros dois parlamentares do Distrito Federal, um senador e um deputado de diferentes bancadas, publicaram notas nas redes sociais pedindo esclarecimentos às autoridades cariocas.

Não era coordenação política, era resposta a uma pressão que chegava dos próprios eleitores. As caixas de mensagens dos armários estavam cheias de contactos de constituintes, pedindo que os representantes fizessem algo. O caso entrou na pauta do noticiário local de Brasília na terça-feira à tarde. Uma A emissora de TV do DF exibiu uma nota curta no telejornal do meio-dia com a foto do casal e o pedido de informações.

Uma rádio AM com grande audiência no transporte público do DF dedicou 10 minutos do programa da manhã ao tema, com a irmã da Camila a participar por telefone. Priscila falou com a voz controlada de quem está a usar toda a energia disponível para não colapsar. disse que a família não tinha informações novas da polícia, que Vera continuava no Rio, que Adalberto estava a tentar contratar um advogado com experiência em casos de desaparecimento, que ninguém do governo havia ligado diretamente para as famílias com qualquer atualização

concreta. disse tudo isto com a clareza seca [música] de quem entende que o único ativo que tem naquele momento é a atenção do público e que desperdiçar esse ativo com emoção descontrolada seria um erro que a Camila e o Thiago não podiam pagar. A repercussão da entrevista gerou o primeiro movimento institucional real.

Na quarta-feira de manhã, o Ministério da Justiça emitiu uma nota informando que havia solicitado relatório à Delegacia de Proteção ao Turista do Rio de Janeiro e que acompanhava o caso com atenção. Era uma nota genérica, construída com a linguagem asséptica das respostas institucionais que precisam dizer algo sem comprometer nada.

Mas era a primeira vez que o nome de Thago e Camila aparecia num documento oficial do governo federal. Adalberto leu a nota no telemóvel sentado na sala do apartamento em Brasília e ficou em silêncio por um longo tempo. Havia uma amargura específica naquilo. A sensação de que a existência dos filhos precisava de ser manchete para que o Estado se dignasse a reconhecê-los formalmente.

Não era raiva propriamente dita, era algo mais pesado e mais antigo. O tipo de decepção que não surpreende, mas dói do mesmo jeito. Rio, a investigação tinha avançado em fragmentos. A polícia civil tinha identificado que Thago tinha comprado dois bilhetes de barca na bilheteira eletrónica às 9:22 da manhã de quinta-feira, [ressonando] o que confirmava que o casal tinha chegado ao centro tinha chegado perto da praça 15, mas os registos de câmara na área do terminal aquaviário, naquele horário específico, tinham apresentado falha de

gravação num excerto de 40 minutos. Falha técnica, segundo o relatório preliminar, coincidência, segundo ninguém que estivesse investigando. Era o tipo de dados que não respondia nada, mas que transformava o vazio em algo com forma. Eles tinham chegado até ali. Até esse ponto [música] havia rasto.

Depois daquele ponto, havia apenas o barco que partiu sem eles. A primeira testemunha surgiu de forma inesperada, como quase sempre acontece nos casos em que o poder público não encontra o que as pessoas comuns acabam por esbarrar por acaso. Era uma mulher de nome Rosângela, de 51 anos, baiana radicada no rio há duas décadas, que vendia a água de coco num carrinho junto ao terminal aquaviário da praça XV.

viu a foto do casal a circular num grupo de WhatsApp de moradores da zona e enviou uma mensagem para o perfil de Priscila no Instagram, dizendo que reconhecia os dois, que tinha visto um casal com aquelas características na quinta-feira de manhã perto do seu ponto. A Priscila respondeu em 3 minutos. Rosângela ligou no dia seguinte, disse que se lembrava do casal porque a rapariga tinha comprado uma água de coco e comentado que nunca tinha tomado água de coco fresca antes, que em Brasília só encontrava em caixinha.

Rosâela havia ido e dito que isto era o tipo de coisa que tornava os locais convictos de que o rio era o melhor lugar do mundo. A rapariga havia concordado sorrindo. O rapaz tinha tirado uma foto dela com o coco verde na mão. Era um, segundo Rosângela, um [música] casal claramente feliz, claramente turista, claramente sem pressa.

Mas havia um pormenor que Rosângela referiu quase de passagem, como quem não sabe o peso do que está dizendo. Disse que alguns minutos depois de o casal se afastar em direção ao embarque, tinha reparado que um homem de t-shirt cinzenta, que estava apoiado numa grade próxima, tinha começado a caminhar na mesma direção.

Não correu, não fez nada ostensivo, apenas se moveu quando moveram-se. Rosângela não havia dado importância na hora. >> [música] >> Só depois, relendo a descrição do desaparecimento, aquela imagem voltou com um outro peso. Não sabia descrever o homem com precisão. Altura média, pele morena, t-shirt cinzenta, boné escuro. Não tinha visto o rosto com clareza.

A informação chegou à Polícia Civil através do advogado constituído por Adalberto, um profissional especializado em casos de desaparecimento chamado Dr. Marcelo Fagundes, que aceitara [música] o caso após ver a cobertura mediática brasiliense. Fagundes era metódico e directo, com 20 anos de experiência em casos que o sistema preferia deixar parados.

Apresentou o depoimento de Rosângela como elemento formal do processo e solicitou que as câmaras da área do terminal Aquaviário fossem novamente periciado, [música] desta vez cobrindo um raio mais amplo e um período anterior ao da falha técnica já identificada. A nova análise das imagens demorou 4 dias. O que os investigadores encontraram não resolveu o caso, [música] mas alterou de forma significativa a natureza da investigação.

Numa câmara de um estabelecimento comercial a 200 m do terminal, existia uma gravação de boa qualidade, mostrando Thago e Camila a caminhar pela calçada às 9h43 da manhã. A Camila carregava o coco verde. O Thago tinha a câmara fotográfica pendurada ao pescoço. Três passos atrás deles, visível, mas não suficientemente próximo para parecer óbvio.

Caminhava um homem de t-shirt cinzenta e boné escuro. O homem não aparecia nas imagens seguintes. Thago e Camila tampouco. A gravação foi reencaminhada para a perícia técnica para análise de imagem e tentativa de identificação facial. O relatório preliminar concluiu que a qualidade não era suficiente para a identificação positiva, mas que era suficiente para confirmar a presença do indivíduo e a coincidência de direção e ritmo de deslocação com o casal.

Quando Adalberto soube do resultado da perícia, ficou sentado à mesa da cozinha durante muito tempo, sem conseguir terminar o café que tinha aquecido três vezes. Havia uma diferença brutal entre não saber o que tinha acontecido com o filho e começar a ter contornos do que tinha acontecido. O segundo [música] estado não era melhor.

Era, de uma forma específica e cruel, mais difícil de suportar. Vera, que regressara à Brasília após duas semanas no Rio sem resultado, reagiu de forma diferente. Aquela informação, fragmentada e inconclusiva como era, representava a confirmação de que Camila e Thiago não tinham simplesmente desaparecido, que havia uma história por detrás do silêncio, que alguém sabia o que era essa história.

E essa certeza, por mais perturbadora que fosse, era melhor do que o vazio absoluto que habitara as semanas anteriores. Foi neste contexto que surgiu o segundo elemento perturbador. [música] Um homem que se identificou apenas como Rodrigo, sem apelido, sem foto de perfil, entrou em contacto com a A jornalista Beatriz Andrade, que havia começou a cobrir o caso para um canal de notícias no YouTube dirigido ao público do DF com cerca de 180.

000 inscritos. A mensagem foi enviada através de uma conta criada há menos de uma semana. Rodrigo disse que trabalhava como carregador eventual no porto informal junto à praça 15, aquela zona de movimento intenso e fiscalização irregular nas margens da Baía, onde circulavam diariamente embarcações de pequena dimensão, comerciantes, pescadores e uma geometria variável de pessoas cujos negócios preferiam operar à margem da visibilidade oficial.

disse que na manhã de quinta-feira tinha visto um casal a ser abordado por dois homens junto a uma das entradas secundárias do CIS, numa zona sem câmaras e com pouca movimentação àquela hora. Disse que a conversa tinha parecido tensa. Disse que o casal tinha entrado numa embarcação de pequeno porte, de cor branca com faixa azul que partiu em direção à Baia.

disse que não tinha chamado a polícia na hora porque tinha medo, que estava contando agora porque não conseguia dormir desde que viu o rosto daquela rapariga na foto que circulava nas redes. Beatriz Andrade publicou a informação com os recuos adequados, deixando claro que era um testemunho anónimo, sem verificação independente, mas era a primeira narrativa concreta sobre o que poderia ter acontecido depois da câmara da padaria.

A primeira versão com sequência, [música] com lugar, com movimento. A Polícia Civil foi notificada pelo advogado Fagundes ainda nesse dia. A investigação formal foi escalada para a esquadra de homicídios, não porque houvesse confirmação de crime contra a vida, mas porque a complexidade do caso e a natureza dos elementos reunidos exigiam recursos que a Delegação de A Proteção Aldurista não tinha condições de mobilizar.

A palavra homicídio num documento oficial, mesmo que como classificação administrativa provisória, fez o que nenhuma nota ministerial havia conseguido fazer nas semanas anteriores. Fez o silêncio ganhar peso real. fez as famílias compreenderem, sem que ninguém precisasse de dizer diretamente, que a investigação tinha atravessado um limiar, do qual não se volta com a mesma leveza de antes.

Adalberto soube pelo advogado numa curta chamada na tarde de uma sexta-feira. agradeceu, desligou e ficou a olhar para o caderno de notas de Thago, que tinha trazido do rio num saco de plástico junto com os outros pertences do filho. Não o havia aberto ainda. [música] Nessa noite, abriu. A última anotação era uma lista de compras para o jantar de comemoração que Thago tinha planeado para a última noite no Rio.

Vinho branco, camarão, uma vela. Hoje é abril de 2026. [música] Thago e Camila Marcelino estão desaparecidos há 18 dias. 18 dias sem uma chamada, [música] sem uma mensagem, sem um sinal de vida que chegue através de qualquer canal oficial ou não. 18 dias em que dois seres humanos reais, com histórias, com a família, com um caderno de notas e uma lista de compras para um jantar que nunca aconteceu, continuam a ser procurados num país que é o deles, numa cidade que deveria ser segura para turistas em lua de mel. num sistema que deveria ter

respostas e que até agora entregou fundamentalmente silêncio. A investigação formal está nas mãos da delegacia de homicídios do Rio de Janeiro. A embarcação branca com faixa azul mencionado pela testemunha Rodrigo foi identificada como uma lancha de pequena dimensão registada em nome de uma empresa de turismo náutico com sede num endereço comercial em Niterói que, quando verificado pelos investigadores, revelou-se um escritório vazio com contrato de locação terminado há 4 meses. A empresa existia no papel, tinha

CNPJ ativo, emitia faturas. Mas não tinha funcionários, não tinha telefone que atendesse e não tinha nenhum registo de operação regular junto da capitania dos portos. Era o tipo de estrutura que os investigadores com experiência reconhecem imediatamente. Uma casca, uma aparência de legalidade construída especificamente para não deixar rasto direto.

O advogado Fagundes apresentou este dado à imprensa numa conferência de imprensa rápida na quinta-feira da segunda semana. falou com precisão cirúrgica, sem especulação, sem dramatismos. Disse que a investigação tinha confirmado a existência de uma estrutura operacional na zona do CAIS da Praça X, [música] que utilizava embarcações irregulares para fins ainda não completamente esclarecidos.

Disse que havia elementos suficientes para caracterizar o desaparecimento de Thago e Camila como resultado de uma ação deliberada de terceiros. disse que as famílias exigiam celeridade e transparência e que continuariam a acompanhar cada passo do processo. A conferência contou com 42 veículos de imprensa credenciados. Seis meses antes, o advogado Fagundes tinha dado uma conferência de imprensa sobre um caso semelhante que tinha atraído três.

Três hipóteses circulam hoje entre os que acompanham o caso com proximidade. A primeira é a mais direta e para as famílias a mais difícil de pronunciar em voz alta. Thago e Camila foram vítimas de uma abordagem criminosa na região do CAIS, uma operação de sequestro, seguida de extorção, que, por alguma razão ainda não esclarecida, não resultou no contacto com as famílias que este tipo de crime normalmente produz.

O silêncio absoluto, nesta hipótese, é o elemento que transforma um crime com precedentes conhecidos em algo com uma lógica ainda opaca. Os raptos com fins de extorção geram contacto. O facto de não ter havido qualquer contacto até hoje é para os investigadores o dado mais perturbador de todos. A segunda hipótese é mais complexa e envolve a contexto geográfico específico onde o desaparecimento ocorreu.

A região do CAIS da Praça XV e as suas imediações no Rio de Janeiro alberga, para além do movimento legítimo de turistas e trabalhadores, uma rede de comércio irregular que opera em embarcações e que há anos que é objeto de investigações federais relacionadas com o contrabando e tráfico de pessoas. Não há qualquer confirmação de que Thago e Camila tenham sido envolvidos neste contexto de forma voluntária.

Tudo indica o contrário, que foram envolvidos de forma completamente involuntária. Mas a estrutura identificada no investigação, a empresa fantasma, a lancha sem registo operacional regular, o CAIS com ângulos mortos de câmara é coerente com o modo de funcionamento destas redes. A terceira hipótese é a que ninguém quer ser o primeiro a pôr em palavras, mas que flutua em cada conversa privada entre as pessoas que estão mais próximos do caso.

que alguém em alguma estrutura de poder, municipal, estadual ou federal tem acesso a informações sobre o paradeiro de Thago e Camila e escolheu, por razões que podem vão da negligência à cumplicidade ativa, não partilhar essas informações com quem investiga não é uma hipótese de conspiração elaborada. é a hipótese mais simples e mais amarga de todas, a de que o silêncio institucional não é apenas ineficiência, mas escolha.

Vera não trabalha com hipóteses. Vera acorda às 6 da manhã todos os dias, toma café, abre o celular e verifica se há alguma mensagem nova. Depois liga para o advogado Fagundes, que atende com a consistência de alguém que entendeu que aquela ligação diária é parte do que aquela mãe precisa para continuar de pé. Depois liga para Priscila, que dorme pouco e trabalha muito, e administra com disciplina crescente a página nas redes sociais dedicada ao caso, respondendo cada mensagem, cada compartilhamento, cada pessoa que escreve dizendo que está

rezando ou que esteve no Rio naqueles dias e não viu nada, mas quer ajudar de alguma forma. Adalberto desenvolveu uma rotina própria de sobrevivência emocional. Caminha 40 minutos todas as manhãs pelo recanto das emas, passa pela escola onde Tiago estudou quando criança, para na padaria onde o filho comprava pão antes do trabalho.

Não faz isso por masoquismo, faz porque manter a memória viva e circulando é a única forma de resistência que encontrou. Thago existe, Camila existe. Enquanto as pessoas continuarem sabendo quem eles são, eles não podem ser simplesmente apagados. A jornalista Beatriz Andrade publicou seu 13º vídeo sobre o caso na última semana.

Tem acompanhado o processo com uma regularidade que ela mesma descreve como obrigação profissional e pessoal. disse numa live recente que recebeu através dos canais do seu canal três contatos anônimos diferentes nas últimas semanas, todos afirmando ter alguma informação sobre o caso. Nenhum disposto a se identificar. Todos com medo.

Disse que esse padrão, múltiplas fontes com medo de se identificar, é em si mesmo uma informação. Que o silêncio das testemunhas potenciais não é coincidência. nem timidez, que há algo que as pessoas sabem e que precisam de segurança para dizer. O Ministério da Justiça emitiu sua terceira nota sobre o caso na última segunda-feira.

Era mais específica do que as anteriores. Mencionava a investigação da delegacia de homicídios e o trabalho conjunto com a Polícia Federal em relação à estrutura empresarial identificada. Mas ainda não tinha nomes, ainda não tinha respostas, ainda não tinha o que as famílias precisam. Quer saber onde estão Thago e Camila.

A deputada Renata Campos protocolou um requerimento formal de informações ao governo do estado do Rio de Janeiro e à Secretaria Nacional de Segurança Pública. O prazo legal para a resposta vence na próxima semana. Fagundes já preparou o passo seguinte, caso as respostas sejam insuficientes. No quarto de Camila, na casa de Vera, em Seilândia, há uma parede onde a mãe colou, sem planejamento inicial, mas com uma lógica que foi se construindo sozinha todas as fotos que tem da filha.

Fotos de infância, de formatura, do casamento. Uma foto tirada por Thiago em Ipanema. Camila saindo do mar com o cabelo ensopado e o riso aberto de quem acabou de fazer algo que sempre quis. Vera olha para essa foto todos os dias antes de dormir, porque nela a filha está exatamente como deveria estar, viva, feliz, inteira, em movimento.

Essa imagem, mais do que qualquer documento ou nota oficial, é o que define o que está em jogo. Não é um caso, não é um número de protocolo, não é uma investigação em andamento. São duas pessoas reais que saíram de Brasília num avião com passagem comprada com dinheiro poupado mês a mês, que viram o Cristo Redentor numa manhã clara de abril, que tomaram água de coco pela primeira vez na vida, que escreveram nos seus cadernos as emoções de quem está vivendo um sonho construído com trabalho e amor, e que numa quinta-feira de manhã

caminharam por uma calçada do Rio de Janeiro e não chegaram ao outro lado. merecem respostas. Merecem que as instituições que existem para protegê-los façam exatamente isso. Merecem que quem sabe algo encontre a coragem de dizer. Merecem que o mundo não mude assunto enquanto o silêncio continua.

Porque o silêncio não é o fim da história. O silêncio é o lugar onde a história ainda está acontecendo, esperando que alguém tenha a decência de iluminá-lo. Thago tinha 29 anos quando desapareceu. Camila tinha 27. Tinham um caderno de anotações com a letra redonda e inclinada. Tinham uma lista de compras para um jantar de celebração.

Tinham um anilo simples com uma pedra branca que brilhava mais pelo que representava do que pelo que valia. Tinham toda uma vida à frente e essa vida ainda pode ser encontrada se houver vontade suficiente para procurá-la. M.