Brasília acorda cedo. Antes do sol rachar o serrado, os funcionários públicos já estão nas filas do metro. Os vendedores abrem as bancas na feira da Ala Sul e os sinos das igrejas começam a chamar os fiéis. É uma cidade de rotinas rígidas, de hierarquias respeitadas, de aparências mantidas. Foi nesta cidade que a irmã Clara Mendonça passou os últimos 3 anos da sua vida.
A Clara tinha 23 anos. Era natural de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, filha de um servente de pedreiro e de uma costureira. Desde criança, frequentava a missa todos os domingos com a mãe. Cresceu acreditando que a igreja era um lugar seguro, [música] que os padres eram homens de Deus, que serviam era uma vocação, não uma ingenuidade.
Aos 19 anos, entrou para a Congregação das Servas do Espírito, uma ordem religiosa com sede no bairro da Asa Sul, em Brasília. [música] O convento ficava numa rua tranquila, com árvores altas e portões de ferro. Por fora parecia um lugar de paz. Por no interior tinha as mesmas tensões que qualquer comunidade fechada.
Ciúmes velados, disputas por espaço, silêncios carregados. Clara não era o tipo que gerava conflito. Era quieta, aplicada, cumpria as suas obrigações sem reclamar. Cuidava das crianças da catequese nas manhãs de sábado, ajudava na cozinha nos dias de festa, estudava Teologia nas tardes de semana.
Quem convivia com ela diz que ela tinha uma maneira de ouvir que fazia as pessoas sentirem-se menos sozinhas. A madre superiora, irmã Gorette, costumava dizer que Clara era a mais dedicada das noviças. Não era elogio vazio, era uma observação que mais tarde ganharia um peso diferente. O convento mantinha uma parceria antiga com a paróquia de São Benedito, sita a poucos quarteirões de distância.
Era através desta paróquia que as freiras atuavam nos projetos sociais do bairro. Distribuição de cabazes alimentares, atendimento a idosos, aulas de reforço para crianças de famílias de baixo renda. O elo de ligação entre o convento e a paróquia era o padre Renato Figueiredo. O Padre Renato tinha 47 anos, era alto, falava bem, tinha o tipo de sorriso que faz com que as pessoas sintam que estão a ser vistas.
Nasceu em Goiânia, estudou no seminário regional de Brasília e foi ordenado aos 28 anos. Em quase duas décadas de ministério, construiu uma reputação sólida. era chamado para dar palestras noutros estados. Tinha um canal de YouTube com mais de 80.000 inscritos. As missas dele enchiam. Ele também coordenava um grupo de formação espiritual dirigido a jovens adultos.
O grupo reunia-se todas as quintas-feiras à noite no salão paroquial. Tinha em volta de 30 membros, a maioria mulheres entre os 20 e os 30 anos. Chamavam o grupo de filhas da luz. O padre Renato chamava as participantes das minhas discípulas com um tom que podia parecer carinho ou possessividade, dependendo de quem ouvia.
Clara participava nas reuniões do grupo como representante do convento. Era ela quem fazia a ponte entre as freiras e as atividades da paróquia. Nas reuniões, ela ficava geralmente nos fundos, anotando os compromissos numa agenda pequena de capa azul. Foi nestas reuniões que ela começou a anotar certas coisas. Notou que o padre Renato ficava sempre depois de o grupo se dispersar em conversa reservada com duas participantes específicas.
Natália Drumon, de 26 anos, filha de um funcionário do Senado, e Débora Moura, 24 anos, estudante de Direito na UNIB. As duas eram assíduas, sentavam-se sempre na primeira fila e tinham com o padre uma familiaridade diferente das outras. A Clara não disse nada no início, deu o benefício da dúvida.
pensou que talvez fossem casos de acompanhamento espiritual mais intenso, que talvez havia uma explicação simples, mas a inquietação foi crescendo lentamente, como fissuras em parede. Numa tarde de março de 2023, ela voltou ao convento mais cedo do que o esperado, depois de um compromisso cancelado. Ao passar pelo corredor que conduzia ao refeitório, ouviu vozes no escritório reservado da madre superiora, que estava viajando para um retiro em Goiás.
A porta estava entreaberta. Uma das vozes era do padre Renato. A Clara parou. Não por curiosidade banal, parou porque reconheceu também a voz da Natália. E porque o tom daquela conversa não era de oração, ela afastou-se sem fazer barulho. Não disse nada a ninguém naquele dia. Foi para o quarto, sentou-se à beira da cama e ficou parada durante um longo tempo, a olhar para a janela.
O sol estava a pôr-se sobre o cerrado. Os IPs amarelos do pátio balançavam lentamente com o vento. [música] Nessa noite, A Clara escreveu algumas linhas na agenda azul. Não era um diário, era mais um hábito que tinha de registar o que a perturbava para organizar o pensamento. O que ela escreveu naquelas páginas seria encontrado semanas depois e mudaria o rumo de tudo.
Ela ainda não sabia o que fazer com o que tinha descoberto, mas sabia que não conseguiria fingir que não tinha visto nada. Este era o tipo de mulher que ela era, honesta até quando a honestidade custava caro. E naquele convento, no coração de Brasília, a honestidade estava prestes a custar tudo. Março, em Brasília tem um calor seco que se cola à pele.
As noites aquecem juntamente com os dias [música] e o ar dentro dos quartos do convento tornava-se pesado, mesmo com as janelas abertas. A Clara dormia mal havia semanas. virava-se de lado, olhava para o teto, voltava a fechar os olhos. Na noite do no dia 14 de março de 2023, ela acordou pouco depois das 2as da manhã com sede. Levantou-se devagar para não acordar a irmã Patrícia, com quem partilhava o quarto.
Calçou os chinelos, pegou na agenda azul que guardava debaixo da almofada por hábito e saiu pelo corredor escuro em direção à cozinha. O convento à noite era outro lugar. Os corredores compridos perdiam o movimento do dia. As luzes de emergência no rodapé projetavam sombras compridas no chão de granito. Clara conhecia cada passo daquele caminho de cor.
Ao aproximar-se da cozinha, percebeu que a luz estava acesa. Parou. Eram quase 2:30 da manhã. Nenhuma freira tinha razão para estar acordada a essa hora. Ela ficou parada por um momento, ouvindo. Havia barulho, vozes baixas, alguém a mexer-se. Ela foi até à porta e espreitou pela fresta. O que viu naquele instante ficaria gravado nela para sempre.
O padre Renato estava no convento a esta hora da noite. Não estava sozinho. A Natália e a Débora estavam com ele. A cena que Clara encontrou não deixava espaço para interpretação. Não havia como dar outra explicação. Não havia benefício da dúvida que alcançasse o que estava diante dos seus olhos.
Ela recuou, o coração disparou. A agenda caiu-lhe da mão e bateu no chão com um baque seco. O barulho foi suficiente. O padre Renato virou a cabeça. Por um segundo, os olhos dele encontraram os olhos dela através da fresta. Clara virou-se e correu. Ouviu passos atrás de si no corredor. Ouviu a voz dele a chamar o nome dela num sussurro tenso, quase um comando.
Ela não parou. chegou ao corredor que levava ao pátio interior e empurrou a porta de saída. O ar quente da noite bateu no rosto. O pátio tinha um pequeno jardim, [música] um banco de betão e um mangueira velha no centro. Clara foi até o banco e sentou-se. Estava a tremer. Alguns minutos depois, o padre Renato apareceu pela mesma porta.
Ele veio devagar, sem correrias, com aquele jeito controlado que havia em tudo. Sentou-se no banco ao lado dela sem pedir licença, e ficou em silêncio por um momento, como se estivesse a escolher as palavras com cuidado. Disse que ela tinha entendido [música] mal, que as coisas não eram o que pareciam, que havia uma explicação.
usou um tom baixo, quase pastoral, como se estivesse a conduzir uma sessão de aconselhamento. A Clara não respondeu. Olhava para o chão. Ele mudou o tom. Disse que ela era jovem, [música] que ainda tinha muito para aprender sobre como funcionavam determinadas coisas dentro da igreja. disse que falar sobre aquilo seria um erro, que ela iria arrepender, que ninguém acreditaria numa noviça contra um padre com 20 anos de ministério, que a Congregação das Servas do Espírito dependia da parceria com a sua paróquia para sobreviver, que
a madre Gorette ficaria muito desapontada se soubesse que uma das suas freiras tinha causado um escândalo sem fundamento. Cada frase era uma pressão diferente. A Clara reconheceu a mecânica daquilo. Era o mesmo padrão que tinha estudado. Isolamento, descrédito, ameaça velada. Quando ele acabou de falar, ela levantou os olhos e disse apenas uma coisa.
Disse que tinha derrubado a agenda no corredor. O padre olhou para ela sem compreender. Ela completou. A agenda tinha o nome dela escrito na capa. Qualquer pessoa que passasse pelo corredor de manhã iria encontrar. Foi a primeira vez que ela viu o padre Renato perder o controlo da expressão do rosto. Levantou-se, voltou para dentro. A Clara ficou sozinha no pátio durante mais alguns minutos.
Depois voltou para o quarto, deitou-se na cama e ficou de olhos abertos até ao amanhecer, escutando o silêncio do convento em redor. Ela não sabia ainda o que aquela noite tinha colocado em movimento. Não sabia que a agenda tinha sido apanhada do chão antes de ela voltar ao corredor. Não sabia que enquanto ela tentava dormir, uma decisão estava a ser tomada por outras pessoas dentro daquelas paredes.
O que ela sabia era simples. Tinha visto o que tinha visto e não conseguiria viver como se não tivesse. Três dias depois, o corpo de Clara Mendonça foi encontrado no poço de águas pluviais, ao fundo do pátio do convento. A Polícia Civil do Distrito Federal chegou ao convento às 6h20 da manhã do no dia 17 de março de 2023.
A Irmã Goret tinha ligado para o 190 logo depois de o corpo foi encontrado. A sua voz era firme ao telefone. Disse que uma das noviças tinha tido um acidente, que provavelmente tinha saído de madrugada, perdeu o equilíbrio no pátio escuro e caiu no poço. Disse isso antes mesmo de qualquer investigador pisar o local.
Os dois polícias que atenderam a ocorrência eram do quinto distrito polícia na Ala Sul. Fizeram o registo, fotografaram a cena, recolheram o corpo. O relatório preliminar, assinado pelo médico médico legista de serviço, apontou o afogamento como causa de morte. O caso foi classificado como morte acidental. A A família de Clara ficou a saber por telefone a meio [música] da manhã.
O seu pai, Osmar Mendonça, recebeu a chamada no estaleiro onde trabalhava, em Montes Claros. A voz da Irmã Goretinha, era educada, condolente e rápida. [música] disse que tinha sido um acidente muito triste, que Clara era uma jovem maravilhosa, que a congregação cobriria os custos da trasladação do corpo. Osmar desligou o telefone e ficou parado durante um momento com o capacete na mão.
Depois telefonou à sua esposa, dona Neusa. Ela não acreditou. Não era desconfiança sem razão. Dona Neusa conhecia a filha. A Clara tinha medo de altura desde criança. Nunca se aproximava de beiradas, [música] escadas sem corrimão, janelas abertas em andares altos. A ideia de que ela se tinha debruçado sobre um poço no escuro sozinha de madrugada não fazia sentido.
Nenhum sentido. Osmar e Neusa chegaram a Brasília dois dias depois. foram recebidos no convento pela irmã Goret em uma sala pequena com cadeiras de plástico e um crucifixo na parede. A madre superiora manifestou condolências, ofereceu água, falou sobre a fé e o propósito divino. Quando Osmar perguntou se podiam ver o quarto da filha, ela disse que já tinha sido organizado.
Quando Neusa perguntou se havia câmaras no estaleiro, a resposta foi que o sistema estava com defeito há semanas. Osmar não disse nada, mas anotou tudo. A A irmã Patrícia, que partilhava o quarto com Clara, não foi autorizada pela madre Gorette a conversar com a família. A justificação foi que ela estava em estado de choque e necessitava de repouso.
A Patrícia tentou na mesma. Passou um bilhete dobrado à dona Neusa no corredor, as escondidas, enquanto a irmã Goret atendia uma ligação. No bilhete estava apenas uma frase. Ela estava diferente nas últimas semanas. Procure-me depois. A Dona Neusa guardou o bilhete no soutien. De regresso a Montes Claros, a família contratou um advogado.
Não tinham dinheiro de sobra, mas o O irmão mais velho de Clara, Rodrigo, tinha juntado alguma reserva trabalhando numa transportadora e usou tudo. O advogado Dr. Marcelo Abrantes, entrou com um pedido formal de reabertura de investigação junto da Polícia Especial de repressão de Crimes contra as Pessoas, a DSCP, em Brasília.
O pedido demorou três semanas para ser analisado. Foi negado na primeira instância com a justificação de que não havia indícios de crime. Rodrigo foi pessoalmente a Brasília, bateu às portas, falou com os vereadores, com a assessoria de um deputado distrital, com um repórter de um portal de notícias local. A história foi publicada numa matéria pequena, sem foto na sessão das cidades.
Teve pouco alcance. Mas teve alcance suficiente para chegar até ao Sérgio no Leto. Sérgio era reformado, tinha 62 anos e vivia num apartamento na Ala Norte. Durante 30 anos tinha sido zelador do convento. Conhecia cada [música] canto daquele lugar. havia sido despedido em 2021, sem explicação formal, depois de questionar uma remodelação feita no pátio que tinha eliminado a iluminação ao redor do poço.
Quando leu o artigo no portal, ficou sentado em frente ao computador [música] durante muito tempo. Depois, pegou no telefone e ligou para o número do advogado que estava no final da reportagem. Disse que tinha algo a contar. disse que na madrugada do dia 15 de Março tinha visto da janela do seu apartamento que ficava em frente ao portão lateral do convento, um carro parado com o motor em funcionamento.
Era um jipe branco. Ficou quase 40 minutos. Saiu pouco antes das 4 horas da manhã. Ele não tinha falado antes porque ninguém tinha perguntado e porque tinha medo de quem estava dentro daquele carro. A ligação de Sérgio Noleto para o advogado Marcelo Abrantes decorreu numa tarde de abril de 2023. Nesse mesmo dia, Abrantes comunicou formalmente à DSCP a existência de uma testemunha com registo fotográfico que vira um veículo suspeito estacionado na rua do convento na madrugada em que Clara morreu.
Desta vez, a esquadra não ignorou. A delegada responsável era a Dra. Fernanda Queiroz, 43 anos, 20 de carreira na Polícia Civil do DF. Ela tinha recebido o pedido original da família com o ceticismo de protocolo. Morte acidental, relatório de afogamento, ambiente religioso, tipo de caso que desaparece da fila rápido.

Mas testemunha com foto era outra conversa. Antes de convocar Sérgio, Fernanda releu relatório preliminar. Afogamento, sem sinais de luta, sem marcas nos pulsos, apenas um arranhão no joelho direito descrito como compatível com queda. Ela anotou a parte queda para para a frente ou para trás.
O relatório não especificava. Sérgio chegou com uma camisola de botão e um envelope castanho. A foto era escura e granulada, mas mostrava a silhueta de um veículo claro estacionado na rua. Ele tinha fotografado por hábito, disse insónia de aposentado. Viu o carro com o motor ligado depois da meia-noite, encontrou estranho, clicou, não viu ninguém entrar, nem sair pelo portão principal.
disse também que tinha reconhecido o veículo. Já tinha visto aquele jipe estacionado perto do convento noutras ocasiões, sempre à noite, sempre pelo portão lateral. Nunca tinha dado atenção antes. A análise da imagem pelo setor de A tecnologia da PCDF identificou parte [música] da placa. Três letras, o suficiente para cruzar com o banco do Detran DF.
O veículo era um Jeep Compass branco, ano 2021, registado em nome da paróquia de São Benedito. A Fernanda ficou parada diante do monitor durante alguns segundos. Depois pediu um café e começou a reconstruir a linha do tempo [música] desde o início. Ela solicitou imagens das câmaras exteriores de comércios e condomínios da rua do convento.
Em três dias tinha gravações de quatro ângulos. O Jeep aparecia em duas delas. Chegando pouco [música] após a meia-noite pelo portão lateral, saindo às 3:42 da manhã. A morte de Clara tinha sido estimada entre a 1 e as 4 da manhã. Fernanda convocou a irmã Gorette de volta, desta vez formalmente na esquadra.
A madre superiora chegou com o advogado da diocese de Brasília. manteve a mesma versão. Nenhum visitante nessa noite, câmaras com defeito, Clara agitada nas últimas semanas. Quando a delegada perguntou o que definia esta agitação, Goret falou em dificuldade de concentração nas orações e ter visto a noviça chorar duas vezes sem dar explicação.
Fernanda perguntou se o padre Renato tinha chave do portão lateral. Houve uma pausa. Goret disse que não sabia informar com certeza. A pausa durou mais um segundo do que deveria. A Fernanda não comentou, anotou e seguiu em frente. Sabia que pressionar naquele momento daria tempo para o advogado intervir.
Enquanto isso, Abrantes tinha localizado a irmã Patrícia. Ela fora transferida para uma casa da congregação em Anápolis, em Goiás, menos de duas semanas após a morte de Clara, com justificação de reforço na unidade regional. Quando Abrantes conseguiu falar com ela por telefone, ela chorou antes de conseguir dizer qualquer coisa.
Quando se acalmou, contou o que tinha guardado sozinha. Na madrugada do dia 15, acordou por volta das das 3:30 e viu a cama da clara vazia. foi à casa de banho e encontrou a agenda azul no chão do corredor aberta. Havia uma anotação com letra apressada. Padre R, Natália, [música] Débora, cozinha. Preciso de falar com alguém amanhã.
Patrícia tinha guardado a agenda dentro de uma Bíblia na mochila. ficou com medo. Não de algo concreto disse. De uma coisa sem forma que sentia no ar dentro daquelas paredes. Na manhã seguinte, quando o corpo de Clara foi encontrado, ela entrou em colapso. Quando voltou a funcionar, a madre Goret já tinha anunciado a sua transferência.
[música] A Bíblia ainda estava na mochila em Anápolis. O juiz da primeira vara criminal do DF deferiu o pedido de apreensão em 48 horas. A perícia do Instituto de Criminalística confirmou: Letra de Clara Mendonça, 97% de correspondência grafotécnica. Data na margem, [música] 14 de março de 2023. Com a agenda na mão, Fernanda solicitou a quebra do sigilo telefónico do padre Renato.
Os registos mostraram que entre meia-noite e as 4 horas da manhã do dia 15, o O telemóvel dele havia se ligado a uma torre a 300 m do convento. Às 3:51, uma chamada para Natália Drumon. 2 minutos e 40 segundos. A Natália foi convocada. chegou com o pai, um servidor do Senado e com um advogado particular. Negou qualquer envolvimento com a morte da Clara.
Disse que mal a conhecia para além das reuniões de grupo. Disse que a ligação tinha sido pedido de apoio espiritual numa noite em que estava sentindo-se muito mal emocionalmente. A delegada perguntou se era habitual o padre ligar às quase 4 da manhã para esse fim. Natália ficou em silêncio durante tempo suficiente para que o silêncio se tornasse uma resposta.
Débora Moura, ouvida no dia seguinte, deu versão semelhante. Quando Fernanda mencionou o jipe nas câmaras, ela ficou branca, pediu para ir à casa de banho, voltou com advogado. Nessa semana, o O padre Renato publicou no YouTube um vídeo sobre a perseverança perante a perseguição. Sem referir nomes, falou em inveja e em pessoas que tentam destruir quem se dedica ao bem. 42.
000 visualizações em dois dias. Nos comentários, os fiéis pediam bênçãos e diziam que rezavam por ele. Fernanda assistiu ao vídeo todo sozinha na esquadra depois do expediente, fechou o portátil e assinou o pedido de indiciamento. O padre Renato Figueiredo, a irmã Goret e Natália Drumon foram indiciados por homicídio doloso, ocultação de cadáver e destruição de provas.
Débora Moura foi indiciada como cúmplice. Os mandados foram cumpridos numa manhã de Maio de 2023. O sol ainda não tinha aquecido o asfalto da Ala Sul quando as viaturas pararam em frente à paróquia. O julgamento do caso Clara Mendonça teve início no dia 3 de fevereiro de 2025 no Tribunal do Júri do Fórum de Brasília, na Ala Sul.
A sala era grande, com bancos de madeira escura e ar- condicionado que cheiava baixinho o tempo todo. Do lado de fora, um grupo de cerca de 40 pessoas aguardava desde as 6 da manhã, ainda antes de o edifício abrir. Muitos eram mulheres, algumas usavam hábito, outras seguravam fotos de Clara impressas em papel A4. A família tinha viajou de Montes Claros dois dias antes.
Osmar, dona Neusa e Rodrigo sentaram-se na primeira fila reservada ao público, de costas direitas, sem se mexer muito. O padre Renato Figueiredo entrou pela lateral, acompanhado de dois advogados e de um assessor da diócese. Vestia clerdman escuro, não olhou para a família, sentou-se, abriu uma pasta e ficou conversando em voz baixa com os advogados.
como se estivesse numa reunião de trabalho. A Irmã Goret entrou logo de seguida, visivelmente mais magra do que nas fotos dos interrogatórios. Sentou-se sem olhar para lado nenhum. Natália Drumon chegou em último lugar entre os arguidos, sem o pai desta vez, sozinha com o seu advogado. Parecia mais pequeno do que nas audições. Quando passou pela fila onde estava a família de Clara, a dona Neusa olhou direto para ela.
Natália desviou o olhar. O promotor era o Dr. Eládio Teles, voz grossa, 51 anos. Havia trabalhado no caso durante quase do anos ao lado da delegada Fernanda Queiroz. O advogado mais experiente da defesa, O Dr. Augusto Meirelles, representava o padre Renato e era conhecido por absolvições em casos que pareciam fechados. A primeira semana foi de apresentação das provas.
O promotor Teles construiu a acusação peça a peça. Começou pela agenda azul, exibida num ecrã grande para os jurados. A anotação da Clara foi lida em voz alta duas vezes. Depois vieram as imagens das câmaras exteriores, mostrando o Jeep a chegar e a sair. A seguir, os registos telefónicos com a chamada de madrugada para Natália. Por último, o depoimento gravado de Sérgio Noleto, que não estava em condições de comparecer pessoalmente por recomendação médica, mas cujo testemunho tinha sido recolhido em cartório e era válido como prova. Tell sabia que Jurri se convence
por acumulação, não por emoção isolada. A defesa do padre Renato atacou as provas por todos os lados disponíveis. Augusto Meirelles defendeu que a imagem do Jeep era inconclusiva, que a placa não tinha sido confirmada integralmente, que o veículo era de uso colectivo da freguesia e podia ter sido utilizado por qualquer funcionário.
Sobre os registos telefónicos, disse que a torre de telecomunicações identificada cobria um raio de vários quilómetros e que estar [música] ligado a ela não provava presença física no convento. sobre a chamada para Natália, disse que ela própria tinha [música] explicado o contexto.
A anotação na agenda foi o ponto onde Meirelli se demorou mais. disse que a letra tinha sido identificada como de clara, mas que o conteúdo era vago, que o nome abreviado padre R, podia referir-se a qualquer padre de nome iniciado em R, que a palavra cozinha podia indicar qualquer coisa, que preciso de falar com alguém amanhã era a escrita de uma jovem com dificuldades emocionais, não evidência de crime.
O promotor retorquiu na réplica. [música] Disse que havia exatamente um padre de nome iniciado em R com acesso ao convento. Disse que a cozinha era o local onde os objetos de Clara tinham sido encontrados espalhados. Disse que preciso de falar com alguém amanhã. Era a escrita de uma jovem que estava viva quando escreveu aquilo e morta antes de o amanhã chegar.
A segunda semana foi de testemunhos. A irmã Patrícia foi a primeira a depor. Entrou na sala com os olhos baixos, sentou-se na cadeira de testemunho e respirou fundo antes de começar. Contou tudo o que tinha dito ao advogado Abrantes, desta vez perante os jurados. Contou sobre a agenda no corredor, sobre o medo sem forma, sobre a transferência.
Quando a defesa perguntou por haver demorado a falar, ela respondeu: “Porque tinha medo e porque ninguém perguntou-me antes de me mandarem para Anápolis”. Débora Moura depois como testemunha da acusação após acordo com o Ministério Público, que reduziu a sua condição de arguida, a de colaboradora mediante confissão parcial.
Ela entrou na sala sem advogado ao lado, o que provocou movimento nas cadeiras dos outros defensores. Confirmou que tinha estado no convento na noite do dia 14 para o dia 15 de março. Disse que ela e a Natália tinham chegado pouco após a meia-noite a pedido do padre, [música] que dizia querer realizar uma oração especial fora do horário das freiras.
disse que quando a Clara apareceu na cozinha, o padre ficou diferente, tenso, que tinha pedido para as duas saírem do cómodo imediatamente. Disse que saiu, que foi para o corredor, que ouviu barulho, mas não voltou, que o padre ligou-lhe às 3:51, não para conforto espiritual, mas dizer que ela não tinha visto nada.
Quando a Débora terminou de falar, Natália Drumon, sentada a poucos metros, manteve o rosto imóvel, mas a mão que segurava a caneta [música] estava branca de tanto apertar. O depoimento mais tenso foi o do próprio padre Renato. Ele tinha o direito de ficar em silêncio, mas escolheu falar. Esteve de pé quase 40 minutos, respondendo o promotor com a mesma calma controlada de sempre.
negou estar no convento nessa noite. Disse que o Jeep tinha sido emprestado a um voluntário da paróquia. Disse que a chamada para Natália tinha sido ela quem iniciou-se pela aplicação de mensagens e que tinha retornado por ligação comum por não ter acesso à internet naquele momento.
O procurador Teles pediu que os registos do aplicativo de Natália fossem exibidos no ecrã. Não não havia nenhuma mensagem enviada por ela nessa madrugada, só a chamada recebida do número do padre. O padre Renato olhou para o ecrã por um momento. Depois disse que se devia ter confundido com outra noite. Meirelles pediu um recesso. Quando o julgamento voltou, era tarde da tarde.
O sol entrava pelas altas janelas da sala em ângulo baixo, cortando a poeiras no ar. A Dona Neusa estava sentada no mesmo lugar em que estivera desde o início, com as mãos no colo e os olhos fixos na nuca do padre. Os debates finais estavam marcados para a semana seguinte. A sentença, para muitos que acompanhavam o [música] caso, era uma questão de quanto, não de si.
Mas ninguém em Brasília se tinha esquecido que os casos que envolvem a igreja raramente chegavam ao fim sem surpresas. Os debates finais decorreram numa quinta-feira de fevereiro de 2025. A sala do Tribunal de Júri estava mais cheia do que nos dias anteriores. Do lado de fora, o grupo de apoiantes tinha crescido.
Alguém instalara um painel com a foto de Clara na adolescência, sorrindo numa festa de aniversário em Montes Claros. O procurador Eládio Teles usou 1::40 nos debates finais. Não gritou, não dramatizou, foi direto. Reconstruiu a cronologia do crime em ordem, sem lacunas. O flagrante, a ameaça no estaleiro, o DIP nas câmaras, a agenda, a chamada, o silêncio comprado da irmã Goret, a transferência forçada de Patrícia, a mentira do padre sobre os registos do aplicativo.
Disse que cada elemento isolado podia ser contestado, mas que o conjunto formava uma linha que só conduzia a um lugar. disse que Clara Mendonça tinha entrou naquele convento com 19 anos, acreditando que servia algo maior do que ela, que tinha morrido porque foi honesta, que a justiça lhe devia não apenas uma condenação, mas uma afirmação de que o seu nome não seria esquecido.
Meirelles insistiu na ausência de prova direta, na falta de testemunha ocular do crime em si e sugeriu que Débora tinha construiu a sua versão para beneficiar do acordo. Disse que o padre tinha 20 anos de serviço à comunidade. O procurador, na réplica, disse que 20 anos de serviço não cancelavam uma madrugada de março.
Os jurados retiraram-se às 14:10. Osmar Mendonça ficou do lado de fora do fórum durante a deliberação. Não conseguia estar sentado. Caminhava devagar pela calçada, com as mãos nos bolsos, olhando para o chão. Dona Neusa ficou lá dentro, no banco de madeira, com o terço enrolado nas mãos. Rodrigo ficou ao lado dela sem falar. A deliberação durou 3 horas 42.
Quando os jurados regressaram, a sala voltou a encher em poucos minutos. O silêncio que se fez quando a presidente do júri levantou-se para ler o veredicto era o tipo de silêncio que pesa. O padre Renato Figueiredo foi condenado por homicídio doloso, com qualificativa de motivo torpe e por destruição de prova.
A Irmã Goret foi condenada por cumplicidade em homicídio e ocultação de cadáver. Natália Drumon foi condenada por cumplicidade e omissão de auxílio. A pena do padre foi fixada em 22 anos de prisão em regime fechado. Quando o número foi lido, a dona Neusa fechou os olhos. Rodrigo colocou a mão no ombro dela.
Osmar, que tinha entrado na sala para o veredicto, ficou parado com a mão na boca durante alguns segundos. Depois baixou a cabeça. Do lado dos arguidos. O padre Renato ouviu a sentença com o mesmo rosto fechado de sempre. Apenas os seus dedos moveram-se, apertando a borda da pasta sobre a mesa. A Irmã Gorette chorou em silêncio.
A Natália olhou para o próprio colo. Do lado de fora, quando o notícia saiu pelos telemóveis, o grupo de apoiantes de Clara aplaudiu. Algumas choraram. Uma mulher mais velha, que ninguém ali conhecia, ficou parada na frente do painel com a foto da Clara. e ficou a olhar para ela por um longo tempo. Parecia que tinha acabado, não tinha.
43 dias depois da condenação, a defesa do padre Renato interpôs recurso no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. O pedido alegava nulidade processual por alegada irregularidade na recolha de um dos depoimentos. questionava a validade do acordo com Débora Moura e pedia a revisão da pena com base em atenuantes de boa conduta anterior.
Meireles também pediu a Beas Corpos, alegando problemas de saúde do arguido, juntando relatório de cardiologista particular. O TJDF admitiu o recurso para a análise. A pena ficou suspensa enquanto o tribunal deliberava. O padre Renato regressou a casa. A notícia chegou a Montes Claros numa tarde de abril.
O Rodrigo leu no telemóvel e ficou parado na varanda durante um tempo antes de entrar para contar aos pais. Osmar ouviu, levantou-se, foi até ao quintal e ficou lá sozinho durante quase meia hora. A Dona Neusa não disse nada, pegou no terço e foi para o quarto. Abrantes ligou para a família. Disse que a suspensão era temporária, que o recurso tinha embasamento fraco, que havia histórico de manutenção de condenações semelhantes.
Disse tudo o que se diz quando não há forma de garantir nada. A comunidade de Brasília, que havia acompanhado o caso, ficou dividida nas redes sociais. Os comentários oscilavam entre a indignação com a libertação e declarações de fé de apoiantes do padre, que diziam que a verdade divina prevaleceria. O canal de YouTube do padre Renato, que tinha ficado inativo durante o julgamento, publicou um pequeno vídeo.
Ele aparecia sentado, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, e dizia apenas que havia muito ainda a ser esclarecido. O vídeo teve 68.000 visualizações. Fernanda Queiroz soube da suspensão da pena de manhã, antes mesmo de chegar à esquadra. leu a notícia no telemóvel no engarrafamento da EPNB, colocou o telemóvel no banco do passageiro e ficou olhando para o trânsito parado na sua frente.
Ela tinha trabalhado naquele caso durante dois anos, tinha lido o relatório original dezenas de vezes, havia assistido ao vídeo do padre no YouTube inteiro sozinha depois do horário de trabalho. Tinha-se sentado diante de Natália Drumon e observado a mão dela esbranquiçar em redor da caneta. Sabia que os recursos existem e que o sistema funciona por etapas.
Sabia disso com a parte racional da cabeça, mas havia outra parte. A parte que pensava em Osmar a andar pela calçada do fórum com as mãos nos bolsos, na dona Neusa com o terço, no painel com a foto de Clara a sorrir numa festa de aniversário. Antes de tudo isto acontecer, o trânsito abriu. Fernanda colocou o carro em movimento.
O recurso do padre Renato Figueiredo ainda aguardava julgamento no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, sem prazo definido para conclusão. Clara Mendonça tinha 23 anos quando morreu. Queria, segundo o que escreveu em cartas à família encontradas depois, concluir a licenciatura em teologia e um dia trabalhar com crianças em situação de sem-abrigo no Distrito Federal.
Ela nunca teve a oportunidade de descobrir se conseguiria.