Na manhã de 14 de agosto de 1989 às 6:42, um ônibus escolar da prefeitura de Itanhu, no sul de Minas Gerais, saiu do pátio municipal com 11 crianças, um motorista e uma monitora. Percorreria 26 km de estrada de terra? Não percorreu. O ônibus nunca chegou à escola, nunca voltou ao pátio, nunca foi encontrado numa ribanceira, num rio, num fundo de vale.
Simplesmente deixou de existir numa manhã de céu limpo, numa estrada que todos conheciam, num trajeto feito dezenas de vezes sem nenhum incidente. Esta é a história de 13 pessoas, 11 delas crianças que desapareceram numa segunda-feira comum, numa rota escolar de interior e de uma cidade inteira que passou 35 anos sem saber o que aconteceu.
É a história das famílias que receberam cartas do Ministério Público dizendo que o caso estava encerrado e que se recusaram a aceitar. É a história de um fazendeiro que encontrou um volante enterrado num pasto 14 anos depois. E é a história de uma escavação feita em janeiro de 2024, que revelou algo que a polícia de 1989 não poderia ter imaginado ou não quis imaginar.
Ithandu fica na serra da mantiqueira, entre morros cobertos de mata atlântica e pastagens que se estendem até onde a vista alcança. Em 1989, a cidade tinha pouco mais de 18.000 habitantes. Uma delegacia com três policiais, nenhuma câmera de vigilância e uma rede telefônica que dependia de central manual. As estradas rurais não tinham nome oficial.
Os ônibus escolares não tinham rastreador. As crianças subiam no veículo na porta de casa e desciam na porta da escola. E tudo o que garantia a segurança daquele trajeto era a confiança de que o motorista conhecia o caminho e de que o caminho não mudava.
Como é possível que um ônibus de 5 toneladas desapareça de uma estrada sem deixar vestígio visível? O que acontece com uma comunidade quando 11 famílias perdem seus filhos no mesmo dia e ninguém oferece uma explicação, o que leva um inquérito policial a ser encerrado em 4 meses, quando 13 pessoas continuam desaparecidas.
E o que significa 35 anos depois encontrar debaixo da terra não apenas um veículo, mas evidências de que alguém o colocou ali de propósito. As respostas, se é que existem, estão enterradas nessa história tanto quanto o ônibus esteve enterrado naquele vale. Era agosto de 1989. O Brasil vivia a campanha da primeira eleição direta para presidente em quase 30 anos.
A inflação passava dos 40% ao mês. No interior de Minas, a vida seguia num ritmo que as capitais já tinham esquecido. Café antes do Sol nascer, missa no domingo, feira no sábado, escola de segunda a sexta. O ônibus amarelo da rota velha fazia parte dessa rotina. como fazia parte acerca de arame, o gado no pasto e o nevoeiro que descia da serra toda a madrugada.
Naquela segunda-feira, o nevoeiro levantou cedo. O céu abriu antes das 7 e o ônibus saiu no horário como sempre. O Mercedes-Benz 1313, que a prefeitura de Itanhandu usava como transporte escolar, não era novo. Tinha sido comprado de segunda mão em 1986, de uma empresa de fretamento de Juiz de Fora que estava fechando as portas.
A carroceria havia sido reformada por uma funilaria local pintada de amarelo por exigência da Secretaria de Educação, e os bancos internos, originalmente cinza, foram revestidos com vinil verde que descascava nos cantos. Na lateral direita, alguém havia pintado a frase Educação Municipal em letras garrafais, ligeiramente tortas com tinta branca que já amarelava.
O motorista Geraldo Soares Maciel era um homem calado, de mãos grandes e rosto castigado pelo sol. Morava em Itanhandu desde que nasceu. Tinha sido motorista de caminhão de leite antes de entrar na prefeitura por concurso em 1979. Conhecia cada buraco, cada curva, cada trecho onde a estrada apertava entre barrancos.
Os pais das crianças confiavam nele, não porque fosse simpático, não era, mas porque em 10 anos de serviço nunca tinha havido um atraso que não fosse explicado pelo tempo ou pela lama. A monitora Sônia Aparecida Reis tinha 31 anos e dois filhos pequenos que ficavam com a avó enquanto ela trabalhava. Era professora substituta na escola do bairro Serra Negra, mas o salário não cobria as despesas e o trabalho de monitora no ônibus pagava um extra que fazia diferença no fim do mês.
Sônia subia no ônibus no pátio municipal e descia na escola. No caminho, conferia os nomes, ajudava as crianças menores a subir e garantia que ninguém ficasse de pé enquanto o veículo estivesse em movimento. As 11 crianças daquela manhã eram filhos de sitiantes e pequenos fazendeiros da zona rural entre Itanhu e Passa 4. A mais nova tinha 7 anos.
uma menina chamada Lúcia Helena, filha de um casal de Mieiros, que morava perto da primeira ponte. O mais velho tinha 13, um garoto chamado Wagner, que repetia a quinta série e que a mãe mandava para a escola mais por obrigação do que por esperança. Os outros nove tinham entre 8 e 12 anos, e nenhum deles morava a menos de 3 km do vizinho mais próximo.
A rota velha não era propriamente uma estrada, era um caminho de terra batida que havia sido aberto na década de 1950 para escoar produção de leite e que ao longo dos anos passou a ser usado como via de ligação informal entre as comunidades rurais. Não tinha sinalização, não tinha acostamento, não tinha iluminação.
Em vários trechos era larga o suficiente para um veículo só. Em dois pontos cruzava córregos por pontes de madeira que rangiam sob o peso do ônibus. A vegetação avançava dos dois lados e, dependendo da época do ano, fechava sobre a estrada como um túnel verde que impedia a luz do sol de chegar ao chão. Geraldo conhecia cada metro daquele caminho.
Habia onde frear antes da curva fechada do quilôm 11, onde desviar da pedra solta no qum 15, onde acelerar antes da subida do qum 19 para não perder embalo. Fazia aquele trajeto há 3 anos, duas vezes por dia, cinco dias por semana. A rotina era tão previsível que os pais acertavam os relógios pela passagem do ônibus. Naquela manhã, o ônibus saiu do pátio no horário.
Geraldo fez a primeira parada no quilômetro 4, onde pegou duas crianças. Fez a segunda no quilômetro 6, onde pegou mais três. As paradas seguintes aconteceram nos quilômetros 8, 10 e 12. No quilômetro 12, todas as 11 crianças estavam a bordo. Sônia conferiu os nomes na lista e fez um sinal para Geraldo seguir. O ônibus seguiu.
A estrada de terra vermelha ia subindo em direção ao espigão que separava as duas bacias. Depois do quilômetro 15, o terreno ficava mais íngreme, a vegetação mais fechada e o silêncio mais denso. Era o trecho que os moradores chamavam de garganta, porque a estrada estreitava entre dois morros e o som do motor ecoava como se o ônibus estivesse passando dentro de uma goela de pedra.
Ninguém viu o ônibus depois do quilômetro 17. As marcas de pneu na terra, encontradas mais tarde pelos pais que saíram a procurar, iam até ali. Depois nada, como se o veículo tivesse levantado do chão e deixado de tocar a estrada. Dona Marta Lúcia Fonseca acordou naquele dia às 5:30, como sempre.
Preparou café no fogão à lenha, cortou o pão caseiro, separou a marmita de Renato, arroz, feijão e ovo frito, embrulhado em papel alumínio dentro de uma sacola plástica do supermercado Araújo. Renato tinha 9 anos, usava óculos de grau que viviam tortos no rosto e não gostava de levantar cedo, mas não reclamava. vestiu o uniforme, calçou o tênis bamba que já estava apertando e ficou esperando o ônibus no portão de tábuas que dava para a estrada.
Dona Marta viu o ônibus parar, viu o Renato subir, viu Sônia acenar da janela. O ônibus seguiu o morro acima, levantando uma nuvem de poeira vermelha que demorava minutos para baixar. Dona Marta entrou para lavar a louça. Era a última vez que via o filho. O ônibus deveria chegar à escola do bairro Serra Negra às 7:30.
Às 8 horas, quando a professora da turma percebeu que nenhuma das crianças da rota velha tinha aparecido, mandou um recado pela filha do caseiro da fazenda vizinha. O recado chegou à dona Marta por volta das 8:15. Ela não se assustou de imediato. Ônibus atrasava, estrada de terra dava problema.
Geraldo já tinha chegado tarde outras vezes. Uma vez em junho, atrasou 40 minutos porque uma árvore caiu na pista depois de uma ventania. Mas naquela manhã não tinha ventado, não tinha chovido, não tinha motivo. Quando o relógio marcou 9 horas, a inquietação virou preocupação. Dona Marta caminhou os 800 m até a casa de Toninho Rezende, que tinha telefone.
Um aparelho de disco bege instalado na parede da cozinha, ligado a uma linha rural que funcionava quando funcionava. Toninho discou para a prefeitura. Ninguém atendeu de primeira. Na segunda tentativa, atendeu uma funcionária da recepção que disse que ia verificar. Na terceira tentativa, 20 minutos depois, a mesma funcionária disse que o ônibus não tinha chegado ao pátio de volta e que ninguém sabia onde estava.
Foi nesse ponto que a manhã mudou. Toninho Rezende tinha um cavalo selado no pasto. Montou e saiu estrada abaixo. Encontrou no caminho seu Joaquim Prata, outro pai que já estava a pé com uma foice no cinto, andando na direção oposta. Mais adiante juntou-se a eles o Zé Augusto, que tinha duas filhas no ônibus, Ana Beatriz, de 10 anos, e a Camila, de oito.
Zé Augusto estava de bicicleta, pedalando lentamente na terra fofa, com o rosto fechado de quem já pressentia que algo estava muito errado. Os três seguiram pela rota velha, refazendo o percurso. O troço até o quilómetro 10 estava normal. Marcas de pneu visíveis, pó assente, nada fora do lugar. A partir do quilómetro 12, onde se encontrava a última paragem de embarque, as marcas continuavam, mas a estrada ia ficando mais estreita.
No quilómetro 15 passaram pela curva fechada que os moradores chamavam de cotovelo do diabo, onde dois anos antes um camião de leite tinha tombado e ficado três dias até conseguir guinchar. Não havia sinal do autocarro. No quilómetro 17, as marcas de pneus simplesmente acabavam. Toninho Rezende desmantelou do cavalo e examinou o solo.
As marcas iam até ali, firmes e regulares, como se o autocarro estivesse em velocidade normal. Não havia marcas de travagem, não havia marcas de derrapagem, não existiam marcas de outro veículo. A estrada continuava por mais 9 km até ao entroncamento com a estrada de Passa 4, mas naquele troço não havia qualquer sinal de que o autocarro tivesse passado.
Era como se ao quilómetro 17 o autocarro tivesse simplesmente deixado de existir. O Zé Augusto sentou-se à beira da estrada e ficou a olhar para o chão por um longo tempo. Depois levantou-se, limpou as mãos nas calças e disse uma frase que o Toninho Rezende repetiria muitas vezes nos anos seguintes. Isto aqui não é coisa de estrada.
Ninguém sabia ainda o que era, mas todos sabiam o que não era. A ocorrência foi registada na delegacia de Itanhandu, às 10h40 da manhã por telefone. O sargento de Serviço, um homem chamado Valdir Teixeira, anotou os dados numa folha de papel ao maço. Modelo do veículo, matrícula, nome do condutor, número aproximado de passageiros.
A Secretaria de Educação forneceu a lista dos alunos por telefone, mas houve confusão sobre dois nomes, porque a funcionária, que tinha a lista oficial, tinha saído para o banco e não voltaria antes do meio-dia. O sargento Valdir fez o que lhe pareceu lógico. Despachou a única viatura disponível, um Chevete branco com o emblema da APM a descascar à porta pela MG18, a rodovia asfaltada que ligava Itanhandu, a Passa 4.
O raciocínio era simples. Se o autocarro tivesse avariado ou se o condutor se tivesse sentido mal, talvez tivesse procurado o asfalto, que era mais acessível e onde seria mais fácil pedir socorro. A viatura percorreu 40 km em cada sentido. Parou em dois postos de abastecimento de combustível, numa venda de beira de estrada e no pátio de uma transportadora.
Ninguém tinha visto o autocarro amarelo. Enquanto isso, os pais continuavam na rota velha. Nessa altura já eram sete homens e duas mulheres, todos a pé ou a cavalo, vasculhando ambos os lados da estrada a partir do quilómetro 17. Desceram barrancos, atravessaram ribeiros, entraram na mata onde a vegetação permitia.
Gritaram os nomes das crianças, gritaram o nome de Geraldo, gritaram o nome de Sónia. O eco regressava limpo, sem resposta. Naquele troço da serra, a floresta atlântica forma um colchão vegetal tão denso que engole o som numa questão de metros. Um grito dado a 50 passos de distância chega como um murmúrio. Ao meio-dia, Toninho Rezende regressou à casa.
e ligou para ser novamente a câmara municipal. Desta vez falou com o secretário de administração, um homem chamado Hélio Batista, que era o substituto do presidente da câmara quando este viajava. E o presidente da Câmara estava em Belo Horizonte nesse dia numa reunião sobre transferências do ICMS. Hélio Batista fez duas chamadas, uma para o quartel da PM de Pouso Alegre e outra para o Corpo de Bombeiros da mesma cidade.
A PM de Pouso Alegre disse que enviaria reforço. O Corpo de Bombeiros disse que iria registar a pedido e avaliaria o envio de equipa conforme a disponibilidade. O reforço da PM chegou às 16 horas. duas viaturas com seis polícias que não conheciam a região. O comandante do destacamento pediu um mapa do percurso velha. Não existia mapa.
A estrada não constava em nenhuma carta topográfica oficial. O que existia era o conhecimento dos moradores, que sabiam de cor cada curva, cada descida, cada bifurcação sem placa que conduzia a uma quinta ou a um ribeiro. Os polícias necessitaram de guias locais para não se perder. A procura recomeçou a partir do quilómetro 17, desta vez com lanternas, porque o sol já estava baixo.
A mata fechava dos dois lados e, à medida que a luz diminuía, o terreno tornava-se cada vez mais difícil. Os polícias caminharam 2 km colina abaixo, num vale lateral que os moradores chamavam da Grota do Cedro, sem nada encontrar. Às 19 horas, com escuridão total e sem equipamento adequado para a busca noturno, o comandante ordenou o regresso.
Nessa noite, 11 famílias dormiram ou tentaram dormir sem saber onde estavam os seus filhos. A Dona Marta Lúcia Fonseca deixou a luz da varanda acesa e a porta da frente encostada, como se o Renato pudesse chegar a qualquer momento, com o uniforme sujo de terra e os óculos tortos, pedindo comida.
O que ninguém sabia naquele momento era que a busca se tinha concentrado inteiramente no eixo da estrada e nos vales visíveis a partir dela. Ninguém tinha ido até ao vale fechado que ficava a sudoeste, atrás de um monte coberto de pinheiros, num terreno que não pertencia a nenhum dos sitiantes da região e que não era utilizado para nada.
Aquele vale não tinha nome no mapa porque não estava em nenhum mapa. E nele, sobr 40 de terra vermelha, o autocarro já estava debaixo do chão. O corpo de bombeiros de Pouso Alegre chegou a Itanhandu na quarta-feira, dois dias depois do desaparecimento. Eram oito homens com dois cães farejadores emprestados da Polícia Civil de Poços de Caldas.
um pastor alemão e um labrador preto, que já tinham sido utilizados em buscas de soterramento após deslizamentos de terras na região de Extrema. O tenente responsável pela operação chamava-se Marcos Vieira Duarte, um homem de 40 e poucos anos com experiência em salvamentos em montanha, mas que nunca tinha trabalhado num caso de desaparecimento de veículo com passageiros.
O tenente Duarte pediu informações sobre o terreno. Recebeu o que havia, relatos orais dos moradores, uma descrição aproximada da estrada e a indicação do quilómetro 17 como último ponto onde se encontram as marcas de pneus foram vistas. Definiu um perímetro de busca de 12 km² centrado nesse ponto.
Dividiu a equipa em dois grupos e iniciou a varredura. na manhã de quinta-feira. O problema era o terreno. A serra da Mantiqueira, naquele troço entre Itanhandu e a fronteira com o estado do Rio de Janeiro não é uma serra uniforme, é uma sequência de dobras geológicas. Morros que sobem e descem em ângulos agudos, vales profundos cobertos de vegetação, escarpas rochosas que interrompem qualquer caminho sem aviso.
A floresta atlântica ali é densa o suficiente para esconder uma casa, quanto mais um autocarro. O subbosque é uma malha de sipós, fetos arbórios e troncos caídos que transforma cada metro de avanço num esforço físico considerável. Os cães farejadores trabalharam durante 5 dias, percorreram todo o perímetro, não deram alerta em nenhum ponto.
Para os bombeiros, a ausência de rasto era a parte mais difícil de explicar. Um autocarro Mercedes-Benz 1313 pesava aproximadamente 5 toneladas carregado. Um veículo deste porte, ao sair da estrada, deixa marcas, ramos partidos, vegetação amassada, sucos no solo. Se tivesse caído num barranco, haveria sinais de queda, árvores derrubadas, pedras deslocadas, fragmentos de carroçaria no percurso da descida.
Se tivesse tombado, a carcaça estaria visível de algum ponto elevado. Se tivesse sido arrastado por uma enchurrada, haveria marcas de erosão no leito do ribeiro mais próximo. Não havia nada disso. A mata estava intacta. Os ribeiros corriam limpos. As encostas não mostravam sinal de perturbação recente. O tenente Duarte registou essa observação no relatório com uma frase seca: “Não foram localizados vestígios compatíveis com a saída do veículo da via no perímetro estabelecido.
” O relatório não especulava. Os relatórios dos bombeiros não especulam. Mas a frase carregava uma implicação que qualquer pessoa atenta conseguia ler. O autocarro não saiu da estrada, pelo não da forma que todos estavam imaginando. Enquanto os bombeiros trabalhavam na floresta, a vida em Itanhandu começou a deformar-se.
Os comerciantes do centro da cidade conversavam em voz baixa. As missas da igreja matriz, que normalmente reuniam 50 pessoas, passaram a reunir 150. O padre Ernesto, um homem de 60 anos que estava na freguesia desde 1972, celebrou três missas especiais pelas crianças e pediu orações pela família de Geraldo Maciel, cuja esposa, D.
Éna, não saía de casa desde segunda-feira e recusava-se a comer. Os boatos começaram no terceiro dia. Alguém disse que tinha visto o autocarro na estrada que leva a São Lourenço, mas a informação não se confirmou. Alguém disse que o Geraldo tinha dívidas de jogo, mas ninguém conseguiu apontar com quem nem quanto.
Alguém disse que tinha ouvido um barulho estranho na madrugada de segunda para terça-feira, vindo do lado da grota do cedro, mas não soube dizer que tipo de ruído. Cada boato alimentava uma esperança ou um medo e nenhum levava a lado nenhum. Ao sexto dia de busca, o Tenente Duarte reuniu os pais na escola do bairro da Serra Negra e comunicou que a operação seria encerrada por falta de elementos que justificassem a sua continuidade.
Disse que o caso ficaria sob responsabilidade da Polícia Civil e que qualquer nova informação deveria ser conduzida diretamente à esquadra. Disse também com um tom que tentava ser profissional, mas que não conseguia esconder o desconforto, que lamentava profundamente. Zé Augusto, o pai de Ana Beatriz e Camila, levantou-se do banco da escola e perguntou ao tenente se achava possível que um autocarro de 5 toneladas desaparecesse sem deixar qualquer rasto.
O tenente olhou para o chão e respondeu que na sua experiência tudo o que desaparecia acabava por ser encontrado. A questão era quando e onde? Zé Augusto não respondeu. Saiu da sala, atravessou o pátio da escola e parou no meio da estrada de terra batida, olhando para os morros. ficou ali parado mais de 10 minutos, com as mãos nos bolsos, sem dizer nada.
Quando finalmente se virou, tinha os olhos secos e a expressão de quem acabou de tomar uma decisão que não pretende explicar a ninguém. O inquérito policial ficou sob responsabilidade do delegado António Carlos Drumon Neto, um homem de 56 anos que estava na esquadra de Itanhandu desde 1983. Drumon Neto não era um investigador negligente, mas também não era um investigador de casos complexos.
A esquadra tinha três funcionários, ele, um escrivão e um investigador. E a maioria dos casos que passavam por ali envolvia um furto de gado, rixa de vizinhos e burla em feira. O desaparecimento do autocarro era algo para o qual a esquadra não estava equipada. Drumon Neto fez o que pôde com o que tinha. Ouviu depoimentos de todos os pais.
ouviu o depoimento da funcionária da Direção de Educação. Tentou localizar possíveis testemunhas que tivessem transitado pela antiga rota nessa manhã, mas ninguém apareceu. A estrada era utilizada quase exclusivamente pelos moradores da zona e naquele horário todos estavam em casa ou no curral. solicitou apoio técnico à Polícia Civil de Pouso Alegre.
A resposta veio por ofício três semanas depois. informava que não existiam recursos disponíveis para deslocação de equipa especializada e que o caso deveria ser conduzido localmente com os meios existentes. Em novembro de 1989, 3 meses depois do desaparecimento, Drumon Neto enviou um ofício ao Ministério Público de Itanhandu, solicitando orientação sobre como proceder.
A resposta do promotor foi objetiva. Na ausência de indícios de crime e de vestígios materiais, o inquérito deveria ser concluído com relatório final e remetido ao MP para arquivamento. Drumon Neto redigiu o relatório em dezembro. Tinha quatro páginas dactilografadas numa máquina Olivete, cujas teclas falhavam. A conclusão dizia que, com base nas buscas efetuadas e na ausência de vestígios, a hipótese mais provável era a de que o veículo tivesse saído da estrada num ponto de difícil acesso e sido encoberto pela vegetação e que a localização só seria possível
mediante o emprego de recursos técnicos não disponíveis na comarca. O relatório não mencionava qualquer hipótese criminal, não mencionava os rumores sobre dívidas do motorista, não mencionava a ausência de marcas de travagem, não mencionava o facto de os cães farejadores não tinham dado alerta em nenhum ponto do perímetro de busca.
Era um relatório que descrevia o que não tinha sido encontrado e concluía que por não ter sido encontrado nada, não havia mais nada a fazer. As famílias receberam a notícia por carta, cartas iguais, com o timbre do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, informando que o inquérito tinha sido arquivado por ausência de elementos para prosseguimento.
A Dona Marta Lúcia Fonseca abriu a carta na cozinha, leu uma vez, leu outra vez, dobrou o papel e guardou-o dentro da Bíblia que estava na mesa de cabeceira. Colocou entre os salmos e o livro de Job, não porque procurasse consolo naquelas páginas, colocou lá porque era o único lugar da casa onde sabia que não perderia o papel.

E por que razão queria que aquela carta ficasse marcada entre as palavras que falam de sofrimento e de silêncio de Deus? O Zé Augusto reagiu de outra forma. No dia seguinte, ao receção da carta, apanhou o autocarro intermunicipal para Pouso Alegre e foi ao quartel da PM pedir cópia do relatório de busca dos bombeiros. Disseram que ele precisava de um requerimento formal.
regressou na semana seguinte com o requerimento escrito à mão por um advogado que cobrou o equivalente a dois dias de trabalho no roça. Recebeu a cópia um mês depois. Leu o relatório todo sentado no banco da estação rodoviária de Pouso Alegre antes de apanhar o autocarro de volta. Quando chegou a casa, disse à esposa que ia escrever ao governador.
A esposa perguntou-lhe se achava que ia adiantar. Zé Augusto disse que não sabia, mas que precisava de fazer alguma coisa para não enlouquecer. A carta para o governador foi escrita em Janeiro de 1990. Nunca recebeu resposta. Outras famílias fizeram outras tentativas. O pai de Wagner, o rapaz de 13 anos, procurou um programa de rádio em São Lourenço para pedir que o caso fosse divulgado.
O programa dedicou 5 minutos ao assunto numa tarde de sábado. Não gerou nenhuma pista. A mãe de Lúcia Helena, a menina de 7 anos, procurou o Fantástico por meio de uma carta enviada à TV Globo no Rio de Janeiro. A carta não foi respondida. A dor de cada família era a mesma, mas a forma de carregá-la era diferente. Algumas se fecharam, outras se revoltaram, e algumas, como dona Marta, simplesmente continuaram vivendo, não porque tivessem aceitado, mas porque não havia alternativa que não fosse continuar.
O quarto de Renato ficou intacto. A marmita que ele não levou naquele dia, porque dona Marta sempre preparava uma reserva, caso ele esquecesse, ficou na geladeira até estragar. Dona Marta jogou fora a comida, lavou o pote e guardou no armário. Depois lavou as mãos e ficou olhando pela janela da cozinha, para a estrada de terra que subia o morro, por onde o ônibus amarelo tinha subido e nunca descido.
Itanhandu não esqueceu, mashandu continuou. O ano letivo de 1990 começou em fevereiro, como sempre. A escola do bairro Serra Negra reabriu com uma turma menor. 11 carteiras ficaram vazias. A professora titular, dona Clélia, que dava aula ali desde 1975, passou a primeira semana sem conseguir olhar para os lugares vazios, sem que os olhos enchessem.
Na segunda semana mudou a disposição das carteiras para que não ficassem espaços evidentes. Na terceira semana chegaram quatro alunos novos transferidos de outra escola rural e os espaços foram preenchidos. A vida escolar seguiu, não porque fosse fácil, mas porque o calendário não espera. A rota velha continuou sendo usada, mas nunca mais da mesma forma.
A prefeitura designou outro motorista para o ônibus substituto, um veículo menor, uma combi branca que cabia oito crianças por viagem e que precisava fazer o trajeto duas vezes. O novo motorista, um rapaz chamado Nilson, tinha 25 anos e havia sido contratado às pressas. Nos primeiros meses, os pais acompanhavam os filhos até o ponto de embarque e ficavam olhando a Kombe desaparecer morro acima, com o mesmo aperto no peito que sentiam toda vez que a poeira subia.
Alguns pais deixaram de mandar os filhos para a escola. Dona Isaura, mãe de um menino de 8 anos que não estava no ônibus naquele dia porque havia ficado doente, tirou o filho da escola e passou a ensiná-lo em casa com os livros que tinha. Disse aos vizinhos que não confiava mais em estrada nenhuma. Outros pais se mudaram.
A família de Wagner, o garoto de 13 anos, vendeu o sítio em março de 1990 e foi para Pouso Alegre, onde o pai conseguiu emprego numa fábrica de malhas. A família de Lúcia Helena, a menina de 7 anos, permaneceu na roça, mas a mãe desenvolveu uma insônia crônica que nunca foi tratada e que a acompanhou pelo resto da vida.
Geraldo Marciel, o motorista, deixou para trás uma esposa e três filhos adultos. Dona Edna, a esposa, morava numa casa simples perto do centro de Itanhandu. Depois do desaparecimento, os vizinhos passaram a evitá-la, não por maldade, mas por não saber o que dizer. Alguns sussurravam que Geraldo devia ter feito algo.
Os boatos sobre dívidas de jogo nunca foram comprovados, mas também nunca foram desmentidos de forma definitiva. E num lugar pequeno, um boato sem desmentido vira verdade por repetição. Dona Edna parou de ir à missa, parou de ir à feira. fazia compras pelo filho mais velho que ia ao mercado com uma lista escrita em pedaços de caderno. Sônia Aparecida Reis, a monitora, tinha dois filhos, Gustavo de 4 anos e Patrícia de seis.
Os dois ficaram com a avó materna, que morava em Passa 4. O marido de Sônia, Ademir, trabalhava como pedreiro em obras na região e se viu de um dia para o outro como pai solo de duas crianças, sem a mulher e sem nenhuma explicação sobre o que havia acontecido com ela. Ademir nunca se casou de novo. criou os filhos com a ajuda da sogra e, segundo vizinhos que o conheciam, nunca mais falou no assunto em público.
Quando alguém perguntava, ele respondia com uma frase curta. Ela saiu para trabalhar e não voltou. A cidade seguiu, os anos passaram. O caso do ônibus da rota velha deixou de ser assunto de conversa diária e passou a ser assunto de memória. Algo que se mencionava quando um visitante perguntava sobre a cidade, quando alguém passava pela estrada e lembrava quando chegava agosto e os mais velhos faziam as contas de quantos anos tinham se passado.
Em 1993, uma nova secretária de educação assumiu a pasta na prefeitura. Chamava-se Lourdes Gonçalves e tinha sido transferida de Lambari. Ao revisar os registros escolares, encontrou 11 nomes de alunos que constavam como matriculados, mas que não tinham frequência registrada. Desde agosto de 1989. consultou a secretária anterior, que explicou a situação.
Lourdes perguntou porque os nomes não tinham sido removidos. A resposta que recebeu foi um silêncio seguido de uma frase. Ninguém teve coragem. Lourdes removeu os nomes do registro ativo e os transferiu para um arquivo separado, classificado como situação indefinida. Era um termo burocrático, mas era também o termo mais preciso que alguém poderia usar para descrever o que aquelas famílias viviam.
Não era luto porque não havia corpo, não era esperança porque não havia pista. Era uma suspensão permanente, um parêntese aberto que ninguém conseguia fechar. Dona Marta continuou morando no mesmo sítio. O portão de tábuas continuou no mesmo lugar. A estrada de terra continuou subindo o morro. E toda manhã, quando o sol nascia e a luz batia na poeira vermelha, dona Marta olhava para a estrada com a mesma expressão de quem espera algo que sabe que não vai chegar, mas que não consegue deixar de esperar.
Os anos que se seguiram ao arquivamento do inquérito trouxeram para Itanhandu uma espécie de normalidade forçada que ninguém confundia com paz. A cidade cresceu pouco. Em 1995, o censo estimava 19.000 habitantes, 1000 a mais do que em 1989. E a maioria desse crescimento vinha de famílias que chegavam de cidades menores da região, atraídas pelo comércio que se formava ao redor da BR354.
A rota velha, por sua vez, foi ficando cada vez mais abandonada. A prefeitura parou de fazer manutenção no trecho depois do quilômetro 15 em 1992. E em 1996, a segunda ponte de madeira cedeu durante uma cheia e nunca foi reconstruída. O caminho continuava existindo, mas agora era usado apenas por tropeiros e por alguns sitiantes que insistiam em manter a passagem com ferramentas próprias, abrindo o mato quando o mato fechava.
A memória do ônibus, no entanto, não cedeu como a ponte. Existia uma espécie de acordo tácito em Itanhu. Ninguém trazia o assunto à tona sem motivo, mas ninguém se surpreendia quando ele aparecia. Bastava uma data, um rosto, uma coincidência qualquer. Em agosto de 1994, 5 anos depois do desaparecimento, alguém colocou 11 cruzes de madeira na beira da rota velha, no quilm 17, sem identificação e sem aviso.
Ninguém assumiu a autoria. As cruzes ficaram ali até o mato cobrir, e quando o mato cobriu, alguém limpou ao redor e elas reapareceram. Isso se repetiu por anos. Um cuidado anônimo, constante, que dizia mais sobre a cidade do que qualquer discurso oficial. Dona Marta nunca foi às cruzes. Disse à filha que não precisava ir a lugar nenhum para lembrar do Renato.
Lembrava dele toda a manhã quando abria o portão e olhava para a guest estrada. Lembrava dele toda a noite quando passava pela porta do quarto que continuava fechado. Lembrava dele quando cortava pão caseiro e separava um pedaço a mais por força do hábito. A ausência de Renato não era um evento do passado.
Era uma condição do presente renovada a cada dia, como o café no fogão e o vento na janela. O marido de dona Marta, seu Benedito, morreu em 1997, de pneumonia complicada por enfizema. Tinha 68 anos. Depois da morte de Benedito, dona Marta ficou sozinha no sítio. A filha Aparecida, que já era casada com Cláudio e morava numa casa a 2 km dali, ia todo dia levar comida e fazer companhia.
Mas dona Marta se recusava a sair do sítio. Dizia que se Renato voltasse precisava encontrar alguém em casa. Ninguém argumentava. Não havia argumento possível contra uma esperança que já tinha sobrevivido a tudo. Em Passa 4, Ademir continuava trabalhando como pedreiro. Gustavo e Patrícia, os filhos de Sônia, cresceram com a avó materna numa casa de cômodos.
apertados perto da rodoviária. Gustavo abandonou a escola aos 15 anos e foi trabalhar numa oficina mecânica. Patrícia terminou o ensino médio em 2001 e conseguiu emprego numa farmácia no centro da cidade. Nenhum dos dois falava da mãe em público. Patrícia, anos mais tarde, contaria a uma colega de trabalho que o mais difícil não era a falta de explicação, era a falta de um lugar para colocar flores.
Não havia túmulo, não havia lápide, não havia certidão de óbito. Sônia Aparecida Reis, do ponto de vista do Estado brasileiro, continuava viva. O nome dela constava no CPF como ativo. A conta bancária que ela tinha na Caixa Econômica Federal, com um saldo de R$ 47, permanecia aberta. O tempo fez o que o tempo faz.
suavizou os contornos sem apagar as marcas. Em Itanhandu, uma geração inteira cresceu ouvindo a história do ônibus como se fosse uma lenda local, algo que tinha acontecido antes de eles nascerem e que pertencia ao repertório de coisas estranhas que as cidades pequenas guardam. Os mais novos sabiam os contornos gerais. Um ônibus escolar desapareceu na Rota Velha em 1989, com crianças dentro e nunca foi encontrado.
Os detalhes se perdiam ou se deformavam. Alguns achavam que o ônibus tinha caído num rio, outros que o motorista tinha fugido. Havia quem dissesse que as crianças tinham sido levadas por traficantes de uma fazenda vizinha. Cada versão refletia mais o medo de quem contava do que os fatos do caso. A verdade é que ninguém sabia o que tinha acontecido e essa ignorância, com o passar dos anos, foi se tornando quase suportável.
Uma ferida que não cicatrizava, mas que pelo menos tinha parado de sangrar. Até março de 2003, Osvaldo Mendes Ribeiro não era de Itanhandu, tinha vindo de Ayuruoca, uma cidade a 60 km a noroeste, onde criava gado leiteiro desde os 20 anos. Em 2001 aos 58, vendeu a propriedade de lá e comprou uma fazenda maior na região sul de Itanhandu, num vale encaixado entre morros que ficava a cerca de 4 km a sudoeste da Rota Velha.
A terra boa para pasto, o preço era abaixo do mercado. E o antigo dono, um homem idoso, que havia se mudado para São Paulo para morar com a filha, tinha pressa em vender. Osvaldo passou os dois primeiros anos reformando cercas, limpando pasto e construindo um curral novo. Era um homem metódico, de poucas palavras e muitas horas de trabalho.
não se interessava por fofocas e como era de fora não conhecia a história do ônibus. Ninguém lhe contou e ele não perguntou. Em março de 2003, Osvaldo decidiu ampliar o pasto para o lado leste da propriedade, numa área que nunca tinha sido usada. Um trecho de vale plano coberto de capim alto e cercado de pinheiros nativos. precisava abrir uma picada e estender a cerca.
Subiu no trator um Messi Ferguson 275 que tinha comprado usado em poços de Caldas e começou a trabalhar cedo antes das 7 da manhã. Por volta das 9 horas, a lâmina frontal do trator bateu em algo sólido, enterrado a menos de 1 m da superfície. O impacto foi suficiente para travar a máquina. Osvaldo desligou o motor, desceu e olhou para o ponto de impacto.
A lâmina havia deslocado uma camada de terra vermelha e exposto algo metálico, escuro, enferrujado, mas inconfundível na forma. Osvaldo se ajoelhou e cavou ao redor com as mãos. Demorou cerca de 20 minutos para liberar o objeto. Era um volante de ônibus com a coluna de direção ainda acoplada, coberto de ferrugem alaranjada, mas estruturalmente inteiro.
O volante era grande, não era de carro nem de caminhonete, era de veículo pesado. A coluna tinha sido arrancada, não cortada. As extremidades estavam deformadas. como se tivessem sido separadas por força bruta ou impacto. Osvaldo olhou para o volante, olhou para o buraco no chão, olhou ao redor. Não havia nenhuma estrada ali, não havia nenhuma trilha, não havia motivo para que uma peça de ônibus estivesse enterrada num vale a 4 km de qualquer via conhecida.
levou o volante para o barracão da fazenda, encostou-o contra a parede ao lado de um arado velho e um rolo de arame e seguiu trabalhando. Não era descaso, era pragmatismo de homem do campo. Osvaldo não sabia o que aquilo significava e uma peça de ferrugem não ia atrasar a cerca. Dois meses se passaram.
Em maio, durante uma festa junina na comunidade de Bom Jesus, vizinha da fazenda de Osvaldo, ele mencionou o achado para o vizinho enquanto os dois tomavam quentão encostados na cerca do terreiro. Contou a história sem drama. Achei um volante de ônibus enterrado no pasto, coisa mais estranha. O vizinho, um homem chamado Cláudio, escutou, fez uma pergunta sobre o tamanho da peça e ficou em silêncio por um momento.
Cláudio era genro de dona Marta Lúcia Fonseca. Tinha se casado com a filha mais velha dela, Aparecida, em 1995. Conhecia a história do ônibus em detalhe. Conhecia cada nome, cada data, cada tentativa frustrada. e sabia, como todo mundo naquela região, sabia, que o ônibus nunca tinha sido encontrado. Cláudio não terminou o prato de canjica, perguntou a Osvaldo onde exatamente ele tinha achado o volante.
Osvaldo explicou: “No vale plano, lá do leste da fazenda, perto dos Pinheiros”. Cláudio perguntou se podia ver a peça. Osvaldo disse que sim, que estava no barracão. No dia seguinte, Cláudio foi à fazenda de Osvaldo, viu o volante, examinou a coluna de direção. Não era engenheiro nem mecânico, mas tinha dirigido o ônibus escolar por dois anos na juventude e reconheceu o tipo de peça.
Era de Mercedes-Benz, era de veículo pesado e estava a menos de 1 m da superfície, num lugar onde não deveria estar. Cláudio voltou para casa e contou para Aparecida. Aparecida contou para a mãe. Dona Marta ouviu em silêncio, com as mãos cruzadas sobre o avental. Depois perguntou uma única coisa: “Onde é essa fazenda?” Aparecida explicou.
Dona Marta fechou os olhos e ficou parada por um longo tempo, como se estivesse medindo a distância dentro da própria cabeça. 14 anos. O volante estava a 4 km da estrada, enterrado num lugar que ninguém tinha procurado. Cláudio foi à esquadra de Itanhandu, num dia de semana de manhã, com o volante dentro de um saco de linhagem que normalmente utilizava para carregar milho.
O saco era pesado e desajeitado, e apoiou-o no balcão da esquadra com um baque seco, que fez com que o escrivão de serviço levantar os olhos do formulário que estava a preencher. O delegado que o recebeu não era Drumon Neto. Drumon Neto havia-se aposentado em 1997 e mudou-se para Caxambu. O delegado de 2003 chamava-se Rafael Mendes Costa.
Tinha 34 anos e tinha sido transferido de Alfenas 8 meses antes. Não conhecia a história do autocarro. O Cláudio explicou o que sabia. Falou do autocarro das crianças, do motorista, da monitora. Falou da busca, dos bombeiros, dos cães que não não acharam nada. falou do arquivamento e mostrou o volante.
Rafael Mendes Costa ouviu tudo, examinou a peça e pediu ao escrivão que localizasse o inquérito no Arquivo Morto. O escrivão levou duas horas para encontrar a pasta. Quando trazia, estava amarelada, com as bordas comidas por traças e um cheiro a mofo que impregnava cada folha. O Rafael leu o inquérito inteiro nessa tarde.
Depois abriu um mapa topográfico da região e pediu a Cláudio que apontasse onde ficava a quinta de Osvaldo. Cláudio apontou. O Rafael mediu a distância com uma régua, a 4,m 200 m do ponto do percurso velha, onde as marcas dos pneus terminavam, e a quinta ficava num vale que não era visível da estrada. Era preciso contornar um monte inteiro para chegar lá.
Não havia trilho, não havia acesso direto, não havia motivo para que qualquer pessoa ou veículo fosse parar naquele local por acidente. Rafael sublinhou uma anotação no caderno, área fora do perímetro de busca de 1989. Ninguém ali tinha procurado, porque ninguém tinha motivos para ali procurar. Um autocarro que sai de uma estrada cai para os lados ou para baixo.
Não aparece a 4 km de distância atrás de um monte enterrado. Rafael redigiu um pedido de reabertura do inquérito e remeteu-o ao Ministério Público. O promotor autorizou a reabertura com uma determinação seca. Diligências complementares no local do achado com produção de relatório pericial. A reabertura foi formalizada em agosto de 2003.
A notícia percorreu Itanandu como uma corrente elétrica. 14 anos depois o caso voltava. E desta vez havia algo concreto. Entre 2003 e 2024. O inquérito reaberto avançou em espasmos. Rafael conseguiu que a Polícia Civil de Pouso Alegre enviasse um perito ao local em Novembro de 2003. O perito confirmou a compatibilidade do peça com o modelo Mercedes-Benz 1313 e registou a presença de fragmentos metálicos adicionais em camadas superficiais do terreno.
O relatório recomendava escavação exploratória, mas não a determinava. Isso dependia de recursos que a comarca não tinha. Rafael solicitou verbas ao governo do estado. A solicitação foi arquivada. Tentou o apoio académico da Universidade Federal de Lavras. Um professor visitou o local, tomou notas e disse que voltaria com equipamento. Não voltou.
Em 2005, Rafael foi transferido para Varginha. Antes de sair, deixou o inquérito organizado e uma recomendação ao delegado substituto. O vale da quinta de Osvaldo precisa de ser escavado. O delegado substituto manteve o processo aberto e esperou que algo acontecesse. Nada aconteceu. Em 2008, Zé Augusto morreu de enfarte fulminante aos 62 anos.
No velório, alguém comentou que nunca tinha ultrapassado o desaparecimento das filhas. A esposa respondeu que não era uma questão de ultrapassar, era uma questão de carregar e que o peso tinha cobrado o preço. Em 2011, a dona Edna, a viúva do motorista Geraldo, faleceu vítima de complicações renais. Tinha 74 anos. Em 2015, Geraldo foi declarado oficialmente morto por sentença judicial 26 anos depois de ter desaparecido.
Em 2016, o Sinalid foi alimentado com os dados das 13 pessoas. O sistema cruzou a informação com todos os registos de pessoas encontradas em todo o território nacional desde 1989. Não houve correspondência. As 13 pessoas não tinham sido encontradas em nenhum lugar do Brasil. Em 2019, uma reportagem do Estado de Minas revisitou o caso.
A Dona Marta aparecia numa foto sentada na cadeira de vime da varanda com o olhar fixo na estrada. A legenda dizia: “A Dona Marta espera o filho desde 1989. A reportagem gerou impacto. Um procurador do MP de Belo Horizonte solicitou informações detalhadas à comarca de Itanhandu. O processo demorou.
A pandemia paralisou atividades. Promotores foram realocados. Em 2023, a procuradora Fernanda Cristina Duarte retomou a análise e chegou a conclusão que já era óbvia. A única forma de avançar era escavar. Em outubro de 2023, o MP formalizou o pedido de escavação. Osvaldo tinha morrido em 2018. A quinta pertencia agora a uma empresa de rearborização que autorizou o acesso.
O vale onde Osvaldo encontrara o volante não tinha sido plantado. A escavação começou a 15 de janeiro de 2024. A equipa incluía peritos do Instituto de Criminalística de Belo Horizonte. técnicos em georreferenciação, um antropólogo forense e um geólogo. O equipamento incluía radar de penetração no solo, drones com câmara térmica e um laboratório móvel.
Era um aparato que em 1989 não existia no Brasil. Os primeiros três dias foram de mapeamento. O radar varreu 400 m² em redor do ponto onde o volante havia sido encontrado. No quarto dia, 18 de janeiro, o técnico responsável pediu que a equipa interrompesse o trabalho. A anomalia encontrava-se a 12 m do ponto original, a 2,40 m de profundidade.
A forma era retangular. 3 m de largura por se de comprimento. A assinatura era metálica, uniforme e contínua. Não era rocha, não era raiz, era algo fabricado por mãos humanas. A escavação mecânica iniciou-se no dia 19. A 1,60 m de profundidade, a pada retroescavadora raspou em algo metálico. O som ecoou pelo vale, metal contra metal.
A partir a partir daí, o trabalho passou a ser manual. Foram necessários dois dias para expor a superfície toda. O que apareceu debaixo da terra era o tecto de um autocarro, amassado, corroído, invadido por raízes, mas reconhecível. A faixa lateral ainda mostrava fragmentos de letras educ. A matrícula foi confirmada, GH K3217.
O número de chassis correspondia ao registo do inquérito original, mas não foi o autocarro que chocou a polícia, foi o que estava à volta. A carcaça estava dentro de uma vala com muros regulares, quase verticais, fundo plano e nivelado. Não existia o perfil irregular de um desbarrancamento. A largura era compatível com a do autocarro acrescida de 80 cm de cada lado.
O geólogo registou no relatório que a A compactação das paredes era compatível com escavação mecânica e que o preenchimento tinha sido feito com o mesmo material removido, indicando operação planeada e executada em menos de 24 horas. Alguém tinha cavado um buraco para caber um autocarro. conduzido o veículo até àquele vale, colocado dentro e coberto tudo com a mesma terra, de propósito, com maquinaria pesada, provavelmente na mesma noite do desaparecimento.
No interior do veículo, os peritos encontraram fragmentos ósse dispersos entre os destroços. Ossos fragmentados, peças dentárias soltas, material degradado durante 35 anos em solo ácido. O antropólogo forense identificou fragmentos de pelo seis indivíduos distintos. Alguns eram inequivocamente de crianças, ossos demasiado curtos para adultos, dentição mista de quem ainda não tinha concluída a troca dos dentes de leite.
As amostras foram enviadas para o laboratório de genética forense de Belo Horizonte. Os resultados parciais divulgados em março de 2024 confirmaram correspondência genética com três famílias. Uma delas era a família de Renato Fonseca. A Dona Marta recebeu a notícia na varanda sentada na mesma cadeira de Vim.
Tinha 78 anos. Ouviu tudo em silêncio. Depois fez uma pergunta que o delegado não soube responder. Quem fez isto ao meu menino? O inquérito reclassificado como homicídio múltiplo foi transferido para o grupo de atuação especial do MP em Belo Horizonte. Investigadores começaram a levantar registos de propriedade, acesso a maquinaria pesada na região e movimentação de terras em obras naquele período.
Quem numa cidade onde todos se conheciam tinha motivo, meio e oportunidade para intercetar um autocarro escolar, levá-lo a 4 km por um caminho sem trilho e enterrá-lo numa vala cavada com precisão. Até ao fecho desta narrativa, o inquérito permanecia em andamento. Os exames de ADN continuavam. Nenhum suspeito tinha sido indicado. A pergunta da dona Marta continuava sem resposta.
O que a Terra devolveu não foi uma explicação, foi uma evidência. E a evidência dizia que aquelas 13 pessoas não desapareceram, foram desaparecidas. Histórias como esta são mais comuns do que os noticiários mostram. O padrão se repete, a ausência sem explicação, a busca que esbarra numa falta de recurso, o inquérito que pára, o silêncio que se instala e no centro de tudo famílias comuns que carregam um peso que ninguém deveria carregar sozinho.
Em cidades pequenas, onde o tempo passa devagar e a memória não tem onde se esconder. Enquanto o caso de Itanhandu ainda está em investigação, existe uma outra história na Serra do Caparaó que segue um caminho diferente e talvez mais perturbador. Um jovem de 24 anos desapareceu numa trilho que conhecia bem no Parque Nacional do Caparaó.
Os amigos com quem subiu voltaram no mesmo dia. Ele não voltou. Qu anos e três meses depois, apareceu a caminhar sozinho por uma estrada a 30 km do parque vivo. O que contou sobre onde esteve não fecha com qualquer explicação que a polícia ou os médicos conseguiram oferecer. Esta história está no vídeo que aparece no seu ecrã agora.
Algumas pessoas desaparecem e são encontradas. Algumas desaparecem. E nunca mais voltam, e algumas regressam, mas o que trazem consigo é pior do que a ausência.
Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.