O vestido estava pendurado no quarto, a festa marcada, o meu noivo à espera e eu não conseguia olhar para nada daquilo sem chorar. Eu tinha perdido o meu pai um mês antes do meu casamento e já não sabia como seguir em frente. Então, decidi ir até ao cemitério. E assim que Entrei pelo portão, percebi que havia algo de estranho naquele lugar.
O vento parou, o silêncio tornou-se diferente e eu Senti que não estava sozinha, até que uma mão tocou-me no ombro e ouvi a voz do meu pai. E a mensagem que ele tinha para mim: “O meu nome é Cláudia Figueiredo Gonçalves, tenho 58 anos e esta é a a minha história em minutos”. Quando cheguei à entrada do cemitério municipal de Maringá, parei um segundo antes de entrar.
Respirei fundo e passei pelo portão. Foi exatamente nesse momento em que o vento parou. Do nada, sem aviso, como se alguém tivesse fechado uma janela no meio do mundo. Um segundo antes tinha uma brisa fraca e no segundo seguinte não tinha mais nada. O ar ficou completamente parado. Fiquei ali parada por momentos, com a mão ainda no portão, e o silêncio que veio depois foi diferente de tudo o que já tinha sentido naquele lugar.
Não era o silêncio comum de um cemitério no fim do dia. Era mais pesado do que isso. Era como se estivesse à espera de alguma coisa acontecer. Olhei para dentro do cemitério. As árvores estavam paradas, as folhas não se mexiam. A luz solar que entrava pelas laterais tinha aquela cor de fim de tarde, mais a laranja.
Tudo estava muito quieto e aquele silêncio pesado foi crescendo enquanto eu ficava ali parada, sem conseguir dar o primeiro passo. Levei algum tempo até me conseguir mexer. Comecei a caminhar pelo corredor principal, devagar, olhando para os lados. Não tinha ninguém, nenhum funcionário, nenhum outro visitante, nenhum movimento, só eu entre as lápides e aquela quietude que ia ficando maior a cada passo que dava.
E foi aí que veio a sensação, uma coisa estranha que não consigo explicar bem nem hoje. A sensação clara de que não estava sozinha ali dentro. Tentei não ligar. disse para mim mesma que era coisa da a minha cabeça, que estava abalada demais e qualquer coisa me ia afetar naquele estado. Continuei a andar, segurando as flores com mais força do que precisava, mas a sensação não foi embora.
Ela ficou ali ao meu lado, quieta, enquanto eu seguia pelo caminho de terra batida entre as sepulturas. Meu pai tinha morrido um mês antes, um enfarte. Ele estava em casa. Era uma manhã normal de segunda-feira. E o o coração dele simplesmente parou. Minha mãe ligou-me a gritar e eu não não percebi nada do que ela disse na primeira vez.
Tive que pedir para ela repetir. E quando percebi, fiquei com o telefone na mão, sem me conseguir mexer durante um bom tempo. Tinha 61 anos, nunca tinha estado internado, nunca tinha-se queixado de nada de grave. Era daqueles homens que achamos que vão durar para sempre, porque nunca adoecem. E por isso a sua morte apanhou todos de surpresa.
Não teve tempo de despedida ou de paraa última conversa. Foi de uma hora para outra e acabou. A última vez que eu tinha falado com ele foi três dias antes por telefone, uma conversa rápida, daquelas que temos quando estamos com pressa. Perguntou se estava tudo certo com o casamento. Eu disse que estava.
Ele disse que ia ficar bonito e desligou. Foi isso. Três dias depois, ele já não estava cá e eu fiquei com aquela conversa curta como a última recordação da voz dele. Nos dias que vieram depois, fui vivendo no automático. Ajudei a organizar o velório. Fiquei do lado da minha mãe. Recebi as pessoas que foram dar os pêames.
Fiz tudo o que precisava ser feito. Mas por dentro estava noutro lugar. Parecia que estava a ver tudo de longe, como se aquilo não fosse real. como se em algum momento alguém fosse aparecer e dizer que tinha sido um engano. A dor foi chegando lentamente depois que a correria passou. Uma dor que eu não sabia que existia. Eu tinha perdido a voz antes.
Tinha perdido um tio quando era criança. Mas perder o pai é diferente. É uma dor que fica dentro do peito como um buraco que o vento passa. Continua a fazer tudo, mas aquele buraco não fecha. Você só vai se habituando-se com o tempo. Mas em alguns momentos, sem aviso, ele volta a doer como se fosse novo. E o pior era o momento em que estava a viver.
Um mês depois da morte dele, eu ia casar. O vestido estava pendurado no quarto branco, com aquele vé comprido que eu tinha escolhido juntamente com a minha mãe numa tarde de sábado. A festa estava marcada, o salão confirmado, a comida acertada, os convites já tinham ido, as pessoas já tinham confirmado.
Tudo pronto, menos eu. O Marcos, o meu noivo, tentava-me animar como podia. Dizia que o meu pai ia querer que eu fosse em frente, que cancelar não o ia trazer de volta, que a vida precisava de continuar. Eu sabia que ele tinha razão, mas saber que alguém está certo não significa que você consegue sentir o mesmo. A cabeça compreende, o coração demora mais tempo.
E o meu coração estava longe de compreender qualquer coisa naqueles dias. Toda vez que eu olhava para aquele vestido, eu pensava no meu pai. Pensava nele me vendo entrar no altar. Pensava na hora em que me ia entregar ao Marcos, porque era assim que eu tinha imaginado aquele dia desde que era menina. Ele de fato, o braço dele no meu, os dois a caminhar juntos até ao altar.
E agora aquilo não ia acontecer. Aquela imagem que eu tinha guardado a vida inteira simplesmente não se ia realizar e doía de uma forma que eu não sabia como carregar. Eu cheguei a ligar para o salão a pensar em cancelar tudo. Fiquei com o telefone na mão durante uns 10 minutos e não consegui fazer a chamada. Não porque não quisesse, mas porque uma parte de mim sabia que o meu pai não ia gostar.
Era daqueles que acreditavam que a vida tinha de seguir, não importava o que acontecesse. E aquela parte de mim que o conhecia bem ficou segurando-me. Foi por isso que decidi ir ao cemitério antes do casamento. Não tinha um plano, não sabia o que eu esperava encontrar ou sentir ali. Só sabia que eu precisava de estar perto dele de alguma forma.
Precisava de falar com ele, mesmo sem saber se ele ia ouvir. Precisava de olhar para o lugar onde ele estava e dizer o que não tinha conseguiu dizer quando ainda estava aqui. Assim, peguei nas flores e fui. E agora estava ali a caminhar devagar por aquele corredor quieto, com o vento parado e aquela presença estranha colada ao meu lado, as flores na mão, o coração apertado, a cabeça cheia de tudo o que eu ainda não tinha conseguido resolver.
e o caminho até à sepultura do meu pai ainda pela frente. Eu não sabia o que ia acontecer quando lá chegasse, mas eu sabia que precisava. A sepultura do o meu pai fica no fundo do cemitério, no corredor da direita, perto de uma árvore grande. Eu já sabia o caminho de cor, mas naquele dia cada passo parecia mais pesado do que o normal.
Não era cansaço, era outra coisa, como se o chão estivesse a puxar os meus pés para baixo de cada vez que tentava avançar. Fui chegando devagarinho. Quando Virei nesse caminho à direita e avistei a árvore lá ao fundo, o coração apertou de uma forma diferente. Não era a primeira vez que lá ia desde que tinha morrido, mas era a primeira vez que ia com aquela pergunta dentro de mim, com aquela dúvida que eu não conseguia resolver sozinha e que ninguém mais parecia entender da forma que eu precisava. Parei em frente da sepultura
dele, coloquei as flores no pequeno vaso com cuidado, endireitei as que tinham ficado tortas e fiquei a olhar para o nome dele na pedra durante algum tempo. Carlos Lima Figueiredo. Data de nascimento, 1932. E data de falecimento, 1993. Uma vida inteira resumida em duas datas e um nome.
Aquilo sempre me incomodou quando eu ficava a olhar por tempo demais. Então ajoelhei-me no chão devagar. O chão estava frio, igual ao da vez anterior. Coloquei as mãos no colo e Fiquei quieta por um momento, tentando organizar o que queria dizer. Mas as palavras não vinham por ordem. Elas ficavam misturadas na cabeça, uma em cima da outra.
E eu não sabia por onde começar. Então comecei pelo princípio, da maneira que eu sempre fazia com ele quando tive um problema. Eu disse que estava com saudades, que cada dia sem ele estava a ser mais difícil do que o anterior, que a minha mãe estava a tentar manter-se firme, mas que eu via que ela estava mal, que o Marcos estava a ser doente comigo, mas que eu não conseguia ser a noiva que eu queria ser, que acordava todos os dias pensando nele, que eu olhava para a cadeira dele na mesa e precisava de desviar o olhar.

Aí eu Falei sobre o casamento. disse que não sabia se conseguia entrar naquele altar sem ele, que a ideia de caminhar sozinha até o Marcos, sem o braço dele me apoiando, era uma coisa que eu não conseguia nem imaginar direito sem a cabeça a girar, que eu tinha ensaiado aquele momento na minha cabeça tantas vezes desde criança, e em todas elas ele estava do meu lado.
A voz foi quebrando enquanto eu falava. Eu não tentei segurar. Deixei sair da forma que veio. Ali não estava ninguém para me ver, não não tinha ninguém para eu precisar de ser forte, era só eu e ele. E eu disse tudo. Tudo o que estava a guardar fazia dias dentro de mim, sem ter para onde ir. Ali foi o local onde o consegui.
Quando acabei de falar, disse que eu precisava de um sinal. Só um. qualquer coisa que me mostrasse que estava tudo bem, que eu podia ir em frente, que ele estava bem onde estava e que o casamento podia acontecer sem que eu me sentisse errada por isso. Não tinha de ser nada grande, só precisava de ser alguma coisa que eu soubesse que era dele e de mais ninguém.
Depois de pedir, fiquei quieta, fechei os olhos e esperei. O silêncio lá dentro do cemitério continuava pesado, diferente, igual a quando tinha entrado pelo portão. Mas agora não tinha mais nem o barulho dos meus próprios passos para preencher o espaço. Era só aquele silêncio enorme à minha volta, o chão frio debaixo dos meus joelhos e a a minha respiração que eu tentava controlar.
Fiquei assim durante um tempo que não sei quanto foi esperando, mas nada aconteceu. Nenhum sinal, nenhum barulho diferente, sem sensação nova. O ar continuava parado, o silêncio continuava pesado e eu continuava ali ajoelhada com o coração cada vez mais apertado. Comecei a achar que eu tinha vindo até ali à toa e que eu ia embora do mesmo modo que eu tinha chegado. Resolvi ficar mais um pouco.
Tentei lembrar-me da voz dele, do jeito que ele falava. Foi então que me apercebi uma coisa estranha. A temperatura tinha mudado. Não era o frio do chão que eu já estava a sentir desde que me ajoelhei. Era um frio que vinha do ar de repente. Num segundo estava normal. No seguinte estava frio de uma maneira que não fazia sentido para aquela hora da tarde.
Eu Abri os olhos, olhei para os lados, não não havia nada de diferente, mas o frio continuava. E foi aí que senti o cheiro. Um cheiro que eu conhecia bem, o cheiro do meu pai. Aquele cheiro era tão dele que não consegui fazer nada por um momento. Só fiquei ali parada, com o cheiro enchendo o ar à minha volta, sem compreender como aquilo era possível.
O meu coração foi acelerando devagar, mas não era medo o que estava a sentir. Era outra coisa que não sabia nomear. Fiquei parada mais um pouco, com o cheiro ainda no ar. Não queria mexer-me até que comecei a levantar-me. E foi exatamente nesse momento que tudo mudou de vez. Eu estava quase de pé quando senti.
Não foi um barulho, não foi um movimento, foi um toque leve no meu ombro direito, como uma mão que pousa devagar, sem pressas, da maneira que a gente faz quando quer chamar a atenção de alguém sem assustar. O coração disparou de uma forma que eu não esperava. Não era o coração acelerado de quando a gente corre ou leva um susto. Era uma coisa diferente, mais fundo, como se o coração soubesse de alguma coisa que eu ainda não sabia.
Tentei pensar racionalmente. Disse para mim mesma que podia ter sido o vento, uma folha, qualquer coisa, mas não havia vento. O ar continuava completamente parado, igual estava desde que tinha entrado pelo portão. E a sensação no ombro era demasiado específica para ser qualquer outra coisa. Era o formato de uma mão.
Firme o suficiente para eu sentir, leve o suficiente para não pesar. Devagar, bem devagar, virei a cabeça para o lado direito, olhei para o meu ombro. Não não tinha nada, nenhuma mão, nenhuma sombra, nada que pudesse explicar o que tinha sentido. Olhei para os lados, olhei para trás. O cemitério continuava vazio.
Não não tinha absolutamente ninguém além de mim ali dentro. Foi então que a voz veio baixa, muito perto, quase dentro do meu ouvido direito, do mesmo lado onde eu tinha sentido o toque. Não era um sussurro, era uma voz verdadeira, uma voz que eu conhecia melhor do que qualquer outra no mundo. Era a voz do meu pai, dizendo: “Minha filha, eu sempre vou estar contigo”.
as mesmas palavras que ele me dizia desde que eu era criança. Cada vez que ia fazer algo importante, cada vez que o o medo chegava antes de mim, chegava junto, colocava a mão no meu ombro e dizia exatamente isso. A minha filha, eu vou estar sempre com você. Eu não me movi, não gritei, não corri, não fiz nada, só fiquei de pé em frente à sepultura dele, com aquelas palavras ainda no ar à minha volta.
O coração estava acelerado, mas a cabeça estava estranhamente quieta. E aquela voz tinha sido tão clara, tão próxima, tão real, que não conseguia convencer a mim mesma de que tinha imaginado. E o que eu sentia não era medo, era uma coisa que não sei nomear bem até hoje. Era como se um nó que estivesse apertado dentro do meu peito desde o dia que o meu pai morreu tivesse afrouxado de repente, como se alguma coisa se tivesse encaixado no local certo.
Quando as pernas voltaram a obedecer-me, dei um passo atrás, depois outro. Fui saindo lentamente, sem virar as costas a a sua sepultura, como se eu precisasse continuar a olhar para aquele lugar por mais um tempo. Quando finalmente me virei-me e comecei a caminhar de volta pelo corredor, as pernas tremiam.
E eu andava lentamente, com a mão espalmada no peito, sentindo o coração que ainda estava acelerado, mas que ia abrandando o ritmo a cada passo que dava. Saí pelo portão do cemitério, sem olhar para trás. A rua estava igual a quando eu tinha chegado. A luz do fim de tarde ainda laranja, as casas fechadas, o silêncio de bairro quieto à volta, mas eu estava diferente, muito diferente.
Alguma coisa dentro de mim tinha mudado naquele cemitério e qualquer pessoa que me conhecesse bem teria percebido só de olhar para o meu rosto. Fui andando até casa sem parar em nenhum lugar. Não tinha cabeça para falar com ninguém. Não queria encontrar ninguém no caminho. Precisava chegar, precisava de se sentar.
Precisava ficar com aquilo que tinha acontecido por mais um tempo antes de ter de explicar a alguém. Não sabia sequer se ia conseguir explicar. Algumas coisas a gente vive e não sabe como colocar em palavras. Mas eu sabia que aquilo tinha sido real. Quando entrei, a primeira coisa que vi foi o vestido pendurado no cabide branco, com o vé dobrado em cima da cadeira do lado.
E pela primeira vez, desde que o meu pai tinha morrido, eu Olhei para aquele vestido sem sentir o aperto no peito. Fiquei a olhar por um bom tempo, quieta, com aquelas palavras ainda a ecoar dentro de mim. Minha filha, eu vou estar sempre contigo. O casamento ia acontecer. Eu não precisava mais ficar na dúvida.
A decisão já estava tomada e ela não tinha vindo de mim. Tinha vindo de onde eu mais precisava que viesse, do único lugar que ainda faltava. Eu podia entrar naquele altar, podia casar, podia viver aquele dia inteiro, porque ele me tinha dito que ia lá estar. Eu acordei no dia do casamento diferente. Não sei explicar direito, mas era uma diferença que eu sentia antes mesmo de abrir os olhos, como se durante a noite alguma coisa se tivesse reorganizado dentro de mim.
Tinha dormido de verdade, coisa que não acontecia há semanas. E quando abri os olhos e vi a luz da manhã entrando pela janela, o primeiro pensamento que veio não foi de tristeza, foi de calma. Levantei-me devagar e fui até à casa de banho. Olhei para o espelho por um tempo. Tinha olheiras, tinha o rosto cansado de tudo o que tinha passado nesse mês.
Mas havia outra coisa também, uma coisa que eu não via fazia tempo. Parecia que estava inteira de novo. Não completamente, porque a a saudade não desaparece de um dia para o outro, mas inteira o suficiente para que aquele dia. A minha mãe chegou cedo para me ajudar a arranjar-me. Ela entrou no quarto, viu-me e ficou a olhar para mim por um segundo sem dizer nada.
Depois disse que eu estava diferente. Perguntou o que tinha acontecido. Eu não lhe contei sobre o cemitério. Não era a hora e eu nem sabia se ia conseguir colocar em palavras ainda. Mas disse-lhe que estava bem e era verdade. Ela acreditou porque era visível. Enquanto me arranjava, enquanto a minha mãe me penteava o cabelo e ajeitava o véu, fui sentindo uma coisa estranha no quarto, uma leveza que não era minha nem dela.
Era como se estivesse mais alguém ali dentro, quieto, observando. Não era um medo, não era um frio, não era nada assustador. Era uma presença tranquila, quente, como ele era quando estava no mesmo ambiente que nós, sem precisar de falar. Eu não não disse nada. Continuei sentada na cadeira.
Deixando a minha mãe trabalhar e fui ficando com aquela sensação. Era diferente do que tinha sentido no cemitério. Lá tinha sido intenso, surpreendente, cheio de coisas que eu não entendia. Aqui era simples. Era só uma presença que ficava no canto do quarto e dizia-me, sem palavras, que estava tudo bem, que eu podia ir. Quando o vestido foi colocado e o vé foi ajeitado, e a minha mãe recuou para me ver de longe com os olhos cheios de água, eu virei-me para o espelho e, pela primeira vez, num mês, eu Consegui ver-me como noiva, não como filha que perdeu o pai, não como mulher
que estava a carregar uma dor enorme, mas como noiva, pronta para casar, com o coração no lugar certo. Chegamos à igreja e eu fiquei do lado de fora aguardando a hora de entrar. As pessoas já estavam lá dentro. Eu podia ouvir o murmúrio das conversas e o som do órgão que ia começar a tocar. O Marcos estava lá dentro à minha espera e eu estava do lado de fora, sem o braço do meu pai para me apoiar, tendo de entrar sozinha naquela porta.
Respirei fundo uma vez, Olhei para a entrada da igreja por um segundo e foi aí que o senti novamente. Não da mesma forma que no cemitério, não da mesma forma que no quarto. Era diferente. Era como se alguém tivesse chegado do meu lado esquerdo e ficado ali. Não encostou, não tocou, apenas ficou da maneira que ele ficava quando a gente andava junto na rua.
E ele queria-me proteger de alguma coisa sem que eu percebesse. A música começou. Eu dei o primeiro passo e do primeiro ao último passo daquele corredor, não me senti sozinha uma vez. Cada passo que dava tinha aquela presença do meu lado, quieta, firme, sem chamar a atenção de ninguém além de mim. E fui andando com o bouquet nas mãos, olhando para o Marcos lá à frente, e soube que estava sendo acompanhada da forma que eu sempre precisei.
Quando cheguei à frente do altar e o Marco segurou-me a mão, eu Olhei para ele e sorri, um sorriso de verdade, daqueles que não necessitam de esforço. Ele olhou-me de volta com aquele olhar de alívio e de amor misturados e apertou-me a mão. E eu soube exatamente de onde vinha a paz que estava a sentir naquele momento. Sabia desde o dia anterior, lá no cemitério.
Eu olhei para a primeira fila. A cadeira onde o meu pai se ia sentar estava vazia. Todo o mundo podia ver que estava vazia, mas não vi vazio. Eu Senti que aquele lugar estava ocupado de uma forma que os olhos não conseguem ver. E não tentei explicar a mim mesma. Não tentei convencer ninguém de nada. Só aceitei.
Ele estava ali da forma que ele podia. E era mais do que suficiente. Durante a cerimónia, as lágrimas vieram num momento que eu não esperava. Não foi na entrada, não foi na troca de alianças. Foi quando o padre falou sobre amor que não acaba com a morte. Aquelas palavras apanharam-me desprevenida e as lágrimas desceram antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
Mas não eram lágrimas de tristeza, eram de outra coisa, de gratidão, acho, de certeza. O O Marcos apercebeu-se e apertou a minha mão de novo, sem dizer nada. E eu deixei as lágrimas descerem da forma que precisavam de descer, sem tentar esconder, sem tentar ser forte, porque naquele momento não precisava de ser forte.
Eu estava exatamente onde eu precisava estar, com quem precisava de estar. E o o meu pai também lá estava. Eu sabia que com uma certeza que não necessitava de prova. Depois da cerimónia na festa, eu fui vivendo aquele dia hora a hora. Cumprimentei as pessoas, comi, dancei com o Marcos, ri-me com os amigos, fui estar noiva do jeito que sempre quis ser.
E em momento algum desse dia eu Senti-me com aquele buraco no peito que tinha carregado o mês inteiro. Ele ainda lá estava, algures fundo, mas naquele dia ele não doeu. Na hora da valsa com o Marcos, fechei os olhos por um segundo enquanto rodávamos. E nesse segundo, com a música a tocar e o braço do Marcos às minhas costas, pensei no meu pai, não com tristeza.
Pensei nele a sorrir daquele jeito dele, com a boca fechada e os olhos semicerrados, ver a filha dele dançar. E senti que ele via de algum lugar que eu não sei onde fica, ele via. Quando a festa acabou e eu e o Marcos íamos embora, parei um segundo à saída e Olhei para trás, para o salão que estava ficando vazio. Não sei bem porque parei.
Só sei que parei e fiquei a olhar por um momento e senti aquela despedida silenciosa de novo, como alguém que acompanhou tudo do início ao fim e agora ia-se embora sem fazer barulho, do jeito quieto que era o seu feitio. Sorri, virei costas ao salão e Fui-me embora com o meu marido. E carrego esse dia comigo até hoje, 33 anos depois.
Não como o dia em que o meu pai esteve ausente, mas como o dia em que eu aprendi que ausente e longe são coisas muito diferentes. O meu pai cumpriu a promessa que me fez naquele cemitério à maneira dele, do único jeito que ainda era possível. Se já sentiu a presença de alguém que lhe perdeu num momento em que mais precisava, digita acredito aqui nos comentários porque sempre achei que ia enfrentar aquele altar sozinha e não fui. Ele estava lá.
E se já viveu algo do género, gostaria de saber. Que Deus abençoe cada dia da sua semana. Cuida de si, cuida de quem ama e até ao próximo relato.