20 Estudantes Desapareceram Depois Da Escola Em 1994 — 30 Anos Depois, Seu Ônibus Foi Encontrado
Em 14 de outubro de 1994, às 16:22 da tarde, o autocarro escolar de placa cinzento e faixa amarela saiu do portão lateral da Escola Estadual Professora Iracema de Souza, no município de Barcarena, no interior do Pará. Levava 20 alunos com idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos. um motorista de nome Osvaldo Pimentel dos Santos e uma monitora de nome Regina Barbosa Lima.
O percurso era o mesmo de sempre, 47 km pela PA481 até ao distrito de Vila do Conde, onde a maioria das crianças viviam em casas simples, de alvenaria sem reboco, distribuídas ao longo de ramais de terra batida que cortavam a densa floresta da região. O autocarro nunca chegou. Naquela noite, a primeira mãe a ligar para o escola foi Sônia Maria Figueiredo, mãe de dois dos alunos, Lucas de 11 anos e Amanda de 9.
Ligou às 18:40 quando o céu já estava escuro e os rapazes não tinham aparecido no ponto onde ela sempre esperou. Sentada num banquinho de plástico debaixo de uma mangueira. A secretaria da escola não atendeu. A Sónia ligou de novo às 19:15. Depois às 19:50. Quando finalmente conseguiu falar com alguém, a funcionária disse que o autocarro tinha saído à hora habitual e que provavelmente era problema de estrada.
Disse para esperar. A Sónia esperou 30 anos. Não foi um acidente de viação com registo no Detran. Não foi uma queda de ponte sobre o Igarapé com corpo de socorro acionado na mesma semana. Não foi um caso que apareceu no Jornal Nacional e mobilizou helicópteros e equipas federais. Foi o desaparecimento silencioso de 20 crianças, um motorista e uma monitora numa sexta-feira à tarde numa estrada estadual do interior do Pará e numa época em que não havia câmara de segurança nas rodovias, não havia GPS nos veículos escolares, não
existia sistema integrado de rastreamento de pessoas desaparecidas e o boletim de ocorrência de uma criança desaparecida no interior da Amazónia. demorava semanas a chegar à capital. Barcarena fica a pouco mais de uma hora de Belém por Balsa. É uma cidade que nos anos 90 vivia entre o pólo industrial de alumínio e as comunidades ribeirinhas, que ainda dependiam da lavoura e do rio.
A PA481, que ligava o centro ao distrito de Vila do Conde, era uma estrada asfaltada em troços e de terra noutros. lade por vegetação cerrada, com curvas apertadas e troços onde a copa das árvores formava um túnel natural que escurecia a pista, mesmo com sol alto. Nos dias de chuva, e outubro é mês de chuva no Pará, a estrada tornava-se outra coisa.
E o asfalto acabava, o barro tomava conta e os autocarros escolares, quase todos com manutenção precária, faziam o percurso no limite. O autocarro que desapareceu naquela tarde era um Mercedes-Benz 1313 de 1986, corinza, com a faixa escolar pintada à mão. Osvaldo, o motorista, tinha 53 anos e fazia aquele percurso havia 11.
Conhecia cada buraco, cada curva, cada ponto onde o asfalto cedia na estação das chuvas. Era um homem calado, de bigode ralo e boné do remo, que os pais conheciam pelo apelido o senhor Valdo, e em quem confiavam sem pensar duas vezes. Regina, a monitora, tinha 28 anos e era professora substituta na própria escola.

Tinha aceite a função de acompanhante porque precisava do complemento de rendimento para pagar o aluguer de um quarto no centro de Barcarena. 20 crianças, um motorista, uma monitora do um velho autocarro numa estrada do Pará. Uma sexta-feira de outubro, em 2024, 30 anos depois, uma equipa de topografia contratada por uma empresa mineira para mapear um terreno a 14 km da PA481, dentro de uma área de floresta densa, identificou uma anomalia no solo.
O radar de penetração terrestre acusou uma massa metálica de grandes dimensões a 3 m de profundidade. Quando a escavação começou, o que apareceu debaixo da terra vermelha foi a carcaça de um autocarro escolar cinzento, com uma faixa amarela desbotada e com a placa que constava no auto de notícia, registado em 17 de outubro de 1994.
Três dias depois do desaparecimento, dentro do autocarro não estava ninguém. Se este tipo de história faz repensar o que acontece longe dos noticiários e das câmaras, subscreva o canal e deixe a sua reflexão nos comentários. E cada voz conta para que histórias como essa não sejam esquecidas outra vez. A a partir daqui, a história avança lentamente e precisa de ser contada assim.
Porque há 30 anos de silêncio entre aquela sexta-feira de outubro e a escavação que trouxe o autocarro de volta à superfície. O que acontece a uma comunidade inteiro quando 20 crianças desaparecem ao mesmo tempo e ninguém encontra nada? Em que momento uma mãe deixa de esperar e começa a procurar sozinha o que a polícia já desistiu de encontrar? E o que significa encontrar o autocarro? mas não encontrar nenhuma criança dentro dele.
Estamos em Barcarena, Pará, em Outubro de 1994. O Brasil vive os primeiros meses do Plano Real. Uma ligação interurbana custa caro. Um boletim de ocorrência feito no interior demora semanas a entrar no sistema da Secretaria de Segurança. E numa estrada de terra batida ladeada por floresta amazónica, um autocarro cheio de crianças pode desaparecer sem deixar rasto.
Na Escola Estadual Professora Iracema de Souza, a sexta-feira era o dia mais curto. As aulas terminavam às 16 horas. meia hora antes do resto da semana, porque a diretora Marlci Tavares tinha negociado com a Direção de Educação um horário reduzido para que os alunos da zona rural pudessem chegar a casa antes de escurecer. O autocarro de Valdo estacionava sempre no mesmo local, debaixo de uma castanheira velha, no terreno de terra batida junto ao portão lateral.
E as crianças iam subindo aos poucos com mochilas de nylon coloridas e garrafas de plástico penduradas ao pescoço. Naquela sexta-feira, 14 de outubro, a monitora Regina conferiu a lista de presenças duas vezes antes de bater na lateral da porta para avisar o motorista que podia seguir. Eram 20 nomes, todos estavam ali.
A escola ficava numa rua sem pavimento, entre um depósito de materiais de construção e uma oficina mecânica que reparava motores de rabeta. O edifício era térrio, com paredes de tijolo à vista, pintadas de branco e azul, janelas de ferro sem vidro e um pátio interior onde as crianças brincavam no intervalo debaixo de uma cobertura de telha amianto, que aquecia tanto no meio-dia que os professores libertavam os alunos mais cedo, nos meses de verão.
escola atendia cerca de 240 alunos distribuídos por dois turnos. O turno da tarde, que era o de Valdo, reunia maioritariamente crianças da zona rural, filhos de trabalhadores do campo, de pescadores, do defuncionários das olaras que funcionavam ao longo do rio Murucupi. Estas crianças acordavam cedo, caminhavam até aos pontos de autocarro, nos ramais de terra e chegavam à escola com os pés sujos de lama e as mochilas zonas húmidas da travessia.
Muitas levavam o lanche de casa, farinha, peixe frito embrulhado em folha de bananeira, pedaços de macaeira cozida. Outras dependiam da alimentação escolar, que nesse mês de outubro era arroz com feijão e quando havia um pedaço de frango desfiado. O autocarro de Valdo era para aquelas famílias mais do que transporte.
Era a garantia de que os filhos iam e voltavam. Era a estrutura mínima que o Estado oferecia para que a educação funcionasse naquele canto do Pará. Nessa sexta-feira, o autocarro saiu da escola com as janelas abertas e fazia calor. O tipo de calor húmido do norte do Brasil que não cede nem com o fim da tarde.
As crianças falavam alto, como sempre. Algumas sentavam-se no fundo e batucavam no teto de metal. Outras dormiam encostadas às janelas cansadas da semana. Regina ia sentada no primeiro banco do lado direito com a prancheta no colo. Sealdo ajustou o espelho retrovisor, ligou o motor e saiu lentamente pelo portão lateral. A funcionária da secretária, Maria de Lourdes Araújo, foi a última pessoa de fora do autocarro a ver o veículo.
Disse depois que acenou com a mão e que viu a traseira do autocarro virar à esquerda, na esquina da rua, em direção à PA481. Disse que não diferente. Disse que era uma sexta-feira como qualquer outra. Não era Sónia Maria Figueiredo foi a primeira a perceber que algo estava errado, mas não foi a única. Às 19 horas dessa noite, pelo menos sete famílias do distrito de Vila do Conde já tinham saído de casa e ido a pé até à beira da PA481, esperando ver os faróis cinzentos do autocarro surgindo na curva depois do posto de gasolina desativado.
Não havia telemóvel para ligar, não havia rádio comunitário funcionando aquela hora. O que havia era a estrada escura, o barulho dos grilos. E o cheiro a chuva que não caiu nessa noite, mas que pairava no ar como uma ameaça muda. A Sónia morava numa casa de dois cômodos no final de um ramal que saía da PA481, a cerca de 3 km do ponto onde o autocarro deixava os filhos.
Todas as sextas-feira ela saía de casa às 17:30 lhe caminhava até à estrada com os chinelos de dedo a afundar na terra mole e sentava-se no banquinho de plástico branco que o marido ali tinha deixado antes de ir trabalhar para uma quinta no Marajó, de onde regressava a cada dois meses. ponto ficava por baixo de uma mangueira grande, de tronco grosso e copa, que dava sombra até quando o sol estava baixo.
Ali, Sónia esperava Lucas e Amanda descerem do autocarro, apanhava as mochilas das mãos dos dois e voltava para casa perguntando o que tinham aprendido nesse dia. Era uma rotina que se repetia há tr anos, desde que O Lucas começara a frequentar a escola no centro de Barcarena. Naquela sexta-feira, a Sónia chegou ao ponto no horário habitual. Esperou.
O autocarro não veio às 17:45, que era o horário habitual. Não veio às 18 horas. Não veio às 18:30. Quando o céu escureceu de vez e no Pará em outubro, e o céu escurece rapidamente, sem aviso. A Sónia voltou para casa e tentou ligar para mais uma escola, utilizando o telefone da vizinha, a dona Graça, que era uma das poucas pessoas do ramal, que tinha linha fixa.
A primeira ligação não completou, a segunda desceu, a terceira tocou, tocou e ninguém atendeu. Quarta tentativa, às 19h50, uma funcionária de limpeza, que ainda estava na escola, atendeu e disse que não sabia de nada, que o autocarro tinha saído a horas e que talvez tivesse pneu furado na estrada. Enquanto isso, outras famílias faziam o mesmo.
António Carlos Ribeiro, pai de Thago, de 13 anos, caminhou 2 km pela PA481 com uma lanterna a pilhas, iluminando as valetas de ambos os lados da estrada, procurando sinais de travagem, marcas de pneu, qualquer coisa. Não encontrou nada. Nazaré Freitas, mãe da Camila, de 10 anos. E foi a casa do vereador do distrital, bateu à porta e pediu ajuda.
O vereador disse que ia ligar para o câmara municipal na segunda-feira. Joana Batista, avó de Pedro Henrique, de 9 anos, acendeu uma vela na janela do cozinha e rezou todo o terço, de joelhos no chão de cimento frio, pedindo a Nossa Senhora de Nazaré que trouxesse o menino de volta. Ninguém dormiu nessa noite em Vila do Conde.
As luzes das casas ficaram acesas. Os cachorros ladraram a noite inteira, como se sentissem que algo estava fora do lugar. E quando o sol nasceu no sábado 15 de outubro, a estrada continuava vazia. O autocarro cinzento não tinha voltado. Nenhuma criança tinha aparecido e nenhuma autoridade tinha sido accionada. O fim de semana passou assim, com as famílias à espera, perguntando umas às outras, percorrendo troços da estrada a pé e de bicicleta e tentando perceber o que tinha acontecido.
Alguns pais foram à escola no sábado e encontraram o portão fechado ou com cadeado. Outros foram até à garagem onde o autocarro era guardado, à entrada de Barcarena, e encontraram o portão igualmente fechado, sem qualquer funcionário. O telefone da diretora Marluci não atendia, o telefone da Secretaria de A educação também não.
O Brasil, de 1994, não tinha serviço de urgência escolar, não tinha protocolo de comunicação entre escola e família fora do horário comercial. O que havia era o silêncio institucional do fim de semana e a crescente angústia de quem não sabia onde estavam os filhos. O primeiro registo oficial do desaparecimento não foi feito na noite de sexta-feira, nem no sábado, nem no domingo.
Foi feito na segunda-feira, 17 de outubro de 1994. E quando o pai de uma das crianças, Raimundo Nonato da Conceição, pedreiro 41 anos, apanhou boleia de um camião até à esquadra de Barcarena e insistiu em registar o que a polícia inicialmente tratado como um atraso comum de transporte escolar no interior. O delegado de serviço, segundo o relato que Raimundo repetiria durante o resto da vida, ouviu a história toda sem levantar os olhos do formulário e perguntou se o autocarro não teria simplesmente partido em algum ramal e o motorista ido buscar ajuda a pé.
Raimundo era um homem de poucas palavras. Tinha as mãos grandes, calejadas, de argamassa e tijolo e uma paciência forjada em anos de trabalho manual debaixo de sol forte. Mas naquele momento, perante o delegado, sentiu algo que não sabia nomear, uma mistura de raiva e impotência que subia pelo peito e travava na garganta.
D explicou que o autocarro transportava 20 crianças. Explicou que nenhuma delas tinha chegado a casa. Explicou que já tinham passado três dias. Explicou que ninguém, nem a escola, nem a câmara municipal, nem a polícia, tinham feito nada. O delegado, um homem chamado Agenor Pinheiro Matos, registou o boletim de ocorrência como desaparecimento de veículo e passageiros, não como rapto, não como crime contra menores, não como uma situação de emergência, como o desaparecimento de veículo e passageiros.
uma categoria administrativa que no sistema policial da época não gerava procura imediata nem mobilização de efetivos. O BO recebeu um número de protocolo, foi assinado por Raimundo com letra trémula e arquivado numa pasta de papel pardo juntamente com outros registos do mês. Raimundo perguntou o que ia acontecer a seguir.
O delegado disse que o caso seria encaminhado para a Polícia Civil de Belém e que, se necessário, uma equipa de investigação seria designada. Disse que estas coisas levavam tempo. Disse que era preciso ter calma. Raimundo saiu da esquadra às 11 horas da manhã, caminhou até à beira do rio Murucupi, sentou-se numa pedra e ficou a olhar para a água escura passar.
O seu filho, Mateus, tinha 12 anos e queria ser jogador de futebol. Vestia uma camisa do pai Zandu que o tio tinha dado no seu aniversário. Tinha um caderno onde desenhava campos de futebol com baliza e adeptos. Raimundo não sabia onde estava o menino e acabava de perceber que o estado também não ia saber tão cedo. Dois dias depois, o auto de notícia chegou à Polícia Civil em Belém.
Foi recebido por um escrivão que o registou no sistema e encaminhou-o para a divisão de desaparecidos e que nessa altura funcionava com três investigadores para todo o estado do para. três investigadores para um território maior do que a França, a Espanha e a Alemanha juntos. O caso do autocarro de Barcarena entrou na fila e a fila era longa.
A primeira equipa de busca só foi montada na quarta-feira, 19 de outubro, 5 dias após o desaparecimento. Não era uma operação organizada pelo estado. um grupo de 11 homens da própria comunidade de Vila do Conde, liderados por um ex-seringueiro chamado Benedito Alves Correa, que conhecia a mata dos dois lados da PA481, como conhecia o caminho da sua própria casa.
Benedito reuniu os homens no terreiro da igreja de São Sebastião às 5 horas da manhã, distribuiu machetes e garrafas de água e disse uma única frase antes de entrar na mata. Se o autocarro saiu da estrada, o mato já fechou por cima. E Benedito tinha 62 anos. Era um homem magro, de pele escura e enrugada pelo sol, que tinha passado a juventude a cortar seringa nos seringais do baixo Tocantins antes de se mudar para Vila do Conde, nos anos 80.
Conhecia a floresta de um forma que a maioria das pessoas da cidade não conhece. pelo cheiro da terra, pelo som dos pássaros, pela cor da folhagem que muda consoante a estação do ano. Sabia que a floresta em redor da PA481 era densa, de sub-bosque fechado, com árvores de porte médio e lianas, que formavam barreiras quase intransponíveis a poucos metros da berma da estrada.
Sabia também que em cinco dias de chuva e calor, a vegetação podia cobrir os vestígios de qualquer coisa, inclusive de um autocarro. O grupo caminhou durante quatro dias e percorreram os dois lados da PA481 num raio de 10 km a partir do último ponto onde o autocarro teria sido avistado. A saída de Barcarena, em direção à vila do Conde. Entraram em ramais abandonados.
Atravessaram ribeiros de água turva. Cortaram-se pó com um facão durante horas para abrir caminho. Encontraram carcaças de carros velhos abandonados na mata havia anos. Encontraram restos de acampamentos de caçadores. Encontraram lixo. Encontraram garrafas, plástico, latas enferrujadas. Mas não encontraram o autocarro.
Não encontraram marcas de pneus a sair da estrada. não encontraram qualquer sinal de que um veículo de grandes dimensões tivesse entrado na mata naquele troço. No quarto dia, o Benedito sentou-se num tronco caído, tirou o boné e passou a mão na testa suada. olhou para os homens ao redor, todos cansados, com as roupas rasgadas pelo mato, nem compicadas de inseto nos braços e no pescoço.
E disse que não adiantava continuar ali. Disse que o autocarro não tinha saído da estrada naquele trecho. Disse que ou tinha ido para outro lugar ou tinha sido levado por alguém. Os homens voltaram para a vila do conde naquela tarde em silêncio. As mães estavam à espera na beira da estrada, como faziam todas as tardes desde sexta-feira.
Quando viram os homens a regressar sem notícia, algumas baixaram a cabeça, outras entraram em casa sem dizer nada. A Sónia ficou parada no ponto de sempre, debaixo da mangueira, com o banquinho de plástico na mão, olhando para a estrada vazia. Nessa noite, o Benedito foi até ao esquadra de Barcarena e pediu para falar com o delegado.
Disse que a comunidade tinha feito a busca que a polícia não o tinha feito. Disse que não não tinham encontrado nada e disse que o caso era grave e que necessitava de investigação profissional. peritos, cães farejadores, helicóptero, algo que a comunidade não tinha condições para o fazer. O delegado Agenor anotou as informações e disse que ia reforçar o pedido junto da Secretaria de Segurança em Belém.
Benedito perguntou quando é que o delegado disse que ia fazer o possível. Bento saiu da esquadra sabendo que o possível naquele contexto significava muito pouco. Enquanto a comunidade organizava buscas por conta própria, a Secretaria Municipal de Educação de Barcarena emitiu em 21 de outubro de 1994 uma nota de três parágrafos informando que tinha tomado conhecimento do incidente e que estava em contacto com as autoridades competentes.
nota não mencionava o nome de qualquer criança, não mencionava o nome do motorista, não mencionava o nome da monitora, não mencionava o modelo do autocarro, a placa, o percurso, nem o hora da última vez que o veículo foi visto. Era o tipo de documento que parecia ter sido escrito para existir num ficheiro, não para informar ninguém.
A nota foi lida na Câmara Municipal numa sessão ordinária a que compareceram quatro vereadores. Nenhum deles fez perguntas, nenhum deles pediu esclarecimentos adicionais. O presidente da Câmara, um homem ligado ao grupo político que controlava a autarquia, leu a nota em voz alta, agradeceu a colaboração da secretaria e passou para o ponto seguinte da ordem de trabalhos, que era a aprovação de um contrato para a renovação do mercado municipal.
A diretora da escola, Marluci Tavares, concedeu uma entrevista ao Jornal Liberal de Belém no dia 23 de outubro. Na entrevista disse que o autocarro estava em condições regulares de funcionamento, a que o motorista era experiente e que a escola tinha cumprido todos os procedimentos. Quando questionada por a escola não havia comunicado o desaparecimento às autoridades no mesmo dia, Marluci disse que a comunicação era da responsabilidade da empresa terceirizada que fornecia o transporte escolar.
uma microempresa denominada Transvila Limitada, registada em nome de um empresário local chamado Edson Ferreira do Nascimento, que não foi localizado pela reportagem. A A Transvila Limitada tinha um contrato com a Câmara Municipal de Barcarena desde 1991. Segundo registos da época, a empresa possuía três autocarros e servia quatro percursos escolares na zona rural do município.
Não havia registo de inspeção automóvel atualizado para nenhum dos três veículos. Não havia seguro, não havia plano de contingência, não havia rádio comunicador. O contrato, n. segundo, uma cópia obtida posteriormente por um advogado das famílias estabelecia que a empresa era responsável pelo transporte e que a câmara municipal era responsável pela fiscalização.
Na prática, ninguém fiscalizava nada. Edson Ferreira do Nascimento apareceu três semanas depois, em novembro, numa audiência convocada pelo Ministério Público do Pará. Disse que tinha viajado para o Maranhão em trabalho e que só soubera do desaparecimento pela imprensa. Disse que o Osvaldo era um motorista de confiança e que nunca tinha tido problemas.
disse que o autocarro estava em boas condições. Quando questionado sobre a documentação do veículo, disse que os papéis estavam com o contabilista, que estava de férias. A audiência durou 40 minutos. Edson não foi novamente ouvido. Na nota da Secretaria de Educação, manteve-se como o único pronunciamento oficial do poder público municipal sobre o desaparecimento de 20 crianças durante os dois anos seguintes.
Não houve conferência de imprensa, não houve reunião com as famílias, não houve comissão de inquérito. O silêncio da instituição foi tão completo e tão prolongado que, para as famílias de Vila do Conde, tornou-se da própria tragédia, uma segunda camada de abandono sobre a primeira. Em Novembro de 1994, quando a polícia já não realizava mais diligências regulares e o caso começava a perder terreno, até nos jornais locais de Belém, um grupo de oito mães dos estudantes desaparecidos passou a ser reúnem-se todas as terças-feiras à noite na casa
de Sónia Maria Figueiredo, no distrito de Vila do Conde. A casa tinha uma sala pequena com chão de cimento queimado e um ventilador de teto que fazia barulho e uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré na parede. Ali, debaixo daquela luz amarelada de lâmpada fraca, aquelas as mulheres fizeram o que o sistema não fez.
Organizaram uma lista completa com os nomes, idades, roupas e pertences dos cada criança que estava no autocarro naquela sexta-feira. A lista foi escrita à mão em folhas de caderno pautado com a letra miudinha de Sónia. Cada criança ocupava uma página. Nome completo, apelido, data de nascimento. Nome dos pais, morada, cor da mochila, cor do uniforme, calçado ou chinelo, se usava óculos, se tinha alguma cicatriz ou marca no corpo, se tinha algum problema de saúde, se levava almoço de casa ou comia na escola, se costumava sentar-se na frente ou no fundo
do autocarro. Pormenores que a polícia nunca perguntou e que as mães sabiam de cor. Ah, porque era o tipo de coisa que um mãe sabe sem ter de pensar. Sónia tinha estudado até à quinta classe. Não tinha formação em investigação, em direito, nem em nada que tivesse relação com o que estava a fazer, mas tinha uma clareza que surpreendia quem a conhecia.
entendia que se o estado não ia montar um dossier sobre os filhos dela e das outras mulheres, elas próprias teriam de fazer. Entendia que a informação era a única coisa que podiam controlar. Entendia que, sem documentação, 20 crianças desaparecidas no interior do Pará se tornariam um número numa estatística que ninguém consultaria.
As reuniões de terça-feira tornaram-se o centro da resistência daquelas famílias. Não usavam essa palavra resistência. Para elas era apenas o que precisava de ser feito. Cada semana uma mãe trazia alguma informação nova. Se alguém que tinha visto algo na estrada, um boato sobre um autocarro cinzento que teria sido visto num ramal do lado de Abaetetuba, um primo de alguém que trabalhava na polícia e que tinha ouvido alguma coisa.
A maioria das informações não levava a nada, mas o ato de reunir, de registar, de não deixar morrer o assunto, era por si só um gesto que mantinha aquelas mulheres de pé. Com o passar do tempo, o grupo tornou-se organizou. Nomearam-se informalmente como as mães do autocarro, um nome que ninguém escolheu de propósito, que surgiu naturalmente nas conversas da comunidade e que acabou por ser utilizado pela imprensa local quando, meses depois, um repórter de Belém escreveu uma notícia de página inteira sobre o caso. As mães
fizeram cartazes escritos à mão com os rostos das crianças. desenhados a partir de fotos três por quatro que algumas famílias tinham e outras não. Se levaram estes cartazes a Belém, atravessando a baía de Guajará de Balsa, e ficaram de pé em frente da Secretaria de Segurança Pública durante uma manhã inteira, debaixo de sol, sem que ninguém as recebesse.
Voltaram no mês seguinte e no mês depois. E em janeiro de 1995 e em março, sempre com os mesmos cartazes, cada vez mais desbotados, sempre com as mesmas perguntas, cada vez sem resposta. Numa dessas idas a Belém, A Sónia conseguiu ser recebida por um assessor do secretário de segurança. O assessor ouviu durante 15 minutos, anotou algumas coisas num bloco e disse que o caso estava a ser acompanhado.
Quando a Sónia perguntou por quem, o assessor não soube responder. O que aquelas mulheres construíram naquela pequena sala de Vila do Conde com caderno pautado, caneta esferográfica. e luz fraca. Foi o único registo completo e detalhado que existiu sobre as 20 crianças desaparecidas durante anos. Quando em 2024 os peritos da polícia científica do Pará necessitaram de informações sobre os ocupantes do autocarro, a fonte mais completa que encontraram não foi o auto de notícia, não foi o inquérito policial, não foi qualquer
documento oficial. Foi o caderno de Sónia. A partir de 1996, o caso do autocarro de Barcarena deixou de ser notícia. Não houve arquivamento formal. O inquérito manteve-se tecnicamente aberto na esquadra, como tantos outros que ficam parados em gavetas de aço sem que ninguém os mova. Mas na prática, o desaparecimento de 20 crianças, um motorista e uma monitora, tinha-se tornado o que o sistema polícia brasileiro chama, sem usar estas palavras de caso frio.
As famílias continuaram a viver em vila do Conde, certo? continuaram a passar todo dia pela mesma estrada onde o autocarro deveria ter transitado. Continuaram a ver outros ônibus escolares de outros anos com outras crianças a fazer o mesmo trajeto. A vida não parou em Vila do Conde porque a vida nunca pára nos lugares pobres do Brasil.
As pessoas continuaram a trabalhar, continuaram a ir à lavoura, ao rio, às continuaram a cozinhar, lavando roupa no tanque, varrendo o terreiro, criando galinha. Continuaram a viver mais de um jeito diferente, um jeito que só quem passou por algo assim consegue reconhecer. Era como se o ar da comunidade tivesse mudado de composição.
Tudo parecia igual por fora, as casas, as árvores, a estrada, o rio, mas por dentro algo se tinha alterado de forma permanente. A Sónia continuou morando na mesma casa. continuou a ir ao ponto de baixo da mangueira e mais agora sem o banquinho de plástico. Ficava de pé, olhando para o estrada, sem esperar nada de concreto, mas sem conseguir parar de olhar.
O marido Geraldo regressou do Marajó quando soube do desaparecimento e não mais saiu de casa. arranjou o trabalho numa olaria perto de Vila do Conde e passou a beber aos fins de semana, coisa que nunca tinha feito antes. Não era um homem violento, era um homem destruído, que não sabia como dizer isso por palavras e que encontrou na cachaça o único silêncio que conseguia suportar.
Os outros pais seguiram caminhos semelhantes. Raimundo Nonato, o pedreiro que tinha registou o B, continuou a trabalhar em obras em Barcarena, mas passou a recusar trabalhos que exigissem per noite fora de casa. Tinha medo de não estar em Vila do Conde caso chegasse alguma notícia. Nazaré Freitas, mãe da Camila, Lu desenvolveu um problema de insónia que nunca mais se foi embora.
dormia duas, três horas por noite e passava o resto do tempo sentada à porta de casa com um rádio de pilha ligado numa estação de Belém, ouvindo qualquer coisa que a mantivesse acordada. Joana Batista, a avó de Pedro Henrique, faleceu em 1999, de insuficiência cardíaca, sem saber o que tinha acontecido ao neto. Na certidão de óbito constava a causa médica, mas quem conhecia a Joana sabia que ela tinha morrido de outra coisa.
As reuniões das mães em casa da Sónia continuaram durante anos, mas foram rareando. Em 1997 eram seis, em 1999 eram quatro. Em 2001 eram três: a Sónia, Nazaré e uma mulher chamada Aparecida de Jesus Moura, mãe de um menino chamado Rafael, de 12 anos, que era o melhor aluno da turma e que queria ser médico. Aparecida nunca faltou a uma reunião.
Lhe levava a um caderno próprio onde anotava tudo o que ouvia, tudo o que imaginava, tudo aquilo com que sonhava. disse uma vez a Sónia, sem dramas, com a voz baixa de quem constata um facto. Eu não vou morrer sem saber onde está o meu filho. Enquanto as famílias esperavam, a cidade de Barcarena cresceu, o pólo industrial expandiu-se.
Novas estradas foram abertas, novos bairros surgiram. A PA481 foi recapeada em 2004 e ampliada em 2012. A floresta em redor da estrada foi recuando, empurrada pela urbanização e pela expansão das áreas mineiras. Vila do Conde, que nos anos 90 era um distrito rural com casas dispersas e ramais de terra, tornou-se uma área periurbana com ruas pavimentadas, postes de luz e sinal de telemóvel.
Tudo mudou ao redor, menos o silêncio sobre as 20 crianças. Ninguém na administração pública de Barcarena, mencionou o caso em discurso oficial, em campanha eleitoral ou em relatório de gestão durante 30 anos. O nome das crianças não apareceu em nenhuma placa, em nenhum memorial, em nenhuma homenagem. O autocarro cinzento de faixa amarela desapareceu não só da estrada, desapareceu da memória institucional da cidade como se nunca tivesse existido.
Só não desapareceu da memória dos famílias porque as famílias não permitiram. Em 2003, quase 10 anos depois do desaparecimento, um morador da zona rural de Abaetetuba, concelho vizinho de Barcarena, procurou o Ministério Público Estadual em Belém e relatou que no início dos anos 2000 tinha visto máquinas pesadas a trabalhar à noite numa zona de floresta densa a poucos quilómetros da PA481, do lado poente, tinha numa propriedade que não tinha registo claro de título ularidade.
O homem que se identificou como Francisco das Chagas Monteiro, trabalhador rural, disse que as máquinas operavam com os faróis apagados e que o barulho durava até de madrugada. A queixa foi registada, protocolada e encaminhada para a polícia civil. Não há registo de que qualquer diligência tenha sido realizada. Francisco tinha 47 anos à data da denúncia.
Morava num sítio no Ramal do Itupanema a cerca de 8 km da PA481, num troço de floresta secundária onde poucas pessoas viviam e onde o acesso era feito por uma estrada de terra batida que alagava completamente nos meses de chuva. Francisco criava algumas cabeças de gado, plantava mandioca e açaí e vivia com a mulher e três filhos.
Este era um homem que conhecia o silêncio da mata e, por isso mesmo, estranhava qualquer ruído que não pertencesse aquele lugar. Segundo o relato que Francisco fez ao procurador que o atendeu, o barulho começou numa noite de semana, cerca das 22 horas. Era o som inconfundível de um motor a diesel pesado, o tipo de máquina que se utiliza em terraplanagem ou escavação.
O Francisco conhecia este som porque tinha trabalhou como auxiliar numa empreiteiro que abria estradas na região nos anos 80. Disse que o barulho vinha de uma zona de floresta densa que ficava a a cerca de 2 km do seu sítio, do outro lado de um riacho de água negra. disse que saiu de casa e caminhou na direção do barulho, mas parou quando viu que não havia luz.
As máquinas estavam operando no escuro, sem faróis, sem lanternas e sem qualquer iluminação visível. Disse que aquilo o assustou e que voltou para casa. O barulho repetiu-se nas três noites seguintes. Na quarta noite, o Francisco disse que ouviu também o som de camiões, pelo menos dois, talvez três, a circular por um ramal que não sabia que existia.
Depois o barulho parou e não voltou. Francisco demorou três anos a fazer a denúncia, não porque não achasse importante, mas porque, como ele próprio explicou ao procurador, não sabia a quem contar, não sabia se aquilo tinha relação com o autocarro desaparecido, mas sabia que enterrar coisas grandes na mata de noite, com as luzes apagadas, não era coisa que as pessoas de bem fizessem.
quando finalmente procurou o Ministério Público em 2003, fez o relato completo, deixou nome, morada e número de documento e esperou que alguém se deslocasse ao local para verificar e ninguém foi. A denúncia de Francisco ficou registada no sistema do MP como procedimento preliminar e foi encaminhado à Polícia Civil do Pará, onde recebeu um número de protocolo e foi ligada de forma genérica ao inquérito aberto sobre o desaparecimento do autocarro.
Mas não há registo de que nenhum investigador tenha ido ao local indicado por Francisco. Não há registo de que nenhuma equipa de perícia tenha feito qualquer verificação naquela área. Não há registo de que Francisco tenha sido novamente ouvido ou de que tenha recebido qualquer devolução sobre a denúncia.
Francisco morreu em 2016 de complicações da diabetes, sem saber que a área que indicou ficava a menos de 3 km do ponto onde, 8 anos depois da sua morte, o autocarro seria encontrado enterrado. Quando esta informação veio à tona em 2024 e depois da descoberta do autocarro, a A imprensa paraense publicou uma série de reportagens sobre a denúncia ignorada.
O O Ministério Público abriu uma investigação interna para apurar porque o procedimento não tinha sido cumprido. A resposta preliminar, segundo fontes do próprio MP, foi que a acusação tinha sido classificada como de baixa prioridade por não apresentar evidência materiais imediatas. O procurador que recebeu Francisco em 2003 já estava reformado.
O escrivão que registou a denúncia tinha sido transferido. A memória institucional do caso tinha-se dissipado nos corredores e nos arquivos do sistema de justiça, como fumo numa sala sem janelas. Em março de 2024, a empresa de mineração Amazônia Norte Limitada contratou uma equipa de topografia e geofísica para realizar o mapeamento de subsolo de uma área de 120 ha, localizada a 14 km da PA481, dentro do concelho de Barcarena.
O trabalho era de rotina, parte de um estudo de viabilidade para ampliação de uma fábrica de processamento de bachita. No terceiro dia de levantamento, o operador do georadar de penetração terrestre, um técnico de 32 anos chamado Davi Nascimento Pereira, identificou no monitor anomalia retangular a aproximadamente 3 m de profundidade.
A forma era demasiado grande para ser rocha, demasiado regular para ser raiz, demasiado metálica para ser qualquer coisa natural. David era natural de Marabá e trabalhava com geofísica há 8 anos. Tinha operado equipamentos de radar de solo em dezenas de projetos de mineração no Pará e no Maranhão e no Amapá.
Sabia distinguir no monitor o perfil de uma rocha, de um lençol freático, de uma tubagem enterrada ou de uma raiz de grande porte. O que apareceu no monitor naquela manhã não se parecia com nenhuma dessas coisas. Era uma forma retangular com bordos definidos, a uma profundidade constante de 3,10 cm, com uma extensão lateral de aproximadamente 7 m.
O sinal de retorno era consistente com metal ferroso de grande volume. David chamou o engenheiro responsável pelo levantamento, um homem chamado Cláudio de Menezes Braga, e mostrou as imagens no monitor do equipamento. Cláudio o olhou, franziu o sobrolho e pediu que David passasse novamente o radar pela mesma área em ângulo diferente.
O resultado foi o mesmo. A anomalia estava ali clara, definida e inequívoca. E o Cláudio registou as coordenadas GPS do ponto, tirou fotografias ao monitor e ligou para a direção da empresa. A reação da A Amazónia Norte foi cautelosa. A empresa não queria atrasos no cronograma do estudo de viabilidade, mas também não queria envolver-se com algo que pudesse gerar problemas legais.
A conselho de administração autorizou uma escavação exploratória no ponto indicado, com a condição de que fosse feita de forma controlada e documentada. Contrataram uma retroescavadora e um operador local. A escavação começou no dia seguinte, numa manhã de terça-feira, com céu nublado e cheiro a terra molhada.
O operador da retroescavadora, um homem chamado Juraci Pantoja, de 55 anos, começou a escavar lentamente, retirando camadas de terra vermelha e laterite compactada. Nos primeiros 2 m e não havia nada para além de solo típico da região. Argila ferruginosa, raízes finas, fragmentos de rocha. No terceiro metro, a caixa da retroescavadora bateu em algo sólido.
O som foi diferente do som da pedra. Era um som metálico, oco, que ecoava no silêncio da floresta como um sino de igreja. Jura se parou a máquina, desceu da cabine e olhou para o buraco. Depois olhou para Cláudio. Depois olhou de novo para o buraco. Disse apenas uma coisa. Há alguma coisa grande aqui em baixo.
A a partir desse momento, a escavação passou a ser feita com mais cuidado. Usaram a paz e enchadas para remover a terra em redor do objeto metálico. Aos poucos, a forma aparecendo. Primeiro uma superfície plana, pintada de cinzento, coberta de limo e ferrugem. Depois uma borda arredondada. Depois, uma janela retangular com vidro intacto, de coberto de terra por dentro e por fora.
Quando David limpou o vidro com a mão e iluminou com a lanterna do telemóvel, viu bancos, bancos verdes dispostos em fileiras. Era um autocarro. A notícia chegou a Belém nessa mesma tarde. No dia seguinte, a Polícia Civil do Pará enviou uma equipa ao local. No dia depois, a polícia científica. Ao quarto dia, o Ministério Público. A área foi isolada com fita e a escavação passou a ser conduzida por peritos.
A imprensa chegou antes de todos. Um repórter de um portal de notícias de Belém que tinha fontes dentro da mineira publicou a primeira nota online às 19:42 de uma quarta-feira. Autocarro escolar desaparecido há 30 anos é encontrado enterrado na mata em Barcarena. A escavação completa durou 4 dias.
Quando a retroescavadora removeu a última camada de terra vermelha e laterita compactada, no que apareceu foi o tejadilho de um autocarro cinzento, com uma faixa amarela quase apagada pelo tempo e pela humidade. A placa traseira ainda estava legível e correspondia exatamente ao veículo registado no boletim de ocorrência de 17 de Outubro de 1994.
O para-brisas estava intacto, os vidros fechadas, a porta de embarque trancada por dentro. Quando os peritos da polícia científica do Pará abriram o veículo, encontraram os bancos em pele sintética verde cobertos por uma fina camada de limo. Encontraram mochilas, encontraram garrafas de plástico, encontraram cadernos com capas de desenhos infantis, as páginas coladas pela humidade.
encontraram uma prancheta com a lista de presença da monitora Regina, ainda legível em parte, mas não encontraram nenhum corpo, nenhum resto, nenhum osso, nenhuma peça de roupa que não estivesse dentro de uma mochila. E o autocarro estava vazio, como se as 20 crianças, o motorista e a monitora, tivessem simplesmente saído ou sido retirados antes de o veículo ser enterrado.
A ausência de corpos foi o pormenor que transformou o caso de uma tragédia antiga em algo que a polícia, a imprensa e a sociedade não conseguiam classificar. Um autocarro enterrado a 3 m de profundidade numa zona de floresta densa, a 14 km da estrada por onde deveria ter transitado, sem qualquer vestígio humano dentro.
Isto não era um acidente, não era capotamento, não era uma queda em rio, isto era outra coisa, algo que exigia explicação e que ninguém naquele momento tinha condição de dar. Os peritos catalogaram cada item encontrado dentro do autocarro. Foram 23 mochilas, 20 das crianças e uma da monitora Regina e duas extras, que provavelmente pertenciam a os alunos que não se encontravam no veículo nesse dia e que se tinham esquecido dos pertences em viagens anteriores.
Dentro das mochilas encontraram cadernos, lápis, borrachas, estojos de plástico, garrafas de água. e em pelo menos quatro delas, restos ressecados do que um dia tinha sido lanche, embalagens de plástico com vestígios de farinha e peixe compactados pela humidade e pelo tempo. A prancheta de Regina estava no primeiro banco, do lado direito, exatamente onde as mães sempre disseram que ela se sentava.
A lista de presença tinha 20 nomes escritos em caneta azul com a data 14 de outubro de 1994 no topo. Ao lado de cada nome havia um sinal de visto. Todos os 20 nomes estavam marcados na parte inferior do folha e havia uma anotação que os os peritos demoraram dois dias para decifrar por causa da humidade. Saída 16:22. Tempo bom. Previsão de chegada 17h30.
O boné do senhor Valdo, um boné azul e branco do Clube do Remo, foi encontrado no painel junto ao volante. As chaves do autocarro estavam na ignição, na posição desligada. O depósito de combustível, quando analisado continha resíduos de gasóleo, o que sugeria que o autocarro não tinha ficado sem combustível antes de ser enterrado. O odómetro marcava 347.
812 km. Não havia registo do odómetro no momento da saída da escola, o que impossibilitou calcular a distância percorrida entre a escola e o local do enterramento. E a análise do solo ao redor do autocarro revelou que a escavação original, a que tinha sido feita para enterrar o veículo, era consistente com o uso de máquinas pesadas de terraplanagem, provavelmente retroescavadoras ou escavadoras hidráulicas de grande porte.
A profundidade e a largura da vala indicavam um trabalho planeado, não improvisado. Alguém tinha cavado um buraco de 7 m de comprimento, 3 m de largura e 3,5 m de profundidade numa zona de floresta densa, manobrado um autocarro para dentro, coberto tudo com terra e compactado à superfície, de tal forma que, em poucos meses de chuva tropical, a vegetação fechasse por cima e apagasse qualquer vestígio visível.
Isso exigia máquinas, exigia operadores, exigia transporte para levar as máquinas até ao local e exigia um ramal de acesso, provavelmente o mesmo que Francisco das Chagas Monteiro ouviu camiões percorrendo de noite, anos mais tarde, ou talvez em operações anteriores a que não chegou a presenciar. Exigia acima de tudo que alguém soubesse exatamente onde estava o autocarro.
o que tinha acontecido com as pessoas dentro dele e como fazer desaparecer tudo sem deixar rasto. A perícia encontrou mais uma coisa que a imprensa demorou a divulgar. No chão do autocarro, debaixo dos bancos traseiros, coberto por limo e por uma fina camada de sedimento, havia um sapato. Um único sapato.
Era um ténis infantil azul-marinho, tamanho 33, da marca O Bamba, um calçado popular nos anos 90, vendido em grandes armazéns e em feiras de rua por todo o Brasil. O ténis estava sem o par. Estava limpo por dentro, como se tivesse sido tirado com cuidado, a não arrancado. Não tinha meia dentro dele. Os peritos fotografaram o sapato, catalogaram como prova número 47 e enviaram para análise no Instituto de Criminalística de Belém.
A análise não encontrou o ADN utilizável. 30 anos de humidade tropical tinham degradado qualquer material biológico. Mas o sapato foi identificado por Aparecida de Jesus Moura, a mãe de Rafael, que reconheceu o ténis pela marca e pelo tamanho. Rafael calçava 33, calçava ténis bamba azul marinho. A mãe tinha anotado isso no caderno em Novembro de 1994, na sala de Sónia, debaixo da luz amarelada.
com a mesma caneta esferográfica com que anotava tudo o que sabia do filho, que não voltou. Aparecida tinha 71 anos quando soube da descoberta do autocarro. Morava na mesma casa em Vila do Conde. Tinha diabetes e hipertensão arterial e uma dor no joelho esquerdo que a impedia de caminhar longas distâncias. Quando o delegado responsável pelo caso reaberto foi a casa dela para comunicar a descoberta e pedir que identificasse os pertences, Aparecida ouviu tudo sentada numa cadeira de plástico na varanda com as mãos cruzadas no colo. Não chorou, não gritou, não fez
perguntas. Quando o delegado terminou de falar, Aparecida disse apenas: “Eu sabia que iam encontrar o autocarro. Agora quero saber onde está o meu filho. Sónia recebeu a notícia por telefone. Estava na cozinha a fazer café quando o telemóvel tocou. Era uma vizinha que tinha visto a notícia num portal de Belém.
Sónia desligou, sentou-se na cadeira da cozinha e esteve em silêncio durante 20 minutos. Depois ligou para a Nazaré, depois ligou para a Aparecida ou depois ligou para cada uma das mães que ainda eram vivas, cinco das oito originais. Três tinham morrido nos anos anteriores, sem saber o que tinha acontecido aos filhos.
Nessa noite, pela primeira vez em quase 20 anos, as mães reuniram-se na sala de Sónia. Já não eram oito, eram cinco. Já não tinham os cadernos originais. A Sónia guardava-os numa caixa de sapato em cima do guarda-roupa. Tiraram os cadernos da caixa, abriram-nos na mesa e releram os nomes um a um em voz alta, como se estivessem a chamar os filhos para jantar.
O caso foi reaberto formalmente pelo Ministério Público do Pará em abril de 2024. Uma task force foi criada reunindo polícias civis, peritos criminais, procuradores de justiça e, pela primeira vez representantes da Defensoria Pública que passaram a acompanhar as famílias. A área onde o autocarro foi encontrado foi ampliada para incluir um raio de 500 m em redor do ponto de escavação.
As equipas de antropologia forense foram chamadas para realizar buscas no solo. Cães farejadores treinados para localizar restos humanos foram trazidos de São Paulo. As buscas duraram seis semanas. Não encontraram qualquer corpo, nenhum fragmento ósseo, nenhum vestígio biológico humano em nenhum ponto da área escavada.
A Terra em redor do autocarro era limpa, apenas solo, raízes e pedras. Era como se as 22 pessoas que estavam naquele veículo tivessem sido removidas de forma completa e meticulosa antes do enterramento. O inquérito reaberto continua em curso. Até ao fecho desta narração. Nenhuma das 20 crianças foi encontrada. Nenhum resto de Osvaldo Pimentel dos Santos foi localizado.
Nenhum vestígio de Regina Barbosa Lima apareceu. O proprietário da transvila limitada, Edson Ferreira do Nascimento, foi convocado para depor e não compareceu. Foi considerado foragido em maio de 2024. O delegado original do caso, Agenor Pinheiro Matos, faleceu em 2011. O procurador que recebeu a acusação de Francisco das Chagas Monteiro em 2003 prestou depoimento e disse que não se recordava-se do caso concreto, dada a quantidade de procedimentos que tramitavam na procuradoria naquela época.
As mães continuam à espera. Aparecida continua sentada na varanda mesma casa, com as mãos no colo, olhando para o estrada. Sónia continua guardando os cadernos na caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. A mangueira no ponto da PA481 continua de pé. O banquinho de plástico branco já não está ali.
Apodreceu no sol e à chuva há muitos anos. Mas o local onde estava ainda tem uma marca no chão, uma depressão ligeira na terra, do tamanho exato de uma mãe sentada à espera que os filhos regressem da escola. Passaram 30 anos, o autocarro apareceu, as crianças não. E a pergunta que Aparecida fez ao delegado na varanda de casa continua a ser a mesma que ninguém conseguiu responder.
Onde estão os os nossos filhos? Há casos que o tempo não resolve. Há desaparecimentos que não viram estatística, que não viram reportagem especial, que não viram livro nem filme. Ficam guardados na memória de quem viveu, como uma ferida que não cicatriza porque nunca foi tratada. O caso do autocarro de Barcarena é um desses.
Não por ser mais grave do que outros, não por ser mais misterioso, mas porque mostra com uma clareza que incomoda o que acontece quando 20 crianças desaparecem num lugar onde ninguém está a olhar. Ninguém estava a olhar em outubro de 1994. Ninguém estava a ver quando as mães fizeram cartazes e foram de ferry para Belém.
Ninguém estava a olhar quando Francisco ouviu máquinas de noite e demorou três anos para encontrar alguém que ouvisse. E quando finalmente alguém olhou 30 anos depois por acaso, porque uma máquina de radar passou por cima do sítio certo, no momento certo, o que encontrou foi um autocarro vazio e uma ausência que nenhuma perícia consegue preencher.
As famílias de Vila do Conde aprenderam uma coisa que ninguém deveria precisar aprender, que existir no Brasil como gente pobre num lugar remoto, com filhos que dependem de autocarros escolares precários e de estrada sem fiscalização. E é existir numa margem onde o desaparecimento é possível e a procura não é garantida.
Aprenderam que o auto de notícia é um papel, que o inquérito é um número, que a nota da secretaria é um parágrafo e que nada disto substitui um filho que não voltou para casa. A Sónia tem 67 anos. Quando alguém pergunta por Lucas e Amanda, abre a caixa de sapatos, tira os cadernos e mostra os nomes escritos com a sua letra miudinha.
Não fala muito, não precisa. Os nomes estão lá, as idades estão lá, a cor da mochila, o tipo de sapato, o lugar onde cada um se sentava no autocarro. Tudo o que o sistema não registou, uma mãe registou. Tudo o que a instituição esqueceu, uma mulher com caderno pautado e caneta esferográfica guardou.
E quando ela fecha a caixa e volta a colocar em cima do guarda-roupa, há um silêncio na sala que não é vazio. E é o silêncio de quem sabe que a espera não acabou, de quem sabe que o autocarro apareceu, mas os filhos não. De quem sabe que 30 anos é muito tempo, e ao mesmo tempo não é tempo nenhum, porque para uma mãe que espera, o relógio não anda.
Apenas marca a distância entre o último dia em que tudo era normal e o primeiro dia em que nada mais foi. A estrada continua ali, a mangueira continua ali, a marca no chão continua ali e em algum lugar que ainda ninguém encontrou, 20 crianças continuam desaparecidas. Esta é a história do autocarro de Barcarena.
Não termina com uma resposta, termina com uma pergunta que continua aberta, que continua a incomodar, que continua a ser feita toda a noite em voz baixa por mulheres que nunca deixaram de esperar. Sì.