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A História Mais Aterradora do Interior Baiano (1896) — A Mercearia Suspeita da Família Monte

A História Mais Aterradora do Interior Baiano (1896) — A Mercearia Suspeita da Família Monte

 

Bem-vindo a este percurso por um dos casos mais inquietantes registados na história da Baía. Antes de iniciar, te convido a deixar nos comentários de onde está a ver-nos e o horário exato em que escuta esta narração. Nos interessa saber até que locais e em quais os momentos do dia ou da noite que chegam estes relatos documentados.

Jacobina, 1896. Uma pequena cidade encravada no sertão baiano entre serras douradas e vales profundos, a cerca de 330 km da capital Salvador. O calor ali era constante, opressor como um manto pesado que cobria as casas de Adobe e as ruas de pedra irregular. Neste cenário de contrastes, onde o ouro das minas locais atraía riqueza e miséria em igual medida, estabeleceu-se a família Monte, conhecida por manter uma das vendas mais prósperas da região.

A venda dos Montees, como era chamada pelos moradores, estava estrategicamente posicionada na estrada que ligava o centro de Jacobina à quintas circundantes, servindo como ponto de paragem obrigatório para viajantes, tropeiros e comerciantes que atravessavam aqueles caminhos áridos. No no dia 18 de março desse ano, um relatório policial registou o que parecia ser um crime comum.

O corpo de um homem não identificado foi encontrado a aproximadamente 2 km da venda num área de catinga fechada. O documento descrevia apenas que o corpo apresentava sinais de violência e que nenhum pertence de valor foi localizado junto do vítima. O caso foi atribuído a ladrões de estrada frequentes naquela região isolada e rapidamente arquivado pelas autoridades locais que não dispunham de recursos para investigações mais aprofundadas.

Mas havia um pormenor que o escrivão da esquadra anotou à margem do relatório quase como uma observação casual. O homem transportava consigo um pão fresco, ainda quente, envolto num pano da venda dos Monte. Este pormenor, aparentemente insignificante seria, anos depois a primeira peça de um puzzle sombrio, que revelaria que a venda dos Montes não era apenas um estabelecimento comercial, mas o epicentro de uma série de desaparecimentos inexplicáveis ​​que ocorriam na região desde 1893, quando a família chegou a Jacobina.

A família Monte era composta por quatro pessoas. O patriarca Jeremias Monte, homem de 47 anos, alto, magro e de poucas palavras. A sua esposa Celina Monte, de 42 anos, conhecida pela habilidade como cozinheira e pelo olhar severo, o filho mais velho, Augusto Monte, de 26 anos, que ajudava o pai na balcão e nas transações comerciais, e Eleonora Monte, de 24 anos, a filha que cuidava do stock e raramente era vista pelos clientes, mantendo-se quase sempre nas traseiras do estabelecimento.

Antes de se fixar em Jacobina, pouco se sabia sobre os monte. Registros municipais indicam apenas que vieram do sul, sem especificar a localidade exata. Segundo relatos de antigos moradores recolhidos em 1905 pelo delegado tertuliano Dantas, a família chegou numa carroça coberta durante a estação das chuvas com poucas posses, além de algumas caixas de mantimentos e equipamentos para iniciar o comércio.

Em menos de 3 meses, a venda dos montes já era conhecida por oferecer produtos que nenhum outro estabelecimento da região conseguia: temperos raros, tecidos de qualidade superior e, principalmente, o pão que Selina produzia no seu forno de barro, uma iguaria que logo se tornou famosa pelo seu sabor inigualável. Aquele pão tinha algo de diferente”, comentou um antigo cliente em depoimento registado.

Era macio por dentro e crocante por fora, com um aroma que se sentia à distância. Muitos viajantes desviavam-se da principal só para comprar o pão dos Monte. A venda prosperou rapidamente. Em menos de um ano, Jeremias Monte comprou as terras em redor do estabelecimento e expandiu o negócio, construindo um armazém para armazenar mercadorias e um pequeno moinho para produzir a própria farinha.

 

 

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O sucesso súbito gerou desconfiança entre alguns comerciantes locais, mas a população em geral via os monte com respeito, principalmente pela postura religiosa da família, que frequentava assiduamente a igreja local e fazia doações regulares para obras de caridade. Eram pessoas simples, trabalhadoras”, relatou o padre Anselmo Bueno num documento eclesiástico de 1901.

chegavam cedo à igreja aos domingos, sempre bem vestidos, mas nunca ostentando. Celina e a filha, sempre de cabeça coberta, como mandava o costume, permaneciam até ao final da missa e saíam rapidamente, sem socializar muito com os outros fiéis. Esta descrição do padre Anselmo contrastava, no entanto, com outro relato encontrado entre os documentos da época, uma mulher identificada apenas como dona M, que trabalhava como lavadeira para famílias abastadas da região, afirmou que ao visitar a venda uma vez reparou num

cheiro estranho, adocicado e, ao mesmo tempo, metálico vindo dos fundos do estabelecimento. Quando mencionou o odor a Jeremias, este rapidamente explicou que estavam a curtir couro para fazer correias, embora a venda não fosse conhecida por comercializar artigos desse tipo. A primeira menção oficial a um possível aspecto sombrio relacionado à venda dos Montes surgiu em julho de 1894, quando o tropeiro Manuel Cordeiro registou na esquadra o desaparecimento do seu ajudante, Francisco das Chagas, de 30 anos. Segundo o relato, ambos os

tinham parado na venda para descansar e comprar mantimentos. Francisco teria ficado para trás para ajustar o negócio com Augusto Monte enquanto Manuel seguiu com a tropa. O ajudante nunca alcançou o seu patrão e, apesar da queixa, nenhum investigação formal foi realizada. Os montes afirmaram que o rapaz tinha deixado à venda no mesmo dia e seguido em direção à cidade.

O caso foi atribuído à deserção, comum entre trabalhadores itinerantes da época. Entre 1894 e 1898, pelo menos sete outros registos semelhantes podem ser encontrados nos arquivos policiais de Jacobina. pessoas que foram vistas pela última vez na venda dos Monte ou nas suas proximidades. Em todos os casos, as autoridades concluíram que os desaparecidos simplesmente haviam abandonado os seus postos ou seguido viagem por conta própria, sem avisar familiares ou empregadores.

Este padrão só foi notado retrospectivamente quando os acontecimentos de Novembro de 1898 obrigaram a uma reavaliação de todo o histórico relacionado com o local. A venda dos Monte não era apenas um estabelecimento comercial, mas uma estrutura peculiar para os padrões da época. Construída originalmente como um armazém simples, foi ampliada ao longo dos anos com a adição de novas divisões.

A parte frontal servia de balcão de atendimento, onde os clientes podiam adquirir mercadorias e encomendar serviços. Ao fundo, uma porta constantemente fechada levava à residência da família e as áreas de produção, incluindo a famosa padaria de Celina. Poucos tinham acesso a esta parte interna do estabelecimento.

Um desses raros privilegiados foi António Silveira, carpinteiro contratado para realizar reparações no telhado da casa. em 1897. Em relato posterior, referiu ter visto uma porta pesada no chão da despensa com uma argola de ferro para abrir, como a entrada de uma cave. Quando questionou Jeremias sobre o porão, recebeu como resposta que era apenas um depósito para manter os alimentos frescos durante o verão.

António notou, contudo, que a porta possuía um cadeado robusto, desproporcional para um simples depósito de alimentos. Outro detalhe intrigante foi referido por Rosa Alves, uma jovem que trabalhou brevemente como ajudante na cozinha da venda em 1895. Relatou que Celina costumava acordar de madrugada para preparar a massa do pão.

Uma vez, contou Rosa, levantei mais cedo que o costume e vi-a regressar do porão com uma bacia coberta por um pano. Ela viu-me a observar e no mesmo dia disse que os meus serviços já não eram necessários. Estes relatos isolados ganhariam um significado muito mais sinistro após os acontecimentos da noite de 27 de de novembro de 1898, quando uma tempestade de proporções incomuns atingiu a região de Jacobina.

A chuva caía com uma violência raramente vista no sertão, transformando trilhos em rios caudalosos e inundando as partes mais baixas da cidade. Foi nesta noite que Pedro Menezes, um comerciante de pedras semipreciosas de Minas Gerais, procurou abrigo na venda dos Montes. Segundo o seu testemunho registado posteriormente, chegou ao estabelecimento por volta das 19 horas, encharcado e exausto.

Batia a porta com força, pois o barulho da chuva era ensurdecedor”, relatou Pedro. “Foi o Senhor Jeremias quem atendeu, parecendo contrariado com a minha presença. Expliquei a minha situação e, após hesitar, permitiu que eu entrasse, dizendo que podia passar ali a noite, mas teria de partir ao primeiro sinal de que a chuva abrandasse.

” Pedro descreveu que a família estava reunida à volta da mesa de jantar quando ele entrou. A refeição foi interrompida e, enquanto Augusto o conduzia a um pequeno quarto adjacente à cozinha, notou que Celina e Eleonora rapidamente recolheram os pratos e cobriram algo sobre a mesa com um pano escuro.

“Ofereceram-me um pedaço de pão e uma caneca de caldo quente”, continuou Pedro. O pão era realmente excepcional, como todos os diziam. O Augusto permaneceu ao meu lado enquanto comia, observando-me de um forma que me deixou desconfortável. Quando terminei, recolheu o prato e disse que eu deveria permanecer no quarto até à manhã seguinte.

Pedro descreveu que, apesar do cansaço, não conseguiu adormecer imediatamente. O barulho da tempestade misturava-se com sons provenientes da cozinha, movimentos, vozes baixas, o arrastar de algo pesado pelo chão. Por volta da meia-noite, quando todos pareciam ter-se recolhido, ouviu um som distinto. Era como um gemido abafado vindo de algum lado abaixo da casa.

Inicialmente pensei que fosse o vento, mas o som tinha qualquer coisa de humano que me gelou o sangue. Movido pela curiosidade e pelo crescente desconforto, o Pedro saiu do quarto silenciosamente e encontrou a cozinha vazia, iluminada apenas pela fraca luz de uma lamparina esquecida sobre a mesa. Foi então que reparou numa porta no chão, parcialmente aberta, a entrada do porão descrita anteriormente por António Silveira.

Não sei o que me levou a olhar ali dentro. admitiu Pedro no seu depoimento. Talvez tenha sido o mesmo impulso que leva alguém a investigar um barulho estranho na escuridão. Peguei na candeeiro e com muito cuidado para não fazer barulho, abri mais a porta e olhei para baixo. O que Pedro Menezes afirmou ter visto na cave da venda dos Monte viria a transformar completamente a percepção sobre a família respeitável de comerciantes.

Segundo o seu relato, havia um homem acorrentado a uma parede húmida num estado de extrema debilidade. Ao lado dele, algo que Pedro inicialmente confundiu com sacos de serapilheira, mas que depois reconheceu como restos humanos em diferentes estados de decomposição. O homem acorrentado viu-me e os seus olhos se arregalaram.

Tentou dizer algo, mas estava tão fraco que mal conseguia mexer os lábios”, declarou Pedro. Foi nesse momento em que ouvi passos atrás de mim. Quando me virei, Augusto Monte estava parado à porta da cozinha, segurando algo nas mãos que não consegui identificar na penumbra. Pedro descreveu que, em pânico, deixou cair a lamparina e correu em direção à porta da frente.

A chuva ainda caía fortemente quando escapou para a noite, ouvindo atrás de si os gritos de Jeremias chamando o filho. Desorientado e aterrorizado, correu pela estrada lamacenta até encontrar abrigo numa quinta a aproximadamente A 5 km dali. Na manhã seguinte, ainda em estado de choque, o Pedro relatou o ocorrido ao proprietário da exploração, coronel Hermes Medeiros, uma figura influente na região.

Inicialmente céptico, o coronel Hermes decidiu, no entanto, acompanhar Pedro de volta à Jacobina para reportar o caso às autoridades, levando consigo quatro dos os seus homens armados. Quando chegaram à esquadra, encontraram um clima de agitação. Durante a madrugada, a tempestade tinha provocado um deslizamento de terras junto à venda dos Montes, expondo algo que um grupo de viajantes tinha descoberto ao amanhecer, uma vala comum contendo restos humanos.

O delegado Ezequiel Pontes já tinha despachado dois polícias ao local e as notícias que chegavam eram perturbadoras. Sabemos agora que a história que vamos narrar vai muito para além de um simples caso de desaparecimentos isolados”, escreveu o comissário Pontes em o seu relatório oficial. O que encontramos na propriedade dos Monte revela um padrão de atividade criminosa meticulosamente planeada e executada ao longo de anos.

Quando as autoridades chegaram à venda dos Montes naquela manhã, encontraram o estabelecimento aparentemente abandonado à pressa. A porta da frente estava entreaberta e havia sinais de que os moradores tinham partido durante a noite, demorando apenas o essencial. A pesquisa inicial não revelou nada além do esperado num estabelecimento comercial da época, até que os polícias localizaram a porta do porão mencionada por Pedro.

O que encontraram abaixo da casa confirmou o relato do comerciante de pedras e revelou horrores ainda maiores. O porão tinha sido dividido em pequenos compartimentos, alguns equipados com correntes fixas às paredes. Em um destes compartimentos foi encontrado o corpo recentemente falecido de um homem que posteriormente seria identificado como João Camargo, um vendedor ambulante dado como desaparecido três semanas antes.

Mais perturbadora ainda foi a descoberta feita nos fundos da propriedade, onde o deslizamento tinha exposto parte de uma vala comum. A escavação subsequente revelou os restos de, pelo menos, 17 pessoas. Embora o estado de decomposição tenha impossibilitado a identificação precisa de todas as vítimas, entre os poucos identificáveis ​​estava Francisco das Chagas, o ajudante de tropeiro desaparecido em 1894.

A investigação que se seguiu, conduzida pelo delegado Pontes com o auxílio de autoridades enviadas de Salvador, levantou uma série de evidências que permitiram reconstruir parcialmente as atividades da família Monte. Depoimentos de pessoas que tinham frequentado a venda ou mantido contacto com a família foram recolhidos e um padrão sinistro começou a emergir.

Eles selecionavam as suas vítimas com cuidado, concluiu o delegado no seu relatório. Preferiam viajantes solitários, pessoas que não seriam imediatamente sentidas falta, comerciantes, tropeiros, peregrinos, qualquer pessoa que estivesse de passagem e transportasse algum valor consigo. O método da família, segundo a investigação, era oferecer abrigo ou refeições a estas pessoas frequentemente ao final do dia.

O famoso pão de selina era servido, muitas vezes acompanhado de uma bebida que se suspeitava con tinha alguma substância para debilitar as vítimas. Uma vez incapacitadas, eram levadas para o porão, onde permaneciam até que a família decidisse o seu destino final. Entre os objetos encontrados na venda em um compartimento secreto no quarto do casal Monte, estavam pertences das vítimas, relógios, anéis, dinheiro e outros artigos de valor, cuidadosamente organizados e catalogados num livro de registos mantidos por Jeremias. Cada

entrada no livro correspondia a uma data e incluía uma descrição sucinta do item e o seu valor estimado. Mas o aspecto mais perturbador do caso, aquele que mais chocou a população quando as notícias começaram a circular, estava relacionado ao famoso pão da venda dos Montees. Durante a busca na zona da cozinha, as as autoridades encontraram um moedor de carne de tamanho industrial, escondida atrás de uma falsa parede, junto ao forno onde Celina produzia os seus pães.

O equipamento apresentava sinais de uso frequente e junto a ele havia uma mesa de madeira com marcas profundas de cortes e manchas que os investigadores descreveram como inequivocamente sangue humano. A análise do forno e de recipientes encontrados na área de preparação dos alimentos levou o médico que acompanhava a investigação, o Dr.

Teófilo Barros, a uma conclusão que ele mesmo descreveu como: “Para além de qualquer depravação que já testemunhei nos meus 30 anos de medicina. A família Monte não apenas roubava e matava as suas vítimas, mas aparentemente utilizava partes de os seus corpos na preparação dos produtos alimentares que vendiam.

O segredo do sabor inigualável do pão da senora Celina, pelo qual os viajantes se desviavam de as suas rotas, foi revelado da forma mais horrenda possível, registou o delegado Pontes. Os montes não só tiravam a vida de inocentes, mas profanavam os seus corpos de uma forma que desafia qualquer compreensão humana.

Esta descoberta provocou uma onda de horror e repulsa que se espalhou rapidamente por toda a região. As pessoas que haviam consumido os produtos da venda dos Monte foram tomadas por náuseas e desespero. Alguns procuraram atendimento médico, outros recorreram a rituais de purificação religiosa. A igreja local realizou uma cerimónia especial para limpar a comunidade da mácula, deixada pelos crimes.

Entretanto, uma intensa busca foi iniciada para capturar a família Monte, que tinha desaparecido durante a tempestade. Os grupos de busca formados por polícias e voluntários vasculharam as matas, grutas e propriedades abandonadas da região, mas os primeiros dias de investigação não trouxeram resultados. Foi apenas no dia 3 de dezembro, sete dias após a descoberta dos crimes, que surgiu a primeira pista.

Um agricultor, que regressava de uma área remota junto à fronteira com o município vizinho de saúde, referiu ter visto um homem alto e uma mulher robusta, caminhando por um trilho pouco utilizada. A descrição correspondia a Jeremias e Celina Monte. Seguindo esta informação, um grupo liderado pelo O delegado Pontes encontrou um acampamento improvisado numa caverna nas encostas da Serra da Jacobina, onde existiam sinais de que pelo menos duas pessoas se tinham abrigado recentemente.

Entre os itens abandonados estava uma bolsa de couro contendo documentos pessoais de Eleonora Monte e algumas jóias identificadas posteriormente como pertencentes a vítimas. As buscas continuaram. Agora concentradas naquela região montanhosa de difícil acesso. Em 6 de dezembro, moradores de um pequeno povoado a a aproximadamente 20 km de Jacobina referiram ter visto um jovem correspondente à descrição de Augusto Monte a tentar comprar mantimentos em uma venda local.

O rapaz terá fugido quando questionado sobre a sua identidade. A captura efetiva só ocorreu em 8 de Dezembro, quando um grupo de polícias, seguindo o curso do rio Itapicuro, encontrou-se ali no Monte sozinha, escondida numa cabana de pescadores abandonada. Segundo o relatório, ela não ofereceu resistência e, quando questionada sobre o paradeiro do marido e dos filhos, limitou-se a dizer: “Seguiram o seu caminho, como eu deveria ter feito.

” O interrogatório formal de Celina Monte, conduzido em Jacobina nos dias seguintes, revelou-se infrutífero. A mulher manteve-se em silêncio perante da maioria das questões, negando-se a admitir a participação nos crimes ou a fornecer informações sobre a localização dos outros membros da família. O único momento em que demonstrou alguma emoção foi quando mencionaram o livro de registos encontrado na venda, ao que ela terá respondido: “O livro não conta tudo”.

Esta afirmação enigmática levou os investigadores a revisitarem o livro de Jeremias, procurando algum código ou mensagem oculta entre as anotações aparentemente mundanas. Foi o escrivão Josué Mendonça, que após dias analisando o documento, percebeu um padrão nas anotações. Algumas entradas eram marcadas com um pequeno símbolo semelhante a uma cruz invertida.

Comparando estas datas com os relatórios de pessoas desaparecidas, ele estabeleceu uma correlação perturbadora. Cada símbolo correspondia a uma data em que presumivelmente uma vítima tinha sido morta. Contando estes símbolos, os investigadores chegaram ao número de 28, substancialmente maior que os 17 corpos encontrados na vala comum.

Esta discrepância levantou a possibilidade de que existissem mais locais de enterramento, ainda não descobertos, ou mais inquietante, que nem todas as vítimas tivessem sido sepultadas. A teoria de que partes dos corpos eram utilizados na preparação dos alimentos vendidos no estabelecimento ganharam força.

Doutor Teófilo Barros, no seu relatório, sugeriu que os montes poderiam ter desenvolvido um método para processar e conservar partes das suas vítimas, utilizando-as gradualmente em os seus produtos. Esta prática explicaria tanto o sabor inigualável do pão como o menor número de corpos em relação ao registo de mortes. Em 16 de dezembro, um acontecimento inesperado acrescentou uma nova camada a já complexa investigação.

Jeremias Monte foi encontrado morto numa área de mata encerrada a cerca de 30 km de Jacobina. O seu corpo apresentava o que parecia ser um ferimento auto-infligido. Ao seu lado, uma carta escrita em papel de baixa qualidade foi recuperada. O conteúdo dessa carta, conservado nos arquivos judiciais da época, lança uma luz perturbadora sobre as motivações da família.

Não peço perdão, pois sei que não há perdão para o que fizemos, começava a carta com a caligrafia característica de Jeremias, identificada a partir de documentos da venda. Começamos por necessidade, em tempos de desespero que poucos conheceram. Continuamos por opção quando a necessidade já tinha passado. O gosto do poder sobre a vida, uma vez provado, não pode ser esquecido.

A carta prosseguia com uma narrativa fragmentada sobre os primeiros anos da família antes de chegarem à Jacobina. Segundo Jeremias, tinham fugido do Rio Grande do Sul após um incidente que os obrigou a abandonar a sua propriedade original. Durante a fuga, passaram por um período de extrema privação, deambulando pelo interior do país em busca de um lugar para recomeçar.

Foi durante aqueles dias sombrios quando o fogo se apagava e o estômago rugia que Celina teve a ideia. Um viajante solitário como nós, mas com provisões e algumas moedas. Na manhã seguinte, tínhamos comida e dinheiro suficiente para continuar. E assim nasceu o nosso modo de vida. A carta sugeria que a família tinha praticado crimes semelhantes noutras localidades antes de se fixar em Jacobina, seguindo sempre o mesmo padrão: instalar-se em zonas remotas, construir uma reputação como comerciantes honestos e selecionar gradualmente as vítimas entre

viajantes que dificilmente seriam procurados. Quanto ao aspecto mais perturbador dos seus crimes, o uso de restos humanos na preparação de alimentos, Jeremias oferecia uma explicação que misturava o pragmatismo macabro e uma espécie de filosofia distorcida. Nada se perde. A carne nutre a carne.

Os que partiram sustentam os que ficam. Este é o ciclo natural que todos temem reconhecer. A carta terminava com uma referência aos filhos do casal. Augusto e Eleonora nasceram neste caminho, não conhecem outra vida. Continuarão como devem. A semente já foi plantada e germinará noutro solo. Esta última afirmação alarmou as autoridades, sugerindo que os filhos não apenas participavam nos crimes, mas pretendiam continuar a tradição familiar noutro lugar.

As buscas por Augusto e Eleonora foram intensificadas, estendendo-se para além dos limites de Jacobina para os concelhos vizinhos e eventualmente para outras regiões do estado. Entretanto, o julgamento de Celina Monte foi marcado para março de 1899 em Salvador, considerando-se que um processo de tal magnitude não poderia ser conduzido adequadamente nos limitados recursos judiciais de Jacobina.

A transferência da arguida para a capital foi realizada sob forte escolta em janeiro desse ano. O caso atraiu a atenção nacional. Jornais de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo enviaram correspondentes para cobrir o julgamento que prometia expor pormenores de um dos crimes mais horripilantes já registados no país. A cobertura jornalística da época, embora sensacionalista em muitos aspetos, fornece um valioso registo do procedimento judicial e da reação pública aos crimes.

A monstro de Jacobina, como Celina passou a ser chamada pela imprensa, manteve-se impassível durante todo o julgamento. Vestida com roupas simples e sem qualquer ornamento, ela raramente olhava para o juiz ou para a plateia que enchia o tribunal. A sua defesa providenciada pelo Estado, argumentou em sanidade mental, alegando que apenas uma pessoa acometida de grave distúrbio poderia participar em tais atrocidades.

O promotor do processo, Dr. Ralípio Cardoso, construiu a sua acusação meticulosamente, chamando mais de 20 testemunhas, incluindo Pedro Menezes, o comerciante que escapou à venda naquela noite fatídico, e familiares de várias vítimas identificadas. O depoimento mais impactante, no entanto, veio de Rosa Alves, a jovem que tinha trabalhado brevemente na cozinha dos Monte.

Rosa revelou que durante o seu curto período na venda notou comportamentos estranhos que na altura atribuiu apenas a excentricidade dos patrões. Celina insistia que só ela poderia manusear determinados ingredientes e preparar a massa do pão. Havia um compartimento específico na dispensa que permanecia sempre trancado.

E mais perturbador, Rosa referiu ter visto uma vez Augusto regressando do porão com o que parecia ser carne fresca num período em que não tinham abatido nenhum animal. “Só compreendo agora o que vi”, declarou Rosa no tribunal. Na ocasião, pensei que fosse carne de caça, mas lembro-me de como era diferente a textura, a coloração, não era carne de animal.

O julgamento durou duas semanas, período em que cada aspecto dos crimes foi esmiuçado. A prova material era abundante. O livro de registos de Jeremias, Os pertences das vítimas encontrados na venda, os relatórios médicos sobre os restos humanos recuperados e talvez mais condenador os resultados da análise dos utensílios de cozinha que confirmaram a presença de tecido humano.

A 20 de março de 1899, o júri emitiu o seu veredicto, culpada de todos os crimes imputados. Celina Monte foi condenada na pena máxima prevista no Código Penal Brasileiro da época. Quando o juiz proferiu a sentença, dizem as reportagens, ela finalmente quebrou o seu silêncio com uma frase que seria muito comentada: “Julgais o que vedes, mas não o que não conseguem compreender.

” Celina foi transferida para a casa de detenção de Salvador, onde cumpriria a sua pena. De acordo com os registos penitenciários, ela raramente recebia visitas e mantinha-se isolada das outras reclusas que temiam a sua presença. O seu O comportamento na prisão era descrito como submisso e apático, exceto por um hábito que intrigava os guardas.

Ela desenhava frequentemente símbolos estranhos nas paredes da sua cela, semelhantes ao que tinha sido encontrado no livro de registos de Jeremias. Em Julho de 1900. Um acontecimento inesperado reascendeu o interesse público pelo caso. Um homem foi detido na cidade de Jequier, a cerca de 300 km de Jacobina, após tentar vender jóias que foram identificadas como pertencentes a vítimas dos Monte.

O suspeito que utilizava o nome de Alberto Santos foi posteriormente identificado como Augusto Monte. Ele tinha alterado a sua aparência, cortando o cabelo e deixando crescer uma barba espessa, mas cicatrizes distintivas no antebraço confirmaram a sua identidade. Durante o seu interrogatório, Augusto demonstrou uma postura muito diferente da mãe.

Enquanto Celina havia refugiado no silêncio, parecia quase ansioso por falar, como se desejasse explicar a filosofia por detrás dos crimes familiares. Segundo o relatório policial, descreveu os assassinatos como uma forma de arte e a preparação dos alimentos com restos humanos como a união suprema entre predador e presa.

“O corpo humano contém essências que nenhum animal possui”, teria dito Augusto. “Ao consumir a carne, absorvemos não só nutrientes, mas também a força vital, as memórias, a essência do ser. Este conhecimento foi passado por gerações na nossa família. Esta declaração levantou questões inquietantes sobre a origem das práticas dos monte.

Os investigadores começaram a explorar a possibilidade de que a família fizesse parte de algum culto obscuro ou tradição oculta. No entanto, nenhuma evidência concreta de ligações com grupos organizados foi encontrada. Parecia mais provável que a filosofia mencionada por Augusto fosse uma racionalização desenvolvida pela família para justificar os seus atos ediondos.

O julgamento de Augusto Monte foi realizado em Salvador em novembro de 1900. Ao contrário da mãe, falou extensivamente durante o processo, oferecendo detalhes perturbadores sobre os crimes e expressando orgulho em vez de remorço. A sua defesa tentou argumentar insanidade, mas os médicos que o examinaram concluíram que, apesar de as suas crenças aberrantes, compreendia plenamente a natureza criminosa dos seus atos.

Condenado como a mãe, Augusto foi enviado para uma prisão diferente, considerando-se o risco de os colocar juntos. Os registos indicam que ele continuou a falar sobre as suas crenças com outros detidos, alguns dos quais relataram pesadelos recorrentes após conversas com ele. Enquanto Celina e Augusto cumpriam as suas penas, Eleonora Monte permanecia desaparecida.

Apesar dos esforços contínuos das autoridades, nenhum rasto dela foi encontrado nos anos seguintes. Alguns especulavam que ela tinha morrido durante a fuga, talvez vítima de algum acidente nas regiões inóspitas por onde a família tentou escapar. Outros temiam que ela tivesse conseguido estabelecer-se em algum distante, continuando possivelmente as práticas da família.

Esta segunda teoria ganhou força em janeiro de 1902, quando uma série de desaparecimentos foi registada na pequena cidade de Barra do Mendes, a aproximadamente 200 km de Jacobina. As vítimas, tal como no caso dos Monte, eram sobretudo viajantes solitários. Quando as autoridades locais foram alertadas para as semelhanças com o caso de Jacobina, uma investigação mais detalhada foi iniciada.

Descobriu-se que uma mulher chamada Helena Santos tinha recentemente aberto uma pequena estalagem na região, onde oferecia refeições aos viajantes. A descrição física de Helena correspondia a Eleonora, considerando-se a passagem de 3 anos. Antes que pudesse ser detida, no entanto, Helena Santos desapareceu, abandonando a hospedaria durante a noite.

Uma busca nas instalações revelou um pequeno porão onde foram encontradas evidências perturbadoras. manchas de sangue, correntes fixadas à parede e restos humanos em avançado estado de decomposição. O padrão dos Monte estava a ser reproduzido. Esta descoberta provocou uma onda de pânico em várias cidades do interior da Bahia. As pessoas tornaram-se desconfiadas de estabelecimentos recém-abertos, especialmente os geridos por mulheres solitárias ou famílias de origem desconhecida.

Hospedarias e as vendas à beira das estradas viram os seus negócios diminuírem drasticamente à medida que os viajantes optavam por rotas mais movimentadas e evitavam paragens em locais isolados. As autoridades intensificaram a busca por Eleonora, distribuindo a sua descrição para esquadras de vários estados. Em alguns locais, mulheres inocentes foram temporariamente detidas com base em semelhanças físicas superficiais, evidenciando o clima de histeria que se instalou.

No entanto, apesar destes esforços, Eleonora nunca foi capturada. Em outubro de 1903, um incidente na casa de detenção de Salvador adicionou mais um capítulo sombrio à história do Monte. Celina, que se havia tornado uma prisioneira exemplar nos últimos anos, foi encontrada morta na sua cela. A causa oficial da morte foi registada como complicações cardíacas.

Mais rumores persistentes entre os funcionários da prisão sugeriam outras possibilidades. Alguns referiram que nas semanas anteriores à sua morte, Celina tinha começou a receber visitas de uma jovem sobrinha, uma mulher que ninguém na prisão já tinha visto antes e cujo registo de entrada continha informação que posteriormente se revelaram falsas.

A possibilidade de Eleonora ter visitado a mãe na prisão, talvez até auxiliando no seu suicídio ou algo pior, foi investigada, mas sem conclusões definitivas. O corpo de Celina foi enterrado no cemitério da prisão numa cerimónia breve e sem presença de familiares. Quanto a Augusto, o seu destino foi igualmente trágico.

Em maio de 1904, foi assassinado por outros detentos. De acordo com testemunhas, Augusto começara a falar sobre a verdadeira natureza do homem e a superioridade dos que se alimentam da essência humana. Estas declarações, somadas à notoriedade dos seus crimes, provocaram a ira dos outros prisioneiros, resultando na sua morte violenta.

Com o falecimento de Celina e Augusto, e o desaparecimento permanente de Eleonora, a saga criminal conhecida dos Monte parecia encerrada. No entanto, o legado de horror deixado pela família continuou a assombrar a região de Jacobina durante muitos anos. A venda dos Montes foi demolida por ordem judicial em março de 1905, após várias tentativas falhadas de utilizá-la para outros fins.

Ninguém estava disposto a ocupar um local associado a tais horrores. A decisão de demolição foi recebida com alívio pelos moradores, muitos dos quais acreditavam que o próprio solo tinha sido contaminado pelos crimes aí cometidos. Durante o processo de demolição, no no entanto, uma descoberta adicional foi feita.

Sob o piso da cave, os Os trabalhadores encontraram um compartimento selado, contendo documentos e objetos que parecem ter pertencido às gerações anteriores da família Monte. Entre esses itens estava um diário datado de 1867, escrito por um tal Tobias Monte, que aparentava ser o avô de Jeremias. O diário, parcialmente danificado pela humidade, continha relatos fragmentados de práticas semelhantes às descobertas em Jacobina, sugerindo que os horrores perpetrados pela família remontavam a pelo menos três gerações.

Tobias descrevia rituais que envolviam o consumo de carne humana, não só por necessidade, mas por uma crença de que isso conferia poderes especiais e prolongava a vida. Cada homem que passa a fazer parte de nós fortalece o nosso sangue”, escreveu Tobias num trecho particularmente perturbador. “A essência vital contida na carne e nos órgãos, quando preparada adequadamente e consumida com as palavras certas, passa a fazer parte do nosso próprio ser.

Assim temos vivido, assim continuaremos passando este conhecimento sagrado para os nossos filhos.” Este documento levantou questões sobre as origens mais profundas das práticas da família Monte. Investigadores especializados em história criminal sugeriram possíveis ligações com certos cultos europeus obscuros trazidos por imigrantes no século XIX ou mesmo com rituais indígenas distorcidos e ressignificados ao longo do tempo.

No no entanto, a falta de registos fiáveis sobre a linhagem familiar anterior a Tobias tornou impossível estabelecer uma genealogia definitiva dessas práticas. O terreno onde antes funcionava a venda dos Monte, permaneceu desocupado por muitos anos. A vegetação gradualmente reclamava o espaço, cobrindo os escombros e apagando os sinais visíveis do que ali havia ocorrido.

Os moradores, no no entanto, evitavam a área e histórias sobre sons estranhos e aparições noturnas começaram a circular, contribuindo para a mitologia local. Em 1910, 14 anos após a descoberta dos crimes, um incidente curioso foi registado nas proximidades do antigo estabelecimento. Um grupo de vaqueiros que passava pela região afirmou ter visto uma mulher de meia idade a colher ervas entre as ruínas.

Quando tentaram se aproximar, ela desapareceu na vegetação densa. A descrição fornecida pelos vaqueiros correspondia a uma eleonora monte envelhecida. Este relato, embora nunca confirmado oficialmente, reavivou os receios na comunidade. Algumas pessoas afirmaram ter visto luzes estranhas na zona durante a noite, enquanto outras relataram o desaparecimento inexplicável de animais domésticos das quintas próximas.

Estas ocorrências foram atribuídas à possível presença de Eleonora, alimentando especulações de que ela periodicamente regressava ao local dos crimes familiares por razões desconhecidas. As autoridades investigaram estas alegações, mas não encontraram evidências concretas. O delegado Tertuliano Dantas, que assumiu o posto em Jacobina em 1904, documentou cada relato meticulosamente, mas concluiu no seu relatório anual de 1910 que a maioria destes avistamentos pode ser atribuída ao medo persistente e a imaginação exacerbada da população

local, ainda traumatizada pelos acontecimentos de 1898. Quanto ao paradeiro real de Eleonora Monte, várias teorias foram propostas ao longo dos anos. Alguns investigadores acreditavam que ela tinha fugido para estados distantes, como Minas Gerais ou São Paulo, onde poderia facilmente perder-se no anonimato das cidades em crescimento.

Outros especulavam que ela teria abandonado o país, talvez embarcando em algum porto nordestino com destino à Europa ou América do Norte. Uma teoria particularmente inquietante sugeria que Eleonora poderia ter estabelecido contacto com outros indivíduos ou grupos que partilhavam as crenças aberrantes da família Monte, formando uma espécie de rede oculta dedicada a práticas similares.

Esta teoria baseava-se em padrões de desaparecimentos inexplicados registados em diferentes regiões do país nas décadas seguintes, embora nunca tenha sido comprovada. O que é certo é que o caso da venda dos Montes marcou profundamente a história criminal brasileira, não só pela natureza edda dos crimes, mas também pelas suas implicações perturbadoras sobre o que os seres humanos são capazes de fazer quando movidos por crenças distorcidas e desejos perversos.

A ideia de que uma família aparentemente comum, respeitada na sua comunidade, poderia ocultar tais horrores, abalou as noções de confiança social e revelou o potencial para o mal que pode existir sobidade. O impacto cultural do caso estendeu-se muito para além de Jacobina. Nas décadas seguintes, surgiram lendas e contos populares inspirados nos crimes dos Monte, frequentemente distorcendo ou exagerando elementos da história real.

Em algumas versões, Celina era retratada como uma bruxa com poderes sobrenaturais. Noutras, as vítimas eram exclusivamente crianças, uma distorção sem base nos registos históricos. Estas narrativas folclóricas transmitidas oralmente contribuíram para criar uma mitologia do horror em torno da família.

Os poucos objetos recuperados da venda dos Monte, utensílios de cozinha, ferramentas, peças de mobiliário, foram inicialmente preservados como prova e posteriormente armazenados num depósito da esquadra de Jacobina. Em 1912, um incêndio destruiu parte deste depósito, consumindo muitos destes itens.

Alguns viram o evento como uma purificação necessária, enquanto outros lamentaram a perda de provas históricas importantes. O único objeto que sobreviveu intacto foi o livro de registos de Jeremias Monte, que na altura do incêndio havia sido transferido para os arquivos judiciais em Salvador. Este documento, com as suas anotações meticulosas e símbolos enigmáticos, continua a ser um dos poucos testemunhos tangíveis dos crimes.

Historiadores e Os criminologistas solicitam ocasionalmente acesso ao mesmo para estudos. Embora o acesso seja restrito devido à natureza sensível do material. A área onde funcionava a venda dos Montes manteve-se abandonada até 1920, quando a expansão gradual de Jacobina começou a aproximar-se da região. O terreno foi eventualmente incorporado no património municipal e, após intenso debate público, decidiu-se transformar o local num pequeno bosque memorial, com árvores autóctones plantadas em homenagem às vítimas identificadas. Este memorial,

concebido como um espaço de reflexão e lembrança, nunca se tornou popular entre os moradores. Mesmo décadas após os crimes, persistia um sentimento generalizado de que o lugar transportava uma energia negativa. Visitas escolares e turísticas ao local eram raras, e aqueles que se aventuravam até lá frequentemente relatavam sensações de desconforto e opressão.

Em 1932, um investigador de folclore regional chamado Joaquim Ribeiro visitou Jacobina para recolher histórias locais, incluindo as relacionadas com os montes. Ele notou que, apesar do tempo decorrido, o caso ainda exercia um fascínio mórbido sobre a população. Nas suas anotações, Ribeiro escreveu: “É como se a cidade fosse dividido em duas épocas, antes e depois dos monte.

Os mais velhos ainda baixam a voz quando falam do assunto e as crianças aprendem desde cedo a evitar o caminho do antigo bosque. Ribeiro também documentou uma tradição local peculiar. Em certos estabelecimentos comerciais de Jacobina, tornou-se costume oferecer o primeiro pedaço de pão de cada fornada como uma espécie de oferenda, deixando-o num prato separado que ninguém tocava.

Quando questionados, os padeiros explicavam que era para afastar o mal ou para que a receita se mantenha pura. Esta prática, claramente ligada ao trauma coletivo causado pelos crimes dos Monte, persistiu até meados do século XX. Outra consequência cultural notável foi a persistente desconfiança em relação a forasteiros que tentavam estabelecer comércio na região.

Novos Os estabelecimentos frequentemente enfrentavam resistência inicial da comunidade e precisavam de tempo considerável para conquistar a confiança dos moradores. Esta atitude defensiva foi-se atenuando gradualmente com as gerações, mas traços dela podiam ser observados ainda nas décadas de 19450. Do ponto de vista criminológico, o caso dos Monte é considerado um dos primeiros exemplos bem documentados de assassinos em série com motivações ritualísticas no Brasil.

Estudos posteriores classificaram a família dentro do categoria de assassinos organizados cooperativos. um tipo relativamente raro em que múltiplos perpetradores trabalham juntos seguindo um padrão consistente ao longo de um período prolongado. O aspecto canibal dos crimes, embora não único na história criminal brasileira, destaca-se pela forma sistemática e quase empresarial com que foi conduzido.

Diferentemente de casos isolados de canibalismo movidos pelo desespero ou psicose aguda, os monte tinham desenvolvido um sistema elaborado que integrava o assassinato, o processamento dos corpos e a venda dos produtos resultantes. Tudo sustentado por uma ideologia aberrante transmitida através de gerações.

Os elementos psicológicos do caso também atraíram a atenção académica. A dinâmica familiar dos Monte com Jeremias como o líder intelectual, Celina como a executora prática e os filhos como aprendizes do ofício macabro, forneceu material para estudos sobre a transmissão intergeracional de comportamentos desviantes e a criação de sistemas de crenças familiares fechados que normalizam o extremamente anormal.

Em 1954, o psiquiatra Dr. Ernesto Campos publicou um estudo detalhado sobre o caso, baseado nos registos disponíveis e em entrevistas com pessoas que tinham conhecido os Monte ou participado na investigação. A sua conclusão mais perturbadora foi que nenhum dos membros da família apresentava sinais claros de insanidade clínica, tal como entendida na época.

Em vez disso, operavam dentro de um sistema lógico interno coerente, embora fundamentalmente distorcido. “O verdadeiro horror do caso Monte”, escreveu Campos, reside não na aberração de mentes doentes, mas na capacidade humana de construir realidades alternativas, onde o impensável torna-se não só aceitável, mas necessário e até virtuoso.

análise ecoa nas palavras encontradas no diário de Tobias Monte, onde as práticas canibais eram descritas não como perversões, mas como conhecimento sagrado e parte de uma tradição familiar valiosa. A capacidade de enquadrar atos ediondos dentro de uma narrativa de significado e propósito representa um aspecto particularmente inquietante da A psicologia humana, que transcende categorias simplistas de sanidade e loucura.

Um elemento final que continua a intrigar os investigadores é o destino de Leonora Monte. Diferentemente dos seus pais e irmãos, cujos fins foram documentados, Eleonora representa uma linha narrativa não resolvida. O relato de 1910 sobre uma possível aparição sua nas ruínas da venda foi o último registo oficial relacionado com ela, mas rumores e alegações de avistamentos continuaram a surgir esporadicamente nas décadas seguintes.

Em 1965, uma mulher idosa faleceu num asilo na cidade de Feira de Santana, aproximadamente 300 km de Jacobina. Entre os seus pertences, funcionários encontraram um medalhão antigo com as iniciais em gravadas e um pequeno livro de apontamentos contendo receitas de pão e bolos. Quando a notícia chegou às autoridades familiarizadas com o caso Monte, foi iniciada uma investigação, mas a identidade da mulher nunca foi conclusivamente estabelecida.

Ela havia sido admitida no asilo em 1958 sob o nome de Ernestina Macedo, sem familiares conhecidos e com documentos que posteriormente se revelaram provavelmente falsificados. Este incidente alimentou especulações de que Eleonora poderia ter vivido décadas escondida sob identidades falsas, talvez continuando as práticas da família em menor escala ou simplesmente tentando escapar ao legado familiar.

A possibilidade de ela ter formado uma nova família, transmitindo as crenças dos Monte a outra geração, representa um dos aspetos mais inquietantes e não resolvidos do caso. O bosque memorial no local da antiga venda foi oficialmente encerrado ao público em 1970, quando a área foi redesignada para desenvolvimento urbano.

Durante o processo de preparação do terreno, os trabalhadores desenterraram fragmentos de ossos humanos. não descobertos nas investigações originais, confirmando as suspeitas de que o número de vítimas poderia ser maior do que inicialmente documentado. Estes restos foram devidamente analisados ​​e posteriormente enterrados no cemitério municipal com uma cerimónia simples.

Hoje, mais de um século após os crimes, poucas provas físicas restam da venda dos Monte. O local é agora ocupado por residências modernas. E muitos dos atuais moradores de Jacobina desconhecem os pormenores do caso que outrora definiu a identidade da cidade. No entanto, fragmentos da história persistem na memória coletiva, transmitidos através de gerações como advertências sobre os perigos que podem esconder sob aparências normais.

Em coleções de folclore regional, ainda se encontram versões da lenda do pão de Selina, frequentemente adaptadas para servir como contos morais. Para crianças. Nestas versões higienizadas, os elementos mais perturbadores são omitidos ou substituídos por metáforas, mas o núcleo da história permanece reconhecível.

Uma família que aparenta bondade, mas esconde segredos terríveis. Para os historiadores e criminologistas, o caso da venda dos Monte continua a ser um estudo fascinante sobre os limites da O comportamento humano e as complexidades da maldade organizada. A combinação de motivações práticas, ganha o material através do roubo, com elementos ritualísticos e uma ideologia familiar distorcida, transmitida através de gerações, cria um panorama complexo que desafia as explicações simplistas.

O aspecto mais perturbador do caso, talvez seja a sua sugestão de continuidade. Se se considerarmos os indícios de que as práticas dos Monte precederam a geração de Jeremias e Celina, e a possibilidade de que Eleonora possa ter continuado a tradição familiar sob alguma forma, confrontamos a inquietante ideia de um mal que não é apenas pontual, mas persistente, capaz de se adaptar, evoluir e encontrar novos hospedeiros.

A história dos monte lembra-nos que o mal raramente surge completamente formado, mas desenvolve-se gradualmente, passando de geração em geração, alimentado por sistemas de crenças que normalizam o impensável. Neste sentido, talvez a lição mais valiosa do caso seja a necessidade de vigilância contra as pequenas corrupções morais que, sem resistência, podem eventualmente crescer em algo monstruoso.

Para os habitantes contemporâneos de Jacobina, a venda dos Montes é hoje mais lenda do que história. As gerações que vivenciaram diretamente os acontecimentos desapareceram e as narrativas foram gradualmente filtradas e transformadas pela passagem do tempo. No entanto, algo do horror original ainda ressoa naquelas colinas douradas.

Um eco distante, mas persistente, de eventos que a comunidade nunca conseguiu esquecer completamente. Na biblioteca municipal da cidade, um pequeno ficheiro contém os recortes de jornais, documentos oficiais e fotografias relacionadas com o caso, mantido não para glorificar o horror, mas para preservar a memória do que aconteceu como parte da identidade histórica da região.

Periodicamente, os investigadores visitam estes arquivos procurando novas perspetivas sobre um caso que, mesmo passado mais de um século, continua a fascinar e a perturbar. E assim permanece a história da venda dos Monte, um capítulo negro na história de Jacobina, um estudo de caso para criminologistas, uma lenda para os contadores de histórias locais e um lembrete perturbador das profundezas que podem existir sob a superfície da sociedade civil.

Cada geração redescobre e reinterpreta o caso através das suas próprias lentes, encontrando novos significados e advertências. Quanto às almas daqueles que pereceram às mãos da família Monte, a tradição local sustenta que elas nunca encontraram verdadeiro descanso. Nas noites silenciosas, dizem os mais velhos, ainda se ouvem ecos distantes das suas vozes carregados pelo vento que sopra das serras douradas de Jacobina.

Não gritos de angústia, mas sussurros urgentes de advertência para aqueles dispostos a ouvir.

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