Ela queria apenas um herdeiro, mas acabou viciada no “serviço” dele.
O quarto de Beatriz exalava o perfume doce de Jasmim, mas o ambiente era de uma frieza cortante. Ela caminhou até ao janela, observando as terras da quinta, antes de se virar para a sua confidente, com o olhar fixo e determinado. Escute bem, Rosa, eu não quero um depósito de afeto ou qualquer coisa que lembre o amor, disse Beatriz, a voz firme como o chicote que ela nunca precisou de usar.
Vai convencer o Juliano a fazer apenas uma coisa. Ele virá ao meu quarto, depositará o seu leite em mim até ter um filho. Se ele conseguir dar-me esse herdeiro, eu própria assino a sua alforria e ele poderá desaparecer desta quinta para sempre. Rosa sentiu um arrepio e ajeitou o avental, abanando a cabeça com um temor que ia para além da obediência.
“Sim, ah, a senhora não sabe o que está a pedir. A senhora não aguenta”, sussurrou a Mucama, aproximando-se com os olhos arregalados. Todas as mulheres que provaram do Juliano acabaram perdidas, apaixonadas por ele. Aquilo que ele tem não é normal, senhã. É maior do que uma régua, é grande, é grosso e parece ter feitiço. Não é um homem que se usa e se esquece.
Beatriz soltou uma gargalhada seca, desfazendo o nó do seu espartilho com um desdenho arrogante. Eu aguento, sim, Rosa. Eu não sou todas as mulheres. Eu não quero um marido, um amante ou algo do género. Eu só quero o sangue dele para continuar o meu nome. Ele vai-me dar este filho e continuarei a ser a dona de tudo, inclusive de mim própria. Rosa suspirou, sabendo que a teimosia da patroa seria a sua ruína ou a sua libertação. Pois bem, sim.
falarei com ele ainda hoje, mas depois, quando o corpo da senhora estiver a arder e a mente não conseguir pensar em mais nada que não seja ele, não diga que eu não lhe avisei. Esta é a história da Siná Beatriz, uma mulher que achava que podia comprar tudo até à alma de um homem. Mas antes de eu te contar como ela se tornou escrava do seu próprio desejo, quero pedir-te uma coisa.
Curta já o vídeo mesmo. Subscreva o canal para não perder os próximos contos e comentar aqui debaixo de que cidade está assistindo. Quero saber até que ponto a força desta história vai chegar. O casarão da A quinta de Santa Aliança parecia respirar sob o peso do silêncio da noite, interrompido apenas pelo estalar da madeira antiga e pelo pio longínquo de uma coruja.
No piso superior, num quarto que exalava o perfume caro de jasmim e alfazema, assim a Beatriz caminhava de um lado para o outro, os seus passos abafados pelo tapete persa. O brilho das velas refletia-se nos seus olhos, que não transportavam doçura, mas a dureza de quem herdara um império e estava disposta a tudo para não o deixar ruir.
“Percebeste bem, Rosa?” A voz de Beatriz era um chicote de seda, baixo e perigosa. Rosa, a sua mucama de confiança e a única pessoa que conhecia os segredos que Beatriz escondia sob o espartilho apertado, limpou as mãos suadas no avental branco. Ela tremia levemente, não de frio, mas de pavor pelo que estava prestes a desenrolar-se naquelas paredes de taipa e luxo.

Percebi, senha. Mas peço que a senhora pense, o Juliano não é como os outros. Há um mistério naquele homem, uma força que as outras mulheres da cenzala dizem ser descomunal. Dizem que quem prova dele perde o juízo. Beatriz parou diante do espelho de moldura dourada, ajeitando uma madeixa de cabelo que lhe escapava penteado perfeito.
Ela soltou uma gargalhada seca, desdenhosa, que ecoou friamente pelo quarto. Juízo? Ora, Rosa, olha para mim. Eu comando 500 homens nesta terra. Eu decido quem vive e quem morre desde que o meu pai partiu. Acha mesmo que vou perder o juízo por causa de um escravo? Ele é uma ferramenta cor-de-rosa, uma ferramenta biológica, nada mais.
Meu primo está a tentar impugnar o meu testamento, alegando que não tenho descendentes. Eu preciso de um herdeiro e preciso agora. Assim assentou-se na beira da cama de Docelé, cujos lençóis de linho impecáveis pareciam esperar por um sacrilégio. Ela não queria um marido. Um marido significaria entregar as chaves da exploração e a sua autonomia a um homem da sua classe que com certeza tentaria domesticá-la.
Ela preferia o pecado oculto à servidão pública. “Vá buscá-lo”, ordenou Beatriz sem olhar para trás. Diga-lhe que se ele cumprir aquilo que eu ordenar, se ele for eficiente e me der um filho varão, eu própria assinarei a sua alforria e dar-lhe-ei terras longe daqui. Mas avise, se ele ousar levantar os olhos para mim sem permissão, ou se achar que este ato lhe dá algum direito sobre a minha pessoa, ele conhecerá o tronco antes de conhecer o paraíso.
Rosa assentiu, engolindo em seco, e saiu do quarto, deixando Beatriz sozinha com os seus pensamentos. Assim a sentia o coração acelerado, uma reação física que ela detestava. Para ela, o corpo era apenas um fardo que precisava ser gerido. Ela despu jóias, sentindo o peso do ouro abandonar-lhe o pescoço, mas mantendo a armadura da arrogância intacta.
Minutos depois, passos pesados e lentos foram ouvidos no corredor. A porta rangeu ao abrir. O Juliano entrou. Era mais alto do que Beatriz lembrava-se. A luz das velas esculpia os músculos dos seus ombros largos e o peito bronzeado pelo sol inclemente das lavouras. Ele não entrou de cabeça baixa como os outros.
Os seus olhos eram escuros, profundos e transportavam uma inteligência silenciosa que incomodou Beatriz imediatamente. Ele cheirava a terra a suor limpo e a algo mais, algo primitivo que fez o estômago da Sha dar um nó. Aproxime-se”, disse ela, esforçando-se para manter a voz firme, embora o ar no quarto parecesse ter ficado subitamente mais denso, Juliano deu dois passos à frente.
Não disse uma palavra, mas a sua presença preenchia o espaço de uma forma que nenhum móvel de luxo conseguia. A Beatriz caminhou ao redor dele como um comprador que avalia uma mercadoria na feira, mas os seus dedos tremeram quando ela estendeu a mão para tocar-lhe no ombro, sentindo a pele quente e firme. “Sabe por está aqui, Juliano?”, perguntou ela, parando à sua frente, obrigando-o a olhar para baixo para a encontrar.
“Rosa me explicou os termos.” Sim. A voz dele era um barito no profundo que pareceu vibrar no açoalho do quarto. A senhora quer um filho e eu quero a minha liberdade. Exatamente. Beatriz sibilou, tentando recuperar a posição de poder. Não haverá beijos, não haverá carícias e, acima de tudo, não haverá amor.
Você virá aqui, depositará a sua semente e sairá antes do amanhecer. Você é apenas o meio para um fim. Percebeu a sua função? Um pequeno sorriso, quase imperceptível surgiu nos lábios de Juliano. Não era um sorriso de deboche, mas de quem via para além da máscara de gelo daquela mulher. Entendi perfeitamente, sim, a Beatriz, mas a senhora deve saber.
A terra pode ser fértil, mas o arado precisa de ser forte para abrir o sulco. Aquelas palavras carregadas de um duplo sentido que Beatriz fingiu não compreender fizeram o seu rosto arder. Ela apontou para a cama, a sua mão a tremer visivelmente agora. O acordo de sangue estava selado. Ela acreditava que estava a comprar um futuro para o seu império, mas não tinha ideia de que, ao abrir aquela porta, estava a entregar a chave de suas próprias correntes para o homem que ela chamava de escravo.
Despeça-se da sua vida como a conhece, Juliano. Se falhar, apodreces nas cenzalas. Se conseguir, nasce-se de novo. Agora apague as velas. Eu não quero ver o rosto do meu pecado. A escuridão no quarto da Beatriz não era total. A lua minguante filtrava-se pelas fendas das persianas, projetando listras de luz prateadas sobre o tapete.
No centro do quarto, ah, permanecia de pé, envolta em uma camisola de seda que parecia uma armadura líquida. Quando Juliano deu o primeiro passo para o interior do aposento, ela não o recebeu com a cortesia que dispensaria a um convidado, mas com o chicote invisível da sua língua. Fique parado aí, onde a luz não o alcance completamente”, ordenou ela, a voz carregada de um asco forçado.
“Não se esqueça de que cheira a cenzala e a terra barrenta. Para mim, não passas de um animal de carga que decidi utilizar para uma tarefa que os meus cavalos não podem cumprir.” Juliano permaneceu estático. Ele não se encolheu perante o insulto. Pelo contrário, a sua silhueta parecia crescer sob as sombras, os ombros largos bloqueando a pouca luz que vinha do corredor.
O silêncio dele era o que mais irritava Beatriz. Ela queria que ele implorasse, que tremesse, que reconhecesse a distância abismal que existia entre o sangue azul dela e o sangue escravo dele. O que foi? O gato comeu a sua língua ou a sua espécie só compreende ordens gritadas? Ela continuou, aproximando-se apenas o suficiente para sentir o calor que emanava do corpo dele. Desp-se dessas roupas grosseiras.
Não quero que o toque deste tecido barato encostar nos meus lençóis de linho. Faça o que tem de fazer, mas não atreva-se a tocar-me com as mãos. Utilize apenas o que for necessário para o serviço. Juliano começou a despir-se com uma lentidão deliberada, uma calma que roçava a insolência. Cada peça de roupa que caía no chão parecia um desafio à autoridade de Beatriz.
Quando ele finalmente ficou nuante dela, assim sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões. Mesmo na penumbra, a anatomia dele era uma afronta à sua suposta superioridade. Ele era uma obra de força bruta e perfeição física, algo que nenhum dos pretendentes almofadinhas da cidade jamais poderia sonhar ser. Eite-se. Ela comandou a sua voz falhando ligeiramente pela primeira vez. E feche os olhos.
Eu não permito que olhe para o meu rosto enquanto me serve. Você não é um amante, Juliano. Você é um depósito, um instrumento. Lembre-se que quando sentir o perfume desta cama. Você não pertence a este lugar. O Juliano obedeceu, deitando-se sobre a colxa de seda fria. O contraste era brutal. a pele escura e máscula dele contra a brancura virginal dos lençóis da Beatriz.
Ele fechou os olhos, mas a sua voz ecoou baixa, como um trovão distante. A senhora fala muito de classe e de berço, senhora do prazer ou da dor, o sangue que corre é da mesma cor. A senhora pode tentar esconder-se no escuro, mas o corpo não mente. O meu serviço será feito, mas não culpe o animal se a montaria for demasiado pesada para a sua delicadeza.
A Beatriz sentiu uma onda de fúria misturada com um calafrio desconhecido. Ela aproximou-se da cama, decidida a manter o desdém até o último segundo, tratando aquele encontro como uma transação comercial desagradável. Ela posicionou-se sobre ele, tentando sentir o toque da pele quente contra a sua, mantendo o rosto virado para o lado oposto.
“Cale-se e cumpra a sua parte”, sibilou ela. No no entanto, quando o contacto físico finalmente aconteceu, a barreira de insultos que ela construiu começou a ruir. Beatriz percebeu com um pavor crescente que não seria fácil tratar aquele homem como pouca coisa. O peso da presença de Juliano e a força que ele emanava eram realidades que nenhuma lei ou título de propriedade poderia anular.
Naquela escuridão, ela tentava manter a sua superioridade de classe, mas o seu próprio corpo começava a traí-la, reconhecendo em Juliano uma autoridade que ela nunca imaginou encontrar num homem que ela considerava inferior. A humilhação que ela pretendia infligir a estava ironicamente a começar a se voltar contra ela própria, pois enquanto ela insultava-o por fora, por dentro, Beatriz começava a sentir o primeiro vislumbre de uma sede que nenhuma ordem de comando seria capaz de saciar.
Capítulo tr. O embate de carne. O quarto, mergulhado numa penumbra densa, parecia ter encolhido. O ar estava saturado com o cheiro do sabão de alfazema de Beatriz e o odor másculo e terroso de Juliano. Assim, ah, mantinha os dentes cerrados, o rosto virado para a parede, recusando-se a oferecer qualquer humanidade ao homem que estava sob os seus lençóis.
Ela queria que aquilo acabasse rapidamente. Queria que o serviço fosse uma nota de rodapé esquecível em a sua biografia de poder, mas a teoria da transação fria desmoronou-se no exato instante em que o contacto físico se tornou inevitável. Quando Juliano se moveu, a Beatriz sentiu a primeira onda de choque.
Não era apenas a força bruta dos um homem que passava os dias a carregar sacos de café e a domar cavalos selvagens. Era algo anatómico, algo que desafiava a lógica da sua própria resistência. As palavras de Rosa ecoaram na sua mente como um sino fúnebre. Aquilo não é normal, Senhá, é maior que uma régua. Naquele momento, a arrogância de Beatriz foi atropelada pela realidade da carne.
“Espere”, sussurrou ela, a voz perdendo a autoridade e ganhando um tom de pânico. Juliano, porém, estava seguindo as ordens dela. Ela pedira-lhe eficiência. Ela pedira-lhe para ser o animal de carga. Ele avançou com uma lentidão que era quase uma tortura psicológica. E a Beatriz sentiu como se o seu corpo estivesse a ser invadido por uma força que ela não tinha capacidade de comportar.
A dor aguda e a sensação de excessiva plenitude fizeram-na perder o fôlego. O linho da cama, que antes era um símbolo do seu luxo, parecia agora áspero contra a sua pele que ardia. Pare. O grito escapou-lhe da garganta, cortando o silêncio do palacete. Ela tentou afastar-se, mas Juliano era como uma montanha de granito.
A dor física se misturou à humilhação de se sentir pequena e vulnerável pela primeira vez na vida. Beatriz, a mulher que dobrava governadores e decidia o destino dos centenas, sentia-se fisicamente dominada. Ela sentia que a sua estrutura interna seria partida ao meio por aquela ferramenta que ela própria havia convocado.
“Está a fazer isso de propósito?”, exclamou ela, empurrando os ombros largos dele com toda a força que as suas mãos finas possuíam. “Você quer-me ferir? Quer vingar-se de mim por ser sua dona?” Juliano recuou imediatamente, sentando-se na beira da cama. A luz da lua iluminava as suas costas largas e marcadas por anos de trabalho, mas o seu rosto permanecia nas sombras.
“Eu apenas segui o que a senhora exigiu”, ele disse, a voz num tom grave e calmo que a irritava ainda mais. A senhora disse que eu era um animal. Os animais não medem forças, apenas cumprem a natureza. Indignada Beatriz envolveu-se nos lençóis, tremendo de dor e de raiva. O o suor frio escorria-lhe pela têmpora. Ela sentia-se violada não pelo ato em si, mas pela constatação de que não tinha controlo sobre o corpo de Juliano, nem sobre o seu próprio.
“Fora daqui!”, ela gritou, apontando para a porta com o dedo trémulo. “Saia já, seu selvagem. Tentou desonrar-me com essa essa brutalidade. És um monstro, Juliano. A Rosa tinha razão. Você é um erro da natureza. Juliano levantou-se com uma dignidade que parecia insultuosa. Ele vestiu as suas roupas grosseiras sem pressa, enquanto Beatriz continuava a lançar insultos, tentando desesperadamente recuperar a máscara de gelo que se tinha estilhaçado.
“Vou sair, senh”, disse ele, “já perto da porta, mas a senhora sabe que a dor não veio da minha vontade, veio do facto de que a senhora é demasiado pequena para o que tenho para oferecer. Reze para que o seu herdeiro não necessite de tanta força quanto a senhora diz ter. A porta bateu, deixando Beatriz sozinha no escuro, abraçada às almofadas, soluçando de puro ódio.
Ela jurou a si mesma que nunca mais o chamaria. jurou que o mandaria para o tronco na manhã seguinte, mas enquanto a dor latejava em o seu corpo, uma sensação estranha e proibida começou a serpentear na sua mente. O choque daquela tentativa tinha deixado uma marca que não era apenas física. Ela odiava-o. Mas, pela primeira vez em 30 anos, Beatriz sentia-se verdadeiramente acordada.
O dia seguinte foi um suplício de aparências. Beatriz tentou focar-se nos livros de contabilidade da quinta, mas os números pareciam dançar diante dos seus olhos, transformando-se nas sombras dos ombros de Juliano. A dor que sentira na noite anterior tinha diminuído para um latejo surdo e quente entre as suas coxas, uma lembrança constante da sua fragilidade física perante aquele homem.
Ela passara as horas jurando que o enviaria para as culturas mais distantes, mas conforme o sol se punha, a soberba dava lugar a uma necessidade química e sombria. “Rosa”, chamou-a ao entardecer, com a voz estranhamente rouca, “Tragam-no de volta esta noite.” A mucama não disse nada, apenas assentiu com um olhar de “Eu avisei que a Beatriz fingiu não ver”.
Desta vez, quando Juliano entrou no quarto, não houve insultos. A Beatriz não estava de pé, desafiante. Ela esperava sentada na poltrona, envolta numa penumbra quase total. O silêncio era absoluto, denso como um melaço. Juliano não perguntou nada, nem pediu desculpa pela noite anterior. Ele sabia que o facto de estar ali novamente era a maior rendição que aá poderia oferecer.
Sem uma ordem sequer, começou a despir. O som das roupas a cair no chão era o único ruído no ambiente. Beatriz caminhou até à cama, os seus movimentos lentos, quase rituais. Ela deitou-se e, desta vez, não fechou os olhos. Ela queria ver o que a assustava. Quando ele aproximou-se e o peso do seu corpo voltou a pressionar o linho, Beatriz sentiu o coração martelar contra as costelas.
Ela preparou-se para a dor, para o choque da régua que a tinha ferido antes. Mas Juliano, como se lesse seu pavor, agiu com uma paciência calculada que era mais perigosa do que a brutalidade. Utilizou o peso, o calor e a força de forma gradual, permitindo que o corpo dela, ainda que relutante, se moldasse àquela dimensão impossível.
O silêncio foi quebrado apenas pela respiração pesada de ambos. Beatriz sentiu a resistência dos seus músculos ceder, o que começou por ser uma invasão dolorosa, transformou-se milímetro a milímetro numa expansão sensorial que ela nunca imaginou suportar. Ela aguentou, ela comportou o que lhe pareceu inconportável e no momento em que a plenitude física foi total, algo dentro da sua mente estalou.
Não era apenas mecânico, não era apenas um depósito para um herdeiro. Um prazer avaçalador, vindo de uma profundidade que ela desconhecia, subiu-lhe pela espinha como um incêndio florestal. A Beatriz sentiu as pontas dos dedos formigarem. A sua visão ficou turva e o quarto pareceu desaparecer. Ela entrou num estado de transe onde as noções de siná e escravo, de luxo e senzala foram incineradas.
Ela deu por si a agarrar os braços de Juliano, não para o afastar, mas para garantir que ele não parasse. As unhas dela cvaram-se na pele escura dele, marcando o homem que ela deveria desprezar. O clímax surgiu como um golpe de misericórdia, deixando-a sem ar, trémula e completamente à mercê das sensações. Quando Juliano se afastou finalmente, Beatriz permaneceu imóvel, olhando para o tecto, o peito subindo e descendo em espasmos.
Ela estava em transe com a mente toldada por uma satisfação que roçava o pecado mortal. Ela conseguira o que queria. A semente dele estava lá. Mas ao olhar para a silhueta de Juliano vestindo-se silenciosamente, Beatriz percebeu o preço daquela noite. Ela não era mais a mesma dona de si própria. O O corpo dela conhecia agora um mestre e o vício silencioso e letal acabara de criar raízes na sua alma de gelo.
As semanas se passaram e o calendário de ovulação, que antes era o guia sagrado de Beatriz, tornou-se apenas um pedaço de papel irrelevante guardado na gaveta. O herdeiro, a razão oficial de todo o aquele teatro de sombras, ainda não tinha dado sinais de vida. Para qualquer outra mulher na sua posição, isso seria motivo de ansiedade ou frustração.
Para Beatriz, era o álibe perfeito. Rosa, ele deve vir novamente esta noite, disse ela, sem desviar os olhos dos campos de cana enquanto tomava o seu café matinal na varanda. O método ainda não surtiu efeito. Precisamos de constância. Rosa servia o café em silêncio, mas o tilintar da porcelana denunciava o seu nervosismo.
Ela via o que estava acontecendo. Assim já não tinha as olheiras do cansaço administrativo, mas sim o brilho febril de quem passa as madrugadas em claro, consumida por uma fome que não se sacia com alimentos. A Beatriz tornou-se uma observadora silenciosa. Durante o dia, ela se postava atrás das pesadas cortinas de seu escritório, vigiando o pátio.
Seus olhos procuravam apenas um vulto, Juliano. Ela ouvia carregar fardos pesados, o sol fazendo brilhar a sua pele como obsidiana polida. Ela observava a atenção nos músculos das costas dele, os mesmos que ela arranhava sob o silêncio da noite, e sentia uma posse perigosa crescer no seu peito. “Ele é meu”, pensava ela, com os dedos a apertarem o tecido da cortina.
Cada gota de suor, cada fibra deste músculo, comprei o serviço dele. Ele pertence-me. Mas a verdade era inversa. O vício tinha-se instalado de forma letal. Ao cair da tarde, Beatriz sentia uma irritabilidade crescente, uma agitação que só se acalmava quando ouvia os passos pesados dele no corredor superior. O serviço de Juliano já não era um ato mecânico para gerar um filho.
Era a única coisa que a fazia sentir-se viva. No quarto, as noites tornaram-se mais longas. Beatriz já não exigia o escuro total, permitindo que uma única vela queimasse até ao fim. Ela viciara-se na forma como ele a dominava, na forma como o corpo dele, imenso e implacável, obrigava-a a esquecer quem ela era.
Ela, que sempre fora a senhora de tudo, agora ansiava pelo momento de ser subjulgada pela força dele. Num desses encontros, Juliano parou, observando-a com aqueles olhos que pareciam ler-lhe a alma. A senhora está a mudar, sim. Ah, sussurrou ele, a voz vibrando contra o pescoço dela. O herdeiro é a desculpa, mas o seu corpo já não sabe mentir. Cálice.
Ela respondeu, embora sem qualquer convicção. Está aqui para servir. Apenas sirva. Ela puxou-o para mais perto, escondendo o rosto no seu ombro. A Beatriz sabia que estava a atravessar uma linha sem retorno. Ela não queria apenas um filho, ela queria a sensação de poder e entrega que só aquele homem proporcionava.
O império dela lá fora parecia pequeno perto do império de sensações que Juliano erguia dentro daquele quarto. O vício era silencioso, mas as correntes que agora aprendiam a ele eram muito mais fortes do que qualquer ferro que ela já tivesse colocado aos pés de um escravo. O sol do meio-dia castigava o pátio central da quinta.
Mas o frio que emanava de Beatriz era capaz de congelar a alma dos que a rodeavam. Ela estava parada na varanda de pedra com o chicote de montaria em mãos, não para usar, mas como um símbolo da sua autoridade vacilante. Abaixo, os trabalhadores se organizavam e entre eles, Juliano mantinha-se imóvel, a cabeça ligeiramente inclinada, mas os olhos fixos no horizonte.
Este homem é um preguiçoso”, a voz de Beatriz chicoteou o ar, atraindo a atenção de todos. “Rosa, por que o Juliano ainda não terminou o carregamento das sacas? Ele acha que por estar sob as minhas ordens diretas à noite, tenho direito a vadiar durante o dia.” Um murmúrio correu entre os escravos. O Juliano não se mexeu, mas a Beatriz viu o músculo da sua mandíbula se contrair.
Ela precisava daquilo. Precisava humilhá-lo publicamente para convencer a si e aos outros de que ele ainda era apenas uma propriedade, um pedaço de carne que ela possuía. “Aumente a carga dele”, ordenou ela ao feitor com um brilho de ódio nos olhos. “E se ele fraquejar? Tire o atraso no couro. Não tolero a insolência nas minhas terras.
” Ela virou costas e entrou na casa grande, o coração disparado. No escritório, as suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar a caneta. O ódio que ela demonstrava era, na verdade, um escudo contra o pavor de estar apaixonada. Ela odiava-o por ser necessário. Odiava-o por ter visto a sua nudez e a sua vulnerabilidade, mas acima de tudo, odiava-se por contar os minutos para que o sol se pusesse.
Quando a noite finalmente caiu, o silêncio do casarão tornou-se opressor. Beatriz ouviu a porta do seu quarto abrir. Juliano entrou, ainda suado do trabalho extra que ela lhe impusera, as marcas de poeira e esforço evidentes no seu peito largo. Beatriz tentou manter a máscara de crueldade. Demorou? Achei que o cansaço das sacas tivesse finalmente dobrado os joelhos, disse ela sem olhar para ele.
O Juliano caminhou lentamente até ela. Ele não parou a uma distância respeitosa. Ele invadiu o espaço pessoal da Sha até que esta sentisse o calor do seu corpo exausto. Com uma mão rude e calejada, ergueu o queixo dela, obrigando-a a olhar para o homem que ela acabara de humilhar perante todos. A senhora pode gritar lá fora, Beatriz?”, sussurrou, a voz rouca e carregada de uma autoridade que a fazia estremecer.
“Pode tratar-me como um cão diante do seu povo, mas aqui dentro nós os dois sabemos quem é que implora”. O orgulho de Beatriz desmoronou num segundo. As lágrimas de raiva e desejo que ela vinha segurando o todo o dia transbordaram. Ela agarrou-o pela camisa grosseira, puxando-o para si com um desespero que roçava a agonia. Cálice”, soluçou ela, mas o beijo que se seguiu foi uma confissão silenciosa.
Nessa noite, a crueldade do dia transformou-se numa entrega selvagem. Entre as sedas da cama, a dama de ferro desaparecia, dando lugar a uma mulher que soluçava de prazer e de necessidade, implorando pelo toque do homem que, sob o sol, ela jurava desprezar. A luta contra o sentimento estava perdida. O o ódio era apenas o combustível que fazia o incêndio do desejo arder com ainda mais força. Capítulo 7.
A semente plantada. O cheiro do café fresco, que antes era o bálsamo das manhãs de Beatriz, tornou-se subitamente insuportável. Naquela manhã, a Senhá nem sequer conseguiu levar a chávena aos lábios. O estômago revirou de forma violenta e ela mal teve tempo de alcançar a bacia de porcelana antes de ser dominada por uma náusea profunda.
Rosa, que tudo observava do canto do quarto, não precisou de palavras. O brilho nos olhos da Mucama era uma mistura de triunfo e preocupação. O médico da aldeia foi chamado sob o mais estrito sigilo. Após um exame rápido e algumas perguntas discretas, limpou os óculos e sorriu para a mulher mais poderosa da região.
Os meus parabéns, senh Beatriz. A senhora transporta a vida no seu ventre. A semente vingou. A notícia, que deveria ser o culminar da sua vitória estratégica, caiu sobre Beatriz como uma sentença. Ela estava grávida. O herdeiro, a razão de ser de toda aquela loucura, finalmente existia. Mas em vez de alívio, ela sentiu um vazio gélido.
Se a criança estava a caminho, o serviço de Juliano estava oficialmente encerrado. Nessa noite, ela o convocou, não para a cama, mas para o centro do quarto, sob a luz plena de todos os castiçais. A Beatriz queria recuperar a sua dignidade. Queria que aquele encontro fosse puramente burocrático.
Ela estava sentada na sua poltrona de couro, tentando esconder a palidez do rosto. “O médico confirmou hoje, Juliano”, disse ela, a voz fria, tentando ignorar o aperto no peito. “Eu consegui o que queria. Você cumpriu a sua parte.” Juliano permaneceu imóvel, à luz das velas destacando as cicatrizes de trabalho e a nobreza nata do seu rosto.
Ele não sorriu, não festejou. Em vez disso, deu um passo em frente e A Beatriz reparou que ele já não tinha o olhar de um escravo que teme o chicote, mas o de um homem que conhece o valor do que deu. “Então, o trato está feito, senh”, disse com uma altivez que a desarmou. O herdeiro está aí a crescer sob o seu coração.
Eu dei à senhora o que nenhum dos seus iguais pôde dar. Ele estendeu a mão grande e calejada, não para a tocar, mas num gesto de cobrança. Onde está a minha alforria? A pergunta ecoou pelas paredes do quarto como um trovão. A senhora deu a sua palavra de honra. Onde está o papel que diz que eu sou o dono dos meus próprios passos? Beatriz olhou para a mão dele e depois para aqueles olhos escuros que a tinham visto em transe, que a tinham conhecido na sua forma mais primitiva.
O papel estava na gaveta da secretária, pronto para ser assinado. Mas ao olhar para Juliano, ela percebeu que assinar aquele documento significava nunca mais sentir o calor dele, nunca mais ouvir a sua voz rouca no escuro, nunca mais ser dominada por aquela força que a viciara. A semente estava lançada no ventre, mas as raízes do vício estavam enterradas profundamente na alma de Beatriz.
Ela encarou o homem que a tornara mãe e, em um silêncio cruel, percebeu que não estava pronta para o deixar partir. O silêncio que se seguiu à pergunta de Juliano foi sufocante. A Beatriz sentia o peso do pergaminho sob os seus dedos dentro da gaveta da secretária. Era um pedaço de papel pequeno, mas que transportava o destino de um homem.
Ela olhou para Juliano, ali parado com aquela dignidade que agora a enfurecia. Se ela entregasse aquele papel, ele caminharia para fora daquelas terras, atravessaria o portão da quinta e nunca mais olharia para trás. A ideia de Juliano livre, livre para tocar noutra pele, livre para nunca mais ser seu, provocou nela uma dor física mais aguda que qualquer enjoo de gravidez.
Com um movimento brusco, ela puxou o documento. Os olhos de Juliano brilharam por um segundo com a esperança da liberdade. Mas em vez de assinar, A Beatriz segurou o papel com as duas mãos e, fixando os olhos nos dele com uma crueldade desesperada, rasgou-o ao meio. Depois rasgou novamente até que os pedaços caíssem como neve suja sobre o tapete persa.
“O que a senhora está fazendo?” A voz de Juliano baixou para um tom perigoso, a incredulidade transformando-se em fúria contida. “Eu sou a lei nesta quinta, Juliano”, sibilou Beatriz, levantando-se e ignorando a tontura que a atingiu. “Você acha que um filho na barriga é uma garantia de sucesso? Muitas sementes morrem antes da colheita.
Eu disse que teria a liberdade se me desse um herdeiro. Pois ora, um herdeiro só é herdeiro quando respira, quando chora, quando sobrevive ao parto. Ela caminhou até ele, a arrogância servindo de máscara para o medo de o perder. O contrato mudou. Você não teráforria agora. Você ficará preso a esta quinta à minha guarda até que este bebé nasça com saúde.
Se ele nascer morto ou se me acontecer alguma coisa durante o parto, apodrecerá na cenzala para o resto dos seus dias. Juliano deu um passo em frente, fechando os punhos. Por momentos, Beatriz achou que ele a fosse partir ao meio. A tensão entre os dois era quase elétrica. A senhora não tem honra”, disse, as palavras saindo como brasas vivas.
“A senhora não está com medo pelo bebé. A senhora tem medo de ficar sozinha nesta casa grande com o seu dinheiro e o o seu gelo. A senhora quebra a sua palavra porque se tornou escrava do meu corpo. O bofetada de Beatriz ecoou no quarto, atingindo o rosto de Juliano com força. Nem sequer mexeu a cabeça, apenas continuou a olhar para ela com um desprezo que a queimava por dentro.
“Sai!”, gritou ela, com a voz embargada. Volte para a cenzá-la e agradeça por eu não o enviar para o tronco por sua insolência. Ficas, Juliano. Você é meu até que eu decida o contrário. Juliano virou costas sem dizer mais nada. Beatriz desabou na poltrona, agarrando o próprio ventre. Ela havia vencido. Ele continuaria ali.
Mas enquanto olhava para os pedaços rasgados da liberdade dele no chão, ela soube que acabara de transformar o homem que ela amava secretamente no seu inimigo mais feroz. O vício transformara-a em uma carcereira e ela sabia que a partir daquele momento, o serviço dele nunca mais teria o mesmo sabor. A paz na quinta de Santa Aliança era uma ilusão que Beatriz tentava manter a todo o custo, mas os olhos de Carlotta, a sua irmã mais nova, sempre foram demasiado afiados para serem enganados por longas saias de seda
e ordens autoritárias. Carlotta era o oposto de Beatriz, frívola na aparência, mas profundamente observadora. Há semanas, ela notava o rasto de Juliano pelos corredores da Casa Grande e, principalmente, a mudança no semblante da irmã. A Beatriz já não tinha a palidez de uma viúva do trabalho. Ela tinha o rubor de quem conhecia segredos proibidos.
A Carlota entrou no escritório de Beatriz sem bater, interrompendo o pesado silêncio da tarde. Ela caminhou até à mesa da irmã e, com um sorriso felino, jogou sobre os livros de contabilidade um pedaço de papel rasgado, um fragmento da alforria que Beatriz destruíra dias antes. “Você sempre foi péssima a esconder os seus pecados, Beatriz”, disse Carlotta, a voz carregada de uma divertida malícia.
Alforria, herdeiro, Juliano. O que é isso? Um contrato de compra e venda de alma? Beatriz sentiu o sangue fugir-lhe do rosto, mas manteve a postura. Não é da sua conta, Carlota. Saia daqui. Ah, mas é da minha conta, sim. Eu vi como tu olha para aquele escravo no pátio. Eu vi como ele entra no seu quarto quando as luzes apagam-se.
E agora, vendo-o enjoada a cada manhã? Carlotta inclinou-se sobre a mesa, os olhos brilhando. Você contratou o reprodutor da cenzala para salvar a sua herança, não foi? Que solução pragmática e que prazerosa, imagino. Beatriz levantou-se furiosa. Cala a boca. Não sabe do que está a falar. Eu sei exatamente do que estou a falar? Rebateu Carlot, a voz agora num tom de confissão sombria.
Eu também o observei, Beatriz. Vi o tamanho daquele homem. Vi a força que ele emana. E se tu, a santa inviolável, não resistiu e acabou viciada nele ao ponto de lhe rasgar a liberdade para o manter por perto, então a mercadoria deve ser divina. Beatriz sentiu uma pontada de ciúme tão forte que chegou a ser física.
Carlotta aproximou-se da irmã e segurou o seu braço, falando baixo, quase como um segredo de alcova. Eu não vou contar nada ao nosso primo ou à aldeia. Em troca do meu silêncio, quero apenas uma coisa. Emprést o Juliano para mim por algumas noites. A minha cama anda fria e quero provar do serviço que deixou a dama de ferro tão amolecida.
O mundo de A Beatriz rodou. A ideia de Juliano tocando Carlota, de Juliano usando aquela força e aquela intimidade com outra mulher, e pior, com a sua própria irmã, era um veneno que se espalhava instantaneamente pelas suas veias. Você enlouqueceu? Beatriz sibilou, os olhos injetados. Ele não é um objeto para ser emprestado. Ah, não. Carlotta riu-se.
Uma riso frio e cortante. Pensei que ele fosse apenas uma ferramenta biológica, como você própria deve ter dito. Se ele é apenas um serviço, por que o egoísmo, irmã? A não ser que o ame. E se você o ama, Beatriz, o escândalo será muito maior do que uma simples gravidez. Beatriz ficou sem palavras encurralada entre o medo da exposição e a agonia do ciúme.
A Carlota saiu do escritório com um balançar de ancas vitorioso, deixando para trás uma irmã que, pela primeira vez percebeu que o herdeiro era o menor dos seus problemas. O verdadeiro perigo era que o seu vício tinha agora testemunhas, e o seu coração, antes de pedra, estava prestes a ser dilacerado pela inveja. A proposta de Carlota agiu no sangue de Beatriz como o veneno de uma jararaca.
Durante toda a noite, assim não pregou olho, atormentada pela imagem mental de Juliano, o homem que a tinha visto na sua maior vulnerabilidade, que a tinha feito perder o fôlego e o juízo, tocando a pele da sua irmã. O ciúme não era apenas uma dor, era uma febre corrosiva que a fazia suar frio. Ela percebeu, com um pavor ensurdecedor que o contrato original de herdeiro fora sepultado sob camadas de uma paixão possessiva e doentia.
Ao amanhecer, Beatriz mandou chamar Juliano. Ela não esperou que ele entrasse no quarto. Ela interceptou-o no corredor das traseiras, longe dos olhares de Carlota, mais perto o suficiente para que a sua fúria fosse sentida. Escute bem que lhe vou dizer, Juliano”, sibilou ela, segurando-o pelo braço, com uma força que fazia com que as suas unhas cravassem na pele dele.
“Se eu o vir a olhar para à minha irmã, se eu souber que tu trocou uma única palavra com ela, ou se se aproximar dos aposentos de Carlota, juro que mando cortar a a sua língua”. Juliano encarou-a com aquela calma exasperante, o peito subindo e descendo lentamente. Ele notou as olheiras dela, o tremor nas suas mãos. e o brilho de quase loucura nos seus olhos.
“A senhora está com medo, senh?”, ele perguntou com a voz baixa e grave que parecia vibrar no peito de Beatriz. “Medo de que eu descubra que outras peles não são tão frias como a sua? Ou receio de que eu perceba que a senhora já já não manda no seu próprio coração? Cala a boca.” Ela reagiu, a voz embargada pela raiva. Tu és meu.
Eu comprei o seu tempo. Eu comprei o seu serviço e eu mando no teu corpo. Você não tem o direito de olhar para outra mulher, muito menos para alguém do meu sangue. Beatriz percebeu no exato momento, em que as palavras saíram de sua boca, o quão patética ela soava. Não era mais a grande fazendeira a dar ordens.
Era uma mulher desesperada, tentando cercar um território que nunca foi verdadeiramente seu. Ela percebeu que o que sentia por Juliano não tinha mais nada a ver com o herdeiro que crescia no seu ventre, nem com a manutenção da quinta. Ela queria-o por inteiro, e a ideia de o partilhar era como ser queimada viva. “Eu não sou um animal de exposição no seu pátio, Beatriz”, disse Juliano, soltando-se do aperto dela com uma facilidade que a humilhou.
“A senhora rasgou-me a liberdade? mantém-me preso aqui como um troféu, mas o ciúme é uma cela onde o senhora trancou-se sozinha. Eu farei o o meu serviço, mas não espere que eu peça licença para ser homem. Ele afastou-se, deixando Beatriz sozinha no corredor escuro. Ela encostou a cabeça à parede de madeira, respirando com dificuldade.
A fúria possessiva consumia-a. Ela passou o resto do dia a vigiar cada janela, cada porta, cada sombra no pátio. O veneno do ciúme tinha mudado tudo. Ora, Beatriz não lutava apenas para garantir um filho. Ela lutava uma guerra perdida para garantir que o homem que ela chamava de escravo continuasse sendo o dono absoluto dos seus desejos proibidos. Capítulo 11.
A liberdade amarga. O peso da consciência de Beatriz tornou-se mais insuportável do que o peso da gravidez. Olhando-se ao espelho, ela já não reconhecia a mulher que via. Os seus olhos estavam encovados pelo ciúme e a sua alma estava manchada pela quebra de uma promessa sagrada. Ela percebeu que, ao escravizar Juliano pelo desejo, ela tornara-se a verdadeira prisioneira.
O amor, aquela palavra que ela evitava como se fosse uma praga, latejava-lhe no peito junto com os batimentos do filho que lhe dera. Ela sentou-se à secretária, com as mãos trémulas, mas decididas, redigiu uma nova carta de liberdade. Desta vez, carimbou o selo de lacre da família com uma força que quase partiu o cinete. chamou Juliano ao seu gabinete em plena luz do dia, desafiando os olhares curiosos de Rosa e os sussurros que vinham das cenzalas.
Quando ele entrou, A Beatriz não se levantou. Ela estendeu o papel, mantendo o braço rígido para que não se apercebesse o quanto ela tremia. “Toma isto”, disse ela, a voz saindo como um sussurro áspero a lutar para não quebrar. “É a sua alforria definitiva irrevogável. O notário já foi avisado. És um homem livre, Juliano.
Juliano pegou no documento lentamente, os olhos fixos nela, tentando decifrar o que mudara. Mas há uma condição. Beatriz continuou, levantando-se e caminhando até à janela para não ter de encarar aquele olhar que a despia. Você deve partir agora. Pegue num cavalo, junte o que for o seu e vá para bem longe destas terras.
Vá para onde eu nunca mais sinta o teu cheiro, onde eu não ouça o teu nome e onde o rasto da sua existência já não me possa alcançar. Uma lágrima teimosa escorreu-lhe pelo rosto, mas ela limpou-a rapidamente com as costas da mão, recusando-se a desabar em frente dele. Ela acreditava que se o afastasse fisicamente, o vício morreria. Se ele desaparecesse no horizonte, ela voltaria a ser a dama de ferro.
“Vai-te embora, Juliano”, repetiu ela com a voz embargada. Já lhe dei-lhe o que queria. Agora devolva-me a paz que roubou. Ela esperou ouvir o som dos passos dele a afastarem-se, o som da porta a bater e o silêncio da sua liberdade sendo finalmente restaurada. Mas o que ouviu foi apenas o silêncio da presença dele, que continuava ali parado, observando o papel que tinha nas mãos, como se a liberdade, sem ela, tivesse perdido o brilho que tanto almejara.
O silêncio que se seguiu à ordem de A Beatriz foi cortante. Ela esperava o som da liberdade, o bater dos calcanhares dos Juliano contra o açoalho, o ranger da porta e o galope de um cavalo a partir para nunca mais voltar. No entanto, o que ouviu foi apenas o tilintar do papel de alforria sendo dobrado calmamente.
O Juliano não se deslocou 1 cm em direção à saída. Beatriz continuou de costas, os ombros subindo e descendo com a respiração curta. O que está à espera? – perguntou a voz trémula. Você tem o que queria. O mundo é seu agora, Juliano. Saia das minhas terras. Sentindo a sua aproximação, Beatriz apertou as bordas da janela.
Juliano parou mesmo atrás dela. O calor que emanava dele era o mesmo que o incendiara em tantas noites. Mas a energia que ele projetava era agora diferente. Não era a agressividade de um homem usado, mas a determinação de um homem livre. A senhora passou a vida a dar ordens, Beatriz. A voz dele so baixo, vibrando nas costas dela, mas não se manda no destino com a mesma facilidade com que se manda na colheita.
Eu peguei neste papel e ele é o tesouro que eu mais desejava, mas ele não me obriga a fugir. Beatriz virou-se bruscamente, com o rosto banhado em lágrimas que ela já não conseguia esconder. Você odeia-me. Eu tratei-te como um animal. Eu neguei-te a palavra. Usei-te para garantir o meu nome. Por que ainda está aqui? O Juliano deu um passo em frente, invadindo o espaço que ela tentava proteger.
Ele estendeu a mão e, pela primeira vez, sem que houvesse uma ordem ou o manto da escuridão, tocou suavemente o rosto da Sinã. No início, eu odiava-te. Sim. odiava o seu gelo e a a sua arrogância”, confessou, olhando profundamente nos olhos dela. “Mas entre os insultos e as noites de silêncio, eu vi quem és de verdade.
Eu vi a mulher que carrega o peso do mundo nas costas e que morre de medo de ser amada. Vi a máscara de ferro cair cada vez que procuravas abrigo no meu peito.” Beatriz soltou um soluço sufocado, mas não parou. Eu não vou embora porque apaixonei-me por esta mulher que você tenta esconder. E mais do que isso, ele desceu a mão até tocar no ventre de Beatriz, onde o bebé dava pontapés levemente.
Este herdeiro que tanto desejava tem o meu sangue. Ele não é apenas um contrato ou uma cláusula de empresa. É meu filho. E homem nenhum, nem o medo de uma me vai tirar o direito de o ver crescer e de o ensinar a ser livre de verdade. A dama de ferro desmoronou-se. Ela agarrou-se aos braços de Juliano, escondendo o rosto no seu peito, chorando já não de ódio ou de vício, mas de um alívio avaçalador.
O homem que ela tentara escravizar era o único que tinha a chave para a libertar de si mesma. Os meses passaram e a natureza impôs a sua verdade sobre o corpo de Beatriz. O ventre que antes escondia sob espartilhos dolorosos e chales de seda pesada, exibia agora uma curvatura que nenhuma costura era capaz de camuflar. A dama de ferro já não caminhava com a leveza de antes.
Os seus passos eram lentos, marcados pelo peso da vida que transportava e pela audácia das suas escolhas. A quinta de Santa Aliança, outrora um forte de segredos, tornara-se o centro de um turbilhão de sussurros. que atravessavam os portões e chegavam até à aldeia. Juliano já não vestia os farrapos da cenzala.
Como homem livre, circulava pela casa grande com uma presença que impunha respeito, mas a sua a liberdade era utilizada de uma forma que ninguém compreendia. Ele recusava-se a afastar-se de Beatriz. Ele era a sua sombra, o seu amparo nas crises de enjou e o único que se atrevia a enfrentar o seu génio difícil nos dias de cansaço. Sim.
Ah. O vigário e as senhoras da sociedade estão no portão”, anunciou Rosa com a voz trémula. Dizem que vem para uma visita de beneficência, mas todos sabem que vieram ver se o que dizem nos mercados é verdade. A Beatriz sentiu uma pontada de ansiedade, mas Juliano, que polia uma peça de arreio perto da janela, levantou-se e colocou a mão firme sobre o ombro dela.
“Deixe que entrem, Beatriz”, disse ele, a voz calma e poderosa. “A senhora não deve baixar a cabeça a quem nunca teve a coragem de viver a própria verdade.” Beatriz respirou fundo e ordenou que abrissem as portas. O escândalo rebentou no momento em que as visitas entraram no sala. Ver assim a Beatriz, visivelmente grávida e sem marido, já seria o suficiente para abalar as estruturas da aristocracia local.
Mas vê-la ser amparada por um ex-escravo que a tratava com uma intimidade silenciosa e protetora, foi como um golpe na cara de cada um dos presentes. Isto é um ultrage amoral! Exclamou uma das senhoras, cobrindo o rosto com o leque. Onde está o pai desta criança, a Beatriz? E o que este homem ainda faz dentro desta casa?” Beatriz ergueu o queixo, sentindo a mão de Juliano arder nas suas costas como um escudo.
“O pai desta criança está exatamente onde deveria estar”, respondeu ela, a voz clara e sem sombra de dúvida. “E quanto à vossa moral, ela não me serve para pagar as contas, nem para aquecer a minha cama. O Juliano é um homem livre e está aqui pela sua própria vontade. Quem não estiver satisfeito com a minha hospitalidade, que se retire pela mesma porta que entrou. O escândalo estava oficializado.
Os boatos tinham agora nomes e rostos. Mas enquanto os convidados saíam indignados, Beatriz olhou para Juliano e sorriu. Ela perdera o respeito da sociedade, mas ganhara algo que o dinheiro nunca pudera comprar, a liberdade de não ter mais de se esconder. O serviço de Juliano tinha-se transformado em companheirismo, e o escândalo oculto era agora a bandeira de uma mulher que decidira ser finalmente a dona do seu próprio destino.
Capítulo 14.º O nascimento, a tempestade que castigava os cannaviais nessa noite parecia refletir a batalha que ocorria dentro do quarto principal da Casagre. Beatriz, a mulher que sempre teve o controlo absoluto sobre tudo, agora estava entregue a uma força que não podia dominar. O suor banhava-lhe o rosto pálido e os seus gritos, embora abafados pelas paredes espessas, ecoavam o desespero de um parto que se arrastava durante horas.
Rosa corria com bacias de água morna e panos limpos, mas o médico da aldeia, visivelmente tenso, balançava a cabeça. A Beatriz estava exausta e a criança parecia relutante em vir ao mundo. Foi quando a porta se abriu com um estrondo. O Juliano entrou. Para os padrões daquela época, a presença de um homem e ainda mais de um ex-escravo no quarto de parto era uma aberração, um sacrilégio contra os bons costumes.
“Saia daqui”, bradou o médico. “Não é lugar para si”. Juliano nem sequer o olhou. Ele caminhou até à cabeceira da cama e, ignorando qualquer protocolo de classe ou género, segurou a mão de Beatriz com uma firmeza que parecia transmitir-lhe a sua própria vida. Os finos dedos da Simá cravaram-se na mão calejada dele, encontrando ali a única âncora capaz de a impedir de se afogar na dor.
Olha para mim, Beatriz, sussurrou Juliano, ignorando o caos em redor. Eu não fui embora quando me mandaste. Não o vou deixar ir agora. Respire comigo. O nosso filho precisa de si. O toque dele operou um milagre silencioso. Beatriz abriu os olhos, encontrando a força que faltava naqueles olhos negros que tanto a fascinavam. Ela deu um último grito, um som que transportava toda a a sua dor, o seu orgulho ferido e o seu amor renascido.
De repente, o silêncio da tempestade foi quebrada por um som novo, um choro vigoroso, agudo e cheio de vida. O médico, ainda atordo pela presença de Juliano, limpou a criança e entregou-a nos braços da mãe. Beatriz e Juliano inclinaram-se juntos para ver o fruto daquele serviço que começara com desdém e terminara em entrega.
Era uma menina. A pequena herdeira era a prova viva de que as barreiras do mundo eram frágeis perante o desejo. Ela tinha a pele iluminada, um tom de canela suave que misturava perfeitamente o sangue dos dois. Tinha os traços nobres e a testa altiva de Beatriz, mas o vigor e os olhos escuros e marcantes de Juliano.
“Vê”, sussurrou Beatriz, as lágrimas caindo sobre o rosto do bebé. “Ela tem a a sua força, Juliano, e a sua alma, Beatriz”, respondeu ele, beijando o testa da Sha. Naquele quarto, enquanto o resto do mundo lá fora ainda discutia leis e preconceitos, uma nova linhagem nascia. Não era apenas uma menina.
Era a prova de que a carne e o coração tinham vencido as correntes. A manhã de domingo nasceu com um sol dourado que parecia lavar as feridas da quinta de Santa Aliança. No pátio central, onde antes se ouviam apenas ordens secas e o estalar de chicotes distantes, uma mesa farta fora montada sob a sombra da imensa mangueira.
Beatriz, usando um vestido de seda clara, sem os espartilhos sufocantes de outrora, carregava a pequena herdeira nos braços. Ao seu lado, não como um capacho, mas como o senhor daquela casa, o Juliano vestia uma camisa de linho branco, a sua liberdade estampada em cada gesto de proteção para com a mulher e a filha. A Beatriz mandou reunir todos, desde os trabalhadores da lavoura até aos empregados da Casagre.
Ela subiu o primeiro degrau da varanda e olhou para aquela gente que havia como uma divindade intocável e fria. Por muito tempo, pensei que o poder vinha do meu apelido e das terras que possuo”, começou ela, a voz firme alcançando até aos últimos portões. Mas eu estava errada. O poder vem da coragem de assumir quem amamos.
Ela olhou para Juliano e diante de todos segurou a sua mão calejada. Um murmúrio de choque percorreu a multidão, mas Beatriz não vacilou. Hoje oficializo o que o destino já selou. Juliano já não é um homem livre apenas no papel. Ele é o meu companheiro, o pai da minha filha e o senhor desta quinta juntamente comigo. A a partir de hoje, as correntes foram partidas, não apenas as de ferro, mas as do meu próprio coração.
Rosa, emocionada, limpou as lágrimas no avental. Ela fora a testemunha de todo o percurso, desde a noite em que Beatriz chamou Juliano com desdém, até ao momento em que se tornou dependente da sua alma. O serviço que começara por ser uma transação de sangue fria e desesperada para garantir uma herança, tinha-se transformado numa dinastia de amor.
Juliano tomou a palavra, a sua voz profunda eando com autoridade e ternura: “Este império não será mais construído sobre o sofrimento, mas sobre o respeito. A nossa filha carrega o sangue de dois mundos e ela crescerá, sabendo que nenhum homem é menos que o outro por causa da cor da sua pele ou do berço onde nasceu.
A pequena menina, nos braços de Beatriz, abriu os olhos, os olhos intensos e marcantes de Juliano, e soltou um pequeno balbucio, como se estivesse a batizar aquele novo tempo. Beatriz encostou a cabeça no ombro de Juliano, sentindo o cheiro da terra e liberdade que a viciara desde o primeiro encontro.
Ela queria apenas um herdeiro para manter o controlo, mas acabou encontrando um mestre para a sua paixão e um parceiro para a sua vida. Aí, sob o céu azul de Minas, o antigo mundo das Sin morria para dar lugar a um novo império, onde a única lei absoluta era a força do amor que unira o impossível. E assim termina a viagem da Sha Beatriz e de Juliano.
Quem poderia imaginar que um acordo feito com tanto desdém e orgulho terminaria numa história de amor, capaz de quebrar as cadeias de uma época inteira? Eu quero agradecer do fundo do coração a si que ficou aqui até ao final. Se acompanhou cada capítulo desta transformação, é porque, tal como eu, acredita que o coração não escolhe classe social nem cor de pele.
Ele simplesmente reconhece a sua outra metade. Não se esqueça de comentar o que achaste do final da Sin Beatriz. Ela fez o que estava certo ao enfrentar a sociedade ou esperava um destino diferente para o Juliano? Vou ler e responder ao máximo de comentários possível. Um grande abraço e até à próxima história.