A realidade brutal das periferias brasileiras, onde o Estado muitas vezes se ausenta e dá lugar a leis não escritas, volta ao centro das atenções com dois casos que chocaram o país. Não se trata apenas de criminalidade comum, mas da existência de uma estrutura de poder paralela que decide sobre a vida e a morte de cidadãos comuns com base em suspeitas, boatos e vinganças. O chamado “Tribunal do Crime” é uma engrenagem violenta que não admite defesa e cujas sentenças são executadas de forma sumária, deixando um rastro de dor e famílias destruídas.
O primeiro caso nos leva ao ano de 2020, no bairro de Pernambués, em Salvador. Um grupo de cinco jovens, repletas de sonhos e alegria, decidiu sair para aproveitar uma noite de festa. Um vídeo gravado dentro de um carro de aplicativo mostra as jovens cantando, sorrindo e celebrando a amizade. Era uma cena comum de juventude, mas que, em retrospecto, tornou-se um registro melancólico e aterrorizante. Elas não sabiam que aquele trajeto as levaria diretamente para uma emboscada organizada por uma das facções mais temidas da Bahia, o BDM (Bonitinhos de Maria).
A tragédia começou a ser desenhada quando duas das jovens foram coagidas por criminosos a atrair as outras três para uma localidade conhecida como “Boca”. O motivo por trás dessa convocação forçada era uma suspeita que, dentro do código do crime, é considerada uma traição imperdoável: uma das jovens estaria se relacionando com um policial da Rondesp (Rondas Especiais da Polícia Militar). Para o crime organizado, qualquer vínculo com as forças de segurança é visto como uma ameaça direta e uma “infiltração” que precisa ser eliminada com rigor.
Ao chegarem ao local, o clima de festa foi substituído pelo terror absoluto. As jovens foram submetidas a um interrogatório agressivo, registrado em vídeos pelos próprios criminosos para servir de exemplo. Nas imagens, é possível ouvir as ameaças de morte e o desespero das vítimas. “Vou te enterrar”, gritava um dos executores enquanto as jovens imploravam por suas vidas, negando qualquer envolvimento com a polícia. O medo era palpável, e as lágrimas, descritas pelos criminosos como “lágrimas de crocodilo”, não foram suficientes para amolecer corações já endurecidos pela violência.

O desfecho foi de uma brutalidade extrema. As cinco jovens foram espancadas severamente com pedaços de madeira. Embora não tenha havido uma execução imediata por arma de fogo no local, os ferimentos foram letais para uma delas. Lucidalva Alves de Lima, de apenas 16 anos, não resistiu à gravidade das agressões. Ela chegou a ser socorrida em uma unidade de pronto atendimento, mas seu corpo sucumbiu aos traumas. As outras jovens sobreviveram com sequelas físicas e psicológicas profundas, marcas de uma noite onde a diversão se transformou em um tribunal de horror.
Mudar de cenário, do Nordeste para o Norte do país, não altera a lógica da violência. Em Parintins, no Amazonas, um segundo caso ilustra como o vigilantismo e a justiça feita pelas próprias mãos podem desencadear uma série de eventos catastróficos. Tudo começou com uma acusação infundada. Uma mulher, convencida de que uma adolescente havia roubado seu iPhone — aparelho desaparecido há meses —, decidiu confrontar a jovem. Sem provas e movida pelo ódio, ela agrediu a adolescente fisicamente, registrando tudo em vídeo.
O que a agressora não previu foi que sua ação teria repercussões que iriam além da esfera policial. O vídeo da agressão chegou ao conhecimento de lideranças criminosas locais, que não aceitaram a atitude da mulher. Em um contexto onde o crime busca manter uma fachada de “ordem” ou “proteção” à comunidade contra atos considerados injustos ou desnecessários que atraiam a atenção da polícia, a mulher tornou-se o alvo.
Percebendo que sua vida estava em risco e que o “tribunal” já havia se voltado contra ela, a mulher gravou um novo vídeo, desta vez em um tom completamente diferente. Com o olhar baixo e a voz trêmula, ela pediu desculpas públicas à adolescente e à sua família, admitindo que tudo foi um “mal-entendido” e que a jovem era inocente. No entanto, no código do crime, o arrependimento tardio raramente anula a sentença. Ela foi capturada, teve seu cabelo raspado — uma forma comum de humilhação pública e marcação de “punida” — e sofreu castigos físicos antes de ser liberada.
Estes dois episódios, embora distintos em suas origens, convergem para uma realidade sombria: a fragilidade da vida humana diante de sistemas de justiça paralelos. Em Salvador, a vida de uma adolescente foi interrompida por uma suspeita de relacionamento; em Parintins, uma agressora tornou-se vítima do mesmo ciclo de violência que iniciou. Ambos os casos demonstram que, em territórios onde o Estado é falho, a impulsividade, o boato e a falta de provas são as ferramentas de um julgamento sem direito a recurso.
A morte de Lucidalva e a humilhação da mulher em Parintins servem como lembretes dolorosos de que a sociedade brasileira ainda convive com estruturas feudais de poder dentro das cidades modernas. Onde a lei não dita as regras, o medo é o soberano, e qualquer erro, por menor que seja, pode ser o último. A justiça, quando exercida fora da legalidade, nunca é justiça; é apenas uma manifestação bruta de poder que não traz paz, apenas mais violência e um ciclo interminável de vingança e sofrimento.