O submundo do crime organizado é um sistema implacável, onde a lealdade é a moeda mais valiosa e a traição é paga com a própria vida. Em setembro de 2023, um episódio brutal chocou a Grande São Paulo: a execução de Roberto Hipólito, mais conhecido como “Zoio de Gato”. O crime, orquestrado dentro da estrutura burocrática e letal do Primeiro Comando da Capital (PCC), não foi apenas um acerto de contas; foi uma demonstração de poder, um aviso aos informantes e uma lição sobre a falibilidade daqueles que pensam que podem manipular o sistema de dentro para fora.
A trajetória de Roberto Hipólito é um estudo de caso sobre os riscos do “caminho do meio”. Conhecido por seus olhos claros, que lhe renderam o apelido, Roberto atuava em uma zona cinzenta. Segundo investigações conduzidas pelo jornalista André Caramante, ele não era um informante da polícia no sentido tradicional. Ele vendia informações sobre criminosos para policiais civis corruptos, que utilizavam esses dados para extorquir traficantes e desviar cargas de entorpecentes. Esse papel, conhecido no submundo como “ganso” ou “X9”, é um dos mais perigosos que alguém pode assumir dentro da favela.
O Início do Fim: Uma Discussão Pública
A sentença de morte de Zoio de Gato começou a ser desenhada semanas antes da sua execução. Em 3 de setembro de 2023, em frente a um restaurante movimentado em São Paulo, ele se envolveu em uma discussão acalorada com integrantes da facção, especificamente membros da “Sintonia do Resumo”. Este setor do PCC é, essencialmente, o braço jurídico e executor da organização, responsável por julgar e aplicar punições aos membros e colaboradores que falharam com o grupo.
A discussão, que foi filmada e viralizou entre faccionados, revelou a arrogância de Roberto. Ele negou envolvimento em atividades contra a facção, mas o destino já estava selado. Durante o confronto, ouviu-se uma ameaça que remonta aos primórdios mais sanguinários do PCC: “Eu vou tomar seu sangue”. Essa expressão, que carrega um peso histórico de extrema violência — aludindo à prática de antigos integrantes de consumir partes dos seus inimigos em atos de ódio absoluto —, deixou claro que a paciência da organização havia se esgotado.

A Captura e o Tribunal do Crime
Após o confronto público, Roberto tentou, desesperadamente, escapar da morte. Passou dias mudando de hotéis, escondendo-se com a família, vivendo sob uma tensão paralisante que nenhum ser humano deveria suportar. No entanto, o sistema de monitoramento da facção é eficiente. No dia 16 de setembro, na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Guarulhos, a caçada chegou ao fim.
Ele estava com sua esposa em um carro por aplicativo quando foi interceptado por homens fortemente armados e encapuzados. “Eu tenho problema, eu tenho problema”, gritou Roberto, uma súplica inútil diante daqueles que já haviam decretado o seu fim. Ele foi arrebatado e levado para uma favela no Parque Novo Mundo, na zona norte de São Paulo.
Ali, foi submetido ao chamado “Tribunal do Crime”. O local, que muitas vezes serve como o destino final de traidores, tornou-se o palco de sua execução. O processo foi rápido, mas meticulosamente documentado. A gravação da execução, enviada pelos próprios executores para grupos internos, serviu como um troféu e uma ferramenta de intimidação. A morte de Zoio de Gato foi, na visão da facção, uma limpeza necessária, uma forma de manter a ordem e a disciplina em um território onde a regra é ditada pelo comando.
A Investigação e os Cúmplices
O rastro de destruição deixado pela execução não passou despercebido pelas autoridades. Através de imagens do sequestro e das cenas da morte, a polícia de São Paulo começou a identificar os participantes. Entre eles estava Alisson Alexandre Borges, o “TK”, reconhecido pela própria mãe ao assistir às imagens do crime. A reação da genitora, que não hesitou em colaborar com a polícia após o choque de ver o filho envolvido em um ato tão brutal, foi um ponto crucial na investigação.
Outro nome central identificado foi Michael da Silva, o “Neymar do PCC”. Integrante da sintonia do resumo, sua presença na execução não era coincidência. Segundo Caramante, figuras como ele estão presentes em execuções simbólicas para validar o ato e elaborar relatórios que serão enviados aos escalões superiores da facção. A presença de um chefe no local é um selo de aprovação daquela morte como uma medida institucional da organização, substituindo o antigo uso de telefones — hoje evitados pelo risco de grampos — por relatórios presenciais.
Um Ciclo Sem Fim
O mais irônico e trágico de toda essa história é que o próprio Roberto já esteve do outro lado da história. Em 2019, ele participou do sequestro e execução de uma vítima chamada Cléberson, em um caso que guardava semelhanças assustadoras com o seu próprio fim. Ao sair da prisão em 2023, mal sabia ele que o mundo do crime, que ele ajudou a movimentar com suas ações, cobraria a conta.
A história de Zoio de Gato não é um caso isolado, mas sim uma crônica sobre a natureza do crime organizado no Brasil. É um sistema cíclico, onde o caçador de ontem se torna a caça de amanhã. A ausência do corpo, enterrado em um cemitério clandestino conhecido pelos integrantes da facção, apenas reforça a desumanidade imposta àqueles que o sistema decide descartar.
Para o público, fica a reflexão sobre as entranhas desses tribunais paralelos, que operam à sombra da sociedade, onde o julgamento é sumário, o advogado de defesa não existe e a sentença é sempre, invariavelmente, o fim absoluto. O caso de Roberto Hipólito permanece como um lembrete vívido da brutalidade que permeia o cotidiano de facções como o PCC e dos perigos extremos que envolvem a vida daqueles que vivem no limite da lei.