O FAZENDEIRO IA SE CASAR COM OUTRA… ATÉ QUE VIU GRÁVIDA A MULHER QUE ELE ACHAVA TER PERDIDO
Romão, é ela. Por favor, não. Meu Deus, não pode ser. O agricultor olhou e o mundo desabou. Era Aurora viva, carregando um filho, o filho dele, e ele ia casar numa hora. O sino da capela do bom retiro começou a badalar bem cedo naquela manhã, anunciando o casamento mais aguardado de toda a vila de São Joaquim do Riacho.
Romão Cavalcante, herdeiro único da fazenda Aurora do Vale, ia finalmente casar. E não era com qualquer rapariga, era com Constân Vasconcelos, filha do coronel mais poderoso de três comarcas vizinhas. Os criados corriam carregando flores brancas, panelas fumegantes e garrafas de vinho fino que tinham vindo do litoral em lombos de mula.
A vila inteira fervia. Não havia quem não falasse daquela união, mas dentro da quinta Aurora do Vale, longe dos olhos curiosos, Romão estava parado diante do espelho do quarto principal, como fato impecável sobre o corpo, e não conseguia respirar. “Filho”, disse a dona Leonor Andrade, a entrar sem bater. A mãe do lavrador tinha aquele jeito de quem entra em qualquer lado, como se fosse dona absoluta. “Está atrasado.
A noiva já saiu de casa.” Eu sei, mãe. Então, o que está aí parado? Tem uma aldeia inteira à sua espera. Romão olhou para o seu próprio reflexo e viu um homem que não reconhecia. O peito doía como se alguém tivesse a apertar por dentro devagar, sem pressas. “Mãe”, ele finalmente disse: “Eu sonhei com ela de novo esta noite.
” O silêncio caiu pesado no quarto. A Dona Leonor endureceu o queixo. Aquele assunto era proibido naquela casa. Ninguém ousava pronunciar aquele nome dentro daquelas paredes. “Romão cavalcante, olha bem para mim”, a mãe disse, baixando a voz como quem dá uma ordem. Aquela rapariga foi embora há muito tempo. Aquela história está enterrada.
Hoje cumpre o que nasceu para cumprir. Enterrada. Era sempre essa a palavra que a mãe usava. Romão tinha aprendido com o tempo a aceitar, a engolir, a seguir. “A senhora tem razão”, disse ele, “mas a voz saiu sem alma. Vamos. A Dona Leonor saiu satisfeita, mas o Romão Ficou mais um instante diante do espírito e nesse instante, contra a vontade dele, a memória chegou como chega o vento à janela aberta, sem pedir licença.
Era uma tarde de outro tempo. Os dois debaixo da figueira velha, que ficava no fundo da quinta, longe dos olhares dos peões. A Aurora ria-se daquele jeito dela, do jeito que fazia o mundo parecer mais pequeno e maior ao mesmo tempo. Ela tinha pegado na mão dele e dito: “Romão, se um dia eu desapareci, não acredita em ninguém que diga que eu já não te amava.
Prometes?” E ele tinha respondido, rindo. Aurora, só vou acreditar que me deixaste de amar se vieres debaixo dessa figueira me dizer na cara. Senão não acredito em vivo, nem em morto. Promessa tola. Promessa de gente nova, promessa que tinha quebrado. O Cino chamava, já não havia tempo. Romão atravessou o pátio e montou no cavalo negro já arriado.
O animal estava lustroso, os arrios trabalhados em prata, dignos do herdeiro mais importante da região. Constância o aguardava a meio do caminho. Era costume da sua família que o noivo a buscasse e os dois entrassem juntos na capela, montados, mostrando ao mundo a união das duas casas. A noiva esperava-o junto de uma carruagem aberta, o vestido comprido, o véu solto sobre os ombros. Era bonita.

Qualquer um diria que era bonita. Mas Romão olhou para ela e sentiu apenas o vazio. “Você demorou?”, disse Constança sem sorrir. “Desculpa-me, Romão. Eu vou perguntar-te uma coisa e quero que me respondas olhando-me nos olhos.” Virou o rosto. “Pergunta: “Quer mesmo casar comigo?” Romão conteve o ar nos pulmões por um instante e mentiu da forma mais elegante que conseguiu.
“Quero, Constança?” Ela ficou alguns segundos calada. Depois subiu para a garupa do cavalo, segurando-o pela cintura. Mas algo no jeito dela tinha mudado. Constância Vasconcelos não era parva. Filha de coronel não cresce tola. Ela tinha sentido aquela mentira, como quem sente o cheiro da chuva antes da chuva cair.
E os dois começaram a descer à estrada de pedras que cortava a vila de São Joaquim do Riacho. A aldeia já estava acordada. Janelas abertas, crianças a correr, galinhas a ciscar entre os pés dos curiosos. Todos queriam ver o casal passar. Toda a gente queria contar dali há anos que ali esteve no dia em que o herdeiro dos cavalcantes casou com a filha do coronel.
E foi então que aconteceu. No meio da estrada vinha uma mulher. caminhava devagar, com dificuldade, carregando uma pesada braçada de lenha contra o peito, a cabeça baixa, os passos pequenos, contidos, como quem transporta algo muito mais pesado do que a madeira. O vestido simples colava-se ao corpo por causa do esforço e era impossível não reparar no que ela carregava no ventre.
A barriga, alta e arredondada, denunciava que aquela mulher esperava um filho. Esperava em pouco tempo. Romão olhou-a de longe, sem prestar muita atenção. Era só mais uma rapariga da aldeia. Puxou as rédeas do cavalo, desviando-se ligeiramente para não dificultar a passagem dela. Mas Constança apertou os dedos no braço dele com tanta força que o cavalo até estremeceu.
Romão! Ela disse num sussurro estranho. Romão, desce desse cavalo. O quê? Desce já desse cavalo. Há aqui coisa que o senhor não tá vendo. Romão virou a cabeça lentamente para olhar Constância. Os olhos dela estavam fixos na mulher da estrada. Não eram olhos de ciúme, eram olhos de quem está vendo um fantasma a caminhar.
Olha bem para ela, Romano. Olha bem. O agricultor virou o rosto. O coração começou a bater de uma forma errada, fora do ritmo, como um sino enlouquecido dentro do peito. Ele olhou e olhou de novo e sentiu o mundo inteiro escorregar debaixo dos pés. A mulher levantou o rosto naquele preciso momento e o tempo parou. Já não havia vila, já não havia sino badalando ao longe.
Havia apenas aquele rosto. Aquele rosto que ele tinha chorado em segrado com todas as letras que estava enterrado em alguma vala da estrada. Aurora dos Santos. A Aurora estava viva e a Aurora estava grávida. Abraçada de lenha não caiu. Aurora segurou-o firme. Os olhos dela encheram-se d’água, mas ela não deixou o choro ouvir.
Aprendera, nos tempos da ausência, a represar o choro como se barragem do Rio Bravo. Olhou para Romão, olhou paraa noiva atrás dele, olhou para o cavalo de arrios de prata e depois fez uma coisa que ninguém esperava. Aurora baixou a cabeça em sinal de respeito, como quem cumprimenta um senhor de uma quinta qualquer, e tentou seguir o caminho dela. Aurora! Romão gritou.
Foi um grito que cortou a estrada toda. Um grito de homem desesperado. Um grito que tirou os passarinhos das árvores. Ela parou de costas para ele, abraçada de lenha, ainda apertada contra o peito. “O senhor está enganado, Dr. Romão?”, disse ela, “Sem se virar. Eu não conheço o senhor. Tem moça parecida comigo em toda a parte do mundo.
A vila inteira o viu e toda a aldeia soube naquele segundo em que ela estava a mentir. Não pelo medo na voz, mas pela forma como o ombro dela tremeu quando ele chamou o nome. Aurora, olha para mim. Eu pedi licença para passar, doutor. O senhor tem um casamento à espera. Aurora, olha para mim. Ela demorou. Demorou tanto tempo que pareceu o tempo inteiro do mundo cabendo numa sua pausa.
E quando finalmente se virou, Romon viu uma coisa que ele nunca tinha visto naquela mulher. Não era raiva, não era saudade, era uma força, uma força calma e dorida, de quem aprendeu a ficar de pé porque ninguém lhe ia dar a mão mesmo. “O que é que o senhor quer de mim, Roman Cavalcante?”, disse ela, e a voz saiu firme, sem tremor.
O Senhor mandou recado dizendo que nunca mais cruzasse o seu caminho. E eu obedeci. Olha lá. Eu obedeci. Não vim atrás do senhor. Estava só a buscar lenha para aquecer o meu filho. Pode seguir o seu casamento. Eu não vou atrapalhar. Romão piscou os olhos. Piscou como quem leva um soco sem ver. Recado murmurou. Que recado, Aurora? Sabe qual o recado, doutor? Eu não mandei recado nenhum.
A voz dele saiu tão alto que até o cavalo recuou. A aldeia inteira parou. As mulheres saíram das janelas, os homens largaram o que estavam fazendo. Crianças aproximaram-se correndo. Um a um, todos formaram um círculo silencioso na estrada de pedras. Romão desceu do cavalo. Não desceu como noivo, desceu como o homem que está descendo da própria vida.
Constança ficou em cima do animal, segurando as rédeas com as mãos trêmulas. Não estava a chorar, estava apenas observando. E havia nos olhos dela uma coisa que ninguém viu, uma coisa parecida com alívio, como se ela soubesse lá no fundo que aquele casamento nunca tinha sido dela de verdade.
Romão caminhou em direção à Aurora devagar, como quem caminha para um milagre que pode desaparecer se for tocado depressa demais. Aurora”, disse, parando a poucos passos dela. Aurora, responde-me uma coisa, só uma. Ainda me ama? A pergunta caiu na estrada como pedra no poço. As mulheres da aldeia levaram a mão à boca.
Um senhor de chapéu velho tirou o chapéu da cabeça em respeito. Ninguém respirava. A Aurora olhou para ele, olhou para barriga, olhou paraa lenha que carregava. olhou para o chão. “Eu disse-te uma vez debaixo de uma figueira”, respondeu ela e a voz dela quebrou pela primeira vez. “Que eu só ia deixar de te amar se viesse ali dizer-te na cara.
Eu nunca fui.” Romão caiu de joelhos no chão de pedras. Não foi uma queda controlada, foi a queda de um homem cuja alma desistiu de ficar de pé. Os joelhos bateram nas pedras, o fato claro sujou-se de pó e os olhos dele encheram-se de uma água que estava represada há muito tempo. Eu acreditei, Aurora.
Ele disse, disseram-me que você tinha ido embora, que não me amavas mais. E eu acreditei que o Senhor tinha pedido para eu desaparecer. Acreditei na pessoa errada. Os dois acreditamos. A toda a aldeia chorava em silêncio. Um menino pequeno puxou a saia da mãe e perguntou: “Mãe, porque é que o moço tá a chorar no chão?” E a mãe respondeu: “Porque às vezes os adultos descobrem tarde demais a verdade que tinham de ter sabido cedo, meu filho.
” Foi nesse momento que a dona Leonor Andrade dobrou a esquina montada num carruagem que vinha atrás. Quando viu a cena, o rosto dela ficou transformou. Mas a senhora Leonor Andrade não era mulher de perder a postura em público. Ela respirou fundo, endireitou as costas, desceu da carruagem com a calma de quem desce no próprio salão de baile e caminhou até ao filho com um sorriso pequeno, polido, perigoso.
“Romão, meu filho”, disse ela com a voz mais doce que conseguiu. “Levanta-se desse chão. O senhor padre está à espera. Esta menina aqui deve estar cansada com esta lenha toda. Vamos mandar alguém ajudá-la. Mas agora a gente vai para a capela. A sua noiva está em cima do cavalo à espera. O Romão olhou para a mãe, mas desta vez não havia raiva no seu rosto.
Havia uma coisa pior. Havia uma dúvida. A dúvida de um filho que lá no fundo sempre soube que havia algo de errado naquela história, mas tinha preferido acreditar, porque acreditar dói menos do que enfrentar a própria mãe. E foi então que a Aurora fez o que ninguém esperava. Ela ajeitou abraçada de lenha contra o peito, olhou diretamente nos olhos da dona Leonor e disse com uma voz tão calma que lhe doía mais do que qualquer grito.
Boa cerimónia, dona Leonor. Que o casamento do seu filho seja abençoado. A senhora ergueu o queixo, tentando manter o sorriso polido. Obrigada, minha filha. Que Deus te acompanhe. Vai acompanhar-me? Sim, senhora, como tem acompanhado todo este tempo. Aurora fez uma pausa e acrescentou sem alterar o tom. O senhor padre disse que vai batizar a criança quando esta nascer.
Já está tudo combinado. Aliás, foi o próprio senhor padre que me procurou. Disse que precisava de falar uma coisa importante comigo. Mas como hoje está ocupado com o seu casamento, vou esperar até amanhã. O rosto da dona Leonor ficou branco, branco como a cera de vela. E foi nesse instante, com o sino da capela do Bom Ritiro continuando a badalar ao fundo, com a noiva em cima do cavalo, com o noivo de joelhos no chão, com a aldeia inteira de testemunha, que aurora dos Santos virou costas, ajeitou a lenha e continuou o seu caminho, sem olhar
para trás, sem dizer mais uma palavra. desaparecendo lentamente na curva da estrada, como quem desaparecia uma vez, e aprendeu a sunir sem ruído. E o sino continuou badalando, chamando Romão para um casamento que ele lá no fundo já sabia que não ia conseguir cumprir. Romão Cavalcante continuou de joelhos no chão de pedras durante um tempo que pareceu não acabar nunca.
A Aurora já tinha desaparecido na curva. A aldeia inteira esperava, sustendo a respiração, esperando ver o que aquele homem ia fazer agora. Romão. A Dona Leonor Andrade chamou baixinho ao ouvido do filho. Levanta-se, estão 300 pessoas dentro daquela capela esperando por si. Se der costas agora, deshonra essa família para sempre. Romão demorou a responder e quando respondeu, a sua voz estava estranhamente calma.
Mãe, a senhora vai entrar nesta capela comigo e vai-me olhar nos olhos diante de Deus e vai-me responder sem mentir o que aconteceu com a Aurora. A Dona Leonor não respondeu. Romão levantou-se, sacudiu a poeira do fato e subiu para o cavalo sem dizer mais uma palavra. Constança continuava em cima do animal. Os dois desceram à estrada calados em direção à capela do Bom Retiro.
Quando a porta da capela se abriu, o silêncio que caiu lá dentro foi quase mais alto que o sino. 300 cabeças viraram-se. 300 olhos aperceberam-se na mesma hora que algo tinha acontecido. O fato do noivo estava sujo. Os olhos dele estavam vermelhos. A noiva atrás dele estava com o rosto duro como pedra. O senhor padre Aristides esperou e foi nesse instante que Constança Vasconcelos fez a coisa mais inesperada da manhã.
Desceu sozinha do cavalo, recusando a mão de Romão, e caminhou em direção ao altar com a cabeça erguida. A aldeia inteira pensou que ela ia se ajoelhar e implorar o casamento, mas Constança não era de ajoelhar. Senhor padre, disse ela e a voz eou em toda a capela. Eu tenho uma coisa para dizer antes do senhor começar.
Pode falar, minha filha. Eu não me vou casar hoje. O coronel Vasconcelos levantou-se de um salto. Constança, o que é isso, menina? Pai, sente o Senhor. Eu sei o que estou fazendo. Ela virou-se para Romão. Romão Cavalcante, conheço-te desde criança e sei há muito tempo que o Senhor nunca foi meu de verdade.
O Senhor pertenceu a outra mulher antes de prometer pertencer a mim. E essa outra mulher acaba de aparecer a transportar um filho seu na barriga, no meio da estrada, à frente da aldeia inteira. A capela soltou um murmúrio surdo. As mulheres taparam a boca. Constança, eu posso explicar. Não precisa, Dr. Romão. Eu nasci filha de coronel, mas não nasci tola.
Eu vi os os seus olhos quando a reconheceu e vi os olhos dela. E eu não vou ser a mulher que se casa em cima de um amor que ainda não terminou. Constança tirou o vel da cabeça com calma, dobrou e colocou em cima do altar. Senhor padre, agradeço a Deus por ter aberto os olhos antes da bênção e peço a Deus que abençoe aquela rapariga da estrada, porque há coisa nesta história que ainda ninguém contou.
Ela atravessou a capela em passos firmes, mas antes de sair, parou junto de Romão e sussurrou baixinho para que só ele ouvisse. Vai atrás dela, Romão. Eu devolvo-te, mas há uma coisa que precisa de saber antes. A sua mãe não trabalhou sozinha. Há mais gente da sua casa nesta mentira. E eu sei quem é, mas tu precisa de descobrir sozinho, porque se vier de mim, não vai acreditar.
Romão sentiu o chão escorregar pela segunda vez nessa manhã. Vai atrás da Aurora antes que a tua mãe chegue lá primeiro. Constância completou. O tempo está contra a verdade. Ela saiu pela porta lateral. Romano correu atrás, mas Constança já estava entrando numa carruagem que partiu na hora.
Romão montou no cavalo e galopou pela aldeia até à curva onde a Aurora tinha desaparecido. Perguntou de porta em porta. Uma senhora que estendia a roupa indicava um caminho de barro que seguia para os fundos. A miúda mora lá no Casebre da Tia Esmeralda, médico. Mas a tia Esmeralda não recebe um homem que ela não respeita. Romão galopou até quase deixar o cavalo cansado.
Quando chegou ao Casebre, parou. Era um lugar pequeno, com um telhado de barro, galinhas a ciscar no quintal, estendal de roupa e uma porta de madeira velha. Ele bateu. Demorou. Quando a porta se abriu, quem apareceu não foi a Aurora, foi uma senhora de cabelos brancos, com olhos pequenos e penetrantes. O senhor é o Dr. Romão Cavalcante.
Eu sei quem o senhor é. A aldeia inteira já contou-me o que aconteceu na estrada. Tia Esmeralda, preciso de falar com a Aurora. A aurora está a descansar. A criança está a pesar demais. Por favor. A velha olhou Romão de alto a baixo e pela primeira vez em muito tempo, alguém ousava medir o herdeiro dos cavalcante com aquela frieza.
O senhor jura que nunca mandou aquele recado para ela assumir? Eu juro pela memória do meu pai. A velha estudou os olhos dele durante muito tempo. Então foi até um canto da sala, abriu um velho baú e tirou de dentro um cesto de palha atada com uma fita desbotada. Senta naquele banco, doutor.
Está aí dentro o que a sua mãe não quis que o senhor recebesse. Está aí dentro tudo o que A Aurora mandou-te e nunca chegou às tuas mãos. Abre. As mãos de Romão tremiam quando desfez o nó da fita. Dentro havia cartas, muitas, todas com a letra de Aurora, todas com o seu nome escrito por fora. Romão abriu a primeira. Meu Romão, há dias que espero notícias sua e nada chega.
Soube que me mandaram dizer que o senhor me pediu para desaparecer. Não acredito. Lembra-se da promessa da figueira? Estou à espera. Aurora. Romão fechou os olhos. As lágrimas vieram sem permissão. Pegou na segunda, na terceira, a quarta. Em cada uma, aurora pedia notícia. Em cada uma dizia que esperaria. Em cada uma dizia que estava grávida.
E na última, dentro do envelope, havia algo que lhe fez gelar o sangue. Uma resposta. uma resposta que não era dele, com uma letra perfeita, falsificando a assinatura, dizendo apenas: “Aurora, esqueça-me, não me procure mais, Romão.” Mas não era a letra dele e também não era a letra da mãe dele. Era a letra de alguém da casa, alguém que Romão conhecia demasiado bem, alguém que tinha acesso à correspondência da quinta há anos.
Tia Esmeralda, murmurou. Essa letra o senhor reconheceu, doutor. Como é que a senhora conseguiu esse envelope? A aurora guardou, achou sempre estranho. Mostrou-me no dia em que chegou aqui e guardei-o à espera do dia que o senhor viesse bater àquela porta. Romão apertou o papel contra o peito. Não era qualquer pessoa que tinha falsificado a resposta.
Era alguém que dormia debaixo do mesmo tecto que ele. Alguém que tomava café com ele toda a manhã. alguém em quem confiava como se fosse da família. E foi nesse momento exato, com a carta apertada no peito, que lhe ouviu o galope de um cavalo aproximando-se do Casebre. Vinha gente de fora, vinha gente da quinta Aurora do Vale e vinha para acabar com aquilo antes do amanhecer.
Romão Cavalcante enfiou as cartas dentro do bolso do casaco e dirigiu-se para a porta. O galope aproximava-se rápido. “Tia Esmeralda, fica lá dentro com a Aurora”, disse. “Eu resolvo lá fora.” A velha não obedeceu, saiu juntamente com a colher de pau ainda na mão. Quando o cavalo apareceu na curva do caminho de barro, Romão sentiu o coração apertar.
Não era dona Leonor, era Severino Ferraz, o capataz da fazenda. O homem que tinha entrou em casa quando Romão era ainda menino. O homem que lhe tinha ensinado a montar a cavalo. O homem em quem ele confiava, como se confiasse num irmão mais velho. Severino desceu do cavalo ofegante, e foi nesse exato instante que Romon viu, com toda a clareza do mundo, qual era a letra do bilhete falsificado.
Era a letra das listas de compras que Severino fazia. Era a letra dos recados que Severino deixava na cozinha. Era a letra que Romão tinha visto a vida inteiro sem prestar atenção. Roman tirou o bilhete do bolso devagar, mostrou. Severino, foste tu. O capataz parou. Os ombros descaíram.
Ele tinha vindo a correr, mas quando viu o papel na mão do patrão, soube que tinha chegado tarde demais. Ajoelhou-se no chão de terra ali mesmo em frente do casebre da tia Esmeralda, e tirou o chapéu. Dr. Romão, vim aqui contar tudo antes da a sua mãe chegar. Levanta-te, olha para mim. Não tenho coragem, doutor. Levanta, Severino.
A voz de Romão saiu de um lugar fundo. Severino levantou-se, mas ficou com o chapéu apertado nas mãos. Doutor, a sua mãe ameaçou-me de tirar tudo de mim. disse que me ia mandar embora da quinta sem um tostão. Eu tenho cinco filhos, médico. Cinco bocas. Eu fraquejei. E só por isso escreveu à Aurora, dizendo-lhe para me esquecer.
Só por isso, Severino. Não foi só isso, doutor. Romão sentiu o ar parar nos pulmões. [ressonante] Que mais? Severino respirou fundo, olhou para Romão e disse a frase que mudaria tudo dali em diante. Doutor, a sua mãe não trabalhou sozinha nesta história. Quem combinou tudo com ela foi o coronel Vasconcelos, o pai da dona Constança.
Os dois acertaram este casamento antes do Senhor saber. E para que este casamento desse certo, precisavam de tirar a Aurora do caminho. Era uma combinação. Terras com terras, boi com boi. O senhor não foi noivo da Constança por amor. O senhor foi noivo por contrato. Tia Esmeralda, ao lado, fechou os olhos e murmurou: “Senhor Deus do céu!”.
Romão deu três passos atrás, encostou-se à parede do Casebre, sentiu as pernas amolecerem, não conseguia processar o tamanho da mentira em que tinha vivido. Coronel Vasconcelo sabia da Aurora? Sabia, doutor, tudo, inclusive da gravidez. Foi ele quem pagou para a rapariga desaparecer da vila quando a coisa começou a aparecer no corpo dela.
Ele mandou um peão apanhar a Aurora e levá-lo para longe. E como ela chegou aqui à tia Esmeralda? A Tia Esmeralda foi quem respondeu baixinho com a voz embargada. Ela chegou aqui sozinha, doutor. Veio angando da estrada. Tinha saltado da carroça que estava a levá-la embora. chegou na a minha porta sem forças, com o pé a sangrar, com a roupa rasgada de tanto galho. Bateu três vezes. Eu abri.
Ela só conseguiu dizer uma frase antes de cair desmaiada no meu chão. Tia, ajuda-me a salvar o filho do homem que eu amo. Roman tapou o rosto com as mãos. As lágrimas vinham agora sem barragem nenhuma. Mas não eram só lágrimas de dor, eram lágrimas de vergonha. Vergonha de ter acreditado, vergonha de ter sido fácil de enganar, vergonha de ter quase casado com a filha do homem que tinha mandou tirar a mãe do seu filho de cima da face do mundo.
“E porque é que a senhora a acolheu, tia Esmeralda?”, perguntou com a voz fraca. “A senhora nem conhecia a menina?” A velha demorou a responder. Quando respondeu, a voz dela tremeu pela primeira vez em muito tempo. Dr. Romão, já tive uma filha há muito tempo. Era do tamanho da aurora. Tinha os mesmos olhos, tinha a mesma forma de carregar lenha contra o peito, como se carregasse o mundo.
Eu perdi a minha filha sem despedida. E quando esta rapariga caiu à minha porta, olhei para ela e ouvi uma voz lá dentro de mim, dizendo: “Aqui tá a tua segunda oportunidade, Esmeralda, de cuidar de uma filha como não pôde cuidar da primeira.” Por isso acolhi. Não foi caridade, doutor, foi cura. Foi esta rapariga que curou este meu peito que andava vazio.
Romão olhou para Cha Esmeralda, como quem olha para uma santa que nunca ninguém pensou em rezar. E ali, naquele quintal humilde, com galinha a ciscar e roupa estendida ao vento, ele se ajoelhou-se em frente da velha e pegou na mão dela. Tia Esmeralda, a senhora salvou a vida do meu filho. A senhora salvou a aurora.
Eu vou ser eternamente grato à senhora até ao último dia. Levanta-se, doutor. Eu não merecia tanto. Foi nesse preciso momento que a porta do Casebre abriu-se. A Aurora apareceu, segurando o batente, com a mão pousada na barriga e o rosto coberto de uma dor diferente da dor que ela tinha mostrado na estrada. Era uma dor de corpo agora.
Tia Esmeralda, acho que acho que está começando. A velha esqueceu-se de tudo, largou a colher de pau, correu para a Aurora, apoiou a rapariga com as duas mãos. Calma, minha filha, respira. A criança está com pressa, mas vamos esperar com ela. Severino, vai buscar água quente. O Dr. Romão, traz pano limpo lá de dentro.
A casa toda se transformou num burburinho. Aurora foi levada de volta para o quarto. Severino correu para o fogão. Romão pegou em panos e pela primeira vez em toda a sua vida, não estava mandando ninguém. Ele estava a obedecer a quem sabia realmente o que fazer. Fui neste meio do alvoro com Aurora a gemer baixo no quarto e a tia Esmeralda, repetindo: “Respira, minha filha, respira!” que se ouviu mais um cavalo chegando à frente do Casebre, mas desta vez não era um cavalo só, eram dois.
O Romão saiu a correr para a porta e quando viu deixou de respirar. Dona Leonora Andrade estava lá, tinha vindo como ele esperava. O rosto duro, o queixo erguido, as luvas brancas apertando o chicote de montar, mas ela não tinha vindo sozinha. Atrás dela, descendo do segundo cavalo com dificuldade, estava o senhor padre Aristides, o mesmo padre que ia celebrar o casamento, o padre da capela do bom retiro, o padre que aurora tinha mencionado na estrada, dizendo que ele sabia de tudo.
E o padre trazia, apertado contra o peito, um documento enrolado, amarelecido de tempo, com um selo de cera vermelho. Romão cavalcante”, disse o padre descendo do cavalo com solenidade. “Eu não vou guardar mais este segredo hoje. A verdade vai chegar à frente deste menino que está a nascer aí dentro. Dona Leonor, a senhora vai acompanhar-me e vai ouvir juntamente com o seu filho o que está escrito nesse papel que a senhora me obrigou a guardar há tantos tempos.
” A Dona Leonor ficou pálida, tentou recuar, mas o padre Aristides olhou nos olhos dela e disse com a voz mais grave que já tinha ouvido na vida: “A senhora pode fugir de mim, mas de Deus hoje não foge mais.” E lá dentro do Casebre, a Aurora soltou um gemido que cortou todo o quintal. A criança vinha, vinha junto com o verdade e nada nesta história ia voltar a ser como era antes.
Dona Leonor Andrade não conseguiu dar um passo. As pernas dela ficaram pesadas como se tivessem virado de pedra. O padre Aristides entrou no quintal do Casebre, segurando o documento contra o peito, como quem segura a criança recém-nascida. “Romão, meu filho”, disse o padre. Antes do seu pai partir deste mundo, ele me chamou para fazer uma confissão que ele já não conseguia carregar sozinho e me entregou esse papel.
disse que era para eu guardar até o senhor estar pronto caler. A sua mãe sabe da existência dele desde esse tempo e proibiu, com todas as as letras que esse papel chegasse nas as suas mãos. Romão olhou paraa mãe. Dona Leonor desviou o olhar. Leia, padre Aristides. O padre rompeu o selo de cera vermelha. Lá dentro do casebre, Aurora soltou mais um gemido fundo.
A Tia Esmeralda gritou de dentro. Severino, mais água quente e pano limpo, depressa. O capataz correu como quem corre para se redimir. O padre desenrolou o documento, piga rireou e começou a ler com a voz pausada, deixando cair cada palavra pesada no quintal. Eu, Stevan Cavalcante, proprietário da quinta Aurora do Vale, no perfeito juízo da a minha consciência, deixo registado este documento para o dia em que eu não estiver mais.
Conheci uma rapariga da nossa aldeia chamada Aurora dos Santos. Conheci-a porque o meu filho Romão apresentou-me um dia com um brilho no olho que nunca tinha visto em homem nenhum da minha família. E eu que sei de pessoas da mesma maneira que sei de gado, percebi logo que aquela rapariga era a esposa que Deus tinha escolhido para o meu menino.
Por isso, registo aqui, abençoado pelo padre da capela do bom retiro. Caso eu venha partir antes do casamento, Aurora dos Santos e qualquer filho que ela viera a ter com o meu romão são herdeiros legítimos dessa fazenda, em parte igual ao próprio Romão. Que ninguém ouse impedir essa união. que ninguém ouse roubar esta rapariga ao meu filho.
Assinado por mim com a bênção do padre Aristides e o reconhecimento da minha mulher, dona Leonor Andrade. O padre dobrou o documento, levantou os olhos. Dona Leonor, é a sua assinatura por baixo da do seu falecido marido. A senhora sabia desde esse tempo que esta rapariga era abençoada por esta família e mesmo assim a senhora tirou-a do caminho do seu filho.
A senhora mentiu por cima da memória do seu próprio marido morto. A Dona Leonor ficou parada. O queixo levantado começou a tremer. As luvas brancas apertaram o chicote com tanta força que o couro rangeu. E foi nesse instante, no quintal humilde, à frente do filho, do padre, da tia Esmeralda e do capatá segurando a bacia de água quente, que a dona Leonora Andrade fez uma coisa que ninguém da aldeia jamais tinha visto.
Chorou, não chorou como senhora de salão, chorou como uma mulher. Eu errei, Romão. Eu errei. Eu achei que estava cuidando de si. Eu pensava que pobre não combinava com a nossa casa. Eu fui educada assim, meu filho. A minha mãe ensinou-me que o casamento era negócio e eu não soube ensinar-lhe uma coisa diferente.
Mãe, tive medo, Romão. Tive medo de perder o senhor. Tive medo de ficar sozinha. E no meu medo, fiz com Aurora o que ninguém devia fazer com ninguém. Tirei ao seu menino o pai a que tinha direito. Eu tirei do seu pai morto o respeito que merecia. Eu vou ter que carregar isto até ao último dos meus dias.
Romão aproximou-se da mãe. Não para abraçar. Ainda não era tempo de abraçar, mas aproximou-se. Mãe, não te consigo perdoar agora. Não consigo. Mas a senhora vai ter tempo. Tempo a senhora vai ter. O que a senhora não vai ter mais é o direito de mandar em mim, nem em ninguém desta casa, sem antes consultar o coração de quem está envolvido.
A Aurora é amã do meu filho e eu vou casar com ela hoje, agora, antes do menino nascer. Romão, ela está em trabalho de parto e o senhor padre Aristide está aqui e Deus está neste quintal junto com a gente. Eu não preciso de capela. Eu preciso do sim dela e do sim de Deus. Foi nesse preciso instante que se ouviu o barulho de uma carruagem a chegar ao Casebre.
Romão olhou e os seus olhos se encheram de água outra vez. Constança Vasconcelos desceu da carruagem, mas não veio sozinha. Veio transportando uma sacola pesada. Atrás dela, dois homens transportavam um baú de madeira. “Vim devolver”, Constança disse, ofegante, chegando perto do grupo. Romão, fui a casa, abri o cofre do meu pai e tirei tudo o que ele tinha pago para esta história sair do forma que ele queria.
Está tudo nesta sacola. É da Aurora, é do filho dela. Eu Rompi com o meu pai, Romão. Eu disse para ele na cara que filha de coronel pode até casar por contrato, mas não casa por crime. Eu não volto mais para aquela casa. A aldeia inteira, que se tinha aproximado discretamente do Casebre e já era muita gente, bateu palmas baixinhas.
Algumas mulheres choravam. Constança ergueu o queixo e disse, virando-se para Aurora dentro do Casebre, que se ouvia gemer: “Aurora, não te conheço, mas peço-te perdão pelo que a minha família fez e eu fico aqui hoje contigo como amiga, se quiser.” Lá dentro do quarto, a Aurora gritou: “Foi um grito de dor, mas também de outra coisa.
Foi um grito de quem deixa o corpo abrir-se para o milagre”. Tia Esmeralda gritou junto: “Vem, minha filha, vem! Mais um, mais um!” E depois o silêncio. Um silêncio que pareceu mais longo do que toda a vida de Romão. Até que se ouviu o choro. O choro de uma criança nova, forte, alto, vivo. Romão caiu de joelhos no chão pela terceira vez nesse dia, mas desta vez não foi de dor, foi de alegria.
Foi de uma alegria tão grande que doía. O padre Aristides ergueu as mãos para o céu e murmurou: “Obrigado, senhor.” Constância levou as mãos à boca. Severino chorou sem vergonha e até a dona Leonor, na primeira vez em muitos tempos, sorriu. Um pequeno sorriso, magoado, mas verdadeiro. Tia Esmeralda apareceu à porta, segurando uma trouxinha de pano.
Os olhos dela brilhavam. Dr. Romão”, disse ela com a voz embargada, “vem conhecer o teu menino.” Romão levantou-se, caminhou trémulo, entrou no quarto. Aurora estava deitada, cansada, suada, com os cabelos colados à testa, mas estava sorrindo, sorrindo à maneira dela, o jeito da figueira velha. “Romão,” ela disse, “vem cá.
” Ele ajoelhou-se ao lado da cama. A Tia Esmeralda colocou o bebé nos braços do pai. O Romão olhou para o menino, os olhinhos fechados, a boca apertada, as mãozinhas miúdas a mexer no ar. Aurora, como lhe vamos chamar? Estevão, que nem o seu pai. Para ele saber lá de onde estiver que a gente honra. Romão chorou em cima do filho.
As lágrimas caíram em cima da trouxa de pano. E foi nesse momento com o menino Estevão Cavalcante dos Santos nos braços, que a tia Esmeralda chegou perto e disse uma frase que mudou de novo o ar do quarto. Dr. Romão, o menino está bem, mas a mãe Romão olhou para a Aurora. Aurora sorria, mas estava pálida.
Pálida demais. A mãe perdeu muito sangue, doutor. A gente precisa de correr para a vila de Santa Cecília das Águas, em casa do Dr. Velho. Ainda vai a tempo, mas tem de ser agora. E o coração de Romão, que tinha acabado de encontrar a luz, sentiu de novo o sabor amargo do medo. A carruagem voou pela estrada de terra batida em direção à aldeia de Santa Cecília das Águas.
Romão segurava Aurora ao colo. A Tia Esmeralda embalava o pequeno Estevão no banco da frente. O padre Aristides rezava baixinho. Severino conduzia o cavalo, gritando para o animal não fraquejar. E Constança ia atrás noutra carruagem, segurando os panos limpos como quem segura a esperança. Romão! Aurora sussurrou, apertando a mão dele com a pouca força que ainda tinha.
Se acontecer alguma coisa, não vai acontecer. Mas se acontecer, promete que cria o Estevão na verdade. Não o deixa crescer a ouvir mentira nenhuma. Promete? Promete-lhe primeiro de ficar comigo, Aurora. Promete primeiro. Ela sorriu fracamente e disse a frase que lhe guardaria para sempre. Eu promito-te amar até onde o tempo me deixar e depois disso mais um pouco.
Quando chegaram à casa doutor velho, o homem já esperava à porta. A Tia Esmeralda tinha mandado um menino a correr na frente. O doutor olhou para a Aurora e disse apenas uma palavra: “Entra”. levou a rapariga para dentro do consultório, fechou a porta e ali ficou trabalhando durante um tempo que pareceu o tempo do mundo inteiro.
Romão andou de um lado para o outro na varanda. Tia Esmeralda rezava com o bebé a dormir no colo. Severino estava ajoelhado num canto, sem chapéu. Constância chegou ofegante. Ninguém falava. Quando a porta do consultório finalmente abriu-se, o velho doutor saiu enxugando as mãos num pano. A rapariga é forte, vai ficar, mas precisa de descansar muito e precisa de gente boa à volta.
Romão caiu sentado num banco e chorou como criança. Tié Esmeralda chorou junto. Severino chorou no canto e até o o padre Aristides tirou um lenço do bolso e limpou os olhos sem vergonha nenhuma. Ainda nessa mesma noite, um quarto humilde dos fundos da casa doutor velho, com a deitada na cama, fraca, mas viva.
O padre Aristide celebrou um casamento que não estava em livro nenhum de registo. Aurora segurou a mão de Romão. A Tia Esmeralda segurou o bebé a dormir. Constância serviu de testemunha. Severino chorava de mãos juntas e a dona Leonor Andrade ficou de pé num canto em silêncio, esperando o dia que ainda viria de poder olhar a Nora nos olhos.
Aurora dos Santos aceita o Senr. Romão Cavalcante como marido na alegria e na dor até ao fim da estrada. Aceito, senhor padre. E o senhor Romão Cavalcante aceita Aurora como esposa, abençoada pela vontade do seu falecido pai. Aceito de todo o coração. E foi assim, num quarto pequeno, com a luz fraca de uma lâmpada de petróleo que se uniu o casamento que muita gente poderosa tinha tentado impedir.
Quando a estação mudou, a Aurora já estava de volta à quinta Aurora do Vale. Mas já não era a mesma quinta. As janelas estavam abertas, as cortinas pesadas tinham sido tiradas. As crianças dos peões corriam agora livres pelo pátio principal, coisa que a dona Leonor nunca tinha permitido na vida. Dona Leonor ocupava um quarto mais pequeno agora, por opção da própria.
Pediu com a voz baixa, para deixar o quarto principal para Rumão e Aurora. E todas as manhãs, sem falta, ela ia até ao berço do Estevão e cantava baixinho uma canção que ela cantava para Romão quando este era pequeno. Ali, naquele canto, devagar, a senhora ia reaprendendo a ser gente. Severino continuou na quinta, mas não como capataz.
Pediu por conta própria, para voltar a ser peão. Disse que tinha perdido o direito de mandar em alguém. passou a ser o homem que cuidava dos cavalos, o serviço que mais amava na vida. Constânconcelos fez uma escolha. Pediu para viver com a tia Esmeralda no Casebre Humilde. E ali, naquela casa de telhado de barro, as duas mulheres montaram uma escolinha onde os filhos dos peões e das lavadeiras aprendiam a ler. A Tia Esmeralda contava história.
Constância ensinava a letra. Todas as tardes, depois da aula, as duas se sentavam-se no quintal e tomavam café passado no pano. A Tia Constança disse um dia: “A senhora salvou tanta gente na vida. Como é que a senhora aguenta?” Filha, a velha respondeu, eu não salvei ninguém. Quem salva é Deus. Eu só não fechei a porta à hora certa.
Notícia do coronel Vasconcelos chegou luas depois. Disseram que ele tinha perdido o respeito da comarca, que já ninguém se sentava à mesa dele. Constância recebeu o recado sem chorar. apenas disse que Deus tem a pena do meu pai, porque não tenho mais nada para dar a ele. E foi assim, sem violência, sem vingança, sem grito, que a justiça encontrou o caminho dela.
Passou tempo, passou bastante tempo. O menino Estevão aprendeu a gatinhar, depois a ficar de pé, segurando nos móveis, depois a dar os primeiros passinhos pela sala da quinta. E no dia em que o menino aprendeu a correr, o Romão pegou-lhe pela mão, pegou-lhe a Aurora pelo braço e disse: “Vem comigo, quero mostrar uma coisa para vocês os dois”.
levou os dois até ao fundo da quinta, até a figueira velha, a mesma figueira de há muitos tempos, a mesma figueira da promessa. Romão ajoelhou-se na altura do filho, pegou nas pequenas mãozinhas dele e disse com a voz embargada: “Estevão, escuta o teu pai. Esta árvore aqui é a árvore mais importante desta quinta.
Não pela madeira, não pela sombra, é porque debaixo dela, muito há tempo, a tua mãe pediu-me uma promessa. E eu, por ter quebrado essa promessa, quase vos perdi a ambos para sempre. Aurora ajoelhou-se junto, pegou na outra mãozinha do filho. Estevão ela disse, há uma lição que o teu pai e eu aprendemos da forma mais difícil e a gente quer ensinar-te agora, enquanto ainda é menino, para si não passar pelo que nós passámos.
O menino olhou para a mãe com os seus olhinhos curiosos. Filho, Aurora continuou. Se um dia alguém lhe vier dizer que alguém que você ama deixou de te amar, não acredita. O o amor verdadeiro nunca manda recado por terceiro. O amor verdadeiro vem na cara debaixo de uma árvore destas e diz olhando-o nos olhos: “Se vier de outro jeito, é mentira sempre”.
Romão completou: “E se um dia te disserem, o meu filho, que a tua mãe deixou de te amar, vens aqui debaixo desta figueira. E aqui vai saber a verdade do mundo. O menino que ainda não compreendia tudo, esboçou um sorriso largo, soltou a mão dos pais e saiu a correr entre as raízes da figueira velha, rindo, gritando vivo.
Romão pegou na mão de Aurora. Aurora dos Santos Cavalcante, disse baixinho. Obrigado por ter sobrevivido por mim. Obrigado por ter resistido por nós. Obrigado por ter voltado, Romão. Ela respondeu com os olhos cheios. A gente não voltou de lado nenhum. A gente nunca tinha ido embora. A gente só estava à espera que os outros parassem de mentir.
E no fundo da quinta Aurora do Vale, debaixo da figueira velha, que tinha visto tudo, um homem e uma mulher abraçaram-se enquanto o filho deles corria livre. Não havia mais sino, não havia mais carruagem de noiva, não havia mais documento escondido, havia apenas o vento na folha da figueira, o riso de um menino e a verdade. Finalmente, finalmente a verdade.
andando solta pelos campos.