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O sumiço misterioso de um menino de apenas seis anos em uma pacata cidade litorânea abriu as portas para o relato de horror mais perturbador da justiça brasileira. O que parecia ser uma busca desesperada transformou-se em uma caçada implacável marcada por rituais macabros, prisões de autoridades locais e confissões gravadas sob o eco de torturas medievais nos porões do estado. O preço da verdade foi enterrado sob décadas de segredos e reviravoltas forenses que dividiram o país. Entenda os bastidores assustadores dessa investigação avassaladora acessando o artigo completo fixado nos comentários.

A Ilusão da Pacatez e o Desaparecimento do Inocente

O ecossistema das pequenas cidades litorâneas brasileiras durante a década de 1990 guardava uma dinâmica social muito específica, pautada pela proximidade comunitária, pela calmaria nos meses de inverno e pela sensação de que a violência urbana endêmica dos grandes centros urbanos era uma realidade distante e inaplicável àqueles territórios. No município de Guaratuba, localizado no litoral do estado do Paraná, a rotina dos moradores orbitava ao redor das atividades da pesca, do turismo sazonal e da gestão política local. As crianças costumavam brincar nas calçadas, deslocar-se sozinhas para as instituições de ensino e transitar entre as residências de vizinhos sem que os pais sentissem a necessidade de uma vigilância mecânica ou vigilância constante. Foi justamente essa atmosfera de aparente invulnerabilidade que serviu de pano de fundo para a deflagração da crônica policial mais complexa, dolorosa e misteriosa da história jurídica nacional, cuja resolução tardia expôs as entranhas de um sistema de segurança pública corrompido e a fragilidade do pacto social perante o medo coletivo.

No centro dessa história estava Evandro Ramos Caetano, um menino de apenas seis anos de idade. Descrito por familiares, professores e amigos como uma criança alegre, saudável e de comportamento dócil, o garoto era filho de uma família trabalhadora local. Seu pai, evocado em relatos da época como um homem humilde e dedicado ao sustento da casa, mantinha uma rotina organizada e integrada à comunidade de Guaratuba. No dia 6 de abril de 1992, uma segunda-feira de clima ameno, Evandro seguiu o que parecia ser mais um roteiro rotineiro de seu cotidiano infantil. Ele acompanhava sua mãe até o ambiente de trabalho dela, uma repartição pública situada nas proximidades da residência familiar. No meio da manhã, o menino percebeu que havia esquecido um brinquedo ou um objeto pessoal em casa e solicitou permissão para realizar o trajeto de volta sozinho — uma caminhada de escassos duzentos metros por ruas que ele conhecia perfeitamente.

O descompasso biológico e social instalou-se no momento em que os minutos converteram-se em horas e Evandro não retornou ao seio familiar. O trajeto curto, que deveria durar menos de cinco minutos, transformou-se em um hiato absoluto de informações. A ausência da criança imediatamente acendeu o sinal de alerta em sua mãe, que conhecia o comportamento rigorosamente obediente do filho. O sumiço daquela forma não condizia, sob nenhuma hipótese, com o histórico do menino. Inicialmente, a família buscou manter a calma, adotando os procedimentos padrão de busca em situações de atraso comunitário: efetuaram buscas a pé pelas imediações, entraram en contato com familiares próximos e questionaram vizinhos e comerciantes que operavam nas rotas que ligavam a repartição à residência. A resposta, contudo, foi unânime e alarmante: ninguém havia visto o garoto após o início daquela manhã. O que começou como um estranhamento pontual transformou-se em desespero absoluto ao longo daquela madrugada, rompendo a calmaria de Guaratuba e iniciando um pesadelo nacional.

A Mobilização Popular e o Achado Macabro no Matagal

Na manhã de terça-feira, diante da persistência do sumiço e da total falta de notícias ou pedidos de resgate, a família de Evandro Ramos Caetano formalizou o registro de desaparecimento perante as autoridades policiais locais. A partir daquele momento, a rotina de Guaratuba foi completamente paralisada. A comoção tomou conta da população local, gerando uma onda de solidariedade e engajamento comunitário que mobilizou mutirões de busca compostos por moradores, pescadores e voluntários. As equipes vasculhavam perímetros urbanos, estradas vicinais e as densas regiões de mata atlântica que circundavam o município litorâneo, enquanto cartazes com a fotografia do menino eram espalhados pelos comércios e veículos oficiais da região.

O desfecho mais temido e trágico concretizou-se cinco dias após o desaparecimento, em 11 de abril de 2012. Um grupo de trabalhadores que transitava por uma área de matagal isolada e de difícil acesso na periferia de Guaratuba deparou-se com uma cena de puro horror biológico: o corpo de uma criança estava abandonado em meio à vegetação. As condições do cadáver chocaram os peritos criminais e policiais que atenderam a ocorrência devido à extrema brutalidade e sadismo aplicados à vítima. O corpo encontrava-se totalmente desprovido de suas vestes internas, apresentava a amputação completa das mãos e dos pés, a remoção cirúrgica de órgãos internos e do couro cabeludo, além de cortes profundos na região abdominal que sugeriam um processo de evisceração. Próximos aos restos mortais, foram localizados um par de chinelos e uma chave que pertenciam a Evandro, detalhe que permitiu a identificação visual preliminar por parte dos familiares, embora o estado de desfiguração do cadáver exigisse perícias científicas posteriores.

A confirmação de que o corpo era de Evandro Ramos Caetano desencadeou uma onda de choque, repúdio e pânico generalizado na população de Guaratuba. A brutalidade inédita do crime alimentou a disseminação imediata de boatos, teorias conspiratórias e especulações populares sobre a motivação de tanta crueldade. Na ausência de uma resposta rápida por parte da Polícia Civil local, que enfrentava sérias limitações técnicas e estruturais para conduzir uma investigação de homicídio daquela magnitude, o imaginário coletivo buscou refúgio em preconceitos culturais e religiosos. O foco das suspeitas populares, estimulado por lideranças locais e por uma cobertura jornalística sensacionalista que passava a dominar a mídia estadual, direcionou-se para a tese de que o menino havia sido vítima de um sacrifício ritualístico humano ligado a práticas de magia negra ou rituais de seitas satânicas, transformando a busca por justiça em uma caçada humana por bodes expiatórios.

O Surgimento do Acusador e a Tese do Ritual Satânico

É dentro desse ambiente saturado pelo medo coletivo e pela exigência social de uma punição exemplar que emerge a figura de Diógenes Caetano dos Santos Filho. Engenheiro de formação, morador influente de Guaratuba e primo de segundo grau do pai de Evandro, Diógenes possuía um histórico de intensas divergências políticas e desavenças pessoais com a família que comandava o poder executivo municipal na época. Ele assumiu o papel de um acusador privado informal, passando a recolher indícios fragmentados, boatos de rua e suposições pessoais para estruturar uma narrativa complexa que vinculava o assassinato de Evandro à cúpula política da cidade.

A tese de Diógenes centrava-se na figura de Celina Abagge, primeira-dama de Guaratuba e esposa do então prefeito Aldo Abagge, e de sua filha, Beatriz Abagge. De acordo com a teoria construída pelo acusador e apresentada de forma insistente às autoridades estatais, Celina e Beatriz seriam praticantes de rituais satânicos de magia negra e teriam encomendado o sequestro e o sacrifício de uma criança inocente para obter favores espirituais que garantissem a manutenção do poder político e a prosperidade financeira da família Abagge. Diógenes apontava que a prefeitura municipal havia contratado recentemente um pai de santo de origem baiana, identificado como Osvaldo Marcineiro, para realizar trabalhos espirituais na cidade, elemento que serviu como a peça de ligação perfeita para a sua narrativa de conspiração mística.

A teoria do ritual satânico, apesar de desprovida de qualquer materialidade física ou prova pericial laboratorial inicial que a sustentasse, ganhou tração e capilaridade nas estruturas do estado devido à pressão política e ao clamor da imprensa. O caso foi transferido para a alçada do Grupo de Águia da Polícia Militar do Paraná, uma seção de inteligência encarregada de realizar investigações especiais de forma paralela à Polícia Civil. Os oficiais do Grupo Águia adotaram a narrativa de Diógenes como a linha de investigação preferencial e absoluta, ignorando outras hipóteses tradicionais de crimes contra a infância — como pedofilia ou tráfico de órgãos — e concentrando seus esforços na vigilância e na coleta de dados sobre os hábitos religiosos e movimentações da primeira-dama, de sua filha e dos pais de santo da cidade.

As Sete Prisões e a Engenharia das Confissões

No início de julho de 1992, em uma operação coordenada que paralisou o estado do Paraná, o Grupo Águia da Polícia Militar efetuou a prisão preventiva de sete pessoas apontadas como os mentores e executores do suposto ritual de sacrifício de Evandro Ramos Caetano. O grupo de detidos, que passaria à história da crônica policial sob o estigma de “As Bruxas de Guaratuba” e seus colaboradores, era composto por:

  • Celina Abagge: Primeira-dama do município de Guaratuba.

  • Beatriz Abagge: Filha do prefeito e da primeira-dama, ativista local.

  • Osvaldo Marcineiro: Pai de santo e líder espiritual umbandista.

  • Vicente de Paula Ferreira: Auxiliar espiritual e colaborador dos rituais.

  • Davi dos Santos Soares: Artesão local e praticante das atividades do terreiro.

  • Airton Bardelli dos Santos: Gerente de uma das empresas da família Abagge, acusado de apoio logístico.

  • Francisco Sérgio Cristofolini: Vizinho do terreiro, acusado de participação no sequestro.

Horas após a execução dos mandados de prisão, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná convocou uma coletiva de imprensa de grande repercussão para apresentar à sociedade a elucidação do caso. Diante das câmeras de televisão e dos gravadores dos jornalistas, as autoridades estatais divulgaram arquivos de áudio gravados em fita cassete nos quais Osvaldo Marcineiro, Beatriz Abagge e Davi dos Santos Soares confessavam, com riqueza de detalhes sórdidos e assustadores, a autoria do crime. Nas gravações, os acusados narravam como o menino Evandro havia sido atraído, dopado, conduzido até o interior do terreiro de umbanda e submetido ao processo de evisceração e amputação de membros em um ritual presidido por Celina e Beatriz Abagge.

A divulgação das confissões provocou uma onda de indignação nacional e determinou o linchamento moral imediato dos sete acusados perante a opinião pública brasileira. O caso parecia encerrado sob o ponto de vista da autoria; os réus haviam admitido seus próprios crimes em gravações oficiais fornecidas pela Polícia Militar do estado. No entanto, no momento em que os detidos foram transferidos para o sistema prisional regular e receberam o atendimento de advogados de defesa técnica e defensores públicos, uma nova e perturbadora realidade veio à tona: Celina, Beatriz e os pais de santo retrataram integralmente suas confissões, afirmando de forma categórica que os áudios haviam sido obtidos por meio de sessões medievais de tortura física, psicológica e abuso sexual perpetradas pelos oficiais do Grupo Águia no interior de uma casa isolada na serra do mar.