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Pai e Filha Desapareceram No Pantanal — 4 Anos Depois Ela Voltou Sozinha Diz Que Ele Ainda Estava Lá 

Pai e Filha Desapareceram No Pantanal — 4 Anos Depois Ela Voltou Sozinha Diz Que Ele Ainda Estava Lá

 

No dia 14 de setembro de 2019, às 6:22 da manhã, Osvaldo Mendes Teixeira ligou para o irmão mais velho desde um telefone público na estação rodoviária de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Disse que ia levar a filha de 9 anos a conhecer a quinta onde tinha crescido, perto da orla do Pantanal, na região do rio Paraguai.

O irmão perguntou se valia a pena ir àquela época, com o calor a apertar e o nível da água a começar a subir. Osvaldo respondeu que conhecia cada palmo daquele chão e que era coisa de dois dias, três no máximo, e que a menina precisava de ver de onde a família tinha vindo. O irmão desejou-lhe boa viagem. Osvaldo desligou.

Ninguém mais ouviu a voz dele. A carrinha foi encontrada 11 dias depois, estacionada numa estrada de terra a 14 km da BR262, com os pneus atolados até metade no barro seco. A cadeirinha da menina estava no banco de trás. Uma mochila com roupa de criança no açoalho, duas garrafas de água vazias no porta-bagagens. A chave está na ignição.

Não havia sinal de luta, de pancada, de nada que fizesse pensar num crime evidente. A polícia registou o desaparecimento como abandono voluntário de veículo. A família registou como o início do fim. Esta é a história de um pai de 38 anos e de uma menina chamada Isadora, que entraram juntos numa das regiões mais vastas e menos vigiadas do Brasil, e de como 4 anos e 2 meses depois a menina apareceu sozinha numa quinta de gado a A 80 km dali, descalça, magra, na com os cabelos pela cintura e com uma única frase que repetiu a cada pessoa

que tentou ajudá-la, o pai ainda está lá. O Pantanal ocupa uma área superior a muitos países europeus. Na estação seca parece uma savana infinita, cortada por trilhos de gado e caminhos que mudam de lugar a cada cheia. Na estação das águas, o que era pasto transforma-se em lago. O que era estrada passa a rio.

O que era terra firme desaparece debaixo de 1,5 m de água escura. Não há sinal de celular em boa parte da planície. Não há torres, não há postes, não há vedações em extensões que se medem em dias de caminhada, e não em quilómetros. Osvaldo tinha nascido ali. Cresceu numa quinta de criação extensiva, daquelas onde o gado anda à solta por léguas e o peão passa semanas sem ver outra pessoa.

Saiu aos 19 anos para tentar a vida em Campo Grande, onde trabalhou como eletricista, casou, teve Isadora e separou-se da mulher em 2018. A guarda era partilhada. Nesta relação com a ex-mulher não era boa, mas funcionava. Osvaldo pegava na menina de 15 em 15 dias e devolvia-a no domingo à noite. Era pontual, era presente, era o tipo de pai que não faltava.

Naquele setembro de 2019, avisou a mãe de Isadora que levaria a filha a conhecer o Pantanal. A mãe hesitou, perguntou ao onde exatamente, durante quanto tempo, com quem mais. Osvaldo disse que iam sozinhos, que ficariam em casa de um primo que vivia numa das quintas da região de Ncolândia e que volariam na terça-feira. A mãe concordou, deu um beijo à filha, ajeitou a pequena mochila cor-de-osa e ficou parada no portão, vendo a carrinha branca dobrar a esquina da rua.

Joaquim Murtinho. Na terça-feira, Osvaldo não trouxe a Isadora de volta. Na quarta-feira, o o telefone dele já ia diretamente para a caixa postal. Na quinta-feira, a mãe foi à esquadra. Se este tipo de história te faz parar e pensar no que acontece quando alguém entra num local de onde o O Brasil não consegue trazer ninguém de volta, nós pode inscrever-se no canal e deixar a sua reflexão nos comentários.

 

 

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A partir daqui, a história avança lentamente. Cada facto precisa de ser contado no seu tempo. Por quanto tempo uma mãe espera antes de aceitar que o polícia não tem meios de encontrar alguém no Pantanal? O que acontece quando uma criança regressa de um lugar onde nenhuma equipa de busca conseguiu chegar? E o que se faz com uma frase que ninguém consegue confirmar nem desmentir? Ele ainda está lá? Estamos na região de Corumbá e em setembro de 2019.

O calor passa dos 38º à sombra. As estradas de terra batida que cortam as explorações não tem nome nem matrícula. O corpo de bombeiros mais próximo fica a 2 horas de viagem quando a estrada o permite passagem. Osvaldo saiu de Campo Grande pela BR262 num sábado de manhã cedo, com a Isadora a dormir no banco de trás e um esferovite com água, sumo de pacote e pão de queijo comprado na padaria da esquina.

A viagem até Corumbá durava cerca de 5 horas, mas não ia até Corumbá. E o plano era fazer um desvio antes de Miranda, entrar por uma estrada municipal sem asfalto e seguir até ao quinta do Primo Nivaldo, que ficava numa das zonas mais remotas da subregião da Ncolândia, rodeada por centenas de charcos salobras e campos que se estendem até onde a vista alcança.

BR 262 naquele troço é uma faixa de asfalto que corta o cerrado e vai adelgaçando à medida que se aproxima do Pantanal. Depois de Miranda, o cenário muda de figura. O serrado dá lugar a campos pouco profundos. Essa vegetação rasteira e o horizonte abre-se de uma forma que desoriente quem não está habituado. As placas de sinalização ficam cada vez mais espaçadas até desaparecerem de vez.

Os desvios não têm nome. São aberturas no mato marcadas por um mourão de cerca ou por uma árvore conhecida pelos moradores locais. Quem não sabe para onde vai simplesmente não chega. Osvaldo sabia. Tinha feito aquele Caminho dezenas de vezes quando era menino, sentado na caçamba da carrinha do pai e com o vento quente batendo no rosto e a poeira vermelha colando-se à pele.

Conhecia as referências. Sabia onde virar, onde o chão ficava mole, onde era necessário reduzir a velocidade para não atolar. Estávamos em setembro, o auge da seca. As lagoas estavam baixas, os campos secos, e a terra rachava em padrões irregulares que lembravam couro velho. O cheiro era de erva queimada e de poeira suspensa no ar.

Isadora acordou quando a carrinha saiu do asfalto e começou a sacudir na estrada de terra batida. E Osvaldo disse para ela agarrar-se com força e olhar pela janela. disse que aquilo tudo, até onde ela conseguisse ver, era o local onde o avô dele tinha vivido toda a vida. A menina olhou, viu o campo, viu o céu, viu uma arara azul pousada num tronco seco à beira da estrada. Sorriu.

Osvaldo contou depois ao primo que aquele sorriso tinha valido a pena a viagem inteira. Chegaram à quinta do Primo por volta das 2as da tarde. A sede era uma construção simples em alvenaria, com varanda de madeira, mastelhado de eternitral nos fundos. O terreiro era de terra batida, sombreado por um pé de manga que devia ter mais de 50 anos.

Não havia energia elétrica da rede. A exploração utilizava um gerador a diesel que funcionava das 6 da tarde às 10 da noite. Não havia telefone fixo, não havia internet. O rádio de comunicação que em teoria ligava a quinta à sede do concelho, estava quebrado desde abril. O silêncio ali era de um tipo que gente de cidade não conhece.

E não era a ausência de som, era a presença de sons que o ouvido urbano não sabe interpretar. O mugido distante do gado, o raspar das folhas secas no chão, o canto de um pássaro que ninguém ali sabia nomear, o estalido seco de um ramo quebrando sob o peso de algum bicho invisível. Isadora ficou parada na varanda durante muito tempo, só ouvindo.

Osvaldo e Nivaldo entraram para a cozinha e sentaram-se à mesa enquanto o café aquecia no fogão a lenha. A estrada que Osvaldo tinha percorrido para chegar ali não aparecia em nenhuma aplicação de navegação. No Google Maps, a quinta era um ponto vago num imenso bloco verde, sem referências. Quem quisesse encontrar aquele lugar precisaria de coordenadas exatas ou de alguém que conhecesse o caminho.

E mesmo assim dependeria da estação. Na cheia, metade daquela estrada ficava debaixo de água. Nivaldo Mendes da Silva vivia sozinho na sede da quinta havia 6 anos. Era um homem de 52 anos, magro, de pele curtida pelo sol, mãos grossas e poucas palavras. Nunca tinha casado, nunca tinha saído do Pantanal durante mais de uma semana seguida.

O proprietário da terra, um empresário de São Paulo chamado António Bastos, aparecia uma vez por ano para verificar o rebanho e liquidar os pagamentos. O resto do tempo, o Nivaldo resolvia tudo sozinho. Cuidava de pouco mais de 300 cabeças de gado nelori e com a ajuda de dois peões que iam e vinham conforme a estação na seca, permaneciam mais tempo, porque o gado espalhava-se e era preciso cavalgar longas distâncias para juntar o rebanho.

Na cheia iam embora porque não havia como circular. Nesse mês de setembro de 2019, os dois peões estavam na quinta. Um deles chamado Joaquim era um rapaz de 20 e poucos anos, nascido numa comunidade ribeirinha, perto do rio Negro. O outro mais velho era conhecido apenas como o seu O Zé e um homem com cerca de 60 anos que trabalhava em fazendas do Pantanal desde a adolescência.

Ambos viram Osvaldo chegar com a menina. Ambos jantaram com eles no sábado à noite. Ambos disseram depois à polícia que Osvaldo parecia tranquilo, falava com carinho da filha e que em nenhum momento deu sinais de que algo estava errado. O jantar foi arroz, feijão, carne seca frita com cebola e mandioca cozida. A Isadora comeu pouco.

Estava cansada da viagem e impressionada com o escuro total que se abateu sobre a fazenda quando o gerador foi desligado às 10 da noite. Nivaldo disse que a menina olhou para o céu e ficou assustada com a quantidade de estrelas. Nunca tinha visto um céu assim. No Campo Grande, as luzes da cidade escondem quase tudo.

Aí, a Via Láctea era uma faixa branca de horizonte a horizonte, e o silêncio era tão profundo que dava para ouvir a própria respiração. Lu Osvaldo colocou a filha para dormir numa rede armada na varanda. ficou a conversar com o primo até tarde. Falaram da família do pai da quinta onde tinham crescido, de como o Pantanal estava a mudar, as secas mais longas, as cheias mais violentas, perdendo o gado peso porque o pasto não recuperava como antes.

Nivaldo contou que tinha visto onça pintada duas vezes naquele ano, coisa que não acontecia há muito tempo. Osvaldo disse que queria mostrar para a Isadora o capão de mato onde eles brincavam quando meninos. Uma ilha de vegetação alta e densa no meio do campo aberto, a cerca de 2 horas a pé da sede. Nivaldo achou que não era boa ideia.

Disse que o capão tinha mudado, que o mato tinha fechado, que havia risco de cobra e de jaguar. Osvaldo insistiu. Disse que ia só até à borda mostrar para por a menina e voltar. No domingo de manhã, Osvaldo acordou Isadora cedo. Prepararam uma mochila com água e bolachas, uma lata de sardinhas e duas bananas. Osvaldo levou um machete que Nivaldo emprestou e um velho chapéu de palha que encontrou pendurado atrás da porta.

Isadora calçou um par de botas de borracha que ficava demasiado grande, mas era o que havia. Nivaldo ofereceu um cavalo. Osvaldo recusou. Disse que queria ir a pé como fazia quando era menino. Saíram por volta das 7 da manhã. Nivaldo ficou na varanda a ver os dois afastarem-se pelo campo. O pai alto de passo firme este e a menina pequena ao lado, segurando-lhe a mão.

A imagem ficou gravada na memória de Nivaldo como uma fotografia. Quando prestou declarações à polícia, semanas depois, descreveu esta cena com a voz embargada e os olhos postos no chão. Disse que foi a última vez que viu o primo. O Nivaldo esperou o dia inteiro. Ao meio-dia, aqueceu o resto do arroz e comeu sozinho na cozinha.

Às 15h, foi ao curral verificar o gado. Às 5. E quando o sol começou a descer e o céu ficou laranja sobre a linha do campo, olhou para o horizonte e não viu ninguém. Às 7, já às escuras, acendeu o gerador e deixou a luz da varanda ligada à noite toda. Pensou que Osvaldo pudesse ter ido mais longe do que previa e que voltaria pela manhã.

Na segunda-feira não voltaram. Na terça-feira também não. Nivaldo selou um cavalo e foi ter com o capão de mato. Demorou 3 horas a chegar. A vegetação estava fechada. Noou com arbustos espinhosos e lianas que impediam a passagem. Chamou pelo nome do primo. Gritou várias vezes. Não houve resposta. andou pela orla do Capão durante duas horas, sem encontrar qualquer sinal de que alguém tivesse ali entrado.

Voltou a A Tua Fazenda ao anoitecer, sem saber o que fazer. Não tinha telefone. O rádio não funcionava. A cidade mais próxima ficava a 4 horas de cavalo ou a 2 horas e meia de carrinha e ele não tinha caminhonete. Foram mais três dias até que Nivaldo convenceu o peão Joaquim a ir de cavalo até à quinta vizinha, que ficava às 6 horas de viagem, e daí pedir que alguém levasse um recado à polícia de Corumbá.

O recado era simples. O seu primo tinha saído para passear com a filha ao domingo e não tinha voltado. Joaquim partiu na sexta-feira de manhã. Chegou à quinta vizinha no sábado. O recado foi passado adiante por rádio na segunda-feira. A polícia de Corumbá recebeu a informação na terça-feira, mas 24 de setembro.

10 dias tinham passado desde que Osvaldo e Isadora saíram da sede da quinta de Nivaldo. Nesse mesmo período do outro lado da história, Renata dos Santos Barbosa vivia os seus próprios 10 dias de desespero crescente no Campo Grande. Na terça-feira, 17 de Setembro, quando Osvaldo deveria ter devolvido Isadora, Renata esperou até às 8 da noite e começou a ligar.

O telefone de Osvaldo chamava, mas ninguém atendia. às 9 caiu diretamente na caixa de correio e aquela ligou para o irmão de Osvaldo, que disse que não falava com ele desde sábado de manhã. Ligou à mãe de Osvaldo, que vivia em Aquidauana, e também não tinha notícias. Ligou para dois amigos que Osvaldo costumava ver aos fins de semana.

Ninguém sabia de nada. Na quarta-feira, Renata foi ao apartamento de Osvaldo, no bairro Tiradentes. A vizinha disse que não via -lo desde sexta-feira. O carro não estava na garagem. A caixa de correio tinha duas faturas de eletricidade e um panfleto de pizzaria. Tudo fechado, tudo escuro. Renata sentiu o estômago afundar-se de um forma que ela descreveu depois como o corpo entendendo antes da cabeça.

Na manhã de quinta-feira, 19 de setembro de 2019, Renata chegou à primeira esquadra de polícia do Campo Grande com a certidão de nascimento da filha. Uma foto recente de Osvaldo e o comprovativo da guarda partilhada. sentou-se na cadeira de plástico da recepção e esperou 40 minutos até ser chamada.

O escrivão ouviu o relato e anotou os dados num formulário tipo e explicou com a calma burocrática de quem já tinha ouvido aquilo muitas vezes, que no caso de pai com guarda legal era É preciso esperar para caracterizar a situação como desaparecimento e não como incumprimento de acordo judicial. A Renata não percebeu, perguntou como assim.

O escrivão explicou que legalmente Osvaldo tinha direito a estar com a filha, que a guarda era partilhada, uma vez que o facto de não ter devolvido a menina no dia combinado podia ser uma questão de família, não de polícia. disse que ela podia registar uma ocorrência por incumprimento de regime de guarda, mas que a busca ativa dependia de outros critérios.

Renata insistiu. Disse que o Osvaldo tinha ido para o Pantanal, que não tinha sinal de telemóvel, que a menina tinha 9 anos e que ninguém sabia onde estavam. O escrivão anotou tudo, registou o BO, disse que encaminharia a informação. Me pediu-lhe que voltasse se não tivesse noticioso em 72 horas. A Renata saiu da esquadra e sentou-se no meio fio da calçada.

Ficou ali 15 minutos com a pasta de documentos no colo, olhando para o trânsito da Avenida Afonso Pena sem ver nada. Uma senhora que passava perguntou se ela estava bem. A Renata disse que sim. Não estava. Nesse momento, em algum ponto do Pantanal, Osvaldo e Isadora já tinham desaparecido havia cco dias. Ninguém estava à procura.

Estas 72 horas passaram. Renata voltou à esquadra na segunda-feira. O delegado titular recebeu-a desta vez. Era um homem de meia idade, com voz mansa e um jeito cansado, de quem carregava mais casos do que a estrutura permitia. Ouviu o relato completo, fez perguntas sobre o historial do casal, sobre a saúde mental de Osvaldo, sobre se havia conflitos, ameaças, episódios de violência. A Renata respondeu a tudo.

Disse que Osvaldo era um bom pai, que nunca tinha levantado a mão, ó, que não bebia, que não consumia drogas, que era trabalhador e responsável. O delegado assentiu e explicou que ia acionar a Polícia Civil de Corumbá para verificar se havia registo de Osvaldo na região. Perguntou se ela sabia exatamente para que quinta ele tinha ido. A Renata não sabia o nome da quinta.

Sabia que era de um primo. Sabia que encontrava-se na região de Incolândia. Sabia que Osvaldo tinha mencionado lago e campos. Não sabia mais nada. O delegado explicou que a Ncolândia era uma subregião do Pantanal com quase 25.000 km quad, cheio de quintas sem endereço formal, muitas delas acessíveis apenas por estrada de terra batida ou por barco. Disse que faria o possível.

A Renata saiu da esquadra com a mesma pasta de documentos e com uma certeza que não tinha quando entrou. Ninguém ia encontrar a filha dela sentado atrás de uma secretária. O Corpo de Bombeiros de Corumbá iniciaram as buscas no dia 28 de setembro de 2019 e 14 dias depois de Osvaldo e Isadora terem saído do Campo Grande.

O atraso não foi por negligência deliberada, foi por logística. A informação demorou dias para chegar à quinta de Nivaldo. De Nivaldo demorou mais dias a chegar a Corumbá. De Corumbá demorou mais dias a se converter num pedido formal de busca. E o pedido necessitava de autorização, de recursos e de uma equipa que já estava ocupada com outros chamados afogamentos no rio Paraguai, resgates em zonas inundadas, no acidentes em estradas rurais.

O Pantanal não pára de gerar emergências. A diferença é que a maioria delas nunca chega ao noticiário. A equipa era constituída por seis bombeiros, dois barcos de alumínio com motor de popa e um veículo 4×4 emprestado pelo exército. O comando da operação ficou com um tenente de 34 anos que já tinha participado em buscas na região e que sabia mesmo antes de sair da base que as probabilidades eram mínimas.

E a área de busca tinha mais de 200 km quadrados de campo alagável, capões de mato fechado e lagoa sem nome. Muitas delas não registadas em nenhum mapa oficial. Não havia imagens de satélite atualizadas, não existia helicóptero disponível. O orçamento do Corpo de Os Bombeiros do Mato Grosso do Sul não comportava operações aéreas daquela escala.

E o Sinalide, o sistema nacional de localização de desaparecidos, ainda não estava totalmente integrado entre os estados, n que dificultava o cruzamento de informações. Os bombeiros chegaram à quinta de Nivaldo no dia 29. Nivaldo mostrou a direção do capão de mato. Disse que Osvaldo tinha saído naquela direcção apontando para sudeste e que o capão encontrava-se a cerca de 7 km em linha reta.

Os bombeiros foram a pé. Demoraram 4 horas para chegar, cortando campo aberto sob um sol que marcava 41º. O capão era uma formação vegetal densa, com árvores de 10 a 15 m de altura, lhe rodeada por campo raso de todos os lados. Era como uma ilha verde no meio de um mar de erva seca. A vegetação na borda era tão fechada que era necessário usar machete para entrar.

Eles entraram, percorreram o interior do Capão durante duas horas, chamando em voz alta, procurando sinais de passagem, ramos partidos, pegadas, restos de comida, tecido preso em espinhos. Não não encontraram nada. O chão estava coberto por uma camada espessa de folhas secas que não guardava marcas, nem o ar no seu interior do capão era parado e abafado, com um cheiro forte a matéria orgânica em decomposição.

Ouviram barulho de bicho em três momentos, mas não avistaram nada. Nos dias seguintes, a equipa alargou a busca para as áreas circundantes. Percorreram lagoas secas, margens de ribeiros, trilhos de gado. Usaram os barcos para subir troços do rio negro até onde a profundidade permitia. Conversaram com peões de duas quintas vizinhas.

Ninguém tinha visto um homem com uma criança, nem ninguém tinha ouvido gritos, ninguém tinha reparado nada. fora do comum. O Pantanal continuava a funcionar como sempre, indiferente, vasto e silencioso. No 13º dia de buscas, o tenente reuniu o equipa na sede da quinta de Nivaldo e comunicou que a operação seria encerrada no dia seguinte.

Os recursos tinham acabado, a área era demasiado grande, os sinais eram inexistentes. O relatório oficial que seria enviado à esquadra de Corumbá e daí à esquadra do Campo Grande ne concluiria pela impossibilidade operacional de cobrir a totalidade da área indicada e pela ausência de vestígios que permitissem direcionar as buscas.

Era uma forma técnica de dizer o que toda a gente já sabia. O Pantanal tinha engolido duas pessoas e não tinha devolvido nada. 41 dias após o desaparecimento, o relatório final chegou às mãos de Renata. Ela o leu sentada no banco de cimento da delegacia de Corumbá, onde tinha viajado por conta própria de autocarro. É com uma mala pequena e a mesma pasta de documentos.

Eram sete páginas dactilografadas com linguagem técnica, mapas anexos e uma conclusão que ocupava três parágrafos. Renata leu cada linha, as mãos tremiam. O café ao lado arrefeceu sem que ela percebesse. Quando terminou, ficou ali sentada por mais 20 minutos, sem se mexer, sem chorar, sem falar com ninguém.

Um polícia que passava pelo corredor perguntou-lhe se ela precisava de alguma coisa. A Renata disse que não. Naquela noite de do quarto da pensão onde estava hospedada perto da rodoviária de Corumbá, ligou à irmã Cláudia no Campo Grande. A chamada durou 7 minutos. Cláudia ouviu a irmã em silêncio durante a maior parte do tempo.

No final, Renata disse uma frase que Cláudia guardou na memória e repetiu depois em cada entrevista que deu, em cada audiência que acompanhou, em cada conversa com advogados e assistentes sociais. Eu vou buscar a minha filha, nem que tenha que ir a pé. L não foi uma frase dramática no momento em que foi dita. foi dita com a voz baixa, cansada, quase monótona, mas era verdade. E Renata cumpriu.

A a partir desse dia, a vida de Renata dos Santos Barbosa dividiu-se em duas. De um lado, a vida no Campo Grande, o emprego como assistente administrativa numa clínica dentária no centro da cidade, o apartamento arrendado no bairro Monte Castelo, as contas, o autocarro das 6h30 da manhã e a rotina de uma mulher de 35 anos que precisa de continuar a funcionar, porque ninguém vai pagar o renda se ela parar.

Do outro lado, a busca silenciosa, solitária, feita sem apoio institucional, sem dinheiro, sem estrutura, sem garantia de resultado. Entre novembro de 2019 e o início de 2022, Renata realizou 17 viagens à região de Corumbá, algumas de autocarros com passagens que custavam quase 1/3 do salário, outras de boleia com camionistas que faziam o percurso da BR262 e que, e ao ouvirem a história, ofereciam um lugar na cabine sem cobrar nada.

Dormiu em pensões baratas que cheiravam a bolor e a desinfetante. Dormiu em postos de abastecimento de combustível, sentada numa cadeira de plástico com a bolsa no colo. Dormiu no banco de trás de carros emprestados por conhecidos que não sabiam dizer não, a uma mãe que procurava a filha. Levava sempre as mesmas coisas, fotos de Osvaldo e Isadora impressas em papel.

A quatro, uma garrafa de água congelada que derretia antes de chegar a Miranda e um caderno de capa dura onde anotava cada nome, cada quinta, cada conversa com peões, ribeirinhos, pescadores e Os moradores das comunidades espalhadas pelo Pantanal. O caderno foi enchendo devagar. Nas primeiras páginas, a letra era firme e organizada.

Ao longo dos meses foi sendo menor, mais apertada, como se Renata estivesse tentando caber mais informação num espaço que não crescia. Ela ia às quintas e mostrava as fotos. Perguntava se alguém tinha visto um homem com uma menina. Perguntava se alguém tinha ouvido alguma coisa. perguntava se havia locais onde uma pessoa pudesse abrigar-se, esconder-se, perder-se de um jeito que ninguém encontrasse.

A maioria dos peões e agricultores olhava para as fotos, balançava da cabeça e dizia que não. Alguns ofereciam água, café, comida. Outros olhavam com desconfiança, sem compreender o que aquela mulher de cidade estava a fazer sozinha naquele fim do mundo. L uns poucos contavam histórias de gente que se tinha perdido no campo e aparecido semanas depois, de corpos encontrados em lagoas secas, de crianças que tinham sido levadas por ribeirinhos e criadas em comunidades isoladas como se fossem filhas da casa.

A Renata anotava tudo, não descartava nada, não julgava. Cada informação, por mais improvável que parecesse, ia para o caderno. Porque no Pantanal, onde a paisagem muda a cada estação e as referências desaparecem debaixo de água e o improvável não é impossível, é apenas mais difícil de verificar. Em março de 2020, a pandemia encerrou as estradas e as fronteiras dos concelhos.

Renata ficou presa no Campo Grande durante quase se meses sem poder viajar. Nesse período ligava todas as semanas para a esquadra de Corumbá. O inquérito estava aberto, mas parado. Não havia novas diligências, não havia testemunhas, não havia pistas. O delegado que tinha assumido o caso, o terceiro desde o início, disse-lhe com franqueza que sem um facto novo não havia o que investigar.

A Renata perguntou o que seria um facto novo? O delegado disse que podia ser qualquer coisa, um avistamento, uma denúncia, um corpo, um objeto pessoal encontrado por algum peão, qualquer coisa que indicasse uma direção. Até lá, o inquérito ficaria em espera. Renata desligou e ficou sentada na cozinha do apartamento, olhando para o quarto de Isadora pela porta entreaberta.

Estava exatamente como a menina o tinha deixado. A colxa lilás, o peluche, uma coruja-de-olhos-grandes no canto da cama, o par de chinelos cor-de-rosa ao lado da porta, uma mochila escolar pendurada no gancho atrás da porta com os cadernos do terceiro ano ainda dentro. A Renata não tinha mexido em nada, não por decisão consciente, não por superstição, por incapacidade.

Mover qualquer objeto daquele quarto seria admitir que a menina não ia voltar para usá-lo. Em 2021, Renata procurou a Defensoria Pública do Campo Grande e queria saber se havia algum recurso jurídico que obrigasse o Estado a retomar as buscas. A defensora, que a atendeu, uma mulher jovem, de óculos e voz firme, explicou que juridicamente o caso podia ser reaberto se houvesse elementos novos, mas que não existia nenhum mecanismo legal para obrigar o Corpo de Bombeiros ou a Polícia Civil a realizar operações de

busca por tempo indeterminado em áreas sem acesso. disse que podia oficiar o Ministério Público pedindo uma pronúncia sobre o caso. E Renata concordou. O ofício foi enviado em abril de 2021. A resposta do Ministério Público veio em agosto. Dizia que o caso estava a ser acompanhado, que a procuradoria de Corumbá tinha conhecimento do desaparecimento e que na ausência de factos novos não havia fundamento para requisitar nova operação de busca.

A resposta tinha duas páginas e meia. Renata leu-a de pé no balcão da Defensoria e devolveu 100 comentários. As viagens a Corumbá continuaram em 2021 e 2022. Menos frequentes, nó porque o dinheiro estava mais curto e porque a Renata tinha começado a ter problemas de saúde, uma dor crónica nas costas que os médicos atribuíam ao stress acumulado e episódios de insónia que por vezes duravam três ou quatro noites seguidas.

Ela tomava um comprimido para dormir quando já não aguentava mais e acordava às 5 da manhã com o alarme como sempre. A rotina não parava, a procura também não. Em janeiro de 2022, Renata deslocou-se ao fazenda de Nivaldo pela terceira vez. Nivaldo recebeu-a com café e silêncio. Não tinha novidades, não tinha visto nada. O capão de mato continuava lá.

fechado e quieto, como se nada tivesse acontecido. A Renata pediu para ir até lá. Nivaldo tentou dissuadi-la. Disse que era longe, que o sol estava forte, que não era seguro ir sozinha. A Renata disse que ia de qualquer maneira. Nivaldo selou dois cavalos e foi com ela. Cavalgaram durante quase 3 horas. chegaram à orla do Capão no meio da tarde.

Renata ficou ali parada durante 20 minutos, olhando para a vegetação densa, sem dizer uma palavra. Não chamou o nome da filha, não chamou pelo nome de Osvaldo. Ficou em silêncio, como se estivesse esperando que o mato dissesse alguma coisa. O mato não disse. No regresso, já no escuro, o Nivaldo perguntou se ela estava bem. A Renata respondeu que sim.

Disse que precisava de ir embora no dia seguinte porque tinha de trabalhar na segunda-feira. Agradeceu o café e a companhia. Lenivaldo ficou na varanda a ver a pó da carrinha emprestada desaparecer na estrada. Disse depois a um vizinho que nunca tinha visto uma pessoa tão cansada na vida. Em meados de 2022, algo mudou na Renata.

Não foi um evento específico, foi uma acumulação. Tr anos sem resposta, tr anos de viagens, de perguntas sem resposta, de noites acordada, a olhar para o telemóvel esperando uma chamada que não vinha. O corpo estava a cobrar, a mente estava cobrando. Cláudia, a irmã, que se apercebeu que a Renata tinha começado a falar da filha no passado, sem se aperceber, sem querer, como um deslize da língua que revelava algo que a consciência ainda não tinha autorizado.

A Renata não parou de procurar, mas as viagens tornaram-se mais espaçadas, uma a cada dois ou três meses em vez de uma por mês. O caderno de notas deixou de crescer. As últimas páginas escritas eram de março de 2022, com letra tão pequena que era difícil ler sem lupa. Mas Renata guardou o caderno na gaveta da cómoda do quarto de Isadora, junto com a mochila escolar e os cadernos do terceiro ano.

A vida continuou como continua sempre, mesmo quando parece impossível que continue. A Renata ia trabalhar, regressava a casa, aquecia uma marmita, assistia ao jornal das 8 sem prestar atenção, e deitava-se na cama, olhando para o teto, até ao sono vir, ou até o comprimido fazer efeito. aos fins de semana, às vezes ia à igreja com a irmã, por vezes ficava em casa o dia inteiro, mas por vezes abria a porta do quarto da Isadora e ficava parada ali durante 5, 10, 15 minutos, respirando o ar parado de uma divisão que ninguém o usava há 3 anos. Era uma vida

suspensa, uma vida que funcionava por fora e que por dentro estava parada no no dia 14 de setembro de 2019, aguardando uma carrinha branca dobrar a esquina da rua Joaquim Murtinho. No dia 22 de novembro de 2023, por volta das das 17h30, o capataz da fazenda São Joaquim avistou uma pequena figura paragem na porteira da propriedade.

A A quinta de São Joaquim ficava a 83 km a norte da quinta de Nivaldo, numa zona de campo limpo, cortada por ribeiros rasos e rodeada por morros baixos cobertos de cerrado. Era uma propriedade grande de criação de gado e plantação de soja nas partes mais altas, com sede de alvenaria, um barracão de máquinas e uma estrada interna de 6 km que ligava a sede à porteira principal.

O capatá se chamava-se António Pereira de Souza. Tinha 47 anos e trabalhava na quinta havia 12.º regressava de uma vistoria nos coxos de sal quando viu a menina. Pensou que fosse uma criança de alguma quinta vizinha, daquelas que andam a cavalo desde os 6 anos e aparecem sem avisar para pedir açúcar, querosene ou medicamentos para gado. Não era incomum.

No Pantanal, o vizinho pode estar a 40 km de distância, mas mesmo assim aparece de vez em quando. Não chegou perto, viu que a menina estava descalça. Usava um vestido encardido que já não tinha cor definida. Podia ter sido azul claro ou branco, era impossível dizer. O cabelo escuro estava à altura da cintura, emaranhado e cheio de nós.

A pele estava queimada pelo sol, com manchas descascadas nos ombros e nos braços. Os pés estavam inchados, com cortes cicatrizados e calos grossos nas plantas. Os olhos estavam fixos nele sem pestanejar e com uma expressão que António descreveu depois como de quem está a olhar para dentro, e não para fora. António parou a carrinha e desceu devagar.

Perguntou de onde ela tinha vindo. A menina não respondeu. Perguntou como é que ela se chamava. silêncio. Perguntou se ela estava com fome. A menina olhou para ele e disse uma única frase com uma voz rouca e baixa, como se não estivesse habituada a falar. O pai ainda lá está? O António não entendeu. Perguntou de novo.

A menina repetiu e com as mesmas palavras no mesmo tom, o pai ainda está lá. Levou-a para a sede da fazenda. A esposa, dona Marta, aqueceu um prato de arroz com carne picada e deu um copo de leite. A menina comeu devagar, sem olhar para ninguém, usando as mãos. Dona A Marta tentou conversar, perguntou o nome dela, a menina disse Isadora e depois ficou de novo em silêncio.

Perguntou onde estava o pai. Isadora repetiu: “Ele ainda está lá.” Perguntou onde era lá. Isadora apontou vagamente para sul e para a imensidão de campo que se estendia para além da porteira e não disse mais nada. António ligou para a polícia de Corumbá utilizando o telefone por satélite da quinta, um aparelho que o proprietário tinha instalado em 2022 e que era o único meio de comunicação fiável daquela região.

A chamada foi atendida por um soldado de serviço que anotou a ocorrência e disse que uma viatura seria enviada. A viatura chegou às 2as da madrugada, dois polícias civis e uma policial militar. Elas encontraram Isadora a dormir num colchão que a dona A Marta tinha colocado no chão da sala, coberta com um lençol fino, com os pés sujos de terra e o rosto tranquilo de uma criança exausta.

Isadora foi levada para o hospital regional de Corumbá na madrugada do dia 23 de novembro. A viagem durou quase 3 horas por estrada de terra batida e depois pela BR262. A menina dormiu durante todo o percurso. Quando chegou ao hospital, foi recebida por uma equipa de serviço que incluía um clínico geral deu uma enfermeira e uma assistente social que tinha sido chamada em caráter de urgência.

O exame médico durou 4 horas. Isadora estava desidratada, com sinais de desnutrição moderada, que indicavam alimentação insuficiente por período prolongado, mas não desnutrição grave. Tinha feridas cicatrizadas nos pés e nas pernas, consistente com caminhadas longas em terreno irregular, sem calçado adequado.

Uma queimadura solar antiga no ombro esquerdo tinha descascado várias vezes, deixando ainda a pele fina e sensível. Não havia sinais de violência sexual, não havia fraturas recentes. Os dentes encontravam-se em mau estado, com várias cares não tratadas. Fisicamente era uma menina de 13 anos com o corpo de uma criança de 10, baixa para a idade, magra, com os músculos das pernas desenvolvidos, de uma forma que os médicos associaram a caminhadas constantes.

A assistente social do hospital tentou falar com ela três vezes nessa manhã, na primeira, mas a Dora ficou em silêncio absoluto, olhando para a parede do quarto. Na segunda, repetiu a frase sobre o pai. Na terceira, disse algumas palavras soltas que a assistente social anotou num relatório. Rio, árvore grande, barranco vermelho, muito calor, bicho. Pai ficou.

A assistente social era uma mulher de 40 anos chamada Luciana, que trabalhava no hospital regional há 8 anos e já tinha atendido casos de crianças encontradas em situação de abandono, de negligência, de fuga, mas nunca tinha visto nada parecido com aquilo. Uma menina que tinha desaparecido havia mais de 4 anos, dada como desaparecida junto com o pai, reaparecendo sozinha a 80 km do ponto onde foi vista pela última vez, sem conseguir explicar de forma coerente que tinha acontecido.

A Luciana reparou em algumas coisas naquele primeiro contacto. A Isadora não parecia ter medo, não chorava, não pedia pela mãe, não demonstrava alívio por ter sido encontrada. Parecia, antes de mais, e confusa, como se o mundo em redor fosse estranho demasiado, demasiado barulhento, luminoso demais.

Cobria os olhos quando as luzes do corredor estavam acesas. Sobressaltava-se com barulhos comuns, uma porta a fechar, o som de uma televisão no quarto ao lado, o bip de um aparelho médico. Quando alguém se aproximava-se rapidamente, encolhia os ombros como se esperasse um impacto que não vinha. Nas horas seguintes, a esquadra de Corumbá cruzou os dados da menina com o banco dos desaparecidos e o nome apareceu em menos de 10 minutos.

Isadora dos Santos Teixeira, 9 anos à data do desaparecimento, filha de Osvaldo Mendes Teixeira e Renata dos Santos Barbosa, desaparecida a 14 de setembro de 2019 na região de Ncolândia, juntamente com o pai. O caso tinha três delegados diferentes listados no histórico. O inquérito estava em espera. A última movimentação era de agosto de 2021.

A resposta do Ministério Público ao ofício da Defensoria. A delegada de Plantão, numa mulher de nome Patrícia Almeida, leu todo o dossier antes de efetuar qualquer ligação. Queria entender o que estava diante dela. Uma menina desaparecida há 4 anos e 2 meses, reaparecida sozinha, sem o pai, sem conseguir contar o que tinha acontecido, repetindo uma única frase que podia significar qualquer coisa.

O pai ainda está lá. Onde era lá? O que significava estar? E por a menina tinha aparecido agora passado tanto tempo e caminhando sozinha por um campo onde qualquer adulto se perderia em questão de horas. A Patrícia ligou à Renata às 11:40 da noite de um sábado. A Renata estava no apartamento no Campo Grande. Tinha chegado do trabalho às 6:30, esquentado uma marmita de frango com legumes, assistido a metade de um programa na televisão e foi para a cama por volta das das 9:30.

Não dormia ainda. Estava deitada no escuro com o telemóvel no criado-mudo e o volume no máximo. Como fazia todas as noites desde setembro de 2019. O telemóvel tocou. A Renata olhou para o número. Era um DDD 67 Mato Grosso do Sul. Atendeu antes do segundo toque. A voz do outro lado era calma e profissional.

A delegada se identificou. deu o número do distrito e disse com clareza: “Senhora Renata, a sua filha foi encontrada. Ela está viva, está no hospital.” A Renata não respondeu, ficou em silêncio durante 6 segundos. A Patrícia contou depois, porque achou que a chamada tinha caído. Então, Renata perguntou com uma voz que não parecia a dela: “E o Osvaldo”.

A delegada disse que a menina estava sozinha, que o paradeiro do pai era desconhecido e que uma equipa estava a avaliar a situação. A Renata perguntou em que hospital. A delegada deu a morada. Renata disse que ia sair agora. A Cláudia recebeu a chamada da Renata às 11:53. ouviu a irmã dizer, entre frases cortadas e soluços secos, que Isadora estava viva, que estava num hospital em Corumbá e que ela precisava de ir agora.

A Cláudia disse que ia conduzir, pegou nas chaves do carro, vestiu um casaco por cima do pijama e foi buscar a irmã. Às 12h20 da madrugada, as duas encontravam-se na BR262, rumo a Corumbá. A viagem durou 5 horas 40 minutos. A Renata não dormiu um segundo. Ficou sentada no banco do passageiro, com as mãos cruzadas no colo, olhando a estrada iluminada pelos faróis, sem dizer quase nada.

De vez em quando murmurava o nome da filha, como se estivesse a testar se ainda sabia pronunciá-lo. Chegaram ao hospital regional de Corumbá às 6:10 da manhã de domingo. Renata saiu do carro antes de Cláudia estacionar completamente. Entrou pela porta da urgência com o identidade na mão e pediu para ver o filha.

Uma enfermeira levou-a até ao segundo andar. O quarto era pequeno, com uma janela que dava para o estacionamento, uma cama hospitalar e uma cadeira de plástico no canto. Isadora estava deitada, acordada, a olhar para o teto, e A Renata parou à porta. Ficou ali por talvez 10 segundos, talvez 30. Ela não soube dizer depois.

Olhou para a menina na cama e tentou encontrar nela a menina de 9 anos que tinha visto pela última vez na esquina da rua Joaquim Murtinho. O rosto era o mesmo, mais diferente, mais magro, mais anguloso, com a linha do queixo mais definida. Os olhos eram os mesmos, escuros, grandes, com um forma de olhar que Renata reconhecia como sendo dela própria.

Mas havia algo naqueles olhos que não estava lá antes. Algo quieto, distante, como uma porta que está aberta, mas que não convida a entrar. A Renata aproximou-se da cama. Isadora virou a cabeça lentamente e olhou para a mãe. Não sorriu, não chorou, não estendeu os braços, ficou a olhar como se estivesse a verificar se aquela pessoa era real.

A Renata sentou-se na borda da cama e tocou na mão da filha. A mão era pequena, seca, com a pele áspera na palma. Isadora não retirou a mão, não apertou de volta. Na risadora olhou para ela e disse, com a mesma voz rouca e baixa que tinha usado com o capataz, com a enfermeira, com a assistente social, com cada pessoa que se tinha aproximado desde a porteira da quinta de São Joaquim.

Mãe, o pai ainda está lá. A Renata segurou a mão da filha com as duas mãos e baixou a cabeça até encostar a testa aos dedos de Isadora. E ficou assim durante um tempo que ninguém mediu. Cláudia, que tinha chegado à porta do quarto, ficou encostada ao batente sem entrar. A enfermeira que tinha acompanhado Renata até ali, deu dois passos para trás e saiu sem fazer barulho.

Ninguém naquele corredor falou nada durante um longo tempo. As semanas seguintes, a equipa médica e a equipa de assistência social tentaram reconstruir a partir de Isadora, e alguma versão do que tinha acontecido durante os 4 anos e dois meses em que ela e o pai estiveram desaparecidos. O processo foi lento, fragmentado e cheio de lacunas.

Isadora não contava uma narrativa contínua. Soltava pedaços, uma imagem aqui, uma sensação ali, um som, um cheiro, palavra que os profissionais tentavam encaixar como peças de um puzzle que talvez nunca tivesse uma imagem completa. O que se conseguiu reunir com cautela e foi o seguinte. Osvaldo e Isadora tinham saído da quinta do Nivaldo no domingo de manhã e caminhado em direção ao capão de mato.

A dada altura, Isadora não sabia dizer quando nem como. Eles desviaram-se do caminho. Osvaldo disse que conhecia um atalho. Caminharam durante muito tempo. O sol estava forte. A Isadora ficou com sede. O pai deu a água. Continuaram andando. O capão não apareceu. Ou apareceu outro capão diferente do que Osvaldo esperava encontrar.

Entraram no mato. O mato era fechado. Osvaldo usou o machete para abrir caminho. Em algum momento pararam. A partir desse ponto, o relato de Isadora tornava-se nebuloso. Ela falava em acampamento, falava em fogo, falava no pai a fazer coisas com as mãos, o que podia significar que ele construiu um abrigo, que montou armadilhas, que tentou sinalizar.

Falava em chuva, falava em bicho de noite, falava no pai dizendo para ela ficar quieta, falava em comida, fruta, peixe, alguma coisa que apanhavam na água. Falava em andar muito, falava em parar, falava em voltar a andar. A psicóloga que acompanhou Isadora nas primeiras semanas observou que a menina não parecia ter sofrido um trauma único e catastrófico.

Parecia antes ter sido submetida a uma situação prolongada de isolamento e privação que tinha alterado profundamente a sua relação com o mundo exterior. O vocabulário dela era limitado, consistente, com uma criança que passou anos sem contacto com outras pessoas para além do pai. É, a noção de tempo era difusa.

Não sabia os meses, não sabia os anos, não sabia quanto tempo tinha passado. Quando perguntavam quanto tempo ela e o pai tinham ficado no mato, respondia muito tempo, sem conseguir precisar. Sobre a separação do pai, a Isadora pouco disse. Disse que ele ficou, disse que a mandou ir, disse que apontou uma direção e lhe disse caminhar até encontrar alguém.

Quando perguntaram porque é que o pai não foi com ela, se Isadora ficou em silêncio durante quase um minuto inteiro e depois disse com a voz ainda mais baixa. Ele não conseguia. Esta frase gerou mais perguntas do que respostas. Não conseguia. Por quê? Estava ferido, estava doente, estava preso de alguma forma, tinha decidido ficar.

A Isadora não soube ou não quis explicar. Repetia apenas que não conseguia e que tinha dito para ela ir. E a delegada Patrícia tentou extrair informação mais concretas em duas sessões de audição, acompanhadas por uma psicóloga e por representante do Ministério Público. Isadora descreveu o local onde o pai tinha ficado, usando termos simples: um rio largo com água escura, um barranco de terra vermelha na margem, uma árvore muito grande com raízes que saíam da terra, uma lagoa perto que secava quando não chovia, não sabia nomes, não sabia

distâncias, não sabia em que direção tinha caminhado para chegar à quinta de São Joaquim. disse que andou muitos dias, que dormiu no chão, que bebeu água de um ribeiro, que comeu fruto de árvore que o pai tinha ensinado ela a reconhecer. A polícia tentou cruzar estas descrições com a geografia da região.

Um rio largo com água escura podia ser um troço do rio Negro ou do rio Aquidauana ou de qualquer um dos dezenas de cursos de água que cortam o Pantanal naquela subregião. Um barranco de terra vermelha podia estar em centenas de pontos diferentes. Uma árvore de grande porte com raízes expostas podia ser qualquer figueira centenária das muitas que existem nos capões da Necolândia.

Não era suficiente para direcionar uma pesquisa, mas era o que tinha. As pesquisas por Osvaldo Mendes Teixeira foram retomadas em dezembro de 2023, desta vez com recursos mais amplos do que em 2019. E a repercussão do caso, uma menina desaparecida há mais de 4 anos, que reaparece isoladamente no Pantanal, dizendo que o pai ainda lá está, atraiu a atenção da imprensa estatal e, em seguida, da imprensa nacional.

Matérias foram publicadas em portais de notícias. Um repórter do Campo Grande fez uma série de três reportagens. Um canal de televisão de São Paulo mandou uma equipa a Corumbá. O caso chegou ao Ministério Público, n pediu explicações ao governo do Estado sobre a operação de 2019 e sobre o acompanhamento do inquérito.

A nova operação de busca foi coordenada pelo Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul, com o apoio da Polícia Militar Ambiental e de uma equipa de guias pantaneiros contratados pela Secretaria de Segurança. Usaram drone com câmara térmica, cães farejadores treinados para localização de restos humanos e dois barcos equipados com sonar de profundidade para verificar troços de rio. O Saikip contava com 12 pessoas.

A área de busca foi definida com base nas descrições de Isadora e numa estimativa de distância que a menina poderia ter percorrido a pé em vários dias de passeio, considerando o terreno, o clima e a condição física da mesma. O raio de busca foi estabelecido em aproximadamente 50 km a sul da exploração São Joaquim, cobrindo uma faixa de território que incluía campos abertos, capões de mato, de troços do rio negro e várias lagoas salobras da Ancolândia, os guias pantaneiros, homens que tinham nascido e crescido naquela região e que

conheciam cada curva de rio, cada capão, cada lagoa. num raio de 100 km, conduziram a equipa por caminhos que não existiam em nenhum mapa. A operação durou 18 dias. Percorreram a área sistematicamente, quadrante a quadrante. Verificaram barrancos de terra vermelha em seis diferentes pontos ao longo do rio Negro.

Nor examinaram figueiras centenárias em três capões de mato. Os cães farejadores marcaram dois pontos de interesse, um numa clareira no interior de um capão a 30 km da quinta de São Joaquim, e outro numa margem do rio, onde o barranco era de fato vermelho e onde havia sinais de queimada antiga no solo.

Em nenhum dos dois pontos foram encontrados restos humanos, roupas, ferramentas, objetos pessoais ou qualquer vestígio material de que um homem adulto tivesse vivido ou morrido naquela zona. E os bombeiros encontraram restos de fogueira em três locais diferentes, mas a análise indicou que eram consistentes com os acampamentos de pescadores ou de peões de exploração comuns na região.

Encontraram uma garrafa de plástico amassada num capão de mato, sem rótulo, sem condições de identificação. Encontraram marcas de catanas em troncos de árvores num troço de floresta que podia ter sido aberto por qualquer pessoa. Peão, ribeirinho, caçador, palmiteiro. Nada que pudesse ser ligado com certeza a Osvaldo.

E ao 18º dia, o comandante da operação reuniu a equipa e encerrou as buscas. O relatório, desta vez com 15 páginas e mapas detalhados gerados por drone concluiu que não foram localizados vestígios compatíveis com a presença prolongada de pessoa desaparecida na área investigada. recomendou que o caso se mantivesse aberto e que novas buscas fossem realizadas após a época das cheias, quando o nível das águas baixasse e eventualmente revelasse elementos abrangidos pela inundação.

Renata acompanhou cada dia da operação desde Corumbá, onde ficou hospedada numa pousada simples perto da estação rodoviária. Recebia informações diárias da delegada Patrícia. Cada noite antes de dormir ligava para Isadora, que estava no Campo Grande com a tia Cláudia, em processo de readaptação, acompanhada pelo Conselho Tutelar e por uma equipa de psicólogos do Centro de Referência Especializado de Assistência Social.

Quando a busca foi encerrado, a Renata recebeu a notícia sentada na mesma pousada e a mesma mesa onde tomava café todas as manhãs. Não chorou, não gritou, não protestou. agradeceu a delegada, guardou o telemóvel no bolso e ficou a olhar pela janela, o movimento lento de uma cidade fronteiriça numa tarde de dezembro, com o calor de 40º, fazendo tremer o asfalto.

No autocarro de regressa ao Campo Grande, sentada na janela com a testa encostada ao vidro, A Renata pensou no Osvaldo. Pensou nele como o homem que era, não como o nome num auto de notícia. Não como o desaparecido, não como o pai que não voltou. Pensou nele como o rapaz que tinha conhecido numa festa de São João, no bairro da Nova Lima, que dançava forró, desajeitado e que ria alto quando estava feliz.

Pensou nele como o eletricista que acordava às 5 da manhã e regressava às 6 da tarde com as mãos manchadas de gracha e o uniforme suado. Pensou nele como o pai que levava Isadora ao parque no domingo e que comprava picolé de coco no regresso. Sempre picolé de coco. E porque era o sabor que a menina pedia desde que aprendera a falar.

pensou nele parado algures no Pantanal, num barranco de terra vermelha, perto de uma árvore grande, junto a um rio que ninguém conseguiu encontrar, e tentou imaginar o que ele estaria a pensar, se estaria vivo, se estaria à espera, se estaria a olhar para o mesmo céu que ela olhava pela janela do autocarro.

se sabia que a filha tinha chegado, se sabia que alguém procurava, se sabia que não tinham desistido. E o autocarro chegou ao Campo Grande às 9:30 da noite. Cláudia estava à espera na rodoviária com Isadora. A menina estava de pé, ao lado da tia, com um vestido limpo que a Cláudia tinha comprado, chinelos novos e o cabelo apanhado num rabo de cavalo.

Quando viu a mãe a descer do autocarro, não correu, não gritou, andou devagar até ela e parou a meio metro de distância, como se estivesse a medir a cena, verificando se aquele momento era real. Renata baixou-se até ficar na altura dos olhos da filha. As duas olharam-se por um tempo que ninguém à volta contou. Depois, Isadora deu um passo em frente e encostou a testa no ombro da mãe. Não disse nada.

Renata assegurou-o com os dois braços e ficou ali no meio do átrio da estação rodoviária de Campo Grande, com o barulho dos autocarros a chegar e a sair, com os altifalantes anunciando horários e destinos, com o mundo continuando a girar em torno de duas pessoas que tinham parado. Hoje, o sulcaso de Osvaldo Mendes Teixeira continua oficialmente aberto na esquadra de Corumbá.

O inquérito tem quatro volumes, três delegados no histórico, dois relatórios de pesquisa e nenhuma conclusão. Osvaldo nunca foi encontrado. Não existe certidão de óbito, não há corpo, não há indícios de crime, não há evidência de acidente. Não há evidência de nada mais do que uma menina que voltou e de uma frase que permanece suspensa no ar, sem confirmação e sem desmentido.

Isadora vive no Campo Grande com a mãe. Não frequenta a escola num programa de reintegração escolar para crianças em defazagem de idade. Tem acompanhamento psicológico semanal. Não fala dos anos no Pantanal, a menos que alguém pergunte diretamente e mesmo quando perguntam, responde pouco. As palavras que utiliza são simples e repetidas, como se tivesse construído um vocabulário mínimo para descrever algo que não cabe em palavras.

A Renata voltou ao trabalho na clínica dentária. Acorda às 5, apanha o autocarro das 6:30 e regressa às 6 da tarde. Cozinha para a filha. Ajuda com a lição. Assiste ao jornal. Vai dormir. A rotina é a mesma de antes, quase a mesma. Agora o quarto de Isadora tem a porta aberta. A colouxa lilás foi trocada por uma nova.

O bicho de peluche está no mesmo local e os chinelos junto à porta são de outro tamanho. O caderno de apontamentos continua na gaveta da cómoda fechado. Quando alguém pergunta à Renata se ela acredita que Osvaldo está vivo e se ela fica em silêncio durante alguns segundos e depois diz que não sabe. Diz que a filha diz que sim.

Diz que o Pantanal não devolveu nada que prove o contrário. Diz que enquanto não houver uma resposta, não vai fechar essa porta. Passaram os anos e a família que Osvaldo Mendes Teixeira deixou para trás continua a viver na mesma cidade, na mesma rua, sob o mesmo céu do Campo Grande que fica laranja no fim da tarde e que depressa escurece quando chega a noite.

A Isadora está crescendo, Mirenata está a envelhecer. O Pantanal continua lá, imenso, indiferente, guardando o que guarda sem pressa de devolver. Algures nesta vastidão, perto de um largo rio de água escura, junto a um barranco de terra vermelha, debaixo de uma árvore de grande porte cujas raízes saem da terra, pode haver algo que explique o que aconteceu ou pode não haver nada.

Pode ser que a terra, a água e o tempo já tenham feito o que fazem com tudo o que fica exposto durante demasiado tempo. E pode ser que não reste nada para encontrar, mas Isadora disse que ele ainda está lá. E até que alguém prove o contrário, esta frase continua de pé, sozinha, quieta, sem explicação, como uma porteira aberta no meio de um campo que não tem fim.

Quando fechamos a porta de casa à noite e sabemos onde está cada pessoa que amamos, é fácil esquecermo-nos do que significa não saber, o que significa esperar sem prazo, o que significa um telefone que toca e que pode ser a ligação ou pode ser engano. O que significa olhar para uma cadeira vazia na mesa do jantar e não saber se ela vai continuar vazia para sempre ou se um dia alguém se vai sentar ali outra vez? A história de Osvaldo e Isadora não termina com uma explicação, termina com perguntas que continuam abertas, com uma menina que aprendeu a

viver sem o pai, mas que ainda aponta para sul pergunta-lhe onde está. E com uma mãe que transporta em silêncio o peso de duas buscas, a que terminou quando a filha voltou e a que nunca vai terminar enquanto não souber o que aconteceu com o homem que entrou no Pantanal numa manhã de Setembro e não saiu.

Esta história acontece com mais frequência do que os noticiários mostram. Não sempre no Pantanal, não sempre com um pai e uma filha, mas sempre com alguém que sai de casa pensando que volta e com alguém que fica esperando sem saber por quanto tempo. E o Brasil continua a ser, em muitos dos os seus cantos um lugar onde desaparecer é mais fácil do que ser encontrado.