“Quando Eu Crescer Vou Casar Com Você” Fazendeiro RIU Quando MENINA ESCRAVA AFIRMOU – até…
O cheiro a bosta de cavalo no pátio estava mais forte que o normal naquela tarde de agosto. Angélica segurava tenório, gato rajado, velho, coxo da pata traseira, com cicatriz a atravessar o olho esquerdo e olhava para a casa grande que não via há 13 anos. mesma imponente construção, mesma varanda onde tudo começara, mas agora ela não era mais criança escrava de 10 anos, era mulher livre de 23, com papel de alforria dobrado no bolso do vestido e 13 anos de trabalho árduo nas costas.
Pés doíam, viagem de três dias em diligência desconfortável, depois mais 5 horas a caminhar porque coxeiro não ia até quinta tão afastada. Poeira vermelha colava-se à pele suada, misturada com aquele cheiro a estrume que trazia memórias. Ela limpara esse pátio centenas de vezes quando criança, os pés descalços, pisando merda de cavalo enquanto carregava um pesado balde de água.
“Vamos depressa, Tenório”, murmurou para o gato. “Estás a pesar! Gato era velho, 13 anos, a mesma idade da promessa. Pulara escondido naquela carroça quando o venderam, ninguém viu. Passou fome com ela. Dividiu o rato que caçava quando comida faltava. Agora estava cansado, doente, talvez, mas tinha de ver.
Tinha que estar ali quando ela cumprisse palavra empenhada, subiu degraus da varanda. A madeira rangia, som que conhecia de memória. Bateu à porta. Hum. Será que ainda morava ali? 13 anos era tempo comprido. Podia ter casado, mudado, falecido até. Porta abriu, mulher negra com cerca de 50 anos, avental limpo, olhos desconfiados.
Pois não. Angélica reconheceu. Eenciana, a parteira, mais velha, cabelo todo branco agora, mas mesma. Vim falar com o senhor Clodovil. Ele não está a receber visita. Pode deixar recado que ele vai querer receber-me. Angélica afirmou voz. O meu nome é Angélica. Diz-lhe que é a menina da promessa. Emerenciana franziu a testa confusa, mas algo nos olhos de Angélica, determinação que assustava um pouco, fê-la acenar com cabeça. Espera aqui.
Ficou na varanda segurando o gato que ronronava baixinho. Dali via currais novos que não existiam antes. Plantação de café mais extensa, casa bem cuidada, mas vazia. Sem barulho de criança, sem riso de mulher, sem vida, passos pesados dentro da casa, homem a descer escadas, porta abriu de novo. Clodovil parou no batente.
13 anos tinham-no mudado também. Cabelo com fios brancos nas têmporas, rosto mais magro, marcado, barba por fazer. três, quatro dias sem fazer a barba, roupa boa, mas amarrotada, como quem já não ligava paraa aparência, olhos cansados, olhos de homem que sofreu, mas era ele. Olhou para ela sem reconhecer, viu mulher negra, livre pela roupa, vestido simples, mas inteiro, sapatos nos pés, segurando o gato velho.
A senhora deseja o meu nome é Angélica. Pausa. Deixou o nome assentar. Vim cumprir uma promessa que fiz para o senhor quando tinha 10 anos. Viu confusão no seu rosto, tentando lembrar. Depois reconhecimento batendo devagar, como onda que demora, mas chega. A menina voz saiu rouca. A menina que disse que ia crescer, ficar livre e voltar para casar com o senhor, completou frase que não conseguia.

Sim, sou eu. Clodovil ficou a olhar como se visse fantasma. Abriu boca, fechou, abriu de novo. Você 13 anos. 13 anos, 2 meses e 17 dias. Angélica colocou o Tenório no chão. Gato velho, coxo, foi diretamente nas pernas de Clodovil. Esfregou o corpo magro. O Tenório também veio. Ele lembrou-se do senhor.
Clodovil olhou para o gato. Reconhecimento de novo. Aquele bichinho que seguia menina escrava por cada canto que roubava peixe da cozinha que dormia enroscado nos pés dela. Tenório. Agachou-se, tocou no gato com mão trémula. Meu Deus, ele ainda está vivo. Ele veio escondido na carroça quando mo venderam. Ninguém o viu saltar lá para dentro.
Passou fome comigo, partilhou o rato comigo, dormiu ao frio comigo. Voz de Angélica saiu firme, mas carregada. Ele foi família quando não não tinha ninguém e agora está velho, doente, mas quis vir, quis ver o senhor. Clodovil levantou-se lentamente, olhou para ela de verdade agora. Viu mulher, não criança, viu determinação, não fantasia infantil.
Você, comprou mesmo alforria? Angélica tirou o papel do bolso, desdobrou com cuidado. Papel estava gasto de tanto ser dobrado e desdobrado, mas letra ainda legível. Carta de alforria. Assinada, carimbada, legal. Trabalhei 11 anos, juntando cada vintém. Lavei roupa, costurei, cozinhei, limpei pocilga, carpi roça sob sol que rachava pedra, poupei cada moeda.
Não gastei em nada, nem roupa, nem comida melhor, nada. Tudo foi para o pote enterrado debaixo da jaqueira. Guardou o papel de volta. Comprei a minha harforia em 1860. Trabalhei mais dois anos como costureira livre para juntar dinheiro da viagem. E aqui tô. Silêncio pesado caiu entre eles.
Clodovil olhava como se não acreditasse no que via, no que ouvia. Por quê? Pergunta saiu quase sussurrada. Por que razão faria isso? 13 anos a trabalhar com um objetivo absurdo. Podia ter casado, constituído família, vivido vida normal, porque dei a minha palavra, tão simples quanto isso. E palavra dada num se quebra.
Aprendi isso com a minha mãe antes dela morrer. A sua mãe morreu 5 anos atrás. Febre, não houve médico, não houve medicamento, não houve nada. Morreu na cenzala, a cheirar a merda e a suor. Voz não tremeu. Era um facto. Mas antes de morrer, ela disse: “Angélica, és teimosa que nem mula, mas tem palavra. Num desiste do que prometeu, por isso não desisti.
Clodovil passou mão pelo rosto, gesto de homem cansado, tentando processar impossível. Angélica, você compreende que eu me ri quando fizeste aquela promessa. Achei absurdo. Criança escrava dizendo que ia casar com um filho de coronel. Era Parou procurando palavra. Impossível, acrescentou ela. Eu sei. Todo mundo achou impossível. O senhor achou.
O seu pai achou tanto que me vendeu no dia seguinte por insolência. A minha mãe achou. Outros escravo acharam. Quando Fiquei livre e disse que ia votar, pensaram que eu era louca. Mas impossível é só palavra. Num é realidade. que você quer entender como menina escrava de 10 anos que fez uma promessa absurda, conseguiu para se tornar mulher livre, determinada a cumprir palavra, mesmo quando o mundo inteiro dizia que era uma loucura? Como o gato velho chamado Tenório tornou-se ponte entre dois mundos que não deviam
se misturar, e principalmente como o homem que se ria de criança, teve que engolir riso quando ela voltou, provando que impossível era apenas palavra. Fica comigo até ao fim, porque tem revir a volta que ninguém esperava. Nem eu quando ouvi esta história do bisneto da Angélica sentado na varanda daquela mesma quinta, agora pertencente a descendentes dela.
Mas para compreender como chegámos aqui a esta varanda, com esta conversa impossível a acontecer, precisa de recuar 13 anos para o dia em que tudo começou. A quinta do Santo, Expedito das Três Cruzes, acordava todos os dias às 4h15 da madrugada, com um toque de sino, que o Casimiro, feitor filho da puta, perdão a palavra, mas não há outra que servir, batia com força desnecessária, só para assustar.
87 escravos arrastando-se para fora das cenzalas, corpo dorido de trabalho do dia anterior, barriga ressonar de fome, porque jantar era só angurralo e farinha. Angélica tinha 10 anos, mas já trabalhava como um adulto. Desde os seis que fora colocada na casa grande. Menina esperta, aprendia depressa, sabia ler um pouco porque ficava a olhar quando a sinhazinha Genoveva estudava com professor e depois repetia sozinha, escondida, desenhando letra na terra com graveto.
O trabalho dela era carregar água, lavar o chão, ajudar na cozinha, servir à mesa quando tinha visita. Acordava antes do toque, dormia depois de todo mundo. Mãos eram demasiado calejadas para criança de 10 anos. Costas doíam, mas queixa não existia. Reclamar era apanhar. Tenório tinha aparecido seis meses antes.
Gato rajado, ainda filhote, magro que nem uma vara. pulga a comê-lo vivo. Apareceu a miar à porta da cenzala uma noite. Angélica deu resto de angu que tinha guardado, tirado da própria boca, que já era pouco. Bicho comeu desesperado, voltou no dia seguinte e no outro e no outro. Virou o companheiro dela, o único ser vivo que demonstrava carinho.
Esfregava nela, ronronava, dormia enroscado nos pés. Fortunata, mãe de Angélica, dizia que gato dava azar, mas a Angélica não ligava. Tenório era dela, o primeiro amigo que teve, coronel Pascoal Hermenegildo de Vasconcelos, dono de tudo e de todos ali. Era um homem que bebia demais e batia mais ainda.
62 anos, barriga grande de quem comia bem, mão pesada de quem nunca sentiu chicote nas próprias costas. Tinha um filho único, Clodovil, homem de 27 anos, culto que tinha estudado no Rio, que lia um livro em francês, que não batia num escravo sem motivo, mas também não impedia pai de bater. Clodovil era diferente, não bom.
Nenhum senhor era bom. Ser dono de pessoas já fazia impossível ser bom, mas era menos pior. Falava com os escravos sem gritar. Agradecia quando alguém servia comida. Uma vez até ajudou a emerenciana quando ela caiu carregando bacia pesada, estendeu mão, levantou-a, gesto pequeno, mas que ninguém esperava. Angélica não tinha medo dele, como tinha dos outros.
Não sabe porquê, talvez porque nunca levantou mão para ela. Talvez porque olhava para ela como pessoa, não como coisa. Naquela manhã de outubro de 1849, Angélica estava a lavar o chão da varanda. Balde de água suja, pano velho, joelhos a doer de tanto esfregar. Clodovil estava sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal que chegara de comboio no dia anterior.
Tenório veio miando, esfregou-se na perna dela. Ela sorriu, coisa rara. Pegou no gato ao colo por segundo, abraçou. Esse bicho vive colado em si. Clodovil comentou sem tirar olhos do jornal. Voz não era crítica, era a observação. Ele gosta de mim, senhor. Vejo isso. Tornou-se página, gato com bom gosto. Angélica piscou os olhos surpresa.
Senhor tinha feito elogio para ela. Ficou a olhá-lo por momento longo. Homem bonito, alto, ombro largo, rosto que uma mulher livre acharia interessante. Usava boa roupa, cheirava sabão importado, havia mão que nunca apanhada inchada. E foi ali, naquele momento, que coisa estranha aconteceu dentro da cabeça dela.
Pensamento que não fazia sentido nenhum, mas que chegou com força de certeza. Este homem vai ser o meu marido. Não era paixão. Criança de 10 anos nem sabe direito o que é paixão. Era conhecimento. Como saber que o sol nasce todos os dias? Como saber que chuva molha? Simplesmente sabia. Largou pano no chão, levantou-se, subiu três degraus que separavam parte baixa da varanda, onde escrava ficava, da parte alta onde o senhor se sentava.
Ousadia absurda. Escrava não subia onde o senhor estava sem autorização. Clodovil baixou o jornal surpreendido. Angélica, precisa de alguma coisa? Ela plantou pés descalços, sujos de terra vermelha, unha avariada de tanto trabalhar bem na frente dele, tenório pendurado no colo. Levantou o queixo, olhou diretamente nos olhos dele. Outra ousadia.
escrava não olhava senhor direto. Quando eu for grande, tu, sua esposa. Silêncio. Clodovil. Piscou uma vez, duas, três, depois riu-se. Não foi riso maldoso, foi o riso de quem ouviu coisa tão absurda que só pode ser uma piada. Você está a falar sério? Tô. Ele riu mais. Gargalhada genuína. Agora, corpo balançando.
Criança, compreende que eu eu sou branco, tu és preta. Eu sou livre, é escrava. Eu sou filho de um coronel. Nem sequer tem sobrenome para chamar do seu. Limpou lágrima de tanto rir. Percebe a diferença? Entendo. Mas quando eu for grande e tiver livre, vou voltar aqui e o senhor vai casar comigo. Riso dele diminuiu. Olhou para ela com curiosidade agora, ainda achando engraçado, mas também intrigado.
E como pretende ficar livre? Eu e o meu pai somos os seus donos. A gente que decide se fica livre ou não. Vou comprar minha arforia. Comprar? Sobrancelha levantada. Com que dinheiro? Vou trabalhar, vou juntar cada moeda, vou poupar cada vintém e vou comprar? Voz saiu firme, apesar de estar a tremer por dentro.
E quando tiver livre, vou voltar aqui para o senhor. Cludovil parou de rir completamente. Ficou a olhar menina suja, descalça, segurando o gato puguento, falando de comprar alforria e voltar para casar como se fosse uma coisa simples. Tens 10 anos e já tás planeamento futuro. Tenho e vou conseguir. Algo na forma como ela falou, convicção absoluta, inabalável, fez com que ele ficasse sério.
Angélica, uma criança tem fantasia, é normal, mas a vida num é fantasia. Você é escrava. Vai ser escrava até morrer, provavelmente. Não é por maldade minha ou do meu pai. É como o mundo funciona. Não adianta. Eu vou voltar. Voz saiu alta agora. Primeira vez na vida que interrompeu o Senhor. O Senhor vai ver. Vou crescer, vou ficar livre e vou voltar.
E depois o senhor nun vai mais rir. Passos pesados atrás, voz grossa. Que gritaria é esta? Coronel Pascoal subiu para a varanda, cara vermelha de raiva. Viu Angélica ali em cima, onde a escrava não devia estar. Que você tá a fazer aí, negrinha? Angélica gelou. Medo voltou. Esse senhor sim batia. Batia forte. Pai, ela não estava incomodando. Clodovil começou.
Escravo não sobe a uma varanda sem permissão. Você sabe disso. Pascoal agarrou Angélica pelo braço, puxou com força. Tenório saltou do colo. Miou assustado. Desce da cu e antes que eu mande o Casimiro te ensinar o respeito. Atirou-a escada abaixo. Literalmente. Angélica caiu, bateu com o joelho na terra dura, arrancou pele, o sangue escorreu, mas não chorou.
levantou-se, pegou no Tenório que voltara correndo, olhou para Clodovil uma última vez. Eu vto, Sr. O senhor vai ver. Correu antes de Pascoal descer para bater-lhe. Que foi aquilo? Pascoal virou para filho. Que fazia ela aqui? Nada, pai, criancice. Mas, naquela noite, emerenciana, que tinha uma língua grande demais, contou ao coronel o que ouvira de outra escrava que ouvira de outra.
Angélica tinha dito que ia casar com Clodovil quando crescesse. Pascoal explodiu. Insolência, atrevimento. A negrinha tem de aprender o seu lugar, chamou Casimiro, mandou preparar chicote. Clodovil tentou intervir. Pai, ela é uma criança, não sabe o que diz, não precisa. Precisa sim. Essas negrinha aprende cedo a ser atrevida se a gente não corrige logo.
E esta já mostrou que tem uma ideia perigosa na cabeça. Pascoal cuspia as palavras. Não quero semente de rebeldia aqui. Amanhã ela e Fortunata vão a leilão vendo as duas. Livro desta praga. Pai é um exagero. A menina só não discute comigo. Decisão tá tomada. Clodovil não conseguiu mudar a ideia do pai, nunca conseguia.
Na manhã seguinte, Angélica e Fortunata foram acordadas cedo. Casimiro entrou na senzala, rematou as duas. Levanta-se, vocês foram vendidos. Fortunata começou a chorar. Vendida? Para onde? Por quê? Não me importa. Ordem do coronel. Levanta-se logo. Angélica não chorou, olhou paraa mãe e sussurrou: “É por causa do que eu disse ao senhor Clodovil que falou? Depois eu conto.
Meteram as duas numa carroça juntamente com mais três escravos que também iam a leilão. Fortunata chorava baixinho. Angélica ficou quieta, segurando o tenório que tinha apanhado antes de saírem. Num pode levar o bicho, Casimiro falou. Ele é meu. Num é seu coisa nenhuma. Se é escrava, não tem nada. Angélica apertou o gato contra peito. Ele vai comigo.
O Casimiro ia arrancar gato da mão dela quando voz veio de trás. Deixa-a levar o gato. Clodovil ali parado. Mão no bolso. Expressão cansada. Mas senhor, deixe, é apenas um gato. Casimiro resmungou, mas obedeceu. Carroça começou a andar. Angélica olhou para trás, viu Clodovil parado no pátio a observar. Não acenou, não chorou, apenas olhou. Eu volto, pensou.
O senhor vai ver. A viagem até às vassouras durou dois dias. Carroça chacoalhava em estrada esburacada, sol ardia, barriga ressonava de fome. Fortunata chorava, outros escravos gemiam. Angélica ficou quieta, abraçada com tenório, que também estava quieto, como se entendesse gravidade da situação. Ninguém viu quando o gato saltou da carroça e depois saltou de volta.
Ninguém percebeu que ele ia e vinha. ia e voltava testando. Até que numa paragem para descanso cavalos, Tenório desapareceu por 20 minutos. “Onde está o bicho?”, fortunata perguntou. “Foi caçar? Volta!” E voltou mesmo com um rato morto na boca. Largou aos pés de Angélica como presente. “Bom menino”, sussurrou ela pegando no rato.
Partilhou com mãe. Carne crua, mas era proteína. chegaram em vassouras à noite. Colocaram todos num curral, literalmente curral de gado, para passar a noite antes do leilão da manhã. Angélica encolheu-se num canto com mãe e gato. Agora conta, Fortunata pediu, que foi que falou para o senhor Clodovil? Angélica respirou fundo.
Eu disse que quando crescesse e ficasse livre, ia lá voltar para casar com ele. Silêncio. Depois, Fortunata deu risada. Gargalhada triste, sem alegria. Menina, está louca? Não sou. Vou fazer isso. Angélica, tem 10 anos. Não compreende ainda como funciona o mundo. Nós não casa com o senhor, nós não ficamos livre. Nós trabalhamos até morrer. É assim.
Num vai ser assim comigo. Fortunato olhou paraa filha, viu teimosia, que não sabia de onde vinha. Ela própria não era teimosa, era resignada, aceita a vida como era. Mas filha, filha era diferente. Se conseguir isso, Fortunata falou devagar, vai ser milagre. Então vou fazer milagres acontecer no dia seguinte, leilão, homens apalpando escravos como gado, abrindo boca para ver um dente, olhando músculo, perguntando idade, história de doença, capacidade de trabalho.
Fortunata foi vendida por R$ 120.000 réis para um lavrador que precisava de uma mulher para trabalhar na roça. Angélica foi vendida por 80.000 reais. Valia menos. Era ainda criança, pro mesmo agricultor. Coronel Teobaldo Venceslau, proprietário de terras em vassouras, homem de 50 e poucos anos, com fama de pagar mal, mas não bater à toa.
Quando meteram as duas na carroça que ia para fazenda nova, Angélica segurava Tenório. Casimiro da quinta nova, todo o lugar tinha um Casimiro. Parecia. Olhou para o gato. Que é isto? É o meu gato. Ele vai comigo. Num leva bicho. Espaço é pouco. Ele num ocupa espaço. E se o Senhor tirá-lo de mim, eu não trabalho. Ameaça absurda.
Criança escrava de 10 anos a ameaçar não trabalhar. Mas algo no olho dela, determinação meio louca, fez Casimiro recuar. Ok, leva o bicho, mas se ele causar problema, vai para o ensopado. Tenório esteve quietinho o caminho todo, como se entendesse que a sua vida dependia do bom comportamento. Fazenda nova era maior que a antiga.
130 escravos, semzala mais apertada, comida pior. Mas Teobaldo, apesar de pão duro, não batia sem motivo. Batia só se escravo falhasse muito ou respondesse. Então era sobrevivível. Angélica e Fortunata trabalhavam juntas nas roças, acordavam no sino, trabalhavam sol a sol, regressavam mortas de cansaço. Angélica era ainda criança, mas apanhava serviço pesado igual ao adulto.
Carregar saco de café, carpir terra dura, colher sob sol que derretia pedra. Tenório caçava rato. Comia um rato quando não tinha outra coisa. Gato era útil, mantinha a cenzala livre de peste, matava cobra às vezes. Foi ganhando respeito. Outros escravos deixaram de se queixar dele. Anos passaram. Angélica cresceu. Corpo de menina virou corpo de menina.
Seios cresceram. Quadril alargou. A menstruação veio aos 13. Homens começaram a olhar de forma diferente, tanto escravos como feitores. Ela aprendeu a andar de cabeça baixa, evitar a atenção, trabalhar calada, mas nunca esqueceu. Quando tinha 12 anos, começou a guardar dinheiro. Não tinha salário, era escrava.
Mas às vezes lavrador dava moedinha quando a produção era boa. Às vezes escravo mais velho que tinha roça própria. Permissão do senhor, vendia legume e dividia vintém. Às vezes achava moeda perdida na terra. Cada vintém que conseguia escondia. Enterrava em pote por baixo da jaqueira nos fundos da cenzala.
Ninguém sabia, nem mãe sabia no começo. Aos 15, Fortunata descobriu, viu Angélica a enterrar moeda. Que você tá fazendo? A Angélica olhou para a mãe juntando para comprar a minha arforia. Angélica, ainda com essa ideia? Não é ideia, é plano. Fortunata suspirou. Filha era demasiado teimosa. Quanto tem? R400 réis.
Arforia custa quanto para mulher nova? Uns R$ 400, R 500.000 réis. Fortunata fez conta de cabeça com o ritmo que Angélica juntava ia demorar mais de década. Vai ter que trabalhar muito tempo para juntar isso. Eu sei, mas vou juntar. E juntou. Trabalhou que nem uma condenada. Pegava qualquer serviço extra que pagasse Vintém.
lavava roupa de escravo mais velho que tinha dinheiro guardado. Costurava rasgão a troco de moeda, ajudava na colheita, para além do horário obrigatório, quando agricultor oferecia pagamento simbólico, poupou cada vintém. Não comprou roupa nova, usava trapo até cair em pedaço. Não comprou comida melhor. Comia angu, ralo e farinha, mesmo quando podia pagar aguardente ou rapadura que vendiam na venda. Não comprou nada.
Tudo para o pote enterrado. Aos 17, tragédia. Fortunata apanhou febre, febre forte que fazia delirar. Emerenciana da quinta nova tinha também emerenciana, nome comum para parteira, tentou tratar com erva, mas a febre não baixava. Angélica cuidou da mãe três dias. No quarto dia, Fortunata morreu. Enterraram-na em cova rasa atrás da cenzala, sem cruz, sem nome, sem nada, apenas buraco na terra.
Angélica não chorou no funeral. Ficou seca, parada, olhando terra a cair em cima do corpo da mãe. Mas à noite, sozinha, com tenório, chorou. chorou tudo o que tinha segurado. Gato velho, 7 anos agora, lambeu-lhe a lágrima, ronronou, tentou consolar da forma que gato consola. “Só te tenho agora”, ela sussurrou ao bicho.
“Só tu!” Mas antes de morrer, Fortunata tinha dito algo. No delírio da febre, agarrou mão de Angélica e sussurrou: “Se é teimosa que nem uma mula, mas se tem palavra, não desiste do que prometeu.” E Angélica não desistiu, continuou a juntar, agora com mais intensidade. Não tinha mãe para se preocupar, só ela própria.
Trabalhou dobrado, triplo, apanhou todo o serviço extra possível. Aos 21 anos, tinha 380.000 réis enterrados debaixo da jaqueira. Foi falar com o coronel Teobaldo. Senhor, quero comprar a minha arforia. Tealdo olhou-a surpreendido. Tem dinheiro? Tenho. Juntei. Quanto? R$ 380.000. Ele ficou a olhar.
Escravo que juntava dinheiro era raro, mas acontecia. Escravo que juntava tanto era quase impossível. Estás a valer mais que isso. És mulher nova, forte, trabalha bem. A tua harforia tá em R$ 500.000 réis. Angélica engoliu raiva. Sabia que ele estava a aumentar o preço porque podia. Vou juntar o resto. Faz isso. Mais dois anos a trabalhar.
Vendeu até o vestido melhor que tinha. Ficou só com trapo velho. Comeu apenas o mínimo para sobreviver. Passou fome a sério, barriga colada às costas, mas juntou. Aos 23 anos tinha 540.000 R$. Voltou no teu baldo. Tenho dinheiro. R$ 500.000. Quero a minha harforia. Ele contou moeda, conferiu, acenou com a cabeça. Está bem, vou fazer documento.
Três semanas depois tinha papel na mão, carta de alforria, assinada, carimbada, legal. Angélica segurou o papel e sentiu algo partir dentro do peito. Não tristeza, libertação. Era livre. Primeiro pensamento, agora vou voltar. Trabalhou mais dois anos como costureira livre em vassouras. Agora recebia o pagamento de verdade, não vintém, mas 1000 réis por serviço.
Juntou dinheiro para a viagem, para roupa decente, para ter com que sobreviver quando chegasse. E numa manhã de agosto de 1862, apanhou Tenório, agora com 13 anos, velho, coxo, cego, de um olho de luta com o cão e partiu. tr dias de viagem, 5 horas de caminhada, e agora estava ali na varanda onde tudo começara, em frente do homem que tinha ido da promessa dela, pronta para cumprir palavra empenhada.
Glodovil continuava a olhar para ela como se visse um fantasma. Papel de alforria na mão, tenório a roçar na perna dele, angélica ali parada, firme como pedra. “Fez mesmo isso?” Voz dele saiu embargada. 13 anos. Trabalhou 13 anos para para votar. Ela completou. Eu disse que voltava num minto. Passou mão pelo rosto.
Gesto de homem a tentar acordar de sonho. Angélica, não sei o que dizer. Isso é é impossível. Ela sorriu sem alegria. Toda a gente dizia que era impossível, mas eu estou aqui. Silêncio pesado caiu. Clodovil olhou para ela, olhou para o gato velho, olhou para o papel de alforria, depois olhou para a sua própria casa.
Casa grande, bonita, bem cuidada, mas vazia, silenciosa, morta. Você você tem onde ficar? Perguntou finalmente. Não pensei procurar hospedaria na aldeia. Hospedaria fechou. Dono morreu no ano passado. Filhos venderam tudo. Ele hesitou. Depois pode ficar aqui. Casa é grande, tem quarto de sobra.
Emerenciana, que estava a ouvir escondida, obviamente, apareceu na porta. Senhor, o senhor vai deixá-la ficar aqui? Vou. Ela é mulher livre. Viajou sozinha três dias. Não posso deixar na rua. Olhou paraa emerenciana com firmeza. Prepara o quarto azul. Mas, senhor, o que os vizinhos vão dizer? Mulher negra, sozinha em casa do senhor? Não me importo com o que vizinho diz.
Prepara o quarto. Emerenciana bufou, mas obedeceu. Clodovil pegou na trouxa de Angélica. Anda, vou mostrar-te onde vai ficar. Ela seguiu-o para dentro da casa grande. Primeira vez na vida a entrar pela porta da frente, e não pela porta das traseiras onde os escravos entravam. Cheiro a cera de abelha, madeira, livro velho.
Casa cheirava a solidão. Subiu escadas, corredor comprido, porta azul ao fundo. Clodovil abriu. Quarto grande, cama de verdade, não passadeira no chão. Janela com cortina, cómoda de madeira. Aqui. Casa de banho é no fim do corredor. Jantar é às 7. Se precisar de alguma coisa, chama emerenciana.
Ia sair quando a Angélica falou: “Senhor Clodovil”. Parou, virou. Eu sei que a minha presença aqui é estranha. Não quero que o senhor se sinta pressionado por causa da promessa que fiz em criança. Se passados alguns dias o senhor decidir que é melhor eu voltar, vou entender. Cludovil ficou a olhar para ela durante muito tempo.
Angélica, fizeste algo que eu achava impossível. Trabalhou 13 anos para comprar a liberdade. Viajou sozinha três dias para cumprir palavra. Isso, isso merece respeito. Pausa. Não sei o que vai acontecer. Não sei se se faz sentido, mas se merece uma oportunidade de tentar. Saiu, fechou porta. Angélica ficou sozinha no quarto.
Primeira vez em anos a dormir em cama de verdade. Primeira vez a ter o quarto só para ela. Sentou-se na cama. Tenório saltou no colo com dificuldade, patas velhas a doer. Conseguimos, Tenório! Sussurrou. Parte difícil passou. Agora agora vamos ver o que acontece. Gato ronronou cansado, mas contente. Naquela noite o jantar foi estranho.
Angélica sentada à mesa, sem servir, sentada, Clodovil à cabeceira, emerenciana a bufar na cozinha de vez em quando. Conversaram sobre viagens, sobre trabalho em vassouras, sobre conversa superficial, cuidadosa, dois estranhos a tentar entender-se um ao outro. Clodovil perguntou: “E os seus pais? Eles sabem que vieste? A minha mãe morreu.
O meu pai nunca conheci. Era escravo de outra quinta. Foi vendido antes de eu nascer. Sinto muito pela sua mãe. Ela era mulher forte. Ensinou-me tudo o que sei. Silêncio. Depois Clodovil falou voz baixa: “Eu também perdi gente, a minha esposa, o meu filho. Angélica já sabia. Emerenciana tinha contado enquanto preparava quarto, mas deixou-o falar.
Genoveva morreu no parto. Bebé nasceu demasiado fraco. Morreu três dias depois. Mão dele tremeu ligeiramente, segurando o garfo. Foi, foi há 10 anos, mas parece que foi ontem. Deve ter sido terrível. Foi. Fechei o meu coração depois disso. Decidi que nunca mais ia, que não valia a pena amar de novo.
Dói demais quando perde. Angélica olhou para ele. Viu o homem destroçado a tentar sobreviver. Não era mais o senhor de 27 anos que tinha rido da promessa dela. Era homem de 40 marcado pela vida. O senhor ainda ama ela? Sempre vou amar. Ela foi a minha esposa, mãe do meu filho. Pausa. Mas às vezes me pergunto se estou a honrar memória dela ou escondendo-me atrás dela.
Primeira vez que falava aberto assim. Primeira vez que deixava ver ferida que transportava. Terminaram o jantar em silêncio confortável. Depois sentaram-se na varanda, mesma varanda onde tudo começara. Noite estava fresca, estrelas brilhavam, cigarra cantava. Posso fazer uma pergunta? Angélica pediu. Pode.
O senhor lembra-se mesmo de mim quando criança ou só ficou surpreendido quando eu identifiquei-me? Clodovil sorriu. Primeiro sorriso a sério desde que ela chegara. Lembro-me perfeitamente se era a menina mais determinada que eu já tinha visto. Subiu à varanda, olhou diretamente nos meus olhos, falou aquela promessa com convicção que adulto não tem. ficou gravado.
E o que o Senhor pensou quando me voltou a ver? Pensei que se tinha tornado mulher corajosa, que se honrou palavra quando o mundo inteiro pensava que não ia e que tinha subestimado ser. Ficaram em silêncio. Tenório apareceu a coxear, saltou para o colo de Angélica. Doeu-lhe, viu na cara, mas fez mesmo assim. Este gato é velho.
Clodovil observou. Tem 13 anos. Está doente. Pata traseira não funciona corretamente. Olho cego. Mas ele quis vi. Quis ver o senhor. Clodovil estendeu mão. Acariciou cabeça do gato. Tenório ronronou. Eu Lembro-me dele filhote, magro, puguento, miando à porta. Ele foi tudo o que me restou quando me venderam.
Veio escondido na carroça, ninguém viu. Passou fome comigo, partilhou o rato comigo quando não tinha mais nada. Ele foi, voz dela falhou. Ele foi família quando não tinha ninguém. Clodovil viu lágrima escorrer-lhe no rosto dela. Primeira lágrima desde que chegara. Não disse nada. Só ficou ali em silêncio, respeitando a dor dela.
Dias passaram. A Angélica acordava cedo. Costume de escravo num some fácil. Ajudava a emerenciana na cozinha. Apesar da cozinheira queixar-se que num precisava, passava tarde a ler na biblioteca. Clodovil tinha muitos livros, diz que podia ler à vontade. Clodovil trabalhava durante o dia. Fazenda não geria sozinha, mas regressava para jantar.
E depois jantavam juntos, conversavam na varanda. Aos poucos, barreira ia caindo. Emerenciana começou a aceitar a presença de Angélica. Cozinha bem, admitiu num dia. Quem te ensinou? A minha mãe e necessidade. Quando é escravo, aprende a fazer comida com nada. Tenório ia ficando cada vez mais doente. Deixou de comer.
Parava de andar direito, só estava deitado, respirando difícil. A Angélica cuidava dele com dedicação que partia coração. Dava comida à boca, limpava quando fazia sujidade, ficava acordada de noite quando gemia de dor. Clodovil via tudo. Via amor dela pelo bicho velho. Via a lealdade que nun quebrava mesmo quando difícil.
Você devia deixá-lo ir”, disse numa noite. Ele está a sofrer. Eu sei, mas ele é tudo o que me resta da vida antiga. Se ele morrer, não conseguiu terminar. Três dias depois, O Tenório piorou muito. Deixou de respirar direito. Olho bom, o que ainda via, ficou vítrio. Angélica apanhou-o no colo, sentou-se no chão do quarto e ficou ali, balançando lentamente, chorando baixinho.
Lodville entrou no quarto, viu cena. Mulher a segurar o gato moribundo, lágrimas a cair, sentou-se no chão ao lado dela, não disse nada, ficou apenas ali. Tenório morreu meia hora depois. Parou de respirar, corpo ficou mole. Foi. Angélica soltou gemido de dor. Não grito. Gemido abafado de quem perde o último pedaço de vida anterior. Clodovil, sem pensar muito, abraçou-a.
Primeira vez que a tocava a sério. Primeira vez que quebrou distância entre senhor e ex-escrava. Ela chorou no ombro dele. Chorou por tenório, chorou pela mãe, chorou pelos 13 anos de trabalho duro, chorou por tudo e ele deixou. Segurou-a, deixou-a chorar, não apressou. Quando as lágrimas secaram, ela falou com voz rouca: “Desculpa sujar a camisola do senhor. Não há problema.
Ele deixa de me chamar senhor. O meu nome é Clodovil.” Ela olhou para ele, os olhos vermelhos, rosto inchado de tanto chorar. Num consigo. O Senhor sempre foi senhor para mim. Mas se não é mais escrava e eu já não sou dono de ninguém. Ele tinha libertado todos os escravos da fazenda anos antes depois que pai morreu. Somos apenas duas pessoas.
Duas pessoas, repetiu ela. Gostou do som. Enterraram Tenório na manhã seguinte, debaixo da jabutica beira, nos traseiras da casa. Clodovil cavou o buraco fundo com cuidado. Colocaram gato enrolado em pano limpo. Angélica ficou olhando terra a cair em cima do corpo pequeno. Ele cumpriu a sua missão. Clodovil falou baixinho.
Trouxe-te até aqui. Manteve-te viva todos esses anos. Agora pode descansar. Ela acenou com cabeça muda. Colocaram pedra marcando o lugar. Angélica desenhou o nome na pedra com ponta de faca, Tenório. Ficaram ali parados por muito tempo, depois voltaram para casa em silêncio. Mas algo tinha mudado.
Barreira que existia entre eles, barreira de senhor e ex-escrava, de branco e negro, de livre e que foi propriedade, tinha rachado quando ele abraçou-a. E agora, com a morte do gato, fissura virou quebra completa. Aquela noite jantaram mais próximos, conversaram mais abertos, riram pouco, mas riram-se de alguma história tola que emerenciana contou.
E quando se sentaram na varanda depois, Angélica sentou-se mais perto, não colada, mas mais perto. Clodovil não afastou. ficaram a olhar estrelas, ouvindo cigarra, existindo ali juntos, sem pressão. “Angélica”, ele falou depois de um longo silêncio. “Sim, eu ri-se quando fez aquela promessa. Achei impossível. Achei fantasia de criança, mas tu provaste que eu tava errado. Você fez o impossível.
Trabalhou 13 anos, voltou, até trouxe o gato velho. Pausa. Você é você é mulher mais determinada que já conheci. Ela olhou para ele à espera e eu estou começando a perceber que que talvez destino exista. Talvez ser realmente tenha sido guiada até aqui. Não sei se acredito nisso completamente, mas mas não consigo ignorar também.
O que significa? Virou-se para ela, olhos nos olhos. Significa que eu gostaria de de tentar ver se isto nos faz sentido. Não prometo nada. Não sei se vai resultar. Sociedade vai julgar, vizinhos vão falar. Vai ser difícil, mas você merece que eu tente. Coração de Angélica disparou. 13 anos. 13 anos a trabalhar, sofrendo, esperando.
E finalmente eu aceito tentar. Ela disse, voz firme, apesar de estar a tremer, sem garantia, sem promessa que vai resultar, só tentar. Ele estendeu mão, ela pegou em mãos calejadas dela, mãos dele que tinham seguro livro mais que inchada, diferentes. Mas encaixando, ficaram assim, segurando mãos, olhando estrelas. Futuro era incerto.
Sociedade ia julgar brutal. Teobaldo, vizinho filho da puta, já andava a espalhar fofoca maldosa. Igreja ia questionar, família distante de Clodovil ia haver ataque, mas naquele momento, naquela varanda por baixo daquelas estrelas, nada disso importava. Semanas passaram a meses. Angélica e Clodovil iam-se conhecendo de verdade.
Não senhor e escrava, não branco e negro. Apenas duas pessoas a tentar entender se combinavam. Descobriram que sim, combinavam. Ela gostava de ler. Ele emprestava livros, discutiam depois. Ele gostava de silêncio confortável. Ela sabia estar quieta sem ser desconfortável. Ela cozinhava pratos que ele adorava.
Lembrava-se dos gostos dele de quando era criança. Ele respeitava a opinião dela sobre a administração da fazenda. Ela era inteligente com números, mas num era perfeito. Havia dias que Clodovil ficava fechado, preso num luto que nunca passava completamente. Havia dias que Angélica acordava suada de pesadelo, gritando, voltando a censá-la na mente.
Tinha dias que a sociedade pesava, vizinhos coxixando, padre a fazer sermão sobre misturas inadequadas, sem falar nome, mas toda a gente sabendo para quem era. Mulheres livres, brancas, que tinham tentado casar com Clodovil, olhando Angélica com ódio. Teobaldo foi pior. Apareceu na quinta um dia, cara de nojo.
Clodovil, preciso de falar com lhe sobre sobre esta situação. Que situação? A negra a viver aqui, as as pessoas estão a falar, tá a causar escândalo. Clodovil enrijeceu. Angélica é uma mulher livre, hóspede em minha casa. Não vejo escândalo nisso. Hóspede? Teu baldo deu uma gargalhada sem graça. Todo mundo sabem que vocês estão que vocês estão o quê? Fala.
tão se relacionando homem branco com negra é impróprio, é contra a natureza. Angélica, que estava a ouvir da sala ao lado, sentiu a raiva ferver. Ia entrar, falar, mas Clodovil chegou primeiro. Contra a natureza é você, Teobaldo, ter 30 escravos a trabalhar que nem um burro de carga enquanto tu fica sentado a beber vinho caro. Contra a natureza é sociedade que permite ao homem ser dono de outro homem.
E sabe o que mais? Num é da tua conta o que eu faço em minha casa, com quem me relaciono ou como vivo a minha vida. Agora sai daqui antes que te ponha para fora. Mealdo saiu bufando. Angélica saiu da sala, olhou para Clodovil. Obrigada por me defender. Não tem que agradecer. Aquele homem é idiota. Sempre foi. Mas a conversa deixou marca.
Naquela noite jantaram quietos. Você se arrepende? Angélica perguntou de repente. De me ter deixado ficar. Clodovil largou o garfo. Não, nunca. Por que pergunta? Porque estou a causar problema para si. Vizinho está a falar, sociedade está a julgar. Podia ter vida mais fácil se quê? Se eu tivesse casado com algumainha branca que não me ama e que não amo, se tivesse continuou a viver sozinho nessa casa vazia até morrer de tristeza? Ele pegou-lhe na mão.
Angélica, você trouxe a vida de volta a essa casa. Trouxe propósito, trouxe esperança. Não troco isso por aprovação de pessoas que não importa. Ela sentiu lágrima escapar. Eu amo-te. Primeira vez a dizer em voz alta. Ficou olhando, processando. Eu acho que também te amo. Não sei se é igual ao que senti pela Genoveva. É diferente, mas é real e é forte.
Beijaram-se pela primeira vez naquela noite. Beijo demorado, profundo, carregado de 13 anos de espera. Trs meses depois, Clodovil pediu-a em casamento. Proposta simples, sem joelhos no chão, sem anel caro. Só casa comigo, de verdade, igreja, padre, tudo. Sim. Escândalo foi imenso. Padre local se recusou fazer cerimónia.
Tiveram que procurar padre de cidade vizinha, homem velho, liberal, que acreditava que o amor era amor. Casamento foi na capela da quinta, pequeno, poucos convidados, emerenciana, que se tinha habituado com Angélica e até gostava dela agora. Alguns empregados livres da fazenda, um ou outro vizinho menos preconceituoso.
Teobaldo não foi convidado, mas apareceu mesmo assim. ficou nos fundos da igreja fazendo cara de nojo. Durante cerimónia, quando o padre perguntou se alguém tinha objecção, Teobaldo levantou: “Tenho, isso é abominação. Branco a casar com negra contra leis de Deus e dos homens.” O Padre encarou-o. Senhor, se num foi convidado, favor se retirar. Num vou.
Alguém tem de falar a verdade. Esta mulher era escrava. Ela não presta para casar com um homem como Clodovil. Clodovil tornou-se cara tranquila, mas voz dura. Teobaldo, tens 10 segundos para sair desta igreja antes que eu lhe deitar para fora. Não me ameaça. Clodovil começou a caminhar na sua direção. O Tealdo, cobarde que era, saiu a correr, gargalhadas abafadas.
Padre continuou cerimónia. Quando chegou a hora do Sim, Angélica olhou para Clodovil, um homem que tinha ido da promessa dela 13 anos atrás. Homem que tinha sofrido, perdido, se fechado. Homem que agora estava ali escolhendo-a apesar de tudo. Sim, ela disse voz firme: “Aceito”. “Sim”, ele disse, “aceito”.
Selaram com beijo, aplausos. saíram da igreja casados legalmente aos olhos de Deus e dos homens. A Angélica olhou para o céu e pensou: “Mãe, consegui tenório, consegui 13 anos, mas consegui.” A vida depois do casamento não foi fácil. Sociedade continuou a julgar. Teobaldo continuou a falar merda. Igreja oficial continuou desaprovando.
Mas dentro da casa deles tinha paz. Angélica cuidava da administração. Ela era melhor com números que Clodovil. Cludovil cuidava do trabalho pesado. Jantavam juntos toda a a noite, conversavam na varanda, dormiam abraçados. Um ano depois, ela engravidou. Notícia foi recebida com medo e alegria. Medo porque Clodovil recordava o que aconteceu com Genoveva.
Alegria porque era filho deles. Gravidez foi difícil. A Angélica enjoava muito, costas doíam, pés inchavam. Mas Clodovil cuidava dela com uma dedicação que a fazia chorar. Massaja pés inchados, fazia chá quando enjoava, lia-lhe quando não conseguia dormir. “Com pai”, disse ela numa noite. “Espero.
Num fui da primeira vez, nem tive hipótese. Vai haver agora, mas desta vez foi diferente. Bebé nasceu chorando forte, menino saudável. Angélica sobreviveu, cansada, dorida, mas viva. Quando emerenciana trouxe bebé para Clodovil, chorou. Chorou de alívio, de alegria, de dor velha a sair. É um menino, está saudável.
E a Angélica está bem. Entrou no quarto, viu Angélica deitada, suada, exausta, mas sorridente, segurando o bebé. O nosso filho! Ela sussurrou. Clodovil sentou-se na cama, tocou na cabecinha do bebé. Ele é perfeito. Como vamos chamar? Tenório, sem hesitações, em homenagem ao gato que te trouxe até mim. Angélica chorou.
Tenório, sim, perfeito. Criança cresceu rodeada de amor. Menino feliz, saudável, que não sabia de preconceito, que não compreendia por sociedade achava pais dele errados. Teobaldo tentou causar problema quando criança tinha 5 anos. foi na aldeia falando que o filho de Clodovil era bastardo, que o casamento num era válido, que criança num tinha direito à herança.
Clodovil processou-o por calúnia, ganhou. Teobaldo teve de pagar uma multa pesada e pedir desculpas públicas. Depois disso, deixou de encher o saco. Anos passaram. Tenório, o filho, cresceu. Casa ficou cheia de vida. Riso de criança, barulho de pés a correr, alegria. Clodovil e Angélica envelheceram juntos.
O cabelo dele ficou todo branco. Dela também. Corpo ficou marcado por anos, costas que doíam, mãos que tremiam, passos que se tornaram lentos. Mas o amor não envelheceu, continuou forte. Numa tarde, 30 anos depois do casamento, estavam sentados na varanda, mesma varanda onde tudo começara. Angélica tinha 53, Clodovil 70.
“O senhor se arrepende?”, perguntou ela de repente. Mesma pergunta de há décadas. De quê? De ter ido quando fiz uma promessa, de não ter acreditado. Clodovil pegou mão dela, mão velha, calejada, forte. Me arrependo-me de me ter rido. Devia ter acreditei desde o início, mas não me arrependo de nada do que veio depois.
Você salvou-me, trouxe a vida de volta, deu-me ensinou que o amor vale todos os riscos. Ela encostou a cabeça no ombro dele. Valeu a pena. 13 anos a trabalhar, sofrimento todo. Valeu. Ficaram ali até o sol se pôr, segurando mãos, existindo juntos. E debaixo da jabuticabeira, onde Tenório, o gato, estava enterrado, pedra com nome ainda visível depois de todos estes anos, pequena planta tinha crescido, jabuticabeira nova, a rebentar exatamente onde gato estava sepultado, como se vida continuasse, como se o amor gerasse mais
amor, como se as promessas cumpridas se transformassem em bênçãos. História de Angélica e Clodovil tornou-se lenda na região. Contavam aos filhos, aos netos, história da menina escrava que prometeu impossível e fez acontecer. História do homem que riu, mas aprendeu. E acabavam sempre igual. Às vezes a as pessoas riem-se do que parece impossível, mas impossível é apenas palavra, determinação, trabalho, amor verdadeiro.
Isso transforma o impossível em realidade. Obrigado por acompanhar. Conta-me, você teria coragem de trabalhar 13 anos por promessa feita em criança? Deixa nos comentários. Até à próxima história.