Trem Com 95 Passageiros Sumiu Num Túnel Na Serra Do Mar Em 1981 — Drone Filmou Algo No Escuro
Na manhã do dia 14 de agosto de 1981, às 6:42, o comboio de passageiros número 307 da linha Santos para Napiacaba partiu da estação central de Santos com 95 pessoas a bordo. Era uma sexta-feira comum de inverno. O céu estava fechado, mas não chovia. A viagem durava em média 1:15. O comboio passava por sete túneis escavados na rocha da serra do mar antes de chegar ao alto.
O último contacto com a composição foi registado às 7:29, quando o maquinista José Reinaldo de Almeida confirmou por rádio que tinha acabado de passar pelo túnel do CCO e que seguia dentro do horário. 3 minutos depois, o comboio entrou no túnel 6, conhecido entre os ferroviários como túnel da grota funda, um corte de 1340 m, escavado na década de 1920, nunca saiu do outro lado.
Quando a composição não apareceu na estação seguinte e o supervisor de tráfego achou que tinha havido atraso mecânico. às 8:10 tentou o contacto por rádio. Ninguém respondeu. Às 9:30, foi enviada uma equipa de manutenção. O túnel estava vazio. Não havia destroços, não havia corpos, não havia carril arrancado, nem sinal de descarrilamento.
Havia apenas os dois carris de aço estendidos no escuro, intactos, sem uma gota de óleo, sem uma marca de travão. Esta é a história de um comboio que desapareceu com 95 pessoas dentro de um túnel da serra do mar, em plena ditadura militar. e que voltou a ser investigado em 2019, quando imagens captadas por um drone comercial mostraram algo dentro daquele túnel que ninguém esperava encontrar.
A serra do mar corta o litoral de São Paulo como uma muralha de pedra e mata densa. é uma das regiões mais íngremmes do país. Entre Santos e o Planalto, aí a altitude sobe mais de 700 m em menos de 15 km. A ferrovia foi construída entre 1860 e 1937, num esforço que custou centenas de vidas. Os túneis eram estreitos, húmidos, frios. Alguns tinham mais de 1 km.
No interior não havia luz natural, não havia ventilação adequada, apenas o ruído do comboio ecoando contra a pedra. A serra era daquele tipo de lugar que as pessoas da cidade usavam sem pensar muito. Pegavam o comboio, atravessavam o outro lado e seguiam a vida. Não prestavam atenção ao mato fechado ali fora, nas pedras cobertas de liquen, nos riachos que desciam invisíveis entre as árvores.
Era só paisagem, era só o caminho. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos e 23 de caminho de ferro. tinha começado como ajudante de manutenção em 1958 e trabalhado lentamente até chegar à cabine, lhe conhecia aquela linha de cor, sabia onde a velocidade tinha de cair, onde o carril vibrava de forma diferente, onde o vento entrava pela fresta da janela.
Havia mulher, a Neusa, que trabalhava num salão de cabeleireiro em Cubatão. Três filhos, Reinaldinho, de 16 anos, Celinha de 13 e o mais novo Paulinho de 8. Casa própria num bairro simples de Cubatão, com quintal, um cão e uma horta de couves que a Neusa cuidava todo o fim de semana. Não era homem de falhar, era homem de rotina, de horário, de palavra dada.

Naquela sexta-feira de manhã, levava o comboio com calma, como sempre fazia, e entrou num túnel de onde nunca mais regressou. Nada na vida de José Reinaldo fazia pensar que acabaria assim. Não havia sinal, não havia aviso. Era uma manhã comum, de trabalho comum, num excerto que conhecia melhor do que o caminho de casa.
E se este tipo de história te faz questionar aquilo em que acredita? saber sobre o Brasil que existiu antes da câmaras em todo o lado e da internet nos bolsos. Pode se inscrever no canal e deixar a vossa opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança devagar. Tudo o que aconteceu naquela manhã de agosto e nos anos que vieram depois precisa de ser contado sem pressa.
Há questões que esta história levanta e que não tem resposta fácil. O que faz um governo selar um local e não explicar porquê? Em que momento é que uma família comum aceita que o Estado não vai devolver o que levou? O que acontece a 95 pessoas que entram num túnel e não saem? E o que significa encontrar, 38 anos depois uma marca humana fundida na pedra de uma parede que ninguém tocou? Estamos na Serra do Mar, no Inverno de 1981, e não havia telemóvel, não havia internet, não existia câmara de segurança em estação nenhuma. A ditadura militar
estava nos últimos anos, mas ainda controlava o que saía nos jornais e o que estava dentro de gavetas fechadas com cadeado. A rede ferroviária federal era uma empresa estatal gigante, com poder de polícia próprio, autonomia administrativa e capacidade de decidir o que se tornava notícia e o que desaparecia nos arquivos internos.
Era esse o Brasil de agosto de 1981. E foi dentro deste Brasil que o comboio 37 entrou num túnel e nunca mais saiu. Às 7:29 da manhã de 14 de Agosto de 1981, a voz do maquinista José Reinaldo de Almeida soou no rádio da sala de controlo da estação de Paranapiacaba, com a mesma cadência de sempre. firme, clara, sem pressas.
Confirmou que tinha passado pelo túnel C sem intercorrência. Já lhe informou que o comboio seguia dentro do horário previsto e desligou. Era a última transmissão registada. O supervisor de tráfego Osvaldo Ferreira Lima, anotou o horário no livro de registos com caneta azul, fechou o livro e voltou ao café que arrefecia na caneca de alumínio do lado do rádio.
Osvaldo tinha 53 anos e trabalhava naquele posto estavam 12. Já tinha ouvido centenas de rádios iguais àquele, centenas de confirmações de passagem, centenas de horários anotados com caneta azul, centenas de cafés que arrefeciam na caneca enquanto escrevia. Era procedimento de rotina. Nada naquela voz indicava nervosismo.
Nada nesse dia indicava que algo estava fora do lugar. O livro foi fechado, o café foi bebido e o mundo seguiu por mais alguns minutos, como se nada tivesse acontecido. Ti o túnel da grota Funda ficava a 3,m5 de Paranapiacaba, numa das partes mais fechadas e mais húmidas da serra. Era o cesto de sete túneis que o comboio precisava de atravessar antes de chegar ao alto.
Tinha sido escavado entre 1921 e 1924, por operários, na sua maioria imigrantes italianos e espanhóis, muitos dos quais morreram durante a construção por colapso da rocha, gases internos e infecções. 1340 m de buraco na montanha, aberto à mão, a picareta e dinamite controlada. Dentro a temperatura rondava os 12º, mesmo no verão.
O ar era pesado, com cheiro a terra molhada, enxofre e ferro oxidado. Quando um comboio passava em velocidade normal, o som das rodas contra os carris criava um eco que durava até 6 segundos. Depois que a composição já tinha saído do outro lado, os ferroviários mais velhos chamavam aquele eco de assinatura do túnel. Era o maneira que a grota funda dizia que o comboio tinha passado.
Naquela manhã de agosto, o eco não veio. O comboio 307 era composto por uma locomotiva a diesel da série 3000, fabricado na década de 1960 pela General Motors do Brasil e quatro carruagens de passageiros de segunda classe. Não era um comboio de luxo, nem de conforto. Era comboio de gente que precisava de ir de um lugar para outro.
As poltronas eram de madeira envernizada, com encosto reto e assento duro. Nas janelas, vidros corrediços que não fechavam bem e deixavam entrar vento frio nas curvas da serra. cheirava a gasóleo, poeira de trilho e o ranço acumulado de muitos anos de utilização diária. Era uma sexta-feira de manhã e os vagões estavam a cerca de 70% da capacidade.
Havia comerciantes carregando sacos de mercadoria, donas de casa com cestinha de compras, estudantes com pasta de couro gasto, operários da refinaria de Cubatão, que viviam em Paranapiacaba e desciam para o trabalho. Os aposentados que iam resolver coisa num cartório. Um casal de mais idade sentado junto, ela com o terço na mão, ele com o chapéu no colo.
gente comum. Gente que acordou cedo nessa sexta-feira, tomou café com pão, fechou a porta de casa e foi buscar o comboio. 95 pessoas. Destas, a rede ferroviária só tinha registo de nome completo de 63, porque as outras tinham comprado passagens sem apresentar documento, o que era prática comum e aceite na época.
32 pessoas entraram naquele comboio sem que ninguém soubesse exatamente quem eram. E quando o relógio de parede da estação de Paranapiacaba marcou 8:05 e o comboio 307 ainda não tinha chegado, o agente de serviço, Mário Henrique Braga olhou para os carris vazios lá fora e franziu o sobrolho.
Tinha 46 anos e trabalhava naquela estação a via 8. Conhecia o horário dos comboios melhor do que o horário dos filhos. 6, se minutos de atraso não eram incomuns naquela linha. A serra tinha as suas variações, as suas neblinas, os seus troços de trilho que exigiam velocidade reduzida, mas costumava haver aviso.
José Reinaldo era conhecido exatamente por isso. Se ia atrasar, avisava. O Mário pegou no rádio portátil e chamou. Ninguém respondeu. Chamou de novo com o indicativo correto. Silêncio. Uma terceira vez. Nada. Ele largou o rádio sobre a mesa, levantou a cadeira, saiu para a plataforma e ficou ali parado, de braços cruzados, olhando para o vazio da curva de onde o comboio sempre vinha.
O vento frio da serra batia na lona gasta do toldo da plataforma. fazendo um ruído seco e repetido. O chão de madeira da plataforma estava húmido. A névoa da manhã ainda não se tinha levantado do todo entre as árvores do outro lado do trilho. Havia três passageiros esperando. Uma mulher com duas crianças pequenas sentadas num banco de madeira coberto com um pano de saco.
A mulher com uma saco de pano no colo e as crianças encostadas uma à outra. Todos olhavam para o mesmo local, para a curva vazia, para o silêncio que vinha da direção do serra. Às 8:15, Mário voltou para dentro e ligou para esta estação anterior no Campo Grande. Perguntou se o comboio 307 tinha saído no horário.
Disseram que sim, que tinha saído às 7:19 dentro do horário regular com composição completa. Perguntou se tinha havido qualquer problema técnico reportado. Disseram que não, que o maquinista não tinha comunicado nada. Mário desligou e ficou a olhar para o telefone de baquelite preto pousado na mesa. Do lado de fora, as crianças começaram a chorar.
A mulher entrou e perguntou se o comboio ia demorar muito tempo, que as meninas estavam com fome. O Mário disse que devia estar chegando a qualquer momento, que devia ser um atraso pequeno. Essas coisas aconteciam. A mulher voltou para o banco. Mário olhou de novo para o relógio. 8:22 43 minutos desde o último contacto de José Reinaldo.
Tempo a mais para ser só atraso. Às 8:40, O Mário tomou a decisão de ligar para o supervisor de tráfego. Osvaldo Ferreira Lima atendeu ao segundo toque e ouviu o relato sem interromper. ficou em silêncio durante uns três segundos e depois pediu ao Mário que repetisse. Mário repetiu. Osvaldo disse que ia verificar e desligou.
Ligou para a central de operações em Santos. A central confirmou que o comboio 307 tinha saído de Santos às 6:42, que tinha passado por todas as estações intermédios dentro do horário e que o último registo de contacto era o rádio por José Reinaldo às 7:29, confirmando passagem pelo túnel 5. A central perguntou se queriam enviar uma composição de manutenção para verificar o trecho. Osvaldo disse que sim.
Pediu urgência. A central disse que ia levar cerca de 50 minutos para organizar a equipa. Enquanto isso, o Mário ficou na plataforma esperando. A mulher com as crianças tinha ido comprar um pão a uma venda próxima e voltado. As meninas comiam em silêncio. O Mário ficou de pé. Olhando para os carris e com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de lã cinzento.
A névoa tinha baixado um pouco mais. Do lado da serra não havia qualquer som para além do vento entre as árvores e o gotejar de água num cano de drenagem lá em baixo. Nenhum ronco de motor a diesel a chegar, nenhum som de travagem, nenhum sinal de que qualquer coisa estava a caminho. Às 9:47 da manhã, uma pequena locomotiva de a manutenção entrou lentamente pelo lado sul do túnel da grota funda, transportando cinco homens da equipa técnica e dois supervisores.
Iam preparados para o que normalmente se encontrava nestas situações. Um comboio parado por avaria elétrica, um problema nos travões de emergência, talvez um descarrilamento parcial que tivesse bloqueado a passagem. Levavam lanternas de mão, ferramentas básicas, cabos de reboque e rádios portáteis com bateria nova.
que o engenheiro chefe da equipa era Valdir Couto Ramos, de 56 anos, 32 de rede ferroviária, tinha entrado na empresa estatal em 1949 como office-boy e chegado a engenheiro por concurso interno. Conhecia a Serra do Marcos, conhecia o túnel da grota Funda como a palma da mão. Tinha feito uma inspeção naquele troço várias vezes ao longo dos anos.
sabia onde a parede pingava mais, onde o carril tinha uma ligeira torção, onde o teto ficava mais baixo. Entrou sem ansiedade. Era trabalho de rotina. A locomotiva de manutenção avançou lentamente, a 10 km/h, com os dois faróis dianteiros acesos, cortando a escuridão húmido do interior do túnel. O som do motor ecoava contra as paredes de pedra e voltava amplificado, criando uma densa camada de ruído que tornava difícil ouvir qualquer outra coisa.
E pingos de água caíam do tecto e batiam no teto da cabine com um som metálico irregular. O cheiro era a mofo, a terra encharcada e de ferro que enferrujava devagar. Valdir ficou na cabine com os olhos fixos em frente, analisando cada metro de carril que os faróis iluminavam. 100 m, 200. Os carris apareciam à luz intactos, limpos, sem nenhuma deformação visível. 300.
º A parede direita passava a 30 cm da cabine. Quatro centenas, 500. Nada. Sem sinal de travagem de emergência, nenhuma marca de rodas bloqueadas, nenhum pedaço de metal, nenhum objeto no chão. 600 m, 700. O Valdir pediu que o maquinista fosse ainda mais devagar. A velocidade desceu para 6 km/h, 800 m, 900. A equipa técnica atrás da cabine estava em silêncio absoluto. 1000 m. 1100.
Um dos técnicos abriu a janela lateral e apontou a lanterna para a parede. Pedra, musgo, infiltração, mais pedra. 10000 m, 1300. Lá à frente, um ponto de luz branca começou a crescer, a embocadura norte do túnel. O outro lado, 1340 m. A locomotiva saiu para a luz do dia. O túnel estava vazio.
Não havia comboio, não havia nada. Quando saíram para o ar livre do lado norte, o silêncio dentro da cabine era diferente do silêncio do túnel. Era o silêncio de pessoas que estavam a tentar perceber o que os olhos tinham acabado de confirmar. Valdir esteve parado uns 15 segundos. olhando para a boca do túnel que tinham acabado de atravessar.
Depois, sem dizer nada, pediu ao maquinista que desse meia volta. O maquinista olhou-o com uma expressão de quem queria perguntar alguma coisa, mas não perguntou. Deu meia volta. Entraram de novo agora pelo lado norte, no sentido inverso. Foram os mesmos 1340 m, agora com dois técnicos nas janelas laterais apontando lanternas para as paredes, à procura de qualquer coisa, uma mochila esquecida, um pedaço de ferragem, uma mancha de óleo, uma marca nos carris que indicasse travagem de emergência, tudo o que dissesse que algo tinha acontecido ali dentro.
Não encontraram nada. Quando saíram do lado sul pela segunda vez, Valdir desceu da locomotiva, colocou as mãos nos bolsos e ficou de pé na boca do túnel, olhando para dentro daquela escuridão que não devolvia nada. Um dos técnicos aproximou-se e perguntou o que deviam fazer agora. Valdir não respondeu imediatamente, ficou a olhar.
No depois disse que iam voltar para mim da estação e que ia ligar para o Santos pessoalmente. A locomotiva de manutenção chegou a para na piacaba às 11h20. Osvaldo Ferreira Lima aguardava na plataforma com mais dois colaboradores e um rádio na mão. Valdir desceu e foi direto até ele. Disse em voz baixa que o túnel estava vazio, que tinham passado duas vezes nos dois sentidos, que não havia comboio, não havia destroços, não havia sinal de acidente, não havia absolutamente nada.
Osvaldo ficou olhando para ele durante uns 5 segundos sem falar. Depois perguntou se tinham verificado os outros túneis do troço. Valdir disse que não, que a ordem era verificar o túnel seis. Osvaldo perguntou se podiam ter confundido de túnel. Valdir olhou-o com uma expressão que dispensava resposta e disse que não, que era o túnel seis e que conhecia aquele lugar há 30 anos, que não havia como confundir.
Osvaldo entrou para a sala de controlo e trancou a porta. Ficou lá dentro durante 22 minutos. Quando saiu, disse que ia ligar para o direcção em Santos e que ninguém devia comentar nada com ninguém até que houvesse uma orientação oficial. Na tarde desse mesmo dia, a direção regional da rede ferroviária federal convocou uma reunião de emergência num escritório do terceiro piso do edifício administrativo na rua do comércio, no centro de Santos.
Sala sem janela, com ar pesado de cigarro e papel velho. Estiveram presentes o diretor regional, dois superintendentes operacionais, o chefe do departamento jurídico, mais dois advogados da empresa estatal e um assessor do Ministério dos Transportes, que tinha chegado de São Paulo de automóvel naquele mesmo dia e sem que ninguém tivesse explicado porque vinha.
A reunião durou 3:20. A ata lavrada pelo secretário às 16:20 regista os pontos discutidos em linguagem técnica e burocrática, mas alguns excertos são reveladores mesmo assim. Há uma passagem que menciona a necessidade de verificar se houve erro no sistema de registo de passagem das composições entre estações. Outra que fala em aguardar relatório técnico completo antes de qualquer comunicação externa.
E há uma linha quase no fim da acta que diz: “Foi levantada a hipótese de desvio não registado da composição 307 para um ramal secundário a ser verificado pela equipa de campo. Havia um problema com esta hipótese. Não existia um ramal secundário naquele troço. A linha era simples, sem bifurcação, do túnel C ao túnel S.
Não havia para onde desviar. A linha constava assim nas plantas de 1926 e nas de 1971. A decisão final da reunião foi registar ocorrência interna, enviar nova equipa de inspeção ao troço completo entre os túneis 5 e 7 e aguardar 48 horas antes de acionar qualquer autoridade externa. O boletim de ocrência formal foi lavrado numa esquadra de Santos três dias depois.
Foi classificado como desaparecimento de um bem móvel, não de pessoas, de um bem móvel. Durante os cinco dias seguintes ao desaparecimento, a A estação central de Santos foi se tornando-se, aos poucos, um ponto de concentração de famílias. Não foi organizado, não foi convocado, foi acontecendo naturalmente. À medida que as pessoas que tinham alguém no comboio 307 começaram a perceber que não existia outra fonte de informação para além daquela porta de madeira envernizada no centro da cidade.
chegavam de manhã cedo com uma criança ao colo e saco na mão, perguntavam na bilheteira, levavam a mesma resposta vaga e ficavam. Aguardavam, voltavam no dia seguinte, foram chegando mais. Até o quinto dia estavam pelo menos 50 pessoas concentradas na área da estação, algumas dormindo nos bancos da sala de espera, outras paragens na calçada de fora com guarda-chuva aberto contra o frio húmido da Baixada Santista.
Não havia lista oficial de passageiros divulgada. A rede ferroviária dizia que estava a levantar os nomes, que era um processo moroso porque muita gente viajava sem documento. Não havia porta-voz da empresa que saísse para dar informações claras e com horário fixo. Aparecia de vez em quando um funcionário menor com uma folha de papel na mão, que lia um comunicado curto e voltava para dentro antes que alguém tivesse tempo de perguntar alguma coisa.
O comunicado dizia sempre a mesma coisa, que o incidente estava a ser investigado e que a empresa informaria assim que houvesse novidades. Não dizia o que era o incidente. Não dizia onde estavam os passageiros. Clé Aparecida dos Santos tinha 28 anos nesse mês de agosto de 1981. Vivia num apartamento de quartos no bairro do Baré, em Santos.
trabalhava meio período como auxiliar de enfermagem no hospital Guilherme Álvaro. O marido, Jairo Augusto dos Santos, de 31 anos, trabalhava numa gráfica na Vila Belmiro e completava o rendimento fazendo pequenos serviços de encadernação ao domicílio. Eles tinham um filho de 3 anos, o Marcos, que ainda usava fralda.
Na manhã de sexta-feira, Jairo tinha acordado mais mais cedo do que o normal. e tomado café com Cid, pegou na bolsa que ela tinha preparado com uma muda de roupa e comida para a viagem e saído para apanhar o comboio. Ia a para na piacaba visitar a mãe, dona Conceição, que estava com pneumonia. Disse que voltava à noite depois do almoço.
Deu um beijo a Marcos, que ainda dormia. Fechou a porta. Cleviu os passos dele descer à escada. Depois ouviu o portão. Depois nada. Ela foi à estação no sábado de manhã com o Marcos no colo e perguntou se tinha acontecido alguma coisa com o comboio da véspera. O funcionário da bilheteira disse que não tinha informação. Ela foi no domingo.
Disseram a mesma coisa. Na segunda-feira levou um saco com roupa, comida e fraldas ao Marcos e ficou. Não foi para o trabalho, não regressou a casa, sentou-se num banco da sala de espera com o filho ao colo e ficou à espera. Ninguém mandou-a embora. O banco era de madeira dura, pintado de verde, com uma tábua em falta no encosto.
Cle ficou naquele banco durante os primeiros cinco dias. dormia encostada à parede com Marcos deitado no seu colo. De manhã cedo, uma senhora que morava perto da estação e que tinha ouvido falar do caso começou a aparecer com as garrafas térmicas de café e pão com manteiga para as famílias que ali dormiam.
Clay tomava o café sem me levantar, agradecia sem olhar para a mulher. Na quarta-feira, 19 de agosto, cinco dias depois do desaparecimento, um funcionário administrativo da rede ferroviária saiu pela porta lateral da estação, entrou na sala de espera e leu um comunicado em voz alta. Dizia que o comboio 307 tinha sofrido um problema técnico não especificado durante o percurso do que os Os passageiros estavam a ser assistidos pelas equipas da empresa e que os Os familiares seriam contactados individualmente assim que o processo de
identificação estivesse concluído. Não dizia onde estavam os passageiros, não dizia em que condição estavam, não dizia quando iriam para casa. Clay levantou-se do banco e perguntou em voz alta onde estava o seu marido. O funcionário disse que não podia dar informações individuais. – perguntou ela de novo.
Ele repetiu. Uma mulher mais velha do outro lado da sala começou a chorar. O funcionário dobrou o papel, colocou-o no bolso e foi-se embora. Clay ficou de pé no meio da sala de espera durante um tempo que ela depois disse não saber calcular. Depois sentou-se de novo, pegou no Marcos no colo e ficou a olhar para a porta pela qual o funcionário tinha saído.
No dia 21 de agosto de 1981 e s dias depois do desaparecimento, as coisas mudaram de patamar. Uma equipa do exército brasileiro chegou de manhã cedo ao troço da ferrovia junto ao túnel da grota Funda. Vieram em dois camiões militares e um jeip soldados armados e um oficial que não se identificou para os poucos moradores da área que viram a movimentação.
Num período de horas, toda a zona de acesso ao túnel foi isolada. Cordas de arame farpado foram esticadas nas duas bocas. Duas guaritas de madeira foram erguidas, uma de cada lado, com soldados de turno em revezamento de 8 horas. Um aviso de interdição foi fixado nos postes de iluminação próximos. Área restrita proibida a entrada de civis.
Nenhuma numeração de portaria, nenhum carimbo de um organismo público identificável, apenas o aviso e os soldados. A ferrovia foi interrompida naquele troço, sem comunicado prévio às estações. Os comboios que vinham de Santos foram desviados por uma linha alternativa mais a norte, que contornava a serra por um caminho mais longo e plano, aumentando o tempo de viagem em 40 minutos.
Os passageiros foram comunicados do desvio pelo comboio altante sem explicação de motivo. Disse-se apenas que havia interdição técnica no troço. A linha alternativa era mais velha, com troços de trilho desgastado e os comboios rangiam mais nela. Os maquinistas que a percorreram naqueles primeiros dias depois do isolamento disseram que a vista do alto via-se de longe o movimento dos soldados à boca do túnel, mas de longe, sem detalhe.
Não havia explicação pública, não havia conferência de imprensa, não havia nota do exército, nem do Ministério dos Transportes e nem de nenhum outro órgão. O único comunicado veio da rede ferroviária, publicado em letra miudinha no jornal A Tribuna de Santos, na edição de sábado, 22 de agosto. Dizia apenas que o túnel da A grota funda estava temporariamente interditado por questões de segurança estrutural e que uma equipa de engenharia estava a avaliar as condições da obra.
Não mencionava o comboio 307, não mencionava os 95 passageiros, não mencionava os soldados à boca do túnel. Em outubro de 1981, dois meses depois do desaparecimento, o engenheiro civil Hélio Tavares de Azevedo recebeu uma ordem de serviço da Rede Ferroviária Federal para realizar inspeção técnica completa no túnel da Grota Funda.
Hélio tinha 52 anos, 30 de profissão. Formado pela Escola Politécnica da USP em 1952 tinha currículo de obras. Pontes sobre o rio Tieté, e não viadutos na autoestrada Anhangueira, trabalhos de contenção de encosta na serra da Cantareira. Era homem de precisão e de caderneta sempre na mão. A ordem de serviço que recebeu era técnica.
pedia a avaliação das condições estruturais da obra, teto, paredes, base, drenagem, estado geral dos carris. Não havia menção ao comboio desaparecido, não havia qualquer instrução fora do padrão, era um relatório de manutenção, como tantos outros que tinha feito ao longo da sua carreira. Mas havia um pormenor. A ordem dizia que a equipa devia entrar sozinha, sem acompanhamento militar numa data específica, numa janela de 8 horas, o que sugeria que em todas as outras horas havia restrição de acesso.
O Hélio entrou num sábado de outubro, às 8 horas da manhã. Com ele iam três jovens ajudantes, recém-formados, com equipamento de topografia, fita métrica laser, teudolito e nível ótico, máquina fotográfica analógica e cadernetas de campo. Os soldados ainda estavam à boca do túnel, mas afastaram-se quando o oficial viu a ordem de serviço.
Entraram pelo lado sul. O interior estava exatamente como as equipas anteriores tinham descrito, escuridão, humidade, cheiro a mofo e pedra velha. Mas havia uma diferença na relação às inspeções normais. O silêncio era diferente. Hélio notou isso desde o começo. Era um silêncio mais pesado que o normal.
Num túnel em funcionamento, mesmo quando não passa comboio, há pequenos ruídos, gotejo, corrente de ar, vibração residual dos carris. Naquele dia, no interior do túnel da grota funda, não havia nada. Era como se o ar tivesse parado. Mediram o túnel de ponta a ponta, foram meticulosos. A extensão oficial era de 1340 m, conforme as plantas de 1926.
Nem a medição de hélio deu 1338 m, uma diferença de 2 m. dentro da margem de erro tolerável para uma obra daquela época, em que a tecnologia de medição era menos precisa e as plantas eram feitas à mão, Hélio anotou a diferença, acrescentou a ressalva metodológica e passou para a próxima etapa.
Verificaram o estado dos carris normais, com desgaste compatível com a idade e o uso. Verificaram o teto. Havia infiltrações em seis pontos, mas nenhuma com risco imediato de colapso. Verificaram as paredes. A parede sul encontrava-se em bom estado geral. A parede norte apresentava humidade mais intensa em alguns troços, musgo em abundância e num ponto específico, uma fissura.
A fissura estava ao quilómetro 0,7, exatamente no ponto médio do túnel. Era vertical ali com cerca de 2 m de altura e cerca de 15 cm de largura na abertura maior. A rocha estava separada, como se tivesse rachado de dentro para fora por pressão interna. Hélio pediu que apontassem as lanternas, aproximou-se, passou a mão na borda da fissura.
A superfície estava estranhamente lisa, não áspera como é normalmente rocha rachada, lisa, quase polida. Tentou enfiar uma fita métrica para medir a profundidade. A fita métrica entrou uns 40 cm antes de tocar em algo e não ir mais fundo. Hélio pediu que tirassem foto. O ajudante fotografou de vários ângulos com flash manual.
Hélio anotou na caderneta: fissura vertical, parede norte, qum 0,7, aproximadamente 200 cm de altura, 15 cm abertura máxima, superfície interna anormalmente lisa, profundidade mínima 40 cm, sem correspondência em relatórios anteriores consultados, mas depois ficou um momento olhando para a fissura sem falar. Um dos ajudantes perguntou se ela era perigosa. O Hélio disse que ia analisar.
Continuaram a inspeção até ao final do túnel. Saíram pelo lado norte, entraram de volta pelo lado norte e terminaram do outro lado. Quando Hélio saiu pela boca sul ao fim do dia, sentou-se numa pedra, tirou o capacete e ficou a olhar para o chão durante um tempo. O ajudante mais velho perguntou se estava bem.
Ele disse que estava cansado. Três semanas depois, o relatório que entregou a rede ferroviária dizia que a estrutura do túnel estava em condições aceitáveis de utilização, com reservas sobre a infiltração e sobre a fissura da parede norte, que deveria ser monitorizada periodicamente. A fissura nunca foi monitorizada.
Nenhum relatório de acompanhamento foi produzido nos anos seguintes, em março de 1983 e 1 ano e 7 meses após o desaparecimento do comboio 307, o túnel da grota Funda foi reaberto ao trânsito ferroviário. Não houve qualquer comunicado prévio às estações. Não houve fiscalização pública com representantes das famílias dos desaparecidos.
Não houve cerimónia de nenhum tipo. Simplesmente, numa segunda-feira de manhã, as guaritas foram apeados, os soldados foram-se embora, a linha foi reativada e os comboios voltaram a passar pelo túnel seis, como se os últimos 19 meses não tivessem existido. A vida operacional voltou ao normal. Os horários foram ajustados.
O desvio pela linha alternativa foi encerrado. Os passageiros que apanhavam o comboio naquela semana provavelmente nem sabiam que estavam a passar pelo mesmo lugar de onde um comboio inteiro tinha desaparecido menos de do anos antes. Mas entre os maquinistas que trabalhavam naquela linha de havia um entendimento não escrito que ninguém teve de formalizar.
Ninguém entrava naquele túnel sozinho. Se havia apenas um maquinista escalado para a viagem, aparecia alguém voluntariamente para acompanhar na cabine, sem figurar na escala. O rádio esteve ligado o tempo todo durante a travessia, transmitindo voz constante para da estação mais próxima, mesmo que não houvesse nada para comunicar.
A velocidade era reduzida ao entrar, mesmo quando não havia instrução de redução, e toda a gente entrava com a mão na alavanca de emergência. Era o código dos que sabiam o que ali tinha acontecido, que não eram poucos. Valdemar Augusto Pinheiro tinha 43 anos em março de 1983. Maquinista desde 1975, com 8 anos de linha santos para Napiacaba, era um dos mais experientes daquele trecho.
Conhecia cada curva, cada rampa, ali, cada variação de temperatura dentro de cada um dos sete túneis. Quando o túnel da grota Funda foi reaberto, Valdemar fez a primeira viagem pelo troço de regresso na manhã da segunda-feira. Entrou com um auxiliar ao lado, rádio ligado, velocidade reduzida. Saiu do outro lado, não disse nada.
Duas semanas depois, pediu transferência para a linha do Vale do Ribeira. Era uma linha mais longa, com piores horários, com um salário base mais baixo, porque a categoria era diferente. O supervisor de escalas ficou surpreendido e perguntou por quê. Valdemar disse que era motivo pessoal. Insistiram. Perguntaram se tinha algum problema de saúde, se tinha uma questão familiar, se necessitava de algum ajuste de escala.
Ele disse que não, que era apenas uma decisão. A transferência foi aprovada sem mais obstáculos. Valdemar trabalhou no Vale da Ribeira até se aposentar até em 1991. Nunca mais pisou a linha da serra do mar. O cunhado de Valdemar, Raimundo Ferreira Coutinho, também ferroviário, trabalhava na área de manutenção de trilhos.
Anos mais tarde, numa conversa que Raimundo contou ao filho adolescente e que o filho repetiu a um jornalista de São Paulo em 2019, Valdemar tinha dito numa tarde de churrasco de família, já com uns copos de cerveja no corpo, que tinha visto algo a mexer na parede do túnel na manhã em que voltou a passar por ali depois da reabertura. disse que era às 6 da manhã, nevoeiro lá fora, dentro do túnel completamente escuro, exceto pelos faróis, que alguma coisa na parede perto do meio do túnel tinha-se movido, que não sabia dizer se era sombra, se era o reflexo dos
faróis numa irregularidade da rocha, se era coisa de quem estava com pouco sono e muito medo, mas que ele tinha visto, que tinha reduzido a veloc cidade que tinha ficado a olhar e que depois tinha acelerado de volta e não tinha mais parado até sair do outro lado. Valdemar faleceu em novembro de 1996 de enfarte em casa aos 56 anos.
nunca mais falou no assunto depois daquele churrasco. Durante toda a década de 80, um grupo de 12 familiares de pessoas desaparecidas no comboio 307 continuou se encontrando regularmente. No início era todos os meses, depois a cada dois meses, depois de três em três, mas continuaram se encontrando.
O ponto de reunião era a casa de Cleide, Aparecida dos Santos, no bairro em Baré, em Santos. O apartamento era pequeno. A sala comportava com dificuldade as 12 pessoas que vinham. Havia quem ficasse de pé encostado à parede. O filho de Cleid, Marcos, cresceu a ver aquelas reuniões. Eu ficava no quarto, mas ouvia tudo. As vozes baixas, o papel sendo aberto e fechado, o choro contido, a mesma história a ser contada e recontada sem nunca chegar a nenhum lugar novo.
Eles juntaram dinheiro da forma que puderam. 5.000 cruzeiros daqui, 10.000 dali nas épocas de inflação que comiam o valor mesmo antes de juntar. contrataram o advogado Sebastião Moreira Pinto, que tinha escritório na rua Amador Bueno, em Santos, e que aceitou trabalhar para o mínimo, porque achou que a história não fechava e que havia algo que o Estado estava a esconder.
Em 1983, apresentaram um pedido de acesso à documentação interna da rede ferroviária relativo ao incidente de 14 de agosto de 1981. Foram negados administrativamente. Recorreram, foram novamente negados. Entraram com mandado de segurança na justiça federal em São Paulo. O processo demorou. Em 1986 foi negado em primeira instância.
Recorreram para o Tribunal Regional Federal. Em 1987, o juiz desembargador António Lúcio Marques Pimentel assinou uma providência cautelar determinando que a Rede Ferroviária Federal SA entregasse cópia integral de toda a documentação relativa ao desaparecimento da composição 307 em 14 de agosto de 1981, incluindo atas de reunião, boletins de ocorrência internos, relatórios técnicos, relatórios de inspeção e qualquer comunicação oficial ou interna que fizesse referência ao evento. A rede ferroviária cumpriu as
liminar três meses depois de Intimada. Enviou uma caixa de cartão castanho, selado com fita adesiva amarela com o nome do advogado manuscrito com caneta hidrocó. Sebastião abriu a caixa no escritório com Cleid e mais três familiares presentes. No interior havia 43 páginas numeradas, metade e 21 páginas estava censurada com tinta preta espessa, aplicada em camadas, do tipo que não deixa ler absolutamente nada por baixo, nem contra a luz, nem em scanner.
Estava censurado o texto, a numeração interna dos documentos, as datas em alguns casos, os nomes dos signatários. Em certas páginas, a tinta preta cobria linhas inteiras e parágrafos inteiros, deixando apenas visível o cabeçalho com o timbre da empresa estatal e as iniciais do departamento. A outra metade das páginas era documentação operacional de rotina, memorando sobre a manutenção de carris, folhas de gastos com combustível, escalas de pessoal dos meses de agosto e setembro de 1981.
Um relatório de troca de travessas no troço entre as estações do Campo Grande e Paranapiacaba. Nenhuma página fazia referência direta ao comboio 307. Nenhuma página mencionava os 95 passageiros. Nenhuma página respondia a qualquer das questões que o grupo de familiares tinha passado 6 anos a fazê-lo.
Sebastião interpôs recurso pedindo que as páginas censuradas fossem entregues sem censura. O recurso foi negado com a justificação de que o conteúdo censurado era protegido por questões de segurança nacional, de acordo com a legislação vigente à data dos documentos. Outro recurso, outra negativa. Em 1990, o processo foi arquivado por falta de novas provas e por esgotamento das instâncias disponíveis.
Sebastião devolveu os documentos a Clea nova caixa de cartão. Disse que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Ela agradeceu. Ele foi-se embora. Clevou a caixa para casa e colocou-o debaixo da cama, do lado onde O Jairo costumava dormir. Na ficou ali durante 29 anos até 2019. Nesse mesmo ano de 2019, a rede ferroviária federal já tinha sido extinta há mais de duas décadas.
A A ferrovia da Serra do Mar tinha passado por várias concessões e mudado de mãos mais do que uma vez. O comboio de passageiros da linha de Santos para Napiacaba continuava a funcionar, agora sob outra administração, com composições mais novas e horários reduzidos. O túnel da grota funda continuava a ser utilizado normalmente, como havia sido desde a reabertura de 1983.
38 anos tinham passado. A maioria das pessoas que sabia o que tinha acontecido em agosto de 1981 estava morta ou tinha mais de 70 anos. O caso nunca tinha sido retomado oficialmente, nunca tinha sido reaberto por qualquer comissão de inquérito, nem mesmo depois da democratização, mas nem depois da Lei da Ao Informação de 2011, que em teoria permitia solicitar documentos que antes eram protegidos por sigilo de segurança nacional.
Cleid tinha tentado em 2013 fazer um novo pedido de acesso com base na nova lei. Recebeu a resposta de que os documentos relativos ao evento de Agosto de 1981 tinham sido destruídos em processo de desgaste de acervo em 1998, conforme protocolo de eliminação de arquivos com mais de 15 anos de guarda. Ela guardou a resposta juntamente com o resto da caixa debaixo da cama.
Em junho de 2019, um operador de câmara de 32 anos chamado Rafael Ortiz Mendonça, residente em São Bernardo do Campo, decidiu filmar o interior do túnel da grota Funda. Rafael trabalhava com filmagem de eventos desde os 20 anos, os casamentos, as festas de finalistas, aniversários de 15 anos, com fraternizações de empresa.
nas horas vagas produzia vídeos para um canal no YouTube chamado Brasil Esquecido, onde documentava locais abandonados, histórias obscuras e casos que tinham desaparecido da memória pública. O canal tinha uns 40.000 inscritos a crescer lentamente, sem algoritmo favorável, sem patrocínio, sem grande estrutura.
Era ele, um drone, uma câmara de mão e um microfone de lapela gravando comentários enquanto andava. Tinha ouvido a história do comboio 307 num episódio do podcast Casos Arquivados, produzido por um jornalista de Campinas, e tinha ficado a pensar nisso durante semanas. Não era a primeira história de desaparecimento que cobria, mas era a primeira que envolvia um comboio inteiro e um túnel que ainda estava em funcionamento.
Foi numa tarde de sábado de junho, saiu de São Bernardo às 10 horas pela autoestrada Anchieta, desceu até Santos e apanhou a antiga via Anchieta que subia à serra e encontrou a estrada de terra batida que dava acesso ao lado sul do túnel. por um trilho que não estava em nenhum mapa digital.
Chegou à Boca Sul às 3h20 da tarde. O sol estava forte lá fora, mas o sombra da rocha tornava da entrada do túnel imediatamente escura. A linha ainda funcionava. Rafael tinha verificado o horário dos comboios antes de sair de casa. O próximo passava às 18:10. tinha tempo. Montou o drone ali fora na beira do trilho.
Era um DJI Mavic Air 2 compacto com câmara 4K e dois faróis LED de alta potência que tinha adaptado manualmente para filmagem em ambientes fechados. Calibrou os sensores, ajustou a câmara para o modo noturno, acendeu os faróis. O drone levantou-a cerca de 2 metros de altura e avançou para o interior do túnel.
O Rafael ficou do lado de fora, me controlando pelo telemóvel, acompanhando a imagem ao vivo no ecrã com fone de ouvido. Os primeiros 680 m foram exatamente o que esperava encontrar. As paredes de pedra apareciam cobertas de musgo escuro e infiltrações de água que escorriam em finos filetes pela rocha. O teto baixo e irregular refletia os faróis de uma forma o que criava sombras em movimento.
Mas era só o ângulo da luz. Os carris abaixo, duas linhas de aço paralelas que se perdiam no fundo escuro. Pingos de água caíam no chão de pedra com som regular. O eco do motor do drone enchia o espaço e voltava ligeiramente distorcido. O Rafael comentou em voz baixa para o microfone de lapela, descrevendo o que via.
Rochas, musgo, água, escuridão, nada de anormal. Aos 700 m, o drone estava na região central do túnel e Rafael estava a prestar atenção no teto, que parecia ter uma pequena fenda que queria registar. Nesse momento, o enquadramento da câmara passou pela parede esquerda, a parede norte, e O Rafael viu algo que o fez apertar o botão de pausa do drone.
A imagem ficou estática. Ele aumentou o zoom no telemóvel. Na parede esquerda, a uns me de altura do chão, havia algo. O Rafael ficou olhando para o ecrã durante uns 10 segundos, tentando perceber o que estava a ver. Depois aumentou mais o zoom. E então ficou claro, era uma mão, o contorno perfeito de uma mão humana adulta, com cinco dedos abertos, impressa na pedra, como se alguém tivesse apoiado a palma contra a rocha molhada e a forma tivesse ficado ali gravada.
Só que não era uma marca de sujidade nem de tinta, era a superfície da própria pedra que estava moldada naquele formato, não é? como se a rocha tivesse estado mole no momento em que a mão estava apoiada e depois tinha endurecido. Rafael registou aquele ponto durante 48 segundos. Mudou o ângulo do drone três vezes para captar a imagem de diferentes perspectivas.
Com o zoom máximo, a definição era suficiente para ver as linhas da palma da mão dentro da impressão, para ver o contorno de cada dedo, para ver a marca do polegar ligeiramente separado dos outros. Era uma mão direita. Rafael recuou o drone lentamente, tirou o drone do túnel, desligou e ficou sentado na beira do trilho durante uns 15 minutos antes de voltar para o carro.
Em casa, passou o vídeo para o computador e assistiu de novo no monitor maior. Depois assistiu uma segunda vez, pausando quadro a quadro no troço da mão. Depois ficou sentado na cadeira de frente para o tela. e sem fazer nada durante algum tempo. Era sábado à noite. Editou o vídeo durante a madrugada, acrescentou as legendas com os dados históricos que tinha pesquisado sobre o comboio 307.
Colocou Narração em voz baixa e publicou no YouTube no Domingo de manhã às 9:15. Em 3s dias o vídeo tinha 700.000 visualizações. Numa semana 2.200.000. Os comentários somavam mais de 40.000. Jornalistas de São Paulo e do Rio entraram em contacto. Uma emissora de televisão enviou equipa para refazer a filmagem do túnel.
Um geólogo da Unicamp deu uma entrevista dizendo que a formação era impossível sob. Uma entidade de famílias de desaparecidos entrou em contacto com Clay Aparecida dos Santos para contar o que tinha aparecido na internet. Foi a filha de Cle Gabriela, hoje com 38 anos, de que mostrou o vídeo à mãe. Cleiu duas vezes em silêncio na cozinha do apartamento no embaré com a tela do telemóvel da filha na mão.
Depois colocou o telemóvel na mesa. Ficou a olhar para a janela da cozinha durante um tempo. A rua lá em baixo tinha o barulho normal de uma tarde de domingo em Santos. Crianças, mota a passar, um rádio ali longe. Depois, Clear, baixou-se, puxou a caixa de cartão de debaixo da cama e ficou a segurá-la no colo, sentada na ponta do colchão.
Eram 29 anos de espera dentro daqueles 43 páginas, metade cobertas de tinta preta, 29 anos de reuniões na sala pequena de recursos negados. de advogado que fez o que pôde, de um marido que tinha saído para visitar a mãe doente numa sexta-feira de agosto e nunca tinha voltado. E agora tinha uma imagem de uma mão dentro de uma pedra capturada por um rapaz que não tinha nascido quando o comboio desapareceu.
A Cle ficou assim com a caixa no colo durante um tempo, que a Gabriela, que estava na porta do quarto, disse não saber calcular. Depois a mãe disse em voz baixa que queria que alguém fosse olhar aquilo direito, que alguém me disse, que alguém fosse lá dentro de verdade e não saísse sem resposta.
A Gabriela disse que ia tentar. A Cle disse obrigada e ficou com a caixa no colo. A marca na pedra foi analisada por três especialistas diferentes entre julho e dezembro de 2019. Um geólogo da Unicamp, o professor Marcelo Henrique Vaz, disse em comunicado técnica que a formação não correspondia a nenhum processo geológico identificável.
A rocha naquele troço era granito, uma das mais duras da crosta terrestre e com formação estimada em 320 milhões de anos. Não existe nenhum processo natural conhecido capaz de imprimir a forma de uma palma humana no granito sem ferramentas, sem calor extremo e sem pressão equivalente a toneladas por cm qu. Uma segunda análise feita por um perito criminal aposentado da Polícia Federal chamava João Batista Correia de Menezes, afastou a hipótese de fabrico da marca por meios químicos ou mecânicos comuns. disse que para criar uma
impressão com aquela profundidade e aquela definição, seria necessário o equipamento industrial, que não poderia ser levado para o interior de um túnel ferroviário em funcionamento, sem deixar marcas no piso ou nos carris. Uma terceira análise feita por um investigador independente que pediu anonimato, sugeriu que a marca poderia ser anterior ao desaparecimento de 1981 e que poderia ter sido feita durante a construção do túnel entre 1921 e 1924, que algum operário poderia ter apoiado a mão numa mistura de cimento ainda fresco
que depois foi coberta pela rocha natural. Mas esta hipótese não explicava porque a superfície da impressão era de granito puro, sem vestígio de cimento ou argamassa. E por a profundidade da marca era uniforme em toda a extensão da palma, algo impossível, numa impressão em material moldável. Em janeiro de 2020, um deputado estadual de São apresentou um requerimento na Assembleia Legislativa, pedindo que a Secretaria de A Segurança Pública reaberta as investigações sobre o desaparecimento do comboio 307.
O requerimento foi protocolado, recebeu número, foi remetido à comissão competente e nunca mais foi pautado. Em março de 2020, o Brasil entrou em pandemia e o assunto foi engolido pelo tamanho do que veio a seguir. O vídeo do Rafael ficou no YouTube. Continua lá. O túnel da grota funda continua em funcionamento.
Os comboios continuam a passar. A marca continua na parede, no 707, lado esquerdo, a m de altura, exatamente onde a câmara de Rafael a encontrou em junho de 2019. Ninguém colocou cercado, ninguém instalou câmara de vigilância, ninguém da actual administração da ferrovia respondeu a nenhum dos pedidos de entrevista feitos por jornalistas e investigadores desde então.
Resposta padrão quando existe algum, é que a empresa não tem documentação sobre eventos anteriores à atual concessão e que qualquer investigação histórica deve ser dirigida ao acervo do Ministério da Infraestrutura. O acervo do Ministério das Infraestruturas não tem documentação sobre o evento de Agosto de 1981, relativo ao túnel da Grota Funda.
Confirmaram-no por escrito a um jornalista do estado de São Paulo em outubro de 2019. Disseram que a documentação não foi localizada. Cleade, Aparecida dos Santos, tem hoje 70 anos. Vive no mesmo apartamento do bairro em Baré, em Santos. onde morava quando Jairo saiu para apanhar o comboio naquela sexta-feira de agosto de 1981.
O apartamento tem dois quartos. O quarto maior é dela. O quarto mais pequeno era de Marcos, que cresceu, casou e foi viver em São Vicente. Marcos tem 42 anos e uma filha de 12. A caixa de cartão não está mais debaixo da cama, está numa prateleira do armário do corredor entre caixas de sapatos e cobertores guardados em saco de plástico.
Cleade abriu-a mais duas vezes depois de 2019. Mam vez para mostrar a um jornalista. Uma vez sem motivo, a altas horas da noite sozinha. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos quando entrou no túnel da Grota Funda pela última vez. Neusa Ra esposa esperou durante 5 anos antes de aceitar a presunção de morte para efeitos legais.
Em 1986, os três filhos cresceram. Reinaldinho tem hoje 58 anos e trabalha com construção civil em Cubatão. A Celinha tem 55. e vive na Praia Grande. Paulinho tem 48 e é o único que ainda vive em Cubatão, no bairro do pai. A casa com quintal, cão e horta de couves não existe mais.
No local onde estava, há um condomínio de quatro andares construído nos anos 90. Neusa morreu em 2014, de cancro aos 72 anos. Nunca soube o que tinha acontecido ao marido. Nunca soube se tinha sofrido e se tinha tido tempo para compreender, se tinha tentado sair, se tinha visto alguma coisa antes de desaparecer. Ninguém sabe isso. Até hoje.