O desaparecimento das primas Letícia e Estela, moradoras da cidade de Cianorte, no interior do Paraná, transformou-se em um dos mistérios mais angustiantes e acompanhados de perto pela opinião pública e pelas forças de segurança nas últimas semanas. O caso, que está prestes a completar um mês de incertezas e buscas incessantes no próximo dia 20, ganhou novos e dramáticos contornos que apontam para um desfecho consideravelmente trágico. Uma operação interestadual coordenada pela Polícia Civil resultou na prisão de uma peça-chave no quebra-cabeça: a ex-companheira do principal suspeito pelo sumiço das jovens, lançando luz sobre uma estrutura de apoio que vinha garantindo a clandestinidade de um homem com extensa ficha criminal e que utilizava múltiplas identidades falsas para despistar a justiça.
A captura da mulher de 23 anos ocorreu na pacata localidade de Paraguaçu Paulista, no interior do estado de São Paulo. De acordo com as investigações conduzidas pela força-tarefa da Polícia Civil do Paraná, a jovem é suspeita de atuar diretamente como a principal facilitadora financeira da fuga de Cleiton Antônio da Silva Cruz. Conhecido no submundo do crime e nas investigações sob os apelidos de “Dog Dog” ou “Sagazz”, o homem de 39 anos é apontado como a última pessoa a ter estado com as primas antes de sumirem sem deixar rastros, logo após uma saída noturna para uma casa de shows na região.
A rede de apoio na clandestinidade e a ação policial
A prisão da ex-convivente de Cleiton revelou que o suspeito não estava operando de forma isolada em sua tentativa de escapar do cerco policial. A investigação técnica e o cruzamento de dados financeiros efetuados pela inteligência da polícia demonstraram que a jovem cedeu voluntariamente seus dados pessoais e seu nome para a abertura de diversas contas bancárias fictícias ou de movimentação oculta. Por meio desses canais financeiros, valores significativos em dinheiro eram depositados e transferidos para que “Dog Dog” conseguisse se manter escondido, custeando moradia, alimentação e transporte sem precisar utilizar seus próprios documentos, o que fatalmente acionaria os alertas dos sistemas de segurança pública.
Munidos de um robusto inquérito policial que comprovava o auxílio material à fuga de um procurado pela justiça, os delegados responsáveis pelo caso solicitaram ao Poder Judiciário a expedição do mandado de prisão preventiva contra a facilitadora, além de ordens de busca e apreensão. A ofensiva policial em Paraguaçu Paulista culminou não apenas na detenção da ex-mulher, mas também no cumprimento de três mandados de busca em imóveis que eram utilizados de forma suspeita pela rede de contatos de Cleiton. Durante as buscas, um aparelho de telefone celular foi apreendido em posse da detida. O dispositivo foi classificado pelas autoridades como um elemento de valor investigativo inestimável. A perícia técnica focará na extração de mensagens, históricos de chamadas e dados de geolocalização que possam determinar com precisão o paradeiro atual de “Dog Dog”, que a polícia desconfia estar escondido em alguma região do território paulista.
A dinâmica do crime: Uma confissão estarrecedora
Paralelamente aos desdobramentos financeiros e logísticos da fuga, o aspecto mais sombrio e violento do caso começou a ser desvendado a partir de um depoimento crucial colhido pelos investigadores na última semana. Uma testemunha que manteve contato direto com Cleiton durante o período em que ele já era considerado foragido apresentou-se às autoridades e revelou detalhes de uma conversa perturbadora. Segundo o relato, o próprio suspeito teria confidenciado, com riqueza de detalhes, ter assassinado Letícia e Estela em um rompante de fúria e violência desmedida, configurando um cenário de duplo feminicídio seguido de ocultação de cadáveres.
A reconstituição dos fatos com base na suposta confissão aponta que, na noite do desaparecimento, o grupo havia consumido grandes quantidades de bebidas alcoólicas e cocaína enquanto se divertia em uma balada na cidade vizinha de Paranavaí. O clima de descontração, contudo, desfez-se por completo durante a viagem de retorno para Cianorte. Cleiton, que já nutria uma relação de amizade de longa data com Letícia, estava dirigindo o veículo. Em determinado momento do trajeto, o motorista decidiu estacionar o carro em uma área erma e escura à beira da rodovia sob o pretexto de que precisavam urinar.
Foi nesse ambiente isolado que a tragédia começou a se desenhar. Aproveitando-se do momento em que Letícia se afastou temporariamente para ir ao banheiro ou comprar suprimentos em um posto próximo, Cleiton teria tentado uma aproximação íntima com Estela — a prima que havia sido convidada de última hora para o passeio e a quem ele conhecera formalmente naquela mesma noite. Entre trocas de carinhos e beijos em um contexto de vulnerabilidade, Letícia retornou ao veículo de forma abrupta e flagrou a cena. De acordo com a narrativa compartilhada pela testemunha, o agressor tentou contornar a situação propondo que os três participassem de uma relação sexual grupal. A recusa imediata e indignada por parte de Letícia desencadeou uma discussão ríspida, que rapidamente evoluiu para agressões físicas violentas por parte do homem. Ao ver a prima ser espancada, Estela interveio em sua defesa, tornando-se também alvo da fúria do suspeito. O confronto terminou com a morte de ambas as jovens por asfixia ou traumatismo, cujos detalhes exatos ainda dependem da localização dos corpos.
Caçada humana e buscas em áreas de mata
A suposta confissão detalhou ainda que, após constatar o óbito das duas vítimas, Cleiton utilizou a vegetação densa das margens da rodovia para ocultar os corpos, jogando-os em uma área de mata fechada antes de seguir viagem sozinho em direção a Cianorte para planejar sua fuga definitiva. Desde que receberam essas coordenadas informais, equipes especializadas da Polícia Civil, com o auxílio de cães farejadores e peritos do Instituto Médico Legal, realizam buscas minuciosas nos pontos indicados ao longo do trajeto rodoviário entre Paranavaí e Cianorte.
O clima entre os familiares das vítimas oscila entre o desespero e a busca por justiça, especialmente porque a linha de investigação que aponta para a morte das jovens já era defendida internamente pela polícia desde os primeiros dias do desaparecimento, dada a falta de qualquer sinal de vida ou movimentação financeira por parte das primas. A prioridade absoluta das autoridades agora divide-se em duas frentes complementares: localizar os restos mortais de Letícia e Estela para oferecer um sepultamento digno e o fechamento do ciclo de dor para as famílias, e intensificar a caçada humana para capturar Cleiton Antônio da Silva Cruz, cujo poder de mobilidade e fuga foi severamente desestabilizado com a prisão de sua principal base de apoio financeiro no interior paulista.
