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A HIPOCRISIA DE FLÁVIO BOLSONARO: Como a Fortuna de Vorcaro e o Escândalo do Cinema Fantasma Implodem a Direita Enquanto o Governo Sangra por Jaques Wagner

Brasília é um teatro onde a moralidade é ajustada conforme a conveniência da plateia. Nos últimos dias, o epicentro do Caso Master e a figura sombria do ex-banqueiro Daniel Vorcaro lançaram uma sombra devastadora sobre o Congresso Nacional, atingindo em cheio duas figuras centrais de espectros políticos opostos: Flávio Bolsonaro e Jaques Wagner. Contudo, tentar colocar ambas as situações na mesma balança é um erro crasso de cálculo político, ou pior, uma monumental desonestidade intelectual. Enquanto um cacique governista tenta apagar um incêndio localizado no próprio quintal, o herdeiro político do conservadorismo vê seu projeto de poder derreter em praça pública, afogado em mentiras escandalosas, visitas a presidiários e montanhas de dinheiro que atravessam fronteiras para financiar esquemas cinematográficos para lá de suspeitos.

Operação contra Jaques Wagner recoloca Flávio Bolsonaro no jogo

O colapso da narrativa de Flávio Bolsonaro começou com uma mentira deslavada, dita com a frieza de quem acredita na própria impunidade. Quando questionado inicialmente sobre suas ligações com Vorcaro, o senador adotou a clássica postura de distanciamento, afirmando com todas as letras conhecer o ex-banqueiro apenas de nome. A máscara, no entanto, não durou sequer uma troca de estações. Rapidamente, as investigações jogaram luz sobre o esgoto e o Brasil descobriu que a relação ia muito além de meros cumprimentos cordiais em corredores atapetados. Existiam mensagens íntimas, encontros furtivos e, o mais estarrecedor de tudo, pedidos diretos de quantias milionárias. A justificativa oficial para essa transferência massiva de recursos seria a produção de um filme épico para exaltar a memória e a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. Vorcaro, um homem conhecido por ser sempre generoso com quem possui a chave do poder, abriu os cofres com facilidade impressionante. Mas a trama que deveria ir para as telas de cinema se revelou um verdadeiro roteiro de terror para o núcleo familiar bolsonarista.

O buraco negro financeiro que engoliu esses recursos milionários é capaz de deixar qualquer investigador de cabelos em pé. Os milhões extorquidos sob a fachada de patrocínio cultural não foram parar nas mãos de uma produtora renomada ou de cineastas experientes. O destino do dinheiro foi uma empresária de reputação altamente questionável, proprietária de ONGs obscuras e de empresas de fachada que bizarramente misturam produção audiovisual com serviços de instalação de internet Wi-Fi. E o rastro do dinheiro não para nas fronteiras nacionais. Há fortes indícios de que parte dessa fortuna cruzou o continente, aterrissando suavemente em um fundo financeiro nos Estados Unidos, um mecanismo de fachada com ligações umbilicais a um advogado foragido e intimamente próximo a Eduardo Bolsonaro. A cereja deste bolo indigesto, que implodiu a decência do senador, ocorreu quando Vorcaro foi preso e, posteriormente, colocado em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. Flávio não hesitou e foi visitá-lo quase imediatamente. A desculpa pública do parlamentar era de que foi lá para “cortar relações”. O teatro desabou quando o próprio presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto, o desmentiu publicamente em um lapso de sinceridade assustador, afirmando aos quatro ventos que Flávio foi até a casa do banqueiro preso para cobrar parcelas atrasadas em dinheiro que Vorcaro ainda lhe devia. O desespero diante dos fatos é tamanho que as intenções de voto de Flávio, outrora um forte pré-candidato à presidência da República, já começaram a despencar em queda livre nas pesquisas de opinião.

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Do outro lado da trincheira política, a base do governo também respira por aparelhos com o envolvimento de Jaques Wagner, o todo-poderoso líder de Lula no Senado. É inegável que o cacique petista tem muito a explicar para a Justiça e para a sociedade. Mensagens interceptadas por investigadores no celular de um de seus sócios apontam que Wagner estaria inserido em esquemas nebulosos, dando munição pesada para que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, apertasse o cerco de forma implacável. Durante a operação, a Polícia Federal chegou a apreender quarenta e nove mil reais em espécie escondidos na residência do senador. No entanto, para fins de análise política, é fundamental separar as coisas. Ao contrário de Flávio Bolsonaro, cujas ações estão intrinsecamente ligadas ao financiamento de uma máquina eleitoral e afetam diretamente uma futura candidatura presidencial, os atos de Wagner, por mais condenáveis que se provem, respondem exclusivamente à sua própria biografia. Ele agiu por conta própria, movido por interesses paroquiais, e não em nome do governo Lula. O presidente pode sofrer danos colaterais na articulação política, mas o líder baiano terá que arcar sozinho com o peso de sua defesa e sua eventual queda nos tribunais.

O que causa verdadeira espécie na condução desse enredo pela máquina pública, e que revela a verdadeira face do oportunismo em Brasília, é a seletividade da indignação e a atuação teatral de certos atores jurídicos. Enquanto o ministro André Mendonça vaza seletivamente informações e usa conversas de terceiros para emparedar Jaques Wagner, a memória institucional falha convenientemente para aliados da direita. Fica fácil demonizar os quarenta e nove mil reais de Wagner, mas o silêncio é ensurdecedor quando lembramos dos mais de quatrocentos e setenta mil reais encontrados recentemente no armário de Sóstenes Cavalcante, outro aliado de primeira hora do bolsonarismo, que usou a desculpa esfarrapada de que simplesmente “não teve tempo” de ir ao banco depositar a pequena fortuna. No meio desse tiroteio de narrativas, Flávio Bolsonaro ignora sua própria lama. Esquecendo-se da fortuna desviada para sua produtora fantasma e de suas visitas a banqueiros de tornozeleira para cobrar dívidas, o senador tenta surfar na crise petista com um moralismo de vitrine barata. Posando de herói da ética nas redes sociais, ele aponta o dedo para os adversários enquanto seu próprio teto de vidro desmorona sobre a cabeça da oposição. A política brasileira nunca foi para amadores, mas o nível de hipocrisia atingiu um patamar onde a verdade se tornou o item mais raro e descartável da República.