O bolsonarismo vive uma de suas crises mais intensas e internas. O que parecia ser uma movimentação comum dentro da política nacional, se transformou em uma verdadeira guerra pela sobrevivência política de seus líderes. Entre ataques, acusações de fisiologismo, radicalismo e desconfiança, a disputa entre Eduardo Bolsonaro e Ricardo Sales mostra a fragmentação crescente da direita brasileira. E, surpreendentemente, esse embate pode ser a chave para entender o futuro da extrema direita no Brasil.

A Fissura no Núcleo Bolsonarista: O Desgaste de Eduardo Bolsonaro
Nos últimos meses, a política brasileira tem sido marcada por uma crescente desconfiança dentro do próprio bolsonarismo, e o alvo dessa crise interna é ninguém menos do que Eduardo Bolsonaro. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Eduardo havia sido, por muito tempo, visto como o sucessor natural do bolsonarismo. No entanto, sua estratégia de internacionalização e aproximação com o discurso de Trump parece ter enfraquecido seu poder político dentro do país.
A movimentação política de Eduardo Bolsonaro, que envolvia a tentativa de se posicionar como uma figura global de direita, acabou isolando-o politicamente, ao mesmo tempo em que o deixava distante das questões internas do Brasil. Sua mudança para os Estados Unidos, inicialmente vista como uma estratégia para ampliar sua influência política, se revelou um erro grave. Enquanto ele tentava construir uma imagem de líder radical internacional, a política brasileira, de forma rápida e implacável, avançava em uma direção bem diferente, com uma crise econômica crescente e o surgimento de novas lideranças que buscaram estabilizar o país pós-Bolsonaro.
Mas o ponto de inflexão dessa crise se deu quando Eduardo Bolsonaro decidiu apoiar André do Prado para o Senado. Este apoio não foi bem visto pela base radical do bolsonarismo, que passou a acusar André de Prado de ser um nome pragmático, afastado das “raízes ideológicas” do movimento. Para essa base mais radical, a relação de André com o centrão representava uma traição ao discurso antissistema que tanto foi pregado durante o governo Bolsonaro. Ao apoiar um nome vinculado ao centrão, Eduardo Bolsonaro passou a ser visto como parte do “sistema” que ele tanto atacava.

Ricardo Sales: O Radicalismo Como Resposta e a Invasão do Espaço de Eduardo
Ricardo Sales, por outro lado, viu nesse desgaste uma oportunidade política. Ex-ministro de Meio Ambiente durante o governo Bolsonaro, Sales foi um dos principais aliados de Bolsonaro, mas também tem se posicionado como um “outsider” dentro do bolsonarismo. Aproveitando o ressentimento crescente da base radical, Sales passou a se vender como um defensor da verdadeira direita antisistema, distanciando-se das práticas de negociação com o centrão e com os políticos tradicionais.
Sua acusação contra Eduardo Bolsonaro de “fazer bravata” e se distanciar da realidade brasileira é um ataque direto ao núcleo político de Jair Bolsonaro e ao próprio Eduardo. Sales, ao adotar um discurso mais radical, tenta conquistar o eleitorado mais fiel e radicalizado do bolsonarismo, aquele que se sente traído pelos acordos políticos feitos durante o governo do ex-presidente.
Mas essa disputa não é apenas sobre quem é mais radical ou quem representa melhor o legado de Bolsonaro. Essa guerra interna dentro do bolsonarismo é uma batalha pela sobrevivência política, onde cada um tenta se posicionar como o verdadeiro representante de um movimento que agora enfrenta sérias dificuldades de reestruturação.
O Papel de Alexandre de Moraes e o Impacto da Lei da Dosimetria na Crise Bolsonarista
O cenário ficou ainda mais complicado quando o ministro Alexandre de Moraes, do STF, suspendeu a aplicação da Lei da Dosimetria. Essa lei, que tinha o objetivo de reduzir penas para os envolvidos no 8 de janeiro, foi vista por muitos como uma tentativa de suavizar as punições para os aliados de Bolsonaro. A suspensão da lei por Moraes gerou uma onda de reações, principalmente de setores do Congresso Nacional, que começaram a articular uma resposta política.
A pressão para a anistia total, que era uma das bandeiras defendidas pelo bolsonarismo, se intensificou, criando uma situação de tensão entre o STF e o Congresso. A radicalização da direita, que antes se focava no discurso de ataques às instituições, agora se vê envolvida em uma guerra interna, onde até mesmo figuras importantes, como Eduardo Bolsonaro e Ricardo Sales, estão tentando monopolizar o apoio popular.
A Nova Disputa Pelo Legado de Bolsonaro: Quem Herda a Direita Radical?
Agora, a grande questão que paira sobre o futuro da direita no Brasil é quem herdará o capital político bolsonarista. Jair Bolsonaro, embora inelegível até 2030, ainda tem grande influência sobre sua base. No entanto, sua incapacidade de apresentar uma estratégia para resolver a crise interna do movimento radical está deixando um vácuo de poder. E é dentro desse vácuo que figuras como Eduardo Bolsonaro e Ricardo Sales tentam se posicionar como líderes do futuro do bolsonarismo.
Mas o que se vê hoje é uma fragmentação crescente dentro do movimento. Eduardo Bolsonaro, com sua aposta em uma imagem internacional e sua aproximação com a direita global, se distancia da política local. Por outro lado, Ricardo Sales se vê como o verdadeiro representante da direita radical, tentando convencer a base de que a única forma de preservar o legado de Bolsonaro é adotar um discurso mais radical e combativo.
O Impacto nas Eleições de 2026: O Futuro da Direita Brasileira
A crise interna do bolsonarismo tem sérias implicações para as eleições de 2026. A direita brasileira, que antes se mostrava unida sob a liderança de Bolsonaro, agora se vê dividida em facções que disputam o controle da narrativa e do espaço político. A falta de um líder claro para substituir Bolsonaro, somada à crescente desconfiança em relação à sua estratégia, cria um ambiente de incerteza para os próximos anos.
Enquanto isso, figuras como Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Michele Bolsonaro começam a surgir como alternativas políticas dentro da direita. Flávio Bolsonaro, por exemplo, tenta se posicionar como o articulador político dentro do PL, buscando controlar o legado do bolsonarismo sem abrir mão da base radicalizada. Já Tarcísio de Freitas tenta se distanciar da figura de Bolsonaro, buscando uma imagem mais moderada e institucional.
Conclusão: O Futuro do Bolsonarismo Está em Jogo
O bolsonarismo está passando por uma crise interna profunda, com disputas políticas, acusações de traição e uma guerra por seu futuro político. Eduardo Bolsonaro e Ricardo Sales são os principais protagonistas dessa disputa, que reflete a fragmentação da direita brasileira. A guerra pelo legado de Bolsonaro será o principal tema nas eleições de 2026, e o desfecho dessa luta definirá o futuro da política conservadora no Brasil.
Enquanto a direita se fragmenta, o STF e o Congresso continuam a disputar o poder e a narrativa política, com o risco de que a radicalização continue a corroer as estruturas políticas do país. O que está em jogo não é apenas o futuro do bolsonarismo, mas o futuro do Brasil e de sua democracia.