O desespero tomou conta dos corredores sombrios da política fluminense e a corda, como sempre, está arrebentando para todos os lados. O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que já sentiu o hálito quente da Polícia Federal em seu cangote após ser alvo de duas operações policiais, decidiu que não vai afundar sozinho no pântano do escândalo envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro. Em uma manobra de sobrevivência que mistura pânico e delação não oficial, Castro começou a atirar para o alto, mirando diretamente na mais alta corte do país. A estratégia é clara e rasteira: convencer o ministro André Mendonça e os investigadores de que sua relação com Vorcaro era estritamente institucional. Para provar que não era o único a desfrutar das benesses do banqueiro, o político fluminense decidiu arrastar para o centro do furacão nomes do MDB, do Republicanos e, num lance de ousadia extrema, o herdeiro de uma toga poderosa.

A narrativa que Castro tenta emplacar para se desvincular das acusações revela um nível de ostentação e promiscuidade com o dinheiro público que enoja qualquer cidadão pagador de impostos. O epicentro dessa nova fase do escândalo é um evento nababesco realizado em maio do ano passado, em Nova York. Estamos falando de um jantar exclusivo para autoridades que custou a bagatela de sessenta e seis mil reais, seguido por uma inacreditável degustação de uísque avaliada pela Polícia Federal em mais de cinco milhões de reais. É nesse cenário de luxo obsceno que a tragédia financeira do Rio de Janeiro se desenha. Coincidentemente, logo após saborear as bebidas milionárias ao lado de Vorcaro, o governo de Castro despejou impressionantes cento e cinquenta milhões de reais do Rio Previdência – o dinheiro suado dos aposentados do estado – em títulos considerados podres do Banco Master. A conta é simples: enquanto a elite política brindava em Manhattan, o futuro dos servidores fluminenses era jogado no ralo.
No entanto, a parte mais explosiva da defesa desesperada de Castro é a lista de convidados dessa farra internacional. Na tentativa de diluir sua própria culpa e provar que não possuía uma relação de exclusividade criminosa com o banqueiro, o ex-governador relatou a presença de cerca de quarenta pessoas na degustação, incluindo governadores, deputados e figuras carimbadas de Brasília. Mas o nome que fez o mundo político prender a respiração foi o de Rodrigo Fux, filho do eminente ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Segundo os bastidores vazados, o convite VIP era inicialmente destinado ao pai, que não compareceu, deixando a vaga para o filho aproveitar as taças de vinho e uísque financiadas pelo homem forte do Banco Master. É a velha tática de incendiar o circo: ao arrastar o nome de um parente do STF para a roda, Castro manda um recado claro ao sistema de que, se ele cair, a lama vai respingar nas instâncias mais altas da República.

A resposta do herdeiro do STF foi imediata e seguiu a cartilha clássica de quem é pego no contrapé das relações perigosas de Brasília. Ao ser instado a se explicar, o advogado justificou que percebeu rapidamente a informalidade excessiva e o clima suspeito do evento, retirando-se do local às pressas sem ficar muito tempo. Negou veementemente qualquer vínculo profissional, prestação de serviços ou amizade com Daniel Vorcaro e as operações do Banco Master. Contudo, a presença do rapaz no evento milionário levanta um questionamento inevitável e indigesto para a sociedade brasileira: como é possível que, em quase todo escândalo de grandes proporções no Brasil, sempre surja um parente de magistrado da Suprema Corte orbitando os empresários investigados? A linha tênue entre o lobby, o tráfico de influência e o mero acaso parece cada vez mais invisível quando os sobrenomes ilustres da capital federal se cruzam em jantares de luxo financiados por banqueiros sob a mira das autoridades.
O relógio está correndo e o silêncio mafioso que costuma proteger os poderosos começa a apresentar rachaduras irreversíveis. Enquanto Daniel Vorcaro, seus familiares e o ex-presidente do BRB hesitam em entregar os cabeças do esquema, com suas propostas de delação premiada correndo o sério risco de serem sumariamente descartadas, Cláudio Castro desponta como a bomba-relógio que ninguém previu. Sem nada a perder e aterrorizado pela possibilidade de amargar um longo período no esquecimento político ou atrás das grades, ele já demonstrou que está mais do que disposto a abrir a boca e dar nomes aos bois. Se o núcleo duro do escândalo financeiro se recusar a falar, o ex-governador fluminense fará esse favor à nação. A fogueira já foi acesa e, pelo visto, não faltará lenha de alta plumagem para manter as chamas do Caso Master queimando por muito tempo. Resta saber quem será o próximo a ter a biografia servida junto com o uísque de cinco milhões de reais.