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EM 2005 ENTERREI MINHA MÃE… TRÊS ANOS DEPOIS, ELA VEIO ME DEIXAR UM RECADO NO CEMITÉRIO!

Em 2008, três anos depois da morte da minha mãe, fui até ao cemitério municipal de Ourinhos visitar o túmulo dela depois de ter tido um sonho que me deixou perturbado. Ajoelhado ali, orando pela alma dela, senti uma presença e o recado que ela me deixou naquele cemitério foi uma das coisas mais difíceis que já ouvi na minha vida, porque envolvia algo que eu carregava havia 3 anos.

Uma mágoa que nunca mais quis tocar. O meu nome é Luís Fernando, tenho 82 anos e esta é a minha história em minutos. Eu tinha 61 anos nesse dia e eu pensava que já tinha visto coisa difícil na vida, mas nada me preparou para aquilo. A minha mãe tinha sido tudo para mim, uma mulher simples, trabalhadora, que nos criou com o que tinha.

E ali estava ela, dentro daquele caixão de madeira escura. Os últimos dois anos tinham sido pesados demais. A minha mãe tinha Alzheimer e quem conhece esta doença sabe o que ela faz com uma pessoa. Houve um dia que ela me olhou-o nos olhos e não sabia quem eu era. Chamava por nomes que não reconhecia. Ficava agitada à noite, sem compreender onde estava.

E eu ali ao lado, segurando a mão dela, tentando trazê-la de volta de um lugar que não conseguia alcançar. Eu cuidei da minha mãe em casa. Dava banho, mudava de roupa, preparava a comida, ficava acordado quando ela não dormia. A minha vida parou. Eu não me arrependo disso. Ela fez muito mais por mim quando era pequeno. Era o mínimo que podia fazer.

Mas eu não fiz sozinho porque quis ser herói, não. Eu fiz sozinho porque não tive escolha, porque o meu irmão, que morava a poucos quarteirões dali, praticamente não apareceu. O Marcos ligava de vez em quando, perguntava como é que ela estava, dizia que ia aparecer, mas a semana passava, o mês passava e ele não vinha.

Aprendi a parar de esperar, aprendi a não contar com ele e fui tocando aquela vida da forma que dava, um dia de cada vez, até ao dia em que a minha mãe fechou os olhos pela última vez. E depois veio o enterro, toda a gente querer dar um abraço, dizer uma palavra de conforto. Eu agradecia, acenava com a cabeça, mas por dentro eu estava vazio.

E foi quando vi o meu irmão chegar. Marcos entrou por aquele portão de fato, cabelo penteado, como se tivesse vindo de uma ocasião qualquer. Cumprimentava as pessoas, abraçava um conhecido, ficava de conversa. E eu fiquei parado, a olhá-lo de longe, tentando perceber o que estava a sentindo. Porque o que veio não foi só tristeza, foi uma coisa diferente, uma coisa que eu não esperava sentir naquele lugar, naquele momento.

O ar em redor de mim pareceu mudar. Eu não sei explicar direito, mas foi como se o peso que eu já transportava ficasse mais denso de repente. Uma pressão que desceu pelos ombros e foi para o peito. E aquilo que estava guardado dentro de mim, aquele mágoa de do anos vendo a minha mãe se apagar sozinha enquanto ele não aparecia, subiu de uma vez.

Era como se algo que eu nem sabia que existia dentro de mim tivesse aberto. Os punhos fecharam sozinhos, a vista embaraçou e Fiquei ali parado de longe, olhando para o meu irmão sorrir para um conhecido enquanto mal conseguia respirar direito. O funeral acabou. As pessoas foram indo embora aos poucos e quando só restava a família, aproximei-me de Marcos e as palavras saíram antes de eu pensasse.

Perguntei-lhe como era que tinha coragem de aparecer ali de terno, sendo que nos últimos dois anos a as pessoas mal viram a sombra dele e aquilo foi suficiente para que um silêncio e uma mágoa mais forte começassem ali naquele cemitério em cima daquela terra. recém fechada. Depois desse dia, eu não falei mais com o meu irmão.

Três anos se passaram e a vida continuou. Eu fui tocando as coisas como dava, o trabalho, a rotina, os compromissos de todos os dias. Por fora parecia que estava tudo bem, mas por dentro sabia que tinha uma coisa que eu tinha guardado num canto e que não queria mexer. E o nome do meu irmão tornou-se uma coisa que eu aprendi a não falar.

Ourinhos é uma cidade pequena. Toda a gente se conhece, todo mundo sabe da vida de toda a gente. De vez em quando chegava uma notícia de Marcos por algum conhecido. Eu ouvia, acenava com a cabeça e mudava de assunto. Eu não queria saber. Era mais fácil fingir que aquela parte da minha vida tinha ficado lá atrás, sepultada juntamente com a minha mãe naquele cemitério.

Os anos foram passando e aquilo foi-se tornando uma ferida fechada por fora, mas que ainda doía. Mas há coisa que a gente não controla. E o que aconteceu numa madrugada de uma Terça-feira de 2008, não estava preparado para aquilo de maneira nenhuma. Acordei de repente. O coração estava acelerado, o corpo suado e o quarto estava escuro.

Fiquei parado na cama durante um tempo sem compreender o que tinha acontecido. Sabia que tinha sido um sonho, mas era diferente de tudo o que eu já tinha sonhado antes. Era demasiado real para ser apenas um sonho. No sonho vi minha mãe. Não aquela dos últimos anos, não aquela que o Alzheimer tinha tomado aos poucos.

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Era ela da maneira que eu guardava na memória de quando era jovem e ela ainda tinha saúde e disposição. O rosto dela estava tranquilo, sem aquela confusão nos olhos que aprendi a reconhecer nos últimos tempos de vida dela. E ela estava no cemitério, do lado do próprio jazigo. Eu via tudo com clareza, as flores, as lápide, o chão em redor.

Ela estava ali parada a olhar para mim com um olhar que eu nunca tinha visto nela em vida. Era um olhar sério, como se ela precisasse de me dizer alguma coisa urgente. E ela começou a mexer os lábios. Eu tentei ouvir. No sonho aproximei-me. Fiquei a prestar atenção, mas não saía nada. Os lábios se moviam e eu não conseguia escutar nenhuma palavra.

Nenhum som chegava até mim, só aquele olhar e uma angústia que foi crescendo no seio do sonho e que acordei carregando no peito. Uma angústia que eu não sabia de onde vinha, nem o que significava. Fiquei na cama a olhar para o teto por um bom tempo. Tentei convencer-me de que era apenas um sonho, que a saudade por vezes prega-nos partidas, que era normal sonhar com quem perdemos, mas aquilo não me saía da cabeça.

Diferente de todos os outros sonhos que esquecia-me logo depois de acordar, este ficou e juntamente com ele uma angústia que foi crescendo nos dias seguintes. E eu Fui compreendendo aos poucos que não era um sonho comum. Na sexta-feira à noite, eu estava sentado na sala e dei por mim pensando no cemitério, no jazigo da minha mãe, enquanto tempo fazia que eu não ia lá, e aquela vontade de ir apareceu.

Era uma vontade sem explicação que veio e que não mais se foi embora. Eu tentei ignorar, mas ela ficou ali a me a picar a noite toda. E no sábado de manhã arranjei umas flores e fui. Eu sabia que não era uma visita comum. Não sabia o que eu procurava. Não sabia o que eu esperava encontrar. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava de ir.

E depois dessa semana toda, com aquela angústia a crescer a cada vez que me lembrava do sonho da minha mãe, decidi ouvir aquilo que estava a sentir. O cemitério municipal de Ourinhos naquela manhã de sábado, estava quieto. Era cedo ainda. O sol não tinha aquecido direito e tinha muito pouca gente por ali. Eu entrei por aquele portão com as flores na mão e senti aquela coisa que o cemitério tem.

Um silêncio diferente do normal. É um silêncio que parece que pesa. O cheiro das flores espalhadas pelos túmulos chegava lentamente, misturado com o ar da manhã. E fui andando devagar, sem pressa, no caminho que já conhecia. Eu não tinha ido ao cemitério há um bom tempo. Depois do funeral da minha mãe, voltei algumas vezes nos primeiros meses. Depois fui espaçando.

A vida foi puxando para outros lados e as visitas foram ficando mais raras. Mas eu nunca esqueci-me do caminho até ao túmulo dela. Aquele caminho ficou guardado dentro de mim de uma forma que eu acho que nunca vai sair. Eu andava e ia-me lembrando de cada vez que tinha feito aquele mesmo percurso.

Quando cheguei ao túmulo dela, parei por um momento antes de aproximar-me. Fiquei a olhar para lápide de longe. Trs anos já tinham passado. E olhando para aquela pedra, senti uma saudade que eu pensava que tinha aprendido a segurar. Mas ela veio calada, sem aviso, e apertou o peito de um jeito que precisei de respirar fundo antes de dar mais um passo.

Então eu me aproximei, coloquei as flores com cuidado e ajoelhei-me ali à frente. Eu juntei as mãos e comecei a rezar. do jeito simples, sem cerimónias, sem ficar à procura da palavra certa. Eu falei com a minha mãe da maneira que eu falava com ela quando ela era viva, com respeito, e pedi pela alma dela. Pedi que ela estivesse bem onde estivesse.

E foi em algum momento no meio daquela oração, que alguma coisa mudou. Eu não sei dizer exatamente quando, mas primeiro eu Percebi que o silêncio em redor ficou diferente, mais fechado, como se o mundo lá fora tivesse ficado mais longe de repente. E então senti uma presença. Não se consegue explicar bem o que é isto para quem nunca sentiu, mas é uma sensação de que não está sozinho.

Não abri os olhos, apenas continuei orando com os olhos fechados. O coração tinha começado a bater um pouco mais forte, mas não era medo o que eu estava sentindo. E depois senti um peso no o meu ombro direito, suave, como uma mão que pousa com cuidado, da forma que a minha mãe fazia quando eu era criança e ela queria acalmar-me sem precisar de dizer nada.

Fiquei imóvel, não me movi, não Abri os olhos, fiquei ali a receber aquilo, uma calma que vinha de fora para dentro e foi ocupando o espaço que a angústia daquela semana toda tinha deixado. Fiquei assim durante algum tempo, com os olhos fechados, ajoelhado diante do túmulo da minha mãe, sentindo aquela presença do lado e aquele peso suave no ombro e aquela calma estranha que eu não tinha sentido em muito tempo.

Então foi quando o pensamento chegou. Não foi uma voz, não foi nada que ouvi. Foi um pensamento que apareceu dentro da minha cabeça, mas que não era meu. E esse pensamento dizia: “Vai ter com o teu irmão”. Hoje fiquei parado com aquilo a ecuar por dentro. E a primeira coisa que veio depois foi a mágoa, aquela mágoa velha que tinha aprendido a não mexer.

Ela voltou depressa, como se tivesse à espera aquela brecha. E eu pensei lá dentro de mim, porque é que eu iria ter com ele, mãe, depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo o que não fez, depois do que foi dito naquele cemitério há três anos? Mas a certeza não se foi embora. Ficou ali firme, como se não estivesse nem um pouco interessada na minha mágoa, nem nas minhas perguntas.

Simplesmente ficou. E eu sabia, sem conseguir explicar que aquilo não era sugestão, era um recado e que eu precisava obedecer. E quando me levantei, os joelhos doíam. Eu olhei paraa lápide da a minha mãe uma última vez e saí a andar com três anos de mágoa de um lado e um recado que não pedi ao outro. Eu não sabia o que ia encontrar em casa do meu irmão, não sabia o que ia dizer quando a porta abrisse, mas eu sabia que ia, porque nunca fui de desobedecer a ela em vida. Não ia começar agora.

Eu saí do cemitério e fui caminhando em direção à casa do Marcos. Não apanhei autocarro, não chamei ninguém, fui a pé. Precisava daquele tempo para pensar. ou talvez precisasse exatamente do contrário, de não pensar, de só andar e deixar as pernas me levar até lá antes que eu mudasse de ideias, porque uma parte de mim ainda resistia, uma parte de mim ainda perguntava o que estava a fazer indo a casa de um homem com quem eu não trocava uma palavra há 3 anos.

A casa do Marcos ficava a cerca de 20 minutos a pé do cemitério, mas naquela manhã de sábado, aquele caminho parecia diferente, mais longo, como se cada passo pesasse um pouco mais do que o anterior. E a mágoa que eu carregava no peito foi ficando mais quieta à medida eu chegava mais perto. Não foi embora, só ficou quieta.

E quando cheguei à frente da casa, parei no passeio por um momento. casa estava com as janelas encerradas em plena manhã. A calçada estava como se fizesse tempo que ninguém varria. Eu bati palmas e fiquei esperando. Por dentro, o coração estava acelerado de uma forma que eu não esperava. Demorou um pouco para que ele aparecer, até que ouvi o barulho da porta a abrir.

Eu não reconheci o meu irmão de imediato. Precisei de um segundo. Marcos estava irreconhecível, emagrecido de uma forma que assustava, o rosto encavado, os olhos encovados com um olhar que nunca tinha visto nele. Estava de roupa amarrotada, como se tivesse dormido com ela. E atrás dele a casa estava às escuras. Eu fiquei no portão, olhando para ele sem saber o que dizer.

Também não disse nada de imediato. Só me olhou com uma mistura de surpresa e de outra coisa que eu não soube nomear na hora. Não era a alegria de me ver, não. Era mais como o olhar de quem está tão cansado que até a surpresa sai devagar. Passados ​​alguns segundos, abriu o portão e deixou-me entrar. E entrei.

O interior da casa confirmou aquilo que o rosto dele já me tinha dito. Prato em cima da mesa, coisa fora do lugar, um silêncio pesado que tomava cada canto daquele espaço. Aquela casa tinha o ar de um lugar onde a vida tinha abrandado até quase parar. E o meu irmão fazia parte daquele quadro. A gente ficou um tempo em silêncio, de pé, na sala, sem estar sentado, sem saber muito bem como começar.

Três anos de palavras engolidas entre nós e nenhum dos dois sabia por onde pegar. Eu olhava para ele e ele olhava para mim. E eu Pensei no cemitério, na presença que eu tinha sentido, naquele pensamento que não era meu, que tinha chegado tão claro e respirei fundo. Eu disse que precisava contar-lhe uma coisa, que ele podia achar loucura, podia não acreditar, mas que eu precisava de falar.

Ele ficou quieto e deixou-me falar. E contei tudo. Contei do sonho daquela madrugada de terça-feira. Do jeito que a nossa mãe apareceu de pé ao lado do próprio túmulo, contei da angústia que foi crescendo durante a semana, de ter ido ao cemitério nessa manhã, sem saber direito o porquê, e da presença que eu sentia-se ajoelhado diante da lápide dela, do peso no ombro, da calma que veio e do pensamento que chegou claro, sem ser meu, vai hoje ter com o teu irmão.

Eu falei tudo isto sem enfeitar, do jeito seco que tenho de contar as coisas. E enquanto eu falava, o Marcos ficou imóvel. Os olhos dele foram enchendo lentamente. Não interrompeu uma única vez. Só ficou a ouvir-me com aquele olhar que foi mudando à medida que as palavras iam chegando. Quando terminei, o silêncio voltou.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. E então o meu irmão começou a chorar. Não foi um choro contido, não era um choro que vinha de um lugar fundo onde guardamos as coisas que não consegue dizer. Um choro de quem estava a segurar muita coisa há muito tempo e que finalmente não aguentou mais tempo segurar. Eu fiquei parado olhando para ele e algo lá dentro de mim começou a ceder.

E quando ele conseguiu falar, disse-me uma coisa que eu não esperava ouvir. Ele diz que não foi ver a nossa mãe porque não sabia lidar com aquilo, que quando o Alzheimer começou e ele foi uma vez e viu o estado dela, ficou com um medo que não soube explicar bem, um medo de ver ela assim, de não reconhecer mais a mulher que ela era e que ele foi se afastando-se, foi deixando passar até que tornou-se demasiado difícil de voltar.

Ele disse que carregava aquela culpa todo dia e pediu perdão. Pediu-me perdão e pediu-lhe perdão, que já não estava aqui para ouvir. Eu ouvi tudo aquilo em silêncio. Era a primeira vez que eu ouvia o lado dele. Em 3s anos, tinha carregado a minha versão daquela história sem nunca ter ouvido a dele. E ouvindo ali naquela sala escura, eu não consegui mais sustentar só a minha mágoa, porque era um homem que tinha errado da maneira que a gente erra quando tem medo e não sabe pedir ajuda.

Então disse-me que estava mal há meses, que estava sozinho, sem rumo, sem vontade de nada, e que nessa manhã ele tinha acordado com uns pensamentos que não eram bons. Ele não foi além disso. Mas percebi. E eu também entendi porque a minha mãe me tinha mandado até lá naquele dia. Engoli o que ainda restava da minha mágoa e olhei para o meu irmão e disse: “Ainda sou teu irmão e vim aqui porque a nossa mãe pediu.

Aceitas a minha ajuda?” O abraço que veio depois não precisou de palavras. O meu irmão aproximou-se e a gente se abraçou ali no meio daquela sala escura. Dois homens idosos, cada um transportando o o seu peso, cada um com a sua parte naquela história toda. E naquele abraço senti que alguma coisa que estava quebrada há 3 anos começou a juntar-se de novo.

Não estava ainda corrigido, longe disso, mas estava a começar. E às vezes começo é tudo o que precisamos. Sou um homem de 82 anos hoje. E olhando para trás, para tudo o que aconteceu desde esse sábado de 2008, fico a pensar em como a vida pode mudar de direcção num só dia, numa única manhã. Naquela manhã, saí de casa com flores na mão, sem saber direito porque ia ao cemitério.

E voltei com uma coisa que não esperava encontrar. Voltei com o meu irmão de volta. Mas preciso de ser honesto. Não foi simples, não. Um abraço não apaga três anos de silêncio. Não apaga as palavras proferidas no enterro. Não apaga a mágoa de quem ficou a cuidar sozinho. Não apaga as culpas de quem ficou longe.

A gente saiu daquela sala nesse dia diferente, sim. Mas o caminho que veio depois foi longo. Houve um dia bom e houve dia difícil. Houve um momento em que a mágoa voltou sem avisar e eu precisei de escolher novamente o que fazer com ela. Eu comecei a visitar o meu irmão com regularidade. No início era uma vez por semana.

Depois foi ficando mais frequente. A gente foi retomando o que tinha perdido aos poucos. Não tinha como apanhar tudo de volta de uma vez. Trs anos de silêncio deixam uma distância que demora a fechar. Mas fomos um dia de cada vez, uma visita de cada vez, uma conversa de cada vez. Marcos foi aceitando ajuda, procurou um médico, iniciou um acompanhamento.

Não foi fácil para ele admitir que precisava de apoio. Homem da sua geração, criado à maneira que fomos criados, achar que precisa de ajuda não é uma coisa simples de engolir. Mas ele foi e eu fui junto quando precisou que alguém fosse juntos, porque era isso que a nossa mãe tinha-me pedido. E hoje o meu irmão está internado, necessita de cuidados que eu não consigo dar em casa.

Ele está num local onde há acompanhamento, onde há pessoas a cuidar dele direto. E eu vou lá todas as semanas, sento-me ao lado dele, fico um tempo, converso quando ele quer conversar e fico quieto quando ele não quer. Seguro a mão dele quando ele precisa que alguém o segure. E penso na minha mãe.

Penso em quantas vezes ela ficou do lado dele quando era pequeno e precisava dela. E eu entendo que estou a fazer agora o que ela faria se ainda cá estivesse. Tem uma coisa que aprendi com tudo isto. Perdoar não foi um momento. Não foi aquele abraço na sala escura, não foi aquela visita, não foi um dia específico em que acordei e estava tudo bem.

Perdoar foi uma escolha que precisei de fazer todos os dias. Uns meses depois de tudo aquilo, voltei ao cemitério. Fui até o túmulo da minha mãe outra vez. Levei flores, ajoelhei, rezei, mas desta vez foi diferente. Eu não estava a carregar aquela angústia da semana. Não estava com o peito apertado de mágoa como no enterro. Estava só eu e ela.

E eu fiquei ali em silêncio durante um bom bocado, sem pedir nada, sem esperar nada. Não veio presença dessa vez, não veio peso no ombro, não veio pensamento que não fosse meu. Não aconteceu nada do que tinha acontecido da outra vez, mas veio uma coisa diferente, uma leveza, uma leveza no peito que foi chegando lentamente enquanto ali fiquei, como se algo estivesse a dizer-me que estava tudo certo, que o recado tinha sido cumprido, que ela podia descansar. E eu também.

Eu Não sei explicar por palavras certas o que aconteceu naquele cemitério em 2008. Nunca soube. Não tenho como provar nada. Não tenho como convencer ninguém de nada. Só sei o que senti. Só sei o que vivi e sei o que teria acontecido se eu tivesse ignorado aquele recado. A minha mãe não foi embora. Eu acredito nisso com tudo o que tenho.

Ela só mudou de lugar e continuou a cuidar dos dois da única maneira que ainda podia, do lado de lá, naquele cemitério. E se eu puder levar uma coisa desta história para quem me está a ouvir agora é esta: Não deixa que a mágoa dure mais do que ela precisa, porque nunca sabemos quanto tempo ainda tem e tempo perdido com silêncio não volta mais.

Eu sei que há pessoas aí que já viveram uma coisa semelhante, uma perda, uma mágoa guardada, um silêncio que durou demasiado tempo e talvez até um sonho que ficou na cabeça mais do que deveria. Se acredita que o amor de uma mãe não se fica pela morte, se acredita que às vezes nós recebe um recado de um lugar que não sabe explicar, por isso deixa o seu eu acredito aqui nos comentários.

Um ótimo fim de semana. Fiquem com Deus e até ao próximo relato.