Uma visita ao atacarejo que virou retrato do custo de vida
Fazer supermercado no Brasil deixou de ser tarefa comum para virar exercício de cálculo, comparação e paciência. A visita a uma unidade do Assaí Atacadista, uma das maiores redes de atacarejo do país, mostrou na prática o que milhões de famílias já sentem todo mês: mesmo comprando itens básicos, escolhendo marcas mais em conta e fugindo de exageros, a conta pesa.
O teste foi simples. A proposta era montar uma cesta com produtos essenciais, inspirada na cesta básica medida pelo Dieese, que acompanha itens como carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. O próprio Dieese lista esses produtos em seu sistema de consulta da Cesta Básica Nacional.
No fim da compra, 13 produtos passaram pelo caixa por R$ 185,23. Não era compra de luxo. Não tinha vinho, chocolate importado, salmão, queijo fino ou supérfluos. Era o arroz, o feijão, o óleo, o café, o leite, a carne, a banana, o pão e outros itens do cotidiano. Ainda assim, o valor assusta.

Assaí no centro da discussão
A escolha do Assaí não foi por acaso. A rede aparece no centro de debates recentes sobre o setor de atacarejo, especialmente após divulgação de resultados financeiros pressionados. A CNN Brasil informou que o Assaí teve lucro líquido de R$ 86 milhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 46,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse dado ajuda a entender a contradição do varejo alimentar no Brasil. De um lado, consumidores reclamam que tudo está caro. De outro, empresas do setor enfrentam margens apertadas, dívida, custos financeiros e competição pesada. Ou seja, o brasileiro paga caro, mas isso não significa automaticamente que toda rede esteja nadando em lucro. A conta está pesada para todos, só que pesa muito mais para quem vive de salário.
Feijão, arroz e farinha: o básico que já não parece tão básico
A compra começou pelos grãos e carboidratos. O feijão preto escolhido custava R$ 4,69 o quilo. Havia opções mais caras, como marcas conhecidas acima de R$ 5. O arroz branco tipo 1 apareceu na faixa de R$ 3,99 no varejo, enquanto a farinha de trigo ficou perto de R$ 3,95.
À primeira vista, são preços que podem parecer “controlados” se analisados isoladamente. O problema é que ninguém vive de um produto só. O drama aparece quando tudo se soma. O quilo do feijão, o quilo do arroz, a farinha, o açúcar e o óleo formam a base da cozinha brasileira, e cada pequena alta nesses produtos se multiplica dentro de casa.
Não é à toa que a cesta básica virou uma espécie de termômetro emocional da economia. Quando ela sobe, o trabalhador sente antes de qualquer gráfico.
Óleo, leite e café: onde a facada aparece
O óleo de soja foi encontrado por R$ 6,59 na embalagem de 900 ml. O detalhe da embalagem não passa despercebido. Muita gente ainda lembra do tempo em que produtos eram vendidos em volumes mais generosos. Hoje, o consumidor paga caro e, muitas vezes, leva menos quantidade. É a famosa reduflação, aquela inflação silenciosa em que o preço nem sempre explode, mas o pacote encolhe.
O leite integral escolhido, de marca mais barata, saiu por R$ 4,95 o litro. Marcas mais conhecidas apareciam acima de R$ 5, chegando perto de R$ 6,50. Já o café, um dos símbolos da mesa brasileira, veio como uma das maiores pancadas: pacotes de 500 g na faixa de R$ 27,90 a quase R$ 30.
O café é um caso emblemático. Para muita família, não é luxo. É rotina, hábito, energia para trabalhar cedo. Quando o café pesa no orçamento, é sinal de que até o pequeno prazer da manhã virou item de planejamento.
Carne, frango e o velho cálculo da proteína
Na seção de carnes, o miolo de alcatra apareceu por cerca de R$ 55,90 o quilo. Uma peça escolhida no carrinho passou de R$ 80. Já o filé de peito de frango estava em torno de R$ 15,99 o quilo, mostrando por que tanta família substitui carne bovina por frango ao longo do mês.
A carne bovina segue sendo um dos itens que mais mexem com a percepção de custo. Mesmo quando há promoção, o consumidor precisa fazer conta. Levar uma peça de carne pode significar abrir mão de outros produtos. E, na prática, muitas casas brasileiras já aprenderam a esticar mistura, reduzir porções, trocar cortes e escolher dias específicos para comer carne.
Esse é o Brasil real. O país do churrasco no discurso e da matemática apertada na geladeira.
Pão, tomate, batata e banana: pequenos itens, grande impacto
O pão francês foi encontrado a R$ 16,90 o quilo. A batata lavada custava R$ 8,99 o quilo. O tomate salada apareceu a R$ 11,89 o quilo. A banana prata, por sua vez, estava a R$ 9,99 o quilo.
Esses itens mostram uma verdade simples: feira e hortifrúti também deixaram de ser refúgio barato. Tomate, batata e banana oscilam muito conforme safra, clima, transporte e região, mas o impacto para o consumidor é imediato. Quando o tomate passa de R$ 10, a salada some da mesa. Quando a banana encosta em R$ 10, a fruta do lanche vira escolha pensada.
É o tipo de inflação que não precisa de palestra. O consumidor entende no caixa.

A conta final: R$ 185,23 por uma compra modesta
O carrinho fechado com 13 produtos custou R$ 185,23. O valor impressiona porque não representa uma compra completa do mês. Não inclui produtos de higiene pessoal em quantidade suficiente, limpeza doméstica ampla, mistura para vários dias, itens infantis, gás, remédios ou despesas de transporte.
É uma compra simbólica, quase didática. E justamente por isso dói. Se uma seleção básica já passa de R$ 185, imagine uma família tentando fazer compra mensal completa com salário limitado, aluguel, luz, internet, remédio e passagem.
O vídeo termina com a doação das compras a duas pessoas encontradas na rua, o que dá à cena um tom humano. Mas a generosidade individual não resolve a estrutura do problema. Ela apenas ilumina, por alguns segundos, a dureza que muita gente enfrenta todos os dias.
O atacarejo ainda vale a pena?
O atacarejo costuma oferecer vantagem para quem compra em maior quantidade. Produtos no atacado podem sair mais baratos quando levados em fardos, caixas ou múltiplas unidades. O problema é que o brasileiro endividado nem sempre tem dinheiro para comprar em volume.
Esse é o paradoxo cruel: quem tem mais dinheiro consegue comprar mais barato. Quem tem pouco compra no varejo, paga mais por unidade e volta ao mercado várias vezes. A economia de escala, tão celebrada nos manuais de gestão, muitas vezes funciona contra o pobre.
Portanto, sim, o atacarejo pode valer a pena. Mas vale mais para quem consegue se planejar, armazenar e comprar em quantidade. Para quem vive no limite, até a promoção pode ficar fora de alcance.
Conclusão: supermercado virou espelho da crise doméstica
A visita ao Assaí mostra que a discussão sobre custo de vida não cabe em slogan político. Não basta dizer que “a economia está bombando” quando o consumidor olha para o carrinho e sente que está deixando metade do salário no caixa. Também não basta culpar apenas o mercado, porque a cadeia envolve produtor, transporte, imposto, juros, aluguel, energia, margem e concorrência.
Mas uma coisa é incontestável: o brasileiro está pagando caro para comer o básico. E quando o básico fica caro, todo o resto vira luxo.
O carrinho de R$ 185,23 não é apenas uma compra. É um retrato. Retrato de um país onde muita gente trabalha o mês inteiro e ainda precisa escolher entre marca, quantidade e dignidade. O supermercado virou a urna silenciosa da economia: ali, diante do caixa, o brasileiro vota todos os dias com o bolso — e quase sempre sai derrotado.