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Lojas vendem muito, mas lucram quase nada: queda no comércio revela um futuro difícil para a economia brasileira

O balanço do Assaí acendeu um alerta que vai além do varejo

O resultado do Assaí no primeiro trimestre de 2026 caiu como um sinal vermelho sobre a economia brasileira. A maior rede de atacarejo do país registrou receita líquida de R$ 18,64 bilhões entre janeiro e março, um número que, à primeira vista, parece gigantesco. Mas o dado que realmente preocupa está no fim da linha: o lucro líquido foi de apenas R$ 86 milhões, uma queda de 46,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Em uma empresa que movimenta quase R$ 19 bilhões em apenas três meses, esse lucro representa uma margem extremamente apertada.

O Assaí não é uma loja pequena, nem uma operação desconhecida. É um dos símbolos do consumo popular brasileiro. É para lá que muitas famílias vão quando precisam economizar na compra do mês. É também onde pequenos empreendedores compram produtos para abastecer lanchonetes, marmitarias, carrinhos de cachorro-quente, hamburguerias, deliveries e pequenos mercados de bairro. Quando uma empresa desse tamanho vende bilhões, mas vê o lucro encolher quase pela metade, o problema não pode ser tratado como detalhe contábil. É um retrato direto da pressão sobre o consumidor, sobre o comércio e sobre a economia real.

Movimento na loja não significa lucro no caixa

Uma das maiores ilusões no varejo é confundir loja cheia com empresa saudável. Um supermercado pode ter fila, carrinho circulando, estacionamento movimentado e ainda assim operar com margem mínima. Isso acontece porque vender alimento básico exige volume enorme, custo logístico alto, reposição rápida, controle de perdas, negociação pesada com fornecedores e uma estrutura cara para funcionar todos os dias.

No caso do atacarejo, essa pressão é ainda mais dura. O modelo depende de preço baixo. Para atrair o consumidor, a rede precisa sacrificar parte da margem. Quando o consumidor compra menos, troca marcas melhores por produtos mais baratos e reduz o volume do carrinho, o faturamento pode até parecer resistente, mas o lucro começa a sumir. É exatamente esse tipo de sinal que apareceu nos números recentes do setor.

Levantamentos do varejo alimentar mostraram que, no primeiro trimestre de 2026, o atacarejo foi o canal mais pressionado, com queda de 1% no faturamento e retração de 3,8% nas unidades vendidas na comparação com o mesmo período de 2025. O varejo alimentar até registrou alta nominal em alguns recortes, mas abaixo da inflação e com queda na quantidade de itens vendidos, o que indica perda real de força no consumo.

O consumidor continua comprando, mas está comprando menos

O brasileiro não deixa de ir ao supermercado. Ele precisa comer. Mas muda a forma de comprar. O arroz continua no carrinho, mas talvez em marca mais barata. A carne dá lugar ao frango. O azeite vira óleo. O biscoito de marca conhecida perde espaço para uma opção mais simples. O produto de limpeza é escolhido pelo preço, não mais pela preferência. O que antes era uma compra do mês, com algum conforto, vira uma lista de sobrevivência.

Essa mudança parece pequena, mas para o varejo é devastadora. Se milhões de famílias reduzem dois, três ou cinco itens por compra, a perda acumulada é enorme. Se o consumidor deixa de comprar produtos de maior margem, como bebidas, itens de higiene premium, congelados, utilidades domésticas e produtos não essenciais, o supermercado vende o básico, mas ganha menos. E vender só o básico, com margem comprimida, não sustenta expansão, emprego e investimento por muito tempo.

Juros altos sufocam famílias e empresas

O grande vilão desse cenário é o custo do dinheiro. Com a Selic em patamar elevado, perto de 14,75% ao ano no período citado, o crédito fica caro para todos: consumidor, pequeno empresário, grande varejista e indústria. A família paga mais caro no cartão, no financiamento, no cheque especial e no empréstimo pessoal. A empresa paga mais caro para rolar dívida, comprar estoque, abrir loja, manter capital de giro e investir em tecnologia.

Dados do Banco Central citados pela CNN Brasil mostram que o endividamento das famílias subiu para 49,9% da renda acumulada em 12 meses, enquanto o comprometimento da renda mensal com dívidas chegou a 29,7% em fevereiro. Em português claro: quase um terço do dinheiro que entra na casa do brasileiro já sai para pagar dívida antes mesmo de qualquer nova decisão de consumo.

É por isso que a conta não fecha. O trabalhador pode até estar empregado, mas isso não significa que tenha dinheiro sobrando. Pode até receber um reajuste, mas se aluguel, alimentação, energia, transporte, escola, remédios, juros e parcelas sobem ao mesmo tempo, o ganho desaparece. A renda nominal pode subir, mas o poder de compra real continua apertado.

O caso GPA mostra que o problema é estrutural

O Assaí não está sozinho. O Grupo Pão de Açúcar, uma das redes mais tradicionais do país, protocolou recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida bilionária. Reportagens recentes apontaram um plano envolvendo cerca de R$ 4,5 bilhões a R$ 4,6 bilhões em dívidas, com renegociação junto a credores financeiros.

Esse dado é relevante porque mostra que o problema não está limitado a uma marca ou a um erro pontual de gestão. Grandes redes estão ajustando operações, renegociando dívidas, fechando lojas, segurando investimentos e tentando sobreviver em um ambiente onde vender muito não garante lucrar bem. Se gigantes sofrem, o pequeno comerciante sente ainda mais.

O mercadinho de bairro não tem acesso ao mesmo crédito. A loja de material de construção não tem poder de negociação com bancos. A pequena padaria não consegue absorver energia mais cara, aluguel reajustado, fornecedores pressionando preço e cliente comprando fiado. O dono da lanchonete que compra no atacarejo também está espremido, porque seu cliente final está cortando gasto com delivery, lanche e consumo fora de casa.

As bets pesam, mas não explicam tudo

As apostas online entraram com força no debate sobre consumo. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio, divulgado em abril de 2026, estimou que brasileiros gastam mais de R$ 30 bilhões por mês com bets, um volume capaz de afetar orçamento doméstico, inadimplência e consumo, especialmente entre famílias de menor renda.

O impacto é real e não deve ser minimizado. Quando uma parte da renda que poderia ir para supermercado, farmácia, roupas, serviços ou pagamento de dívidas vai para apostas, o comércio perde. Mas também é preciso cuidado para não transformar as bets no único bode expiatório da crise de consumo. O problema é maior. A dívida cara, os juros altos, a inflação percebida no cotidiano e a falta de sobra no salário têm peso estrutural muito mais profundo.

A aposta online pode agravar o buraco. Mas o buraco já existia. Ele foi cavado por anos de crédito caro, renda apertada, consumo parcelado, famílias dependentes do cartão e empresas operando com margens cada vez menores.

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O varejo é o termômetro mais sincero da economia

Governos podem apresentar indicadores positivos. Podem falar de emprego, renda média, programas de renegociação de dívidas e crescimento do PIB. Mas o varejo revela uma verdade mais direta: se o consumidor tem dinheiro, ele compra; se não tem, ele corta.

O comércio é a ponta visível da economia. Antes de uma crise aparecer nos grandes relatórios, ela aparece no balcão da loja. O dono do comércio percebe quando o cliente pede desconto com mais insistência. O caixa do mercado percebe quando o carrinho fica menor. O vendedor percebe quando o consumidor pergunta mais e compra menos. O entregador percebe quando há menos pedidos. O pequeno fornecedor percebe quando o varejista atrasa pagamento ou reduz encomenda.

Por isso, a queda no volume vendido e o aperto nas margens devem ser tratados como alerta nacional. O varejo não é apenas um setor. Ele conecta indústria, agricultura, transporte, tecnologia, emprego, crédito e arrecadação. Quando ele perde força, a desaceleração se espalha.

Empresas buscam novas saídas para sobreviver

Diante desse cenário, o Assaí tenta abrir novas frentes. A companhia anunciou a previsão de 25 farmácias próprias no segundo semestre de 2026, com foco em medicamentos, itens de venda livre, saúde, bem-estar, dermocosméticos, vitaminas e suplementos. A empresa também vinha destacando novas oportunidades de crescimento, marca própria e iniciativas digitais como formas de diversificar receitas.

A estratégia faz sentido. Farmácia, produtos de saúde, suplementos e marcas próprias podem oferecer margens melhores do que alimentos básicos. Além disso, o comportamento do consumidor está mudando. Há mais procura por suplementos, produtos funcionais, itens ligados a dieta, bem-estar e saúde preventiva. Mas a diversificação não elimina o problema central: se o consumidor está sem dinheiro, até novas categorias encontram limite.

A empresa pode criar corredores de suplementos, ampliar canais digitais e vender por marketplace. Ainda assim, se a renda disponível da família está comprometida, o consumidor continuará escolhendo o indispensável. O varejo pode inovar, mas não consegue inventar dinheiro no bolso do cliente.

Pequenos negócios estão na linha de frente da dor

O caso das grandes redes chama atenção porque os números são bilionários. Mas a parte mais dura da crise aparece no pequeno negócio. O dono do bar que vendia almoço vê o movimento cair. A loja de roupa de bairro sofre porque o consumidor adia a compra. O salão de beleza sente quando a cliente espaça mais os atendimentos. A loja de móveis vê o parcelamento ficar inviável. O material de construção encalha porque a reforma foi adiada.

Esse efeito cascata é perigoso. Quando o consumidor corta gastos, o comércio vende menos. Vendendo menos, o comerciante reduz equipe, corta pedido, posterga investimento. Com menos emprego e menos renda circulando, o consumo cai ainda mais. É a bola de neve da economia real: menos dinheiro no bolso, menos venda, menos lucro, menos emprego, menos consumo.

O risco de um país que trabalha mais e compra menos

O drama brasileiro de 2026 não é simplesmente falta de trabalho. É falta de sobra. Muita gente trabalha, mas termina o mês no vermelho. Muita família tem renda, mas já recebe comprometida. Muita empresa vende, mas não lucra. Essa é uma economia que gira, mas gira pesada, travada por juros, dívidas e medo.

O mais preocupante é que o varejo alimentar, tradicionalmente mais resistente, começa a mostrar sinais claros de desgaste. Se até supermercado e atacarejo, que vendem itens essenciais, sentem o consumidor recuar, setores menos essenciais tendem a sofrer ainda mais. Móveis, eletrodomésticos, roupas, material de construção, lazer e serviços são os primeiros a serem sacrificados quando o orçamento aperta.

Conclusão

O balanço do Assaí não é apenas uma notícia sobre uma empresa. É um aviso sobre o Brasil. A receita bilionária mostra que ainda há consumo. O lucro magro mostra que esse consumo está fraco, espremido e pouco rentável. O consumidor continua indo às lojas, mas compra menos. As empresas continuam vendendo, mas sobram centavos. O país continua funcionando, mas com a economia real cada vez mais pressionada.

A pergunta que precisa ser feita não é se há movimento no comércio. Há. A pergunta é o que sobra depois que a loja paga fornecedor, funcionário, energia, aluguel, imposto, dívida e juros. Para muitas empresas brasileiras, a resposta está ficando perigosa.

Se o governo, os bancos, o varejo e a sociedade não encararem o custo do crédito, o endividamento das famílias e a perda de poder de compra como problemas centrais, o Brasil poderá ver mais lojas fechando, mais empresas renegociando dívidas e mais trabalhadores tentando sobreviver com um salário que acaba antes do mês.

O comércio está falando. E quando o comércio fala, é melhor o país ouvir.