“Se eu falar a verdade, a casa cai”, disparou o cantor que foi do topo das paradas evangélicas ao cancelamento total. Após anos sem convites para igrejas, Kleber Lucas é flagrado em ambiente boêmio e solta o verbo contra as instituições: “Meu cristianismo está descolonizado!”
O mundo gospel acordou em choque. Um dos maiores nomes da música cristã brasileira, Kleber Lucas, que por décadas embalou congregações com hinos como “Aos Pés da Cruz”, agora vive uma realidade completamente diferente. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o artista, que ainda se intitula pastor, cantando em um bar no Rio de Janeiro. O repertório? Longe de ser o que os fiéis esperavam. Entre um gole e outro dos presentes, o som que ecoava era Legião Urbana.

Mas o que parece ser apenas um “rolê aleatório” esconde uma ruptura profunda e irreversível. Kleber Lucas não está apenas cantando em bares; ele está chutando o balde de uma estrutura que o sustentou por 30 anos.
O Exílio Gospel: “Ninguém me chama mais”
Há 12 anos, Kleber fundou a Igreja Sou, no Rio, tentando imprimir uma marca mais progressista. O resultado? Um isolamento quase absoluto. O cantor confessou que há anos não recebe um único convite para cantar em igrejas ou eventos do segmento. O motivo, segundo críticos, não é apenas a música, mas o que ele anda falando por aí.
Mentorizado por Caio Fábio — figura carimbada como o “pastor dos desviados” —, Kleber adotou um discurso que ferve o sangue dos conservadores. Em entrevistas recentes, ele foi categórico: não acredita na Bíblia como a palavra inerrante de Deus. Para ele, o livro sagrado é a “história de um povo” e uma construção política do século IV para validar o poder da Igreja.
“Se eu abrir a boca, a casa cai”
Kleber Lucas conta, entre risos, uma situação inusitada que viveu recentemente. Convidado para um congresso de 4 mil pessoas, o presidente do evento foi direto: “Você é muito bem-vindo, todo mundo ama suas músicas, mas faz um favor? Canta e não fala nada. Porque se você falar, a casa cai”.
Essa “verdade” que Kleber quer pregar é o que tem causado o seu cancelamento diário. Ele questiona o dízimo, o posicionamento contra a comunidade LGBTQIA+ e até a santidade dos textos bíblicos. “A Bíblia foi organizada pela Igreja, que disse: ‘isso aqui é de Deus, o resto é apócrifo e do mal, vamos queimar’. Quem garantiu isso? Homens com intenções políticas”, provoca o cantor.
Banho de Pipoca e Descolonização
O “novo” Kleber Lucas não tem medo de misturar o sagrado com o que a igreja chama de profano. Ele já foi visto recebendo “banho de pipoca” em rituais de religiões de matriz africana, algo que ele chama de “cristianismo descolonizado”. Para ele, sua fé é forte o suficiente para se submeter à experiência do outro sem se perder.
Enquanto uma ala do cristianismo tenta cancelá-lo, o ambiente acadêmico e outros setores da sociedade o abraçam. Kleber afirma que não deixou de ser pastor, mas que seu rebanho agora é outro. “As pessoas têm medo de gostar do que é diferente. O cara diz: ‘não posso transar, não posso fazer isso’. É um cristianismo alienante”, detona.
O Futuro do “Ex-Gospel”
O que resta para um ídolo que abandonou o seu pedestal? Kleber Lucas parece confortável no papel de provocador. Ele usa sua influência para questionar por que as igrejas, donas de tantas terras e dinheiro no Brasil, não acabam com a fome, mas gastam energia perseguindo homossexuais.
O vídeo no bar é apenas a ponta do iceberg de um homem que decidiu que não vai mais abaixar a cabeça para o sistema que o criou. Se para as igrejas ele está “desviado”, para Kleber Lucas, ele finalmente encontrou o caminho da liberdade — mesmo que esse caminho passe pelo palco de um barzinho no Rio.