Casar com duas irmãs ao mesmo tempo já é loucura, mas quando vi que eram coladas, já não tinha como voltar atrás. Acha que já viu de tudo nesta vida, que já passou por coisas que ninguém ia acreditar se contasse? Deixa eu dizer-te, parceiro, há noites que eu Ainda acordo a suar frio com as memórias a bater à porta da minha cabeça, mesmo passado tanto tempo.
São coisas que um homem traz no peito e que pesa mais do que qualquer carga que já levei neste Brasil aa o meu nome é João Paulo da Luz, tenho 63 anos nas costas hoje e durante mais de 40 anos guardei esta história entalada na garganta. Nunca tive coragem de abrir a boca. Parte por vergonha, parte por medo de que ninguém ia acreditar.
Mas chega a uma idade que percebe que se não contar vai levar para o caixão e que talvez a sua história possa ajudar outro irmão de estrada que está a passar por coisa parecida. O que vou contar agora aconteceu quando eu era apenas um miúdo de 21 anos, cheio de sonho e vontade de conhecer o mundo no o meu Mercedes 113, que herdei do meu velho.
Conduzir aquele camião era tudo o que eu queria da vida. Sentir a estrada debaixo das rodas, a liberdade do vento que entra pela janela, mas a vida tinha outros planos para mim. O meu pai sempre foi homem de pouca palavra e de muita dívida. Enquanto ele foi vivo, eu nem sequer sabia o buraco que ele tinha cavado para a nossa família.
Só depois de ele ter partido numa tarde de sábado que nem deu tempo para dizer a Deus direito, é que vieram as cobranças. E a maior delas veio do homem mais temido da região, o coronel Olímpio. Quando bateram à porta da a nossa casa nas Barreiras, já senti o peso do que estava para vir. Três homens do coronel, daqueles que só precisa olhar uma vez para saber que não é gente de brincadeira.
Disseram que o meu pai devia uma fortuna ao patrão deles. Dinheiro que nunca ia conseguir pagar com o pouco que deixou. O seu pai tinha vergonha de si, rapaz, mas não teve vergonha de te oferecer como pagamento”, disse o capataz, rindo de um modo que gelou-me o sangue. O coronel quer-te ver amanhã cedo na quinta e vem arrumado.
Há uma proposta que vai resolver tudo. Naquela noite não Consegui pregar olho. A minha mãe chorava baixinho no quarto dela e eu sabia que ela sabia algo que eu não sabia. a madrugada inteira me perguntando que raio o meu pai tinha feito, que proposta seria essa? Pensei em pegar no meu camião e desaparecer na estrada, mas não podia deixar a minha mãe sozinha para enfrentar as consequências.
Na manhã seguinte, lá estava eu, em frente à quinta do Girassol, a maior propriedade da região, um palacete branco que mais parecia fortaleza, rodeado de um exército de peões armados. O coronel O Olímpio recebeu-me na varanda, sentado numa cadeira de baloiço, fumando charo, como se não tivesse pressa nenhuma.
“Então és o filho do António?”, ele perguntou, olhando-me de cima a baixo. Dizem que é bom de volante, que herdou o camião dele. “Sim, senhor”, respondi com aquele nó na garganta. O seu pai me devia dinheiro, muito dinheiro, mas tenho um jeito para tu limpares o nome dele. Foi aí que lançou a bomba. Tenho duas filhas em idade de casar.
Boas raparigas, criadas com todo o conforto. Casa-se com elas e a dívida tá perdoada. Fiquei paralisado. Casar com duas? Como assim? Pensei que tinha ouvido mal ou que era algum tipo de brincadeira de mau gosto. Mas, coronel, como posso casar com duas? O o sorriso dele desapareceu na hora. Você vai compreender quando as conhecer e não tem escolha, filho.
Ou aceita ou vou tomar tudo o que têm, incluindo aquele camião velho de que tanto gosta. O que eu pensei que ia ser só um favor, uma trabalho temporário, uma coisa assim, começou a suar como condenação. Nesse momento, uma porta abriu-se no fundo da sala e foi aí que o meu mundo desabou. Entrou uma rapariga, não entraram duas raparigas, mas num só corpo.
Eram duas cabeças, quatro braços, um só corpo da cintura para baixo. Agatha e Áura, as filhas se a mesas do coronel. Senti o chão fugir dos meus pés. O ar faltou. Não sabia se corria, se gritava, se chorava. Fiquei ali paralisado, vendo as duas a encararem-me com olhares completamente diferentes. Uma olhava-me com doçura, a outra com algo que parecia posse.
Estas são as minhas filhas, Ágatha e Áura, nasceram assim, coladas. Nenhum médico quis arriscar separar. Nenhum homem quis casar com elas por preconceito. Mas você vai por bem ou por mal. A família toda assistindo, os empregados comentando baixinho e eu ali como um animal encurralado, sem saída. A minha mãe dependia de mim, não tinha como negar.
Não sou seu empregado, não sou seu amigo, não sou seu genro, sou a sua propriedade agora. Ele disse, fechando o acordo. Naquele momento eu não compreendia, mas estas palavras eram a mais pura verdade. Eu não seria marido, eu seria propriedade. Propriedade das duas. Olhei de novo para elas. Uma sorria tímida, a outra media-me de cima a baixo, como quem avalia mercadoria.
Duas mulheres, duas personalidades, dois temperamentos completamente diferentes, mas presas no mesmo corpo. E agora eu estaria preso a elas. Se acha que homem não sofre cárcere emocional, espera ouvir o resto desta história, porque o que aconteceu nos anos seguintes foi o inferno na Terra. Um tipo de prisão que não tem grade, não tem cela, não tem muro, mas que prende mais do que qualquer cadeia.
Fui obrigado a um casamento que não queria, com duas mulheres que mal conhecia, que partilhavam o mesmo corpo, mas que tinham vontades e personalidades que viviam em guerra uma com a outra. E eu, no meio desse fogo cruzado, vendo o meu sonho de liberdade na estrada virar fumo diante dos meus olhos. O pior não era o choque de ver o corpo delas, era saber que a minha vida já não pertencia-me mais.
Há certas coisas que aprendemos na estrada, parceiro. Uma delas é que os piores buracos são aqueles que não vê chegar. Foi assim com esta história toda. O meu pai tinha cavado um buraco tão fundo com o coronel Olímpio que nem a sua morte foi suficiente para tapar. Ainda me lembro do dia em que descobri a verdade. Depois daquele primeiro encontro com as gémeas, regressei a casa destruído por dentro.
A minha mãe estava sentada na cozinha com os olhos inchados de tanto chorar. Quando bati a porta, ela levantou a cabeça e vi nos olhos dela. Ela sabia. Sabia de tudo. Desesde quando a senhora sabe desta história?, perguntei com a voz engasgada de raiva. Ela baixou os olhos, passando a mão no pano de prato, como se tivesse a limpar alguma coisa invisível.
“O seu pai começou a dever ao coronel há mais de 10 anos, filho”, disse ela baixinho. “No início era pouco, um dinheiro emprestado para reparar o camião, depois para pagar o hospital quando partiu a perna”. O nó na a minha garganta só crescia. Lembrei-me das vezes que o meu pai chegava a casa com dinheiro depois de semanas sem portes.
Achava que era sorte, que tinha conseguido um bom serviço. Agora tudo fazia sentido. E como é que isso virou essa dívida toda? Como chegou ao ponto de ele oferecer-me em casamento, mãe? Ela começou a chorar outra vez, daquele jeito silencioso que doía mais do que qualquer grito. O seu pai começou a jogar João Paulo.
No início era só um bocadinho nas mesas dos postos. Depois foi ficando sério. Ele pensava que ia conseguir um dinheiro grande para dar um futuro melhor aos gente. Senti o sangue ferver. Meu velho que eu tanto respeitava tinha apostado não só o dinheiro dele, mas o meu futuro também.
E o coronel? O coronel empresta dinheiro para todos por aqui, mas ele cobra sempre algo mais que dinheiro de volta. No caso do seu pai, este pediu você. Como assim, pediu eu? A minha mãe depois contou-me a história toda. O coronel Olímpio era conhecido na região não só pelo poder e pelo dinheiro, mas por ter duas filhas gémeas nascidas unidas.
Um caso raro que escondia do mundo por vergonha. Mantinha as meninas isoladas na quinta, crescendo longe dos olhares curiosos e cruéis da cidade. À medida que foram crescendo, o problema dele aumentou. como casar as filhas? Que homem aceitaria aquela condição? Foi aí que começou a arquitetar o seu plano.
O coronel sabia do o seu camião, sabia que era jovem, trabalhador e que o seu pai estava afundado em dívidas. A minha mãe continuou. Há cerca de 3 anos, o seu pai veio para casa embriagado, dizendo que tinha feito um acordo, que quando se completasse 21 anos, a dívida seria toda perdoada. Se você, se você, se eu casasse com as filhas dele, completei, sentindo um frio na espinha.
O seu pai tinha vergonha de mim, mas não teve vergonha de me vender, murmurei, sentindo o sabor amargo das palavras. Passei a noite toda acordado, deitado na cama, olhando para o teto de madeira, escutando os grilos lá fora. Minha cabeça rodava como um pneu em declive. De um lado, a imagem daquelas duas raparigas presas num só corpo.
Do outro, a liberdade da minha estrada, o meu camião, os meus sonhos. Na manhã seguinte, decidi que ia fugir. Arrumei uma pequena mochila com duas mudas de roupa, os documentos do camião e o pouco dinheiro que tinha poupado. Ia desaparecer no mundo. Deixaria um bilhete para minha mãe, dizendo que mandaria buscar ela quando estivesse em segurança.
Mas quando cheguei à garagem nas traseiras de casa, onde guardava o meu Mercedes 1113, Encontrei dois homens do coronel encostados a ele. Um deles limpava as unhas com um canivete, o outro fumava, libertando o fumo bem em cima da pintura que tanto cuidava. “Bom dia, futuro genro do patrão”, disse um deles com um sorriso torto.
Pensando em dar uma voltinha, senti o meu coração gelar. Eles sabiam. Claro que sabiam. O coronel não deixaria nada ao acaso. Só ia fazer uma entrega ali na cidade. Menti, sabendo que não colava. Claro, claro. O outro respondeu, atirando o cigarro para o chão e esmagando com a bota. Mas o patrão pediu-nos acompanhar-te, garantir que não te perca no caminho.
Naquele momento, entendi que não tinha saída. A minha casa estava vigiada. O meu camião sob olhares. A minha mãe, refém indireta da situação. Voltei para dentro derrotado. A minha mãe estava na sala com um vestido simples, o melhor que havia. Eles já vieram avisar-me, ela disse sem me olhar nos olhos.
O casamento vai ser hoje à tarde. O quê? Hoje? O coronel não quer dar hipótese de você fugir. E disse que se não for hoje, a dívida duplica. O o desespero tomou conta de mim. Em menos de 24 horas, a minha vida tinha-se tornado de cabeça para baixo. Tudo o que eu planeava, tudo o que sonhava estava escorrendo pelos meus dedos como água.
Mãe, não posso fazer isso. Não posso casar com com você. Tens que fazer, filho. Ela cortou, segurando as minhas mãos. Não temos escolha. O coronel vai tomar tudo, vai deixar-nos na rua e conhece a fama dele. Não é um homem que deixa uma dívida sem cobrar. As histórias sobre o coronel corriam soltas pela região.
Diziam que um sujeito que fugiu sem pagar foi encontrado semanas depois num canavial sem as mãos. Outro teve a casa queimada com tudo lá dentro. O medo era real e eu sabia disso. O que eu pensava que ia ser um favor tornou-se uma condenação. Falei mais para mim próprio do que para a minha mãe. Nessa tarde vesti a única roupa de domingo que havia, uma calça de tecido escuro e uma camisa branca, já meio amarelecida pelo tempo.
A minha mãe passou o ferro nela, chorando baixinho, enquanto alisava cada vinco. Quando chegamos à quinta do coronel, não havia festa, não havia música, não havia convidados. Só um padre velho, de olhar assustado, que parecia ter sido trazido ali à força também. O coronel recebeu-me com um aperto de mão demasiado forte, daqueles que deixam claro quem manda.
“Fez, rapaz”, disse, dando-me palmadinhas nas costas, como se fôssemos velhos amigos. As minhas filhas precisam de um homem que cuide delas e vai aprender a gostar da situação. Queria gritar, queria correr, queria acordar daquele pesadelo, mas a imagem da minha mãe, frágil e assustada, me mantinha ali como um boi a ir para o abate.
O casamento foi rápido, sem festa, sem alegria. As gémeas usavam um vestido branco adaptado, cada uma com o seu bouquet. Uma chorava, a outra mantinha um sorriso estranho no rosto. Eu, como um boneco de cera, repetia as palavras do padre sem nem ouvir bem o que dizia. “Eu pensava que estava a casar, mas eu estava a assinar uma sentença”, pensei enquanto colocava as alianças nos dedos delas.
Depois da cerimónia, o coronel deu-me chamou ao escritório, colocou na minha frente um papel, um contrato de perdão de dívida. Agora é da família. E isto significa que a dívida do seu pai está limpa. Ele disse, acendendo um charuto. Mas tem uma condição. Você vai viver aqui na quinta, vai cuidar das as minhas filhas e aquele seu camião, ele fica na garagem da quinta.
Senti como se tivesse levado um murro no estômago. Nem o meu camião, o meu único pedaço de liberdade, eu poderia manter. Por quanto tempo? Consegui perguntar com a voz falha. O coronel soltou uma baforada de fumo no meu rosto e sorriu. Até quando elas decidirem que já não precisam de você. Há noite que ainda acordo suando frio, lembrando-se daquele primeiro dia após o casamento.
Eu, João Paulo, camionista que só conhecia a liberdade da estrada, agora preso entre quatro paredes com duas mulheres que não escolhi, dividindo o mesmo corpo. O quarto que me deram ficava no fundo da casa grande, longe dos olhares dos empregados, mas suficientemente perto do quarto do coronel para ele ouvir qualquer grito ou tentativa de fuga.
Era uma divisão simples, uma cama de casal mais larga que o normal, um armário velho e uma pequena janela que dava para os fundos da quinta com vista para o curral. Nessa primeira noite, depois da cerimónia forçada, deixaram-me sozinho no quarto. Lembro-me de me sentar na beirada da cama com a cabeça entre as mãos, pensando em como a minha vida se tinha tornado de cabeça para baixo em menos de 48 horas.
Lá fora, o céu estava estrelado daquele forma que só se vê no interior, longe das luzes da cidade. A lua cheia entrava pela janela, iluminando o soalho de tábua corrida. Noutra situação, eu estaria na boleia do meu camião, sentindo o vento na cara, livre como um pássaro na estrada.
A porta abriu-se devagar, sem ninguém bater. Eram elas, Ágatha e Áurea, minhas esposas. Agora entraram com passos sincronizados, como se tivessem ensaiado cada movimento. O vestido de noiva já tinha sido trocado por uma camisola branca, comprida, que cobria o corpo único delas até aos pés. Foi a primeira vez que pude realmente olhar para elas com calma, sem o choque inicial ou a pressão do coronel atrás de mim.
Duas cabeças, dois pescoços, um tronco mais largo que se dividia em dois à altura do peito, quatro braços e da cintura para baixo, um só corpo com duas pernas. Agatha, a da esquerda, tinha o cabelo mais escuro e os olhos negros penetrantes. O seu olhar era duro, desconfiado. Áurea, a da direita, era mais clara, com o cabelo castanho claro caindo em ondas pelos ombros.
Os seus olhos eram grandes, quase inocentes, e ela mantinha um meio sorriso no rosto. “Esse é o nosso quarto agora”, disse Agatha com a voz firme. Não era uma pergunta, era afirmação. “O papá disse que vais cuidar de nós”, acrescentou Áurea com uma voz mais suave, quase infantil, apesar de ter a mesma idade da irmã. Fiquei paralisado, sem saber o que dizer, o que fazer.
Aquilo era surreal demais para a minha cabeça de rapaz do interior. Uma era calma, a outra queria mandar em tudo, mas as duas queriam a mesma coisa. Eu não tenho de ficar com esta cara de assustado. Agatha falou, indo em direção à cama. Não somos monstros. Só somos diferentes completou Áuria, esboçando um sorriso tímido.
Afastei-me instintivamente quando elas se aproximaram. Não era nojo, nem medo, era choque. Tudo aquilo era novo, estranho, forçado. Olha, consegui dizer finalmente, acho que precisamos falar sobre isso tudo. Eu não escolhi estar aqui. Fui obrigado. Não Quero magoar-vos, mas também não quero mentir.
O rosto de Agatha se fechou na hora. Os seus olhos ficaram ainda mais duros, como duas pedras negras. Também não escolhemos nascer assim”, ela disparou. “Também não escolhemos este acordo que o nosso pai fez. Também não escolhemos-te”. Áurea colocou a mão no braço da irmã, como se quisesse acalmá-la. “O que a minha irmã quer dizer é que estamos todos no mesmo barco, João Paulo”, falou ela com aquela voz mansa.
Podemos fazer isto funcionar, se você quiser, ou pode ser um inferno para todos nós. Ali, naquele primeiro momento, a sós com elas, já dava para ver como funcionava o jogo. Agatha a atacava, Áurea apaziguava, uma era o chicote, a outra o afago. E esse joguinho de duas contra um ia marcar cada dia dos anos seguintes.
“Como foi a vossa vida até aqui?”, perguntei, tentando ganhar tempo, compreender com quem estava a lidar. As duas entreolharam-se como se decidissem quem ia falar. Foi a Áurea quem começou. Nunca saímos da quinta. O papá não deixava que ninguém nos visse, além dos empregados mais velhos e do médico que vem de vez em quando.
Estudamos com professoras particulares, lemos muito, vemos televisão quando o papá deixa e esperamos, completou Agatha com amargura na voz. Esperamos alguém que nos tirasse desse cativeiro. E agora tem você. Áurea sorriu, os seus olhos a brilhar de um jeito que me deu calafrios. “Vou ser sincero convosco”, falei tentando manter a calma.
“Eu tenho os meus sonhos, a minha vida. Sou camionista, a estrada é a minha casa. Não sei ser marido, ainda mais nesta situação. Tentei levantar-me, dar alguns passos pelo quarto, mas Agatha agarrou-me o braço com uma força surpreendente. Agora os seus sonhos já não importam, ela disse quase rosnando. Você é nosso, nosso marido, a nossa oportunidade de ter uma vida. Por favor, compreenda.
Auria implorou com os olhos marejados. Somos prisioneiras aqui. És a nossa única esperança de ter algo semelhante a uma vida normal. Naquele momento, algo dentro de mim se partiu, não de compaixão, mas de medo. Percebi que não estava a lidar só com o coronel ou com a dívida do meu pai. Estava a lidar com duas mulheres desesperadas, que viam em mim a sua única hipótese de salvação.
“Vou tentar fugir amanhã”, pensei para mim mesmo, assim que o dia clarear. Mas como se lesse os meus pensamentos, Agatha apertou ainda mais o meu braço. “Nem pense em fugir”, sussurrou ela. “Papá, tem homens a vigiar cada centímetro dessa quinta. E se tentar, vamos dizer que nos magoou. Não te queremos ameaçar.
Auria interveio com aquele tom doce que parecia ainda mais assustador depois das palavras da irmã. Só queremos que dê uma oportunidade para nós para este casamento. Deitaram-se na cama cada uma de um lado, deixando um espaço no meio que claramente era para mim. Fiquei parado, sem reação. Não tem de ter medo da gente. Áurea sorriu. Anda, deita-te aqui.
Não é um pedido, completou Agatha. Deitei-me de costas, olhando para o teto, sentindo o colchão afundar-se levemente, com o peso das mesmas dos dois lados. O silêncio pesava como chumbo. “Como vai ser isso?”, perguntei finalmente, ainda fitando o teto. “Ese casamento? Você vai viver aqui na quinta”, explicou Áuria.
“Vai fazer-nos companhia, nos levar a passear pela propriedade e vai dar-nos o que toda a mulher merece”, interrompeu Agatha com um tom que me fez gelar. Virei a cabeça para olhar para ela sem compreender. “Respeito”, ela completou com um sorriso frio. “Por enquanto, nessa primeira noite só dormimos. Ou melhor, dormiram. Eu Fiquei acordado, ouvindo a respiração das duas, sentindo o ligeiro movimento do colchão, cada vez que se mexiam em sincronia perfeita.
De vez em quando, uma delas resmungava qualquer coisa no sono e a outra respondia num murmúrio inconsciente. Quando o primeiro raio de sol entrou pela janela, já tinha tomado a minha decisão. Ia sair dali, custasse o que custasse. Esperei que acordassem. Tomamos café juntos numa mesa separada dos outros empregados da quinta.
Agatha queixava-se do café fraco. Áurea elogiava o pão quentinho. Depois do café, pedi para ver o meu camião, certificar que estava tudo bem com ele. Agatha torceu o nariz, mas a Áurea achou a ideia boa. “Vamos contigo”, disse ela, sorrindo. No caminho até à garagem, onde tinham guardado o meu Mercedes, comecei a sentir os suores a correr pelas costas.
Era agora ou nunca. se conseguisse ligar o camião, acelerar rapidamente, passar pelo portão antes que alguém se apercebesse. Mas ao chegar à garagem, o choque. Meu camião estava lá, mas sem as rodas tinham removido todas, deixando-o apoiado em blocos de madeira. Ah, esqueci-me de avisar. Agatha sorriu com crueldade nos olhos.
O papá mandou guardar as rodas por segurança. Olhei para o meu Mercedes 1113, o meu ganhaapão, a minha liberdade, agora aleijado, impossibilitado de me levar para longe daquele pesadelo. Era como se tivessem cortado as minhas próprias pernas. “Você não vai fugir”, disse Agatha, apertando o meu braço. “Nunca.” Mas pode ser feliz aqui connosco”, completou Áurea, passando a mão delicadamente pelo meu rosto.
“É só você querer”. Naquele momento, compreendi que tinha caído numa armadilha sem saída. Uma prisão feita não de grades, mas de chantagem emocional, ameaças veladas e um corpo partido em duas almas diferentes, duas contra um. Nunca pensei que encontraria uma estrada sem saída”, murmurei para mim mesmo enquanto regressávamos a Casagre.
A verdadeira prisão estava apenas começando. O casamento é uma estrada que a gente escolhe percorrer junto de alguém. No meu caso, foi uma emboscada na curva mais apertada da minha vida, sem escolha, sem saída de emergência, sem berma para parar e pensar. E assim começaram os dias mais sufocantes que já vivi.
A cerimónia foi feita na quinta mesmo, como já vos contei, simples, rápida, sem testemunhas para além da minha mãe, que chorava a um canto e dos capangas do coronel. O padre tremia mais que vara verde, recitando as palavras como se tivesse uma arma apontada à cabeça, e talvez tivesse mesmo conhecendo o coronel como conheci depois.
Nesse mesmo dia, a minha mãe foi mandada embora. Nem me deixaram despedir-me direito. Vi pelo canto do olho quando a colocaram numa carrinha velha com uma mala pequena e uma cara de derrotada que nunca vou esquecer. Ela vai ficar bem”, o coronel disse, dando-me palmadinhas nas costas, como se fosse meu amigo. Arrumei uma casinha para ela na cidade e todos os meses vai receber um dinheirinho, desde que que cumpra a sua parte do acordo.
A ameaça não tinha de ser dita em voz alta. estava ali a pairar no ar como cheiro a chuva que ainda não caiu. Se eu não fosse o marido perfeito para as filhas dele, a minha mãe pagaria o preço. Logo depois levaram-me para o quarto, que seria a minha cela nos próximos anos. As gémeas já lá estavam à minha espera, como contei antes, e foi aí que começou o meu calvário.
Já na primeira semana notei que não ia ter liberdade nenhuma. Agatha e Áurea controlavam absolutamente tudo na minha vida. A hora de acordar, a hora de dormir, o que comia, o que vestia, até ao tempo que passava no casa de banho era cronometrado. “Porque é que demora tanto tempo lá dentro?”, Agatha perguntava, batendo à porta com força, quando passava mais de 5 minutos.
“Está a sentir-se bem, querido?” Áurea completava com aquela voz melosa que escondia o controlo por trás do carinho. Não tinha um minuto de paz, não tinha um segundo de privacidade. Elas estavam sempre lá a observar-me com dois pares de olhos que nunca pestanejavam ao mesmo tempo. Tentei pedir para ver o meu camião de novo.
Queria pelo menos limpá-lo, mantê-lo em ordem para quando? Se eu conseguisse fugir daquele inferno. Hoje não é um bom dia! Áurea dizia sorrindo. Esquece esse camião. Você tem-nos agora. Agatha completava sempre com aquele tom de quem não aceita discussão. Os dias foram virando semanas, as semanas virando meses e quanto mais tempo passava, mais sufocado me sentia.
A quinta era enorme, mas para mim pareceu-me do tamanho de uma caixa de fósforos. Eu, que estava habituado a atravessar o Brasil de norte a sul, agora nem sequer podia ir até ao curral sem escolta. É para sua proteção! Dizia o coronel quando eu reclamava. Tem muito empregado novo por aí. Não quero que fiquem a olhar para as minhas filhas com curiosidade. Mas eu sabia a verdade.
A escolta não era para as proteger, era para me vigiar. O pior de tudo era o isolamento. Não me deixavam falar com ninguém. Os Os empregados da fazenda tinham ordens expressas de não meter conversa comigo. Se eu chegasse perto, baixavam a cabeça e saíam a andar. As refeições eram servidas no quarto só para nós três. Até as roupas.
Meu Deus, as roupas. Nunca pensei que este fosse um problema, mas foi. Eu sempre fui simples. Camisa xadrez, calças de ganga, bota, roupa de homem da estrada. Mas logo no segundo dia, Agatha deitou tudo fora. Isto é roupa de camionista! Ela disse com desprezo. Agora é nosso marido. Compramos coisas novas para você”, sorriu Áuria, mostrando um monte de roupa que nunca na vida usaria por vontade própria.
Camisas de botões, calças de tecido, sapatos que apertavam o meu pé. roupa de homem da cidade, de homem rico, roupa que não era eu. Eu pensava que estava a casar, mas eu estava a assinar uma sentença. O O controlo delas ia além do que eu podia imaginar. Se eu queria dar uma volta pelo terreiro, tinha de pedir permissão.
Se queria comer algo fora de hora, tinha de justificar. Até para tomar banho precisava de avisar antes. E os banhos, meu Deus, os banhos. No início, elas ficavam do lado de fora, a conversar comigo através da porta. Depois de um tempo, começaram a entrar juntos, dizendo que marido e mulher não têm segredos. Era constrangedor, humilhante.
Eu, que nunca tinha sido tímido, me sentia-se como um animal no jardim zoológico, sendo observado por visitantes curiosos. O pior era quando elas discordavam entre si. viviam a lutar por tudo. Agatha queria uma coisa, a Áurea queria outra e eu no meio, tentando agradar às duas ao mesmo tempo. Tarefa impossível.
Quero arroz hoje, dizia Ágatha. Não, vamos comer massa rebatia Áurea. E lá estava eu, a ter de escolher um lado, sabendo que qualquer escolha significava desagradar a uma delas e pagar o preço depois. Tentei fugir várias vezes nos primeiros meses. Numa noite, esperei elas dormirem e tentei sair pela janela, mas tinha um capanga a vigiar em baixo, fumando um cigarro na escuridão.
Ele nem precisou de dizer nada, apenas olhou para mim, sorriu e fez não com o dedo. Voltei para cama, derrotado. Noutra vez tentei convencer um dos peões a emprestar-me um cavalo. ofereci dinheiro que não tinha, promessas que não podia cumprir. Ele só baixou a cabeça e saiu a andar como se eu fosse invisível.
Mais tarde soube que contou tudo ao coronel. Nessa noite, o próprio coronel veio ter com o nosso quarto. João Paulo ele disse com aquela voz mansa que escondia a ameaça. Achei que tínhamos um acordo. Você cuida das as minhas filhas. Eu cuido da sua mãe. Gelei na mesma hora. A sua mãe está bem por enquanto. Ele continuou.
Tem comida sobre a mesa, teto sobre a cabeça. Seria uma pena se isso mudasse. Depois desse dia, deixei de tentar fugir. Pelo menos durante algum tempo. O medo pelo que podiam fazer com a minha mãe era maior que o meu desespero pela liberdade. E assim os dias foram passando, um igual ao outro, numa rotina sufocante que me ia matando aos poucos por dentro.
Eu que conhecia cada posto de abastecimento de combustível da BR16, que tinha amigos em cada cidade do sul para o Nordeste, agora não falava com ninguém além das gémeas e de vez em quando do coronel. Elas controlavam até aquilo que podia ouvir na rádio. Gostavam de telenovelas, de programas de auditório. Eu, que sempre gostei de um Raul Seixas, um Tim Maia na estrada, tinha agora de ouvir Roberto Carlos e canções românticas que me davam cabo dos nervos.
É mais adequado dizia Áurea trocando a estação quando tentava encontrar alguma música que me recordasse a liberdade. Esse lixo que ouvia antes só lembrava estrada. completava Agatha. E já não és da estrada, és nosso. As palavras dela martelavam na minha cabeça todas as noites quando me deitava entre elas na cama.
Você já não é da estrada, é nosso. Como se eu fosse um objeto, uma propriedade, algo que se compra e se guarda numa prateleira. O meu corpo estava ali preso naquela quinta, naquele quarto, entre aquelas duas mulheres coladas. Mas a minha alma, a minha alma ainda percorria as estradas do Brasil, livre, sentindo o vento na cara, o roncar do motor debaixo dos pés.
À noite, quando elas dormiam, eu fechava os olhos e imaginava que estava dirigindo. Sentia o volante nas mãos, ouvia o barulho dos pneus no asfalto. Era o único momento em que me sentia vivo ainda. Mas a cada dia que passava, essa memória, essa sensação ia ficando mais fraca, mais distante, como se a estrada estivesse a apagar-se dentro de mim, dando lugar a um vazio que nada podia preencher.
Eu pensava que estava a casar, mas eu estava a assinar uma sentença. Uma sentença sem prazo, sem recurso, sem hipótese de liberdade condicional. uma prisão onde as grades eram feitas de carne e osso, onde os carcereiros tinham dois rostos, duas vozes, mas um só corpo. E o pior de tudo, começava a habituar-me e isso apavorava-me mais que qualquer outra coisa.
Há coisa que só quem já viveu o cativeiro compreende. O forma como o tempo passa diferente, arrastado, como se cada minuto tivesse o peso de uma carreta carregada a subir serra. Esta foi a minha vida na quinta do coronel Olímpio, preso entre quatro paredes com Ágatha e Áurea, as gémeas e a mesas que eram agora as minhas esposas.
A rotina que elas criaram para mim foi mais sufocante do que qualquer corrente. Acordava às 5 da manhã, não porque queria, mas porque Ágatha assim o exigia. Homem que dorme até tarde é um vagabundo”, ela dizia, picando-me sem dó nem piedade, enquanto o sol nem tinha aparecido em condições. Áurea do outro lado, passava a mão no meu cabelo e sussurrava: “Vamos, meu bem, o dia está a nascer bonito só para ti”.
Uma atacava-me, a outra afagava-me, uma manipulava-me com carinho, a outra com ameaça. O pequeno-almoço era servido às 5:30 em ponto. Nem mais um minuto, nem menos um. Um tabuleiro com tudo o que eu não escolhia, frutas que não gostava, pão que não pedi, café demasiado fraco para o meu gosto de camionista.
Se eu reclamasse, Agatha fechava a cara e dizia que eu era mal agradecido. Se eu comesse tudo sem dizer nada, Áurea sorria e dava-me um beijo na testa, como se eu fosse uma criança que merece prémio por comer tudo. Homem grande e forte como precisa de se alimentar direito. dizia a Áurea com aquela voz melosa. Se não gosta, pode ficar sem comer completava Agatha, os olhos faiscando de raiva.
Depois do café, vinha a hora do banho. Elas entravam comigo na casa de banho, sentavam-se num banquinho especial que o coronel tinha mandado fazer e ficavam ali observando-me como se eu fosse algum tipo de espetáculo. No início, tremia de vergonha. Com o passar do tempo, aprendi a me desligar, a fazer de conta que não estava ali, que o meu corpo era apenas uma casca vazia que obedecia a ordens.
Esfrega bem as costas, mandava Agatha. Queres que te ajude, querido? oferecia Áurea. E assim era tudo. Cada minuto, cada respiração, cada pensamento meu era vigiado, controlado, manipulado por aquelas duas mulheres que partilhavam um corpo, mas tinham táticas diferentes de me manter na trela. O que mais me assombrava era como elas faziam aquele estafeta emocional perfeita.
Era calculado, ensaiado, como se tivessem passado a vida toda a treinar para me enlouquecer. Se eu discordava da Ágatha sobre qualquer coisa, o que comer, que roupa vestir, que programa ver na TV, ela explodia em fúria, gritava, praguejava, ameaçava contar ao pai que eu estava maltratando-as.
E enquanto eu ainda tentava defender-me das acusações dela, Áurea começava a chorar baixinho, o rosto enterrado nas mãos. Por que razão você faz-nos isso, João Paulo? Ela soluçava. A gente só quer amar-te, te fazer feliz. E eu ficava ali sem saber o que fazer, sentindo-me o pior homem do mundo por ter feito chorar uma mulher, mesmo sabendo que era tudo teatro, que fazia tudo parte do jogo delas.
Se por outro lado elogiava a Áurea, o seu cabelo, a sua voz, qualquer coisa para tentar manter a paz, Agatha ficava imediatamente agressiva, ciumenta. Então, é ela que prefere? É com ela que quer ficar? Acha que não Noto como olha mais para ela do que para mim? E lá vinha a Áurea a acalmá-la. Irmã, não fale assim.
O João Paulo gosta de nós as duas igual, não é, querida? E eu, preso naquela armadilha sem saída, só podia concordar, engolir o orgulho, a raiva, a vontade de gritar, que não não queria nenhuma das duas, que só queria a minha liberdade de volta. Tudo era motivo para culpa, drama ou castigo. Se eu olhasse pela janela demasiado tempo, Agatha dizia que eu estava a planear fugir.
Se eu ficasse quieto, pensativo, A Áurea achava que eu estava triste, que já não gostava delas. Uma me manipulava com carinho, a outra com ameaça. Os dias passavam assim, iguais, sufocantes, sem um minuto de paz. Até para ir à casa de banho, elas ficavam na porta, conversando comigo através da madeira, como se tivessem medo que eu pudesse escapar por um ralo, por uma fenda na janela.
A noite era o pior momento. Deitado entre as duas, eu sentia o calor dos seus corpos. Ouvia as diferentes respirações, ágata mais forte, áurea mais suave, e pensava em como a minha vida se tinha tornado aquele pesadelo sem fim. Às vezes elas brigavam entre si por causa de mim. Eram brigas estranhas, uma vez que partilhavam o mesmo corpo.
A Agatha queria que eu dormisse virado para ela. A Áurea queria que eu ficasse de frente para ela. E eu, no meio daquele fogo cruzado, tentava agradar às duas ao mesmo tempo. Tarefa impossível. Vira para cá”, exigia Agatha, puxando-me o braço. “Não fica aqui comigo”, pedia Áurea puxando o outro. Sentia-me um boneco de pano sendo disputado por duas crianças egoístas. Só que não eram crianças.
Eram duas mulheres adultas, presas num corpo só, que tinham todo o poder sobre mim. O pior é que com o tempo comecei a perceber que o seu jogo ia além do que eu imaginava. Não era só controlo físico, era o controlo mental. Elas estavam aos poucos a quebrar-me por dentro, transformando-me numa sombra do homem que eu era.
Lembro-me de um dia, passados quase seis meses naquele inferno, que olhei o meu reflexo no espelho da casa de banho e quase não me reconheci. O meu rosto estava mais magro, os meus olhos tinham perdido o brilho. Eu parecia mais velho, cansado, derrotado. “Quem és tu?”, perguntei baixinho ao homem do espelho.
“Onde está o João Paulo que conhecia cada curva da BR16, que tinha amigos em cada posto de gasolina do sul para o Nordeste, que era respeitado na estrada?” Nesse momento, o Agá bateu à porta da casa de banho. “Tá a falar sozinho aí dentro?” enlouqueceu de vez. Ele está só cansado, irmã, defendeu a Áurea como sempre. Deixa-o em paz um pouco.
Saí da casa de banho cabis baixo, derrotado. Naquela noite, sonhei que conduzia o meu Mercedes 1113 pela estrada. O vento batia no meu rosto, o motor roncava fortemente, a liberdade me abraçava. Acordei com lágrimas nos olhos, percebendo que era apenas um sonho, que a realidade era aquela prisão de carne e osso que me sufocava dia após dia.
Foi aí que comecei a planear a minha fuga de novo. Não podia continuar daquele jeito. Ia enlouquecer se ficasse mais tempo ali, mas precisava ser esperto, paciente. tentativas anteriores tinham falhado porque fui impulsivo, desesperado. Desta vez seria diferente. Comecei a observar mais, a ter atenção aos horários da quinta, nos momentos em que a vigilância diminuía.
Notei que uma vez por semana chegava um camião de entregas trazendo mantimentos. O motorista era sempre o mesmo, um senhor de idade que mal olhava para os lados, que fazia o serviço rápido e ia embora. E se eu conseguisse falar com ele? Pedir ajuda? Pensei. Mas logo descartei a ideia. As gémeas nunca me deixavam sozinho.
Estavam sempre lá me vigiando com quatro olhos que nunca piscavam ao mesmo tempo. A chance surgiu quando menos esperava. Uma tarde depois do almoço, Agatha começou a sentir-se mal, dor de cabeça forte, enjoo. Áurea, claro, sentia o desconforto da irmã, mas não tão intenso. “Preciso de me deitar”, gemeu Agatha, segurando a cabeça.
“Está tudo rodando. Vamos descansar um pouco?”, concordou Áura, visivelmente preocupada com a irmã. Levaram-me para o quarto, me fizeram-no sentar numa cadeira enquanto deitavam-se. Agatha estava pálida. Com os olhos fechados de dor. Áurea acariciava a testa da irmã, tentando acalmá-la. João Paulo, Áurea chamou com a voz fraca.
Pode ir buscar um pano molhado com água fria para colocar no testa dela? Era a primeira vez em meses que me pediam para fazer algo sozinho, que confiavam em mim para sair do quarto sem supervisão. Senti o coração acelerar. Claro, respondi, tentando demonstrar a animação súbita. Volto já. Saí do quarto devagar, como se estivesse realmente preocupado, como se fosse voltar logo.
Mas assim que fechei a porta atrás de mim, comecei a andar mais rápido pelo corredor, e não em direção à cozinha, onde deveria ir buscar o pano, mas em direção às traseiras da casa, onde ficava o quarto do telefone, o único da quinta que o coronel mantinha trancada a chave. se conseguisse ligar para alguém, pedir ajuda, mas a porta estava trancada como imaginei que estaria.
Frustrado, voltei a percorrer o corredor, agora realmente a ir até à cozinha. Não podia suscitar suspeitas. Na cozinha, a cozinheira olhou-me surpresa. Fazia meses que não me via sozinho, sem as gêmeas. As raparigas estão passando mal, expliquei enquanto molhava um pano na água da torneira.
A Agatha está com dor de cabeça forte. A mulher apenas a sentiu sem dizer nada. Todos na quinta sabiam que não deviam falar comigo. Voltei para o quarto com o pano molhado na mão e a frustração a pesar nos ombros. Mais uma hipótese de fuga que escorria entre os meus dedos como água. Quando entrei, Agatha continuava de olhos fechados, gemendo baixinho.

A Áurea pegou no pano da minha mão e colocou-a na testa da irmã. “Obrigada”, sussurrou ela. “Você é um bom marido.” As palavras dela caíram como pedras no meu estômago. Eu não era um bom marido. Não era marido de verdade. Era um prisioneiro, um escravo, uma sombra do homem que um dia fui. Sentei-me na cadeira de novo, observando as duas.
E foi então que me apercebi, mesmo doente, mesmo de olhos fechados, Ágatha tinha total controlo sobre mim. Mesmo frágil e pálida na cama, ainda era minha carcereiro, minha torturadora. Uma manipulava-me com carinho, a outra com ameaça, e eu continuava ali preso naquela teia invisível que tinham tecido à minha volta, sem conseguir ver uma saída, um futuro, uma luz no fim daquele túnel escuro que se tinha tornado a minha vida.
Há uma coisa que aprende-se depois de meses preso num cativeiro disfarçado de casamento. As paredes têm ouvidos, o chão tem olhos. E até o vento parece levar as suas palavras para o seu carcereiro. Depois de quase um ano naquela quinta, já conhecia cada canto, cada horário, cada brecha na rotina de ferro que as gémeas tinham criado para mim.
Foi numa terça-feira de céu limpo que vi a minha oportunidade. O coronel tinha viajado paraa capital, negócios importantes, segundo o próprio. Levou dois capangas dos mais brutamontes, daqueles que não pensam duas vezes antes de partir alguém ao meio. A vigilância na quinta tinha diminuído um pouco, não muito, mas o suficiente para um homem desesperado como eu arriscar tudo.
Nessa noite, esperei as gémeas dormirem. tinha resultado. Pela primeira vez em meses, tinham tomado um chá que a cozinheira preparou. O chá de camomila com erva-cidreira, bem forte. Eu também fingia beber, mas joguei fora quando não estavam a olhar. Tô cansada hoje. Agatha bocejou, os olhos já pesados.
Vamos dormir cedo completou Áuria, passando-me a mão pelo rosto, como fazia sempre antes de deitar. Fingi que estava com sono também. Deitei-me no meio delas, como de costume. Esperei, contando os minutos na minha cabeça, uma hora, duas horas, até ter a certeza que estavam a dormir profundo. A respiração delas ficou pesada, sincronizada.
Agatha até ressonava levemente, coisa rara. Era agora ou nunca. Saí da cama com cuidado, centímetro a centímetro, sustendo a respiração cada vez que o colchão fazia barulho. Peguei numa mochila que tinha preparado às escondidas, com algumas roupas e os documentos que consegui pegar de volta, a minha carteira de motorista, os meus documentos pessoais que o coronel tinha confiscado no início.
Não vai fugir do que jurou diante de Deus, não. Esta frase ecoava na minha cabeça enquanto me vestia no escuro, tentando fazer barulho. Não não tinha jurado nada por vontade própria. Tinha sido forçado, ameaçado, coagido. Aquilo não era casamento, era prisão. Abri a porta do quarto devagar, o coração quase a sair pela boca. O corredor estava escuro e silencioso.
Só se ouvia o barulho dos grilos lá fora e de vez em quando o mugido longínquo de alguma vaca no pasto. Caminhei na ponta dos pés até à cozinha. Sabia que a porta dos fundos ficava destrancada até tarde, porque o cozinheiro às vezes saía para fumar depois de servir o jantar. Era a minha rota de fuga.
Cheguei à cozinha, Olhei em volta. Ninguém, só o tic-tacque do relógio na parede a marcar 2:17 da manhã. A liberdade estava a poucos metros de mim, do outro lado daquela porta. Rodei a maçaneta devagar, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. A porta abriu sem fazer barulho. O ar fresco da noite bateu-me na cara como um abraço de um amigo que não via há anos.
Pisei lá fora, sentindo a terra sobre os pés, o céu estrelado sobre a cabeça. Por momentos senti-me livre de novo. Só por um momento. Vai a algum lugar, João Paulo? A voz veio detrás de mim, gelando-me até aos ossos. Era Januário, o mais fiel capataz do coronel. Estava sentado num cepo de madeira, a fumar um cigarro, a arma brilhando na cintura sob o luar.
Só vim apanhar um ar. Menti, sabendo que não colava. A mochila às costas me denunciava. Com a mala pronta, riu-se, atirando o cigarro no chão e a levantar-se. O patrão avisou que podia tentar uma gracinha destas. Olhei em redor, desesperado. Não tinha mais ninguém ali. Se eu corresse, mas para onde? A quinta era enorme, cercada.
E mesmo que conseguisse passar da cerca, como iria longe a pé no meio do sertão. Januário, tentei negociar. Me deixa-o ir embora. Nunca fiz mal a ninguém. Só quero a minha vida de volta. Não posso, rapaz. Ele respondeu sem emoção na voz. Ordens do coronel. Te dou dinheiro! Continuei desesperado. Quando chegar à cidade, arranjo um trabalho. Mando-te metade do que ganhar.
O E o que é que o coronel me vai fazer quando descobrir?”, perguntou com um risinho seco. “Enterrar-me vivo?” “Não, obrigado.” Senti as pernas fraquejarem. Tinha chegado tão perto e agora tudo estava perdido. “Volta para o quarto.” Januário ordenou a mão pousada na arma. Vou fingir que não vi nada desta vez.
Não tinha escolha. Cabis baixo, derrotado, voltei para dentro da casa, mas em vez de encontrar o caminho vazio como antes, dei de caras com outros três peões. Estavam à minha espera como se soubessem exatamente o que eu tinha planeado. “O patrão deixou ordens claras”, disse um deles, um homem alto e magro a que chamavam Tião.
“Se você tentasse fugir”, não terminou a frase, “Não precisava”. O olhar dele dizia tudo. Levaram-me não de volta pro quarto, mas para uma divisão nos fundos da casa que eu nem sabia que existia. Uma espécie de depósito sem janelas, com apenas uma lâmpada fraca pendurada no teto. “Vai ficar aqui até o patrão voltar”, disse Januário, trancando a porta por fora.
Fiquei naquele cubículo escuro durante dois dias inteiros, sem cama, sem casa de banho adequada, apenas um balde num canto. A comida vinha duas vezes ao dia, um prato de arroz com feijão e às vezes, um pedaço de carne seca, a água. num caneco de alumínio amolgado. Nos primeiros meses de casamento, uma situação destas teria feito chorar de desespero.
Mas depois de tanto tempo naquele inferno, aqueles dois dias sozinho no escuro foram quase um alívio. Pelo menos não tinha gémeas a vigiar-me, controlando-me, sufocando-me com aquele jogo cruel de uma faz o bem, outra faz o mal. O pior veio quando o coronel voltou. A porta do depósito abriu-se de repente, deixando entrar uma claridade que me feriu os olhos habituados com o escuro.
O coronel estava ali, parado na soleira, charuto na boca, olhar de desdém. Então o passarinho quis voar. Ele riu-se, soltando uma baforada de fumo. Não respondi. Não tinha o que dizer. As minhas filhas estão arrasadas, continuou. Áurea não pára de chorar. Agatha quer arrancar-lhe a pele em tiras. Conseguia imaginar perfeitamente a cena. Áurea a chorar, manipulando com as lágrimas.
Ágata, furiosa, ameaçando com gritos. O jogo delas que eu já conhecia tão bem. Levanta-te daí. O coronel ordenou. Vamos conversar como homens. Levantei-me com dificuldade. Dois dias a dormir no chão duro tinham deixado o meu corpo todo dolorido. Segui o coronel pelos corredores da casa até ao seu escritório, um quarto que eu raramente tinha permissão de entrar.
Ele sentou-se atrás da mesa de madeira escura, indicando a cadeira à frente para mim. Sobre a mesa, uma garrafa de cachaça e dois copos. “Bebe”, disse, enchendo os copos. Peguei no copo com mão trémula e bebi um gole. A cachaça desceu a arder, mas era o primeiro gosto de algo para além de água em dois dias. “Não vai fugir do que jurou diante de Deus, não”, ele disse depois de um longo silêncio.
Lembra-se disso? Foi o que te disse no dia do casamento. Foi forçado. Consegui dizer a voz rouca. Nunca quis isto. E quem disse que a vida é sobre querer? Ele contrapôs, dando um estalo na mesa que fez-me saltar na cadeira. A vida é sobre dever, sobre a honra, sobre o cumprimento com a palavra. Não foi a minha palavra, respondi, sentindo uma coragem que não sabia de onde vinha.
Talvez da cachaça, talvez do desespero. Foi um acordo que o Sr. fez com o meu pai. Eu nunca concordei. O coronel olhou-me por um longo momento, os olhos semicerrados como os de uma cobra prestes a dar o bote. “Sabe o que acontece a quem quebra acordo comigo?”, perguntou com uma calma que metia mais medo do que qualquer grito. Não respondi. Não precisava.
As histórias sobre o que o coronel fazia com quem o desagradava corriam soltas pela região. É barrado pelos peões armados do coronel. Ah, tem mãe, não tem? Ele continuou a rodar o copo de cachaça entre os dedos. Uma senhora de idade a viver sozinha naquela casinha que dei na cidade. Senti o sangue gelar-me nas veias.
Seria uma pena se ela sofresse um acidente. O coronel completou com um sorriso que não chegava aos olhos. Casas de madeira pegam fogo fácil, sabia? Um candeeiro virado, um fogão esquecido, aceso? Não! Implorei, sentindo o desespero tomar conta. Ela não tem nada a ver com isso. Depois volte pro seu lugar. Ele disse seco, ao lado das minhas filhas, sendo o marido que jurou ser.
Saí do escritório dele destruído por dentro. Não bastava manter-me prisioneiro. Agora ameaçava abertamente a minha mãe. E eu sabia que não era bluff. O coronel Olímpio não era homem de ameaçar à toa. Quando voltei para o quarto, as gémeas estavam lá à minha espera. Agatha com cara de poucos amigos, Áurea com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Por que razão você nos quis deixar? Áurea perguntou à voz embargada. Não cuidamos bem de si. Não amamos-te o suficiente. Vai pagar por essa tentativa. Agatha completou, os olhos brilhando de raiva. Cada minuto dela e pagaria mesmo. Nos dias que se seguiram, o controlo delas tornou-se ainda mais sufocante. Não me deixavam mais sozinho, nem por um segundo.
Até na casa de banho agora, elas entravam juntos sem a menor cerimónia. A vigilância na exploração também aumentou. Mais homens armados, mais olhares me seguindo por onde eu ia. O próprio coronel aparecia mais vezes como para lembrar que estava de olho. É trancado durante dois dias no quarto. Depois disso, tudo piora.
Perdi completamente a esperança depois daquela tentativa fracassada. Comecei a pensar que passaria o resto da minha vida ali preso naquela quinta, naquele quarto, naquele casamento forçado com duas mulheres que viam-me como propriedade. Cada manhã era um esforço para se levantar da cama. Cada noite um tormento por saber que o dia seguinte seria igual.
O meu Mercedes 113, o meu ganhaapão, o meu pedaço de liberdade continuava na garagem, sem rodas, juntando pó. Assim como os meus sonhos, a estrada que um dia foi a minha casa, parecia agora uma recordação distante, um sonho que alguém me tinha contado, não algo que vivi. Foi o momento mais negro da minha vida, mais escuro que o depósito onde me trancaram, mais escuro que as noites sem lua no sertão.
Mas como a gente diz na estrada, depois da curva mais apertada, por vezes vem a reta mais bonita. E quando esperava, um raio de esperança surgiu no horizonte, na forma do novo entregador da quinta. Já sentiu aquela sensação de estar afogando-se bem no fundo do poço quando de repente alguém atira uma corda? Pois é, parceiro.
Depois de um ano e meio naquele inferno a que chamavam casamento, quando já tinha perdido quase toda a esperança, a vida atirou-me esta corda na forma de um rapaz magricela que mal sabia conduzir em condições. O Toninho chegou numa manhã de Março, quando o sol já castigava fortemente desde cedo. Da janela do quarto, vi o camiãozinho velho estacionando no pátio da quinta.
carregado de sacos de mantimentos que vinham da cidade uma vez por mês. Geralmente era o Zé pequeno que fazia as entregas, um senhor calado que mal olhava-me na cara quando eu tentava meter conversa. Mas nesse dia quem desceu do camião foi um rapaz novo, franzino, com cara de miúdo assustado. “Quem é aquele?”, perguntei às gémeas que estavam sentadas na varanda comigo a tomar o pequeno-almoço.
O sobrinho do Zé Pequeno”, respondeu Áuria, sempre mais informada sobre a vida dos outros. “Parece que o tio partiu a perna e ele vai fazer as entregas enquanto o velho recupera.” “Molecote sem experiência”, reclamou Agatha com aquele tom amargo de sempre. “Aposto que vai atrasar tudo, entregar errado.
” Fiquei a olhar para o rapaz descarregar as primeiras sacas. desajeitado, quase deixou cair um saco de farinha. Os peões da quinta riam troçando da inexperiência dele. Algo naquela cena tocou-me fundo. Talvez porque eu também me sentia assim, deslocado, perdido, alvo de olhares de desprezo. Nessa mesma tarde consegui falar com ele.
As gémeas tinham ido descansar após o almoço, algo que se tornou rotina depois de Agatha ter começado a sofrer de dores de cabeça frequentes. Eu estava sentado no alpendre, vigiado de longe por um dos capangas do coronel, quando o rapaz passou, carregando o última leva de mantimentos para a dispensa. “Quer uma água?”, ofereci, apontando para a jarra que ali tinha do lado. Está calor hoje.
Ele olhou para mim surpreendido, como se não esperasse que alguém falasse com ele. Obrigado, senhor, respondeu, aceitando o copo que estendi. Chama-me João Paulo, falei, observando se o capanga estava a prestar atenção. Parecia distraído, limpando a arma. És sobrinho do Zé Pequeno, certo? Isto confirmou, bebendo a água de um só gole.
O meu tio partiu a perna caindo do telhado. Vou fazer as entregas por uns três meses até ele recuperar. E você conhece a região? Mais ou menos. Ele deu de ombros. Sou de barreiras mesmo, mas nunca tinha vindo para aquele lado da cidade. É um bocado isolado aqui, né? Você não faz ideia”, murmurei, olhando em volta para ter a certeza que ninguém estava a ouvir.
O capanga começou a aproximar, desconfiado da nossa conversa. Rapidamente mudei de assunto, falando alto sobre o tempo, a seca que castigava a região. O Toninho percebeu o movimento e entrou no jogo, respondendo sobre como a chuva estava a fazer falta. Quando o segurança se afastou novamente, baixei a voz.
Volta no próximo mês? Todo dia 15, confirmou. Por quê? Nada não. Desconversei. Só para saber quando chegam os mantimentos frescos. Ele assentiu sem compreender muito bem, devolveu o copo e seguiu o seu caminho. Mas uma semente tinha sido lançada na a minha cabeça. Uma ideia louca, arriscada, mas que era o único fio de esperança que tinha.
No mês seguinte, fui contando os dias. Marquei cada um, riscando levemente a madeira da cama com a unha, quando as gémeas não estavam olhando. O dia 15 chegou e com ele, O Toninho e o seu velho camiãozinho. Dessa vez estava preparado. Tinha conseguido arrancar uma folha de um caderno que a Áurea utilizava para escrever poesias. Escrevi um bilhete curto.
Socorro, mantido prisioneiro. Por favor, ajude. O desafio era como passar o bilhete para ele sem que ninguém visse. A vigilância tinha diminuído um pouco nos últimos meses, uma vez que não tentei fugir de novo depois daquela vez, mas ainda assim havia sempre alguém de olho em mim.
A chance surgiu quando Toninho estava a entregar um saco de arroz na cozinha. As gémeas estavam entretidas com um programa de TV na sala. O cozinheiro tinha saído para fumar. Era agora ou nunca. Este arroz tá com caruncho falei apontando para o saco que tinha acabado de colocar no chão. Melhor abrir e verificar antes que o cozinheiro reclame.
Toninho, sem desconfiar, abriu o saco. Aproveitei o momento e deixei cair o bilhete lá para dentro, entre os grãos. Parece-me bem”, disse, olhando o arroz. “É, acho que me enganei”, respondi fechando o saco rapidamente. “Melhor assim, não é?” Quando ele saiu, Fiquei com o coração na mão. “E se ele não encontrasse o bilhete? E se encontrasse e ignorasse? E se contasse pró coronel?” Os dias seguintes foram de agonia.
Cada ruído de motor na estrada fazia-me saltar, achando que podia ser ajuda a chegar. Cada vez que via o coronel falando sério com os seus capangas, pensava que tinham descoberto o meu plano, mas nada aconteceu, nem ajuda, nem castigo. Talvez o Toninho nem tivesse encontrado o bilhete. Quando o no dia 15 do mês seguinte chegou, eu já tinha perdido quase toda a esperança, mas mesmo assim fiquei de olho na chegada do camião de entregas.
Toninho apareceu pontual, como sempre, descarregando os mantimentos com a mesma atrapalhada de sempre. Consegui me aproximar-se dele de novo, oferecendo ajuda para carregar algumas caixas para a dispensa. As gémeas estavam ocupadas discutindo com o coronel sobre algum assunto da fazenda. “Recebi o teu bilhete”, sussurrou enquanto caminhávamos.
“Mas preciso de saber mais. Quem é você? Porque está preso aqui?” Rapidamente, em frases curtas e sussurradas, contei o básico da minha história. O casamento forçado, as gémeas, a vigilância constante, as ameaças à minha mãe. Deixei um novo bilhete no saco de arroz, informou quando já estávamos a regressar.
Veja se consegue apanhar sem ninguém dar por isso. Meu coração disparou. Aquele miúdo magrelo e desajeitado tinha-se tornado a minha única esperança. Mais tarde consegui ir até à despensa com a desculpa de procurar um saco de farinha para a Áurea que queria fazer um bolo. O saco de arroz estava lá no cimo da pilha, como se me esperasse.
Meti a mão e peguei no bilhete, escondendo-o na manga da camisa. Só pude ler horas depois, fechado no casa de banho, fingindo uma dor de barriga. Conheço a sua história. Vou ajudar-te. Mês que vem, deixe uma flor no saco de arroz, se for seguro falar. Se não tiver flor, aguarde mais um mês. Começa a chegar um entregador novo à quinta.
Toninho. João deixa pistas. Bilhete no saco de arroz, desenho no chão. No mês seguinte, lá estava a flor, uma margarida simples colhida à beira da estrada, provavelmente escondida entre os grãos de arroz. Junto dela, outro bilhete. Estou à procura de ajuda. Não confio na polícia local. O coronel tem muitos amigos.
Preciso de um plano melhor. Aguente firme. E assim começou aquela comunicação estranha, secreta, que se tornou o meu único contacto com o mundo exterior. A única prova de que não estava completamente sozinho, abandonado naquele inferno. Cada mês, o Toninho deixava algo diferente no saco de arroz, uma flor no saco de farinha, um fósforo riscado, um bilhete dentro do sabonete.
pouco, mas era a minha única esperança. Às vezes, quando conseguia, também eu deixava-lhe recados. Desenhava mapas da quinta no chão da dispensa, depois apagava com o pé, explicava os horários dos guardas, os momentos em que a vigilância diminuía. Certa vez Consegui até entregar uma carta a minha mãe.
Escrevi as pressas enquanto as gémeas tomavam banho, dizendo que estava vivo, que não tinha abandonado ela, que um dia ia voltar. Nunca soube se o Toninho conseguiu entregar, mas só de imaginar que talvez a minha mãe soubesse a verdade já me dava força para aguentar mais um dia. O tempo foi passando e com ele o nosso plano foi tomando forma.
O Toninho descobriu onde ficavam as rodas do meu camião, guardadas num barracão afastado da casa principal. Descobriu também que o coronel viajaria em breve para a capital para uma consulta médica importante. Seria a nossa melhor hipótese. Quando ele for embora, vou estar pronto. Toninho prometeu no último bilhete. Fique atento aos sinais.
Pela primeira vez, em quase dois anos, senti algo que me tinha esquecido como era. Esperança. Não aquela esperança vaga, distante de quem sonha com um milagre, mas a esperança concreta, com data marcada, com plano traçado. As gémeas notaram a mudança em mim. Notaram como parecia mais animado, como voltei a comer em condições, a sorrir de vez em quando. Isso deixou-as desconfiadas.
O que anda a aprontar?”, perguntou Agatha, estudando-me com aqueles olhos de cobra que ela tinha. “Nada”, respondi encolhendo os ombros. “Só estou a me habituando-se à vida aqui. Eu disse que acabaria por gostar de nós.” Áurea sorriu paraa irmã, acariciando o meu rosto. “Não disse.” Deixei-os pensar o que quisessem.
Quanto menos desconfiassem, melhor. O plano estava traçado, a data marcada. Só precisava de aguentar mais um pouco. À noite, deitado entre as duas, como sempre, olhava para o teto e imaginava como seria voltar para a estrada, sentir o vento na cara, o roncar do motor, a liberdade debaixo das rodas.
Será que ainda se lembrava de como conduzir depois de tanto tempo parado? Será que o meu velho Mercedes ainda pegaria? Questões que só o tempo responderia. Por enquanto, tinha algo que não tinha há muito tempo, um plano, uma saída, uma luz ao fundo daquele túnel escuro que se tinha tornado a minha vida. Toninho compreende e passa a deixar objetos como sinal.
Cada flor, cada fósforo, cada bilhete era como um raio de sol entrando pela frincha da janela, pequeno, fraco, mas suficiente para iluminar a escuridão que me rodeava. A liberdade estava mesmo ali à minha espera. Eu podia sentir o seu cheiro como o cheiro de asfalto quente depois da chuva. Podia ouvir o seu chamamento como o barulho distante de um motor de camião na estrada.
Era apenas uma questão de tempo e paciência e coragem. Três coisas que eu tinha aprendido na estrada muito antes de cair naquela armadilha. Três coisas que ninguém, nem o coronel, nem as gémeas, nem o cativeiro, conseguiu arrancar de mim. O meu nome é João Paulo da Luz. Sou camionista e esta é a minha história de como encontrei esperança no lugar mais improvável.
Um miúdo desajeitado que mal sabia carregar um saco de arroz. Há momentos na vida que nunca se esquece. O primeiro beijo, o nascimento de um filho, a morte de um ente querido. Para mim foi aquela noite, a noite em que recuperei a minha liberdade passados 2 anos e 4 meses, preso num casamento forçado com duas mulheres que partilhavam o mesmo corpo.
O dia tinha começado como qualquer outro. Acordei com a Agatha, a picar-me, reclamando que eu ressonava. áurea do outro lado, defendendo que só respirava mais forte. O pequeno-almoço igual a todos os outros dias, pão, café, um pedaço de queijo, a mesma conversa de sempre, as mesmas queixas, os mesmos olhares de desconfiança, mas algo estava diferente no ar, no vento, na tensão dos meus músculos.
Eu sabia que era hoje, o dia que o Toninho e eu tínhamos planeado nos últimos três meses. O coronel tinha viajado no dia anterior para a capital. Consulta médica importante disseram. Levou dois dos capangas mais brutamontes, deixando a quinta com menos vigilância. Era a nossa oportunidade. O plano era simples. O Toninho chegaria com o camião de entregas ao fim da tarde, como sempre.
Daria um chá especial, misturado com um remédio forte para dormir. Eu daria para as gémeas depois do jantar. Quando dormissem, fugiria pela porta dos fundos, onde Toninho estaria à espera com o camião. Simples na teoria. Na prática, o meu coração parecia querer saltar pela boca a cada minuto daquele dia interminável.
Você tá estranho hoje”, comentou Agatha durante o almoço, estudando-me com aqueles olhos que pareciam ver através da minha alma. “Só com dor de cabeça, menti, evitando olhar diretamente para ela. Acho que é o calor.” “Quer que prepare um chá?”, ofereceu Áuria, sempre com aquela voz melosa que escondia o controlo por trás do carinho.
“Não precisa”, respondi demasiado rápido. “Já vai passar. As horas arrastavam-se como um camião sem motor numa subida. Cada minuto parecia uma eternidade. Quando finalmente ouvi o barulho do motor do camião do Toninho a chegar, quase não consegui disfarçar o alívio. “Vou ajudar a descarregar”, disse eu, levantando-se da cadeira onde estava sentado com as gémeas na varanda.
“Desde quando se interessa pelos mantimentos?”, questionou Agatha desconfiada. Só quero esticar um pouco as pernas”, respondi encolhendo os ombros. “Ficar o dia todo sentado está a deixar-me com dor nas costas”. Aía convenceu a irmã a me deixar ir com aquela conversa mansa dela. “Deixa-o ir, irmã, faz bem se mexer um pouco.
” Saí para o pátio, tentando não parecer demasiado apressado. O Toninho já estava a descarregar as primeiras caixas. Os nossos olhos se encontraram por um segundo e aquele olhar dizia tudo. Estava na hora. Te ajudo com isso disse pegando numa das caixas. Quando ninguém estava a olhar, ele deslizou um pequeno pacote para dentro do meu bolso.
No chá delas, sussurrou, sem olhar diretamente para mim. Uma colher de chá é suficiente. Vai fazer efeito em meia hora. Assenti de leve e voltei a carregar. caixas, como se nada tivesse acontecido. O pacote no o meu bolso parecia pesar uma tonelada. Depois de tudo ter sido descarregado, O Toninho partiu como sempre, mas eu sabia que ele não iria longe.
Estacionaria o camião a alguns quilómetros da quinta e regressaria a pé, esperando por mim nos fundos da propriedade. A noite chegou finalmente. O jantar foi servido às 7 em ponto, como sempre. arroz, feijão, um pedaço de carne. As gémeas comiam em silêncio, comentando ocasionalmente sobre o programa que queriam assistir na TV depois.
“Que tal um chá depois do jantar?”, sugeri, tentando manter a voz firme. “Está uma noite friazinha.” Agatha olhou-me desconfiada, “Como sempre. Desde quando é que gosta de chá?” “Aprendi a gostar”, respondi dando de ombros. A Áurea diz sempre que faz bem paraa digestão. É verdade. Sorriu Áuria, sempre feliz quando eu mencionava algo que ela me tinha ensinado.
Eu mesma posso preparar. Não falei. Talvez rápido demais. Deixa que eu faço. Vocês já fazem tanto por mim. A Agatha ainda me olhava com desconfiança, mas acabou concordando. Acabámos de jantar e fui para a cozinha preparar o chá. Minhas mãos tremiam tanto que quase derrubei o bule. Coloquei a água a ferver. Separei três chávenas.
Precisava de tomar também, senão seria muito suspeito. Quando ninguém estava a ver, coloquei o pó que o Toninho me deu nas duas chávenas delas. Misturei bem com o chá de camomila que elas gostavam. Na minha, só chá normal. João Paulo aproveita que as gémeas dormiram após um chá forte. Voltei para a sala carregando o tabuleiro com as três chávenas.
Elas estavam sentadas no sofá a ver a novela das 8. Entreguei uma chávena a cada uma, sentei-me entre elas, como sempre. “Hum, tá diferente”, comentou depois do primeiro gole, “ma doce”. Coloquei um pouco de mel. “Menti, o coração quase a sair pela boca. Pensei que vocês iam gostar.” “Não está mau”, concordou Agatha.
Para o meu surpresa, raramente elogiava qualquer coisa que eu fizesse. Bebemos o chá em silêncio, a ver a novela. Fingi interesse pela história enquanto contava os minutos na minha cabeça. 20 minutos depois, notei a áureia bocejando. “Estou com um sono”, ela murmurou, com a voz já arrastada. “Também”, respondeu Agatha, os olhos já pesados. “Deve ser do chá.
” Vamos dormir então”, sugeri tentando não parecer demasiado ansioso. “A novela a gente vê amanhã.” Levantei-me e ajudei as duas a irem para o quarto. Elas já cambaleavam, o remédio fazendo efeito mais rapidamente do que Toninho tinha previsto. Deitaram-se na cama e, em menos de 5 minutos estavam dormindo profundamente.
Fiquei ali observando, certificando-me de que realmente dormiam. A respiração delas estava pesada, sincronizada. Agatha até ressonava levemente, sinal de que o sono era profundo. Era agora a minha hipótese de liberdade depois de tanto tempo. Peguei na pequena mochila que tinha preparado às escondidas, com alguns documentos e as poucas roupas que Consegui juntar sem que elas percebessem.
Olhei uma última vez para as duas, a dormir na cama que partilhamos há tanto tempo. Não senti ódio, não senti raiva, apenas um vazio enorme e a certeza de que nunca mais queria passar por algo semelhante. Nunca pensei que uma carroçaria de milho fosse ser a minha salvação. Saí do quarto na ponta dos pés. Atravessei o corredor escuro. A casa estava silenciosa.
Só se ouvia o tic-tacque do relógio na parede da sala. Passei pela cozinha, peguei num pouco de água e pão para a viagem. Abri a porta das traseiras devagar, esperando a qualquer momento ouvir o grito de um dos capangas, o barulho de uma arma a ser engatilhada, mas nada veio. Só o silêncio da noite, o céu estrelado, a brisa fresca do sertão.
Corria agachado até ao limite da propriedade, seguindo o caminho que tinha decorado durante meses de observação. Sabia onde cada guarda costumava ficar, onde os cães dormiam, onde a vedação era mais baixa. Cheguei ao ponto combinado com o Toninho, ofegante, o coração a bater tão forte que achei que se podia ouvir a quilómetros de distância.
E se ele não viesse? E se tivesse desistido? E se fosse uma armadilha? Minutos se passaram, longos, intermináveis. Depois ouvi o som mais doce que um camionista pode ouvir, o roncar de um motor diesel a aproximar-se bem baixinho com os faróis apagados. O camiãozinho velho de Toninho surgiu na curva da estrada, quase invisível na escuridão.
Parou, abriu a porta do pendura. “Entra logo”, sussurrou, olhando nervoso para os lados. Não foi preciso falar duas vezes. Saltei para dentro do camião, fechei a porta. Ele deu-lhe novamente partida, ainda com os faróis apagados, afastando-se lentamente da quinta. Só quando estávamos a alguns quilómetros de distância, acendeu os faróis e aumentou a velocidade.
“Conseguimos”, disse um sorriso largo no rosto jovem. “Está livre, senhor João?” Não consegui responder. A emoção era grande demais. Senti as lágrimas a escorrer pelo rosto, o nó na garganta, o tremor nas mãos livre depois de tanto tempo, tantos dias iguais, tantas noites sufocantes, livre. Para onde vamos?, perguntei finalmente quando recuperei a voz.
Barreiras, respondeu o Toninho, concentrado na estrada escura. Tenho um primo lá que te vai esconder por uns dias até decidirmos o que fazer. foge para barreiras, fica escondido na casa de um primo camionista. A viagem até barreiras foi a mais longa e a mais curta da minha vida. Longa pelo medo de ser apanhado, pela atenção a cada ruído, a cada farol que surgia na estrada, curta pela sensação de liberdade, crescendo a cada quilómetro que nos afastava da quinta do coronel.
Chegámos a casa do primo do Toninho, já perto do amanhecer. Era uma quinta simples nos arredores da cidade, escondida por um mataga longe de olhares curiosos. O primo, também camionista, recebeu-me sem fazer muitas perguntas. As pessoas da estrada entendem quando um irmão está a precisar de ajuda sem precisar explicar muito.
“Fica aqui o tempo que precisar”, disse, mostrando um quarto simples nas traseiras da casa. Ninguém te vai encontrar aqui. Desabei na cama, exausto física e emocionalmente. Mas pela primeira vez em mais de dois anos, dormi sem as gémeas ao meu lado, sem o medo de acordar com a Ágatha me vigiando, sem a sensação sufocante de ser propriedade de alguém.
Nos dias que se seguiram, fui gradualmente sentindo-me humano de novo. Tomei banho sozinho, sem ninguém a observar-me. Comi o que queria à hora que queria. Fiquei em silêncio quando queria silêncio. Falei quando me apeteceu falar. Pequenas liberdades que a maioria dos pessoas nem se apercebe que tem, mas que fazem toda a diferença quando são arrancadas de si.
Uma semana depois, Consegui contacto com a minha mãe. Toninho trouxe-a até à quinta num domingo à tarde. Quando a vi depois de tanto tempo, quase não o reconheci. Estava mais velha, mais magra, os olhos encovados de quem chorou demasiadas noites. Nos abraçamos durante muito tempo, sem dizer nada. Não precisava.
Ela sabia o que eu tinha passado. Eu sabia o que ela tinha sofrido, pensando que eu tinha abandonado ela. “O coronel procurou-me”, contou ela depois, sentada na varanda da quinta. Veio com os capangas, querendo saber onde estava. Disse que não sabia de nada, que pensava que tinha fugido para São Paulo. Senti um arrepio na espinha.
O coronel não era homem de desistir facilmente. Ele viria atrás de mim com certeza e quando me encontrasse, vamos denunciar ele decidiu Toninho sentado connosco. Cárcere privado, casamento forçado, ameaças. Ele tem que pagar pelo que fez. Olhei para o miúdo magrelo, que tinha arriscado tanto para me ajudar e senti um misto de gratidão e medo.
Gratidão pela sua coragem, medo pelo que poderia acontecer se enfrentássemos o coronel Olímpio. Mas tinha razão. Não podia deixar que aquilo continue, não só por mim, mas por qualquer outro que o coronel pudesse forçar a mesma situação. “Vamos fazer isso?”, concordei, sentindo uma coragem que não sabia que ainda tinha.
Vamos acabar com o reinado deste homem. E assim começa um novo capítulo da minha história, já não como prisioneiro, mas como homem livre, determinado a fazer justiça. A estrada, minha velha companheira, esperava-me de novo e dessa vez ninguém me iria tirar dela. A verdade é que enfrentar um homem poderoso como o coronel Olímpio não é como conduzir em estrada plana.
É a subir de serra com mau travão e carga pesada. Cada curva pode ser a última. Cada decisão pode custar tudo. Mas quando já perdeu dois anos da sua vida num cativeiro disfarçado de casamento, o o medo dá lugar a um tipo diferente de coragem. A coragem de quem já não tem nada a perder. Fiquei escondido naquela quinta em barreiras durante quase duas semanas.
O Toninho ia e vinha trazendo notícias da cidade, da quinta, do coronel. E as notícias não eram boas. O velho tinha regressado da capital furioso, colocando toda a gente atrás de mim. Espalhou que eu tinha abandonado as filhas dele, que eu era um vagabundo ingrato que fugiu depois de todo o bem que me tinham feito. “Há gente armada à tua procura por toda a região”, O Toninho avisou sentado na varanda comigo numa tarde abafada.
O coronel tá oferecendo recompensa a quem te encontrar. A minha mãe, sentada do outro lado, apertou-me a mão com força. O medo nos olhos dela dizia tudo o que ela não falava com palavras. “Precisamos de ir à polícia”, insisti mesmo sabendo que era arriscado. Contar tudo, fazer uma queixa formal. “Acha que a polícia daqui vai fazer alguma coisa contra o coronel?”, questionou o primo de Toninho, um camionista veterano chamado Sebastião.
Metade dele está na folha de vencimento dele há anos. Ele tinha razão e eu sabia disso. A influência do coronel ia muito para além da quinta. Chegava à esquadra, na câmara municipal, em todos os cantos da cidade pequena, mas não podia ficar parado me escondendo para sempre. Foi quando O Toninho teve a ideia que mudou tudo. “O meu tio trabalha no jornal da capital”, disse, os olhos brilhando de empolgação.
“Aquele que faz reportagens de denúncia, sabe? E se a gente levasse a sua história para eles com provas e tudo?” Olhei para ele, sentindo uma mistura de esperança e medo. Expor a minha história significava expor também a minha vergonha, o meu cativeiro, os pormenores sórdidos daquele casamento forçado. Mas se fosse a única forma de fazer justiça, que provas temos? Perguntei, passando a mão pelo cabelo já grisalho nas têmporas.
marca dos anos de sofrimento. Ten os bilhetes que me mandou. O Toninho respondeu. A sua mãe pode testemunhar. E há mais. Descobri que não foi o primeiro. Levantei a cabeça surpreendido. Como assim? João denuncia. Descobre que houve outros rapazes antes dele que desistiram. O Toninho contou-me então o que tinha descoberto nas últimas semanas, vasculhando os boatos da região, conversando com gente antiga da cidade.
Houve outros antes de mim, pelo três rapazes que o coronel tinha convidado para conhecer as filhas. Rapazes de famílias pobres, endividadas, vulneráveis. Rapazes que, ao contrário de mim, não aguentaram nem os primeiros dias e fugiram. ou desistiram, como dizia o coronel. E o que lhes aconteceu? Perguntei já imaginando o pior.
Um desapareceu, dizem que foi embora para o sul. Outro está internado num hospício em Salvador, completamente louco. O terceiro, Toninho, hesitou. O terceiro apareceu morto num canavial. Acidente, segundo a polícia. Um calafrio percorreu a minha espinha. Podia ter sido eu. Se não fosse pela ajuda do Toninho, talvez eu fosse mais um acidente nas estatísticas da região.
Precisamos de ir até ao fim, decidi. A voz mais firme do que me sentia por dentro. Vamos falar com o seu tio do jornal. Nos dias seguintes, preparamos tudo. O Toninho conseguiu marcar um encontro com o tio dele na capital. O Sebastião arranjou um carro emprestado, uma vez que o meu Mercedes ainda estava na quinta do coronel, sem as rodas.
A minha mãe preparou comida para a viagem, como se eu fosse um miúdo sair de casa pela primeira vez. Na véspera da partida, sentado na varanda vendo o sol a pôr-se, deixei a mente vaguear para as recordações daqueles dois anos. As gémeas, o controlo, o medo constante. Agatha com o seu jeito agressivo, Áurea com a sua doçura manipuladora. Duas caras da mesma moeda, duas personalidades presas no mesmo corpo e eu preso com elas.
“No que está a pensar?”, perguntou a minha mãe, sentando-se ao meu lado com uma chávena de café. “Nelas”, respondi honestamente. Nas gémeas. “Sente? Alguma coisa por elas?”, perguntou ela hesitante. Abanei a cabeça, respirando fundo. “Só pena”, confessei. Não escolheram nascer assim, coladas. Não optaram por ter um pai como o coronel, mas também não tinham o direito de fazer comigo o que fizeram.
A minha mãe assentiu, passando a mão enrugada pelo o meu rosto cansado. Sempre foste um bom menino, João Paulo. Mesmo depois de tudo, ainda consegue ter compaixão. Não era bem compaixão, era algo mais complexo, mais difícil de explicar, uma mistura de raiva, pena, compreensão e um certo vazio que ficou onde deveria haver ódio.
Na manhã seguinte, partimos cedo para a capital. Eu, o Toninho e o Sebastião, no carro velho emprestado. A minha mãe ficou, era uma viagem demasiado cansativa para ela. A estrada, que um dia foi a minha casa, parecia agora estranha, quase hostil. Dois anos sem conduzir, tinham deixado marcas. Sentia-me um estranho no lugar que um dia conheci tão bem.
O encontro com o tio de Toninho, um jornalista chamado Augusto, foi numa snack-bar de beira de estrada nos arredores da capital. Homem sério, de poucas palavras, ouviu a minha história inteira sem interromper. Depois fez perguntas, muitas, detalhadas, dolorosas de responder. “Tenho de ser sincero para consigo, João Paulo,” disse após quase 2 horas de conversa.
É uma história que vai mexer com muita gente. O coronel tem amigos poderosos até aqui na capital. Vai ser perigoso. Mais perigoso que voltar para a quinta dele? Perguntei, segurando firmemente a chávena de café já fria. Mais perigoso que viver escondido para o resto da vida. Augusto olhou-me por um longo momento, como se medisse a minha determinação.
“Vou precisar de mais provas”, ele decidiu. Fotos da quinta, depoimentos dos outros rapazes, documentos do casamento, tudo o que comprove a sua história. Saímos dali com uma missão clara: juntar o máximo de provas possível. Toninho e Sebastião se encarregariam de encontrar os outros rapazes que tinham passado pela mesma situação.
Eu ficaria na capital escondido em casa de um amigo de Augusto, escrevendo pormenorizadamente tudo o que tinha vivido nos últimos dois anos. As semanas seguintes foram de trabalho intenso. Augusto montou uma pequena equipa de investigação. Um fotógrafo conseguiu imagens da quinta, das gémeas, do coronel. Um ex-funcionário da autarquia forneceu documentos que provavam a influência do coronel na contratos públicos, nas decisões políticas, em negócios obscuros.
Encontrámos um dos rapazes que tinha desistido antes de mim. Estava a viver num concelho vizinho, trabalhando como frentista num posto de abastecimento de combustível. Quando O Toninho explicou quem éramos, o rapaz quase desmaiou de medo. “Não me quero meter nisso”, disse a tremer. “Aquele homem, aquelas mulheres, vocês não sabem do que são capazes.
” “Eu sei”, respondi olhando-o nos olhos. “Passei dois anos lá dentro. Sei exatamente do que são capazes.” Hesitou, mas acabou por aceitar dar um depoimento anónimo. A sua história era assustadoramente parecida com a minha. O pai endividado, a proposta do coronel, o casamento forçado, mas tinha fugido na primeira semana, saltando a janela no meio da noite, correndo a pé pela estrada até à cidade vizinha.
Nunca mais voltei para casa”, contou a voz embargada. “A minha família teve que se mudar. Perdi o contacto com todo mundo, vivo escondido até hoje. Cada história, cada prova que juntávamos tornava mais claro o tamanho do monstro que estávamos enfrentando e também mais urgente a necessidade de o deter. Finalmente, após quase um mês de investigação, O Augusto decidiu que tínhamos material suficiente.
A reportagem seria publicada no domingo seguinte na capa do jornal com o título O coronel e as filhas, casamentos forçados e abusos de poder no interior da Baía. Esteja preparado, O Augusto avisou-me. Quando este sair, o O inferno vai desabar sobre as nossas cabeças. e desabou mesmo. A reportagem provocou um sismo na região. Em poucas horas, a história tinha-se espalhado para os jornais de todo o país.
Em poucos dias, chegou a televisão. Repórteres invadiram a pequena cidade, querendo mais detalhes, mais provas, mais histórias de horror. O coronel vem de quinta e desaparece do mapa com as filhas. Ninguém mais soube delas. Alguns dizem que foram para Goiás. O coronel Olímpio negou tudo, claro. Diz que eu era um aproveitador que tinha abandonado as filhas dele depois de receber casa, alimentação e proteção.
Mas as provas eram muitas, os depoimentos consistentes, a pressão demasiado grande até para alguém com o poder dele. Uma semana depois da publicação, fomos surpreendidos com a notícia. O coronel tinha vendido a quinta à pressa e sumido com as filhas. Ninguém sabia para onde tinham ido. Uns diziam que para Goiás, onde tinha parentes, outros que para o estrangeiro, talvez Portugal ou Espanha.
A justiça, lenta como sempre, abriu um inquérito para investigar as denúncias, mas sem o principal arguido, sem as vítimas diretas, as próprias gémeas, o caso foi arrefecendo com o tempo. Para mim, no entanto, já era uma vitória. Não só tinha conseguido a minha liberdade de volta, como tinha impedido que outros famílias, outros rapazes, passassem pelo mesmo inferno que passei.
Escapei com vida, mas deixei a minha alma lá dentro. Voltei para as barreiras com uma sensação estranha, parte alívio, parte vazio, como se tivesse deixado algo para trás, não só na quinta do coronel, mas em algures dentro de mim mesmo. Minha mãe notou isso no instante em que me viu.
“Agora é tempo de reconstruir, meu filho”, disse ela, segurando o meu rosto entre as mãos, tijolo a tijolo, dia após dia. E foi o que fiz. Com a ajuda de Sebastião, arranjei emprego numa transportadora pequena. Não tinha mais o meu Mercedes 1113, que ficou para trás na quinta e, provavelmente foi vendido juntamente com tudo.
Mas logo juntei dinheiro comprar um camião usado, velho, mas ainda com muita estrada pela frente. Como voltei para a estrada, o meu verdadeiro lar. A princípio, só as viagens curtas dentro do estado. Depois mais longas, Bahia, Minas, Goiás, Tocantins, o Brasil inteiro a abrir-se de novo sob as rodas do meu camião. A vida seguiu, as feridas foram cicatrizando, mesmo que algumas tão profundas que nunca fecharam completamente.
Aprendi a viver com elas, como quem aprende a conduzir com um braço só ou a ver com um só olho. Adaptação a maior habilidade humana. Nunca mais tive notícias das gémeas ou do coronel. É como se tivessem desaparecido da face da Terra. Às vezes, em noites solitárias na cabine do camião, dou por mim a pensar nelas, no que teria acontecido.
Se estão bem, se mudaram, se aprenderam algo com tudo aquilo. Eu escapei com vida, mas deixei a minha alma lá dentro. Durante muito tempo, esta frase ecoou na a minha cabeça. Sentia como se tivesse perdido algo essencial durante aqueles dois anos, como se parte de mim tivesse ficado presa naquela quinta, naquele quarto, entre aquelas duas mulheres que dividiam um corpo.
Mas o tempo, esse velho remédio que a vida nos dá de graça, foi curando. estrada. A minha velha companheira foi lavando as feridas com o vento que entrava pela janela e aos poucos fui-me encontrando de novo. A estrada tem um forma única de curar feridas que nenhum médico consegue. É no roncar do motor, no balanço da cabine, no horizonte que nunca acaba que a gente encontra pedaços da alma que julgava ter perdido para sempre. Demorou, mas encontrei os meus.
Hoje, 20 anos depois daquele inferno na quinta do coronel, dirijo o meu próprio camião. Não é novo nem como o meu velho Mercedes 1113, mas leva-me por onde quero ir. E isso, irmão, não tem preço. A liberdade que um dia me roubaram agora é a minha companheira de todos os dias. Muita gente pergunta-me como consegui seguir em frente depois de tudo o que passei.
Como é que não fiquei louco? Como não me afoguei na bebida, como não desisti da vida? A resposta é simples e complicada ao mesmo tempo. Um dia de cada vez, 1 km de cada vez, uma curva de cada vez. Você pode conduzir mil estradas nesse país, mas se não tiver coragem para sair de onde faz-lhe mal, vai morrer parado. Id.
Essa frase nasceu em mim numa madrugada qualquer, quando atravessava a Belém Brasília com uma carga de soja. Veio como uma revelação daquelas que só a solidão da estrada proporciona. Percebi que muita gente passa a vida inteira presa em situações que destroem a alma, que sugam a vontade de viver. Casamentos infelizes, empregos abusivos, amizades tóxicas, ficam porque têm medo do desconhecido, porque acham que não merecem coisa melhor, porque se habituaram ao sofrimento.
Eu também pensei que me ia acostumar. Nos piores momentos daquele cativeiro disfarçado de casamento, cheguei a pensar que talvez fosse o meu destino, que talvez merecesse aquilo de alguma forma. O ser humano tem esse dom terrível de normalizar o absurdo quando exposto a ele durante tempo suficiente, mas algo dentro de mim nunca aceitou.
Uma faísca de rebeldia, de dignidade, que nem as gémeas, nem o coronel conseguiram apagar. Foi essa faísca que me manteve vivo, que me fez procurar uma saída, que fez-me reconhecer no Toninho a chance que precisava. Toninho, este miúdo mudou a minha vida. Depois de tudo o que aconteceu, ele continuou na região durante algum tempo, trabalhar com entregas, mas o sonho dele sempre foi estudar.
Com a recompensa que recebeu do jornal pela reportagem sobre o coronel, conseguiu pagar uma faculdade de jornalismo na capital. Hoje é repórter. Viaja oo Brasil a cobrir histórias de injustiça social, de pessoas invisíveis que sofrem nas mãos dos poderosos. Às vezes encontramo-nos em posts rotas se cruzam.
Sentámo-nos, tomamos um café, recordamos aqueles dias loucos e a minha mãe, a minha velha guerreira, viveu mais 10 anos depois da minha fuga. Tempo suficiente para me ver recuperar a dignidade, voltar à estrada. reconstruir a vida. Morreu a dormir em paz numa noite de junho. Deixou um vazio que nada preenche, mas também deixou o exemplo de força que levo comigo em cada viagem.
Sobre o coronel e as gémeas, pouco se sabe. Rumores dizem que foram para Goiás, depois para o Mato Grosso. Outros falam que atravessaram a fronteira, foram para o Paraguai ou Argentina. Há quem jure que o coronel morreu há anos. Mas ninguém sabe dizer como ou onde. As gémeas, essas sim são um mistério completo.
Desapareceram como fumo, sem deixar rasto. Às vezes pergunto-me como seria encontrá-las hoje. O que diria? O que sentiria? A raiva, o perdão, indiferença, provavelmente um pouco de tudo. O tempo não apaga as cicatrizes, mas diminui a dor quando lhes tocamos. O que passei mudou a forma como vejo o mundo, que vejo as pessoas. Aprendi a valorizar coisas que antes nem reparava.
O silêncio, a solidão escolhida, não imposta, o direito de ir e vir, o poder de dizer não. Também aprendi a reconhecer sinais de abuso, de controlo, de manipulação. E quando vejo, não fico calado. Já ajudei mais do que um companheiro de estrada a sair de relações abusivas. Homens fortes que transportam toneladas Brasil fora, mas que em casa são prisioneiros de mulheres que os diminuem, que controlam cada passo, cada cêntimo, cada respiração.
Porque isso é uma verdade de que ninguém fala. Homem também sofre maus tratos. Homem também vive relacionamento tóxico. O homem também é manipulado, controlado, anulado. Só que fomos ensinados a engolir, a aguentar calado, a não demonstrar fraqueza. Homem que é homem não chora, aguenta o tranco, não leva desaforos para casa.
Estas mentiras que nos contam desde criança e que nos transformam em presas fáceis para quem sabe utilizar as nossas inseguranças contra nós próprios. Conheço o camionista que conduz 16 horas por dia, enfrenta assalto, estrada esburacada, chuva, sol e quando chega a casa, baixa a cabeça à mulher que grita com ele por qualquer coisa, que controla o dinheiro que ganha com tanto sacrifício, que o faz sentir um lixo, um nada.
E ele fica por vergonha de admitir a situação, por medo do que os outros vão pensar, pelos filhos. por achar que não merece coisa melhor. Quando encontro um irmão de estrada nesta situação, conto a minha história. Não toda, apenas o suficiente para ele compreender que sei do que estou falando, que já estive no fundo do poço e consegui sair, que há vida depois do abuso, que existe luz no fim daquele túnel escuro.
Uns escutam, outros não estão prontos para ouvir. Cada um tem o seu tempo, a sua viagem. Não julgo. Só ofereço a mão, como o Toninho ofereceu para mim quando mais precisava. Você pode conduzir mil estradas nesse país, mas se não tiver coragem para sair de onde faz-lhe mal, vai morrer parado. Essa é a mensagem que hoje deixo.
Para si que está a ver este vídeo e se identificou-se com alguma parte da minha história. Para si que sente aquele aperto no peito cada vez que o telemóvel toca e é ela ou ele a cobrar onde você está, com quem está, porque ainda não voltou. Para si que vive pisando em ovos, com medo de falar ou fazer algo que vai despertar a fera, para si que já não se reconhece no espelho de tanto que mudou para agradar a quem nunca está satisfeito.
Saiba que não está sozinho, que o que sente é real, não é miimi, não é frescura, que mereces respeito, carinho, liberdade, que relação bom é parceria, não prisão, é crescer juntos, não se diminuir, é sentir paz, não medo. E se está nessa situação, lembre-se, existe sempre uma saída, há sempre um toninho disposto a ajudar.
Há sempre uma estrada nova à sua espera. Mas o primeiro passo, a decisão mais difícil só você pode tomar. Eu tomei a minha há 20 anos atrás. Foi a coisa mais assustadora e mais libertadora que já fiz na vida. E se pudesse voltar atrás no tempo, faria tudo outra vez, só que muito, muito antes. Hoje Conduzo o meu camião com o coração leve e a alma em paz.
Cada viagem é uma celebração da minha liberdade reconquistada. Cada curva, cada reta, cada paragem é uma escolha minha, não uma imposição de alguém. A estrada me ensinou que a vida é feita de partidas e chegadas, que por vezes é preciso deixar tudo para trás para encontrar o que realmente importa. Que a bagagem mais pesada não é a que vai na carroçaria, mas a que trazemos dentro do peito.
Se é homem e já se sentiu preso dentro da própria casa, deixa lá o teu comentário embaixo. Há mais João Paulo por aí do que a gente imagina. E aqui neste canal não tá sozinho. A estrada é longa, parceiro, mas vale a pena cada quilómetro quando conduz com o coração livre. Vai uma boleia. M.