Posted in

EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UMA JOVEM EM 1995

Em maio de 1995, fiz o funeral de uma jovem de 26 anos, que morreu num acidente de viação na autoestrada. E quando o cemitério já estava a fechar, vi uma mulher ainda parada perto do túmulo da jovem, de costas e cabeça baixa. Eu chamei, mas ela não respondeu. Mas quando eu estava a cerca de 6 m, ela virou-se e eu não acreditei no que vi.

E o que ela me disse tirou-me o sono durante dias. O meu nome é Jonas César da Silva, tenho 64 anos e esta é a minha história em minutos. Eu trabalhei durante quase 13 anos dentro do cemitério municipal da CIA Norte, no interior do Paraná. Comecei novo com 29 anos e com o tempo fui aprendendo que aquele lugar tem uma lógica própria.

Aprende-se a respeitar o silêncio, aprende a trabalhar sem fazer barulho desnecessário. Aprende que cada cova tem uma história. Eu sempre fiz o meu serviço com cuidado e fui-me embora. Nunca levei o cemitério para dentro de casa, pelo menos até aquele dia. Era uma manhã de segunda-feira.

Eu cheguei mais cedo e o cemitério municipal ainda estava vazio. Eu gostava deste momento antes de tudo começar. E quando estava a organizar as ferramentas para iniciar o serviço, apareceu um colega mais velho. Ele parou ao meu lado e disse que tinham trazido uma jovem para enterrar nesse dia, no final da tarde, e que ela tinha morrido num acidente de viação na auto-estrada cinco dias antes.

Disse que eram três jovens no total. que regressavam de uma festa em outra cidade quando o acidente aconteceu. Falou ainda que o caixão ia ser fechado, que o estado do corpo não permitia o velório aberto. Eu entendi o que ele quis dizer sem precisar de explicação. Em 4 anos de cemitério, eu já tinha aprendido que um caixão fechado carrega um peso diferente.

A família não consegue despedir-se do jeito que precisa. Fica aquela coisa sem fechar, uma despedida que nunca acaba de verdade. Abanei a cabeça e cada um foi para o seu lado. Tinha serviço para fazer antes do enterro chegar. A família apareceu perto das 17 horas. Eram poucas pessoas. Uma senhora de preto que eu Percebi logo ser a mãe, duas ou três mulheres mais jovens que deviam ser parentes e alguns homens de cabeça baixa que mal se olhavam.

O caixão chegou fechado, como o colega tinha dito, branco, simples, com uma fotografia pequena em cima. Mesmo de longe, eu sentia o peso daquela despedida. Tem enterro que se faz e se esquece no mesmo dia. Não porque seja frio, mas porque a vida continua e o cemitério não pára. Aprende-se a separar. Aprende que a dor dos outros não pode ser a sua, senão não aguenta nenhum mês no serviço.

Eu tinha aprendido isso nos primeiros anos, mas há enterramentos que não respeitam o que aprendeu. Aquele estava a ser assim. Tentei continuar o serviço sem pensar demais e não consegui. O padre conduziu a cerimónia com voz calma, daquela maneira que os padres do interior têm, sem pressa, mas sem demora.

As pessoas ficaram em roda em torno do caixão com a cabeça baixa. Ó mãe estava de pé mesmo à frente, como quem está usando toda a força que tem só para não cair. Eu já tinha visto muita mãe enterrar filho naquele cemitério e que estava a carregar algo que doía só de ver. Foi quando ouvi. A mãe estava com as mãos em cima do caixão e a cabeça quase encostada à madeira.

Ela falava baixinho, quase para si própria. disse que tinha avisado, que tinha tentado avisar. Só isso. Aquelas simples palavras ditas daquela maneira, foram as mais pesadas que ouvi em 4 anos a trabalhar ali. Foi naquele momento que alguma coisa mudou. Não foi um pensamento, não foi um medo, foi um peso que apareceu do nada, um peso que não era o meu, que não tinha entrado comigo pelo portão de manhã.

Depois o padre terminou e as pessoas foram abraçando-se. Aos poucos a família foi saindo. A mãe foi uma das últimas. Ela olhou para o túmulo uma última vez antes de virar costas e ir embora. O sol já descia atrás das árvores do cemitério. E aquele fim de tarde tinha uma luz diferente, mais amarela, mais pesada.

O cemitério foi esvaziando devagar e o peso que tinha pousado em mim quando ouvi a mãe falar não tinha ido embora com ela. Ficou quieto e constante. Acabei o que precisava ser feito e fui buscar as ferramentas para guardar, mas ainda não sabia que o dia estava longe de terminar. Quando eu dobrei a última curva antes do depósito, vi do outro lado do cemitério, perto do túmulo, onde a Lúcia tinha sido enterrada minutos antes, tinha uma mulher parada de costas para mim, cabeça baixa, sem se mexer.

A roupa era escura, igual à da família que tinha acabado de ir embora. Parei por um segundo e olhei. Por vezes era um familiar que precisava de mais um tempo, mais um momento sozinho antes de sair. Então eu guardei as ferramentas, organizei o depósito da forma que precisava ficar para o dia seguinte e lavei as mãos no tanque do lado de fora.

Esse era o ritual do fim do dia. Depois disso, era basta fechar o portão e ir embora. Foi quando me lembrei da mulher perto do túmulo. O cemitério encerrava às 18 horas e ninguém podia ficar depois disso. Era procedimento. Eu precisava de avisá-la antes de fechar o portão. Voltei pelo mesmo caminho que tinha vindo entre as fileiras de túmulos antigos na direção do setor onde o enterro tinha acontecido.

Advertisements

Eu ainda estava a uns 30 m Percebi que ela continuava lá na mesma posição, de costas, cabeça baixa, sem ter-se movido em nenhum momento. Eu chamei, não gritei. Disse que o cemitério estava a fechar e que ela precisava de sair. A minha voz saiu normal e chegou até onde ela estava. Eu sei disso porque o cemitério estava vazio e quieto e qualquer som a essa hora dava para escutar.

Mas ela não se mexeu, não virou a cabeça, não deu um passo, não fez qualquer gesto, ficou exatamente como estava. Eu parei e fiquei a olhar durante alguns segundos. Tentei perceber o que estava a ver. Às vezes a pessoa está tão dentro do próprio sofrimento que não escuta nada do que acontece do lado de fora. Eu já tinha visto isto antes.

Familiar que se encontrava parado em frente do túmulo como se o mundo tivesse desaparecido ao redor. Então comecei a andar na direção dela, a aproximar-se, a falar de novo e, se precisasse ia tocá-la no ombro com cuidado para não assustar. Foi quando percebi que algo no ar tinha alterado, como quando a temperatura desce sem que note exatamente que ficou frio.

O silêncio que ali estava não era o mesmo silêncio de antes. Em 4 anos de cemitério, tinha aprendido a conhecer o silêncio daquele lugar. E esse era diferente de todos eles. Era mais fechado, mais compacto, como se o ar tivesse deixado de circular naquele trecho. Eu continuei a andar mesmo assim.

Chamei de novo, um pouco mais alto desta vez. Disse que precisava fechar e que ela tinha de sair. A minha voz soou estranha naquele silêncio, como se tivesse caído num sítio onde não ia chegar a lado nenhum. E ela continuou sem reagir. Nem um movimento de cabeça, nem um sinal de que tinha ouvido. Eu estava a cerca de 10 m dela nesse momento e algo me fez andar mais devagar.

Cada passo que eu dava naquele troço parecia demorar mais tempo do que devia. Não era o chão, não era cansaço, era outra coisa que não sei explicar bem até hoje, como se aquele espaço entre mim e ela fosse mais comprido do que os olhos estavam a ver. Eu continuei. Quando eu estava a cerca de 6 m dela, virou-se devagar, da maneira que uma pessoa vira quando sabe que alguém está ali.

E eu parei. Fiquei nesse ponto com os pés no chão de terra batida do cemitério, olhando para o rosto daquela mulher. E alguma coisa dentro de mim compreendeu que aquilo que estava à minha frente não era o que eu tinha pensado que era. Eu Fiquei parado, olhando para o rosto dela. Era comum, sem nada de diferente.

Uma jovem de cabelo escuro, feições simples, mas alguma coisa não estava certo e eu ainda não sabia dizer o quê. Fiquei ali parado, tentando perceber o que os meus olhos estavam a ver e não conseguia juntar as peças. Foi então que Olhei para a fotografia em cima do túmulo. Ela ainda lá estava apoiada na pedra, da forma que a família tinha deixado antes de partir.

Era uma imagem pequena, com moldura simples, daqueles que as famílias trazem para colocar perto da sepultura nos primeiros dias. Olhei para a foto e depois para a mulher à minha frente. E foi nesse momento em que alguma coisa dentro de mim travou. O rosto na fotografia e o rosto daquela mulher eram o mesmo, exactamente o mesmo. Não me mexi, não consegui.

Fiquei parado nesse ponto a cerca de 6 m dela, sem saber o que fazer. A minha cabeça tentava encontrar uma explicação que fizesse sentido. Uma irmã, uma prima parecida. Mas não era isso. Eu sabia que não era isso. Em 4 anos de cemitério, você aprende a confiar no que o corpo sente antes de a cabeça explicar.

E o que eu estava a sentir naquele momento não deixava margem para dúvida nenhuma. Ela estava a olhar para mim e era um olhar quieto, direto, de quem está a transportar algo que pesa demasiado e já não sabe como carregar sozinho. E dentro desse olhar havia uma tristeza que eu sentia. Era a tristeza de quem ficou preso num lugar que já não é o seu lugar.

Eu não sei quanto tempo fiquei ali parado. O sol tinha desaparecido completamente e a luz que restava era a de fim de tarde que não aclara nada direito. E foi então que chegou. Não foi um som que veio pelo ar da forma que um som normal vem. Foi dentro da minha cabeça, direto, sem passar por nenhum local antes de chegar.

Primeiro foi um sussurro que eu nem teria prestado atenção se não estivesse tão quieto naquele momento, como o início de uma voz que ainda não tinha forma. Eu fiquei mais quieto ainda, sem pestanejar, sem respirar fundo, como se qualquer movimento fosse afastar aquilo antes de eu compreender o que era. E depois foi ficando mais claro. A voz foi aparecendo lentamente.

Não era a a minha voz. Eu conheço os meus próprios pensamentos, sei como chegam, sei o peso que têm. Aquilo era diferente. Era mais jovem, mais suave, com um cansaço lá dentro que não era físico. E foi ficando mais clara até que consegui compreender cada palavra. e dizia: “Diz à à minha mãe que eu sinto muito apenas isso, uma só frase, curta, direta, que chegou e ficou dentro de mim com um peso que não combinava com o tamanho dela.

Eu sabia de onde tinha vindo. E quando eu levantei os olhos, ela estava a virar-se de costas para mim de novo, lentamente, do mesmo modo que se tinha virado antes, sem pressas, sem dramas. E antes que eu conseguisse dar um passo, antes que qualquer parte de mim decidisse o que fazer, ela desapareceu, não foi embora pelo caminho, não se afastou a pé, estava lá e depois não estava.

Simples assim, da forma mais impossível que já vi em toda a minha vida. Olhei para o lugar onde ela tinha estado, para o túmulo, para a fotografia, para o chão de terra batida batida ao redor. Não tinha nada, era só o cemitério vazio, o silêncio a regressar ao normal aos poucos e a luz do fim do dia desaparecendo lentamente entre as árvores.

Eu já tinha ouvido o relato de um colega que viveu coisa estranha dentro de cemitério, que de vez em quando um coisa ou outra chegava perto de quem trabalhava naquele local, mas nunca nada assim, nunca nada que chegasse dentro da a minha cabeça. Depois de ela ter desaparecido, tudo voltou ao normal, menos eu.

Eu fiquei com uma frase dentro da cabeça que não era meu e com a certeza de que o dia que tinha começado como qualquer outro tinha-se tornado uma coisa que eu não sabia ainda como carregar. Fechei o portão do cemitério, como sempre fazia, e fui embora sem saber o que fazer com o que tinha ficado dentro de mim.

Quando eu cheguei a casa, a minha mulher perguntou se eu estava bem. Eu disse que estava cansado. Não era mentira. Eu estava cansado de uma forma que não era de serviço. Era um cansaço diferente que vinha de dentro. E ela não perguntou mais nada. Conhecia-me bem o suficiente saber quando não estava pronto para falar.

Jantei sem fome, tomei banho e fui deitar-me antes da hora que eu costumava. Mas o sono não veio. Eu Fiquei deitado, olhando para o tecto do quarto no escuro, enquanto a frase continuava lá. Diga à minha mãe que eu sinto muito. Ela voltava da mesma maneira que tinha chegado, clara e direta, sem pedir licença.

Eu tentei pensar noutra coisa. Tentei pensar no serviço do dia seguinte, nas coisas que precisavam de ser feitas em casa, em qualquer coisa que tirasse aquilo da frente. Não adiantou nada. A frase ficou a noite inteira. No dia seguinte, fui trabalhar como se nada tivesse acontecido. Fiz o meu serviço, falei o necessário com os colegas, cumpri o horário, mas uma parte de mim estava separada de tudo aquilo, sem conseguir parar de pensar no que tinha vivido na tarde anterior, sem chegar a lado nenhum.

Eu não contei para ninguém. Não sabia como começar. Não sabia se ia conseguir explicar, sem parecer que tinha perdido o juízo. E no fundo, ainda estava a tentar entender se o que tinha visto era real ou se a minha cabeça tinha pregado uma partida. O segundo dia foi igual ao primeiro. Eu dormia pouco, acordava a meio da noite com a frase na cabeça, ficava um tempo olhando para o escuro e depois pegava no voltar a dormir por pouco tempo.

A minha mulher já estava a perceber que algo não estava certo, mas continuou sem perguntar e eu continuei sem falar. No terceiro dia, nem consegui chegar ao trabalho. Fiquei parado na calçada durante alguns minutos, sem conseguir dar o próximo passo. Não era medo de voltar ao cemitério, era outra coisa. Era a perceção de que eu estava a transportar um recado que não era meu e que enquanto eu ficasse com ele dentro de mim sem fazer nada, ele não se ia embora.

Eu sabia que sem que ninguém me tivesse de explicar. E sabia também que não tinha como entregar um recado destes, sem saber para quem entregar. Foi nessa noite, deitado novamente, sem conseguir dormir descansado, que resolvi rezar. Não sou homem de muitas palavras quando rezo, nunca fui. Mas naquela noite eu precisava de alguma coisa maior do que eu próprio para me ajudar a perceber o que estava acontecendo.

Eu pedi a Deus que se aquilo que eu tinha vivido não tivesse sido imaginação minha, e se não fosse coisa do mal a tentar enganar-me, que ele me mostrasse um caminho, que me desse uma forma de resolver aquilo da melhor forma possível. Pedi isso com as palavras mais simples que tinha e fiquei quieto à espera. Não ouvi nada nessa noite, mas alguma coisa mudou depois eu orei.

Ficou mais leve, não resolvido, mas mais leve. No domingo, eu Fui trabalhar cedo, como de costume. O cemitério municipal não fechava nem no fim de semana, havia sempre serviço. Eu fiz o que tinha de ser feito na parte da manhã e perto do meio-dia fui passando pelo setor onde a Lúcia tinha sido enterrada. Não foi planeado. O caminho que precisava de fazer naquele dia passava por ali.

Mas quando eu estava a chegar perto, percebi que estava uma pessoa parada em frente ao túmulo dela. Era uma senhora, cabeça baixa, de joelhos em frente da lápide, limpando a pedra com um pano dobrado na mão. Parei antes de chegar perto. Fiquei a cerca de 20 m a observar e alguma coisa que não sei explicar começou a mexer dentro de mim.

Não era o mesmo peso do dia do enterro, era outra coisa, uma agitação que não sabia nomear. E a cabeça foi enchendo de dúvida. E se não fosse a mãe, uma tia, uma vizinha que tinha vindo visitar? E se eu chegasse lá com aquele recado e a pessoa não soubesse do que eu estava a falar? E se fosse a mãe e ela não acreditasse na nada do que eu fosse dizer, tinha um recado sem comprovação nenhuma, sem como provar de onde tinha vindo.

Era só a a minha palavra e o que tinha vivido naquela tarde de segunda-feira. Mas havia uma coisa que ficava mais forte do que todas estas dúvidas juntas. A sensação de que devia ir. Era uma certeza que agora me estava a dizer que era a hora. Respirei fundo uma vez e Comecei a andar devagar na direção daquela senhora, sem saber ainda o que ia dizer quando chegasse perto.

Eu me aproximei-me devagar, com cuidado, da forma que nos aproximamos de alguém que está no meio de um momento que é só dele. A senhora estava de joelhos na frente da lápide, passando o pano na pedra, com uma atenção que só uma mãe tem. Aquele gesto simples de limpar a pedra do túmulo dizia mais do que qualquer palavra diria.

Eu parei há uns 3 m dela e esperei. Não queria chegar de surpresa. Não queria assustar. Ela levantou os olhos e olhou para mim. Não se assustou-se, só esperou. Tirei o boné da cabeça. Não sei por o fiz. Foi automático. Acho que era a única forma que eu tinha naquele momento de mostrar respeito antes de abrir a boca. Eu me apresentei, disse que era um dos coveiros do cemitério e que tinha feito parte do serviço no dia do enterro da jovem ali sepultada.

Então ela abanou a cabeça lentamente, com os olhos já com lágrimas, e disse que era a mãe dela. A voz saiu firme, mas com um esforço por trás que eu percebi logo. Era a voz de quem já chorou tanto que aprendeu a segurar à frente dos outros. Eu não sabia por onde começar. Então resolvi começar do início, sem tentar arrumar as palavras, sem tentar que aquilo soasse melhor do que era.

Eu disse que tinha acontecido uma coisa no final do dia do enterro que precisava de contar para ela, que eu sabia que ia soar difícil de acreditar, mas que precisava de falar assim mesmo. Ela olhou para mim sem dizer nada e entendi que podia continuar. Eu contei tudo. Contei quando vi uma mulher parada perto do túmulo de costas para mim, que chamei porque o cemitério estava a fechar e ela não respondeu.

Contei que me aproximei e que quando ela virou-se, eu olhei para o rosto dela e para a fotografia em cima do túmulo e que eram o mesmo rosto. Eu falei devagar, com cuidado, sem enfeitar nada. A senhora ouvia-me com os olhos fixos no o meu rosto e as mãos apertadas no pano que ela tinha usado para limpar o lápide.

Quando cheguei à parte da mensagem, parei por um segundo. Aquela frase que tinha ficado dentro de mim durante quase uma semana, que me tinha tirado o sono, que me tinha feito parar no meio da calçada a caminho do trabalho, precisava agora de sair para a pessoa certa. Eu olhei para aquela mãe à minha frente e disse com as mesmas palavras que tinham chegado dentro da a minha cabeça naquela segunda-feira.

disse que a sua filha mandou dizer que sentia muito. Apenas isso, as mesmas palavras da mesma forma que tinham chegado. A senhora fechou os olhos como quem acabou de receber algo que estava esperando. Ela ficou assim durante algum tempo, de olhos fechados, com as mãos apertadas no pano, ajoelhada em frente da lápide da filha.

Fiquei parado, quieto, sem dizer mais nada. Não era altura de falar, era altura de deixar aquilo chegar ao lugar que precisava de chegar. Quando ela abriu, os olhos estavam cheios de lágrimas e ela começou a falar. disse que na noite do acidente, antes da filha sair de casa, as duas tinham discutido, que tinha pedido à filha para não ir àela festa, que tinha um pressentimento mau daqueles que a gente não sabe explicar de onde vem, mas que fica no estômago e não se vai embora.

Ela disse que tentou segurar a filha de todas as maneiras que sabia e que ela foi mesmo assim. Ela parou um pouco antes de continuar e depois disse que desde o acidente ela carregava aquela luta como se fosse culpa sua, como se o facto de não ter conseguido segurar a filha em casa fosse uma avaria que não tinha conserto, que ela ficava a pensar que se tivesse sido mais firme, se tivesse trancado a porta, se tivesse feito qualquer coisa diferente, talvez a filha estivesse viva. aquela culpa.

Estava nela desde a noite do acidente e não tinha dado sinal de que ia embora. Eu ouvi tudo sem interromper. Não havia nada que eu pudesse dizer que fosse maior do que o que ela me estava a contar. Eu era um coveiro de 33 anos que tinha vivido uma coisa que não sabia explicar e que tinha trazido um recado que não era meu para uma mãe que precisava de receber.

Não tinha mais nada que me coubesse ali fazer, além de estar quieto e respeitar aquele momento. Então ela ajoelhou-se de novo, desta vez de frente para a lápide, e começou a rezar. Eu fiquei ao lado dela de cabeça baixa. Não ouvi tudo o que ela disse porque a voz dela era baixa e misturada com o choro.

Mas ouvi quando ela chegou ao fim. Descanse em paz, minha filha. Sempre te vou amar. falou com uma voz que tinha dor e paz ao mesmo tempo, da forma que só uma mãe consegue juntar estas duas coisas numa só frase. E quando ela disse isto, aquela agitação foi-se embora de uma vez, como quando o gente larga um peso que estava a segurar sem se aperceber.

Eu fiquei ali parado por mais um tempo depois de ela ter terminado a oração, de cabeça baixa, sem pressa de ir a lado nenhum. Depois despedi-me com respeito e fui-me embora pelo mesmo caminho que tinha vindo. E pela primeira vez em dias fui-me embora do cemitério sem transportar nada que não fosse meu. Se você há alguém que partiu com algo inacabado entre vós, deixa uma vela acesa e diz: “Acredito que essa pessoa é lembrada e orada.

Que Deus vos abençoe e aos vossos famílias. Até ao próximo relato.