Camionista mandado parar por pref mulher que era a sua ex, agora com destinos cruzados um amor renasce. Você tá doido? Nem nos os meus piores pesadelos eu ia imaginar passar por isso. Eu estava no tapete preto, firme no volante do meu Scania Cinza nardo, todo liga, só a pensar na próxima descarga.
E foi mesmo ali no meio da pista que aconteceu. Eu vi a botina levantar a mão, mandando encostar. Até aí, rotina de estrada. Mas quando eu baixei o vidro e olhei, o meu coração quase parou. Eu juro, parecia que o tempo tinha dado desdentado. Era ela, a minha ex. E naquele instante soube. Nada mais seria como antes. O ronco do motor do meu Scania 460R cinzento nardo ecoava forte dentro da boleia.
Eu estava no meio de uma serra puxada, descendo no travão motor, quando de repente um pequeno carro resolveu-me podar sem dar seta. Você tá doido? Se eu não tivesse na liga atento no retrovisor, tinha sido notícia no rádio. Bati com a mão no volante, respirei fundo e deixei o carro seguir. Estrada é assim.
Cada quilómetros pode virar uma guerra. Peguei novamente no volante, ajeitei o banco e segui viagem. O cheiro de gasóleo misturava-se ao café requentado no copo de esferovite que eu equilibrava na consola. Na boleia, silêncio, só eu e o roncar da nave. A solidão é parceira constante, mas naquele dia ela estava mais pesada. De vez em quando pegava no telemóvel só para ver o ecrã aceso, sem mensagens, nenhum oi, nenhum tenho saudades, só o vazio.
E eu a rodar pelo tapete preto, batendo lata de sentimentos. Vamos embora, Valdir, murmurei, falando comigo mesmo, como sempre. À frente, o sol brilhava intensamente, o asfalto aquecia tanto que parecia borracha derretida. Eu já estava horas sem parar no bico seco, sem sequer molhar bem a garganta, mas parar também não resolvia.
Parar só me lembrava mais do que eu não tinha. A cada curva lembrava-me da vida que Deixei para trás, o meu cristal, aquele que perdi porque preferia a estrada. Na altura eu dizia que era provisório, que logo eu ia assentar, que camião era apenas uma fase, mas a fase nunca passou. E ela cansou-se de esperar. Estrada não tem piedade.
Pensei alto enquanto engatava a 10 segunda. Um camionista passou-me pelo rádio. Doutor, cuidado que tem QRM mais para a frente. Parece que a botina está a segurar geral. Copiado, parceiro. Valeu. Respondi ajustando o volume do PX. Na hora preparei-me. PRF na pista dá sempre aquele frio na barriga, mesmo quando a papelada está em dia.
Eu estava tranquilo, ou pelo menos achava que estava. Uns minutos depois, avistei. Con laranja, carro oficial, agentes com colete refletor. Um deles levantou a mão e apontou para mim. Era a a minha vez de encostar. Segurei firme o volante. O coração acelerou. Não era só por ser parado. Isto já era rotina para quem vive na boleia.
Mas havia algo diferente no ar, uma sensação estranha que não sabia explicar. Joguei o Scania para a berma, desliguei o PX, respirei fundo. A porta da viatura abriu devagar e vi a figura a aproximar-se. Quando a botina parou à minha janela, o tempo pareceu congelar. E foi aí, naquele instante, que a minha solidão encontrou um rosto do passado.
Essa história é de um dos nossos seguidores. Rapaziada, se esta história tá a bater firme aí no vosso coração, mete o dedo no like, subscreve o canal e não esquece-se de engatar o sininho, porque aqui a viagem nunca pára. E nos comentários, diz-me de qual pedaço do tapetão estão a assistir e como está o tempo aí. Vamos rodar juntos.
Porque esta família de brutos só cresce. Você tá doido. O sol batia forte no pára-brisas quando encostei o Scania ao acostamento. O roncar do motor foi a morrer e ficou só o barulho do meu coração acelerado. Não sei explicar, mas parecia que tinha alguma coisa diferente naquela blitz. Não era só mais uma paragem da botina.
Olhei pelo retrovisor e vi-a a aproximar-se. Passo firme, óculos de sol, colete refletivo. Na altura até pensei: “Não, não pode ser, mas era, Marta. Minha garganta secou. O tempo parecia que tinha engatado desdentado, descendo sem travão, levando-me de volta anos atrás. Ela, a minha ex, agora fardada, botina de verdade.
Documentos, por favor”, disse ela, sem levantar os óculos. A voz, estás doido. Era a mesma que um dia acordava-me de madrugada para dizer que a cama estava gelada sem mim, mas agora vinha dura, profissional. Entreguei o documento com a mão trémula. Tentei sorrir, meter conversa, mas a língua travou. Está a rodar para onde? Perguntou sem olhar para mim.
Curitiba, carga de cartão. Respondi baixinho, engolindo em seco. Ela respirou fundo, como quem luta para segurar algo lá dentro. O vento trouxe o cheiro a gasóleo misturado com perfume leve que eu reconheceria em qualquer lugar. Marta usou sempre o mesmo, discreto, mas marcante. “Pode abrir a porta do baú?”, disse firme.
Desci lentamente, as minhas botas rangendo no cascalho da berma. Enquanto caminhava até à traseira, o meu peito parecia que ia explodir. Como pode, ao fim de tantos anos, só a presença dela me desmontar daquele jeito? Ela acompanhava-me alguns passos atrás. Senti sem precisar olhar que também estava nervosa. O jeito de ajeitar o cinto, de passar a mão no cabelo apanhado, denunciava.
“Está rodando sozinho?”, perguntou de repente. “Estou?”, respondi sempre. “Estou.” A resposta saiu mais pesada do que eu queria. Ela ficou em silêncio, observando-me abrir a tranca do baú. “Mostrei a carga, tudo em ordem.” Ela conferiu rapidamente, anotou qualquer coisa num bloco de notas e voltou a se ajeitar.
No fundo, parecia que o serviço era só desculpa. O clima estava demasiado carregado. Está bom, pode fechar”, disse ela sem me encarar devidamente. Fechei a porta do Scania, respirei fundo e virei-me para ela. Marta, falei baixinho. Ela gelou por um segundo. Só esse segundo já dizia tudo. Tirou os óculos escuros devagar e encarou-me.
O olhar dela, estás doido? Parecia faca cortando o peito. Era mistura de surpresa, dor e algo que eu não consegui decifrar. Valdir, respondeu quase num sussurro. Ali soube que ela também não esperava por isso. Não era só eu que estava a ser atropelado pelo destino. O rádio da viatura chiou alto, quebrando aquele silêncio pesado.
Uma voz enviou reforço para outro ponto da estrada. Marta respirou fundo, pôs os óculos de volta e retomou o tom profissional. Está liberado, pode seguir viagem. Ela virou costas, mas antes de dar o terceiro passo, parou. Ficou alguns segundos imóvel, como se lutasse consigo mesma. Eu aproveitei: “Marta, se quiser, paro no próximo posto.
A gente toma um café.” Ela ficou ali parada, sem olhar para trás. Depois ajustou o cinto e voltou para a viatura sem dizer nada. Entrei de novo na boleia, as mãos suadas no volante. O motor ligou, mas parecia que o ronco estava diferente, mais pesado. Eu saí devagarinho, olhando pelo retrovisor.
Ela estava lá parada, olhando o meu camião afastar-se. Você tá doido? Aquela cena ficou cravada na minha mente. A estrada voltou a correr diante de mim, mas nada era igual. O cheiro dela, o tom de voz, o maneira de me chamar pelo nome. Tudo voltou como uma carreta descendo serra sem travão. Peguei no PX para disfarçar a confusão na cabeça.
Ó doutor, como é que está o trecho aí para a frente? Um parceiro respondeu: “Está bem. Só radar escondido depois da curva. Segue firme. Mas firme não estava, não. Dentro de mim parecia que tinham aberto um baú cheio de recordações que tentei manter trancado durante anos. Agora tudo estava espalhado pela boleia. Cada quilómetro depois daquela blitz foi diferente.
O volante parecia mais pesado, o banco mais desconfortável, o silêncio mais barulhento. Eu só pensava nela, Marta, a minha ex, a mulher que perdi para estrada e que agora de farda tinha aparecido mesmo à minha frente. E eu sabia, no fundo, que aquilo não tinha sido coincidência. A estrada tinha armado uma para mim.
E essa viagem, você está doido, ia ser diferente de todas as outras. O Scania já estava solto no tapetão, motor a cantar redondo, mas a cabeça a cabeça estava um caos. Depois daquela blitz, já não tinha como fingir que nada tinha acontecido. Eu podia até fazer 1000 km, mas a recordação da Marta ia estar ali sentada do meu lado, como se fosse passageira invisível.
Segui viagem tentando focar-me na estrada. Mas a mente voltava. Era como se cada quilómetro puxasse uma recordação diferente. A primeira que veio foi o dia do nosso casamento. Eu estava nervoso, mas também feliz como nunca. Lembro-me dela de vestido simples, sorriso aberto, os olhos brilhando como se acreditasse em cada promessa que eu fiz.
Promessa de vida em conjunto, de casa cheia, de estar sempre presente. E eu acreditei naquilo também. Só que a estrada me puxou de volta para a boleia. Engatei marcha e falei comigo mesmo. E eu deixei escapar, não é, Valdir? O barulho do motor abafava o peso da confissão. Eu lembrava-me das brigas.
Ela queixava-se que eu nunca estava em casa, que chegava apenas para dormir. Eu respondia que fazia aquilo por nós os dois, que cada frete era para pagar as contas, construir um futuro. Mas a verdade é que a estrada sempre me sugava mais do que eu queria admitir. Eu ficava semanas fora e quando regressava, já estava cansada de me esperar.
Houve um dia que me marcou. Eu cheguei de surpresa em casa ao fim de 15 dias rodando. Entrei todo entusiasmado, com vontade de matar saudades, mas encontrei a Marta a chorar na sala com uma mala pronta. Ela olhou para mim e disse: “Eu não quero viver mais com um fantasma, Valdir. Nunca tás aqui. Eu preciso de alguém inteiro, não de metades. Aquilo foi como uma pancada.
Eu tentei aguentar, pedi tempo, jurei que ia mudar, mas no fundo sabia. A estrada ia sempre pedir mais de mim do que eu podia oferecer-lhe. A lembrança desse dia bateu forte. Eu senti o volante pesar na mão. Respirei fundo e Encostei o camião a um posto de beira de estrada. Precisei de parar. Desci, estiquei as pernas, pedi um café preto no balcão.
Enquanto esperava, fiquei olhando para os outros camionistas conversando, rindo, alguns mandando mensagem para as esposas. Aquilo fez-me pensar. Será que escolhi mal? Será que dava para equilibrar estrada e família? A resposta veio amarga junto com o café quente. Eu sabia que não tinha escolha. Eu era da estrada desde miúdo.
O meu pai rodava, eu cresci no banco do passageiro. Este ronco de motor passou a fazer parte de mim, mas no processo perdi a Marta. Voltei para o Scânia e Fiquei sentado a olhar o retrovisor como se fosse ecrã de cinema. No reflexo, vi cenas que nunca mais saem da memória. A gente dançando forró num salão simples, o cheiro do seu feijão no fogão, as risos nas tardes de domingo.
Tudo isso agora era só passado. Engatei a marcha de novo e segui viagem. Mas quanto mais rodava, mais o coração pesava. A cada quilómetro, parecia que o camião transportava não só a carga de cartão, mas também todo o arrependimento que eu guardava. O rádio PX chiou. Ó doutor, tá acordado aí? Sim, estou, parceiro. Respondi.
Então segura porque tem serra braba daqui para a frente. Desliguei o rádio e encarei a descida. Serra puxada sempre exige concentração. Mas mesmo ali com o travão motor a cantar e o coração a bater forte, a recordação dela acompanhava-me. Foi nessa altura que a ficha caiu de verdade.
Eu nunca deixei de amar a Marta. nunca. Só tinha escondido isso atrás do barulho do motor, atrás das longas viagens, por detrás da solidão da boleia. E agora, passados tantos anos, o destino tinha-a colocado de novo no o meu caminho. Não podia ser coincidência. Era como se a estrada me tivesse dado um recado.
Ou encara esse passado, ou ele vai persegui-lo até ao fim. Terminei a serra, estacionei num miradouro e fiquei olhando o horizonte. O vento batia no rosto, trazendo cheiro a mato misturado com fumo de diesel. Fechei os olhos e Senti como se a Marta estivesse ali do meu lado. Marta, falei baixinho, sem ninguém ouvir.
Será que ainda vai a tempo? O motor do Scania roncou, lembrando-me que a viagem não parava, mas agora já sabia. Aquela não era só mais uma rota. Essa estrada estava a levar-me de volta pro o meu passado e não tive escolha. ia ter de enfrentar. O telemóvel estava jogado no lugar do pendura, vibrando de vez em quando com publicidade de transportadora e grupo de camionista.
Mas naquela tarde, enquanto o Scania devorava o asfalto, parecia que o aparelho pesava toneladas. Eu olhava de soslaio, sem coragem de apanhar. Desde o Blitz, Marta não me saía da cabeça. O olhar dela, aquele silêncio carregado. Você tá doido? Parecia que tinha levado uma pancada e agora a dúvida corroía-me. Mando mensagem ou deixo quieto? Engatei a marcha, respirei fundo e falei comigo mesmo: “Vdir, sê homem.
Encaraste serra carregada, chuva, rebentamento do pneu no meio do nada, mas não tem coragem para mandar um oi”. Peguei no telemóvel no sinal vermelho, digitei o número que nunca tinha apagado. A tela mostrava Marta. PRF. Os meus dedos tremiam. Escrevi, apaguei, voltei a escrever. No fim saiu seco, direto. Olá, Marta.
Sei que não devia, mas precisava de falar consigo. Aquele encontro na estrada mexeu por dentro. Se não quiser responder, tudo bem. Mas se aceitar, queria ver-te, nem que fosse apenas para um café. Olhei para ecrã uns segundos, o coração disparado. Respirei fundo e carreguei em enviar. O camião seguia firme, mas dentro de mim parecia que estava a descer uma serra sem travão. O telemóvel ficou mudo.
Minuto virou hora. Quase parei na berma só para esperar, mas segui. Até que veio o trim da notificação. Mensagem dela. Abri rápido. Quase derrubei o telemóvel. Não sei se é boa ideia, Valdir, mas se quer tanto, tem um posto da BR em Ponta Grossa. Amanhã deser, só café, nada mais. Na altura fechei os olhos e Encostei a cabeça ao volante.
Não era calor que fazia suar, era mesmo nervoso. Ela tinha respondido, aceitado, mas o jeito frio direto. Dava para sentir que ela estava armada por dentro. Só café”, murmurei. “Mas já é alguma coisa. O resto da viagem até Ponta Grossa foi de pura ansiedade. Eu tentava focar-me no trânsito, mas a mente apenas repetia a cena.
Marta sentada diante de mim de novo, passados tantos anos. Na noite anterior, parei num pátio de um posto, mas o sono não veio. Fiquei a virar de um lado para o outro, no banco da boleia, lembrando-se dela. Lembrei-me de quando a pessoas tomavam café juntos em padaria simples, rindo de disparates.
Agora ia ser diferente. A gente já não era os mesmos. De manhã acordei cedo, tomei banho no chuveiro de um posto, passei até perfume, coisa que há meses que não fazia. Olhei para o espelho e quase não reconhecia o gajo que estava ali. Rugas, barba mal feita, olhos cansados. Pensei: “Será que ela vai olhar para mim e ver o mesmo valdir de antes ou só um camionista gasto pela estrada? Às 9:50, estacionei o Scania no pátio combinado, o coração disparado, a boca seca.
Entrei no restaurante do posto e sentei-me numa mesa de canto. Pedi um café forte. O tempo demorou a passar. Cada porta que se abria fazia-me virar o rosto, até que de repente ela entrou. Uniforme, não calças de ganga, t-shirt clara, simples, mas para mim parecia que a luz do lugar tinha mudado. Ela viu-me e hesitou.
Os olhos dela já não eram os mesmos de antes. Havia dureza, mas também algo escondido. “Olá, Valdir”, disse aproximando-se. Levantei-me meio sem jeito. Puxei a cadeira. Olá, Marta. Obrigado por ter vindo. Ela sentou-se, apoiou os braços sobre a mesa. O silêncio pesou uns segundos, apenas o barulho das chávenas e conversas ao redor.
“Eu quase não vim”, confessou ela. Fiquei a noite inteira pensando se era certo. “E por que veio?”, perguntei, tentando segurar o olhar. “Porque” Ela respirou fundo. “Eu precisava de ver com os meus próprios olhos quem te tornaste.” Aquelas palavras cortaram-me. Não era curiosidade qualquer, era julgamento. Eu engoli seco, mexendo na chávena.
Eu continuo mesmo, Marta. Só mais cansado. Não, Valdir, não é o mesmo. Eu também não sou. Ela falou firme, mas os olhos vacilaram por um instante. O silêncio voltou, mas desta vez cheio de recordações. Eu quase podia ouvir as gargalhadas antigas, as promessas quebradas, até que ela quebrou o gelo. O que você quer comigo? Respirei fundo, olhei mesmo nos olhos dela e disse: “Quero só conversar. Não vim pedir nada.
Só não queria mais que fossemos dois estranhos a cruzarem-se por aí.” Ela mordeu os lábios, pensativa, depois sorriu levemente, quase imperceptível. “Estrada longa, hã?”, disse. “Longa demais”. respondi. E pesada quando se roda sozinho. Ela desviou o olhar mexendo no café. Aquilo já dizia muito. O coração dela não estava fechado, apenas ferido.
A conversa continuou fria em alguns momentos, aquecida noutros. Mas ali, naquele simples posto, senti, a estrada tinha aberto uma nova curva na a minha vida e agora já não tinha como voltar atrás. Ela mexia na colher dentro da chávena sem beber nada. O barulho metálico repetido parecia marcar o compasso do silêncio que nos rodeava.
Eu, do outro lado da mesa, tentava encontrar uma palavra que não soasse idiota. O coração estava acelerado como motor em alta velocidade. “Você mudou”, ela disse de repente. Levantei os olhos, peguei no contrapé. “Para melhor ou para pior?” Arrisquei, tentando aliviar. Ela riu de soslaio, sem humor, para mais cansado. Aquilo atingiu-me em cheio.
Não era mentira. Os anos de estrada tinham marcado o meu rosto, o meu corpo, a minha alma. Engoli em seco, respirei fundo e soltei. E você também mudou. Está mais forte, mais dura. Marta ergueu a sobrancelha como se esperasse que eu completasse, mas eu fiquei por aí. O silêncio voltou pesado.
Do balcão, um empregado gritou: Dois pingados na chapa, o barulho de pratos a bater, pessoas entrando e saindo, mas para mim pareceu-me que só existia aquela mesa. Ela largou a colher, cruzou os braços. Sabes, Valdir, quando te vi na estrada, naquela blitz, por momentos, pensei que estava sonhando, mas depois perguntei-me: “Por que agora, passado tanto tempo?” “Não foi uma opção minha”, respondi rapidamente.
“Eu só estava a rodar, foi o destino.” “Destino?” Ela riu amargamente. “Você sempre usou essa desculpa. Era o destino quando não vinha a casa no dia do seu aniversário. Era destino quando ficava sozinha nas festas de fim de ano. As palavras bateram forte. Senti o estômago embrulhar. Eu não estava de farra, Marta.
Eu estava a ralar na boleia, suando para garantir o que tínhamos. Mas eu nunca pedi luxo, Valdir, pedi presença. Só isso. O silêncio dela caiu como uma sentença. Eu não tinha defesa. Baixei os olhos para o café que já esfriava. Ela respirou fundo, como quem cansa-se até de brigar. Esquece, isso já já não importa, disse, mas a voz tremeu.
Aquela tremida apanhou-me porque mostrava que ainda importava. Sim, para mim importa. Falei baixo. Importa todo o dia em que rodo sozinho e me lembro de você. Ela ficou a olhar para mim. Os olhos dela, que antes estavam duros, vacilaram por um instante. E naquele instante eu vi a Marta que eu conhecia, escondida atrás da farda, atrás dos anos.
“Não diz isso”, murmurou, desviando o olhar. “Porquê? É verdade. Nunca deixei de amar-te, Marta. A mesa tremeu quando ela largou a chávena de repente. O barulho fez um casal na mesa ao lado olhar de rabo de olho. A Marta respirava depressa, nervosa. Falas sempre bonito quando já é tarde demais.
Ela passou a mão no rosto tentando recompor-se. Não dá para apagar tudo, Valdir. Não quero apagar. Quero recomeçar. Ela deu uma gargalhada curta, quase um suspiro. Recomeçar. Você ainda corre o Brasil inteiro, não é? Continua a viver dentro desse camião do mesmo modo. O que ia mudar? Fiquei calado.
Ela tinha razão, mas eu também tinha. O sentimento não tinha desaparecido. Talvez não consiga mudar a estrada, mas posso mudar a forma de estar com você. Ela olhou-me fundo e por um segundo vi nos olhos dela algo que parecia esperança. Mas logo ela fechou a expressão de novo. Não sei se quero isso, Valdir. Não sei mesmo. A conversa seguiu mais calma depois desta explosão.
Falámos de coisas banais, como se tentasse fugir ao peso. Ela contou da vida na PRF, das madrugadas no turno, das apreensões que marcaram. Eu falei das viagens longas, do gasóleo caro, dos amigos que a estrada levava, mas a cada recordação que surgia tinha sempre uma fagulha escondida. Quando ela falou de música, lembrei-me da nossa canção favorita.
Quando falei de comida de posto, ela lembrou-se das marmitas que fazia para mim. Eram recordações que vinham como faúlhas no escuro, iluminando o que ainda resistia entre nós. No fim, ela olhou para o relógio e disse: “Eu tenho de ir de serviço daqui a pouco.” Fiquei quieto, só balancei a cabeça. Ela levantou-se devagar, olhou para mim, abriu a boca como se fosse dizer algo, mas desistiu.
Virou as costas e saiu. Fiquei ali sozinho, olhando para a chávena fria, o cheiro do café impregnado, o coração apertado, mas no fundo havia algo de diferente. Não era só dor, tinha uma pequena faísca, mas acesa. E eu sabia que, por mais pequeno que fosse, aquela chama podia voltar a crescer.
E a estrada desta vez não me ia deixar escapar a isso. O Scania já estava de volta ao tapetão, engatado firme, mas a cabeça rodava mais que os pneus. O café no posto tinha mexido comigo. Marta ainda era a mesma em muita coisa. O maneira de segurar a chávena, o riso curta quando não queria demonstrar emoção. Mas também estava diferente, dura, fechada.
Mesmo assim tinha uma chama ali escondida. Eu senti enquanto rodava, o telemóvel vibrou na consola. Era a mensagem dela. O meu coração quase saiu pela boca. Valdir, não cria expectativas. Foi apenas um café. Não quero confusões. Eu reli umas 10 vezes. Foi apenas um café. Mas se fosse só isso, porque é que ela teria ido? Porque ela teria deixado escapar aquele olhar? Respirei fundo, respondi curto.
Compreendo, mas obrigado por ter ido. E deixei quieto, só que o destino, mais uma vez resolveu aprontar. Dois dias depois, descendo perto de Mafra, fui parado numa fiscalização outra vez. Até aí rotina, mas quando vi quem vinha na minha direção, senti o clima diferente. Não era Marta desta vez, era outro PRF com cara fechada, porte firme.
Documentos, motorista, a voz seca, sem rodeios. Entreguei. Ele conferiu devagar, olhando mais para mim do que pro papel. O olhar de quem mede, de quem procura defeito. Valdir Antunes perguntou quase cuspindo o meu nome. Sou eu próprio? Algum problema? Ele demorou a responder. Dobrou os papéis, devolveu, mas manteve o olhar duro.
Eu sou o Sandro. Trabalho com a Marta. O meu corpo gelou. Então era isso. Ah, pois. Tentei disfarçar. Conheço-a há tempo. Eu sei. Ele cruzou os braços. E é por isso mesmo que te estou a falar. Não tenta nada. As palavras vieram secas, como travagem brusca em descida de serra. Como é que é? – perguntei erguendo a voz.
Você entendeu? A Marta já sofreu demais. Não precisa de aparecer agora feito fantasma do passado para lhe estragar a vida de novo. Respirei fundo. Engoli a raiva que subia. Olha, Sandro, a minha vida e a dela são assuntos nossos. Você é colega de trabalho, não juiz. Ele deu um passo à frente, encarando-o firme.
Eu vejo cada dia o que aquela mulher aguenta, o peso da farda, a solidão. Eu não vou deixar um camionista rodado, cheio de promessa quebrada, vir trazer mais dor para ela. A palavra camionista rodado acertou-me em cheio. Doeu, mas não deixei transparecer. Então, gosta dela? Soltei, encarando de volta. Ele não respondeu de imediato, apenas ajustou o cinto, desviou os olhos por um segundo.
Aquilo já bastava. O que sinto ou não sinto não é da sua conta. Ele retomou firme. Só não tenta enfiar de novo a sua vida na dela. Eu já estava com o sangue a ferver, mas sabia que se levantasse a voz ali ia acabar numa confusão feia. Engoli em seco, dei um passo atrás e disse: “Sandro, a estrada já me deu muita pancada.
Não vai ser você que me vai fazer recuar.” Ele riu-se de lado, sarcástico. Vamos ver até que ponto se aguenta. Libertou-me sem dizer mais nada, mas a forma como me olhou dava para sentir que não ia ficar por ali. Voltei pro Scania, bati com a porta com força e liguei o motor. O ronco preencheu o silêncio, mas não apagou a raiva que ardia no peito. Enquanto rodava, fiquei a pensar.
A Marta nunca tinha falado de ninguém. Será que Sandro era apenas colega ou queria ser mais? Será que andava de olho nela há tempos? O coração apertava. Por dentro, Lutei contra dois medos, o de perder de novo e o de estar a estragar ainda mais a vida dela. Ao fim da tarde, parei num estaleiro para abastecer e clarear a cabeça.
Sentei-me no banco da boleia, olhando o sol a pôr-se no horizonte. Peguei no telemóvel, pensei em mandar mensagem para a Marta, mas bloqueei. Se eu contasse do Sandro, ia parecer ciúmes. Se não contasse, ia engolir em silêncio. Foi aí que a mensagem dela chegou primeiro. Fiquei a saber que você cruzou com o Sandro hoje.
Não liga ao jeito dele. Ele é demasiado protetor. Às vezes passa do limite. Li e reli. Então ela sabia. Não só sabia como parecia querer tranquilizar-me. respondi. Eu não ligo para o jeito dele. Só quero que saibas que estou aqui sem pressão. Só estou aqui. Demorei uns minutos a olhar para o ecrã, esperando.
Até que veio a resposta curta. Eu sei, Valdir, eu sei. E foi nessa altura que eu percebi, por mais que Sandro tentasse meter, por mais que a estrada jogasse contra, alguma coisa entre mim e a Marta ainda respirava e eu não ia deixar morrer facilmente. Era começo da tarde quando ela subiu para a boleia. A cena ainda está viva na minha memória.
Marta hesitou por um segundo, segurando no corrimão como se não soubesse se devia entrar. Mas entrou, sentou-se no banco do pendura, ajustou o cinto e ficou olhando em redor como quem revisita uma casa antiga. Continua igual. Ela disse, passando os olhos pelo painel, pelas fotos gastas coladas no quebra-sol.
O mesmo não, Marta, respondi ligando o motor. Continua sozinho. Ela não contrapôs, ficou em silêncio, encarando a estrada pela frente. Arranquei devagar, deixei o Scania ganhar corpo no tapetão. O roncar do motor enchia o ar, mas o silêncio entre nós era ainda mais elevado, até que decidi abrir a boca.
Sabe, Marta, a boleia é um mundo. Aqui dentro rimos, choramos, xingamos, cantamos, mas sempre sozinho. Parece liberdade, mas na real é a prisão com rodas. Ela virou o rosto, surpreendida com a sinceridade. Você nunca falou assim antes, disse. Talvez porque só tenha entendido depois que perdi-te. Engoli em seco.
A estrada me moldou, deixou-me calejado, fez de mim o homem que aguenta qualquer subida, qualquer descida, mas também me roubou coisas que nunca mais recuperei. Ela ajeitou o cabelo apanhado, respirou fundo. Eu sempre achei que escolhias a estrada, porque era mais fácil que escolher ficar. As palavras doeram, mas eram verdade. Eu não fugi.
Eu escondi-me nela. Talvez tenha escolhido mal”, confessei. “Mas, Marta, cada curva que fiz, cada madrugada ao volante, era tu que me vinhas à cabeça. Eu não deixei de rodar a pensar em ti nenhum dia.” Ela encarou-me. O olhar dela não era mais o mesmo olhar frio do Blitz. Tinha algo partido, humano. “Então, por que nunca mais voltou?”, perguntou firme.
Eu respirei fundo, mudei a mudança e deixei o Scania deslizar na banguela um excerto, porque tinha vergonha, vergonha de voltar de lata vazia, não de carga, mas de vida. Eu não tinha o que oferecer-te para além do roncar do motor e da pó da estrada e pensei que você merecia mais. O silêncio tomou conta de novo, apenas o barulho do gasóleo a queimar, a paisagem a passar rápida pela janela.
Senti a garganta arder. Marta, a estrada deu-me muita coisa, amigos, histórias, respeito, mas também levou embora você, tenha levado o sonho de família, levou o meu direito de chegar a casa e ouvir alguém perguntar como foi o dia. Ela fechou os olhos por um instante, como quem luta contra lágrimas.
Acha que só você sofreu, Valdir? A voz dela saiu trémula. Eu também fiquei sozinha. Fiquei à espera, acreditando nas suas promessas. Até o dia em que percebi que era eu quem estava carregando a saudade sozinha. Aquelas palavras atingiram-me como pancada. Eu quis responder, mas o nó na garganta não deixou.
Conduziu alguns quilómetros em silêncio, respirando fundo, até que ela voltou a falar: “Nunca entendi o que passava-lhe pela cabeça. Eu achava que preferias o camião a mim. Foi aí que senti que era altura de abrir mais um segredo. O camião nunca foi escolha, Marta, foi a sobrevivência. Eu cresci nisso. O meu pai rodava e quando morreu, herdei a boleia e as dívidas.
Era isso ou ver a minha mãe perder a casa. A estrada não me perguntou se eu queria, ela só me engoliu. Ela ficou em silêncio, absorvendo. Olhava pela janela, mas eu sabia que aquelas palavras estavam mexendo com ela. Eu não sabia disso, murmurou. Porque nunca tive coragem de contar. Eu queria parecer forte. Queria que olhasse para mim e visse um homem que tinha tudo sob controlo.
Mas a verdade é que por dentro eu era apenas um miúdo a tentar não afundar. A tensão no ar mudou. Ela virou o rosto para mim e naquele olhar havia menos dureza e mais compreensão. Devia ter falado, Valdir. Eu podia ter-te ajudado. Eu sei respondi com a voz baixa, mas não me deixei e isso custou-nos.
O rádio PX chiou alto, quebrando o momento. Um colega avisava de um acidente mais à frente. Pista parcialmente interdita. Agradeci e reduzi a marcha, puxando o camião pro acostamento. Paramos por alguns minutos. O silêncio voltou, mas não era mais pesado. Era diferente, carregado de recordações, de verdades finalmente ditas.
A Marta respirou fundo e disse: “Não sei o que fazer com tudo isso agora. Eu encarei-a. Não precisa fazer nada. Só queria que soubesses quem eu realmente sou. A estrada moldou as minhas costas, mas nunca conseguiu arrancar-te do meu coração. Ela ficou quieta, olhando fixamente em frente, mas por um instante vi nos seus olhos um brilho que não via há anos.
E naquele momento soube. A boleia não estava mais tão solitária, algo tinha mudado. E esta viagem não ia ser só carga e destino, ia ser sobre nós os dois. A estrada seguia em frente, mas eu percebia no jeito dela que por dentro a rota estava cheia de curvas. A Marta não dizia nada, só olhava em frente, o queixo firme, os olhos fixos na linha do horizonte, mas eu conhecia.
Aquele silêncio, não era de quem estava indiferente, era silêncio de quem estava a lutar com ela mesma. Eu conduzia, mas não lhe tirava a atenção. De vez em quando, mordia o lábio, ajeitava o cinto, cruzava os braços. Era como se se quisesse proteger. “Está tudo bem?”, perguntei, baixando o tom. Ela demorou a responder. “Não sei.” A resposta curta pesou.
Se quiser descer num posto, encosto. Falei. Não é isso, Valdir. Ela virou-se para mim, os olhos cheios de algo que não sabia se era raiva ou saudade. É que eu não devia estar aqui. Aquela frase atravessou-me. Porquê?, perguntei, tentando manter a calma. Porque eu tenho um trabalho, eu tenho disciplina. E tu, tu és o meu passado, um passado que enterrei com muito esforço.
Respirei fundo, mas não respondi de imediato. Eu sabia que ela precisava de soltar aquilo. Ela continuou. Todos os dias visto a farda, seguro uma arma, Encaro gente que mente, que engana, que tenta passar por cima da lei. E aí do nada lhe aparece, trazendo de volta memórias que lutei para apagar. Como é que eu separo o que sinto do que sou hoje? As palavras ecoaram dentro da boleia.
O roncar do motor parecia mais baixo. Eu queria responder que ela não precisava de separar nada, mas fiquei quieto. Só deixei o camião rolar. A Marta voltou-se de novo para a janela, ficou olhando a paisagem como se procurasse resposta na plantação que passava a correr lá fora. Até que falou mais baixo. Ainda me lembro de cada detalhe. A forma como chegava cansado, cheirando a estrada, o barulho da chave à porta.
Eu fingia que estava zangada, mas por dentro só queria que me abraçasse. Só que no dia seguinte você já não estava. O coração apertou. Agarrei-me bem no volante, mas a voz dela me desmontava. Marta, comecei, mas ela levantou a mão. Não, deixa-me falar. respirou fundo. Eu não me quero iludir de novo. Eu não posso, porque se eu deixar, vou cair na mesma história.
Vou esperar por ti e vou sofrer sozinha de novo. A estrada parecia mais estreita. O silêncio dela, a confissão, tudo me pesava mais do que a carreta carregada. Não confia em mim. Soltei sem rodeios. Não é uma questão de confiança, ela respondeu firme. É uma questão de sobrevivência. Eu aprendi a viver sem tu, Valdir. Demorou, mas consegui.
E agora apareces tu e mexes em tudo. As palavras ficaram no ar, afiadas, mas no fundo eu sentia. Se ela falava assim, era porque ainda importava. Deixei o Scania engolir alguns quilómetros antes de responder: “Eu não vim para fazer confusão a tua vida, Marta. Eu só vim porque não aguentei segurar mais.
Acha que eu estou inteiro? Eu também estou quebrado. A estrada pode ter-me deixado duro por fora, mas por dentro ainda sou o mesmo rapaz que te amou desde o primeiro dia. Ela virou-se rapidamente, os olhos marejados. Para, Valdir. Não vou parar, respondi. Porque se eu me calar outra vez, vai ser mais um silêncio que nos vai separar.
E já perdi tempo de mais calado. Ela passou a mão pelo rosto, tentando disfarçar as lágrimas. O ar dentro da boleia tornou-se pesado, quase sufocante. “Não compreendes”, murmurou. Eu não posso ser fraca. No meu trabalho, se eu vacilar, alguém morre. Eu me treinei para ser dura, para não me deixar abalar. E depois você aparece e derruba todas as minhas defesas em minutos.
Eu fiquei a olhar paraa frente, mas por dentro cada palavra dela ecoava. Talvez não seja fraqueza, Marta. Talvez seja apenas ser humana. O silêncio voltou. Ela respirava fundo, tentando se recompor. Eu também. Rodamos assim por vários quilómetros, cada um perdido no próprio turbilhão. Até que de repente ela soltou uma frase que me apanhou de surpresa.
Não sei se me quero afastar ou se quero ficar. Olhei rapidamente para ela. Os olhos dela estavam fixos na estrada, mas a voz tremia. Então fica falei baixo. Só isso. Fica. Ela não respondeu, mas a mão dela, que descansava no banco, aproximou-se alguns centímetros da minha. Não encostou, mas ficou perto. E naquele pequeno gesto, naquele quase toque, senti que a luta dentro dela estava longe de terminar.
Mas a fagulha, a fagulha ainda estava acesa. Eu cheguei cedo ao restaurante de beira de estrada. Aqueles típicos com cheiro de fritura misturado com café passado na hora e camionista a conversar alto no balcão. Escolhi uma mesa no canto do onde se via a porta. O coração já estava acelerado mesmo antes dela aparecer.
A Marta chegou cerca de 15 minutos depois. Roupa simples, cabelo solto, olhar firme. Quando entrou, parecia que todo o barulho à volta baixou. Eu Levantei-me meio sem jeito, e ela sorriu de leve, quase como quem pede paz. Pensei que não vinhas, falei tentando esconder o nervosismo. Pensei em não vir. – respondeu ela, sentando-se. Mas aqui estou. O empregado chegou logo.
Deixamos os pedidos. Dois pratos feitos, nada chique. O simples sempre foi o nosso. Enquanto esperávamos, o silêncio pesava. Eu queria dizer mil coisas, mas não sabia por onde começar. Então soltei a primeira recordação que veio. Esse cheiro a fritos. Lembra-me quando a gente parava no Panela de Ferro, lembras-te? Pedias sempre peixe frito, mesmo sabendo que ia queixar-se das borbulhas.
Ela riu-se de verdade desta vez. Riso curto, mas sincero. Eu lembrava-me. E você nunca me deixava pagar a conta, mesmo quando eu insistia. E não ia deixar mesmo, respondi sorrindo. Era o meu jeito de cuidar de si. O riso dela apagou-se lentamente, dando lugar a um olhar mais sério.
E porque deixou de cuidar, Valdir? As palavras vieram duras, sem rodeio. Respirei fundo, engoli a seco, porque achei que a forma de cuidar era pondo comida na mesa, dinheiro no bolso, futuro garantido, só que me esqueci do essencial, estar lá. Ela não respondeu de imediato. Olhou para mesa, mexeu no guardanapo. Quando ergueu os olhos, tinha um brilho de mágoa misturado com saudade.
O empregado trouxe os pratos, mas a comida ficou quase intocada. A gente comia devagar, entre pausas longas e olhares carregados. Foi então que me apercebi de algo estranho, um reflexo no espelho do salão mesmo atrás da Marta, um homem sentado sozinho, fardado, mas sem fardamento completo. Sandro, o meu estômago virou.
Ele não comia, não bebia, apenas observava. Marta apercebeu-se da minha expressão e se virou discretamente. Quando viu, fechou a cara. “Não acredito”, murmurou. “Le não desiste. Então ele está seguindo-te?”, perguntei a voz baixa, firme. Diz que é cuidado, mas às vezes parece vigilância. A minha raiva subiu, mas controlei-me.
Não queria estragar o momento, nem criar cena. Marta, isto não é cuidado, isto é intromissão. Ela respirou fundo, visivelmente incomodada. Ele acha que está protegendo-me, mas eu não pedi proteção. A tensão tomou conta da mesa, mas em vez de fugir ao clima, encarei. Olha bem para mim, Marta. Você está aqui porque quis.

Não foi o Sandro que trouxe, não foi Destino que empurrou, foi você. Ela segurou o meu olhar e naquele instante parecia que o mundo inteiro tinha desaparecido, incluindo o olhar vigilante do outro lado do salão. Foi ela admitiu, a voz baixa, quase um sussurro. As palavras dela me atingiram como um farol alto no retrovisor.
Foi a primeira vez que ela reconheceu sem disfarce que queria estar ali. O silêncio que se seguiu não foi pesado, era cheio de expectativa, como se algo de novo tivesse começado a nascer. Sandro, porém, continuava lá. O incómodo era palpável, mas por incrível que parece, aquilo só reforçou dentro de mim a certeza de que precisava de lutar por ela. Acabámos de comer em silêncio.
Quando nos levantámos, a Marta jogou algumas notas sobre a mesa. “Hoje eu pago”, disse, firme. Eu ia contestar, mas o jeito dela não deixava espaço e pela primeira vez não discuti. Na saída senti o olhar do Sandro a queimar-me as costas. Não disse nada, mas dentro de mim a promessa já estava feita. Ele não ia afastá-la de mim.
Do lado de fora, perto do camião, a Marta parou. O vento despenteava-lhe o cabelo e o barulho dos motores em redor não apagava o que ela ia dizer. Valdir, não sei onde isso vai dar, mas sei que alguma coisa aqui lá dentro ela tocou no peito. Ainda não morreu. O meu coração bateu forte. Então deixa viver, Marta.
Só isso? Ela não respondeu, apenas me olhou por alguns segundos, depois virou-se e foi-se embora, andando depressa. Fiquei ali parado, vendo ela desaparecer na noite do pátio. O Scania atrás de mim, o coração disparado no peito e a certeza de que a estrada estava a colocar-me numa rota sem retorno. E de longe ainda se sentiam os olhos do Sandro a perseguirem-me.
O dia estava quente, o sol batia forte no para-brisas. O Scania seguia firme no tapetão, motor em média, quando avistei os cones laranja lá à frente. Outro bloqueio da PRF. O meu peito já apertou. Eu sabia que não era coincidência. Encostei-me ao acostamento, desliguei o PX, ajeitei os documentos. Quando vi quem vinha aproximando-se, confirmei o pressentimento.
Sandro, farda alinhada, postura de quem já vinha decidido a arranjar confusão. Ele não perdeu tempo. Desce do camião, Valdir. Vamos dar uma olhada mais a fundo. O tom não era de rotina, era de provocação. Desci devagar, cada passo pesado, o coração acelerado. Estendi os documentos, mas nem olhou bem. guardou-o no bolso e mandou: “Abre o baú.
” Obedeci sem discutir. Rodou em volta da carreta, conferindo cada detalhe, como se procurasse motivo para me tramar. Eu sabia que não ia encontrar nada, mas a forma dele já dizia que não precisava encontrar. Bastava inventar. Quando voltou, cruzou os braços e largou. Estranho. Camionista rodando tanto, mas nunca há problema.
Nem pneu careca, nem carga fora da nota. Tá certinho demais, não acha? Estranho é o senhor me parar duas vezes em menos de uma semana, respondi olhando firme. Os olhos dele brilharam de raiva. Aproximou-se quase colando o rosto ao meu. Eu sei quem tu é. Sei o que fez à Marta e não vou deixar repetir. Aquilo apanhou-me em cheio, mas não recuei.
O que fiz ou deixei de fazer com a Marta não é da sua conta. Sorriu de canto, provocando. É da minha conta, sim, porque eu estou do lado dela agora. O sangue ferveu. Respirei fundo para não perder a cabeça. Está do lado dela ou está a tentar ocupar um espaço que nunca foi seu? Por um segundo, pensei que ele ia perder o controle.
Os músculos da mandíbula dele travaram, o olhar endureceu, mas ele deu um passo atrás, disfarçando a fúria. Vou libertar, mas fica esperto. Essa estrada é longa e eu vou estar sempre de olho. Peguei nos documentos de volta, subi para o Scania e bati a porta com força. O roncar do motor preencheu o silêncio, mas por dentro estava em ebulição.
Segui viagem, mas a mente não parava. A imagem de Sandro a fitar-me, cuspindo o ódio, acompanhava-me pelo retrovisor. Ele não ia parar e eu sabia que a Marta, no meio disso, era quem mais ia sofrer. Uns quilómetros depois, encostei-me a um pátio de posto para arejar a cabeça. Pedi um café forte.
Fiquei sentado a olhar o movimento. O telemóvel vibrou, era mensagem dela. Fiquei a saber que o Sandro estava na operação. Ele falou alguma coisa para si? Pensei em mentir, aliviar o peso, mas decidi ser direto. Falou. Disse que ia ficar no meu caminho, que não ia deixar que me aproximar de si. Demorou uns minutos até ela responder.
Ele passa do limite às vezes. Já falámos sobre isso, mas não quero que se enfrentem os dois. Não quero confusões respondi secamente. Confusão já existe, Marta. Não fui eu que comecei. Fiquei a olhar a tela, esperando. Quando finalmente veio outra mensagem, não era o que eu queria ler. Valdir, não me coloque no meio disto. Eu não me posso dividir entre vocês.
Guardei o telemóvel no bolso, respirei fundo. O café já estava frio. A estrada me chamava de novo, mas agora parecia mais pesada. De volta ao volante, deixei o Scania engolir quilómetro atrás de quilómetro. Cada curva era tomada por memórias da Marta e pela sombra de Sandro. A sensação era clara.
Aquilo não ia terminar ali. Mais tarde, no fim do dia, encostei-me a um miradouro para descansar. O pô do sol pintava o horizonte, mas só via dois mundos e o rosto dele decidido a me arrancar da vida dela. Eu sabia que a próxima curva da estrada ia trazer mais do que buraco ou radar. ia trazer decisão e desta vez ninguém ia sair ileso.
Eu já tinha visto Blitz pesada, mas daquela vez o clima era outro. O Scania foi encostado a um pátio improvisado na berma da autoestrada e Sandro parecia saborear cada passo que dava em volta do meu camião. Os olhos dele não procuravam irregularidade. Buscavam me derrubar. Abri o baú, ordenou voz seca. Eu obedeci. A tranca fez barulho metálico e a porta subiu lentamente.
A carga de cartão revelou-se, empilhada até ao teto, toda selada. Ele olhou, mas continuou com aquele jeito de quem não está satisfeito. Estranho. Caminhoneiro rodando tanto, sempre com nota bonitinha, carga sem problema. Ele deu a volta para a carreta, batendo com a mão no ferro.
Por vezes o que parece mais limpo é o que mais cheira mal. Engoli em seco, mas não deixei a raiva sair. O meu camião não carrega nada de errado, Sandro. Pode vasculhar à vontade. E vou, disse subindo para a carreta. Eu fiquei de lado, observando-o mexer, abrir caixas, pontapear cantos, como se fosse encontrar contrabando a qualquer minuto.
O barulho ecoava. Cada pancada parecia mais uma acusação. Foi nesse momento que vi outro carro da PRF estacionar. A Marta saiu de dentro. Uniforme impecável, expressão dura, mas os olhos os olhos entregavam surpresa e desconforto. “O que é a acontecer aqui?”, perguntou ela firme. Sandro desceu do reboque e apontou para mim. Procedimento de rotina.
Só tô garantindo que o doutor aqui não está escondendo nada. Ela aproximou-se, cruzou os braços. Não parece rotina, Sandro? Eu conheço o tipo. Ele respondeu com voz carregada. Camionista que some do mapa durante anos, aparece de volta querendo pousar de certinho. Isso cheira a problema. Eu respirei fundo.
O sangue fervia, mas eu sabia que qualquer palavra errada podia lascar-me. “Eu não não tenho nada a esconder”, falei olhando para a Marta. Ela sustentou o olhar, mas não respondeu de imediato. Parecia dividida. O Sandro virou-se então para mim e disparou. E se encontrarmos alguma coisa aqui dentro, vai ser difícil de explicar, não é? Só vai encontrar papelão? Respondi seco.
Ele sorriu de canto, trocista, como quem queria ver-me perder a calma. Marta apercebendo-se, entrou no meio. Já chega. A carga tá regular. A documentação também. Você está a extrapolar. Extrapolando ou protegendo, Sandro retorquiu. Porque se não se apercebe, Marta, este sujeito não merece a sua confiança.
O silêncio que veio depois cortou o ar. Era mais do que uma fiscalização. Era um duelo travestido de procedimento. Sandro. Ela baixou o tom, mas a firmeza continuava. Se tem algo pessoal com ele, resolva fora daqui. Aqui seguimos protocolo. Ele respirou fundo, visivelmente contrariado, mas recuou. Muito bem”, disse, devolvendo os meus documentos de qualquer maneira.
“Tá libertado por enquanto.” Subi para o Scania com as mãos a tremer. Fechei a porta, liguei o motor, mas fiquei ali imóvel, vendo Marta discutir baixinho com ele alguns metros à frente. Ela gesticulava, ele defendia-se e o rosto dela misturava-se raiva e frustração. De repente, ela se virou-se e caminhou até mim.
encostou na porta e falou baixo, quase num sussurro. Desculpa-me, eu não posso ir contra ele à frente de todos, mas sei que você não está errado. Olhei-a nos olhos e respondi: “Não é ele que me preocupa, Marta. É você. Não quero que sofra por minha causa.” Ela respirou fundo, desviou o olhar e disse apenas: “Cuida da sua estrada, Valdir.
Eu cuido da minha.” afastou-se rapidamente, sem me dar tempo para responder. Engatei a marcha e puxei o Scania de volta para o asfalto, mas o motor a roncar não abafava a sensação dentro de mim. Aquilo tinha deixado marcas. Sandro tinha usado o uniforme para atacar e a Marta, mesmo tentando, não conseguiu defender-me por inteiro.
Enquanto a estrada corria, eu repetia as palavras dela na mente: “Cuida da tua estrada, eu trato da minha. Mas será que dava para separar? Será que a gente ainda tinha estradas diferentes? Ou será que, apesar de tudo, o destino já tinha colocado os dois na mesma rota outra vez? O sol rachava no alto quando a cena começou.
Blitz da PRF em plena BR, camionista a ser encostado, carro pequeno parado na berma. Era dia comum de fiscalização, mas o clima pesava diferente. O Scania já estava com o motor desligado e eu do lado de fora encostado à porta esperando. Sandro rondava como sempre, olhar de predador. Aproveitava cada segundo para tentar derrubar-me.
mexia nos papéis, rodava em volta do camião, coxixava com outro policial. Eu sabia que era pessoal. Não não havia ali nada de irregularidade. Marta estava por perto, postura direita, mas dava para ver o incómodo nos olhos dela. O conflito era visível, dever de polícia contra sentimentos que ela tentava esconder.
Foi aí que Sandro, sem se segurar, soltou a provocação. Engraçado. Camionista rodado, cheio de passado obscuro, aparece de volta precisamente quando a gente menos precisa. Deve ter lá alguma coisa. Respirei fundo, contive a raiva, mas quando vi a Marta baixar os olhos, como se não me pudesse defender, alguma coisa rebentou dentro de mim.
“Basta, Sandro!”, gritei, a voz ecuando no pátio. “Quer investigar-me?” Investiga. Quer abrir a minha carga? Abre. Mas não inventa mentira para tentar afastar-me dela. Os outros polícias e até camionistas que estavam encostados pararam para olhar. O silêncio tomou conta. Respirei fundo, o coração disparado e olhei diretamente para a Marta.
Eu nunca deixei de te amar. Soltei sem pensar, sem medir. Nenhum dia, Marta. O barulho da auto-estrada pareceu desaparecer. A frase ficou pendurada no ar. Marta arregalou os olhos, surpreendida, vulnerável. O rosto dela mostrava tudo. Não esperava, não estava preparada. Sandro riu de lado, sarcástico. Olha só.
Declaração de amor em Blitz. Grande cena, hã? Ri-se quanto quiser. Respondi firme. Mas é verdade. Passei anos a me escondendo-se atrás da estrada, fingindo que a boleia me bastava. Mas a verdade é que cada quilómetro que percorria, eu rodava a pensar nela. A cada palavra, a tensão aumentava.
A Marta respirava rápido. Os colegas dela entreolhavam-se sem saber se interferiam ou não. “Você estás a confundir as coisas, Valdir?”, ela disse, tentando manter a postura. “Isso não é lugar para este tipo de conversa. Então diz-me onde é”, retruquei. “Porque se eu não falar agora, vou calar-me para o resto da vida”.
Os camionistas mais próximos começaram a coxixar, alguns até sorrindo discretamente. Era cena incomum. Um bruto a largar o coração no meio de uma blitz. A Marta deu um passo à frente como se quisesse encerrar aquilo. Valdir, basta. Basta de quê? Rebati. de dizer a verdade. Achas que eu tô aqui para te complicar, mas a única coisa que eu quero é não perder outra vez a hipótese de dizer o que sinto.
Ela me olhou fundo e naquele olhar tinha raiva, confusão, mas também algo escondido, algo que nem ela conseguia negar. Sandro entrou no meio indignado. Marta, não dá para permitir isso. Ele está a usar a cena para te manipular. Manipular nada, respondi a voz firme. Eu estou a abrir o peito porque já não aguento mais segurar.
Se fosse manipulação, ficava calado. Marta levantou a mão, pedindo silêncio. Chega os dois. Durante alguns segundos ninguém falou, apenas o barulho longínquo dos motores na autoestrada. Ela respirou fundo, olhou para o Sandro e depois para mim. Isto aqui não é palco. Eu sou polícia, tenho deveres.
Não me posso dar ao luxo de misturar tudo. E eu não estou a pedir para tu largares nada, Marta. Falei a voz mais baixa, mais firme. Só tô pedindo-lhe para se lembrar que antes de ser polícia também é mulher e que, por mais que queira negar, há coisas que nem o tempo apaga. As palavras saíram quase como um sussurro, mas ecoaram forte. Marta ficou imóvel.
O rosto dela endurecido, mas os olhos marejados entregavam a luta interna. Ela virou-se de costas, caminhou alguns passos como se quisesse escapar, mas parou, respirou fundo e não conseguiu seguir. O clima era insuportável. Eu sentia o peso de cada olhar em cima de mim, mas não me arrependia.
Se é para eu pagar caro por dizer o que sinto, pago. Finalizei alto o suficiente para todos ouvirem, mas pelo menos não vou morrer engasgado com as palavras que ficaram presas durante anos. A Marta não respondeu. Entrou no carro da PRF, bateu com a porta e ficou lá dentro imóvel, encarando o volante. Sandro, por seu lado, veio até mim.
O rosto vermelho, a raiva estampada. Você está a cavar a sua própria sepultura, camionista. Eu olhei nos olhos dele firme. Já cavei coisa pior. Essa eu aguento. Bufou, virou as costas e entrou no carro. A blitz acabou, os cones foram recolhidos, mas o impacto daquela cena ia ficar na memória de todos.
Subi para o Scania, liguei o motor, mas desta vez o ressonar parecia diferente. Não era só de gasóleo a arder, era o som de alguém que tinha finalmente aberto o coração e agora nada seria como antes. A estrada seguiu igual, mas dentro de mim nada mais era o mesmo. Depois daquela confissão em plena blitz, sabia que tinha atravessado uma linha sem retorno.
Não era só a PRF que tinha visto, não eram só os colegas dela. O mundo inteiro parecia ter ouvido o que gritei. Nos dias seguintes, o silêncio pesou. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. O telemóvel vibrava por publicidade de oficina, por alerta de rota no grupo dos brutos, mas não por ela. E esse vazio doía mais do que qualquer curva perigosa.
O Scania corria firme no tapetão, mas não sentia o ronco do motor como anteriormente. Cada quilómetro percorrido parecia um castigo, lembrando que tinha atirado tudo para a mesa, aberto o peito e agora não sabia se ela me ia procurar ou se me ia apagar de vez. Encostei-me num posto em registo para dormir, mas o sono não chegou.
O banco da boleia tornou-se uma tortura. Fechei os olhos e revivi a cena, palavra por palavra. A expressão dela, os olhos marejados, a forma como entrou no carro e ficou imóvel. Eu perguntava-me se tinha feito bem. Será que era justo expô-la daquele jeito? Será que no fundo eu tinha acabado por complicar ainda mais? Na manhã seguinte, antes de seguir viagem, vi dois camionistas a comentar no pátio: “Viste a cena lá no Blitz? O rapaz abriu o coração no meio da pista.
Riram-se como quem fala de um boato de rádio. Passei por eles em silêncio, cabeça baixa. A notícia já corria. A estrada é grande, mas a boca dela é maior. Peguei o Scania e toquei em direcção ao Sul. No meio da viagem, tentei quebrar o silêncio. Escrevi uma pequena mensagem. Marta, só queria saber se estás bem.
A tela ficou muda. Minutos passaram a horas. Horas passaram a dias. Nada. E o silêncio dela falava mais do que qualquer resposta. Foi numa tarde cinzenta, perto de Curitiba, que o peso bateu mais forte. Chuva fina começava a cair, limpador riscando o vidro e eu sozinho dentro da cabine.
Peguei o rádio PX para ver se distraía. “Ô doutor, tá firme na descida?” Uma voz conhecida ecoou. Firme, parceiro. Só o coração que anda patinando. Respondi meio na brincadeira, meio na verdade. O colega riu do outro lado, mas desliguei rápido. Não tinha ânimo paraa conversa. Eu precisava pensar, precisava entender se ainda valia a pena insistir ou se devia aceitar que a estrada tinha me dado mais uma derrota.
Mas aí a lembrança dela voltava, o jeito como me olhou antes de virar as costas. Não era indiferença, era conflito. Marta não tinha sido fria, tinha sido abalada e isso me mantinha de pé. Num fim de tarde, parei num mirante em Santa Catarina. O céu começava a abrir, o sol tímido iluminando a serra. Sentei no capô do Scânia, olhando a paisagem.
Pensei em tudo que já tinha perdido, o tempo com ela, os aniversários que não passei em casa, as noites que ela dormiu sozinha. Pesei na balança o que tinha nas mãos agora. Quase nada, só lembrança, silêncio e um sentimento que insistia em não morrer. Mas também lembrei do que tinha dito em voz alta, que nunca deixei de amar.
E era verdade, eu podia rodar o Brasil inteiro, podia carregar qualquer tipo de carga, mas dentro de mim só tinha espaço para ela. O risco que eu corri ao confessar não era nada comparado ao risco de nunca ter falado. Melhor carregar o peso da dúvida dela do que morrer engasgado com palavras.
Quando voltei pra cabine, vi o celular piscando, coração disparou. uma mensagem nova. Não era dela, era frete, só mais um serviço. Suspirei fundo e engatei a marcha. Segui viagem, mas agora de um jeito diferente. A estrada era a mesma, mas minha cabeça estava firme numa decisão. Eu não ia desistir. Se o silêncio dela era resistência, eu ia respeitar.
Mas se era medo, eu ia provar que valia a pena confiar de novo. O Scania roncou forte, descendo a serra, e eu lá dentro sentia que a curva mais importante da minha vida ainda estava logo à frente. O Paraná se estendia diante de mim como nunca. Cada curva, cada reta parecia maior do que de costume. O Scania roncava firme, motor tinindo, mas dentro da boleia o silêncio era ensurdecedor.
A serra de Curitiba, com aquele verde infinito e a neblina leve que vinha do nada, parecia um espelho da minha cabeça, denso, pesado, cheio de coisa escondida. Eu tentava me distrair com o rádio PX, mas até os colegas estavam calados. O asfalto parecia só meu e isso doía. Depois da confissão, a estrada virou metáfora da minha vida.
Eu podia avançar quilômetros e mais quilômetros, mas no fundo sentia que não saía do lugar. Carregava a carga, mas era o coração que pesava mais. Lá pelo meio-dia, encostei num posto perto de Ortigueira. Pedi um prato feito, arroz, feijão, ovo frito. O gosto tava sem graça. Ou talvez fosse eu que tinha perdido a fome. Ao meu redor, caminhoneiros riam, falavam de frete, de política, de futebol.
Eu olhava e me sentia deslocado, como se tivesse rodando num mundo paralelo. Voltei pra cabine e fiquei encarando o retrovisor. Viu rosto marcado, a barba por fazer, as olheiras fundas. Pensei em Marta. Será que naquele momento ela também pensava em mim? Ou já tinha decidido que eu era só passado e pronto? Engatei marcha e segui viagem.
O céu começava a fechar, nuvens pesadas cobrindo o horizonte. A paisagem do interior, com plantações intermináveis de soja e milho, se estendia como um tapete. Mas para mim, cada fileira verde parecia repetição da mesma cena, a monotonia de quem carrega sozinho. Em Cornélio Procópio, a estrada ficou mais estreita, cheia de caminhão lento, tartaruga na pista.
Tentei podar alguns, mas logo desisti. Não era dia de correr, era dia de aguentar. E enquanto segurava o volante, percebi o quanto a estrada se parecia com meu coração, cheio de trânsito lento, de bloqueio, de demora. No fim da tarde, o sol rompeu entre as nuvens. Raios dourados pintaram o asfalto e, por um momento, eu senti paz, como se a estrada dissesse: “Ainda tem beleza, mesmo depois de tempestade”.
Aproveitei o momento e encostei num mirante. Abri a porta do Scania, desci e fiquei olhando o horizonte. A imensidão do Paraná diante de mim. O vento trouxe cheiro de terra molhada, lembrando minha infância quando eu ainda sonhava pequeno, sem saber que a estrada ia ser minha cina. Peguei o celular, tela escura, nenhuma mensagem.
Suspirei fundo, guardei de novo. O silêncio dela era mais barulhento que qualquer buzina na BR. Naquela noite dormi mal. A boleia virou prisão. O colchão parecia duro. O motor desligado trazia um vazio estranho. Fechei os olhos e só vi o rosto dela, os olhos marejados depois da minha confissão.
De madrugada, acordei com o barulho da chuva batendo no teto. Olhei pela janela e vi os pingos escorrendo pelo vidro. Aquela imagem me acertou. Era como se a estrada chorasse por mim. Pensei em ligar-lhe. Fiquei com o telemóvel na mão, mas não tive coragem. Imaginei-a a atender seca, fria, pedindo-me para não procurar mais.
O medo de ouvir isto fez-me desistir. No outro dia, segui viagem. A estrada parecia ainda mais longa. Cada cidade que eu passava, cada placa que eu lia, era como um lembrete do quanto eu estava distante do que realmente importava. Mas lá no fundo uma certeza não me deixava. Eu não estava a rodar à toa.
A estrada estava a preparar-me para algo. Talvez um reencontro, talvez um adeus definitivo, mas alguma coisa grande ainda vinha pela frente e eu sabia que precisava de estar pronto. O O Paraná, com toda a sua extensão, tinha tornou-se metáfora perfeita da minha vida. Bonito, duro, cheio de altos e baixos, mas impossível de atravessar sem enfrentar a solidão.
Enquanto o Scania engolia mais quilómetros, repeti em voz baixa como promessa: “Marta, eu não Vou desistir de ti, nem que essa seja a viagem mais longa da minha vida. Amanhã começava calma, céu limpo, motor na média. Eu seguia pela BR tentando não pensar, tentando apenas rodar, mas não tinha jeito.
Cada curva fazia lembrar dela, cada placa parecia escrever o nome dela. Foi quando o telemóvel vibrou na consola, um toque curto, diferente dos grupos de frete. Apanhei rápido. Era ela, a Marta. Valdir, preciso de falar consigo. O coração bateu forte, como se tivesse engatado uma descida de serra sem travão. Reli a mensagem umas cinco vezes sem acreditar. Respirei fundo.
Respondi de imediato. Estou aqui. Fala. A resposta demorou alguns minutos. Eu mal conseguia segurar o volante até que chegou. Eu não devia, mas ainda sinto. Só que tenho medo. O meu peito virou tambor. Parei o Scania na berma. Precisava respirar. As mãos tremiam, a vista embaçou. Era a primeira vez que ela admitia, por palavras que ainda existia algo, mas também deixava claro o muro, o medo.
Escrevi: Medo de quê, Marta? De mim, da estrada ou de ti própria? O telemóvel ficou mudo. Liguei o motor e voltei para o asfalto, mas a cabeça não estava mais na rota. Eu só pensava na mensagem. Quilómetros depois, nova notificação. Tenho medo de sofrer de novo. Sabe como foi. Eu não sei se consigo passar por aquilo outra vez. Li lentamente cada palavra cortando o fundo.
Ela estava a abrir o coração, mas também escancarando a ferida. Respondi: Eu compreendo, mas eu não sou o mesmo de antes. A estrada ensinou-me, a solidão cobrou-me. Hoje sei o valor do que perdi. Demorou. O telemóvel ficou no banco, vibrando no meu peito a cada quilómetro que eu esperava, até que chegou.
E se não conseguir mudar? E se a estrada for mais forte do que tu? Encostei de novo o camião, desci. Fiquei a olhar para a imensidão do Paraná à minha frente. Falei em voz alta, como se ela me pudesse ouvir. A estrada não manda mais em mim, Marta. Eu é que escolho agora. digitei. Se a estrada for mais forte, largo-a, mas não largo -lhe outra vez.
O silêncio depois desta resposta foi interminável. O sol já baixava, o horizonte ganhando tons alaranjados. Quando finalmente chegou outra mensagem. Não sei o que fazer, Valdir. Só sei que quando te voltei a ver, voltou tudo e isso assusta-me. Segurei o telemóvel firme, o coração a explodir. Escrevi devagar.
sem pressas, escolhendo cada palavra. O que sente não é susto, Marta, é amor que nunca morreu. E Estou aqui para provar que desta vez é diferente. Ela não respondeu. A tela apagou, o dia terminou e eu segui viagem com aquela última troca a martelar dentro da cabeça. A estrada parecia outra. O tapetão escuro brilhava sob a luz do farol e o roncar do Scania euava como trilho de uma promessa.
A Marta tinha confessado, ainda havia sentimento. O medo era grande, mas a chama estava viva. E eu sabia. A partir desse momento, a luta não era contra a estrada, nem contra Sandro, era contra o medo dela. E essa batalha eu estava disposto a enfrentar até ao fim. Eu tava parado num posto em Ponta Grossa quando vi o carro dela encostar.
A Marta saiu devagar, sem farda desta vez, só calças de ganga e blusa clara. O coração acelerou de uma forma que parecia que eu ia descer a serra dos órgãos sem travão motor. Ela parou ao meu lado, olhou para o Scania e soltou um meio sorriso. Ainda esta nave, hein? cinzento, imponente. Até parece que não passou um dia.
Passou muito mais do que um dia, Marta, respondi abrindo a porta do pendura. Quer subir? Ela hesitou, olhou para o banco vazio, para o horizonte, depois para mim e depois respirou fundo e subiu. O barulho da porta a bater ecoou dentro de mim como se de um marco se tratasse. Depois de tantos anos, ela estava ali de novo no banco do passageiro.
Engatei marcha e saí lentamente, deixando o Scania ganhar corpo no tapetão. O silêncio pesou por alguns segundos, mas não era desconfortável, era carregado de recordação. “Continua cheirando a café e a gasóleo”, disse ela, olhando em redor. “Sorri! Algumas coisas nunca mudam, outras mudam”, acrescentou baixinho.
Seguimos alguns quilómetros assim, só o roncar do motor e a paisagem correndo pela janela. Até que ela passou a mão pelo painel, como quem acarcia algo antigo. “Lembras-te quando a gente viajava junto?”, perguntou sem me encarar. Eu ficava aqui a anotar quilometragem, brincando a ser sua chapa, como se precisasse, respondi rindo, “mas era a desculpa para te ter do meu lado.
” Ela riu-se também, mas o riso logo morreu. Os olhos perderam-se no horizonte. Foram bons tempos até deixarem de o ser. O silêncio voltou. Eu sabia que não podia apagar as mágoas só com boa lembrança. Respirei fundo, encostei o braço ao volante e disse: “Eu errei, Marta, e sei que a estrada levou muito de nós, mas sentar-me aqui consigo de novo me mostra que ainda existe coisa para salvar.
” Ela não respondeu de imediato. Ficou a olhar à estrada como se procurasse no tapetão uma resposta que não tinha. Mais à frente, parei no berma para conferir um ruído estranho. Desci, bati com os olhos nos pneus, mas estava tudo em ordem. Quando voltei para a cabine, ela estava a mexer numa foto velha presa no quebra-sol.
Era nós os dois, num forró de interior, rindo como dois miúdos. Ainda guarda isso? Ela perguntou surpreendida. Nunca tive coragem de deitar fora. Respondi. Era a única recordação que me fazia companhia nas noites mais longas. Os olhos dela marejaram, mas ela disfarçou rapidamente, colocando a foto de volta. Seguimos viagem mais um tempo em silêncio, até que sem olhar para mim, ela falou: “Eu senti falta disso, do barulho do motor, da estrada a passar, de ter alguém para partilhar o silêncio.
Olhei para ela, o coração a bater forte. Então fica! Nem que seja só por uns quilómetros.” Ela me encarou-o por um instante e o olhar dela dizia mais do que qualquer palavra. Era confusão, medo, mas também uma chama que não se tinha apagado. Eu fico por esse trecho respondeu firme, mas a voz falhou um pouco.
Continuei a rodar, deixando a boleia ser testemunha daquele momento. A estrada lá fora era a mesma de sempre, mas por dentro tudo tinha mudado, porque Martha, pela primeira vez em anos, tinha escolhido para ficar. Nem que fosse só por alguns quilómetros, já era um recomeço. Ela tinha descido Scania, no pátio de um posto perto de Londrina.
Eu fiquei no volante, olhando pelo retrovisor, vendo a silhueta dela afastar-se. O coração apertava, mas havia algo de diferente no ar. Não era um adeu seco, daqueles que cortam de vez, era uma pausa. Naquela noite, a boleia passou a ser só silêncio. Eu Fiquei a imaginar o que passava na cabeça dela.
A Marta sempre foi de esconder sentimento, de engolir dor para não mostrar fraqueza. Mas eu sabia que aquela boleia tinha mexido com ela. Os dias seguintes foram de estrada pesada. Eu rodava, mas a mente ficava presa nela. O telemóvel quieto, nenhuma mensagem. Até que de repente, numa manhã nublada, ele vibrou. Era dela.
Valdir, preciso de pensar, mas não vou fechar a porta. Fiquei a olhar para aquelas palavras no ecrã. Respirei fundo, deixei escapar um sorriso. Não era amor declarado, não era uma promessa de futuro, mas era abertura. Depois de tantos anos, ela estava disposta a deixar a porta entreaberta. Respondi: “Não precisa pressa. Eu estou aqui, sempre vou estar.
” A viagem seguiu, mas com outro peso. A solidão ainda doía, claro. A boleia continuava vazia, o banco do pendura mudo, mas agora tinha esperança. Pequena, tímida, mas real. Enquanto circulava pela região norte do Paraná, entre as plantações e as pequenas cidades, pensava na vida que ela levava.
Plantão puxado, colete pesado, responsabilidade de segurar um país no braço e ao fim do dia, solidão. Porque sabia que por detrás da farda a Marta era apenas uma mulher cansada de lutar sozinha. Ao fim da tarde estacionei num miradouro de estrada. O pô do sol tingiu o céu de laranja e vermelho. Peguei no telemóvel, li a mensagem dela mais uma vez.
Não vou fechar a porta. Essas palavras ecoavam como farol no meio do nevoeiro. Lembrei-me do dia em que ela me tinha deixado. As malas feitas, o olhar firme e a voz trémula, dizendo: “Não aguento mais”. E agora, anos mais tarde, ela dava-me de volta uma réstia de chance. A estrada, mais uma vez me servia de metáfora.
Eu sabia que não era possível acelerar demais. Era preciso paciência, um excerto de cada vez. Nessa noite, deitado na boleia, Falei para mim mesmo: “Marta, você não precisa de decidir agora, só não me fecha a porta, o resto enfrento.” E adormeci com a estranha sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, a estrada não era só solidão, era também possibilidade, porque quando ela escreveu aquelas palavras, não foi só uma mensagem, foi uma escolha pequena, simbólica, mas escolha.
E eu sabia, às vezes é por uma fresta que a luz volta a entrar. Era sábado de manhã quando o telemóvel vibrou. Eu estava parado num posto perto de Maringá, tomando um pingado quando li a mensagem. Valdir, podemos conversar hoje? Só eu e tu, sem farda, sem PRF, só nós os dois. O coração disparou.
Era a primeira vez que ela deixava claro que me queria ver fora do uniforme, não como polícia, como mulher. Respondi na hora. Diz o lugar e a hora. Eu vou. Ela mandou um café simples numa praça perto do centro. Eu larguei a carreta no parque, deixei o Scania a descansar e fui. Quando cheguei, ela já lá estava. Jeans, blusa clara, cabelo solto, nada de postura rígida, nada de colete, só Marta.
a mesma de há anos atrás, só que com o peso da vida no olhar. “Olá, Valdir”, disse, sorrindo tímido. “Olá, Marta”, respondi. E só de dizer o nome dela assim, sem pressão, já senti diferente. Sentamos numa mesa de canto, pedi cafés. O silêncio inicial não era de luta, era silêncio de quem estava a tentar encontrar a forma certa de abrir o coração. “Eu precisava disto.
” Ela começou. B, precisava de estar aqui sem uniforme, sem gente a olhar, sem ti me ver como a PRF. Eu não sou isso, Valdir. Olhei para ela e falei baixinho. Eu nunca vi-te só como farda. Para mim, tu sempre foi a Marta que se ria de qualquer parvoíce, que dançava até se cansar, que fazia o meu mundo parar.
Ela desviou os olhos, respirou fundo. Não fale assim. Você desmonta-me. Talvez seja isso que precisa”, ou soltei. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, encarando a chávena. Depois levantou os olhos e atirou: “Ainda sinto Valdir, mas tenho medo. Medo de abrir de novo e acabar por me cortar outra vez”. O coração apertou.
Eu já a tinha ouvido falar de medo, mas ouvi-lo assim cara a cara era diferente. O medo é normal, respondi: “Eu também tenho, mas pior que o medo é passar o resto da vida a perguntar-se e se” Ela apoiou os cotovelos na mesa, passou as mãos pelo rosto. Você não entende. A minha vida é disciplina. Eu aprendi a blindar-me. Se eu o deixar entrar de novo, perco esse escudo.
E se em vez de perder, apenas dividir o peso? Perguntei. Ela encarou-me fundo. O olhar dela tremia, mas havia ali qualquer coisa. Um brilho que já não via há anos. Mudaste, Valdir? Ela disse. Antigamente só se falava da estrada, do frete, do gasóleo. Agora parece que aprendeu a olhar para dentro. Sorri de leve.
A estrada partiu-me de tantos jeitos, Marta. Se eu não tivesse aprendido a olhar para dentro, já não estava aqui. Ela ficou quieta, absorvendo, depois suspirou. Eu não sei onde isto vai dar, mas sei que não quero mais fugir de si. Aquela frase entrou como alívio depois de dias de silêncio. Não era uma promessa, não era uma certeza, mas era rendição. Então não fuja falei.
Fica. Nem que seja só por um café, só durante alguns minutos. Ela sorriu o sorriso que conhecia bem, pequeno, tímido, mas verdadeiro. O empregado trouxe mais café e continuámos ali conversando de coisas banais. música, recordações, até das quezílias antigas. Mas agora o tom era outro.
Não era acusação, era memória de quem partilhou uma vida. Quando levantámo-nos para ir embora, ela parou na porta, olhou para mim e disse: “Não sei se consigo dar-te tudo agora, mas não vou fechar a porta”. Fiquei parado, sentindo o peso e a leveza daquelas palavras. Ela saiu a andar devagar, o cabelo balançando ao vento e eu fiquei ali parado no passeio, sabendo que naquele dia não encontrei a PRF dura, a mulher blindada.
Encontrei apenas a Marta, vulnerável, real, a mesma por quem eu ainda rodava cada quilómetro da minha vida. A estrada sempre foi minha confidente, mas naquela manhã, quando liguei o Scania e senti o motor a roncar forte, parecia que estava a partir diferente. O peso no peito ainda existia, claro, mas havia uma nova chama queimando junto.
Na noite anterior, A Marta e eu tínhamos conversado como nunca, sem máscaras, sem fardas, sem orgulho, só nós os dois a falar de medos e recordações. E no fim veio o acordo, sem pressa, sem cobranças, apenas a hipótese de deixar que o tempo mostrasse o que ainda podia florescer. Enquanto acelerava em direção ao oeste do Paraná, senti o volante mais leve.
O sol subia lentamente no horizonte, iluminando o tapetão preto. Pela primeira vez em muito tempo, não via a estrada apenas como solidão. Eu via como promessa. Peguei no telemóvel no suporte e Enviei mensagem curta partindo para Cascavel. Quando der, chama-me sem pressão. Poucos minutos depois vibrou. Resposta dela. Tem calma e cuida de tu, Valdir. A estrada pode esperar.
Eu também. Sorri sozinho dentro da boleia. Era simples, mas era muito. A Marta estava incluindo-me no tempo dela, do jeito dela. Isso já era vitória. No meio da viagem, parei num posto para abastecer. Enquanto o gasóleo enchia o depósito, Fiquei a olhar para o reflexo do Scania Cinza. Nardo.
Era a minha nave, o meu companheiro de vida. Quantas vezes eu tinha dormido nele, chorado dentro dele, rido sozinho, xingado o mundo. Agora, pela primeira vez, parecia que ele também fazia parte deste novo capítulo. Um conhecido camionista chegou perto, rindo. Valdir, tão a dizer que tu viraste romântico na pista.
É verdade? Eu ri-me juntos, sem me incomodar. Sabe como é. A estrada bate, mas também ensina. Ele abanou a cabeça, ainda a rir, e foi-se embora. Fiquei pensando, talvez fosse mesmo verdade, talvez tivesse tornou-se romântico, mas quem disse que bruto também não sente? Mais à frente, no troço de Guarapuava, a estrada se encheu-se de curvas.
O Scania segurava firme, descendo na força do travão motor. E eu lembrava-me do que tínhamos combinado. Nada de pressas, um trecho de cada vez. Eu sabia que não ia ser fácil. Marta tinha a vida dela, a farda, a disciplina. Eu tinha o meu asfalto, os meus fretes, a minha solidão de estrada, mas pela primeira vez tínhamos decidido dividir, não competir.
Ao fim da tarde encostei-me a um miradouro e fiquei olhando o pô do sol. Peguei no telemóvel de novo e enviei uma foto da paisagem. Olha só, Marta, a estrada também sabe ser bonita quando quer. Ela respondeu pouco depois. Bonita mesmo. Aproveita. Eu estou aqui pensando, talvez a vida também seja isso, saber ver a beleza onde antes a gente só via dureza.
Guardei o telemóvel lentamente, sentindo o coração aquecer. Nessa noite, dormi melhor do que em muito tempo. O ronco distante dos camiões do pátio virou canção de ninar. Não era só o corpo a descansar, era a alma também, porque agora havia um pacto, um pacto de estrada, de vida, de amor sem pressa. E eu sabia, cada quilómetro dali em diante já não seria só carga, seria caminho até ela.
O sol já nascia quando liguei o Scania. O ronco grave do motor encheu a boleia e, por um instante, fechei os olhos, respirando fundo. Aquele som me acompanhou durante quase toda a vida, mas agora ele soava diferente. Não era só rotina, era promessa de caminho. A BR se estendia-se à minha frente, longa e brilhante, sob a luz dourada da manhã.
O tapete preto parecia chamar-me e eu atendi sem pensar duas vezes, engatando marcha e deixando correr a nave, a estrada e o amor. Pensei nisso enquanto o horizonte abria-se. Os dois têm em comum a incerteza. Nunca sabemos o que vem depois da curva seguinte. Pode ser buraco, pode ser reta, pode ser acidente, pode ser paz, mas ainda assim a gente segue, porque estar parado opção. O telemóvel vibrou na consola.
Era a mensagem dela. Marta, bom dia. Dirige com calma e recorda um excerto de cada vez. Sorri sozinho, os olhos marejados, sem vergonha nenhuma. Digitei a resposta rápido, com as mãos firmes no volante. Bom dia, Marta. Pode deixar. Cada troço, cada curva é para chegar mais perto de si. Guardei o telemóvel e deixei o Scania ressonar forte na subida.
O motor parecia concordar comigo, pois se cada volta fosse também declaração de amor. Enquanto avançava pela BR, pensei no quanto a estrada já me tinha dado e tirado. Perdi noites, aniversários, abraços, mas ganhei histórias, coragem e cicatrizes que me ensinaram a valorizar que realmente importa. Agora, a estrada devolvia-me algo que eu acreditava perdido, a hipótese de amar de novo.
Em cada camião que passava por mim, via reflexos de mim próprio, homens solitários, mulheres fortes, cada um com as suas lutas, os seus silêncios. E pensei, talvez estejamos todos procurando a mesma coisa. Alguém que segure-se bem no banco do pendura, nem que seja por alguns quilómetros. O sol já estava alto quando parei num posto só para tomar um café.
Sentei-me na boleia de volta e fiquei a olhar para o horizonte. A estrada parecia interminável, mas pela primeira vez em muito tempo não tinha medo disso. O infinito era agora convite, e não condenação. Lembrei-me da promessa que lhe fiz. Sem pressas, sem pressão, só a verdade, só o caminho. Marta tinha aberto a porta, ainda que por uma fresta.
E eu ia respeitar cada centímetro dessa abertura. Peguei no telemóvel novamente, tirei uma foto do Scania parado contra o fundo azul do céu e mandei-lhe. Olha só, Marta, horizonte aberto. É assim que eu me sinto agora. A resposta surgiu minutos depois. Então segue, Valdir, segue firme, porque talvez depois de tanta curva a gente ainda encontra um destino juntos.
O coração disparou, mas não havia pressa em acelerar. Pela primeira vez, entendia que a estrada, tal como o o amor não pede chegada imediata, pede paciência, pede coragem, pede presença. Voltei a engrenar a marcha, o ronco do Scania a ecoar forte. E enquanto o sol iluminava cada pedaço da BR, pensei alto: “A estrada e o amor são iguais, cheios de incertezas, mas o que conta é continuar.
E continuei 1 km de cada vez, 1 cm de cada vez, porque no fim o que importa não é a meta, é quem encontra pelo caminho.” No fim das contas, a estrada não é só feita de asfalto, curvas e quilómetros. Ela é feita de escolhas, de perdas e reencontros. O Valdir descobriu que o amor e a boleia têm algo em comum. Nenhum dos dois garante destino certo, mas ambos pedem coragem para seguir em frente, mesmo quando o horizonte é incerto.
E é é precisamente aí que mora a beleza, na esperança de que depois de tanta curva ainda existir alguém à espera no próximo trecho. Se esta história mexeu consigo, deixa lá o like, partilha com quem também carrega a saudade na bagagem e comenta aqui em baixo de onde do tapetão está a acompanhar essa viagem.
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Agora diga-me, será que a estrada consegue curar feridas antigas ou ela só abre espaço para que possamos aprender a conviver com elas?