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Caminhoneiro vê uma noiva sendo perseguida… e precisa agir antes que seja tarde.. ele faz isso

Eu estava a conduzir numa estrada de terra batida quando vi uma noiva a correr no meio do nada, descalça, o vestido rasgado, olhando para trás como se estivesse fugindo da própria vida. E então vi uma moto, vindo dois homens atrás dela. Naquele momento pensei em ir embora. Problema dos outros. Não é problema meu.

A estrada ensina isso. Se envolver custa caro, muito caro. Mas quando ela olhou para mim, percebi. Se eu não parasse, ela não ia sobreviver. Eu pisei o freio. E foi aí que tudo saiu do controle. Deixa-me contar como cheguei até aqui. Aquela tarde de 15 de Março, eu rodava a estrada de terra batida que corta o interior de Goiás como uma cicatriz.

vinha saindo de palmas, Tocantins, com uma carga de soja para descarregar em Catalão. Eram quase 300 km de terra batida vermelha, poeira que entra em tudo e aquele silêncio que só existe no meio do nada. O camião era um Scania vermelho, mais velho que o meu ódio por mim próprio. Tinha uns 15 anos, mas ainda rangia firme.

O seu motor fazia aquele barulho que conheço de cor, um ronco profundo, constante, que virou o meu batimento cardíaco ao longo dos anos. Dentro da cabine, o ar condicionado avariado soprava ar morno que mais parecia a respiração de quem está a morrer devagar. Eu fumava, fumava sempre quando conduzia em silêncio. O cigarro era o meu confessionário.

A fumaça saindo pela janela aberta era a minha prece. Naquele dia tinha fumado cinco já e eram apenas 3 da tarde. A estrada ia-se estendendo para a frente, retinha como um fio de esperança arrancada. Não tinha carro para lado nenhum, só eu, o camião e quilómetros de solidão que se repetem como um hábito vicioso. O céu estava limpo, azul, desbotado pelo calor, e o sol queimava tanto que o asfalto dava a impressão de ondular ao longe, como se a terra estivesse a respirar.

É nestas horas que a mente voa para lugares que a gente não quer ir. Eu estava a pensar em Laura, coisa que prometi para mim mesmo que não o faria mais. 5 anos. 5 anos desde que colocaram ela debaixo de terra. E, ainda assim, o o luto é aquele nó na garganta que não desfaz. Estava a pensar no último encontro que tivemos duas semanas antes dela morrer.

Eu tinha regressado de uma viagem para São Paulo, estava cansado, fedendo a gasóleo e suor e ela estava na sala, sentada no escuro à espera. Laura, amor, deixa-me tomar um banho foi tudo que eu disse. Ela nem respondeu, só olhou para mim daquela maneira que eu conhecia tão bem, aquele olhar que dizia: “Escolheste a estrada de novo”. Duas semanas depois, ela partiu.

O coração parou. Simples assim. A médica no hospital disse que foi um aneurisma, que ela não sofreu, que foi rápido. Mentira tranquila que as pessoas contam quando não sabem o que mais dizer. Porque a Laura sofreu. Ela sofreu durante 10 anos ao lado de alguém que nunca estava de verdade, que escolhia quilómetros de asfalto em vez de um abraço que durasse mais de 5 minutos.

Eu deveria estar em casa naquele domingo. Deveria estar deitado ao lado dela, descansando. Deveria estar a rir com ela de algo que viu na televisão. Mas eu estava nas Minas Gerais, com as mãos sujas de gordura, o coração sujo de indiferença, carregando uma carga que não importava ao coração de ninguém.

Depois disso, compreendi uma coisa que demorou 5 anos a processar. A as pessoas só percebem quanto amavam alguém quando é tarde demais, quando não tem mais pele quente para tocar, quando o o silêncio deixa de ser uma companhia e transforma-se numa condenação. Por isso é que eu rodava sozinho. Por isso fumava na madrugada.

Por isso é que eu tinha parado de telefonar à mãe dela, de frequentar a casa onde vivíamos juntos, de deixar qualquer coisa entrar no meu peito, para além de remorso e culpa. A estrada era mais fácil. Na estrada ninguém te cobra nada. Na estrada o silêncio não te acusa. Na estrada pode fingir que a vida continua normal, que estás bem, que consegue dormir sem ver a cara dela toda a noite.

Mentira, mentira grande. Eu não conseguia dormir. Às vezes ficava acordado a noite inteira na cabine, olhando para a escuridão. E o silêncio era tão pesado que parecia uma coisa sólida, asfixiante. Uma vez, se meses depois de Laura morrer, conduzi 36 horas sem parar, só para estar ocupado, só para não pensar. Tinha um mau hábito que desenvolvi, parar em pequenas cidades, entrar em bares de beira de estrada e ficar observando casais, vendo pessoas a rir, se tocando, vivendo uma vida que eu desperdicei.

Havia algo de masoquista nisso, mas eu continuava a fazer. Era como me machucasse propositadamente para lembrar que merecia sofrer. Os outros camionistas da profissão conheciam o meu tipo. Chamam-lhe homem quebrado, aquele sujeito que perdeu a razão de conduzir, mas segue na estrada porque não sabe fazer mais nada.

Alguns viram que eu bebia mais do que devia. Outros notaram que não brincava como antes, que tinha perdido aquele brilho que os os viajantes têm, aquela sensação de liberdade de estar sempre em movimento. Eu tinha-me tornado um fantasma que dirigia um camião. Assim, naquela tarde, na estrada de terra batida perto de Goiás, quando o motor começou a fazer um barulho estranho e tive que abrandar um pouco, eu tava mesmo era numa zona morta, tipo aquele lugar entre o estar vivo e estar morto, onde respira, mas não sente a respiração. Foi quando

Vi-a de longe, pensei que era ilusão. O calor do asfalto faz, por vezes, milagres, cria imagens que piscam e desaparecem, mas esta imagem não desapareceu, ela estava a correr. No início foi apenas uma mancha branca no horizonte, depois tornou-se mais clara, mais urgente. O meu corpo inteiro sentiu antes da minha mente processar o que estava a acontecer, aquele instinto animal, aquele que herdamos de antepassados que precisavam de saber quando um predador estava a chegar.

Algo estava errado, muito errado. Conforme o camião se aproximava, consegui ver melhor. Era uma mulher jovem, usando um vestido branco que devia ter sido lindo, mas estava sujo de terra, rasgado nas pontas. pesado de poeira. O cabelo dela tava um nó pendurado na cara, suado, colado à pele, como uma segunda pele. Os pés dela estavam descalços e eu Consegui ver do longe que estavam a sangrar, cheios de arranhões marcados de terra.

Ela corria como alguém que estava no último fôlego, como alguém que estava a fugir. E depois vi uma moto, duas figuras, vindo rápido atrás dela, levantando uma nuvem de poeira vermelha que cobria meia estrada. O meu peito acelerou. Aquele nó familiar subiu na minha garganta. Aquele mesmo nó que eu sentia quando algo de grave estava acontecendo.

O pé direito saiu do acelerador sem que eu deliberadamente pedisse. A mulher olhou para trás, viu o moto e depois ela olhou paraa frente, viu o camião e os nossos olhos se encontraram. naquele segundo, porque era apenas um segundo, vi nela tudo aquilo que eu tinha deixado morrer dentro de mim. Vi desespero, vi medo, vi a consciência de estar à beira do abismo, daquele lugar onde vemos toda a sua vida passar rápido, como um filme em fast forward.

Vi alguém que estava a pedir ajuda e naquele instante a memória acertou em cheio. Não era a mota, não era a mulher a correr, era outra história. Tinha 5 anos atrás. Era uma pessoa à beira da estrada que não tinha parado para ajudar. Eu estava a fazer outro trajeto. Regressava de São Paulo já de noite, cansado, pensando que só queria chegar a casa e abraçar a Laura.

Vi uma carrinha quebrada perto de 1 quilómetro marcado, um homem a acenar, pedindo ajuda, telemóvel provavelmente sem bateria. Era longe de tudo, de verdade longe. E eu segui em frente. Não é problema meu, pensei. Ele vai chamar alguém. Três dias depois descobri que tinham encontrado aquele homem morto perto da carrinha. violência, roubo, um crime que poderia ter sido evitado se um camionista tivesse parado 5 minutos.

Se eu tivesse parado, carreguei aquilo como uma pedra no peito desde então. Nunca mais falei sobre, nunca mais pensei conscientemente sobre, mas dormia mal por causa disso, bebia por causa disso, rodava sozinho por causa disso. Naquele momento, na estrada de terra batida, aquele olhar da mulher foi como se aquele homem de há 5 anos finalmente conseguisse cobrar-me.

Eu pisei o travão. O camião começou a abrandar, os pneus a ranger na terra, levantando uma nuvem de poeira tão grossa que já quase não conseguia ver. Mas eu já estava decidido. Pelo menos desta vez, desta vez eu não ia ser a pessoa que segue em frente. Desta vez eu ia parar. A mulher correu mais depressa, quase a cair, os braços a balançar, aquele vestido rasgado a movimentar-se atrás dela como uma asa partida.

A moto vinha vindo. Devia estar a uns 200 m atrás dela, talvez menos. Eu conseguia ver dois sujeitos em cima. Não conseguia ver o rosto deles, mas conseguia ver a urgência na forma como aceleravam, na forma como dobravam o corpo, para tornar-se mais aerodinâmico, como se cada metro ganho fosse uma questão de sobrevivência. Para eles era.

O camião finalmente parou. Uma nuvem de poeira nos envolveu a todos. Ela, a moto e eu na cabine, com a mão a apertar o volante como se aquilo me fosse salvar de algo. Abri a porta. Ela ainda corria, mas agora diretamente na minha direção, com aquele desespero que só surge quando se entende que está muito perto do fim.

Por favor! Ela gritava, a voz rouca, quase sem ar. Eu vi quando ela quase tropeçou. O pé descalço dela bateu numa pedra e ela caiu paraa frente. Mas ao invés de parar, ela empurrou o corpo com as mãos e levantou-se de novo, como se aquela queda fosse apenas um contratempo menor. A moto abrandou também e os dois sujeitos desceram rapidamente.

Aquele momento foi quando entendi que já não tinha volta. Tudo o que eu escolhesse fazer a a partir dali ia mudar tudo. Ela chegou perto da cabine, respirando como se tivesse tido um infarte, aquele tipo de respiração ofegante, desespera, onde o corpo quer mais ar do que o pulmão consegue fornecer. Os seus olhos encontraram os meus. Sobe”, disse eu.

Ela não hesitou, saltou paraa cabine com uma agilidade de quem está habituada a correr pela vida, os seus pés descalços e a sangrar, deixando marcas na estribaria do camião. E liguei o motor de novo. Pisei o acelerador, como nunca tinha pressionado nada na minha vida. O camião rugiu. Aquele motor antigo, aquele que estava sempre a queixar-se de idade, de cansaço, de tudo o que tinha tido de carregar. De repente acordou.

Acordou com uma força que eu nem sabia que tinha mais. Os pneus patinaram um pouco na terra solta, levantando uma cortina de pó que cobriu completamente a visão dos dois sujeitos na moto. E depois, como um pulmão respirando profundo depois de estar debaixo de água, eu acelerei para a frente.

A estrada de terra batida se abria antes de mim. E pela primeira vez em 5 anos, desde esse dia em que A Laura morreu, sentia algo que não era desespero, culpa ou remorso. Era propósito. Estava de novo vivo e tinha uma mulher a tremer ao meu lado, um vestido branco sujo de terra e dois homens que não iam desistir tão facilmente vindo atrás de nós.

Tudo tinha mudado em 5 segundos. E agora precisava descobrir porquê. O motor do camião roava sob os meus pés enquanto eu acelerava naquela estrada de terra batida que parecia não ter fim. A mulher estava desmaiada ao meu lado, ou quase, os olhos dela abertos, mas sem se focar em nada, o corpo inteiro a tremer, como se estivesse tendo uma convulsão silenciosa.

Ela respirava muito depressa, muito depressa mesmo. “Respira fundo”, disse eu, tentando manter a voz firme. “Respira fundo, que estás segura agora”. Mas eu sabia que aquela frase era mentira. Ninguém estava seguro. Não. Naquela situação. No retrovisor, conseguia ver a moto. Eles tinham desaparecido atrás do pó, mas eu sabia que estavam lá. Eles não iam desistir.

As pessoas que perseguem alguém até uma estrada de terra batida no meio do nada não são o tipo que desiste facilmente. A mulher ao o meu lado conseguiu finalmente respirar um pouco mais controlado. Ela estava usando um vestido de noiva branco ou tinha sido branco há uns tempos. Agora estava mais castanho de terra, vermelho de sangue, nos pontos onde o tecido tinha rasgado.

O seu cabelo era comprido, preto, e estava colado à cara e ao pescoço de suor. Ela devia ter uns 25, 26 anos. Jovem, muito jovem, para estar envolvida em algo que a fizesse correr assim. “Quem são aqueles tipos?”, perguntei, olhando para o retrovisor de novo. Ela não respondeu, apenas continuou respirando naquele ritmo ofegante, as mãos dela agarradas à barra de metal que está na porta do camião.

“Ei”, eu – disse eu, colocando a mão no ombro dela. “Quem são?”, piscou ela. Parecia estar saindo de um estado de choque. Os olhos dela finalmente se focaram em mim. E quando isso aconteceu, vi algo que me fez soltar o fôlego. Vi puro terror. Não o medo de uma situação má, terror mesmo. O tipo de medo que surge quando se entende que está metido em algo muito maior do que você.

Não sabe quem eu sou? – perguntou ela, a voz uma sussurrada rouca. Não, queres contar-me? Ela olhou para trás, pela janela de trás da cabine para ver se a moto ainda estava vindo. “O meu nome é Sofia”, disse ela quase sussurrando. “Eu, eu deveria estar a casar hoje.” Olhei para ela, depois pro vestido rasgado, depois de volta para ela. “Devia?”, perguntei.

Sofia respirou fundo. As mãos dela tremiam. Ela estava a segurá-las juntas, mas conseguia ver que ela estava tentando desesperadamente controlar o tremor. “O meu pai, o meu pai é Daniel Ribeiro”, disse ela. “Eu não reconheci o nome”, franzi o sobrolho. Ele tem negócios, grandes negócios. Ela continuou.

“E o homem que eu estava prestes a casar, ele faz parte dela. Que tipo de negócios?” Sofia olhou para mim e naquele olhar tinha uma mistura de desespero e resignação, como se ela tinha que contar algo que tinha medo até de pensar em voz alta. “O tipo que mata-te se conheceres os detalhes”, ela sussurrou. “O meu estômago fez um nó. Apanhei a curva da estrada demasiado rápido e Sofia quase caiu para trás.

Peguei no braço dela para estabilizar.” Vai com calma”, disse ela. E havia algo partido naquele pedido, como se aquele vai com calma fosse impossível. No retrovisor, a moto tinha aparecido de novo. Eles tinham saído da nuvem de poeira. Agora estavam a uns 300 m atrás, talvez menos. Tinha que aumentar mais a velocidade, mas naquela estrada de terra batida, quanto mais depressa se ia, mais perigoso ficava.

Uma roda poderia entrar numa valeta escondida, o camião poderia virar e depois morríamos. Todos a gente. Explica-me, eu disse, mantendo os olhos na estrada. Explica direitinho por ti tás a correr? Sofia ficou em silêncio por um momento, depois começou a falar e a história que saiu da A boca dela foi tão pesada que eu quase desejei não ter perguntado.

“Eu descobri algo que não deveria ter descoberto”, ela disse ontem à noite eu estava eu estava no quarto do hotel a tentar encaixar o véu e o noivo, ele chama-se Ricardo, ele estava a fazer uma ligação no banheiro. Ele não sabia que eu conseguia ouvir. Ela fez uma pausa. O tremor na a voz dela piorou.

Ele estava a falar sobre o transporte, sobre as quantidades, sobre como ia funcionar tudo depois do casamento. Ele falava como se Como se o quê? perguntei. Como se eu fosse um acordo, uma coisa, não uma pessoa. Ela respirou fundo. Ele falava como se eu fizesse parte do negócio, como se casar comigo fosse uma forma de ganhar confiança da minha família para utilizar o empresa deles para transportar coisas.

Eu tendi ela queria chegar, mas não não disse nada. Drogas? Perguntei de qualquer forma. Ela assentiu. Ele tava combinando de usar os camiões da empresa do meu pai. Ele estava a pagar o meu pai para isso. O meu próprio pai, ele estava, a voz dela partiu, ele estava tudo planeado. O casamento era apenas uma forma de formalizar, de me prender.

No retrovisor, a moto estava cada vez mais perto, 200 m, talvez menos. “Como é que você conseguiu sair?”, perguntei. Fingi que estava a dormir quando Ricardo saiu do quarto. Ele tinha uma reunião antes do casamento, alguma coisa importante. Então, fiz uma mala rapidamente, coloquei o vestido dentro dela e tentei sair, mas havia seguranças, dois tipos à porta do elevador.

Ela respirou fundo e eu Consegui ver o medo no rosto dela só de lembrar dessa parte. Eu criei uma desculpa. Eu disse que tinha deixado o bouquet em casa, que precisava de ir buscar, que era superstição. Deixaram-me ir, mas mandaram um deles comigo. A gente estava no carro quando vi a oportunidade. O carro parou num semáforo e eu simplesmente saí a correr com o vestido de noiva? – perguntei quase sem acreditar.

Eu já estava a usar ela disse. Não tive tempo para trocar. Eu saí a correr em plena Goiânia, de vestido de noiva, descalça, sem nada, só para sair daquele edifício. Olhei-a pelo canto do olho. Os os pés dela estavam a sangrar, as unhas arrancadas. Havia cortes e roxos em vários locais do corpo. Ela tinha corrido através de ruas, possivelmente entre carros, só para conseguir se afastar. E aí? perguntei.

E aí entrei num táxi, disse ao motorista para me levar para uma estrada que saía de Goiânia, qualquer uma, não importava para onde. Ele estava a achar estranho, claro, mas eu dei-lhe dinheiro a mais e ele fez o que lhe pedi. Deixou-me naquela estrada de terra batida. Eu desci e comecei a caminhar, tentando pensar no que fazer.

E então já viu a moto? Terminei a frase. Sim. Ela respirou fundo. Eles apareceram cerca de 20 minutos depois. Eu tava a caminhar e quando vi a moto eu reconheci um dos tipos. Era um dos seguranças do meu pai. Então comecei a correr. Não sabia para onde. Só sabia que precisava de sair dali. No retrovisor, a moto tinha fechado ainda mais a distância.

Agora dava para ver os rostos dos gajos. Dois homens, com cerca de 30, 40 anos, calado, determinado, focado. O tipo de gente que está habituada a fazer o que foi pedido sem fazer perguntas. Eu pisei mais fundo no acelerador. O camião começou a ficar instável na terra solta. Conseguia sentir como as rodas estavam à beira de perder tração, como se qualquer segundo todo o veículo pudesse sair da estrada e virar.

Vai com mais calma. A Sofia pediu, a mão dela agarrando-me o braço. Se eu for mais devagar, apanham-nos, disse eu. A realidade daquilo acertou em cheio. Eu vi nos olhos dela quando compreendeu. Estávamos presos. Se eu não acelerava, alcançavam-nos. Se eu acelerava demais, a gente virava-se e morria de qualquer forma.

Para onde vamos? Ela perguntou. Boa pergunta. Muito boa pergunta. Há uma cidade, eu disse tentando lembrar-se. Catalão, fica a cerca de 50 km daqui. Há polícia lá. Polícia não vai adiantar, sussurrou Sofia. O meu pai há gente em todo o lado, amigos, politicamente, juízes, delegados. Então, temos que ir para um lugar onde ele não tem amigos. Eu olhei para ela.

A tua família tá envolvida completamente. A minha mãe não sabe de nada, a Sofia disse rápido. Mas o meu pai sim, o meu irmão também. Só eu é que fiquei fora disto. E por isso agora querem trazer-me de volta. Por quê? Se já viu tudo? Porque a Sofia respirou fundo e a sua voz ficou ainda mais quieta.

Porque eu sou a sua alavanca. Se estou viva, sou a prova. Se eu desapareço, eles conseguem contar uma história diferente. Mas se eu ficar viva e nas suas mãos, ela não terminou a frase, mas não precisava. Se ela ficasse viva nas minhas mãos, eu seria um alvo também. No retrovisor, a moto estava muito perto, agora uns 100 m.

Ouvia-se o motor dela acima do motor do camião. Aquele som agudo e irritante que as motos fazem. Eles vão tentar fazer-nos sair da estrada, eu disse. Como? Perguntou a Sofia. Mas eu já estava a ver aquele tipo de manobra que as pessoas desesperadas fazem quando sabem que perderam a corrida regular. A moto começou a mover-se paraa esquerda para acelerar e passar o camião.

O problema é que naquela estrada de terra batida havia uma valeta grande do lado esquerdo, um buraco fundo, o tipo que não se vê até estar em cima. Se a moto passasse e tentasse forçar o camião a sair da pista, a gente caía dentro daquela valeta e não tinha airbag que salvasse a gente desta.

“Segura em alguma coisa”, eu ordenei. A Sofia agarrou-se na barra de metal com as duas mãos. Ela abertou os olhos, respirava depressa, a moto acelerou. Ela estava ao lado. Agora o sujeito que seguia na garupa, o que conduzia, estava a olhar para mim. Tava fazendo-me um sinal para diminuir a velocidade, para eu sair da estrada voluntariamente.

Eu não diminui. Ao invés disso, eu atirei o volante para a esquerda. O camião inteiro virou na direção da moto. gritou a Sofia. A moto teve de travar bruscamente, abrandar e sair para trás do camião para não bater. Por um segundo conseguimos escapar, mas não por muito tempo, porque a estrada estava a terminar.

Conforme o horizonte se abria à frente, conseguia ver porque aquela estrada de terra batida estava assim tão isolada. Depois dela não tinha mais nada durante uns 20 km, só cerrado, mato fechado, sem casas, sem pessoas. sem ninguém para testemunhar o que quer que ali acontecesse. Aquele era o tipo de lugar onde as pessoas desapareciam.

Aquele era o tipo de lugar onde os crimes podiam acontecer sem que ninguém soubesse. E pela primeira vez, desde que A Sofia tinha entrado no camião, eu percebi o tamanho real do problema. Não era sobre um casamento cancelado, não era sobre uma fuga romântica, era sobre uma mulher que tinha visto demais. Entrado num círculo que era muito maior que ela podia imaginar e agora estava a circular com um camionista quebrado que tinha os seus próprios demónios para lhe dar.

Atrás de nós, a moto estava a reorganizar-se e à minha frente só tinha a estrada vazia e a consciência de que talvez, talvez mesmo Sofia tivesse razão. Talvez polícia não ia adiantar. Talvez correr para Catalão não resolvesse nada. Talvez a gente realmente tivesse entrado em algo do qual não tinha retorno.

A moto acelerou de novo e pisei ainda mais fundo no acelerador, sentindo o camião sob as minhas mãos, como um animal que eu estava a tentar controlar, como algo vivo que podia morrer a qualquer segundo. A Sofia fechou os olhos e eu também rezei, coisa que não tinha feito desde que a Laura morreu. A moto estava cada vez mais perto.

Eu conseguia ver agora a cara do condutor. Não tinha expressão. Era aquele tipo de rosto que vê-se em pessoas que fazem coisas maus para ganhar dinheiro. Um rosto que perdeu a capacidade de sentir culpa há muito tempo. “Vão tentar bater no camião”, disse eu para a Sofia, tentando manter a voz calma, mas falhando. “Quando eu travar, tu seguras em alguma coisa.

Não largue nenhum”. Ela assentiu, mas os os olhos dela estavam vidrados. aquele tipo de olhar de quem já aceitou que pode morrer ali. Eu conhecia aquele olhar. Tinha visto no espelho muitas vezes nos últimos 5 anos. A estrada começava a alargar um pouco. Ainda era terra, mas tinha agora mais espaço dos dois lados.

O cerrado que nos rodeava estava se abrindo, como se o mundo inteiro soubesse que estávamos a fugir e tivesse decido dar-nos um pouco de arena para brincar. A moto acelerou. Ela vinha pela direita agora, tentando passar pelo lado onde tinha mais espaço. O sujeito que seguia na garupa, o passageiro, tinha algo na mão.

Ao princípio, eu pensei que fosse uma arma, mas quando o sol brilhou naquilo, vi que era apenas um bastão de ferro improvisado. O tipo de coisa que não deixa marca de bala, que pode magoar ou matar sem deixar muita evidência. muito profissional, muito planeado. Ele tem uma arma, a Sofia gritava. Não é uma arma, eu disse. É pior, é intencional.

A moto chegou ao lado do camião, totalmente ao lado agora, na mesma velocidade. O sujeito com o bastão estava a olhar para cima, paraa janela onde Sofia estava sentada. Ele estava apontando o bastão para vidro. Eu fiz a única coisa que consegui pensar. Virei o camião paraa direita. O camião inteiro se moveu nessa direção, como uma fera que estava a acordar.

A moto teve de travar e desviar, quase caindo na terra solta. Por um segundo, eles perderam tração. As rodas da moto patinaram e depois ganhámos uns metros, mas não por muito. A moto acelerou de novo, desta vez vindo pela esquerda. E desta vez o sujeito nem tentou ser discreto. Ele simplesmente levantou o bastão e esmurrou o vidro da janela do camião. O vidro não partiu.

Os camiões modernos têm vidro reforçado. Mas fez um barulho alto, assustador. A Sofia gritou e atirou-se para a frente, para o O meu coloi e depois vi a saída. Há uns 5 km adiante havia sinais de civilização. Primeiro foram as torres de transmissão de energia, depois as primeiras casas espaçadas e, finalmente, a auto-estrada.

A BR251 aparecia como uma linha cinzenta no horizonte. Catalão estava perto. Eu não sabia quantos quilómetros estavam em falta, mas sabia que tinha de chegar ali na auto-estrada principal, com mais automóveis, com polícia, com testemunhas. Não larga em min, ok? Pediu a Sofia, ainda agarrada ao meu colo.

Não vou soltar, eu prometi. Acelerei ainda mais. O camião começava a ficar instável, aquele tipo de instabilidade perigosa que surge quando estás no limite daquilo que a máquina consegue fazer. As rodas batiam nos buracos da estrada, levantavam pó, faziam o camião saltar como se tivesse alma própria.

A Sofia tinha razão em estar assustada. Naquelas condições, a gente podia virar a qualquer segundo, mas virar era melhor que ser apanhado. A moto ainda estava ali, mas agora não estava conseguindo manter-se no mesmo nível. O condutor sabia que tinha perdido a vantagem. Numa auto-estrada, naquela velocidade, um camião era mais rápido que uma moto. E ele devia saber isso.

O que ele não sabia era que eu estava disposto a morrer ali, que eu estava de um jeito estranho, com vontade de morrer ali. Porque durante 5 anos estive morrendo aos poucos de qualquer forma. Aos poucos, rodando sozinho, fumando sozinho, bebendo sozinho, transportando a morte de Laura como uma pedra no meu peito.

Se eu ia mesmo morrer, pelo menos desta vez ia ser por algo que importava. A autoestrada estava cada vez mais perto. Eu conseguia ver carros, uns três, quatro carros na distância, vindo na nossa direção. Quase lá, sussurrei. Sofia levantou a cabeça, viu os carros e algo que parecia esperança apareceu nos olhos dela. “Quase lá”, repetiu ela.

“Eu saía da estrada de terra batida directamente para a auto-estrada”. As rodas do camião apanharam o asfalto com um b que quase me fez largar o volante. Por um segundo perdi o controle. O camião serpenteou, quase embateu num dos carros que vinha na nossa direção. O condutor do outro carro buzinou. Buzinou alto, assustado.

Mas eu consegui recuperar o controlo. O camião estabilizou e depois na rodovia a gente ganhou velocidade real. 100 km/h, 120.º A moto tentou acompanhar, mas não conseguia. A auto-estrada tinha mais carros, mais pessoas, mais testemunhas. Aqueles dois sujeitos não podiam fazer aqui nada sem ser visto e eles sabiam disso.

Eu vi quando a moto começou a abrandar, começou a cair para trás, começou a desaparecer no espelho retrovisor. “Eles desistiram?”, gritava Sofia apontando. Não desistiram, disse eu, mas pela primeira vez em horas consegui respirar um pouco mais fundo. Apenas mudaram de tática. E eu tinha razão, porque as pessoas como aqueles dois sujeitos não desistem.

Eles apenas reorganizam. Eles sabem que não consegue rodando para sempre, que em algum momento você tem de parar. E quando você para eles vão encontrar-te. Catalão apareceu-me à frente como uma promessa que sabia que não podia cumprir. Era uma cidade de cerca de 100.000 habitantes no interior de Goiás.

Estava crescendo, estava a desenvolver-se, tinha aquele ar de cidade que está a tentar ser grande, mas ainda tem raízes pequenas. Tinha a BR251 cortando a meio com todo o tipo de comércio de ambos os lados: postos de gasolina, snack-bares de camionista, hotéis de motel, estilo anos 80. Eu conhecia Catalão, tinha parado ali de menos umas 10 vezes nos últimos anos, sempre sozinho, sempre só para comer e seguir em frente.

Desta vez eu precisava de mais do que comida. Eu precisava de polícia. Entrei na primeira esquadra que vi. Era perto da estação rodoviária uma construção de betão cinzento que parecia tão amador como qualquer coisa que vê-se em cidade pequena do interior. Dois polícias à porta conversando, parecendo mais descontraídos do que deviam estar.

Quando desci do camião, a sofia atrás de mim, os dois Os polícias automaticamente ficaram atentos. Não é todos os dias que uma mulher entra numa esquadra de polícia usando um vestido de noiva rasgado e sujo de terra, com os pés a sangrar, acompanhada de um camionista de meia idade, com marcas de cansaço no rosto. “Preciso fazer uma denúncia”, disse eu, mantendo a voz firme.

“Esta menina tá em perigo, tá sendo perseguida. Um dos polícias, um sujeito magro, com cerca de 40 anos, com aquele sotaque do interior pesado, franziu a testa. “Entra aí”, falou, apontando para a porta. A gente entrou. Dentro da esquadra estava basicamente vazio. Uma mesa de atendimento, um polícia mais velho atrás dela, parecendo estar preenchendo formulários.

Quando nos viu, levantou-se. “O que se passou?”, perguntou. Comecei a contar toda a história sobre Sofia, sobre o noivo, sobre a moto, sobre tudo. Os polícias me ouviram em silêncio e conforme eu falava, conseguia ver o rosto deles mudando. Não era discrença propriamente, era algo pior, era o reconhecimento. Quando acabei de falar, o polícia mais velho, aquele que estava atrás da mesa, trocou um olhar com o magro.

Um daqueles olhares que os polícias trocam quando sabem que estão metidos em algo que é maior do que eles. Sabe quem é o pai dela? Perguntou o polícia mais velho. Ela referiu um nome, respondi, Daniel Ribeiro. Os polícias trocaram outro olhar. Vou ser honesto consigo, falou o mais velho. O seu nome era Walter.

De acordo com a placa em cima da mesa, Daniel Ribeiro é uma pessoa importante nesta cidade, muito importante. Ele tem negócios, tem amigos, tem influência. Ele também está envolvido em coisa ilegal, disse eu. Talvez, respondeu Walter cuidadosamente. Talvez sim, mas talvez não é suficiente para nós fazermos nada sem prova, sem evidência.

Eu senti a raiva subir-me à garganta. Aquele tipo de raiva que sente quando se percebe que está sozinho, que a lei não é para pessoas como a Sofia. Ela ouviu-o planeando tudo. Eu insisti. Ela diz que ouviu corrigiu Walter. Mas é a palavra dela contra a dele. Numa corte aquilo não dura 5 minutos. A Sofia, que tinha estado em silêncio até agora, finalmente falou: “Eu tenho um nome”, disse ela, “a voz dela pequena, mas firme.

Eu tenho nomes de pessoas que trabalham para ele. Eu conheço os transportes, conheço rotas. Eu conheço horários.” Walter a olhou. “Está disposta a testemunhar formalmente num tribunal?” Sim”, respondeu Sofia de imediato, “mes mesmo sabendo que isso significa que vai ter de enfrentar a família dela, que vai ter de estar presente quando prendermos o seu próprio pai.” Sofia respirou fundo.

“O meu pai é um criminoso”, disse ela simplesmente, “Eu não vou ajudar um criminoso, nem que seja meu pai”. Havia algo naquele rosto que tinha mudado. Não era mais medo, era determinação. Walter assentiu lentamente. Está bem, disse ele. A gente pode fazer alguma coisa, mas precisa de tempo. Precisa de investigação a sério com pessoas que estão acima de mim, que não estão dentro deste círculo que Daniel Ribeiro controla. Quanto tempo? Perguntei.

Semanas, talvez meses. E, enquanto isso, o que é que fazemos? A gente coloca-a num lugar seguro”, respondeu Walter. “Longe daqui, longe daqueles tipos que estavam atrás de vocês.” Virei-me para Sofia. “Longe daqui significa longe de mim também”, disse eu. E havia algo na a minha voz que eu próprio não compreendia, algo que sentia demasiado.

“Eu sei”, respondeu Sofia e os seus olhos encontraram os meus. Havia algo naquele olhar. Uma gratidão, sim, mas também algo mais. Era como se a Sofia estivesse a tentar me dizer obrigado, sem palavras. Obrigado por ter parado. Obrigado por ter corrido. Obrigado por ter acreditado quando mais ninguém acreditaria. Deixa-me falar com os meus chefes, disse Walter.

A gente pode colocá-la num abrigo. Há um em Anápolis que cuida de casos como este. Ela fica segura lá enquanto montamos a operação. Quando? Perguntei. Hoje à noite a gente arranja transporte seguro, pessoal que eu confio. Eu assenti. Depois disso, tudo ficou confuso. O Walter pediu-nos esperar lá. A Sofia foi levada para uma sala de trás para dar mais pormenores, para ajudar a montar o caso.

Eu fiquei na recepção a fumar. Sim, fui para o lado de fora e fumei como um louco à espera. O tempo passava devagar. Cada minuto parecia uma hora. Eu fumava um cigarro atrás do outro, as mãos ainda a tremerem de adrenalina. Eram quase 7 da noite quando a Sofia saiu. Ela tinha tomado um banho, tinham-na levado para a casa de banho e ela tinha conseguido limpar-se um pouco.

O vestido de noiva ainda lá estava. Eles estavam a guardar como prova, mas alguém tinha arranjado roupas emprestadas para ela. Era roupa simples, calças de ganga e uma t-shirt, mas no corpo dela parecia pertencer a uma outra vida. Uma vida normal, uma vida sem fugir. A gente vai embora em meia hora. Ela falou.

Eles já estão a preparar o carro. Eu assenti. Houve um silêncio. Um silêncio que pesava, como se tivesse muita coisa para ser dita e nenhuma delas fosse simples. “Obrigada”, disse finalmente Sofia. “Se não tivesses parado.” “Eu sei, interrompi. Você arruinou a sua vida para ajudar-me.” Ela continuou. “Eles vão atrás de si também agora.

Você sabe disso, não é?” Eu sabia. Tinha pensado em muito disso enquanto fumava. Daniel Ribeiro não é o tipo que esquece, ela disse. Ele vai mandar alguém atrás de você. Pode demorar, mas ele vai demorar. Eu sei. Repeti. Então, por que razão fez isso? Demorei a responder, porque a verdade era complicada.

A verdade tinha a ver com a Laura, com aquele homem que eu tinha deixado morrer com 5 anos de culpa que eu estava a carregar como uma rocha. Porque eu disse finalmente: “Tem uma pessoa que não consegui salvar uma vez. Não ia deixar que isso acontecesse de novo.” A Sofia olhou para mim e havia lágrimas nos olhos dela.

“Vais ficar bem?”, perguntou ela. Eu vou ficar vivo”, respondi, que é o mais que qualquer um pode esperar. Meia hora depois, eles levaram a Sofia. Ela foi num carro com dois polícias. O carro saiu da esquadra, virou para a esquerda na rua principal e desapareceu. Fiquei ali parado na calçada, vendo aquele carro desaparecer.

E pela primeira vez em 5 anos, senti algo que não era culpa, era vazio. Era como se aquela dor que eu tinha carregado desde que Laura morreu tivesse sido substituída por um vácuo. Como se aquele gesto, aquele simples gesto de parar e ajudar tivesse tirado alguma coisa de mim que precisava de tirar. Não era cura, não era reconciliação com o meu passado, era apenas um pequeno passo, mas era um passo.

Eu conduzi até um motel à beira da BR251 aquela noite. Paguei o quarto em dinheiro, tomei um longo banho, fumei mais meia dúzia de cigarros pela janela do quarto, olhando para aquela auto-estrada que estava sempre a passar carros. E quando me deitei na cama pela primeira vez em 5 anos, consegui dormir sem pesadelos.

A Sofia tinha razão sobre uma coisa. Daniel Ribeiro não era o tipo que esquecia. Mas, nessa noite, deitado naquele quarto de motel barato, eu não estava preocupado com o futuro. Eu estava a viver um presente. E isso para alguém que tinha passado 5 anos no passado, era tudo o que importava. Acordei com o som de um camião a passar na rodovia.

Aquele barulho que deveria ser familiar, que era familiar, desta vez soou diferente. Soou como uma acusação. Fiquei deitado na cama naquele quarto de motel, olhando para o tecto que tinha uma mancha de humidade no canto. E pensei em Laura. Não era a primeira vez que eu acordava a pensar nela. Era só que desta vez o pensamento veio com um peso diferente, mais pesado, mais real, como se o meu corpo finalmente tivesse percebeu que tinha parado de correr e agora podia processar o que tinha deixado para trás.

Levantei-me e fui para o banheiro. A água do chuveiro saiu morna, depois quente. Fiquei debaixo dela por muito tempo, deixando cair a água quente no meu rosto, fechando os olhos. Laura gostava de tomar banho quente. Ela dizia que a água quente era a única coisa que conseguia tirar aquela sensação de estar sozinha que ela tinha, que era como se a água estivesse a abraçá-la, mesmo que durante alguns minutos.

Eu nunca tinha entendido aquilo na época. Agora eu entendia. Saí do banho, vesti roupa limpas que tinha no camião e fui para rodoviária de Catalão. Comprei um café péssimo e um pão com queijo numa daquelas lanchonetes de beira de estrada. Aquela comida que não tem gosto, mas enche a barriga. Sentei-me numa mesa de plástico e comecei a pensar.

A realidade da situação começava a apertar à volta do meu pescoço. Sofia tinha razão. Daniel Ribeiro era exatamente o tipo de pessoas que não esquecia. E eu tinha-me colocado num alvo. Tinha saído da invisibilidade que a solidão dava-me e tinha entrado num jogo que nem sabia que existia. Mas não era arrependimento que eu estava sentindo.

Era algo mais próximo de estar acordado. Depois de 5 anos a dormir em pé, a conduzir em automático, a viver como um zombie que só respirava, mas não existia realmente. Eu tinha finalmente acordado e acordar dói. Voltei para esquadra ao final da manhã. Walter estava ali com uns papéis na mão, parecendo cansado. Já estava à espera você voltar.

Ele disse quando me viu entrar. Como é que ela tá? Perguntei. A Sofia tá bem segura. Está numa casa de abrigo em Anápolis. Está a conversar com os investigadores federais. Isso vai levar tempo, mas ela está a cooperar e eu. Walter respirou fundo. Você é uma complicação disse sentando-se na cadeira dele. Não é parte da família de criminosos.

Você não é alguém que está envolvido. Você é apenas alguém que foi no sítio errado, à hora errada, e fez a coisa certa. Soa como um elogio disfarçado de problema, respondi. É exatamente isso. Walter concordou. Porque se Daniel Ribeiro souber que foi você que ajudou a filha dele a escapar, torna-se um alvo. E se se tornar um alvo, ele vai mandar gente atrás de você.

Pode ser amanhã, pode ser daqui a se meses, mas vai enviar. Eu assenti. Então o que sugere? Sumo. Walter disse claramente: “Desapareces de catalão, desaparece de Goiás, vai para bem longe daqui, muda de rota, muda de percursos, tira a matrícula do seu camião do sistema, fica invisível”. “Estás a pedir para eu infringir a lei?”, falei.

Estou a pedir para que fique vivo respondeu Walter sem brincar. Daniel Ribeiro tem gente, gente perigosa, gente que mata por dinheiro e você é agora uma ameaça para ele. Quanto mais rápido você desaparecer, melhor para si. Eu sabia que ele tinha razão. Passei o resto do dia a conduzir sem rumo. Saí de catalão pela BR151, indo em direção a Uberlândia.

Não tinha um plano, não tinha destino, estava apenas a conduzir, tentando processar tudo. O camião conhecia cada curva da estrada melhor que eu conhecia o meu próprio coração. O meu corpo sabia o que fazer. Mudar de velocidade, virar o volante, travar sem que eu tivesse de pensar, o que deixava a minha mente livre para vagar.

E ela vagueou inevitavelmente pro passado. Pensei no dia em que eu e a Laura nos conhecemos. Era numa terça-feira qualquer. Tinha entrado na lanchonete dela, Café da Manhã Feliz, o nome era, e pedi um café preto. Ela estava a usar um avental cor-de-rosa que tinha um desenho de uma flor e havia algo de tão inocente naquilo, tão puro, que me fez lembrar que ainda era capaz de sentir algo para além de cansaço.

Ela tinha sorrido, tinha perguntou se queria açúcar. Eu tinha dito que não. Ela tinha dito: “A vida já é demasiado amarga para a gente colocar mais amargura dentro”. Aquela frase tinha-me partido um pouco. Tinha-me feito perceber que havia alguém naquele planeta que percebia o mundo daquele jeito, como algo que já é difícil, pelo que não tem de ficar pior.

Comecei a voltar naquela cafetaria todas as semanas, sempre terça-feira, pedindo sempre café preto e sempre ela a sorrir aquele sorriso que parecia saber de todos os meus segredos. Demorou três meses para eu pedir o número dela. Demorou seis meses para que ela aceitar sair comigo. Demorou um ano a eu perceber que ela era a coisa mais bonita que já me tinha acontecido.

E demorou 10 anos para eu entender que tinha desperdiçado tudo aquilo. Continuei a conduzir. Passei por Arachá, depois por Frutal, depois segui pela BR381 direto para o Sul. Minas Gerais abria-se diante de mim com aquelas montanhas verdes, aqueles horizontes que pareciam infinitos.

Eu conhecia essas rotas, tinha conduzido por aí centenas de vezes, mas desta vez era diferente. Desta vez eu estava a perceber coisas que eu nunca tinha percebido. pequeninhas cidades, os monumeninhos nas bermas das estradas, as pessoas nas plataformas de descanso, uma mulher a vender água de coco, um casal de idosos sentados numa cadeira de baloiço na varanda de uma casa pequenina.

aqueles pequenos detalhes da vida que não são cinematográficos, que não fazem heróis de ninguém, que são apenas pessoas a viver as suas vidas simples. A Laura tinha dito uma vez que ela gostaria de ter uma vida simples. Tinha dito que não queria ser rica, não queria ser famosa. Queria apenas acordar ao lado de alguém que a amava, tomar café juntos, falar sobre coisas pequenas e ir dormir segura de que seria voltar a acordar com essa pessoa.

Eu tinha-se rido, tinha dito que aquilo era chato, que eu queria mais. Mas o quê? Ela tinha perguntado. Não sei. Eu tinha respondido, mas algo mais do que café da manhã e conversa morna. Ela tinha ficado em silêncio durante muito tempo e depois ela tinha-se levantado e saído do quarto. Não estava zangada, estava apenas triste.

Aquela tristeza tinha ficado. Ficou durante os 10 anos que estivemos junto. Ficou enquanto eu corria o Brasil afora. Ficou enquanto ela envelhecia sozinha em casa. ficou até ao dia em que o coração dela simplesmente desistiu. Talvez aquele coração tivesse desistido porque já tinha desistido de mim muito antes. Conduzi durante três dias seguidos.

Não parei num hotel, não parei num motel, parei em postos de abastecimento de combustível para encher o tanque, comi alguma coisa do que tinha na mala de viagem e continuei. Meu corpo inteiro do, os olhos ardiam de cansaço, a visão começava a ficar desfocada nas curvas. Era perigoso, mas era também a única forma que eu conhecia de processar a dor, conduzindo até o fim.

Na terceira noite, desabei, literalmente desabei. Peguei numa estrada que subia a uma montanha, sentia que o carro estava a oscilar e simplesmente perdi consciência. O camião saiu da pista. Felizmente não caiu numa ribanceira ou barranco. Felizmente embateu numa pequena árvore que amorteceu o impacto. Felizmente, se conseguir chamar sorte estar vivo quando sente que deveria estar morto, eu estava vivo.

Acordei com o airbag a esvaziar. Meu doía-me o peito, doía-me o rosto. A frente do camião estava destruída. Fiquei ali sentado naquele banco, respirando pesado, percebendo que tinha quase morrido, que quase me tinha tirado a própria vida sem sequer ter a coragem de tentar. E sabem o que eu pensei naquele momento? Pensei na Sofia.

Pensei que se eu morresse ali, ela nunca saberia o que aconteceu comigo. Pensaria que tinha sido uma coincidência. Pensaria que tinha sido sorte dele o meu aparecer naquela estrada. pensaria que a sua vida tinha simplesmente cruzado com a de um camionista no lugar certo, na hora certa, como se fosse o universo conspirando.

E não perceberia que para mim aquele momento tinha mudado tudo. Saí do camião com dificuldade. Chamei a polícia rodoviária. Eles vieram em menos de uma hora. Fiz um relatório falso sobre o acidente. Perdi a concentração. Peguei no volante errado e acreditaram. A polícia rodoviária chama um guincho. O meu caminhão foi levado para uma oficina em Belo Horizonte.

Eu fui levado também porque necessitava de avaliação médica. Os médicos disseram que tive sorte, que podia ter tido uma lesão na coluna, um traumatismo craniano, qualquer coisa. Mas aparentemente o meu corpo era mais duro que parecia. O que não era tão duro era a minha mente. Passei a noite naquele hospital de Belo Horizonte.

Deitado numa cama branca com uma veia furada para soro num quarto que cheirava desinfetante. Aquele cheiro remeteu-me ao hospital onde Laura morreu. Eu não tinha ido ao hospital nessa noite. Só tinha ido no dia seguinte, quando ela já estava morta, quando o seu corpo estava no necrotério, quando não tinha mais nada para fazer para além de preencher papéis e escolher caixão.

A mãe dela estava lá, uma mulher pequena, frágil, que tinha envelhecido 10 anos nesse dia. Ela me olhou quando entrei naquele necrotério e havia tanto ódio naquele olhar que Consegui sentir como se fosse uma coisa física. Ela não disse nada, mas não precisava. O seu rosto dizia tudo. Você matou a minha filha. E ela tinha razão. Não foi literalmente, mas foi emocionalmente. Foi deixando-a sozinha.

durante tanto tempo que o coração dela desistiu. Pensei em ligar à mãe dela nessa noite no hospital. Pensei em pedir desculpa. Mas como pede desculpas por 5 anos, por 10 anos, por uma vida inteira de escolher a si mesmo em vez de alguém que promete amar? Não dá. Não há palavras que cheguem naquele ponto.

Fiquei em Belo Horizonte durante uma semana. O camião estava destruído. Teria de ser reformado inteiro. Ia demorar. Eu estava destruído também. Mas a reformação não é algo que se consegue num oficina. Passei esse tempo num hotel barato, perto da estação de autocarros, fumando à janela, observando pessoas a passar na rua abaixo, vivendo vidas que pareciam tão cheias de sentido.

Uma vez olhei para o meu telemóvel, tinha recebido uma mensagem de um número desconhecido. O seu camionista fez uma coisa muito burra. O Daniel não esquece. O Daniel não perdoa. A sua vida nunca mais vai ser a mesma. Não assinava, mas sabia que era mensagem de alguém de Daniel Ribeiro. Confirmava o que Walter tinha dito. Eu tinha um alvo nas costas.

Agora, ao oitavo dia em Belo Horizonte, recebi uma chamada. Era o Walter. Você tá bem? Perguntou sem preâmbulo. Mais ou menos, respondi. A Sofia quer falar com você, disse ele. O meu coração acelerou. Ela conseguiu enviar uma mensagem através do telemóvel da assistente social da Casa de Abrigo.

Ela quer que saiba que está tudo bem, que a operação está a andar, que em algumas semanas vão prender Daniel Ribeiro. E ela? Perguntei como ela está? Está bem, está a lidar com isso tudo, mas ela queria que soubesses algo. O quê? que o que fez naquela estrada mudou a sua vida, que ele não não seria nada sem isso e que ela está a rezar para que consiga ficar seguro também. Fiz silêncio.

Está tudo bem? Perguntou o Walter. Ok, respondi só processando. Vai ficar bem? perguntou como se realmente se importasse. “Eu vou ficar vivo”, respondi usando a mesma frase que ele tinha usado há semanas, que é o mais que qualquer um pode esperar. Desliguei. E pela primeira vez, desde que Sofia tinha saído daquele carro em catalão, eu chorei.

Chorei como um homem que finalmente tinha compreendido que tinha perdido tudo, mas que talvez, talvez mesmo tivesse ganho algo também. Três meses depois de quase morrer naquela estrada, estava sentado numa sala de atendimento que cheirava a desinfetante esperança, ou pelo menos era o que tentava parecer. A verdade é que a sala cheirava a nada de particular.

Paredes bege, uma poltrona cinzenta, uma mesa pequena com copo de água e um relógio que marcava as horas como se estivesse condenando o meu tempo ali. O seu nome era O Dr. Márcio, tinha cerca de 60 anos, cabelo grisalho puxado para o branco, óculos redondos que dava para ver a inteligência nos olhos. Ele estava em Belo Horizonte, numa clínica perto do centro.

E eu estava ali porque uma assistente social do hospital tinha praticamente me forçou. Tinha deixado um bilhete na minha mão. Você precisa de ajuda profissional. Aqui está o número. Demorei 3ês meses a ligar. Mas aquela noite no hospital, quando acordei do coma, Sim, tinha caído em coma durante duas horas.

Algo tinha mudado, ou tinha quebrado, ou tinha despertado. Não sei qual é a palavra certa. O que eu sabia era que não conseguia continuar daquele jeito. “Então é camionista”, disse o Dr. Márcio, olhando para mim por cima dos óculos. “Sim”, respondi. “Há quanto tempo?” “Uss 25 anos. E por há quanto tempo anda sozinho?” “Cos?” O Dr.

Márcio fez uma anotação no bloco. Não estava a usar computador, estava a utilizar papel e caneta, o que achei estranho, mas também reconfortante. Havia algo de mais humano na escrever à mão. 5 anos é bastante tempo para processar a solidão disse ainda escrevendo. Não estou a processar nada, eu respondi. Estou apenas rodando.

Rodando de quê? Aquela pergunta tornou-se pesada no ar. de mim próprio. Finalmente respondi. O Dr. O Márcio levantou os olhos. “Quer contar para mim?”, perguntou. E contei. Contei sobre a Laura, sobre como nos conheceu, sobre aquele sorriso na snack-bar, sobre os 10 anos que desperdicei a correr o Brasil afora enquanto envelhecia sozinha em casa.

Contei sobre o domingo que o coração dela parou e eu estava em Minas Gerais. Contei sobre não ter ido nem ao hospital nesse dia, só ter ido no dia seguinte, quando já estava morta. Contei sobre os cinco anos que se seguiram, o automático, a solidão, a fuga. Contei sobre a Sofia, sobre aquela noiva a correr na estrada de terra batida, sobre como aquele encontro tinha mudado tudo e contei-lhe sobre aquela noite que quase morri, conduzindo sem dormir por três dias seguidos até desmaiar atrás do volante. O Dr. Márcio ouviu tudo em

silêncio. O seu rosto não mudava, apenas anotava de vez em quando, fazendo uma pergunta para melhor compreender alguma coisa. Quando finalmente terminei, o meu peito estava pesado, o meu rosto estava molhado de lágrimas que não tinha percebeu que estava a chorar. “Você acha que matou a sua mulher?”, perguntou o doutor. Márcio, direto.

A pergunta foi como um murro no estômago. Eu não literalmente, respondeu, mas emocionalmente. Sim, sussurrei. Sim, matei. Como sabe disso? Porque ela estava triste, porque via a tristeza nos olhos dela cada vez que eu voltava. Porque escolhi a estrada em vez de escolhê-la. O Dr. Márcio respirou fundo. “Luto não é sobre culpa”, disse folando o bloco.

“Luto é sobre aceitação. É tu compreenderes que a pessoa se foi, que não consegue trazer de volta e que, apesar disso, consegue continuar vivendo de uma forma diferente, talvez, mas vivendo.” “Eu não merecia continuar vivendo.” Falei. Talvez não respondesse Dr. Márcio, olhando diretamente para mim. Talvez não o merecesse mesmo.

Mas merecia ajudar e ajudou. Você parou para uma mulher que estava correndo pela vida. Você arriscou a sua vida para salvar dela. Então, talvez, pelo menos naquele momento, tenha feito o que merecia fazer. Aquilo era o mais próximo de uma absolvição que eu ia conseguir. Saí daquela primeiro consulta destruído, mas também saí com um horário marcado para a próxima semana e para a semana que vinha e para a semana que vinha depois daquela também. O Dr.

Márcio pediu que eu parasse de conduzir por um tempo, que eu ficasse em Belo Horizonte a processar, que tivesse consultas duas vezes por semana. “Estás em risco?”, disse ele: “Quase morreste e quase morreste propositadamente, mesmo que não admitir.” Ele tinha razão. Eu tinha quase morrido e uma parte de mim, uma parte pequena, mas muito audível, estava aliviada com aquilo.

Fiquei num hotel barato, perto da estação rodoviária, naquele mesmo hotel onde tinha ficado os primeiros dias depois de Sofia ter sido embora. Voltei àquele mesmo quarto, as mesmas paredes, o mesmo cheiro a mofo e desinfetante. E pela primeira vez em 5 anos, comecei a estar parado. Não tava a conduzir, não tava a fugir, tava apenas existindo.

Acordava de manhã, tomava um mau café no café do hotel, estava sentado na varanda a olhar para a rua. Às vezes lia jornal, outras vezes só observava pessoas a passar, a viver vidas que pareciam tão mais simples do que a minha. Ia à consulta com o Dr. Márcio duas vezes por semana. E nestas consultas a pessoas falavam sobre a Laura, sobre como ela merecia mais, sobre como merecia mais, sobre como tínhamos tido a sorte de nos conhecer, mas a infelicidade de não apreciar aquela sorte enquanto lá esteve.

“Você pensa em matar-se?”, perguntava o Dr. Márcio frequentemente. “Não, mas penso em desaparecer”, respondia eu. Desaparecer como continuar vivo, mas fingir que não existo. Continuar a respirar, mas não vivendo. E aquilo era o que estava fazendo antes da Sofia? Sim. E agora? Eu tinha que pensar naquela pergunta, porque a verdade é que já não sabia.

Na terceira semana em Belo Horizonte, eu Fui visitar o túmulo da Laura. Estava num cemitério de Anápolis, a cerca de 150 km de distância. Apanhei um táxi de Belo Horizonte até lá. O motorista não perguntou nada, apenas conduziu. O caminho era aquele que eu conhecia demasiado bem, que BR381 que tinha rodado centenas de vezes, mas desta vez não estava a fugir naquela auto-estrada, estava a voltar para ela.

O cemitério estava num local tranquilo, no meio de muito verde. Tinha árvores grandes, sepulturas alinhadas, flores plantadas em alguns locais. Havia um silêncio ali que era diferente do silêncio da estrada. Era um silêncio que falava de repouso. Perguntei ao guarda onde era a sepultura dela. Ele levou-me. O túmulo era simples, uma lápide de mármore branco com o seu nome gravado.

Laura Silva, 1975 a 2019. E uma foto dela. Era uma foto de quando tínhamos 20 anos. Ela estava sorrindo aquele sorriso que eu sempre amei e nunca soube como deveria ter tratado. Fiquei ali de pé, olhando para aquela lápide e não conseguia processar que aquele era o fim de uma vida, que tudo o que Laura tinha sido, aquele riso, aquele sorriso, aquela forma de ver o mundo, estava resumido numa foto e algumas letras gravadas em pedra.

Isso era tudo o que restava. Dirigi-me para o centro de Anapolis e comprei flores, gerberas vermelhas, que eram as suas preferidas. Voltei ao cemitério, coloquei as flores no túmulo e comecei a falar. “Desculpa”, disse eu, a voz fraca, quase um sussurro. “Desculpa por não ter estado aqui.

Desculpa por te ter deixado sozinha. Desculpa por ter desperdiçado o tempo que tínhamos.” Fiz uma pausa. Parecia estúpido estar a falar com uma pedra, mas também parecia certo. Você tinha razão. Continuei. Sabia que eu era um tipo sem propósito, que eu andava a correr o Brasil aa para fugir de mim próprio, que nunca estava presente, que eu nunca, a voz quebrou, que eu nunca te dei o que merecias.

Fiquei ali durante muito tempo. Sentei-me na relva do cemitério, perto daquela lápide, e apenas me lembrei. Lembrei-me de como ela tinha ido naquele dia em que fomos para Goiás e o carro avariou no meio do caminho. Como ela estava assustada, mas ainda assim tinha brincado comigo, dizendo que pelo menos tínhamos um dia inteiro para conversar sem ninguém interrompendo.

Lembrei-me de como ela fazia café, como ela cantarolava enquanto cozinhava, como ela arranjava as flores no vaso com uma atenção que parecia ser para algo muito mais importante que flores. Lembrei-me de como ela olhava para mim quando regressava de uma viagem, aquele olhar que dizia: “Estás aqui finalmente”. Mas também dizia: “Por quanto tempo desta vez?” E lembrei-me de como aquele olhar tinha morrido ao longo dos anos.

Eu estou a tentar ficar bem”, – disse a Lápide. “Eu estou a tentar ser melhor. Eu estou aqui, Laura. Eu tô finalmente aqui!” Aquela frase ecoou no cemitério vazio. Voltei para Belo Horizonte nessa noite. Não fui direto pró hotel. Parei em Anápolis, na rua onde vivia a mãe de Laura. Tinha medo. Medo do ódio que ela teria nos olhos. Medo do que ela diria, medo de enfrentar aquela culpa toda outra vez, mas eu precisava de enfrentar. Toquei à campainha.

Uma mulher pequena, frágil, com cabelo grisalho e rugas que contavam histórias de sofrimento, abriu a porta. Era a mãe da Laura. Ela tinha envelhecido muito nos 5 anos desde o enterro. A morte de uma filha envelhece uma mãe de uma forma que nada mais consegue fazer. Quando me viu, o seu rosto endureceu.

“Olá, dona Maria”, disse eu, a voz pequena. Ela não respondeu, apenas abriu mais a porta num gesto que poderia significar entra ou vaza. Não estava claro. Entrei. A casa estava como eu me lembrava. Os móveis no mesmo local, as fotos de Laura na parede, o sofá onde ela gostava de sentar para ler. “Comprei um bolo”, eu disse tonto, mostrando a caixa que tinha trazido.

O chocolate, aquele que você gostava. A Dona Maria olhou para mim com uma expressão que era impossível de descrever. Não era raiva, era pior. Era decepção. “Sabe o que é uma desilusão?”, perguntou ela, sentando-se no sofá. Sim”, respondi, sentando-me numa cadeira. “Não, não sabe”, disse ela firme. “Uma desilusão é você acordar esperando que o seu genro tenha finalmente vindo e é uma caixa de bolo no lugar dele.

” As lágrimas começaram a cair do meu rosto sem que eu o pedisse. “Você sabe quando foi a última vez que a Laura falou o meu nome?”, perguntou a dona Maria e a voz dela estava a tremer. “Sabe quando foi?” Não sussurrei. Três dias antes dela morrer”, respondeu a dona Maria. Ela estava deitada na cama sozinha. Você estava em Minas Gerais, claro.

E ela me ligou. Ligou para chorar. Disse que tinha desistido, que tinha passado 10 anos à sua espera e que nunca tinha chegado, que ela tinha desistido de esperar. Eu não conseguia respirar. Três dias depois, o coração dela parou”, continuou a dona Maria. “E sabe o que penso? Eu penso que aquele coração parou porque já tinha morrido muito antes.

Porque mataste aquele coração, -lo com as suas escolhas, com as suas prioridades erradas, com o seu egoísmo.” “Eu sei”, falei a voz quase inaudível. “Não sabe”, respondeu ela. E havia uma tristeza tão profunda naquela voz. que aquilo era pior do que qualquer raiva. Se soubesse, estaria aqui há 5 anos. Estarias a vir ver a gente, estaria a ser presença, mas você desapareceu, tornou-se fantasma.

Fiquei em silêncio porque ela tinha razão, porque não tinha defesa, porque tudo o que ela dizia era a verdade absoluta. “Mas sabe o que é que eu ouvi hoje?”, perguntou a dona Maria. E havia uma mudança no tom de voz dela. O quê? Perguntei. Ouvi que V. salvou uma mulher, que o senhor parou um camião e arriscou a vida para salvar uma menina que estava a fugir, que você fez a coisa certa finalmente quando estava em risco. Ela respirou fundo.

E sabem o que isso me fez pensar? Continuou. que talvez Laura tivesse conseguido ensinar-te algo, mesmo que tardiamente, que talvez ela tivesse conseguiu mostrar-te que as pessoas importam, que a vida importa, que salvar alguém importa. Ela olhou para mim e tinha lágrimas nos olhos. “Então não vou pedir desculpa por estar zangada consigo”, disse ela, “mas vou reconhecer que está a tentar ser melhor e a Laura, a Laura teria gostado disso.

Aquilo foi o mais próximo de perdão que ia conseguir. A gente conversou durante duas horas sobre Laura, sobre como ela era quando era pequena, sobre os seus livros favoritos, sobre como ela gostava de cantar, sobre como tinha medo de alturas, mas mesmo assim tinha subiu àquele prédio comigo só porque tinha pedido, sobre tudo o que tinha desperdiçado.

Quando saí daquela casa, o sol estava a pôr-se. Aquele pôr de sol era o tipo de coisa que a Laura parava para observar. Aquele era o tipo de coisa que ela teria tirado uma fotografia com o seu mau telemóvel e teria enviado para mim com a mensagem: “Olha que bonito”. E eu teria respondido: “Bonito demais. Estou cansado. Vou tentar dormir.

” Aquela memória partiu-me de novo. Voltei para Belo Horizonte e entrei de corpo e alma na terapia. Fazia duas consultas por semana com o Dr. Márcio. Tava processando tudo, o luto, a culpa, a solidão, o remorço. O luto tem fases disse o Dr. Márcio numa das consultas. Negação, raiva, negociação, depressão, aceitação.

Passou por todas elas em 5 anos, mas não de forma linear. Você estava preso na negação e na depressão, rodando entre as duas. E agora? Perguntei agora. Está na raiva? Ele respondeu. Estás bravo, bravo consigo mesmo. E essa raiva é saudável. Porque a raiva significa que finalmente compreendeu que a vida está a passar, que a vida da Laura passou e que não quer que a sua passe também.

Como paro? Perguntei. Não pára, respondeu o Dr. Márcio. Você apenas continua. Você continua a vir aqui, continuas processando, continua a ser presente nas suas próprias decisões, você continua a viver e cada dia que passa a a raiva torna-se um pouco menor e a aceitação fica um pouco maior. Vai doer sempre? Perguntei. Sim, respondeu o Dr.

Márcio, sem hesitar. Mas a dor não é o oposto da vida. A dor faz parte da vida. A gente não consegue amar sem risco de perder. A as pessoas não conseguem estar presentes sem arriscar sofrer quando essa pessoa não está mais lá. Aquilo ficou comigo. Um mês depois, tinha uma rotina diferente.

Acordava de manhã, tomava um café decente num café fresco perto do hotel, sentava-se num parque qualquer e apenas observava a vida a passar. ia paraa consulta com o Dr. Márcio, regressava ao hotel, lia livros que Laura teria lido. Deixei de fumar, não foi fácil. Tive dias que queria arrebentar tudo, mas cada vez que me apetecia, eu lembrava-se de Laura.

Lembrava-se de como ela todia do barulho dos cigarros, de como ela abria as janelas quando eu fumava, deixando aquele cheiro sair de casa. Deixei de beber. Tive uns momentos de abstinência louca. Tive noites que acordava em suor frio, com a sensação de estar a morrer, mas aguantei e comecei a ajudar. Uma assistente social de um abrigo em Belo Horizonte soube da minha história através do Dr.

Márcio, que tinha falado comigo sobre isso, e me procurou. pediu se eu queria ser voluntário, se queria falar com mulheres que estavam a sair de situações de risco. “Elas precisam de ouvir de alguém que entende”, disse a assistente social, uma mulher chamada Fernanda, que sabe como é estar preso num padrão e que conseguiu salvar-se.

Eu não me salvei”, respondi. “Salvou sim”, insistiu ela. “Parou, procurou ajuda, você está aqui a tentar ser melhor. Isso é salvar-se a si próprio.” Comecei a ir no abrigo uma vez por semana. conversava com as mulheres, ouvia as histórias delas, histórias de abuso, histórias de fuga, histórias de pessoas que tinham chegado ao fim da corda e contava a a minha história, contava sobre como a as pessoas conseguem, quando menos esperam, encontrar a hipótese de mudar, como a gente consegue, apesar de tudo, começar de novo. E vendo aquelas mulheres

escutando, vendo os olhos delas começarem a brilhar com alguma coisa que parecia esperança, sentia algo que não tinha sentido há muito tempo. Sentia propósito. Três meses depois de ter começado as consultas, o Dr. Márcio disse: “Estás pronto para voltar à estrada?” “Como sabe?”, perguntei. “Porque é que não está mais a fugir?”, respondeu ele.

Você está apenas a viver e a estrada é seu lugar de trabalho, e não o seu lugar de fuga. E se voltar aos velhos hábitos? – perguntei com medo. “Você não vai voltar”, disse o Dr. Márcio. “Com certeza porque agora está consciente. Agora sabe do que está fugindo. Agora você sabe porque está a conduzir e isso muda tudo. Peguei no meu camião, tava pronto.

A oficina tinha feito um bom trabalho, estava como novo. Mas antes de sair de Belo Horizonte, fiz uma última coisa. Voltei ao cemitério de Anápolis. Deixei flores no túmulo de Laura. Gerberas vermelhas de novo. Eu vou voltar à estrada, eu falei para lápide, mas não tô fugindo. Estou apenas vivendo. Tô tentando ser a pessoa que merecia.

Estou a tentar parar paraa gente que precisa de ajuda. Estou tentando fazer a diferença. Respirei fundo. Obrigado por ter existido. Obrigado por terme amado. Obrigado por ter tido paciência comigo enquanto aprendi a valorizar aquilo. E voltei para o camião. Quando liguei o motor, aquele ronco familiar envolveu-me e pela primeira vez não estava a correr de nada.

Estava apenas a seguir em frente. Fiz-me à estrada numa terça-feira de manhã. Aquele era o mesmo dia da semana em que tinha conhecido Laura. Todas as terças-feiras aquela snack-bar, aquele café preto, aquele sorriso que mudou tudo, ia para Goiás, tomaria a BR251 até à BR153 e depois seguiria para Sul, como sempre tinha feito.

Era a mesma rota que tinha feito centenas de vezes, mas desta vez tudo era diferente. Não estava a fugir, estava apenas a viver. A cabine do camião estava estranha, estava silenciosa. Durante 5 anos eu tinha fumado compulsivamente dentro daquela cabine, tinha-a enchido de fumo, de cinzas, de restos de uma vida que estava a arder lentamente, agora estava limpo, cheirava a novo.

E eu odiava, detestava aquele silêncio que já não era um amigo. Na primeira hora de condução, tive vontade de parar num posto, comprar um maço de cigarros e voltar à velha rotina. Tive vontade de ligar o rádio demasiado alto para não ouvir os meus próprios pensamentos. Tive vontade de conduzir demasiado depressa, perigosamente, daquele maneira como me tinha colocado naquela cama de hospital, mas não fiz nada disso.

Apenas respirei fundo e continuei dirigindo. Passei por Arachá, parei numa qualquer snack-bar e fiz uma coisa que nunca tinha feito. Conversei com a garçonete. “Olá, como estás?”, perguntei genuinamente interessado. Ela estava surpresa. Aquele tipo de surpresa que se vê quando um camionista de meia idade, com os olhos cansados, para para realmente conversar.

Bem, estou bem, respondeu cautelosa. É difícil trabalhar aqui? Perguntei. Às vezes ela respondeu mais relaxada. Mas gosto, as as pessoas são simpáticas. Você sonha com alguma coisa? perguntei. Ela olhou para mim como se estivesse tonto, mas respondeu: “Sonho em voltar para estudar, em fazer faculdade, em sair daqui”, ela disse: “Consegues”, falei, “És nova.

Ainda estás no tempo?” Ela sorriu e aquele sorriso fez-me lembrar a Laura de novo. Continuei a conduzir, passei por Frutal. Depois apanhei a BR381 pro sul. Minas Gerais abria-se diante de mim com aquelas montanhas verdes, aqueles horizontes que pareciam infinitos. E desta vez eu estava apercebendo-se de coisas que tinha passado direto centenas de vezes.

Os pequeninhos aldeias, os monumentos nas margens de estrada, as pessoas nas plataformas de descanso, uma mulher a vender água de coco, um casal de idosos sentado numa cadeira de baloiço, um menino a correr atrás de uma pipa, aqueles pequenos pormenores da vida que não são cinematográficos, que não fazem heróis de ninguém.

que são apenas pessoas a viver as suas vidas simples. A Laura tinha dito uma vez que queria uma vida simples, que não queria ser rica, não queria ser famosa, queria apenas acordar ao lado de alguém que a adorava, tomar café juntos, conversar sobre coisas pequenas, ir dormir segura de que seria acordar com esta pessoa de novo.

Eu tinha ido nessa altura, tinha dito que aquilo era chato, que queria mais. Mas o quê? Ela tinha perguntado. Não sei. Eu tinha respondido, mas algo mais do que pequeno-almoço e conversa morna. Ela tinha ficado em silêncio durante muito tempo, depois tinha-se levantado e saído do quarto. Não estava zangada, estava triste. Aquela tristeza tinha ficado.

Ficou durante os 10 anos que estivemos junto, enquanto eu corria Brasil fora, enquanto envelhecia sozinha em casa. ficou até ao dia em que o coração dela desistiu. Talvez aquele coração tivesse desistido porque já tinha desistido de mim muito antes. Agora, naquela estrada, ver aquele casal de idosos na cadeira de balanço, aquela vida simples que A Laura sempre tinha querido, eu finalmente entendia.

Compreendia que aquela vida não era aborrecida, era sagrada. Conduzi sem pressa. Parava em pequenas cidades, conversava com pessoas, ouvia histórias. Uma vez Entrei numa lanchonete que estava quase a fechar e ajudei a dona a varrer o chão. Ela ofereceu-me café de graça. Por quê? Perguntei.

Porque parou para conversar? Ela respondeu. Porque você está vendo-nos? A maioria das pessoas passa direto. Você parou. Aquela frase ecoou comigo. Você parou. Quando finalmente cheguei a Catalão, parei na esquadra. O Walter estava lá, mais velho, mais cansado, mas ainda aquele mesmo polícia que me tinha ouvido contar tudo sobre Sofia.

Você voltou, disse Walter vendo o meu rosto. Voltei, respondei. Como tá? perguntou ele genuinamente interessado. “Tou a viver, respondi. Tou realmente a viver.” Walter sorriu. “A Sofia manda lembranças.” Ele falou. Ela tá bem. Está numa ONG em São Paulo, ajudando as mulheres. Está a mudar vidas. Fico feliz, respondi e era sincero.

Ela está viva porque parou, disse o Walter. Ela está viva porque correu respondi. Eu apenas abri a porta. Mas você parou. insistiu Walter. E isso muda tudo. Seis meses depois de ter voltado à estrada, recebi uma ligação. Era um número desconhecido. Pensei que fosse ameaça outra vez. Aqueles avisos tinham continuado por um tempo depois de Daniel Ribeiro ter sido preso.

Mas Daniel estava na cadeia federal. Estava a responder a processo por tráfico em larga escala, corrupção, branqueamento de dinheiro. Sofia tinha testemunhado contra ele. Atendi. “Olá”, disse uma voz feminina do outro lado. Uma voz que eu reconheci-o imediatamente. “É o camionista?” “Sofia?”, perguntei, o coração a acelerar.

“Olá, ela respondeu. Eu obtive o seu número com Walter. Espero que não se importe. Não me importo. Como estás? Bem, muito bem, na verdade, estava a querer saber como está, se está bem, se está seguro. Estou bem, respondi. Tou na estrada ainda. Mas agora é diferente. Diferente como? Perguntou a Sofia.

Diferente porque agora Paro para falar com as pessoas. Porque agora vejo a estrada como uma maneira de estar vivo, não de fugir. Porque agora entendo que as pessoas importam. Do outro lado, a Sofia ficou em silêncio por um momento. Você vai bem, a sério? Ela perguntou. Tô. E você? Também estou a ir bem. Estou num abrigo aqui em São Paulo.

Tô estudando psicologia. Quero trabalhar com vítimas de tráfico. Quero ajudar outras mulheres a saírem das situações que eu saí. Fico feliz, respondi genuinamente. Eu queria agradecer, disse ela. Queria dizer que aquele dia em que parou, aquele dia muda tudo. Tudo. Você sabe quê? Eu sei, respondi. Pois é. Então, obrigada. Obrigada por ter parado.

Obrigada por me ter ajudado. Obrigada por me ter dado uma oportunidade de viver. Fiz silêncio. A emoção estava a sufocar-me. Está bem? Perguntou a Sofia. Tou bem, respondi a voz embargada. Tou bem. Continua na estrada”, disse ela, “E continua a parar para ajudar as pessoas, porque é bom nisso.

Você é bom em salvar pessoas.” “Eu não sou bom a salvar gente”, disse eu. “Apenas parei uma vez”. “Pois é”, respondeu Sofia, “E isso foi suficiente.” Depois dessa chamada, combinamos encontrar-nos. A Sofia tinha férias da faculdade e podia vir para São Paulo, ou melhor, podia encontrar-me em São Paulo.

Eu estava com uma carga para descarregar lá de qualquer forma. Quando nos encontrámos, foi numa cafetaria numa avenida movimentada, perto da Marginal Pinheiros. A Sofia estava à espera do lado de fora quando cheguei e quando ela me viu, um sorriso tomou conta do rosto dela. Estava diferente de como a recordava. Estava mais segura. Estava a sorrir daquele jeito que dizia que tinha aprendido a viver de novo.

O vestido de noiva rasgado tinha sido trocado por roupas normais, por uma vida normal. Os pés dela já não estavam a sangrar, os olhos dela não estavam mais desesperados. Ela tinha conseguido reconstruir. “Olá”, ela disse quando chegámos perto um do outro. Olá, respondi. A gente abraçou-se e naquele abraço havia toda a história, toda aquela noite de terror na estrada, todo aquele tempo de separação, toda a aquela transformação que tínhamos passado.

“Estás mesmo bem?”, perguntou Sofia quando nos separámos. “Tou bem”, respondi. “E você?” “Também estou bem.” “Tou, estou feliz. Fico feliz por ouvir isso. A gente entrou na cafetaria e pediu café. Sentamo-nos numa mesa de canto e a Sofia começou a contar a sua história. Contou como foi estar no abrigo em Anápolis, como foi testemunhar contra o próprio pai, como foi difícil, mas também como foi libertador.

Como ela descobriu que tinha uma voz que valia a pena usar? “O meu pai tá na cadeia”, ela falou. E não havia ódio na voz, apenas aceitação. O meu irmão também foram condenados por 10 anos. A minha mãe tá aqui em São Paulo comigo, está a reconstruir a vida dela também. E você? Perguntei. Eu tô a estudar, estou a formar-me em psicologia, estou trabalhando num abrigo como voluntária, mas em breve vou trabalhar como profissional.

Estou a ajudar mulheres que estão na mesma situação em que eu estava. Há algo tão poderoso em ouvir alguém contar que está a transformar a sua dor em propósito. “Já casou?”, ela perguntou de repente. “Não”, respondi. “Ainda estou a processar o meu casamento anterior.” “Mas está bem?”, perguntou Sofia. “Tipo, estás a ter relacionamentos, amizades, coisas giras a acontecer na sua vida?” Tou, respondi.

Tenho uma terapeuta denominada Dr. Márcio. Tenho voluntariado num abrigo. Tenho a estrada e agora Tenho-te como amiga. Acho. Sofia sorriu. Tu és meu amigo ela disse pegando na minha mão. Vais ser meu amigo para sempre porque parou. Já parou de falar sobre isso? Perguntei rindo um pouco. Nunca, respondeu a Sofia. Porque aquilo salvou-me a vida e porque quero que saiba que valeu a pena a pena, que aquele momento, aquele instante que decidiu não ser o tipo que passa direto, aquilo muda tudo.

Muda. Concordei. A gente conversou por horas sobre os seus sonhos, sobre os meus arrependimentos, sobre como estávamos a reconstruir, sobre como a estrada já não estava sendo um lugar de fuga, mas um lugar de encontro. Quando nos despedimos, a Sofia deu-me um abraço longo. “Você vai ficar bem?”, perguntou ela.

“Vou ficar bem”, respondi. “Você promete que vai continuar a parar?”, perguntou ela. “Prometo. Para outras Sofias?” “Para outras Sofias.” Concordei. Dois anos depois do encontro com Sofia em São Paulo, estava num pequeno quarto de hotel em Porto Alegre, a olhar para a chuva que caía lá fora. Estava a chover muito e a estrada era perigosa, por isso tinha parado ali para passar a noite.

Eu tinha um caderno na mão, um caderno de capa vermelha onde eu tinha começado a escrever. Não eram poesia, não eram romances, eram histórias. Histórias de pessoas que conheci na estrada, histórias de camionistas que tinham perdido tudo, histórias de mulheres que fugiram de relações abusivas, histórias de pessoas que tentam recomeçar, histórias que importavam.

Eu tinha deixou de beber completamente, tinha deixou de fumar, tinha começado a ser voluntário num abrigo em Goiás, ajudando mulheres que estavam em risco. Ia duas vezes por mês, conversava com elas, contava a minha história. Estava a ir à terapêutica com o Dr. Márcio uma vez por mês. Tinha reduzido das duas semanas porque O Dr. Márcio dizia que eu estava bem.

E mais importante, eu acreditava nele. E mais importante que tudo isto, estava vivo, de verdade vivo, não apenas respirando, mas vivendo. Estava a perceber as pequeninas coisas, um bom café numa snack-bar, um sorriso de um estranho, a forma como o sol nascia diferente em cada lugar que ia. Estava a apreciar as curvas da estrada, o cheiro da chuva, o som do motor do camião, que agora era mais um amigo do que um inimigo.

Naquela noite de chuva em Porto Alegre, finalmente escrevi sobre a Laura. Escrevi sobre como era ter tido a sorte de conhecer alguém tão bela, tão pura e como era o arrependimento de não ter apreciado aquilo quando estava ali. Escrevi sobre como o luto no final não é sobre os mortos. É sobre os vivos.

É sobre como você consegue, depois de tudo, continuar vivendo, continuar a abrir os olhos cada manhã, continuar a pôr um pé na frente do outro, continuar a ser alguém que importa. Escrevi sobre a Sofia, sobre como uma mulher que corre numa estrada de terra podia mudar uma vida inteira. Escrevi sobre como um não, quando alguém faz, é apenas adiar.

E comum, sim, quando alguém o faz é começar. E escrevi sobre a estrada, sobre como a estrada é a mesma, mas diferente, sobre como se consegue, se quiser, transformar a coisa que te estava a destruir em coisa que te constrói. Quando acordei, no dia seguinte, a chuva tinha parado. Fui para janela do hotel.

O Rio Grande do Sul estava bonito depois da chuva, tudo mais verde, mais fresco, mais vivo. Dirigi para Curitiba, depois para Belo Horizonte de novo. Passei em Anápolis e deixei flores no túmulo da Laura, gerberas vermelhas, como sempre. Depois Regressei a Goiás. Parei numa estrada de terra que não era muito diferente daquela onde tinha encontrado Sofia.

Saí do camião e fiquei ali de pé, apenas sentindo o calor do sol no meu rosto, o cheiro a terra vermelha, aquele silêncio que outrora me tinha condenado, mas agora era diferente. Agora aquele silêncio era companheiro. Agora aquele silêncio era paz. 5 anos depois, 5 anos depois que encontrei a Sofia naquela estrada de terra batida, estava parado numa esquadra em Goiás.

Não como arguido, como voluntário. Estava a ajudar uma mulher que tinha fugido de uma situação de risco. Ela tremia assustada, tal como Sofia tinha estado naquele dia na estrada. Os olhos dela estavam desesperados, procurando alguém que acreditasse nela. O Walter chamou-me para conversar com ela. “Este é o camionista que salvou a Sofia”, disse, apontando para mim. A mulher olhou-me cautelosa.

Você está segura agora? Eu disse sentando-me na cadeira ao lado dela. Já não tá sozinha, mas vão encontrar-me, ela sussurrou. Talvez concordei, mas não sozinha. Tens a gente, contei a a minha história sobre a Laura, sobref, sobre como é que conseguimos, quando menos espera, encontrar a hipótese de mudar.

E quando ela olhou para mim, havia naquele olhar algo que reconhecia. Era o mesmo olhar que Sofia tinha tido. Era o olhar de alguém que estava no fundo do poço e precisava de acreditar que tinha uma saída. Eu coloquei a mão dela na minha. Vai ficar bem, disse eu, o senhor vai ficar bem, porque agora tem alguém que parou por si e eu parei. E naquele momento compreendi completamente aquele dia na estrada de terra batida, aquele momento que mudou tudo.

Não era só sobre salvar Sofia, era sobre a salvação, sobre como é que conseguimos, quando menos espera, encontrar a hipótese de ser quem sempre deveria ter sido. A estrada continua infinita. Os quilómetros continuam a repetir-se, o motor do camião continua a roncar, mas agora quando conduzo, não estou a correr de nada, estou apenas a seguir em frente.

E isso é mais do que suficiente, porque entendi que a vida não é sobre os grandes momentos, é sobre os momentos pequenos, é sobre parar, é sobre estar presente, é sobre reconhecer quando alguém precisa de ajuda e ter a coragem de dizer sobe, A Laura teria gostado. A Sofia sabe disso. E agora, cada mulher que ajudo na esquadra, cada história que ouço, cada vida que muda porque eu decidi parar, aquilo é a Laura a viver através de mim.

A culpa tornou-se propósito, a fuga tornou-se presença. E aquele camionista que estava a morrer lentamente numa estrada de terra, está agora realmente a viver. Finalmente vivendo. Fim. M.