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EDMUNDO ANIMAL: A NOJENTA VERDADE QUE FICOU ESCONDIDA POR 30 ANOS

29 golos num só campeonato, quatro vezes convocado paraa seleção, ídolo do Palmeiras. E esse mesmo homem, na madrugada do dia 2 de Dezembro de 1995, matou quatro pessoas, a sair de uma discoteca com quatro amigas, uma aluna sem cabeça, um pai de família e uma mulher grávida de 4 meses. Um bebé que já tinha nome chamava-se Bruno.

O Edmundo matou o Bruno antes do Bruno respirar, mas isso não foi o mais nojento. O pior, hoje vai saber como matou e o que aconteceu depois do acidente. O que fez o Edmundo durante os 26 anos seguintes para nunca passar um único dia na cadeia, mas antes da lagoa existe uma palavra, uma só. Uma palavra que o pai do Edmundo falou-lhe com 7 anos num quintal de terra de Niterói.

Uma palavra que o condenou para sempre. 2 de abril de 1971. O Edmundo Alves de Souza Oliveira nasce em Niterói, Rio de Janeiro. Família humilde, cinco irmãos, três homens, duas mulheres. O Edmundo era o terceiro filho varão, pai operário da empresa de transportes urbanos de Niterói, conhecida como Transportes Coletivos de Niterói.

O Edmundo Souza, pai, ganhava 180 por mês nessa altura. Mãe, dona Teresa Alves, era doméstica, pequeno apartamento no bairro de Icaraí. Mas não o Icaraí dos Ricos. O Icaraí das ruas laterais, a rua Dr. Mauriz, número 47, cinco divisões para sete pessoas. O Edmundo dormia com dois irmãos na mesma cama até aos 12 anos, onde os miúdos jogavam à bola em quintais de terra, onde não tinha muito dinheiro, onde a única forma de sair daquela vida era a bó, a bola.

O pai Edmundo Souza tinha 42 anos quando nasceu o terceiro filho varão. Tinha crescido também na pobreza. Filho de pescadores de Niterói. Tinha trabalhado desde os 9 anos, nunca tinha estudado para além da segunda classe. E desde o primeiro dia soube que este terceiro filho era diferente por uma única razão, por uma era o mais bravo, o que não deixava os irmãos mais velhos ganharem-lhe, o que entrava nas brigas com os miúdos do bairro sem pensar duas vezes, o que recebia pancada e nunca chorava, o que tinha dentro de si exatamente a mesma raiva que o pai tinha

guardada desde a própria infância. Uma raiva que o pai nunca tinha conseguido expressar e que via agora finalmente livre naquele miúdo chamado Edmundo. Com 7 anos, numa tarde de domingo, o pai levou o Edmundo para ver um jogo de futebol amador no campo de terra batida do clube niteroiense.

O Edmundo estava sentado na erva à beira do campo olhando e de repente outro miúdo dois anos mais velho chamado Paulo deu-lhe uma bofetada sem motivo. Uma bofetada na cara. Qualquer outro miúdo de 7 anos teria chorado, teria corrido à procura do pai, teria pedido ajuda. O Edmundo não. O Edmundo levantou-se, devolveu a bofetada ao miúdo Paulo e começou uma briga brutal entre dois molequinhos no meio da quadra.

O Paulo era 10 cm mais alto, pesava mais, tinha mais força, mas o Edmundo não parava, bateu-lhe na cara, na barriga, nas pernas, até o Paulo cair no chão. E o Edmundo em cima do Paulo agarrou o colarinho do miúdo e sacudiu ele. O pai, em vez de separar os dois, em vez de lutar com o filho, em vez de protegê-lo, fez outra coisa. ficou parado à beira do campo, olhando, sorrindo.

E quando o Edmundo finalmente derrotou o miúdo Paulo, o pai se aproximou-se, pegou-o ao colo e disse uma única palavra, uma palavra que o Edmundo nunca esqueceu. Animal. Animal. Essa foi a palavra. O meu pequeno animal”, falava o pai a partir desse dia. “Meu animal bravo, meu animal que nunca perde.” E o apelido ficou na família, no bairro, na imprensa, para sempre.

O Edmundo não percebeu com 7 [música] anos que aquela palavra não era um elogio, era uma sentença. Porque o pai, sem saber, estava a ensinar uma coisa brutal para ele. Para ser amado tinha que ser violento. Para ser valorizado tinha que bater. Para ser o preferido do pai tinha de ganhar na pancada. Para que o pai o pegasse ao colo, abraçasse [música] ele, beijasse-o, tinha que derrotar outro miúdo, sangrá-lo, humilhá-lo, mostrar o animal que carregava dentro.

Esta lição aprendida com 7 anos num quintal de terra batida de Niterói, foi exatamente a que levou Edmundo 24 anos depois, a conduzir embriagado aquele Cherokei profundo às 4 da madrugada, a não escutar as quatro mulheres do automóvel que lhe pediam para parar, a não respeitar a velocidade de 50 da Avenida Borges de Medeiros e a matar o bebé Bruno antes do Bruno respirar.

Mas ainda faltavam 24 anos para aquela madrugada. Vamos. Aos 11 anos, em 1982, o Edmundo entrou nas camadas jovens do Vasco da Gama, o clube mais amado da família Sousa Oliveira. A paixão do pai, a paixão do Edmundo desde que tinha memória. Nas camadas jovens, o Edmundo dominou desde o primeiro dia. Não pela técnica, não pela velocidade, pela raiva.

O técnico dos infantis do Vasco, o Mauro Galvão Filho, contou depois uma frase que define tudo. Nunca vi um miúdo de 11 anos com tanta raiva lá dentro, falou o Galvão numa entrevista para a Rádio Vasco da [música] Gama em 2015. Cada partida era uma guerra. Cada golo era uma vingança. Cada falta sofrida era um motivo para discutir. Era um miúdo, mas já era o animal.

O Edmundo passou por todas as categorias de base do Vasco. Infantil, juvenil, Júnior era o goleador em cada uma, mas também era o problema. Suspensões constantes por agressão, lutas com árbitros, expulsões, lutas com companheiros de equipa. Com 16 anos, em 1987, o Edmundo quase foi mandado embora do Vasco.

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Tinha batido num auxiliar da categoria júnior, um homem de 40 anos chamado José Carlos, em pleno treino. Tinha-lhe partido o nariz. A diretoria do Vasco reuniu-se. iam dispensá-lo, mas depois uma pessoa interveio. O Eurico Miranda, o cartola mais controverso da história do futebol brasileiro, vice-presidente do Vasco nessa altura e futuro presidente.

O Eurico Miranda foi ao treino, viu o Edmundo, [música] conversou com ele durante 40 minutos numa sala privada do estádio de São Januário e voltou para a reunião com uma única frase, uma frase registada depois nas suas memórias, publicadas em 2018, 2 anos antes de ele morrer. O Eurico Miranda disse: “Este miúdo vai me dar cinco campeonatos.

Se vocês dispensarem ele, dispenso-vos.” O Edmundo ficou. E o Eurico Miranda, sem saber, tinha acabado de proteger o homem, que 20 anos depois ia matar quatro pessoas na lagoa. Mas ainda faltava muito para aquela tragédia. O Edmundo ainda ia ser primeiro o avançado mais amado e odiado do Brasil. Vamos. 17 anos. 1988, o Edmundo estreou-se na equipa profissional do Vasco, reserva numa partida contra o América Futebol Clube do Rio de Janeiro, no estádio de São Januário.

Entrou aos 75 minutos. Aos 82 minutos, marcou o primeiro golo como profissional. Aos 87 minutos, foi expulso por andar à pancada com o defesa Wagner do América. Esse foi o Edmundo na primeira partida profissional de vida, 1992. O Edmundo, com 21 anos, foi campeão estadual com o Vasco. O carioca, o primeiro título profissional dele, marcou 10 golos na campanha e foi protagonista de três sérias quezílias em campo.

Uma delas, frente ao Flamengo, no clássico de 20 de março, terminou com quatro jogadores expulsos e uma rixa generalizada no meio do Maracanã. A imprensa começou a chamá-lo já nas manchetes de animais e o apelido se tornou público, nacional para sempre. Mas o Vasco não o conseguia controlar. 1993, depois de uma luta brutal com o técnico António Lopes em pleno balneário do estádio São Januário, em que o Edmundo agrediu o técnico à frente dos companheiros, o jogador foi negociado.

Pro Palmeiras, a equipa paulista, que estava a tentar sair de um jejum de campeonatos importantes, havia 17 anos. O Edmundo, juntamente com o Evair e o César Sampaio, chegou como salvador e defendeu. Nesse mesmo ano de 1993, o Palmeiras foi campeão do Brasileirão depois de 17 anos sem um título nacional. O Edmundo titular, o Edmundo goleador, o Edmundo Herói.

E no ano seguinte, 1994, o Palmeiras voltou a ser campeão. Bicampeão. O Edmundo, de novo, ídolo absoluto. 34 golos em 89 jogos, mas a a raiva continuava lá dentro. No meio daqueles campeonatos, o Edmundo lutou com Antônio Carlos, defesa do próprio Palmeiras, num treino. Agrediu-o, rachou-lhe a sobrancelha. A direcção do Palmeiras teve que escoltar o António Carlos até à casa dele, porque tinha medo do Edmundo procurá-lo.

Depois, no clássico contra o o São Paulo de 1994, num jogo conhecido historicamente como o clássico da Paz, o Edmundo provocou uma rixa generalizada no campo do Morumbi. 18 jogadores expulsos. Recorde histórico do futebol brasileiro. O Palmeiras tentou tolerá-lo, mas não conseguiu. No final de 1994, depois de outra briga, desta vez com o O treinador Vanderlei Luxemburgo no balneário, o Edmundo foi dispensado.

Passou para o Flamengo, equipa do Rio, no início de 1995. E ali em 1995 veio a madrugada da lagoa. Vamos. Pago o gancho um. Revelação. 2 de dezembro de 1995. Sábado, 3h45 da madrugada. O Edmundo, que naquele momento jogava pelo Flamengo, saía da discoteca Sweet Love, uma discoteca de classe alta do Rio de Janeiro, na Avenida Bartolomeu Mitri, número 529, no bairro do Leblon.

Frequentada por jogadores, modelos, artistas, pessoas famosa, o Edmundo estava dentro da discoteca desde as 11:30 da noite de sexta-feira, 4:15. Quatro mulheres jovens acompanhavam-no. Nenhuma era sua namorada, nenhuma era esposa, eram amigas, conhecidas da noite carioca. Os nomes das mesmas foram publicados depois nos autos do processo.

Roberta Rodrigues de Barros Campos, Débora Ferreira da Silva, Natasha Marinho Ketzer e uma quarta mulher modelo, cujo nome foi protegido nos altos. As cinco pessoas, o Edmundo e as quatro mulheres, saíram juntos da Sweet Love às 3:45. O Edmundo tinha chaves de um Jeep Cheroke branco, modelo Limited, importado, acabado de comprar, pago a pronto com o seu salário do Flamengo.

O Edmundo subiu para o lugar do condutor. As quatro mulheres entraram no carro, duas à frente do lado dele, duas atrás e partiram. O Edmundo a conduzir às 3:50 da madrugada para o sul do Rio de Janeiro, de para a Lagoa, Rodrigo de Freitas. Quantos copos o Edmundo tinha tomado dentro da Suí Love nessa noite? As testemunhas dizem coisas diferentes.

O empregado do bar VIP da Suí Love, o Roberto Carlos da Silva, declarou depois ao juiz em 1996 que tinha servido o Edmundo pessoalmente, pelo menos 10 doses de whisky importado e três caipirinhas. Outras testemunhas falam mais. Certo é que o relatório policial posterior, feito às 5 da manhã do dia 2 de dezembro no local do acidente registou um nível de álcool no sangue do Edmundo cinco vezes superior ao limite legal daquela época no Brasil.

Cinco vezes. Cinco vezes. Vamos. E às 4h02 da madrugada, enquanto Edmundo dirigia o Deep Cheroqui [música] Branco pela Avenida Borges de Medeiros, em plena lagoa Rodrigo de Freitas, circulando a mais de 120 km/h, numa avenida com uma velocidade máxima de 50, perdeu o controlo do veículo e embateu de frente contra um Fiat Uno branco que vinha em sentido contrário.

O impacto foi brutal. O Fiat Uno literalmente partiu em dois. A parte da frente ficou cravada no asfalto. A parte de trás voou 22 m para o outro lado. E dentro do Fiat Uno estavam três pessoas. Três pessoas que regressavam de um jantar do escritório do Banco Itaú, da agência do Leblon. Três pessoas que tinham uma vida normal, três pessoas inocentes, cujos nomes precisa de escutar, porque A imprensa brasileira quase nunca publicou-os completos.

Joana Maria Martins Couto, 23 anos, estudante de pedagogia na UFRJ, irmã mais velha de três irmãos, cinto de segurança colocado, morreu decaptada no impacto. A cabeça da A Joana voou 9 m e caiu no asfalto da avenida do lado de um semáforo. Carlos Frederico Brites Tinoco, 31 anos, gerente do Banco Itaú, condutor do Fiatuno, casado há 5 anos com a Maria Tinoco, pai de um miúdo de 3 anos chamado Lucas.

O Carlos não morreu no impacto. O Carlos morreu a sangrar na ambulância do SAMU, a caminho do Hospital Miguel Couto. O paramédico Jorge Almeida, que viajava com o Carlos na ambulância, declarou depois de o Carlos ter pronunciado uma única palavra antes de morrer. A palavra era Lucas, o nome do seu filho, de 3 anos.

Hoje o O Lucas tem 32 anos, vive em Niterói e nunca aceitou falar com a imprensa sobre o pai. e a Alessandra Cristine Pericier Perrota, 29 anos. Estudou letras na UF, trabalhava como tradutora freelance. Casada há 7 meses com o Marcelo Perrota, advogado do Banco Itaú. Estava grávida de 4 meses, grávida do primeiro filho.

Um bebé que o casal tinha tentado ter durante anos, um bebé que já tinha nome, ia chamar-se Bruno. Bruno Perrota. O quarto do Bruno já estava pintado de azul. na casa que a Alessandra e o Marcelo tinham na Tijuca. O berço já estava comprado. O carrinho para o Bruno já estava pronto. Os pais estavam a fazer tratamentos de fertilidade há 2 anos.

E, finalmente, em julho de 1995, a Alessandra tinha engravidado. Alessandra morreu no impacto, o bebé Bruno, que carregava dentro do ventre também. 4 meses dentro da Alessandra, batimento cardíaco ativo desde as semanas. Mas perante a lei brasileira, tecnicamente o Bruno não contava como vítima formal do acidente.

Só Alessandra. E por isso a imprensa brasileira fala de três mortos. Mas a verdade são quatro. Joana, Carlos, Alessandra e Bruno. Três feridas graves. As três mulheres do Cheroqui que estavam atrás. Roberta, Débora e Natasha. Três as mulheres que ficaram meses se recuperando em hospitais. Duas delas com sequelas físicas permanentes.

A Roberta perdeu a mobilidade parcial do braço direito. A Débora perdeu a audição do ouvido esquerdo. E o Edmundo? O Edmundo quê? O Edmundo saiu dop X Cherokei na madrugada daquele dia 2 de Dezembro de 1995, sem um único risco. A quarta mulher do xeroki, a que estava no banco da frente do lado dele, também lesões ligeiras, hematomas, cortes superficiais, mas nenhuma grave.

O Edmundo desceu do xeroi, caminhou até ao Fiatuno destroçado, viu os corpos, viu a cabeça decaptada da Joana no asfalto do lado do semáforo, viu o Carlos com o peito destruído pela coluna de direção. Viu o ventre da Alessandra, que já não respirava, e vomitou três vezes no asfalto. Os polícias militares do terceiro batalhão de polícia militar do Rio de Janeiro chegaram 10 minutos depois.

Cabo Roberto Souza e soldado Carlos Lima encontraram o Edmundo sentado na calçada a chorar com a cara entre as mãos. Quando o Cabo Sousa perguntou o que tinha acontecido, o Edmundo respondeu palavra por palavra, uma frase que está no registo oficial do auto de notícia número 30 e 7422/95, feito nessa madrugada na 14ª esquadra de polícia do Leblon.

O Edmundo respondeu três palavras. Três palavras que destroem tudo. Não fui eu. Não fui eu. Às 4:20 da madrugada, enquanto três famílias acabavam de perder os filhos, enquanto o Carlos Frederico Brit Tinoco, morria a sangrar na ambulância, pronunciando o o nome do Lucas, enquanto o bebé Bruno morria com a mãe dentro do ventre, enquanto o marido da Alessandra dormia em casa dele da Tijuca, sem saber que a esposa e o filho bebé acabavam de morrer, o Edmundo Alves de Souza Oliveira, jogador do Flamengo, falou à Polícia Militar do

Rio de Janeiro as três palavras mais nojentas daquela noite. Não fui eu, mas a prova estava ali. O relatório, o nível de [música] álcool, a velocidade, as quatro testemunhas do cherokei, os depoimentos dos funcionários da Sweet Love, que viram o Edmundo a beber durante 4:15. E, mesmo assim, o Edmundo Alves de Souza Oliveira nunca, nunca passou um único dia completo na cadeia.

Vamos perceber como vamos. Depois do acidente, qualquer ser humano normal teria parado, teria largado ofombasa o futebol, teria feito terapia, teria pedido perdão às famílias. O Edmundo não. O Edmundo, três semanas depois do acidente, voltou a treinar com o Flamengo. 22 de dezembro de 1995. 20 dias depois de matar quatro pessoas, o Edmundo estava em pleno treino, como se nada tivesse acontecido.

A imprensa brasileira tentou protestar. Alguns jornalistas pediram ao Flamengo dispensá-lo, para a CBF o suspender, para a justiça o prender imediatamente, mas nada aconteceu. O Edmundo continuou a jogar, continuou recebendo salário, continuou a ganhar milhões. 1996, o Edmundo deixa o Flamengo, volta para o Vasco.

O clube do coração, o Eurico Miranda, o dirigente que tinha protegido ele com 16 anos, abriu as portas a ele de novo. Bem-vindo de volta para casa, filho”, disse o Miranda numa reunião privada no estádio de São Januário, em janeiro de 1996. Aqui ninguém vai falar do acidente, aqui só importa o futebol. E foi assim, 1997, Vasco campeão brasileiro e o Edmundo 29 golos, o recorde absoluto do Campeonato Brasileiro em pontos corridos.

Um recorde que tinha permanecido intacto durante 20 anos desde o Reinaldo do Atlético Mineiro em 1977. O Edmundo, dois anos depois do acidente da Alagoa, era o melhor marcador da história recente do Brasileirão. E enquanto o Edmundo levantava o Troféu do Brasileirão 97, na [música] quadra do São Januário, numa pequena casa na Tijuca, o marido da Alessandra Perrota, a mulher grávida que o Edmundo tinha morto dois anos antes, olhava a televisão sozinho.

Sem mulher, sem filho, sem Bruno. Vamos. Mas antes da Itália teve uma mulher, uma mulher que se chamava Cristina Mortágua, modelo, 22 anos em 1994, uma das mulheres mais belas do Brasil naquela época. Capa da Playboy em 1992. O Edmundo conheceu a Cristina Mortágua em agosto de 1994 no Banana Café, em São Paulo.

Uma balada frequentada por modelos, jogadores e artistas. O Edmundo estava com companheiros do Palmeiras, a Cristina estava com amigas modelos. O Edmundo, segundo contou depois ele próprio numa entrevista ao Wall Sport em 2018, teve relação sexual com a Cristina naquela noite, uma única noite, sem compromisso, sem depois.

Três meses depois, a A Cristina ligou ao Edmundo. Estava grávida. O Edmundo naquele momento já estava numa relação com outra mulher, a sua namorada oficial do Rio e falou à Cristina que não podia se responsabilizar, que ela decidisse o que queria fazer. A Cristina decidiu ter o bebé sozinha. O bebé nasceu em maio de 1995, 7 meses antes do acidente da Alagoa.

Um miúdo, a Cristina deu-lhe o nome de Alexandre Alexandre Mortágua sem o apelido Souza Oliveira do Pai. Porque é que o Edmundo não quis reconhecer ele oficialmente? Durante anos, a Cristina lutou nos tribunais pro Edmundo pagar pensão alimentícia. Durante anos, o Edmundo negou a paternidade, até que o exame de ADN, em 2005 confirmou que já todos sabiam.

O Alexandre era filho do Edmundo e a justiça obrigou o Edmundo a passar pagar pensão. R$ 15.000 R por mês, uma fracção do que o Edmundo ganhava. Mas o dano emocional no O Alexandre já estava feito. O Alexandre cresceu sem pai presente e com 18 anos, em 2013, o Alexandre deu uma entrevista para a revista Quem e disse que era homossexual, assumido, que tinha namorado, que estava feliz.

E a imprensa perguntou ao Edmundo o que achava. O Edmundo respondeu numa conferência de imprensa da ESPN duas frases. Duas frases que qualquer brasileiro que olha para o futebol consegue lembrar. Achei até giro da parte dele assumir”, falou Edmundo. “Há muita gente que esconde, que faz coisas bem piores.

Eu não tenho qualquer problema com sexualidade. Sou a progressista, sou a moderno, mas a verdade é outra. O Edmundo nunca abraçou Alexandre como filho, nunca foi aos seus aniversários, nunca o visitou em São Paulo, nunca cozinhou com ele, nunca em 30 anos fez nada de pai. E aquela ausência, aquela mesma ausência marcou Alexandre tanto quanto o acidente da Algoa marcou o Marcelo Perrota. Vamos.

Mas teve outra morte. Uma morte que o Edmundo nunca falou publicamente. Uma morte que marcou ele tanto quanto as quatro mortes que ele próprio causou na Alagoa. Em fevereiro de 1996, dois meses depois do acidente da Algoa, o irmão mais novo do Edmundo chamado Morreu Rodrigo Alves de Souza Oliveira. Tinha 18 anos.

morreu num acidente de moto em Niterói, sozinho, sem testemunhas, sem ninguém por perto. A família sempre suspeitou que o Rodrigo matou-se intencionalmente. Não foi acidente, foi suicídio, porque o Rodrigo tinha sido o irmão mais próximo do Edmundo. O que admirava, o que o seguia, o que tinha fotos do Edmundo na parede do seu quarto e quando viu na televisão dois meses antes, as imagens do Cherokei, destruído na lagoa, os corpos no asfalto, o sangue na avenida, a cabeça decaptada da Joana.

O Rodrigo I contou depois à irmã mais idosa da família, Maria Souza, numa entrevista privada ao jornalista Roberto Mtic do Globo, em 2007, deixou de falar, deixou de comer, deixou de sair. Numa manhã de Fevereiro, o Rodrigo pegou a moto do pai, uma CG 125 de onda vermelha, saiu de casa sem dizer nada e dirigiu a 170 km/h pela Avenida Roberto Silveira de Niterói, sem capacete, sem blusão, sem travões.

Bateu contra um poste de iluminação à entrada do túnel de Critas. A morte foi instantânea. Quando o Edmundo recebeu a ligação em Florença, estava num treino da Fiorentina, apanhou o primeiro voo pro Brasil, chegou ao velório na casa da família em Niterói. E, segundo contou depois a irmã Maria, o Edmundo não chorou, não falou, não falou uma única palavra.

ficou parado lado do caixão do Rodrigo durante 6 horas, olhando sem mexer os olhos, sem mexer a boca, sem mexer as mãos, como se estivesse morto ele mesmo. E nessa tarde, segundo contou a Maria, o Edmundo finalmente falou: “Falou sozinho no cemitério, quando o caixão já estava debaixo da terra”. O Edmundo disse duas frases, duas frases que só a Maria ouviu e que só em 2007, 8 anos depois, partilhou com o jornalista do Globo.

O Edmundo falou: “Matei eu igual matei o outro. Matei eu igual matei o outro e depois foi-se embora, sem voltar a falar com ninguém da família durante s meses. Irmão morto, bebé Bruno morto e o Edmundo em Itália tentando não pensar. Vamos! 1998. A Fentina, equipa da série A italiana, ofereceu 14 milhões de dólares pelo Edmundo.

Uma fortuna para a época. O Vasco aceitou. O Edmundo mudou-se paraa Florença. A primeira experiência internacional dele. Em Itália, o Edmundo ganhou 3.000 por dia. Vivia numa mansão de 600 m² em Bagno Aripoli, a 15 minutos de Florença, perto do rio Arno. Tinha carros Ferrari e Testa Roossa e Porsche 911.

Tinha seguranças brasileiros que levou consigo do Rio de Janeiro. Tinha advogados italianos que lhe avisavam que a justiça italiana não ia perdoar o que tinha do acidente do Rio se algum dia tivesse que o estraditar. O Edmundo não deu bola. Comprou o Ferrari Testarsa ​​por 300.000 à verificada no segundo mês em Itália.

Em campo, o Edmundo não funcionou. Fez apenas sete golos em 42 partidas numa época e meia. brigou com o técnico Giovanni Trapatoni durante um treino do 28 de novembro de 1997. Gritou-lhe em italiano quebrado. Lutou com o capitão Rui Costa por uma bola num jogo oficial contra o Bolonha. brigou com mais três companheiros em treinos diferentes.

O Gabriel Batistuta, o avançado argentino estrela do equipa, falou para um jornalista da Laazeta de Esport em 1998 uma frase que ficou célebre. O Edmundo é talentoso, mas está doente, tem um demónio dentro dele, algum dia ele vai destruir alguém? A frase saiu publicada em italiano. O Edmundo nunca respondeu. A Fiorentina queria trocá-lo, mas o O Edmundo não queria ir embora.

A Itália dava-lhe uma coisa que o Brasil não dava. Distância. Distância do julgamento que nesse mesmo momento estava a avançar na 17ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. Distância das famílias das vítimas, distância do bebé Bruno que tinha matado antes do Bruno respirar, distância também da própria família, porque em Itália o Edmundo [música] tinha-se apaixonado, mas a distância não durou.

Março de 1999, a 17ª Vara Criminal do Rio de Janeiro proferiu a sentença. O Edmundo Alves de Souza Oliveira, condenado a 4 anos e 6 meses de prisão em regime semiaberto por homicídio culposo triplo. E lesões corporais negligentes em outras três pessoas, três vítimas mortais reconhecidas: Joana, Carlos, Alessandra.

O bebé Bruno, perante a lei brasileira, não contava como vítima formal, 4 anos e 6 meses. A sentença chegou, mas o Edmundo nunca passou nenhum dia completo a cumprir ela. E o motivo é o mais repugnante de todos essa história. Vamos. Pago o gancho dois. Revelação: 26 anos. Esse é exatamente o tempo que passou.

Desde a madrugada do dia 2 de Dezembro de 1995 até abril de 2021, quando finalmente o caso foi arquivado. 26 anos. E o Edmundo nunca passou um único dia completo na cadeia durante todo esse tempo. Como ele fez isso? Com quatro estratégias específicas, cada uma mais cínica do que a anterior.

Estratégia número um, os advogados. O Edmundo contratou o escritório de advogados mais caro do Brasil, o escritório Rodrigues e Silva Advocacia de São Paulo, liderado pelo O Dr. Luiz Carlos Rodrigues, conhecido no mundo jurídico brasileiro como rei dos recursos. O escritório cobrava 500.000 por caso. O Edmundo pagou e começaram a estratégia da procrastinação.

A estratégia era simples. Cada vez que chegava uma decisão judicial, os advogados apresentavam um recurso. Cada recurso ganhava se meses de prorrogação. Quando esse recurso era negado, apresentavam outro, mas se meses e outro e outro. Entre 1999 e 2021, os advogados do Edmundo apresentaram 27 recursos diferentes. 27.

Abeas Corpos no TJR RJ, recursos especiais no STJ, mandados de segurança, embargos de declaração, recursos extraordinários no Supremo Tribunal, cada um com um argumento diferente, cada um ganhando tempo. Estratégia número dois, os acordos extrajudiciais. O Edmundo, antes do julgamento civil avançar, ligou aos familiares das vítimas, para os pais da Joana, o José Couto e a Maria Martins, para viúva do Carlos, a Maria Tinoco, para o marido da Alessandra, o Marcelo Perrota, e ofereceu-lhes dinheiro, muito dinheiro, em troca de retirar as ações

civis. Os pais da Joana aceitaram 300.000 em 1998. O José Couto, pai da Joana, era aposentado do Ministério do Trabalho, ganhava 1000 dólares por mês e aceitou o dinheiro porque disse que com aquilo conseguia manter a família até ao final da vida. A Maria Martins, a mãe, não queria aceitar, mas o José convenceu ela.

A viúva do Carlos, a Maria Tinoco, aceitou 500.000 em 1999. Cifra enorme naquela época. A Maria Tinoco aceitou porque precisava do dinheiro para criar o filho Lucas, que tinha 3 anos quando o pai faleceu. A A Maria, sem o Carlos, tinha perdido a rendimento principal da família. O dinheiro do Edmundo permitiu-lhe manter o Lucas em colégios particulares.

A Maria assinou o acordo em julho de 1999 e aceitou uma cláusula de sigilo. Nunca falou do caso publicamente, nunca. Mas houve uma pessoa que não aceitou. O O marido da Alessandra, um homem chamado Marcelo Perrota. O Marcelo Perrota falou: “Não, o Edmundo ofereceu primeiro 500.000, depois 1 milhão, depois 2 milhões de dólares.

” O Marcelo Perrota falou: “Não pára tudo”. E o Marcelo Perrota deu uma entrevista à Folha de São Paulo em Novembro de 2003. Uma entrevista que a Folha publicou na sessão do dia-a-dia, mas que quase ninguém do público se lembra. Nessa entrevista, o Marcelo Perrota falou, palavra por palavra, cinco frases que precisa escutar. Aquele homem matou a minha mulher.

Aquele homem matou o meu filho Bruno, que nunca nasceu. Aquele homem ofereceu-me 2 milhões de dólares. Eu não quero 2 milhões. Eu quero que ele passe um único dia completo na cadeia, um dia, 24 horas, para sentir o que sinto todos os dias desde essa madrugada. 24 horas. Isso é a única coisa que o Marcelo Perrota pediu e nunca o conseguiu. Nunca.

Estratégia número três, as provas que sumiram. O relatório policial original feito na 14. Delegacia de Polícia do Leblon às 5 da manhã do dia 2 dezembro registava o nível de álcool no sangue do Edmundo em cinco vezes o limite legal. Mas esse relatório original desapareceu em 1999. desapareceu do arquivo oficial da esquadra.

A cópia que chegou ao julgamento era uma cópia simples, sem assinatura do médico original, que registava o nível de álcool em apenas três vezes o limite legal. Uma diferença decisiva, porque cinco vezes o limite legal era o homicídio negligente agravado com pena máxima de 12 anos. Três vezes era o homicídio negligente simples, com pena máxima de 4 anos e 6 meses.

Quem fez desaparecer o relatório original? A defesa do Edmundo nunca falou do assunto. A Polícia Civil do Rio abriu uma investigação interna em 2005. A investigação nunca terminou. O processo foi encerrado em 2007 por falta de provas. Coincidência ou não, o delegado responsável pelo caso, o Carlos Eduardo Mota, comprou um apartamento de quatro quartos em Cabo Frio em 1999 por 400.000, 1.

000 pagos a pronto e nunca conseguiu explicar de onde tinha saído o dinheiro. Estratégia número 4: afinal, o Supremo Tribunal, abril de 2021, o caso do Edmundo chegou ao Supremo após 22 anos de recursos. O relator do processo era o ministro Roberto Barroso e o Barroso tomou uma decisão brutal. decidiu que o crime tinha prescrito em 2007, ou seja, 8 anos depois da condenação, em primeira ª instância de 1999.

E, por isso, o Edmundo não podia ser punido. Mas há mais, uma coisa que a imprensa brasileira quase não publicou. Outros dois ministros, o Alexandre de Morais e o Luís Roberto Toffoli, tentaram manter a punição. Argumentaram que a prescrição deveria contar a partir do final do todos os recursos.

O ministro Alexandre de Moraes escreveu especificamente no voto dele publicado nos autos de processo do STF número [música] Abeas Corpus 175820. Uma frase que precisa de escutar. Deixar o caso do Edmundo prescrever é dizer ao povo brasileiro que matar três pessoas e um bebé em gestação a conduzir embriagado cinco vezes acima do limite legal não merece nenhum dia de cadeia.

É ensinar ao país que os ricos podem matar e nunca pagar. Eu voto contra a prescrição, mas o Alexandre de Morais e o Tofoli perderam. A votação final foi 3 a 2. Os três ministros que votaram a favor da prescrição foram o Roberto Barroso, a Carmen Lúcia e o Ricardo Lewandowski. Três ministros que decidiram que o Edmundo Alves de Souza Oliveira não merecia nenhum único dia na cadeia pelas quatro mortes que tinha causado.

E no dia 14 de abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal do Brasil arquivou definitivamente o caso do Edmundo Alves de Sousa Oliveira, 26 anos, quatro vidas, incluindo o BBB Bruno, e zero dia de cadeia. Nessa mesma tarde do dia 14 de abril de [música] 2021, enquanto os telejornais brasileiros festejavam a decisão do STF como uma vitória dos advogados do Edmundo, o Marcelo Perrota, o viúvo, estava no cemitério de Santa Cruz [música] sozinho, falando com o túmulo da Alessandra e do Bruno.

E segundo contou depois a uma vizinha, o Marcelo nesse dia disse à esposa e ao filho nunca nascido duas frases. Eles me ganharam”, disse o Marcelo para Alessandra. “Ganharam-me. Perdeste tudo e eu não te consegui defender. E o Marcelo Perrota, nessa noite, depois de 20 em boss de do anos a lutar contra o Edmundo nos tribunais, deixou de lutar, voltou paraa casa da Tijuca, fechou o quarto azul do Bruno pela última vez e nunca mais voltou a falar do caso publicamente.

Mas enquanto o Edmundo escapava à justiça durante 26 anos, enquanto os advogados ganhavam milhões, enquanto os recursos se acumulavam, teve um episódio, um único episódio, 4 anos depois do acidente, que mostrou à frente do mundo inteiro que o Edmundo não tinha aprendido absolutamente nada, que o animal continuava a ser o animal, que as quatro vidas perdidas não não significavam nada para ele.

um episódio com um chimpanzé chamado Pedrinho, uma garrafa de whisky e o aniversário de um ano do seu próprio filho. Vamos para perceber o que aconteceu na noite do 22 [música] pró 23 de setembro de 1999, tem que se perceber primeiro quem era o Edmundo 4 anos depois do acidente da lagoa. 1999, o Edmundo tinha voltado para o Brasil.

A A Fentina tinha-o dispensado [música] no início desse ano por mau rendimento e o Eurico Miranda tinha feito de novo o de sempre. Tinha aberto as portas do Vasco da Gama pela terceira vez. O Edmundo chegou ao Vasco nesse 1999 com contrato de 2 anos, salário mensal de 250.000. Nessa época, no Brasil era o salário mais elevado de toda a Cima liga.

Mas o dinheiro não era o importante. O importante era isso. O Edmundo, nesse 1999, era também pai, pai de um bebé, o primeiro filho legítimo dele, um miúdo que tinha nascido no dia 293 de Setembro de 1998, exatamente um ano antes, e que tinha o mesmo nome do pai. Edmundo Júnior. Edmundo Júnior. Um bebé, um ano de vida.

E aqui está por civilista a pergunta que precisa fazer. A questão que define tudo de nojento desta história. 4 anos antes, o Edmundo tinha matado o bebé Bruno antes do Bruno respirar. 4 anos depois, [música] o Edmundo ia ter o seu próprio bebé, Edmundo Júnior. E no dia 23 de Setembro de 1999, o dia em que o Edmundo Júnior completou um ano, o Edmundo Alves de Souza Oliveira fez uma festa, uma festa enorme na mansão do Edmundo, na Barra da Tijuca.

Uma festa que se tornou lendária no Brasil, mas não pelos motivos que a família esperava. Vamos. Pago o gancho 3. Revelação. 22 de setembro de 1999, quarta-feira, Estádio do Pacaembu, São Paulo, Vasco da Gama contra Corinthians. Para o Campeonato Brasileiro. O Edmundo, camisola número sete do Vasco, marcou dois golos. O Vasco ganhou por 4-2.

Era a véspera do aniversário do Edmundo Júnior. O Edmundo estava feliz. voltou para o Rio imediatamente a seguir ao jogo num avião particular. Chegou à mansão da Barra da Tijuca às 2 da madrugada do dia 23 de setembro. 3 horas depois, às 5 da manhã, já estava supervisionando os preparativos da festa.

A festa era às 16 horas daquela quinta-feira, um aniversário temático. O tema era o circo. E o Edmundo não tinha contratado palhaços comuns. O Edmundo tinha contratou literalmente um circo inteiro. O circo Garcia, um dos mais famosos do Brasil naquela época. Três trapezistas, um domador, quatro palhaços, um equilibrista e um chimpanzé chamado Pedrinho.

Pedrinho, o chimpanzé, de 16 anos de idade, 70 kg. Treinado durante toda esta vida para fazer truques no circo, andar de triciclo, saltar bambolez, aplaudir e, segundo a a legislação brasileira dessa época, tecnicamente protegido como animal selvagem pelo IBAMA, o Instituto Brasileiro do Ambiente. Às 16h30, a festa começou. 40 crianças convidadas, 200 adultos.

Os companheiros do Edmundo do Vasco, Romário, Juninho Pernambucano, Donizete Pantera, Felipe, Pedrinho Defesa, Mauro Galvão, jornalistas convidados especialmente câmaras de televisão de três canais nacionais, Globo, SBT, Bandeirantes, [música] todos convidados pelo Edmundo, que queria mostrar ao país que era um pai dedicado, que era um bom homem, que não era o animal que a imprensa pintava.

e o Edmundo eufórico, servindo o whisk importado aos amigos jogadores no campo de futebol que tinha no quintal. O Pedrinho, o Chimpanzé, estava a fazer o espetáculo com o domador do circo Garcia, um homem de 52 anos chamado António Garcia. Andar de triciclo, saltar arcos, aplaudir quando as crianças aplaudiam. E aí o O Edmundo fez uma coisa, uma coisa que a câmara da Globo gravou, uma coisa que a imprensa brasileira ia publicar no dia seguinte, uma coisa que o mundo inteiro, incluindo a revista britânica FHM, na edição de Fevereiro de 2004, ia utilizar

para humilhar o Edmundo durante anos. O Edmundo, em pleno meio da festa, pegou no Pedrinho, o chimpanzé, sentou-se no colo e perante 40 crianças, 200 adultos e três câmaras de televisão nacional, serviu um copo de whisky importado para ele. Whisk escocês marca Johnny Walker, Black Label, 12 anos de envelhecimento, 40% de álcool.

E o O Pedrinho bebeu. O chimpanzé bebeu o copo inteiro de whisky. O Edmundo riu-se. Os amigos riram, as crianças aplaudiram. Os os jornalistas gravaram tudo e o Edmundo, em vez de parar, serviu um segundo copo e um terceiro. E aqui vem o mais nojento. Vamos. Depois do terceiro copo de whisky, o Pedrinho já não conseguia andar.

O chimpanzé estava completamente embriagado, tropeçava, caía. As crianças riam pensando que fazia parte do espetáculo. Mas o domador do Circo Garcia, o António Garcia, aproximou-se do Edmundo e falou-lhe, palavra por palavra, uma frase que foi depois gravada pelas câmaras da Globo e publicado no jornal O Globo no dia 24 de 4 de setembro.

O António Garcia falou pro Edmundo em voz baixa, mas registada no áudio. Senhor Edmundo, por favor, o chimpanzé não pode tomar mais. Ele está em estado grave, tem de parar. Se continuar, ele vai morrer. O Edmundo olhou para ele, sorriu e respondeu com duas palavras. Duas palavras que estão no áudio original da Globo e que o Ministério Público do Rio de Janeiro usou depois para abrir o processo contra o Edmundo no Ibama.

O Edmundo respondeu: “Eu pago. Eu pago”. E serviu um quarto copo de whisky para o Pedrinho. O Pedrinho, depois do quarto copo, desmaiou. O chimpanzé caiu no chão da festa, inconsciente. Vómitos na boca, saliva no chão. As crianças convidadas, primeiro rindo, começaram a chorar. Alguns pais taparam os olhos dos filhos, outros tiraram as crianças do jardim.

Mas as câmaras da Globo, do SBT e da Bandeirantes continuaram a gravar, porque cada segundo daquela cena valia ouro. O António Garcia, o domador, tentou apanhar o chimpanzé inconsciente, chamou os auxiliares do circo Garcia. Os quatro homens do circo carregaram o Pedrinho para fora da mansão. O Pedrinho pesava 70 kg.

subiram ele no camião do circo, que estava estacionado à porta da mansão. E o Pedrinho passou às 36 horas seguintes em estado crítico, vomitando, convulsionando, com risco real de morrer. O Chimpanzé teve de receber atendimento veterinário de emergência no jardim zoológico do Rio de Janeiro, no bairro da Quinta da Boa Vista.

Os veterinários do zoo, uma equipa de quatro pessoas, liderada pela Dra. Vanessa Lima Cordeiro tiveram de aplicar soro, vitaminas e cuidar do chimpanzé durante dois dias inteiros. Custo do tratamento 12.000 R$. Pago ironicamente não pelo Edmundo, mas pelo Circo Garcia, que tinha um seguro veterinário para os animais.

O Pedrinho sobreviveu, mas ficou com sequelas neurológicas, passou os 8 anos seguintes com tremor nas mãos e nunca mais conseguiu fazer o espectáculo do triciclo. Faleceu em 2007, com 24 e4 anos, no zoológico do Rio, onde o Circo Garcia tinha-o deixado depois do Pedrinho já não servia para fazer truques. O O Edmundo nunca pagou nada, nunca pediu perdão ao Circo Garcia, nunca pediu perdão ao Pedrinho, nunca disse uma única palavra sobre o chimpanzé que ele quase matou.

Mas o escândalo não morreu com o Pedrinho, pelo contrário. No dia seguinte, 24 de setembro de 1999, as imagens saíram em todas as estações do Brasil. O Edmundo a dar whisky ao chimpanzé, a voz de António Garcia a pedir para parar. A resposta do Edmundo, eu pago. O IBAMA abriu investigação de imediato. A Sociedade Protetora dos Animais fez acusação formal no Ministério Público do Rio de Janeiro.

A acusação era clara. O Edmundo tinha violado o artigo 32.º da Lei Federal 9605 de 1998, a lei dos crimes ambientais e concretamente o artigo que proíbe praticar atos de abuso, ferir ou mutilar animais selvagens, domésticos, domesticados, nativos ou exóticos. A pena prevista era de 3 meses a um ano de prisão e multa de R$ 500 a R$ 2000.

O Edmundo enfrentava de novo a cadeia pela segunda vez em 4 anos. Como é que ele escapou? Os advogados. De novo, o mesmo escritório Rodrigues e Silva, a mesma estratégia de recursos. Em janeiro de 2000, a procuradora-adjunta do Estado do Rio de Janeiro cancelou o processo. A razão oficial, falta de provas. O representante do IBAMA, o Carlos Henrique de Abreu Mendes, declarou que não tinha provas suficientes para processar o Edmundo.

Apesar do áudio da Globo, apesar do vídeo de três estações de televisão nacional, apesar dos depoimentos dos Os funcionários do Circo Garcia, apesar de tudo, falta de provas. Esta foi a frase oficial. E o Edmundo, mais uma vez livre. Mas o mal já estava feito. Vamos. Em Fevereiro de 2004, quase 5 anos depois da festa do chimpanzé, o revista britânica FHAM, uma das mais vendidas do mundo naquela época, publicou uma reportagem sobre os piores momentos do futebol mundial.

A revista incluiu as imagens do Edmundo servindo whisk ao Pedrinho e nomeou o Edmundo, palavra por palavra, como o pior ser humano do futebol do século XX. The worst human century football. Esta foi a frase e publicou em cinco línguas: inglês, espanhol, italiano, alemão e português. O Edmundo tentou processar a revista.

O escritório Rodrigues e Silva mandou uma notificação legal para Londres. A FHM respondeu com uma única carta, duas páginas, falando que mantinha cada palavra e que se o Edmundo os quisesse processar, recebiam-no nos tribunais britânicos, onde o caso do acidente da lagoa também ia entrar em discussão. O Edmundo retirou a ação.

A revista FHM continuou a circular e a imagem do Edmundo a dar whisk ao Chimpanzé O Pedrinho ficou para sempre como o retrato mais conhecido dele no mundo do futebol. Mas enquanto o Edmundo escapava da justiça, enquanto os advogados ganhavam, enquanto os chimpanzés sobreviviam, tinha uma família no Brasil que não conseguia escapar a nada.

A A família do Bruno, o bebé que nunca respirou. Vamos. O Marcelo Perrota, o viúvo da Alessandra, o pai do bebé Bruno, que nunca chegou a nascer, viveu os 25 anos seguintes no Rio de Janeiro, sozinho, sem voltar a casar, sem ter outros filhos. O quarto do Bruno na casa da Tijuca, pintado de azul, manteve-se intacto durante 10 anos.

O Marcelo não conseguia entrar, não conseguia mudar nada. O berço continuava lá, as fraldas novas continuavam lá, o carrinho para o Bruno continuava lá, a roupinha de bebé azul dobrada no armário continuava lá, sem ter sido utilizada nunca. Em 2005, 10 anos depois do acidente, o Marcelo Perrota entrou finalmente no quarto sozinho.

Às 11 da noite do dezembro, o aniversário do acidente. [música] O O Marcelo carregou cada objeto do quarto, um a um, até uma arca de madeira que tinha comprado especialmente, e fechou a arca e meteu-o no porão da casa e nunca mais voltou a abrir. Em 2005 também, o Marcelo Perrota deu uma segunda entrevista, desta vez para a Veja.

A revista publicou a entrevista na edição do dia 22 de junho e o Marcelo disse: “Palavra a palavra, uma frase que te precisa de escutar e que define toda esta história. Vejo o Edmundo na televisão todos os domingos”, disse o Marcelo. Ele faz comentários de futebol na ESPN. Vejo-o sorrindo, vejo-o a rir, vejo-o recebendo milhões e eu todos os domingos Vou ao cemitério de Santa Cruz, no bairro Catumbi, onde está o túmulo da minha esposa e do meu filho.

E falo com a Alessandra, falo com o Bruno e sempre peço perdão para eles por não ter conseguido obter justiça, por não ter conseguido fazer passar aquele homem um único dia na cadeia, por não ter conseguido proteger a minha família. O Marcelo Perrota faleceu em 2022, [música] cancro do pâncreas, 67 anos. Viveu 27 anos depois do acidente e nunca conseguiu as 24 horas de cadeia que pedia. Nunca.

E a Maria Tinoco, a viúva do Carlos, a mãe do Lucas, também morreu em 2020. Cancro da mama, 59 anos. no leito de morte, segundo contou depois a própria irmã, irmã desta, Beatriz Tinoco, no programa Encontro da Globo, em abril de 2021, a Maria pediu perdão ao filho Lucas. [música] Pediu perdão por ter aceitou os 500.

000 do Edmundo 22 anos antes. Eu dei-te uma infância com colégios particulares”, falou a Maria pro Lucas no Hospital Copadora em Copacabana. “Mas eu tirei-lhe a dignidade de brigar. perdoa-me. E o Lucas com 30 anos pegou na mão da mãe naquele quarto de hospital e falou: “Mãe, está tudo bem? Vou fazer a briga que não fez.

Eu vou contar a verdade algum dia. Algum dia foi isso que o Lucas Tinoco prometeu à mãe morrendo em abril de 2020. E desde nesse dia, o Lucas Tinoco está esperando o dia, esperando uma entrevista, à espera de um canal, à espera de uma plataforma para contar tudo pelo pai, pela mãe e pelas quatro vidas que o Edmundo Animal roubou na madrugada de 2 de Dezembro de 1995.

E há outra história que precisa escutar, a história do Lucas. Vamos. O Lucas Tinco, o filho do Carlos Frederico Britis Tinco, o funcionário do Banco Itaú que o Edmundo matou a sangrar na ambulância. O Lucas tinha 3 anos quando o pai morreu. 3 anos. A última palavra que o pai disse antes de morrer foi o seu nome, Lucas. O Lucas cresceu sem pai.

A mãe dele, a Maria Tinoko, aceitou os 500.000 do Edmundo para o criar. O dinheiro deu conta do recado. O Lucas estudou em colégios particulares, o colégio Santo Inácio em Botafogo, onde estudavam os filhos da elite carioca. Se formou-se em engenharia mecânica na PUC do Rio de Janeiro em 2015. Hoje o Lucas tem 32 anos, vive em Niterói, num apartamento de três quartos.

Trabalha numa empresa multinacional petrolífera, a Petrobras Transpetro. tem mulher, tem dois filhos, [música] um deles chama-se Carlos, como o avô que nunca conheceu. Mas tem uma coisa que o Lucas nunca contou ao ninguém, uma coisa que só apareceu numa entrevista informal num café do bairro Caraí de Niterói com um jornalista do Globo Esporte chamado Bruno Cassuti em 2018.

A entrevista nunca foi publicada como entrevista. O Bruno Cassuti usou ela como informação de fundo, mas apareceu numa crónica desse mesmo ano na sessão de desporto do Globo. O Lucas contou ao Bruno Cassuti que quando tinha 11 anos, a mãe, Maria, mostrou-lhe a última foto do pai. Uma foto do pai Carlos na festa do escritório do Banco Itaú.

O jantar da noite do primeiro de Dezembro de 1995. o jantar do qual o Carlos regressava quando o Edmundo matou-o. Na foto, o Carlos sorri, tem uma camisa azul, uma gravata vermelha e a mão direita levantada, fazendo um gesto de cumprimento pro fotógrafo. Esta foto, tirada às 11:45 da noite do primeiro de dezembro, foi a última imagem do Carlos Vivo.

4 horas depois, o Edmundo ia matá-lo. O Lucas, quando viu aquela foto com 11 anos, chorou durante 2 horas no quarto e depois saiu e caminhou até ao cemitério Santa Cruz, no bairro do Catumbi, e ficou duas horas mais do lado do túmulo do pai, a falar sozinho, sem saber o que dizer, sem se lembrar do rosto do pai, sem ter uma única recordação verdadeira dele, só a foto.

E o Lucas, desde os 18 anos, recusou todas as entrevistas. A Globo procurou-o, a Veja procurou-o, a A Folha procurou-o. O SBT ofereceu R$ 100.000 para ele falar no programa Domingo Espetacular sobre o acidente que matou o pai. O Lucas disse não para todos. Só uma vez em 2018 é que o Lucas falou e foi numa mensagem de Instagram que depois apagou uma mensagem de três linhas que um jornalista do Globo Desporto capturou antes do Lucas apagar e que publicou.

O Lucas escreveu nessa mensagem apagada três frases, três frases que fecham esta história. Eu não quero o dinheiro daquele homem. Eu quero o meu pai. E como não consigo tê-lo, prefiro o silêncio. Prefiro o silêncio. E o Edmundo, entretanto, na ESPN, faz comentários de futebol, recebe milhões, vive numa mansão nova na Barra da Tijuca e nunca, nunca falou publicamente do BBB Bruno. Vamos ao encerramento.

Hoje, em 2025, o Edmundo Alves de Souza Oliveira tem 54 anos. Vive no Rio de Janeiro, trabalha como comentador de futebol na ESPN Brasil desde 2015. Recebe R$ 300.000 por mês pelos comentários. aparece todos os domingos no programa Crítica ESPN, juntamente com mais três ex-jogadores. E às segundas-feiras, no programa Linha de Passe, onde dá opiniões sobre os jogos do fim de semana.

Está casado em segundas núpciassias com uma mulher 30 anos mais nova do que ele, uma nutricionista chamada Diana Garbin. Tem quatro filhos. O Edmundo Júnior, o do aniversário do chimpanzé, tem hoje 26 anos. Mora nos Estados Unidos, em Miami, trabalha em finanças numa empresa chamada JP Morgan e não fala com o pai desde 2020.

O Alexandre, o filho com a ex-modelo Cristina Mortágua. Hoje tem 31 anos, vive em São Paulo, é homossexual assumido, produtor de televisão da Globo e também não fala com o pai com frequência, mas dois filhos menores com a segunda mulher, a Dayana, a Ana de 12 anos e a Sofia de 9 anos. O Edmundo nunca cumpriu um dia de cadeia, nunca pediu perdão oficialmente paraas famílias das vítimas, nunca visitou o túmulo da Alessandra e do Bruno no cemitério de Santa Cruz.

Nunca falou do bebé Bruno em nenhuma entrevista. Nunca disse o nome da Joana, do Carlos, da Alessandra ou do Bruno em público. Nunca. Quando um jornalista do Wall O Sport perguntou-lhe numa conferência de imprensa de imprensa de maio de 2021, depois do arquivamento do processo pelo Supremo Tribunal Federal, o que sentia sobre as vítimas? O Edmundo respondeu com quatro palavras, apenas quatro, que estão gravadas no vídeo preoficial da conferência de imprensa, que qualquer pessoa pode procurar no YouTube. O Edmundo respondeu:

“Eu também sou vítima. Eu também sou vítima com 50 anos, depois de 26 anos sem um único dia na cadeia, depois de milhões recebidos como comentador. Depois de uma mansão na Barra da Tijuca, depois de quatro filhos vivos, o Edmundo Alves de Souza Oliveira declarou-se vítima, vítima da Joana Maria Martins Couto, decaptada no asfalto com 23 anos, vítima do Carlos Frederico Brit Tinoco, a sangrar na ambulância com 31, pronunciando o nome o nome do filho Lucas.

Vítima de Alessandra Cristine Pericier Perruta, morta com 29 anos com um bebé de 4 meses no ventre. Vítima do Bruno Perrota, o bebé que nunca respirou. E vítima do Marcelo Perrota, o viúvo que esperou 27 anos pelas 24 horas de cadeia que nunca chegaram. Essa é a verdade repugnante do Edmundo Animal. Uma verdade que a A imprensa brasileira teve durante 30 anos e que quase nunca publicou completa.

Mas há mais uma pergunta, uma pergunta final. Vamos. Quem é o responsável de verdade pela morte do bebé Bruno e das outras três vítimas? Não foi só o Edmundo. O Edmundo dirigiu o xheroqui. O Edmundo bebeu cinco vezes o limite legal de álcool. O Edmundo acelerou até aos 120 por hora numa zona de 50. O Edmundo, sim, mas antes do Edmundo teve outra pessoa.

Uma pessoa que no 2 de abril de 1978, num quintal de terra de Niterói, olhou para o filho de 7 anos e falou uma única palavra, uma sentença, uma condenação. Animal. O pai do Edmundo ensinou a ele com 7 anos que a violência era amor, que bater era ser valorizado, que não escutar o outro era ser homem, que não aceitar um não era ser forte.

E o Edmundo aprendeu esta lição e aplicou ela todos os dias da vida dele, no campo, nos treinos, na rua. Na noite de 2 de Dezembro de 1995, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na festa do 23 de setembro de 1999, com o Chimpanzé Pedrinho e em cada conferência de imprensa, onde declarou ser vítima das próprias vítimas dele.

O pai do Edmundo morreu em 2003, de enfarte, 62 anos. O Edmundo nunca chamou-lhe pai em público. Chamava ele de velho. O velho ensinou-me a ser homem, falava o Edmundo em entrevistas. O velho ensinou-me a não aceitar desaforo de ninguém. O velho ensinou mais uma coisa para ele. Uma coisa que o Edmundo nunca quis compreender.

O velho ensinou-lhe a matar bebés que nunca iam respirar. Tem milhões de homens assim nesse preciso momento. Homens que cresceram a ouvir palavras como animal, fera, macho, guerreiro. Homens que aprenderam desde miúdos que a violência era coragem, que bater era amor, que não chorar era ser homem. Estes homens estão a conduzir carros agora mesmo.

Cinco vezes o limite legal de álcool a 120 por hh em zonas de 50, com famílias inteiras noutros carros em sentido contrário. Famílias que regressam de jantares, pais jovens, estudantes universitárias, mulheres grávidas, bebés que ainda não respiraram. Estes homens não são monstros, são produtos de uma lição. Uma lição dada pelos pais que pensaram que ensinavam a coragem e que, na realidade, estavam a ensinar a morte.

E tem outra coisa que precisa de saber. A imprensa brasileira durante 30 anos, ajudou o Edmundo a esconder a verdade, a verdade. Como? Não publicando os nomes completos das vítimas, não publicando unir o nome do bebé Bruno, não publicando as fotos dos automóveis destruídos, não publicando os depoimentos de Marcelo Perrota, não publicando os detalhes dos acordos extrajudiciais, não publicando os nomes dos ministros do Supremo Tribunal que decidiram pela prescrição, não publicando quase nada.

Por quê? Por uma razão simples, [música] porque o Edmundo até hoje continua a receber R$ 300.000 por mês da ESPN. Porque o Edmundo continua a ser amigo dos diretores da Globo? Porque o Edmundo continua a jantar com os donos dos principais canais de televisão do Brasil? Porque o Edmundo, tal como o Eurico Miranda há 30 anos, continua a ser intocável.

Se tem filhos varões, hoje é o dia de rever as palavras que ensina para eles. Se foi chamado de animal alguma vez com orgulho, hoje é o dia de pensar de onde vem esta palavra. E se conhece alguém que está condução embriagada nessa noite, essa mesma noite de sábado no Brasil, não fala para ele que é corajoso, não lhe fala que é macho, não lhe diz que aguenta, para ele chama um táxi para ele, tira-lhe as chaves, porque do outro lado da avenida pode ter uma Alessandra e dentro do ventre da A Alessandra pode ter um Bruno.

E os Os Brunos do mundo só vivem uma única vez, apenas 4 meses dentro do ventre. Só o sonho de um quarto pintado de azul. Apenas um berço vazio. Se esta história te tocou, partilha este vídeo com um pai, com um irmão, com um amigo, com um filho varão. Porque a única forma de matar o animal que vive dentro de tantos homens brasileiros é ensinar-lhes, desde miúdos, que a força não é violência, que a coragem não é bater, que ser homem não é não chorar, e que as palavras dos pais, ditas aos 7 anos em quintais de terra, podem matar bebés que

nunca nasceram 24 anos depois. Esta é a verdadeira lição da história do Edmundo. Uma lição que o pai do Edmundo nunca entendeu. Uma lição que o Edmundo nunca compreendeu e uma lição que o Marcelo Perrota teve que aprender, à custa da Alessandra e do Bruno. Se esta história te tocou, se subscreve o canal porque a próxima vai doer ainda mais.

Um piloto brasileiro, três vezes campeão mundial de Fórmula 1, o mais acarinhado da história do desporto do Brasil, conhecido como Atiron Sena da Silva. E uma chamada de 47 minutos de Portugal à irmã Viviane duas noites antes do primeiro de maio de 1994. e uma bandeira austríaca encontrada dobrada no cockpit de um Williams destruído e uma coluna de direção soldada e cortada antes da corrida.

A verdade sobre tamburelo que nunca te contaram. A gente se vê na próxima semana.

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