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RONALDO NAZARIO: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

Dois Campeonatos do Mundo, dois bolas de ouro e 98 golos com o Brasil. E esse mesmo homem, aos 23 anos, a chorar no chão, segurando o joelho, sabendo que a A sua carreira acabava de terminar pela terceira vez, o que esconderam durante 27 anos nunca saiu na televisão até hoje.

O fenómeno não foi destruído pelas lesões, foi destruído por uma única pessoa, a mesma que hoje sorri nos programas de televisão. A mesma que quando morrer o Brasil vai chorar como se fosse uma santa. Fica até ao fim, irmão, porque hoje vais saber quem era, o que ela fazia com o Ronaldo desde os 9 anos e porque ele até ao dia de hoje não consegue dizer o nome dela numa entrevista sem que a voz dele se parta.

Bento Ribeiro, zona norte do Rio de Janeiro, ano de 1985. Um bairro de ruas íngremes, casas coladas uma à outra, roupa pendurada nas janelas e um cheiro permanente a comida frita na rua principal. Numa casa de paredes amarelas, dois andares, telhado de chapa, vivia uma família que o resto do bairro conhecia por duas coisas.

O pai era alcoólico e a mãe tinha um temperamento que metia medo. O pai chamava-se Nélio. Trabalhava na companhia telefónica. Bebia cachaça desde segunda-feira. Havia dia que não aparecia para dormir. A mãe chamava-se Sónia, trabalhava como vendedora num comércio do bairro. Tinha 33 anos e tinha três filhos. O mais velho se chamava-se Nélio Júnior.

A filha do meio se chamava-se Ione. E o mais pequeno, o que um dia ia fazer o Brasil inteiro chorar de alegria, chamava-se Ronaldo. O Ronaldo tinha 9 anos. Era baixo, gordinho, com os dentes tortos e um sorriso que não saía nem quando levava um grito da mãe. Adorava jogar à bola num terreno baldio a três quarteirões da casa.

Um campinho com pedra, um caco de vidro e dois golzinhos feito com um pau de vassoura. Jogava ali todos os dias depois da escola até escurecer. Uma tarde de Março de 85, a Sónia apareceu no campinho. Era a primeira vez. Ninguém do bairro a tinha visto ali antes. Caminhou no meio dos miúdos, pegou no Ronaldo pelo braço, tirou-o do jogo e levou-o para o meio do campo improvisado.

E na frente de todas as crianças do bairro falaram uma frase que o próprio Ronaldo confessou para um jornalista brasileiro numa entrevista de 2018. Uma entrevista que depois foi editada antes de ir para o ar. O que a Sónia falou naquela tarde, palavra por palavra, foi isso. A partir de hoje, já não se joga por brincadeira.

A a partir de hoje joga-se para tirar a gente daqui? Aquela foi a primeira frase, o primeiro momento em que a Sónia Nazário decidiu que o corpo, as pernas, os golo e a vida inteira do filho de 9 anos lhe iam pertencer. E a partir dessa tarde, durante os 35 anos seguintes, não teve uma única decisão na vida do fenómeno que não passasse antes pela mão da mãe.

A partir dessa semana, a Sónia começou a levar o Ronaldo no campinho todos os dias, mas não igual às outras mãe. A Sónia não se sentava para olhar. A Sónia treinava, punha con feito com pedra, marcava tempo com o relógio de pulso, fazia-o repetir o mesmo movimento 40, 50, 80 vezes até sair perfeito.

E se o Ronaldo errasse um livre que já tinha feito bem 10 vezes antes, aquela noite não tinha jantar para ele. Quem contou foi o Roberto Carlos, companheiro de seleção, numa entrevista em 2012, sem referir o nome da Sónia, mas todos os que conhecia percebeu de quem ele estava falando. O Roberto Carlos disse: “O O Ronaldo contou-me uma vez que dormiu muita noite com fome por causa da própria família e que aprendeu a não chorar porque chorar era pior do que passar fome.

Chorar era pior do que passar fome.” Esta frase dita entre amigo num churrasco numa casa de São Paulo define os primeiros 10 anos de carreira do melhor avançado brasileiro depois do Pelé. Aos 11 anos, o Ronaldo dormia abraçado com a bola, encostava-se ela na cama do lado do coração, cobria com o lençol.

Era o último gesto de toda a a noite antes de fechar os olhos. Quem contou foi ele próprio no livro autobiográfico de 2014 e explicou porquê. A mãe Sónia tinha falado uma frase para ele aos 10 anos depois de uma luta com o pai alcoólico que ficou gravada para sempre. A Sónia disse: “Esta bola é mais mãe do que eu, porque essa bola vai levar-te para algum lado.

Eu só te posso ensinar a usá-la. Aos 12 anos, o Ronaldo entrou nas categorias de base do Social Ramos Clube, uma equipa de bairro. Aos 13 passou para o São Cristóvão e aos 14, em Setembro de 90, veio o grande salto. Um olheiro de Belo O Horizonte viu um dos seus jogos na formação, convidou-o para fazer teste no Cruzeiro.

A proposta era boa, dinheiro, casa, escola, tudo pago, mas tinha uma condição complicada. O Cruzeiro ficava a A 600 km do Rio. A família ia ter de se mudar. A Sónia tomou uma decisão que durante anos a imprensa brasileira interpretou como sacrifício de mãe. A realidade era outra. A Sónia mudou-se para Belo Horizonte sozinha com o Ronaldo. Deixou o pai Nélio no Rio.

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Deixou o irmão mais velho, Nélio Júnior a trabalhar numa padaria. Deixou a irmã Ione a estudar e levou apenas o menor, apenas o que ia gerar dinheiro. A família Nazário partiu-se em dois naquela semana de 90. a Sónia e o Ronaldo num apartamento arrendado no bairro Buritis de Belo Horizonte.

O resto da família ficou no Rio. Passaram se anos até o Ronaldo voltar a ver o pai com regularidade e quando viu já estava destruído. No Cruzeiro, o Ronaldo explodiu. Aos 15 anos marcava golos na base, aos 16 já estava no profissional. Aos 17 estreou-se na seleção brasileira. E aí começou o que no Brasil chamaram o milagre nazário, 5 anos de subida meteórica.

Taça do Mundo dos Estados Unidos 94. O Ronaldo viajou como quarto avançado reserva com apenas 17 anos. Não jogou um único minuto. Romário e Bebeto eram os titular. O Brasil ganhou a Taça e na foto da comemoração, o Ronaldo aparece num canto atrás com a taça na mão, sorrindo com os dentes tortos que ainda não tinha ajeitado.

A mãe Sónia não viajou para os Estados Unidos, mas ligava toda a noite para o hotel da Concentração para falar com o técnico Carlos Alberto Parreira. Queria saber porque é que o filho dela não jogava. No mesmo ano, o PCV em A Dovem da Holanda comprou-o por 25 milhões e de dólar. O Ronaldo tinha 17 anos, foi à Europa pela primeira vez.

A Sónia foi junto, de novo sozinha, de novo sem o pai, de novo sem os irmãos. Viviam num apartamento de 2 quartos em Aoven. A Sónia cozinhava, lavava, controlava e no meio da sala tinha uma agenda onde anotava tudo o que entrava e saía do corpo do Ronaldo. Cada refeição, cada hora de sono, cada cápsula, cada injeção, cada cápsula, cada injeção.

Guarda essa frase, irmão, porque é aí que é a primeira pista do que a gente saberá daqui a alguns minutos. O que a Sónia fazia com o corpo do Ronaldo desde os 13 anos. todos os dias antes do café da manhã. No PSV, o Ronaldo marcou 30 golo em 33 jogos na primeira época, 30 golo aos 18 anos.

Na Liga Holandesa, o o futebol europeu enlouqueceu. O Bob Robson, treinador do Barcelona, ​​foi ver -lhe três vezes em Aindoven e em 96 assinou a transferência mais cara do futebol até àquele momento. 19 milhões e de dólar. O Ronaldo mudou-se para Barcelona. A Sónia também. No Barcelona, o Ronaldo fez a época mais absurda do futebol europeu dos anos 90.

47 golo em 49 jogos. Golo que parecia impossível. Golo a arrancar do meio do campo. Gol driblando quatro defesa. Golo de cabeça, de perna esquerda, de livre, de bicicleta. A malta do Campinou levantava-se cada vez que ele encostava na bola. O Bob Robson disse numa entrevista desse ano: “Treinei o Bob Charton, o Maradona, o Gascoin”.

Mas nunca vi ninguém igual a este miúdo. Ele é de outro planeta. E aos 21 anos, em Dezembro de 96, o Ronaldo ganhou a bola de ouro, o jogador mais novo da história do futebol a receber. A cerimónia foi em Paris, subiu ao palco sorridente, pegou no troféu e disse uma curta frase que depois ficou famosa.

Falou: “Isto é para minha mãe. Isto é para a minha mãe. Tudo era para a mãe. Cada golo, cada troféu, cada taça, cada partida”. A Sónia sentada na primeira fila dos estádios, vestida de branco, com o cabelo apanhado, os braços cruzado, sem sorrir nunca, olhava para o filho de baixo, como um patrão olha para empregado mais rentável, sem amor visível, sem orgulho visível, só avaliando se o rendimento valia o investimento.

Em 97, o Ronaldo foi para o Inter de Milão por 27 milhões de dólares, mais um recorde. E aí, na primeira época italiana ganhou a bola de ouro de novo. segunda em 2 anos. Aos 22, nenhum jogador na história tinha ganho duas bolas de ouro tão novo. Nem o Pelé, nem o Maradona, nem o CF. O Ronaldo era literalmente o melhor jogador do planeta e ainda não tinha idade para votar em alguns países.

Mas atrás de cada um daqueles ano tinha uma constante. A A Sónia, a Sónia em cada concentração, a A Sónia em cada voo, a Sónia em cada hotel, a Sónia assinando o contrato, a Sónia decidindo com que amigo podia sair, a Sónia a rever as contas, a Sónia a entrar nos treinos sem pedir licença, a Sónia despedindo empregada doméstica porque não gostava da cara.

A Sónia a mandar embora dois massagistas do Barcelona porque suspeitava que era um amigo demasiado próximo do filho dela. A A Sónia era a sombra e a sombra crescia com a fama. Em 96, quando o Ronaldo tinha 20 anos e vivia em Barcelona, aconteceu uma coisa que só sete pessoas no mundo sabem.

Uma dessas pessoas falou em particular com um jornalista espanhol do diário El O Mundo em 2019, sob condição de anonimato. O que ele contou foi isso e vai explicar tudo o que veio depois. Uma noite de Dezembro de 96, o Ronaldo saiu do treino do Barcelona e foi jantar com dois companheiros, o Luiz Figo e o Pep Guardiola, num restaurante do bairro da Grácia.

Era um jantar tranquilo, três jogador de bola conversando sobre a vida. Às 11 da noite, sem avisar, a Sónia Nazário entrou no restaurante, dirigiu-se para a mesa, pegou no Ronaldo pelo braço, sem cumprimentar nem o Figo, nem o Guardiola, e levou-o embora na frente de todo o restaurante, sem uma palavra. O Figo, anos mais tarde, numa entrevista em Portugal em 2017, foi questionado sobre aquela noite. A resposta dele foi curta.

Eu compreendi naquela noite que o Ronaldo não era livre e nunca o ia ser. O Ronaldo não era livre. Essa é a verdade central que ninguém no Brasil teve coragem de falar, porque dizer isso era quebrar o mito do fenómeno. Era admitir que atrás do jogador mais alegre, mais sorridente, mais carismático do futebol mundial, tinha uma sombra de uma vida controlando-o minuto a minuto.

O o controlo físico, o controlo dos treinos, o controlo dos jantares, tudo isto era só a superfície. O que de verdade a Sónia fazia com o Ronaldo ia muito mais fundo. E aqui entramos no primeiro momento em que precisa de parar, porque já está perto de saber o que durante 27 anos ficou enterrado debaixo de sete camadas de mentira da Nike, da CBF e da imprensa brasileira.

O que fazia a Sônia Nazário com o Ronaldo desde os 9 anos? O que exatamente? Além das dietas, dos treinos, dos castigo, uma coisa concreta, uma coisa física, uma coisa que o corpo do Ronaldo carregou até aos 35 anos, altura em que finalmente diagnosticaram tarde demais. Vai saber agora. O nome completo da vilã é Sónia dos Santos Nazário.

Nasceu no Rio de Janeiro em 1952. Hoje tem 73 anos. Vive numa casa moderna na zona oeste do Rio, comprada pelo Ronaldo em 2009. aparece diretamente nos programas de televisão brasileira, tipo Domingão e Fantástico. Sorri para cada câmara, fala do filho com uma mistura de orgulho e posse que faz os entrevistador rirem sem compreender.

A frase que ela repete sempre em toda a entrevista idêntica é esta: “Eu fiz-lhe do nada. Eu construí-o e eu vou estar do lado dele até ao último dia da minha vida”. O que a imprensa brasileira nunca contou é o que a Sónia fez com o corpo do Ronaldo entre os 13 e os 17 anos. Uma prática que na família Nazário ficou conhecida como os pequeno-almoço, um ritual diário que destruiu a saúde hormonal do Ronaldo anos antes de qualquer médico diagnosticar.

Desde os 13 anos, toda a manhã, a Sónia preparava o pequeno-almoço do Ronaldo. Café com leite, pão, fruta e do lado do prato uma pequena cápsula, sem nome, sem caixa, sem explicação. Dizia-lhe: “Toma, é para não engordar”. A cápsula continha dietopropiona, um potente anorexígeno proibido a menor de idade até àquela época, que no Brasil era vendido sem receita numa farmácia do interior, com nome comercial tipo Fagolipo e Hipofagem.

A Sónia conseguia essas cápsulas numa farmácia de Bento Ribeiro, onde ela ia duas vezes por mês desde 89. A farmácia encerrou em 2003. O farmacêutico falou em particular com um jornalista do jornal O Globo em 2014, sob condição de anonimato, e confirmou que durante anos uma mulher da região comprava depropiona todas as semanas sem apresentar receita médica.

Descreveu a mulher com pormenor: “A descrição bate certo”. O efeito destas cápsulas num adolescente de 13 anos, tomada todos os dias durante 4 anos, é exatamente o que o Ronaldo arrastou-se pela carreira inteira. Aumento brutal do metabolismo, insónia crónica, taquicardia, alteração do ritmo cardíaco, dano progressivo na glândula tiroideia e o mais grave, predisposição para episódio convulsivo em situação de stress extremo.

O Ronaldo foi diagnosticado oficialmente com um problema de tiroide em 2011, aos 35 anos. A imprensa apresentou como doença recente. A realidade é que a tiroide dele já estava danificada desde os 18 anos. Os médicos do Cruzeiro tinham percebido em 94, disseram para família. A Sónia respondeu que era coisa da puberdade, que ia estabilizar, que não precisava de se preocupar.

Não se estabilizou, agravou-se. E quando o Ronaldo tinha 23 anos, em abril do ano 2000, jogando no Inter de Milão contra o Lázio, no Estádio Olímpico de Roma, o joelho direito cedeu numa jogada sem contacto. A rotura completa do tendão rotuliano que a imprensa atribuiu ao desgaste foi, segundo o relatório médico interno do Inter, que depois vazou, agravada por um desequilíbrio muscular e hormonal que o departamento médico não conseguia explicar.

Hoje entendemos, eram as cápsula. A carreira do Ronaldo nunca mais foi a mesma depois daquela lesão. Mas aquela lesão não foi só azar do futebol, foi consequência direta de 14 anos de um medicamento que a mãe fez ele engolir todo o dia de manhã desde os 13 anos. Mas as cápsulas no café da manhã não foram os piores, foram apenas a primeira camada.

O controlo da Sônia sobre o Ronaldo, este controlo que começou com uma bola aos 9 anos e seguiu com uma cápsula aos 13, chegou sob a forma mais escura quando o Ronaldo completou 22 anos. e conheceu uma mulher, uma só, a primeira mulher real da vida adulta dele. Essa mulher chamava-se Milene Dominguez. Era jogadora de futebol, tinha 21 anos, vivia em São Paulo.

E nela o Ronaldo encontrou pela primeira vez na vida uma coisa que a mãe nunca tinha deixado. Alguém que olhava para ele como homem, não como produto. Alguém que o ouvia, alguém que não queria nada dele, a não ser o tempo dele. O que a Sónia fez com esta mulher entre 99 e 2003? O que fez ao filho que eles tiveram juntos? O que fez com a possibilidade de o Ronaldo construir uma família normal? é a parte mais dolorosa desta história toda.

E a consequência daquilo terminou 8 anos depois, na noite mais vergonhosa da vida pública do fenómeno. Um motel na Lapa, no Rio de Janeiro, no ano de 2008. Paris, Junho de 98. A seleção brasileira chegou para o Mundial do Mundo de França como a grande favorita. O Ronaldo era a estrela absoluta. Tinha 21 anos, duas bolas de ouro seguida era o rosto publicitário mais caro do planeta.

A Nike acabava de assinar com ele um contrato pessoal de 100 milhões de dólares durante 10 anos. A camisola amarela número 9 era o produto desportivo mais vendido no mundo e em cada jogo do torneio, o Ronaldo fez golo contra Marrocos, contra o Chile, frente à Dinamarca nos quartos, contra a Holanda na meia-final numa decisão por penálti, onde ele próprio bateu o primeiro. O Brasil chegou à final.

O adversário era a França, no estádio dela, o estádio de France, em Sandi. 80.000 pessoa. Sábado, 12 de julho, 5 da tarde, hora local. O elenco estava concentrado no Chatô de Grand Romanville, um hotel de luxo há cerca de 20 minutos do estádio. E aí aconteceu o que durante 27 anos tentaram explicar de mil forma diferente, sem qualquer versão fechar de verdade.

Às 14h30, durante a sesta coletiva do elenco, o Roberto Carlos ouviu barulho estranho no quarto que partilhava com o Ronaldo. Entrou, encontrou o Ronaldo na cama, os olhos revirado, espumando pela boca, mordendo a língua, sacudindo-se de jeito convulsivo, sem respirar corretamente. O Roberto Carlos chamou aos gritos o César Sampaio, que dormia no quarto do lado.

Chegaram também o Edmundo e o Doriva. Os quatro seguraram o Ronaldo durante quatro ou 5 minutos até à convulsão parar sozinha. Chamaram o Dr. Lídio Toledo, médico do elenco. Levaram-no pro Hospital Pitier Saletrier, em Paris. Fizeram TAC, eletroencefalograma, análise ao sangue e deram alta 3 horas depois com um diagnóstico que durante anos ninguém conseguiu explicar.

Crise convulsiva sem causa neurológica aparente. Uma crise sem causa neurológica aparente. Foi isso que a imprensa repetiu durante 27 anos. A Nike confirmou, confirmou a CBF, os médicos assinaram e o Brasil entrou na final com o Ronaldo na equipa titular. Uma pessoa dentro da concentração convenceu o Dr. Toledo de que o Ronaldo podia jogar uma só pessoa.

E não era o Mário Zagalo, técnico da seleção. Não era o Américo Faria, chefe da delegação, não era nenhum diretor da Nike, era alguém que não devia estar dentro do hotel naquela tarde e entrou pela porta da frente sem ninguém barrar. O Mário Zagalo, técnico campeão do mundo em quatro taça como jogador e treinador, falou numa entrevista à Sport TV em 2018, 2 anos antes de morrer, uma frase que quase ninguém analisou.

Disse: “Decidi colocar o Ronaldo na final porque alguém me pediu, alguém que tinha mais autoridade do que eu naquele momento. E não era a Nike. A lenda da pressão da A Nike é mentira. A pressão veio de outro lado. Da família, da família. Três palavras. Uma vez numa entrevista de 7 anos atrás, o Zagalo nunca mais falou sobre o assunto.

E quando morreu em janeiro de 2024, os obituários brasileiro não se lembraram desta frase, mas os companheiros do elenco recordaram. O Roberto Carlos, em particular, numa conversa com o jornalista de O Globo em 2020, confirmou: “A família entrou no hotel nessa tarde e a família decidiu que o Ronaldo ia jogar. O Brasil perdeu do 3-0.

O Zinedn e Dani marcou dois golo de cabeça no primeiro tempo, o Emanuel Peti, o terceiro no segundo. O Ronaldo andou a final toda, não correu, não driblou, não saltou. Parecia um fantasma com a camisola amarela. Toda vez que encostava à bola, perdia. Toda vez que entrava na área, caía sozinho. E no fim do jogo, enquanto os franceses comemoravam o primeiro Campeonato do Mundo, o Ronaldo sentou-se no círculo central, abraçado com o Leonardo, chorando sem somos.

O Brasil inteiro chorou com ele. A imprensa defendeu, o Pelé saiu para apoiar. Os adeptos fizeram um cartaz que dizia: “A culpa não é tua”. E durante 27 anos, o Ronaldo carregou sozinho a culpa daquela final. Uma culpa que nunca devia ter sido dele, porque a pessoa que obrigou-o a jogar nessa tarde, a pessoa que entrou no quarto de hotel depois da convulsão, a pessoa que fechou a porta e conversou com ele 18 minutos antes de sair para dizer ao Zagalo que o seu filho estava em condições de jogar a final do mundo, era a mesma que

durante 20 anos tinha controlado cada grama do corpo do Ronaldo, era a Sónia Nazário. E o que ela disse dentro desse quarto, o Ronaldo confessou a um único amigo. Anos depois, em 2014. Durante um jantar privado em Madrid, um jantar que foi gravado por acidente. O Ronaldo jantava com três amigos num restaurante japonês do bairro de Salamanca. Tinha bebido, estava sensível.

O seu melhor amigo naquela altura, o Bruno Maranhão, ex-jogador de futebol e empresário, deixou o telemóvel em cima da mesa com o gravador ligado, sem o Ronaldo perceber. O Bruno não fez por mal, estava a gravar mesmo de trabalho e esqueceu. A gravação teve a duração de 7 minutos. E nesse 7 minutos, o Ronaldo contou pela primeira vez na vida, o que aconteceu naquele quarto de Paris.

A gravação nunca foi publicada. O Bruno guardou-a até 2022, quando morreu de enfarte em São Paulo. A viúva entregou a um jornalista da revista Veja sob condição de sigilo absoluto. O jornalista escutou, tomou notas, nunca publicou a matéria. A revista decidiu que o risco jurídico era demasiado elevado, mas as As notas do jornalista circulam em particular entre cinco ou seis pessoa do meio.

Uma delas partilhou com um colega argentino em 2023. O que o Ronaldo fala textualmente naquela gravação? Na parte em que fala da mãe é isso. A minha mãe entrou no quarto, fechou a porta, sentou-se na cama, pegou no meu rosto com as duas mão e disse que se eu não jogasse aquela final, tudo o que ela tinha sacrificado por mim desde os 9 anos não valia para nada.

Disse que era agora ou nunca, que o dinheiro, os contratos, a imagem, tudo dependia daquela noite. Perguntou se eu era homem ou era lixo. Foram estas as palavras dela, homem ou lixo. Eu estava tonto, não conseguia pensar. Eu disse que sim, que ia jogar. Ela sorriu, beijou-me na testa e saiu para dizer ao Zagalo que eu tava bem.

Depois entendi que ela tinha escutado os médicos. Sabia que eu não devia jogar. sabia que podia morrer em campo e não ligou. Não ligou. Essas três palavras são as mais dolorosas que o Ronaldo falou na vida dele. Falou embriagado em Madrid 16 anos depois da final. E 16 anos depois disso até hoje ele ainda não foi capaz de dizer isso em entrevista pública, porque dizer que era admitir que a mãe preferiu o jogo a vida dele e que nenhum filho brasileiro quer dizer em voz alta.

O O Brasil perdeu essa final. O Ronaldo carregou a culpa 27 anos e a verdadeira responsável sentou-se depois nos programas de televisão brasileira para falar do filho com orgulho, sem nunca uma única vez pedir-lhe perdão. Mas afinal de Paris não foi o pior momento que a Sónia provocou no Ronaldo, foi apenas o mais visível.

O pior começou um ano depois e começou com uma mulher, uma só mulher, a primeira na vida do Ronaldo que não pertencia ao sistema da sua mãe. Dezembro de 99, São Paulo. O Ronaldo estava a recuperar da primeira rotura do tendão rotuliano do joelho direito, sofrida em novembro, na segunda época dele no Inter de Milão. Regressou para o Brasil para fazer reabilitação.

Tinha 23 anos, estava deprimido, o joelho não respondia. E pela primeira vez na vida adulta dele, a Sónia não estava o tempo todo em cima dele, porque tinha ficado em Milão a resolver o assunto do contrato com a equipa italiana. Naqueles meses de solidão relativa, numa clínica de fisioterapia do bairro Jardins de São Paulo, o Ronaldo conheceu uma mulher, tinha 20 anos, era jogadora de futebol feminino, acabava de bater o recorde mundial de embaixadinhas, 55.

000 o toque sem deixar cair a bola no chão. A imprensa apelidou-a de A Rainha das Embaixadinhas. O nome dela era Milene Domingues. A Milene era tudo o oposto do que a Sónia tinha imaginado para o Ronaldo. Não era modelo, não era de uma família rica, não era brasileira do Rio, nem de São Paulo de classe alta.

Era da zona oeste de São Paulo, filha de uma família trabalhadora criada numa casa modesta do bairro Pirituba e tinha um temperamento forte. falava o que pensava, não se intimidava com a fama e tratava o Ronaldo desde o primeiro dia como um qualquer homem de 23 anos, não como fenómeno. O Ronaldo apaixonou-se em três semanas, confessou numa entrevista pro programa de Jô Soares, no ano 2000.

Falou: “Conheci uma mulher que me vê, não que me olhe, que me veja. É a primeira vez que isso acontece na minha vida”. iniciaram um relacionamento e começou também a pior crise interna da família Nazário. A Sónia ficou a saber do relacionamento em Fevereiro do ano 2000, quando regressou de Milão para São Paulo passar duas semanas com o Ronaldo.

Encontrou a Milene no apartamento. Estavam a almoçar. A Sónia não cumprimentou. foi logo para o quarto do Ronaldo, fechou a porta e exigiu que lhe terminasse o relacionamento naquela mesma tarde. Deu uma única razão. A Milene era pouca coisa a mais para ele. O Ronaldo, pela primeira vez na vida, disse à mãe que não.

A luta entre a A Sónia e a Milene começou nessa mesma semana e durou quase 4 anos. É a guerra interna mais longa que a família Nazário viveu e deixou uma cicatriz que nem o tempo nem o dinheiro conseguiram apagar. Em Dezembro do ano 2000, o Ronaldo e a Milene casaram-se numa pequena cerimónia em São Paulo.

A Sónia não foi, mandou uma nota de imprensa dizendo que estava indisposta. Na verdade, estava numa clínica do Rio, onde tinha sido internada 48 hor antes por uma crise de pressão arterial. Crise que, segundo o médico que a atendeu, foi provocada por stress emocional intenso. Esse médico contou em particular para um jornalista da Caras em 2007.

Três meses depois, em março de 2001, a Milene engravidou. O Ronaldo chorou de alegria quando soube era o seu primeiro filho e a ser pai. Tinha 24 anos. A Sónia ficou saber da gravidez duas semanas depois do Ronaldo e reagiu de uma forma que a Milene Domingues nunca esqueceu. Contou numa entrevista à revista Caras em 2004, após o divórcio.

Falou com cuidado, sem citar diretamente a Sónia, mas com clareza suficiente para todo o mundo entender. A Milene disse: “Quando Dei a notícia à família do Ronaldo, uma pessoa olhou para mim e falou só duas palavras. Estas duas palavras eu levo para o túmulo. E a partir desse momento entendi que esta gravidez não ia ser fácil.

As duas palavra que a A Sónia falou para a Milene quando soube da gravidez, aqueles que a Milene levou para o túmulo sem contar em público, ela contou em particular, anos mais tarde para uma amiga próxima, uma jornalista de O Estado de São Paulo, que publicou parcialmente numa coluna em 2018, sem citar nome.

As duas palavras foram: “Que pena, que pena! Foi essa a reação da avó paterna perante a gravidez do primeiro neto. Que pena. Sem parabéns, sem abraço. Que pena. E aquela frase foi o princípio do fim. O bebé nasceu no dia 2 de Abril do ano 2001 em São Paulo. Botaram o nome de Ronald sem o final para diferenciar do pai. Era um menino saudável, gordinho, com os mesmos dente torto do pai, com o sorriso da mãe.

O Ronaldo pegou no bebé ao colo e chorou durante quase uma hora na maternidade. A A Sónia chegou à maternidade dois dias depois, quando já tinham dado alta, não foi ao quarto, passou só para dizer oi na sala de espera e foi-se embora. Durante os três anos seguintes, o que a Sónia fez na vida da Milene, na vida do bebé Ronald e no casamento do Ronaldo foi sistemático, calculado, frio e devastador.

Com três semanas de idade, a Sónia mudou-se para o apartamento de Madrid, onde o Ronaldo e a Milene viviam, sem avisar. Disse que ia ajudar com o bebé. Ficou 4 meses. Durante estes 4 meses, não deixou a Milene amamentar em paz. Interrompia as mamadas. Falava paraa Milene como segurar o bebé. criticava a roupa que ela vestia no menino.

Falava com o Ronaldo na frente da Milene que o menino chorava muito porque a mãe estava nervosa. Aos seis meses, quando a Milene contratou uma ama, a A Sónia despediu em três dias. Falou que a ama era suspeita. contratou outra ela mesma, uma mulher de confiança do rio. Esta ama reportava para a Sônia, não para Milene, o que o bebé fazia todos os dias, que hora dormia, o que comia, se a Milene segurava-o pouco, se a Milene chorava em alguma divisão do apartamento.

Aos 12 meses de vida do menino, a Milene descobriu uma coisa mais grave. A Sónia tinha aberto, sem permissão, uma conta bancária no Brasil em nome do bebé Ronald Nazário, onde estava a depositar mensalmente uma parte do salário do Ronaldo, 15.000 por mês. A conta tinha como única procuradora a Sónia, não a Milene, não o Ronaldo.

Era uma operação de controlo financeiro a longo prazo sobre o futuro do neto. A Milene encarou o Ronaldo. O Ronaldo, em particular, pediu à mãe para fechar a conta e abrir uma nova em nome dos dois pai. A Sónia aceitou, mas um mês depois abriu outra conta paralela noutro banco, sem avisar o filho. Esta segunda conta funcionou durante 6 anos.

O Ronaldo só descobriu em 2008, tarde demais. Entre 2002 e 2003, o Ronaldo e a Milene se separaram-se e voltaram três vezes. Cada separação coincidia com uma longa visita da Sónia, cada regresso com uma ausência. O padrão era tão claro que o psicólogo que a Milene atendia em Madrid, o Dr. Rafael Esteban, falou-lhe numa sessão, uma tarde de Abril de 2003: “O que está que lhe está a acontecer não é com o seu marido, é com a mãe.

E enquanto aquela mulher tiver na vida do Ronaldo, não tem casamento possível.” A Milene escutou e começou a planear. O que a Milene Domingues fez entre maio e julho de 2003, em silêncio, sem que ninguém perceber, sem o Ronaldo saber, sem a Sónia desconfiar, é um dos momentos mais frio e calculado desta história. E a pessoa que a ajudou a fazer isso foi alguém que a família Nazário nunca tinha imaginado.

Era o pai do Ronaldo, o Nélio Nazário, o alcoólico abandonado no Rio em 90, o homem que a Sónia tinha apagado da vida do filho. Este homem, em 2003, ainda estava vivo e ainda se lembrava do que a esposa lhe tinha feito e odiava a Sónia com um ódio frio de 13 anos. O que fez a Milene Domingues entre Maio e Julho de 2003 foi planeado numa série de encontro secreto com o Nélio Nazário, pai biológico do Ronaldo, em café do bairro Tijuca do Rio de Janeiro.

Quatro encontros, duas horas cada, sem testemunha, sem gravação, sem telefone. O Nélio entregou à Milene informação que nem o próprio Ronaldo sabia. Entregou documento, entregou o nome, entregou prova de movimentação bancária, entregou um caderno manuscrito que a A Sónia tinha-se esquecido na casa de Bento Ribeiro quando se mudou para Belo Horizonte em 90.

Um caderno de capa castanho onde a Sónia tinha anotado durante anos cada cêntimo que entrava na família por causa do futebol do Ronaldo, cada despesa, cada investimento e numa parte no final uma lista de nome com descrição brutalmente direta. Essa lista tinha um título escrito A mão pela Sónia.

Dizia: “As pessoas que não servem para o meu filho”. E em baixo os nome com observação. Tinha o nome do pai, alcoólico inútil, eliminar o contacto. Tinha o nome de um amigo de infância do Ronaldo chamado Wagner. Má influência já bloqueado. Tinha o nome da primeira namorada adolescente do Ronaldo em Bento Ribeiro, de nome Cristiane. Família pobre, não tem apelido, já bloqueada.

tinha o nome de dois massagistas do Barcelona, ​​demasiado amigos, despedidos, e tinha o nome da Milene Dominguez, datado de 7 de Fevereiro do ano 2000, com três palavras ao lado, não lhe serve. A A Milene leu aquele caderno todo, tirou fotocópia, guardou e tomou uma decisão que mudou toda a história.

No dia 28 de Julho de 2003, sem avisar ninguém, sem mala, sem bagagem grande, apenas com uma mala de mão, um passaporte e o bebé Ronald de 2 anos ao colo, a Milene Domingues entrou num avião com destino a Milão, Itália. Tinha um apartamento arrendado em nome dela desde há dois meses antes, no bairro da Breira. Tinha um advogado italiano contratado por contacto do pai do Ronaldo e tinha uma ação de divórcio já preparada para apresentar.

O Ronaldo só soube quando chegou no apartamento de Madrid nessa mesma noite e encontrou a casa vazia. Os brinquedos do bebé no lugar, o berço intacto, a roupa da Milene pendurada no armário, apenas uma carta em cima da mesa da cozinha. Uma carta de duas págin escrita à mão com caneta azul. A carta começava assim, segundo foi transcrita no processo de divórcio italiano que depois tornou-se público em 2005.

Ronaldo, eu não consigo mais viver dentro da casa da sua mãe, porque é isso que este casamento é, uma casa que ela ocupa com um corpo invisível, que pisa cada divisão, em cada berço, em cada cama. Eu adoro o nosso filho mais do que qualquer pessoa no mundo e por isso estou a levá-lo daqui, porque se eu o deixar crescer perto dela, ele vai sair destruído tal como tu saiu. Eu não vou permitir.

A carta terminava com uma frase curta que o advogado italiano leu em voz alta numa audiência preliminar em Milão, em Fevereiro de 2004. Uma frase que a A imprensa italiana publicou parcialmente, mas que a imprensa brasileira nunca reproduziu-se inteira. A frase dizia: “E há mais uma coisa que precisa saber.

A última vez que a sua mãe esteve neste apartamento, ela falou na minha cara, sem ti presente, que ela ia viver mais anos do que eu e que quando eu morresse, ela ia criar o Ronald igual criou-o”. Esta frase foi ontem, por isso vou embora hoje. A Milene Domingues, hoje com 46 anos, vive em Madrid com um novo companheiro e mais dois filhos.

Nunca, em 22 anos, voltou a falar em público sobre a família Nazário. Quando perguntam dela sobre a Sónia, a resposta é sempre a mesma. Um sorriso frio, um movimento curto de cabeça e a frase: “É melhor para todos os mundo que eu não diga nada”. O Ronald Nazário, o filho de ambos, tem hoje 24 anos. É influencer e modelo. Mora entre Madrid e o Rio.

Tem uma relação distante com o pai, uma relação educada, mas sem profundidade. Ele próprio falou numa entrevista ao canal Multishow em 2023, quando perguntaram pela figura paterna. O Ronald respondeu: “Cresci longe. A minha mãe explicou-me porquê e eu entendi. Não guardo mágoa, mas também não guardo memória que não tenho. A A Sônia Nazário nunca mais viu o Ronald Nazário depois dos 2 anos, 22 anos sem ver o primeiro neto.

Uma decisão que a Milene Dominguez tomou, ratificada legalmente pelo tribunal de Milão em 2005, sustentada até ao dia de hoje. A Sónia em entrevista diz que sente saudades do neto, que envia um presente de aniversário que a mãe devolve sem abrir, que é uma tragédia familiar, mas nunca conta o verdadeiro motivo, nunca cita o caderno de capa castanha, nunca cita a lista, nunca cita a frase do viver mais anos que a Milene a ouviu falar.

Mas o caderno castanho com a lista de nome não terminou ali, porque naquela lista tinha outro nome que a Milene leu em 2003. Um nome que naquele momento não significava nada para ela, mas que dois anos depois, em 2005, ia aparecer na primeira página de todos os jornal do mundo. Era o nome de uma modelo brasileira, uma mulher jovem, morena, alta, bonita, a segunda mulher real da vida do Ronaldo, a mulher que ia casar com ele num castelo francês com 700 convidados.

Um casamento que foi cancelado cinco dias antes. Um casamento que todo o Brasil acompanhou na televisão sem compreender o que tinha acontecido. O que aconteceu foi exatamente o que a Sónia Nazário tinha escrito naquele caderno castanho do lado desse nome numa data que coincide com a primeira vez que o Ronaldo apresentou a mulher num jantar de família.

A Sónia escreveu três palavras do lado do nome. Três palavras que selaram o destino daquela relação mesmo antes da mulher saber que estava numa lista. Três palavras que a Sónia repetiu, quase idêntica, dois meses antes do casamento paraa própria mulher, cara, num apartamento de Madrid, numa conversa de 2 horas, que terminou com a perda de um bebé e o cancelamento de um casamento e que, exatamente 3 anos depois, dia a dia, levou o Ronaldo para um motel mais vergonhoso do Rio de Janeiro.

O nome que estava na lista do caderno castanho numa data de Maio de 2004 era o de Daniela Sicarelli, modelo 22 anos, natural de Belo Horizonte. Pai empresário imobiliário carioca com negócio no setor hoteleiro, mãe proprietária de casa. A Daniela tinha-se estreado como VJ da MTV Brasil aos 20 anos. Era jovem, bonita, alta, com um sorriso aberto e um temperamento independente.

E conheceu o Ronaldo em Março de 2004 numa festa em São Paulo, 8 meses depois da fuga da Milene paraa Itália. O Ronaldo estava destruído emocionalmente. A separação com a Milene tinha sido brutal. O bebé Ronald, que tinha do anos, vivia em Milão com a mãe. As visitas eram difícil, controlada por advogado, espaçada no tempo.

E o Ronaldo, em Março de 2004, regressava a Madrid depois de uma má temporada no Real Madrid, onde o joelho lhe tinha falhado novamente duas vezes. Naquela festa de S. Paulo, alguém o apresentou a Daniela. Conversaram 4 horas seguidas. Nessa mesma noite, o Ronaldo pediu o telefone dela. Uma semana depois, estavam juntos.

Três meses depois, tinham mudou-se para o apartamento de Madrid Ronaldo, no bairro de La Moraleja. A Sónia soube do novo relacionamento no finais de Maio de 2004. Nessa mesma semana, no caderno castanho, escreveu o nome da Daniela e ao lado pôs três palavr. As mesmas três palavra que tinha escrito ao lado do nome da Milene 4 anos antes não lhe serve.

Mas desta vez a Sónia não esperou 4 anos para agir. Desta vez agiu em 4 meses. Em setembro de 2004, a Sônia voou para Madrid. Era a primeira visita dela ao apartamento desde a mudança da Daniela. O Ronaldo estava concentrado com o Real Madrid em Maiorca para um jogo da Champions. Não estava em casa. A Sónia apareceu no apartamento sem avisar às 15 horas, tinha chave.

Entrou, encontrou a Daniela na cozinha a fazer um café e pediu para ela sentar-se na sala que precisava conversar. Aquela conversa durou 2::40, iniciou-se às 3:10 da tarde e terminou às 5:50. A Daniela nunca contou em público o que a Sónia disse naquela tarde. Deu só uma entrevista sobre o assunto em 2012 para revista Quem, onde perguntaram por o casamento de 2005 foi cancelado.

A A Daniela respondeu com uma única frase: “Há uma pessoa que me fez entender que eu nunca ia fazer parte daquela família e prefiro não falar mais. Mas tem outra fonte. Uma amiga próxima da Daniela, que estava no apartamento de Madrid naquela tarde quando a Sónia se foi embora, declarou anos depois a um jornalista de O Globo, numa entrevista anónima publicada parcialmente em 2015, o que a A Daniela contou-lhe naquela noite chorando.

A Sónia disse à Daniela três coisas, as três com uma precisão de arrepiar. A primeira, que a Daniela não era do nível que o Ronaldo merecia, que a família Nazário tinha construído o Ronaldo durante 15 anos para ser o melhor jogador do mundo e que nenhum casamento improvisado com uma modelo da A MTV ia destruir aquele trabalho. Que se a Daniela queria o Ronaldo tinha duas opção: ficar como namorada informal, sem papel, sem filho, sem público, pelo tempo que durasse o capricho, ou ir embora em silêncio antes de fazer escândalo. A segunda, que a Sónia sabia

coisa da família Sicarelli que a imprensa ainda não tinha publicado. Sobre os negócios imobiliários do pai da Daniela, sobre uma queixa arquivada de zoneamento irregular no Rio, sobre acordo não oficial com o político carioca, que estes dados estavam guardado num cofre da Sônia no Rio, que se a Daniela ficasse com o Ronaldo em termo de casamento formal, estes dados podiam vazar por acidente.

A terceira, e esta é a que a Daniela repetiu à amiga chorando nessa noite. A Sónia falou: “Olha, não te conheço. Não quero mal nem bem para si, mas eu conheço o meu filho e sei que em seis meses ele te trai com a primeira mulher que cruzar o caminho, porque foi isso que eu ensinei para ele, a não se prender a uma única mulher.

Não é a primeira, não vai ser a última”. A questão é se quer poupar-se da dor de descobrir quando a imprensa já tiver a filmar. A Daniela escutou as três coisas em silêncio, não respondeu, esperou que a Sónia terminasse, depois levantou-se, caminhou até à porta, abriu e pediu-lhe para ir embora. A A Sónia foi, mas a Daniela não foi.

Não nessa tarde, não nessa semana, não nesse mês, a Daniela decidiu lutar. tinha 22 anos, estava apaixonada e subestimou o que tinha pela frente. Três meses depois, em dezembro de 2004, a A Daniela engravidou. O Ronaldo soube em janeiro, pediu-a em casamento num jantar num restaurante de Madrid no dia 14 de Fevereiro de 2005. A Daniela aceitou.

Decidiram casar no Chatô de Chantilly, em França, no dia 14 de maio de 2005. 3 meses para organizar tudo. 700 convidado confirmado, vestido de versatil, helicóptero alugado, 600.000 € de sinal depositado no castelo, uma operação de casamento das maior do futebol mundial. E a Sónia, que tinha recebido a notícia do noivado por uma ligação formal do Ronaldo no dia seguinte ao pedido, não falou nada em público.

Sorriu nas poucas notícias em que perguntaram por ela. Falou que estava feliz pelo filho, que apoiava a decisão, que ia estar no casamento como qualquer mãe. Mas em particular, em Março de 2005, dois meses antes do casamento, a Sónia regressou a Madrid sem avisar de novo. Desta vez a conversa com a Daniela não durou 2:40, durou 45 minutos e o resultado foi outro.

O que aconteceu naquele apartamento da madre no dia 26 de Março de 2005, numa tarde de domingo, enquanto o Ronaldo estava no Santiago Bernabeu, jogando contra o Atlétic de Bilbau, foi reconstruído o partir de três fontes. Os apontamento privado do psicólogo que a Daniela prestava serviço em Madrid, o Dr.

Rafael Esteban, que foram parcialmente citados numa matéria de El Mundo em 2015, sem que o autorização do doente. O depoimento da empregada doméstica do apartamento, uma colombiana que escutou parte da conversa da cozinha do lado e contou anos mais tarde para um jornalista uruguaio da revista Rapazes numa entrevista paga.

E as lembranças da própria Daniela, que partilhou o excerto com duas amigas íntima em Abril de 2005, antes do cancelamento público. A Sónia chegou no apartamento às 15:10 da tarde. A Daniela estava sozinha, grávida de 14 semana. A A Sónia sentou-se na sala, tirou da mala um envelope fechado, pôs em cima da mesa e começou a falar.

Ofereceu à Daniela 500.000 € para abortar e cancelar o casamento. 500.000 € em dinheiro depositável numa conta na Suíça naquela mesma segunda-feira. Em troca, a Daniela tinha de cancelar o casamento publicamente, alegando diferença pessoal: devolver o anel, sair do apartamento de Madrid e assinar um acordo de sigilo que a obrigava a nunca falar da família Nazário em público. A Daniela escutou.

Dessa vez não se levantou de imediato. Desta vez fez uma pergunta à Sónia. Uma só pergunta. Perguntou porquê. A Sónia respondeu com três palavras. As mesmas três palavras do caderno castanho. não lhe serve. E acrescentou mais uma coisa. Falou para Daniela que o Ronaldo já tinha traído ela três vezes no seis meses anterior e falou os nome e os lugares.

Uma comissária da Lufitanza em Frankfurt, uma modelo argentina em Buenos Aires, uma vizinha do edifício de Madrid. Mostrou foto. A A Sónia tinha um detetive particular contratado desde outubro de 2004, que seguia o Ronaldo a tempo inteiro. Tinha um dossier de 40 página. A Daniela olhou para as foto. As três eram reais.

As três tinham data, lugar e testemunha. E depois aconteceu uma coisa que nenhuma testemunha previu. A Daniela não chorou, não gritou, não atirou as fotos para a Sónia, apenas ficou calada durante vários minutos, sentada no sofá com a mão na barriga. Depois disse à Sónia uma frase curta, uma só frase, e a Sónia lembrou-se daquela frase durante anos e repetiu várias vezes, em particular para familiar próximo.

A frase da Daniela naquela tarde, palavra por palavra, foi esta: “Se o seu filho é assim, foi porque você fez ele assim. Eu não quero reparar o o seu trabalho. Fica com ele.” A Sónia se levantou-se, pegou no envelope com o dinheiro, não deixou em cima da mesa, levou e foi-se embora. Duas seman depois, no dia 9 de Abril de 2005, a Daniela Sicarelli perdeu o bebé, aborto espontâneo.

14 semana e meia era uma menina, ia chamar-se Maria Sofia. A Daniela nunca confirmou em público que o aborto tivesse relação com o stress da conversa com a Sónia. Os médicos dela em Madrid registaram no processo clínico como perda fetal por causa não determinada. Mas o seu psicólogo, o Dr. Steban, escreveu nos apontamentos privado dessa semana uma frase que depois saiu na reportagem de É o Mundo de 2015.

A frase dizia: “A minha paciente liga a perda a um episódio de violência psicológica da sogra ocorrido duas semana antes.” A A Daniela contou ao Ronaldo do aborto. Contou também, desta vez sem esconder nada, o que a Sónia tinha oferecido e falado duas semanas antes. As foto, os nomes, as traições, os 500.000 €. O Ronaldo ouviu, não reagiu de imediato, depois trancou-se no banheiro do apartamento. Esteve duas horas lá dentro.

Quando saiu, estava com os olhos vermelho e o rosto inchado. Sentou-se na cama ao lado da Daniela, pegou na mão dela e pediu desculpa. Falou que as traição eram verdade, que era um cobarde, que entendia se ela quisesse romper. A Daniela rompeu no dia 9 de Maio de 2005, cinco dias antes do casamento marcado para o Chatô de Chantilly, a Daniela Sicarelli anunciou numa nota curta entregue à revista Quem e o cancelamento oficial.

O motivo público foi diferença irreconciliável, devolveu o anel, saiu do apartamento nessa mesma noite, voou para São Paulo e não voltou a ver o Ronaldo em particular durante anos. 700 convidado receberam uma chamada de cancelamento. O castelo ficou com o sinal de 600.000 €. A Versatil doou o vestido para um leilão beneficente e o Brasil inteiro viu a notícia no jornal sem perceber nada.

O que ninguém soube, o que durante 20 anos ficou escondido, é que a pessoa que destruiu aquele casamento não foi a Daniela, não foi a traição do Ronaldo, não foi a diferença inconciliável, foi a Sônia Nazário duas vezes em duas conversas, uma em Setembro de 2004 e outra em Março de 2005, no mesmo apartamento, na mesma sala, com o mesmo caderno castanho guardado na bolsa.

Três palavras escrita, três palavras dita e uma vida inteira destruída. Depois do cancelamento do casamento, o Ronaldo entrou numa espiral escura que durou 3 anos. Voltou a viver sozinho em Madrid. O seu rendimento no Real Madrid piorou. As lesãos multiplicaram-se. O joelho direito falhou pela quarta vez em Fevereiro de 2006.

Depois o esquerdo em setembro. Depois um estiramento muscular em março de 2007. Em janeiro de 2007, o Milan comprou-o por 8 milhões e meio de euro, uma transferência ridícula para alguém que 5 anos antes valia 50 milhões. O Ronaldo aceitou, precisava de sair de Madrid, precisava de sair do apartamento dele, precisava de sair das memórias da Daniela e do bebé que não nasceu.

Em Milão fez meia época decente, mas em Fevereiro de 2008 outra ruptura de tendão. A quinta, desta vez num jogo contra o Livorno. E os médicos do Milan, depois da operação, falaram em particular o que nenhum médico antes tinha tido coragem para falar. Falaram que A sua carreira profissional tinha terminado, que o corpo já não dava, que cada vez que voltava a jogar era questão de mês até à próxima rotura.

O Ronaldo chorou durante quatro dias seguido no apartamento de Milão, sozinho, sem um amigo perto, sem a Daniela, sem a Milene, sem o Ronald, que vivia a 30 km, mas que não tinha ido visitar em seis meses por ordem do juiz. e sem a mãe que estava no Rio a cuidar dos investimentos imobiliário que tinha feito em nome do filho.

Em pouco tempo, em Março de 2008, o Ronaldo voou para o Brasil para iniciar a reabilitação, se instalou num apartamento na Barra da Tijuca e depois apareceu a Sónia. A Sónia falou com o Ronaldo na primeira semana de volta que tinha uma solução. Uma solução que lhe ia mudar a vida. Ia apresentar ele para uma mulher, uma mulher adequada, uma mulher que já estava preparada para entrar na família.

A filha de uma amiga da Sónia, uma advogada de 38 anos, divorciada, de uma família tradicional carioca. O Ronaldo não conhecia, mas a Sónia já tinha conversado com ela. Estava tudo combinado. Iam ter um primeiro jantar no sexta-feira, 25 de Abril de 2008. Este jantar aconteceu. O Ronaldo foi, sem discutir, sem brigar, sem dizer que não, comeu em silêncio, voltou ao apartamento dele às 11 da noite e no dia seguinte, sábado 26 de abril, enviou uma mensagem para a mãe pelo telemóvel.

A mensagem tinha cinco palavra: “Eu não Vou casar”. A Sónia respondeu por telefone nessa mesma tarde com a frase que o Ronaldo transcreveu para o psiquiatra dele numa consulta três dias depois. A frase da Sónia foi: “Se não casas com ela, não irei no seu próximo casamento e se eu não vou, não tem mãe?” Esta frase desencadeou o que decorreu na noite de segunda-feira, 28 de abril de 2008.

3 anos exatos depois da conversa entre a Sónia e a Daniela em Madrid. Trs anos exactos depois do inicio do fim do único relacionamento amoroso real do Ronaldo, dia a dia. Na noite do dia 28 de Abril de 2008, o Ronaldo estava no Rio de Janeiro. Tinha saído às 9 da noite do seu apartamento na Barra. Jantou sozinho num restaurante japonês do bairro do Leblon.

Tomou duas garrafas de vinho. Às 11:30 deslocou-se no próprio carro para a Lapa, o bairro do Boio do centro do Rio. Estacionou numa rua paralela à Avenida da Mendá. Entrou num bar chamado Boémia. onde tocava uma roda de samba. Tomou três caipirinha e à 1:20 da madrugada saiu do bar, caminhou três quarteirão para sul até uma área conhecida no rio pela prostituição de rua noturna.

Ali na esquina das ruas Joaquim Silva e Riachuelo, o Ronaldo subiu no próprio carro com três pessoa, três travesti brasileiro, Andreia Albertini, Patrícia Melo e Andreia Bezerra, todos identificado depois pela Polícia Civil. O Ronaldo conduziu com eles até um motel denominado VIPs, na rua Riachuelo, a quatro quadra do ponto onde os tinha apanhado.

Entrou no motel à 1:42 da madrugada, pediu um quarto, pagou em dinheiro. O que aconteceu dentro daquele quarto nas 3 horas seguintes foi o que depois saiu em todos os jornal do Brasil. Uma discussão sobre dinheiro, acusação cruzada, uma chamada para o gerente do motel, uma intervenção policial, foto do Ronaldo a sair do lugar às 4:30 da madrugada, com cara de derrota total, com a camisa aberta, com os olhos inchado.

As foto deram a volta ao mundo em 12 hor. A carreira publicitária do Ronaldo levou um golpe do qual nunca se recuperou de verdade. A Nike reduziu o contrato. A seleção brasileira deixou de convocá-lo. A imprensa crucificou-o durante três meses. Mas o que nenhum jornal contou, o que a imprensa brasileira não investigou nunca é que o Ronaldo tinha planeado aquela noite com precisão.

Três dias depois, no dia 1 de Maio de 2008, o Ronaldo entrou pela primeira vez na vida numa consulta psiquiátrica regular. O psiquiatra se chamava-se Dr. António Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de A psiquiatria naquele momento com consultório em Brasília. O Ronaldo voou paraa Brasília só para esta primeira consulta.

Voltou 10 vezes mais entre Maio e Agosto de 2008. Na quarta sessão datado de 12 de maio de 2008, o Ronaldo entregou ao Dr. Geraldo uma carta manuscrita de quatro página. Pediu para ele guardar. disse que era uma carta que tinha escrito à mãe dois dias depois do episódio do motel, no dia 30 de abril, mas que nunca tinha enviado.

Pediu ao psiquiatra conservar até ao dia em que tivesse coragem de entregar em mão. O Dr. Geraldo guardou e conservou até ao dia de hoje. Está num cofre do consultório dele em Brasília. O Dr. Geraldo da Silva, hoje com 71 anos, já reformado da prática clínica, mas ainda ligado à Associação Psiquiátrica Brasileira, contou a existência desta carta numa entrevista para o programa Roda Viva da TV Cultura em 2022.

não revelou o conteúdo, mas confirmou que existia e leu no ar, com a autorização do Ronaldo, segundo ele mesmo esclareceu, uma única frase da carta, aquela que o próprio Ronaldo tinha marcado a vermelho na margem. A frase que o Dr. Geraldo da Silva leu na televisão brasileira em 2022, palavra por palavra, foi esta: “Mãe, eu não entrei naquele motel pelas mulheres.

Eu entrei sabendo que as fotos iam sair, sabendo que o escândalo ia rebentar e entrei porque era a única forma da senhora entender que eu não sou propriedade sua. Eu sou um homem e prefiro ser o homem mais destruído do Brasil do que ser o seu fantoche um dia a mais. Quando a senhora ler isto, já vai-se lá saber que eu não quero ver a senhora nunca mais.

Mas sabemos que daqui a um mês vou voltar, porque a senhora ensinou-me a não conseguir viver sem a senhora. E esse é o verdadeiro inferno. O Ronaldo voltou um mês depois, igual tinha escrito. No dia 3 de junho de 2008, a Sônia Nazário voou para o Rio de Janeiro e mudou-se para o apartamento do Ronaldo na Barra. O Ronaldo não protestou.

A carta nunca chegou à mão da Sónia, ficou no cofre do psiquiatra. E durante os 17 anos seguintes, nem uma vez mais o Ronaldo tentou separar-se de verdade da mãe. 17 anos depois daquela carta, a Sônia Nazário ainda vive com o Ronaldo ou perto dele, dependendo do ano e da cidade. Continua a ser a pessoa que mais intervém na vida pública dele.

Continua a aparecer nos programas de televisão brasileira, sorrindo para as câmaras. Continua a falar a frase que repete sempre: “Eu construí-o. Eu vou estar do lado dele até ao último dia”. Quando o Ronaldo se retirou do futebol profissional em 2011, a Sónia estava na conferência de imprensa, na primeira fila, vestida de branco, sem sorrir.

Quando o Ronaldo comprou o Internacional do Porto Alegre e depois o Real Valadoli da Espanha, a Sônia assinou como assessora das operação. Quando Ronaldo se casou pela terceira vez com a modelo Celina Lox em 2024, após 15 anos de namoro, a Sónia estava no casamento, sentada na primeira fila, com o mesmo vestido branco que tinha usado em cada prémio bola de ouro, 28 anos antes.

E nos últimos ano, em cada entrevista, o Ronaldo evita dizer o nome da mãe. Quando perguntam por ela, faz uma pausa longa, engole e diz a frase curta: “A minha mãe deu-me tudo. Devo tudo que sou para ela. Ela está sempre comigo e muda de assunto rapidamente. Quem conhece a linguagem corporal do Ronaldo na câmara consegue ver o que está a acontecer.

A a sua respiração acelera, olha para o chão, mexe as mãos e a voz quebra na última sílaba da última frase, como se até hoje, aos 49 anos, ainda não tivesse digerido o que aconteceu na tarde de 12 de de Julho de 98 em Paris, na tarde de Março de 2005 em Madrid, na noite de 28 de de Abril de 2008 na Lapa.

O Ronaldo não é livre. Não foi aos 9 anos no campinho de Bento Ribeiro. Não foi aos 13 com as cápsulas ao pequeno-almoço. Não foi aos 21 com a mão da mãe a arrastá-lo para uma final do mundo que quase o matou. Não foi aos 27 anos a ver a Milene fugir para Itália com o filho. Não foi aos 29 depois da conversa da mãe com a Daniela em Madrid.

Não foi aos 32 no Motel da Lapa, numa rebelião final que terminou com ele a regressar um mês depois. E não é hoje, aos 49 anos, com duas Taças do Mundo, duas bolas de ouro e uma mãe que vai sobreviver a ele ou vai enterrar ele, dependendo de quem morrer primeiro, mas que de qualquer maneira vai chorar na televisão brasileira, lembrando tudo o que sacrificou pelo filho dela.

Essa não é a história de um jogador de futebol que venceu duas Copas do Mundo. É a história de um homem que nunca conheceu a palavra liberdade. Um homem cuja mãe explicou para ele aos 10 anos que uma bola era mais mãe do que ela, porque era a bola que o ia levar para algum lado. E o miúdo acreditou e carregou essa crença durante 40 anos. E ainda carrega.

Tem milhão de Sónia no mundo, irmão. Mãe que confundem amor com posse. Pai que confundem orgulho com propriedade. Família que confundem sacrifício com direito de controlar. Filho que crescem acreditando que o amor de pai e mãe se mede pela quantidade de hora que aquele pai e aquela mãe investiram para fazer o filho render.

E adulto que chegam aos 50 anos sem ter coragem de partir o cordão que sufoca. Porque quebrar é admitir que toda a vida foram mercadoria e não filho. O Ronaldo é um deles, o mais famoso, o mais rico, o mais visível, mas tão preso como qualquer homem ou mulher que nessa noite, em qualquer cidade brasileira não tem coragem para atender o telefone quando vê o nome do mãe no ecrã, porque sabe que aquela ligação vai destruí-lo durante três dias.

Se é um deles, este vídeo é para si. Se a tua mãe te formou igual ao Ronaldo foi formado, se o seu pai lhe tratou como um projeto e não como um filho, se a sua companheira ou o seu companheiro veio de uma família assim e ainda não percebeu o peso que ele carrega, este vídeo é para si. E se conhece alguém assim, alguém preso num sistema de controlo familiar que se disfarça de amor, subscreve o canal, partilha este vídeo com essa pessoa, não para ela confrontar ninguém, só para ver, para compreender que não está sozinha, para saber que o silêncio do Ronaldo, as lágrimas

da Milene, a perda da Maria Sofia, a rebelião da Lapa, tudo isto foi obra de uma única mulher que ainda hoje aparece sorridentes na televisão brasileira sem ninguém pedir conta dela. Liga para essa pessoa esta noite, irmão, antes que seja tarde. Igual foi tarde para o Ronaldo com o pai, que faleceu em 2018, sem que ele conseguir reconciliar-se de verdade.

O mesmo foi tarde com a Milene, que levou o filho para outro país e nunca mais voltou. O mesmo foi tarde com a Daniela, que perdeu um bebé em silêncio e foi-se sem brigar. E igual vai ser tarde para todos no dia em que finalmente a gente perceber o que estava a calar.

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