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MARADONA: A VERDADE VEIO À TONA

Melhor jogador do mundo, ídolo da Argentina, mão de Deus. E esse mesmo homem, 34 anos depois, foi encontrado morto numa cama mal feita de uma casa alugada do bairro de Tigre ao meio-dia e 16 do dia 25 de novembro de 2020, sozinho, com um coração que pesava 500 g, o dobro do normal.

Mas naquela manhã, naquela casa, tinha uma pessoa que não devia estar ali, uma pessoa cujo nome aparece em nenhum processo do julgamento. Uma pessoa que entrou às 4:20 da madrugada, saiu às 7:35 e levou uma coisa, uma coisa que estava na mesinha de cabeceira do lado do corpo, uma coisa que a promotoria argentina nunca conseguiu encontrar.

Uma das enfermeiras viu, falou tudo na primeira declaração, depois se retratou e desde aquele dia mora sob proteção judicial numa província do sul da Argentina, cujo nome a justiça mantém em sigilo. Quem era essa pessoa? O que levou do quarto do Maradona naquela madrugada? E principalmente quem mandou ela ir ali? Nós vamos chegar. Não saia daí.

Porque para entender o que aconteceu naquela casa de tigre, tem que voltar muito antes, 60 anos antes. Há uma vila miséria ao sul de Buenos Aires. Há um menino que chutava uma bola de pano numa rua de terra e a uma mãe que mentiu durante 12 anos para que ninguém soubesse a verdade. Vila Fiorito, província de Buenos Aires.

30 de outubro de 1960. Ali nasceu o Diego Armando Maradona, o quinto de oito filhos. O pai, Dom Diego Senior, conhecido como Shitoro, era pescador e operário. Trabalhava numa fábrica que processava restos de animais. Voltava para casa com cheiro de sangue. A mãe, dona Tota, era dona de casa.

Cozinhava para 10 pessoas com o que dava para quatro. Quando não dava, falava que ela já tinha comido, mentia. Sentava num canto da cozinha e ficava olhando os filhos comerem sem encostar em nada. Quando o Diego tinha 6 anos, dona Tota perdeu 10 kg em 4 meses, 6 kg no primeiro mês, quatro nos seguintes. O médico do bairro, um tal Dr. Kan, atendeu ela de graça.

Diagnóstico, desnutrição grave. Perguntou o que estava acontecendo. Dona Tota não respondeu. O médico insistiu e a mãe do futuro melhor jogador do mundo falou para ele só cinco palavras. Cinco palavras que iam marcar o Diego até o último dia. Meus filhos comem primeiro, doutor. Meus filhos comem primeiro, doutor.

Essa frase, esse sacrifício invisível foi o primeiro pilar da culpa que o Maradona ia carregar pelo resto da vida. O Diego só ficou sabendo 12 anos depois, aos 18, quando já jogava no Argentinos Juniors e ganhava mais dinheiro do que a família inteira tinha visto junta. Naquela tarde, na cozinha da casa que ele tinha comprado pros pais num bairro decente de Buenos Aires, o Diego perguntou pra mãe por que ela não comia com eles quando ele era criança.

Dona Tota olhou para ele um momento e respondeu sete palavras. Mãe, nunca tem fome, meu amor. Mãe, nunca tem fome, meu amor. O Diego saiu da cozinha sem terminar o prato, andou até o banheiro, trancou a porta e chorou. chorou durante 40 minutos. O Diego Armando Maradona, que em poucos anos ia ser o melhor jogador do planeta, chorava no banheiro da casa da mãe porque tinha acabado de descobrir que a mulher que tinha parido, ele tinha passado fome durante anos para alimentar ele. E daquela tarde em diante começou a

levar presente pra dona tuta toda vez que podia. Comida, joia, casa, carro, como se desse para devolver. Com o último dia da vida dele, nunca parou de tentar. A bola chegou na vida dele aos 3 anos. Foi o tio Cirilo quem deu uma bola de couro de presente no aniversário. O Diego dormiu abraçado naquela bola durante três anos seguidos.

A mãe tinha que esperar ele dormir para tirar a bola e lavar a mão dele cheia de terra. Aos sete já jogava melhor que os moleques do bairro que tinham 13. Aos 8 foi descoberto por um olheiro chamado Francisco Cornejo. Ia controlar ele durante 40 anos. Um homem cujo nome nos últimos meses do Maradona apareceu mais vezes que o de profissionais.

5.000, 10.000, 15.000 toques sem deixar a bola cair. Os argentinos não conseguiam acreditar que um menino fazia aquilo, mas o Diego não jogava por dinheiro, jogava para tirar a mãe da Vila Fiorito. E aquela obsessão, aquela dívida com uma mulher que tinha perdido 10 kg por ele foi o motor da carreira dele e também o começo da destruição.

Aos 15 anos, estreou no Argentinos Juniors 10 dias antes de completar 16, um jogo contra o Taleres de Córdoba. Entrou no segundo tempo, tocou a bola cinco vezes, cinco, três dribles em zagueiros 10 anos mais velhos, uma assistência perfeita e uma falta queistas não sabiam o que escrever. O César Luiz Menotti, técnico da seleção argentina naquela época, falou duas semanas depois uma frase que virou histórica.

Esse moleque, falou o Menot, vai ser o melhor jogador que o mundo vai ver. tinha razão e sem saber também estava a prever uma tragédia. Aos 17 chegou a de dólares, uma fortuna em 1982. Dom Diego, o seu pai, não sabia ler. A Dona Tota também não compreendia a cláusula jurídica. E depois apareceu ele, o Guilhermo Cópola.

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O Copola tinha 40 anos quando entrou na vida do Maradona. era ex-bancário, tinha trabalhado em finanças, tinha ligações com clubes europeus, ofereceu ao Diego um trato simples. Tu jogas, eu trato de todo o resto: imprensa, [música] viagens, casas, mulheres, só se joga. O Maradona aceitou sem ler e desse dia de 1982 até ao último dia da sua vida, o Diego assinou todo o documento sem ler.

Igual o Garrincha 49 anos antes, igual o Adriano, tal como o Ronaldinho. Quatro homens pobres do futebol que confiaram noutro para tudo o que não fosse jogar bola e [música] acabaram os quatro destruídos. O Copola roubou ao Maradona? Sim, aqui não vamos defender o contrário, mas o cúpula é apenas uma peça, uma peça grande, importante, central, não a única.

E a pessoa que entrou naquela madrugada do dia 25 de novembro de 2020 na casa do tigre não era o Copola, era outra pessoa. Uma pessoa que durante 38 anos teve acesso ao corpo do Diego Armando Maradona, uma pessoa que esteve em cada momento importante da sua carreira, sem que ninguém soubesse quem era. Continua comigo.

Antes do Copola, tem outra coisa, uma coisa que aconteceu numa concentração do Boca Juniors em 1982 e que ia marcar [música] o corpo do Maradona durante os 40 anos seguintes. Uma seringa, uma substância branca e um companheiro de equipa cujo nome aparece em nenhuma [música] investigação oficial. Existe uma entrevista 47 minutos, feita por um jornalista argentino chamado Jorge Lanata.

Em 2015, 5 anos antes do O Maradona morrer, o Diego estava em Cuba, numa casa que o Fidel Castro tinha emprestado, recuperando de uma overdose. O Lanata entrevistou-o com permissão. A gravação em parte saiu no canal onde o jornalista trabalhava, mas 60% do conteúdo nunca chegou à televisão. O Lanata morreu em agosto de [música] 2024, 3 meses antes do início do julgamento contra os médicos do Maradona.

E a família do jornalista guarda até hoje a fita completa. Naquela gravação, o Maradona confessa quatro coisas. Nós vamos chegar às quatro, mas ainda não. A primeira vez que o Maradona utilizou cocaína foi em 1982, Buenos Aires, a casa de um companheiro do Boca, cujo nome o Diego nunca quis revelar.

Tinha 21 anos, tinha acabado [música] de assinar o primeiro contrato milionário. Estava com dores no joelho. O companheiro ofereceu uma carreira. falou que era para descansar melhor, que não era nada, que toda a gente fazia. O Maradona aspirou e desde esse dia até ao dia da morte, 40 anos depois, não passou um único ano sem consumir cocaína. 40 anos.

Este é o número que a imprensa argentina nunca falou em voz alta. E mesmo assim este homem ganhou a Copa do Mundo de 1986. Imagina ser viciado em cocaína dos 21 aos 60 [música] anos, sem parar. e mesmo assim ganhar duas taças, [música] uma Taça UEFA, dois escudetos do Nápoles, ser eleito o melhor jogador do séc.

20.º A pergunta que ninguém quer fazer na Argentina é: como teria sido o Maradona sem a cocaína? Provavelmente não teria sido o Maradona. O pó branco foi o que permitiu-lhe aguentar a pressão de jogar para 45 milhões de argentinos. O O Diego, aquele menino que tinha crescido vendo a mãe morrer de fome por ele, não podia desiludir ninguém.

Mas tem mais uma coisa, uma coisa que poucos sabem. A pessoa que deu aquela primeira carreira em 1982 não era um companheiro do Boca, era outra pessoa. E essa mesma pessoa ia estar do lado do Maradona durante os 38 anos seguintes. Vamos chegar ao nome dela, mas ainda não. Em 1984 chegou o Nápoles. 10 milhões de dólares.

Itália, a cidade mais pobre da Europa Oal. A claque mais fanática do planeta. O Maradona, chegou a uma cidade que nunca não tinha ganho nada, onde o norte rico ria do sul pobre, onde os italianos do norte chamavam os napolitanos de africanos sujos. E aquela cidade, aqueles 7 milhões de napolitanos com fome de glória, deram ao Maradona uma coisa que ele nunca tinha recebido.

Amaram-no como filho, como deus. E o Diego, pela primeira vez, desde que tinha saído da Vila Fiorito, sentiu que estava em casa. Mas, juntamente com o amor de Nápolis, chegou outra coisa, uma coisa que poucos contam com a força que merece. Chegou a Camorra, a máfia napolitana, os homens que controlavam a cidade por baixo.

Os irmãos de Juliano, chefes do bairro Forcela, acolheram-no. Ofereceram proteção, ofereceram amigas, ofereceram, principalmente cocaína de pureza elevada, sem mistura, direta dos portos de Npolis. O Maradona aceitou e entrou, sem saber numa rede que ia controlar parte da vida dele durante os se anos seguintes.

29 de Junho de 1986, México, Estádio Azteca, Argentina contra Inglaterra, quartos de final da Taça do Mundo. 4 anos depois da Guerra das Malvinas, o Maradona sobe juntamente com o guarda-redes inglês Peter Shilton. Põe a mã, a mão, entra a bola, a mão de Deus. 4 minutos depois, o Diego apanha a bola no campo de defesa, dribla cinco rivais em 60 m e marca o [música] golo que a FIFA ia eleger como o melhor do século XX.

Argentina 2, Inglaterra zero, pelos mortos das Malvinas, pelos miúdos da guerra. E nessa tarde, no balneário, o Diego chorou durante 15 minutos sem parar. Não de alegria, de alívio. O que poucos sabem é que nessa mesma noite, depois do jogo, o Maradona consumiu cocaína no quarto de hotel sozinho, sentado no chão, com a taça do jogo ao lado.

E, segundo ele próprio contou na gravação do Lanata, anos depois, foi a primeira vez que pensou em matar-se. As palavras exatas são estes: “Naquela noite do Mundial, falou o Maradona, eu era o homem mais feliz do mundo e ao mesmo tempo o mais só. Vencia a Inglaterra, vencia a guerra, vencia a morte dos miúdos das malvinas.

Mas agora, e então? O que vem? Eu não tinha para quem ligar. A minha mãe estava longe, meu pai estava longe. E aquele quarto de hotel no México foi o quarto mais vazio da minha vida. Pensei em saltar pela janela. Não o fiz porque tive medo de errar e ficar paralítico. O Diogo Maradona, no momento mais glorioso da carreira dele, pensou em saltar pela janela de um hotel e mesmo assim jogou a final contra Lim Alemanha.

Ganhou a Argentina campeã do mundo. O Diego melhor jogador do torneio e regressou a Buenos Aires com 45 milhões de argentinos à sua espera. 3 milhões na rua. A carreata durou 6 horas. O Diego num descapotável acenando sem compreender que aquele dia era o início do fim. Mas antes da carreata chegar ao obelisco, aconteceu uma coisa que a imprensa argentina nunca cobriu.

Uma coisa que só apareceu no livro de memórias do condutor do descapotável, um homem chamado Hector Bellini, publicado em 2016. O Belini contou que a meio da carreata, uma pessoa aproximou-se do carro vindo do meio da multidão. Uma pessoa que a segurança deixou passar, uma pessoa que entregou ao Maradona um envelope fechado.

O Diego abriu o envelope. No interior tinha uma chave, uma chave só. O Diego ficou pálido, guardou o envelope no bolso interior do fato e não sorriu mais durante o resto da carreata. De quem era aquela chave? E por que razão fez o homem mais feliz da Argentina deixar de sorrir? Nós vamos chegar. A partir de 1987, a cocaína deixou de ser ocasional, passou a ser diária.

O Maradona utilizava 2 g por dia, depois três, depois cinco. A camorra fornecia o que ele pedisse. O Cola, o seu empresário, sabia, mas calava. Enquanto o Maradona ganhasse jogo, enquanto o Nápoles ganhasse campeonato, ninguém dizia nada. O Diogo ganhou o primeiro escudeto do Nápoles em 1987. A cidade parou, uma semana de festa e o Maradona num quarto de hotel de Roma.

Depois da comemoração, quase morreu de overdose. O Cola encontrou-o, pôs ele numa banheira de água gelada, chamou um médico particular, pagou o silêncio e no dia seguinte o Diego voltou a treinar como se nada. Mas o médico particular que reanimou o Diego naquela noite em Roma não era italiano, não era napolitano, falava espanhol, rio platense, e trabalhava para alguém que não era nem o Copola, nem a Camorra, nem o Nápoles.

Trabalhava para a pessoa que tinha entregue o envelope com a chave na carreata do obelisco. Continua comigo. Estamos perto. Vamos responder a pergunta agora. A pessoa que entrou na casa do tigre, a Mário Bodri, advogado argentino de 52 anos, companheiro sentimental de Verónica Ogeda, mãe do Dieguito Fernando, o filho mais novo do Maradona.

Mas o Bodri não era só isso. O Boldre tinha sido durante os seis meses anteriores o homem que cuidava do património imobiliário do Diego sem contrato assinado. O homem que tinha as palavras-passe de três contas bancárias no Uruguai, o homem que conhecia o segredo do cofre que o Maradona tinha em casa de Tigres. em dinheiro vivo.

A segunda, uma corrente de ouro que o Diego tinha recebido do Fidel Castro em 198, mas ainda não. A enfermeira que viu Boldre entrar naquela madrugada chamava-se Gisela Madrid, irmã da Dayana Madrid, a enfermeira oficial. tinha ido render a irmã nessa noite porque a Dayana estava doente. Quando a acusação interrogou-a três semanas depois da morte, a Gisela contou tudo.

Viu o Bodre entrar, andar directamente para o quarto do Maradona, abrir o cofre, sair com uma bolsa preta. Mas seis meses depois, a Gisela voltou atrás na declaração. Disse que se tinha confundido, que não era o Bodri, que era outra pessoa. E a partir daquele dia mora sob protecção judicial numa província do sul da Argentina, cujo nome a procuradoria mantém em sigilo.

Acórdão atual. Mas há mais uma coisa, uma coisa que liga toda esta história com o que aconteceu 38 anos antes e que vai fazer você entender finalmente quem destruiu o Maradona. Continua comigo. O Mário Bodre, [música] em 1982, tinha 14 anos. Era o Hugo Boldre era amigo pessoal de um companheiro do Diego no Boca Juniors, o mesmo companheiro que deu pro Maradona a primeira carreira de cocaína.

Sim, aquela primeira carreira naquela casa de um companheiro do Boca não tinha sido oferecida pelo companheiro, tinha sido levada por um visitante naquela noite, um visitante de 40 anos, dirigente sindical, amigo do companheiro, o Hugo Boldre, o pai do Mário Boldre, a mesma pessoa que 38 anos depois ia mandar o filho pra casa de tigre na madrugada do 25 de novembro de 2020.

O Hugo Baldre morreu em 1999, três meses antes da dona Tuta. Mas antes de morrer, deixou instruções pro Mário. Instruções específicas sobre o Maradona. Tinham a ver com o caderno marrom, capa de couro, o mesmo caderno que ia desaparecer do cofre de tigre 21 anos depois. Esse caderno, segundo o testemunho reservado da Verônica Ojeda em fevereiro de 2022 e 22 continha os nomes, os nomes de cada pessoa que tinha fornecido cocaína pro Maradona durante 40 anos e de cada pessoa para quem o Diego em troca tinha feito favores.

Políticos argentinos, empresários uruguaios, dirigentes do futebol mundial, jornalistas, juízes, uma rede. E aquele caderno era o único registro escrito. Por isso, Mário Bodri entrou às 4:20. Não pelo dinheiro, não pela corrente do Fidel, pelo caderno, para fazer ele desaparecer. E por isso a Gisela voltou atrás na declaração, porque entendeu em tempo que as pessoas que apareciam naquele caderno tinham poder suficiente para fazer uma enfermeira do bairro de Tigre desaparecer.

Mas isso deixa uma pergunta aberta, uma pergunta ainda mais escura. Se o Hugo Bodri em 1982 foi quem botou o Maradona na cocaína e se o Mário Bodri em 2020 foi quem apagou as provas. Então que o que aconteceu no meio? Por que que a Verônica Ogeda, a mãe do filho mais novo do Diego, terminou junto exatamente com o filho do homem que tinha arruinado o pai do filho dela? Nós vamos chegar, mas antes tem que terminar de contar a queda.

No fim de 1990, o corpo do Maradona já estava destruído. A imprensa italiana desconfiava. Em 1991, exame antidop surpresa. Positivo paraa cocaína, suspenso 15 meses pela FIFA. O Diego voltou pra Argentina, 30 anos, carreira europeia acabada, Boca Juniors, Sevilha. Newels, boca de novo, mas já não era o mesmo.

E aí, em 1994, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, chegou a última esperança. O que aconteceu naquela Copa nunca foi contado por inteiro. O Maradona estava prestes a completar 34 anos. Levava meses se preparando numa clínica de Buenos Aires com um médico cubano chamado Daniel Serrini.

O Serrini deu para ele um coquetel de substâncias. Algumas legais, outras não. O Diego não perguntou o que eram. Confiou, como sempre. Chegou nos Estados Unidos na melhor forma física dos últimos anos. Marcou um gol contra a Grécia que comemorou gritando na frente da câmera, com os olhos saltados, os dentes cerrados.

Aquela imagem virou ícone, mas ninguém na Argentina viu o que estava acontecendo por dentro do Diego. Quatro dias depois, exame antidoping positivo. Efedrina, o Serrini tinha dado para ele o Maradona expulso da Copa. A Argentina sem ele eliminada pela Romênia. E o Diego no hotel de Boston chorou durante uma semana inteira, sem comer, sem parar, sozinho.

A mão de Deus tinha sido substituída pela mão do Serrini, cheia de pó branco, e o Maradona nunca se recuperou. Quem tinha contratado o Serrini? Essa é outra pergunta que o julgamento de 2025 está tentando responder. O Serrini foi recomendado pro Diego por um dirigente sindical bonairense que já não estava vivo em 1994. O Hugo Bodre tinha morrido 5 anos antes, mas a rede dele continuava operando e o Mário Bodre, com 26 anos, já estava dentro.

As duas décadas seguintes foram uma [música] espiral. Overdose em Punta de Leste, 2004. Internação psiquiátrica. Cirurgia para perder peso. Cuba com o Fidel. Volta pra Argentina. Técnico 2008, Copa do Mundo da África do Sul 2010. Eliminação humilhante contra a Alemanha, 4 a 0. O Diego perdendo o controle da vida pública dele enquanto a cocaína continuava sendo a única companheira fiel.

Existem vídeos daqueles anos, aparições onde ele não conseguia andar reto, entrevistas onde ele estava babando, programas de televisão onde gritava sem motivo. E os argentinos, em vez de ajudar, riam, transformaram ele em meme até 2020. O que quase ninguém conta dos últimos seis meses é isso.

Em maio de 2020, o Maradona se mudou para uma casa alugada num condomínio fechado de San Andrés, partido de tigre. 3 qu4, um quintal pequeno, pagava 2000 por mês. O Diego, que em 1986 tinha ganhado mais dinheiro que qualquer atleta do mundo, vivia aos 59 anos numa casa arrendada de classe média, sem imóvel próprio, sem património em seu nome.

O Cola, o seu empresário de 40 anos, tinha desaparecido. Ninguém sabia onde estava o dinheiro. Mas há mais uma coisa, uma coisa que só apareceu no julgamento de 2025. O Diego naqueles últimos seis meses não estava a ser cuidado por médicos particulares de hospital. Cuidavam dele uma psiquiatra chamada Agostina Kachov e um médico de clínica geral chamado Leopoldo Luk.

Os dois, juntamente com cinco outros, são os acusados do julgamento atual. Segundo o processo, nos últimos seis meses, o Maradona tomou diariamente uma mistura que nenhum cardiologista do mundo teria aprovado. Quetiapina. Olanzapina, levetiracam, lorazepan e ainda cocaína. Combinação letal. Qualquer médico de primeiro ano teria sabido que aquele homem ia morrer.

E os sete acusados ​​sabiam. 3 de novembro de 2020. O Maradona dá entrada numa clínica de La Plata por hematoma subdural. Fazem uma cirurgia [música] no cérebro. Sai depois de 8 dias. A sua filha, Adalma, pede que continue internado. A filha de Anina pede-lhe que continue internado. O Copola, que reaparece também pede, mas o O Dr.

Luke, seu médico pessoal, decide dar alta, leva-o para casa alugada de tigre. E ali, sem enfermagem 24 horas, sem equipa médica, sem desfibrilhador, durante 22 dias, o Diego começa a morrer aos poucos. As últimas 12 horas, na noite do dia 24 de novembro, o Diego foi dormir às 11 da noite. Estava pálido, tinha os pés inchados, pediu aspirina.

A Dayana Madrid deu aspirina para ele, depois foi-se embora. A irmã A Gisela veio render-lhe. Às 4:20 da madrugada do dia 25, chegou o Mário Bodri. Entrou em casa com a chave dele, subiu para o quarto. O Maradona estava a dormir, já com dificuldade respiratória. O Bodri chegou perto, olhou para ele e, segundo o testemunho original da Gisela, antes dela voltar atrás, o Baldre não chamou a ambulância, não acordou o enfermeiro Ricardo Almiron, não fez nada, abriu o cofre, tirou a bolsa preta e foi-se embora.

3:15 na casa, sem chamar ninguém. Às 7:35, o Boldre saiu. Às 9, o Almiron, o outro enfermeiro, pediu ao caseiro da casa entrar para ver o Diego. O Maradona já estava morto, provavelmente desde as 5 da manhã, mas os enfermeiros não chamaram ambulância. Esperaram mais 3 horas até ao meioia e 16, quando finalmente ligaram para o dr. Lucas.

E o Luke demorou mais uma hora a chegar. Quando a ambulância chegou, já não tinha mais nada para fazer. O Maradona estava morto há 7 horas e ninguém tinha feito absolutamente nada. Por quê? Esta é a pergunta que o julgamento tenta responder. As filhas do Diego, a Dalma e a Dianina sustentam que os sete acusados sabiam que ele ia morrer, que o deixaram morrer de propósito para receber a herança e os direitos de imagem.

Sustentam que o Copola e os advogados tinham assinado semanas antes um acordo de exclusividade sobre a imagem do Maradona depois da A morte dele, 200 milhões de dólares. E que todos os acusados sabiam o que ia acontecer, mas as filhas não citam o Mário Bodrino julgamento. Mesmo que a Verónica Oeda já tenha rompido a relação com ele em 2023, falou numa entrevista na televisão argentina que tinha percebido tarde demais que o Mário nunca tinha amado ela, que ele tinha ficado do lado dela durante 12 anos por uma única razão, para se aproximar do Diego.

Para terminar o que o pai, o Hugo, tinha começado em 1982. Mas ainda tem uma questão mais negra. Aqui liga a história em Téc inteira. Quem destruiu o génio argentino foi a Rede Bodri? Foi a Camorra, foram os sete médicos, foi o Copola, não foi nenhum deles. Aqui entra o twist. A resposta do Maradona na gravação do Lanata de 2015 é esta: “Quem destruiu o Maradona?” falou Diogo. Foi uma promessa.

A promessa que fiz para a minha mãe, a dona Tota, quando tinha 9 anos. Prometi que ia tirá-la da Vila Fiorito. Prometi que ela nunca mais ia ter de passar fome por minha causa. E tirei. Comprei uma casa para ela, comprei jóias, comprei tudo o que ela nunca tinha tido. Mas teve uma coisa que não consegui devolver. os quilos que ela perdeu por mim quando Tinha 6 anos.

Os 10 kg que a minha mãe perdeu. Estes 10 kg foram o que me destruiu, porque cada vez que comia, pensava nela sem comer. Cada vez que eu dormia numa cama de hotel de cinco estrelas, pensava nela a dormir no chão da aldeia. Cada vez que ganhava um jogo, pensava nela aplaudindo da cozinha vazia. E a culpa, a culpa de que a minha mãe tivesse passado fome por mim foi o que me levou para a cocaína.

A cocaína fazia a culpa desaparecer por umas horas, depois voltava. E precisava de mais e mais e mais. Até hoje a cocaína fazia desaparecer a culpa. Essa frase é a chave. O Maradona não se afundou por fraqueza. Se afundou porque carregava a culpa de uma mãe que tinha perdido 10 kg por ele em 1967. E aquela culpa que a cocaína apagava por 6 horas voltava cada manhã mais forte.

O Hugo Bodri, em 1982, soube identificar exatamente a fissura emocional por onde meter o pó branco, a culpa materna. E por essa fissura entrou todo o resto, o vício, a camorra, o Serrini, o Luke, a Cosachov, o Mário Bodri, o cofre vazio, o caderno marrom desaparecido. Tudo entrou por aquela fissura aberta aos 6 anos do Diego numa cozinha da Vila Fiorito.

Dona Tota morreu em 1999, 21 anos antes do Diego. E segundo ele contou na gravação do Lanata, aqueles 21 anos entre a morte da mãe e a dele foram os mais doloridos da vida dele. Já não tinha para quem dedicar a luta, já não tinha mãe pela qual aguentar, só sobrava ele e o pó branco e um apartamento vazio em Buenos Aires.

E no final uma casa alugada em Tigre, onde uma pessoa entrou às 4:20 da madrugada para apagar a última testemunha de 40 anos de mim. Começou em março de 2025. Mais de 100 testemunhas já depuseram. O caderno marrom nunca apareceu. O Mário Bodri não foi indiciado. O Hugo Boldri morreu faz 26 anos. E a verdade completa sobre as 12 horas finais do Maradona provavelmente vai ser levada pra Cova com cada um dos envolvidos.

Mas tem uma coisa que o Diego falou na gravação do Lanata. 2000 os gols não me importa. Quero ser lembrado como um bom filho. Tem milhões de homens assim neste momento. Homens que homens que se destróem aos poucos porque sentir alegria parece traição com quem sofreu. Alguns bebem, outros usam droga, outros trabalham 16 horas por dia, mas todos no fundo estão fugindo da mesma imagem.

Uma mãe comendo em silêncio num canto enquanto os filhos comem primeiro. Esses homens têm o coração grande demais para um mundo que não ensinou nenhum homem a chorar. O Diego é um deles. O Garrincha era outro, o Adriano, o Ronaldinho. E amanhã, no próximo episódio, nós vamos contar a história de um quinto, um homem que ganhou três mundiais de Fórmula 1.

Um homem que viu um colega morrer dentro da pista. Um homem que ao volante de uma Williams atravessou a curva de tambor e vibra no coração do Brasil até hoje. Mas a verdade sobre a morte do Airton Sen nunca te foi contada. Se a história do Maradona fez você pensar em alguém, liga hoje. Não amanhã, hoje. Liga pra sua mãe, pro seu pai, pro seu irmão, pro seu filho. Liga.

Mesmo que ele responda mal, mesmo que ele fale que não precisa de nada, liga a si mesmo de tigre. foi acreditar durante 60 anos que tinha que devolver com dinheiro uma coisa que a mãe dele tinha dado com amor. E isso não se devolve, isso só se aceita. Se você conhece alguém que carrega uma culpa assim, assim, fala para ele hoje que aceite, que descanse, que coma sem culpa.

Porque mãe não perde aquilo para filho devolver. Mãe perde aquilo para filho viver. E viver, viver bem, viver feliz é a única dívida que um bom filho tem com uma mãe que passou fome por ele. E se essa história te tocou, se inscreve no canal, porque a próxima vai doer ainda mais.

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