Em 1973, tinha 15 anos quando o meu pai foi enterrado debaixo de um pé de juazeiro no fundo da nossa terra, no sertão do Ceará. Quando a última pá de terra caiu em cima do caixão, a minha mãe respirou fundo e olhou para mim. A gente pensava que todo o sofrimento tinha acabado, mas não.
Dias depois, as coisas começaram a acontecer. Coisas que não consigo explicar até hoje. O meu nome é Raimundo Nonato dos Santos, tenho 68 anos e este é a minha história em minutos. Eu não sei como explicar o tipo de medo que me sentia do meu pai. Não era aquele medo comum de levar um raspanete ou de apanhar por uma traquinice de criança.
Era um medo diferente, mais fundo, que ficava instalado no interior do peito, mesmo nos dias em que não estava por perto. Eu tinha 15 anos e já percebia muito bem como funcionava toda aquela situação dentro daquela casa. Naquele tempo, a gente vivia num pequeno vilarejo no interior de Juazeiro do Norte, no Ceará. Era uma comunidade muito simples, com poucas casas espalhadas pela terra seca do sertão.
A nossa casa era da Taipa, uma construção de barro batido que a gente fazia no sertão antigamente. Paredes grossas, chão de terra batida, telhado de colmo, sem luz elétrica, sem nada. À noite, a claridade provinha do candeeiro a petróleo ou de uma vela acesa na mesa da cozinha. Era uma vida muito simples e muito dura. E dentro daquela simplicidade, cresci carregando um peso que nenhum rapaz de 15 anos deveria ter.
Nos dias em que o meu pai ia à aldeia, a casa ficava diferente. A minha mãe lavava a louça lentamente, varria o chão pela segunda vez, sem precisar, ajeitava as coisas no lugar sem motivo nenhum. Eu entendia aquilo sem que ela tivesse de explicar nada. Era o seu modo de ocupar as mãos enquanto esperava, sem saber a que horas ia voltar e em que estado ia chegar.
Eu ficava sentado à soleira da porta, olhando para a estrada de terra batida. Esperava junto com ela sem precisar falar nada. Ambos sabíamos que havia dois jeitos diferentes de aquela noite terminar. Um deles era tranquilo, o outro trazia um peso que nós conhecia e não queria voltar a enfrentá-lo. Quando regressava sóbrio, entrava quieto, comia o que tinha na panela, trocava poucas palavras e deitava-se sem fazer barulho.
Nesses dias, conseguia fechar o olho sem ficar de ouvido aberto, esperando o pior. Mas estes dias eram poucos. Na maioria das vezes, ele chegava com o andar torto, o cheiro forte de bebida agarrado à roupa e o olho vermelho de quem tinha bebido muito mais do que devia. Quando ele chegava assim, tudo mudava num instante dentro daquela casa.
Ele entrava batendo a porta, atirava o chapéu para qualquer canto e começava a queixar-se de tudo ao mesmo tempo. Da comida, do silêncio, do pó no chão, de coisas que não faziam sentido nenhum. A minha mãe respondia com a voz muito baixa, tentando acalmar sem provocar. E eu ficava quieto no meu canto, fingindo que não estava a ouvir, mas ouvindo cada palavra.
O que mais me perturbava não eram os gritos, era a voz dele quando estava no pior da noite. Havia uma hora que aquela voz mudava de uma forma que não consigo explicar direito até hoje. Ficava mais grossa, mais arrastada, com um tom estranho no fundo que não parecia ser bem ele quem estava a falar. Eu ouvia aquilo e uma coisa muito má tomava conta do meu corpo, diferente de tudo o que já tinha sentido antes.
A minha mãe tinha um pequeno altar na parede da sala, uma imagem de Nossa Senhora, um terço pendurado de lado e uma vela que acendia nas noites mais pesadas. Eu via-a parada em frente daquele altar rezando baixinho, os lábios mexendo-se sem fazer barulho nenhum, os olhos fechados e o terço apertado entre os dedos.
Ela agarrava-se àquilo como se fosse a única coisa capaz de segurar aquela situação no local. Tinha noites que ele partia coisa, atirava um prato no chão, derrubava uma cadeira e pontapeava o que estava no caminho. A minha mãe não reagia, não gritava de volta, não tentava sair a correr de dentro de casa. Ela ficava parada no lugar à espera que passar, com a cabeça baixa e as mãos cruzadas à frente do corpo.
Aprendi com ela desde muito cedo a ficar parado também, porque qualquer reação a minha podia fazer tudo piorar muito mais. Eu não tinha irmão, não tinha irmã, era só eu e ela dentro daquela casa de barro, noite após noite, sem ter mais ninguém por perto para partilhar aquele peso connosco. Esta solidão de ser só nós os dois tínhamos um tamanho que eu não sabia nomear corretamente.
No sertão, naquela altura, não ficava escolhendo o que aceitar na vida. Você pegava no que vinha, baixava a cabeça e tentava chegar no dia seguinte inteiro. Os vizinhos ficavam suficientemente longe para não ouvir o que se passava dentro das nossas paredes. E mesmo aqueles que desconfiavam de alguma coisa, não tinham o costume de se meter na vida dos outros.
Cada família transportava o que era seu. Não havia quem viesse bater na porta perguntar se estava tudo bem por ali. A gente estava sozinha naquilo, sem saída, e ambos sabíamos que muito bem. Com o tempo, fui aprendendo a ler os sinais antes mesmo de ele chegar. O barulho do passo dele à entrada já me dizia tudo antes que eu pudesse ver alguma coisa.
Quando o passo era normal, eu respirava. Quando era pesado e arrastado, o estômago fechava de imediato. Numa noite, já estava deitado no meu quarto quando ouvi a minha mãe do outro lado da parede. Ela não estava a chamar por ninguém, não se estava a queixar de nada, estava a chorar baixinho, daquele jeito contido, de quem faz tudo o que pode para não ser ouvido.
Eu fiquei parado na cama sem mexer, sem fazer barulho nenhum, escutando aquele choro que me apertou o peito de uma forma diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes naquela casa. Ela estava a rezar e chorando ao mesmo tempo, a voz muito baixa, quase sem som nenhum. Eu não ouvia todas as palavras, mas compreendi quando ela pediu a Deus que lhe desse um fim naquela situação.
Disse que não aguentava mais continuar a viver daquele jeito, que tinha chegado ao limite do que uma pessoa consegue suportar. Fiquei deitado, com os olhos abertos no escuro, olhando para o teto de palha, sem conseguir dormir mais nessa noite. Nunca falei com ela sobre aquilo, mas aquele choro dela a pedir ajuda a Deus nessa noite ficou gravado dentro de mim.
E três dias depois daquela noite em que ouvi a minha mãe a chorar escondida, eu e o meu pai estávamos no terreno arrumando o arame da vedação que dividia o nosso pedaço de terra do resto. O sol batia forte desde muito cedo, daquele jeito seco que o sertão tem, sem uma nuvem no céu, para dar um pouco de sombra sequer.
Nós os dois trabalhávamos sem falar muito, cada um no seu lado, puxando o arame e fincando a madeira no chão, duro e rachado pelo calor. Foi então que deixou de trabalhar. De repente, estava alguns passos mais à frente e não me apercebi de imediato. E quando olhei para o lado, vi que tinha largado o arame e estava com a mão no peito, o rosto com uma expressão que nunca tinha visto nele antes.
Parei o que estava a fazer e Fiquei a olhar para ele sem entender o que estava a acontecer ali na minha frente. Ele tentou dizer alguma coisa, mas não saiu nada da boca. Dobrou os joelhos lentamente e foi descendo até tocar o chão de terra seca com as duas mãos abertas. Eu fiquei parado a ver aquilo acontecer, sem me conseguir mexer por alguns segundos, como se o corpo não obedecesse ao que a cabeça estava pedindo.
Quando o movimento voltou, saí correndo em direção à casa para ir buscar minha mãe. Eu chamei a minha mãe aos gritos. Ela saiu e quando viu o meu pai de joelhos na terra lá no fundo do terreno, veio a correr. Mas quando ela chegou perto dele, já o tinha colocado de lado no chão com a cara virada para a terra seca.
A minha mãe ajoelhou do lado dele e chamou por ele várias vezes, mas ele não respondeu. O meu pai tinha morrido ali no meio do serviço, debaixo do sol quente do sertão do Ceará. Não teve tempo de procurar socorro, não teve tempo de chegar ninguém. Foi rápido demais para que qualquer um de nós pudesse fazer alguma coisa diferente.
Eu Fiquei de pé, a olhar para aquela cena, sem saber o que fazer, sem conseguir compreender bem o que tinha acabado de acontecer à minha frente. A minha mãe ficou ajoelhada ao lado dele durante um bom tempo, sem querer sair do lugar. Ela chorou abraçada com ele de uma forma que não esperava depois de tudo o que a gente tinha passado.
Depois de todas as noites más, depois do choro escondido que eu tinha ouvido três dias antes, ela estava ali com a cabeça no peito dele. Eu fiquei de pé, a olhar para aquilo sem conseguir perceber muito bem o que sentia. Nesse momento aprendi que o coração da gente não funciona de um forma simples e direta.
Por vezes, o amor e sofrimento vivem no mesmo lugar dentro de uma pessoa durante anos, misturados, sem que ela consiga separar um do outro, por mais que tente. O velório foi na a nossa sala, como era costume naquele tempo e naquele lugar no sertão. Não havia outro modo de fazer. Alguns vieram parentes que moravam por perto. Alguns vizinhos também apareceram por consideração à minha mãe.
Acendemos velas, colocámos o corpo dele arrumado dentro do caixão e a noite foi passando devagar naquele silêncio pesado que só quem já esteve num velório conhece. Eu Fiquei sentado num canto toda a noite, sem conseguir pregar olho. No outro dia, levámos o caixão para o fundo da nossa propriedade. Era um local com uma árvore grande chamado juazeiro, muito comum no sertão, com ramos espalhados que faziam uma boa sombra no chão de terra.
Foi embaixo daquela árvore que a gente abriu a cova. Não havia cemitério perto e enterrar no próprio terreno era o jeito que muita gente fazia. naquele tempo no sertão. E quando a última pá de terra caiu em cima do caixão, alguma coisa aconteceu que eu não esperava sentir naquele momento. O ar em volta pareceu mudar de um jeito diferente.
Não sei explicar direito até hoje, mas era como se um peso enorme que estava em cima de mim tivesse levantado de uma vez. Eu olhei para minha mãe e ela estava me olhando também com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela respirou fundo, devagar, como quem solta algo que estava segurando dentro do peito há muito tempo.
A gente rezou, fez o que era preciso fazer naquele momento. Colocamos várias pedras em volta para marcar bem o lugar e fincamos uma cruz de madeira com o nome dele escrito à mão. Era uma sepultura simples, como era a vida que a gente levava. Naquele momento em pé diante daquela cova, parecia que o sofrimento que a gente tinha carregado dentro daquela casa por anos tinha ficado ali enterrado junto com ele naquele chão seco e que a partir dali a nossa vida finalmente ia ser diferente.
Nos dias seguintes, minha mãe começou a se organizar para tocar a vida. Ela foi atrás de trabalho como lavadeira para sustentar a casa, porque agora era só ela para garantir o que a gente precisava. Eu ajudava no que era possível. O ambiente dentro de casa parecia mais leve, mais quieto, de um jeito que eu não conhecia. As noites tinham ficado completamente diferentes, mas aquela paz que a gente sentiu na beira daquela cova durou menos do que eu esperava.
Não demorou muito para as coisas começarem a mudar de novo dentro daquela casa, de um jeito que eu não conhecia e não sabia como enfrentar. Não era do jeito antigo, não tinha grito nem barulho de confusão. Era uma coisa diferente, mas estranha, que vinha de madrugada quando tudo estava quieto e a gente estava deitado tentando dormir em paz.
Eu não sabia nomear o que era aquilo, nem de onde estava vindo. Só sabia que alguma coisa tinha mudado dentro daquela casa de um jeito que eu não conseguia explicar e que a sensação de alívio que eu tinha sentido na beira daquela cova debaixo do juazeiro estava escorregando devagar pelos meus dedos, sem que eu conseguisse fazer nada para segurar.
E o que estava por vir, eu não tinha como imaginar ainda naquele momento. Foi mais ou menos na segunda semana depois do enterro que eu percebi a primeira coisa estranha. Era de madrugada, eu estava deitado no meu quarto tentando dormir, quando senti um cheiro fraco que eu conhecia muito bem. Era cheiro de cachaça barata, fraco, quase sumindo no ar, mas estava lá.
Eu fiquei parado na cama tentando entender de onde estava vindo aquilo. Na noite seguinte, o cheiro voltou, um pouco mais forte dessa vez. Fiquei deitado com os olhos abertos no escuro, prestando atenção em tudo ao redor. Não ouvi nada, não vi nada diferente, mas o cheiro estava lá, inconfundível, o mesmo cheiro que eu me lembrava das piores noites da minha vida dentro daquela casa.

Tentei me convencer de que era coisa da minha cabeça, que o luto fazia a gente imaginar coisas que não existiam. Com o passar dos dias, junto com o cheiro, comecei a ouvir outra coisa nas madrugadas. Um som de passos pesados pelo chão de terra, como se alguém andasse devagar dentro da casa enquanto a gente tentava dormir.
Eu ficava parado na cama, sem respirar direito, escutando aquele barulho noite após noite. Não era barulho de bicho nem de madeira do telhado trabalhando com o frio da noite. Era pesado demais e vinha do chão com uma clareza que não dava para ignorar de jeito nenhum. Era exatamente o jeito que uma pessoa caminha devagar quando não está compressa e conhece bem cada canto do lugar onde está pisando.
E eu conhecia esse jeito muito bem. Tinha passado anos inteiros ouvindo aquilo. Tentei falar com minha mãe sobre aquilo. Num dia de manhã, enquanto ela tomava o café antes de sair para o trabalho, eu disse que estava ouvindo coisas de madrugada dentro da casa. Ela perguntou o que eu tinha ouvido. Quando eu expliquei tudo, ela ficou em silêncio por um momento e depois disse que não tinha ouvido nada, que eu devia estar dormindo mal por causa de tudo que a gente tinha passado.
Eu não insisti, mas sabia muito bem o que estava ouvindo. As noites foram passando e as coisas foram piorando aos poucos, sem pressa nenhuma. O cheiro voltava toda a madrugada, sempre mais carregado do que na noite anterior, como se fosse crescendo de propósito a cada dia que passava. Os passos voltavam junto com ele, pesados, andando devagar pelo chão de terra.
Minha mãe continuava dizendo que não ouvia nada daquilo que eu tentava descrever para ela. Eu parei de insistir porque via que ela não estava pronta para aceitar o que estava acontecendo dentro daquela casa. Foi então que numa noite já bem tarde eu estava quase pegando no sono, quando ouvi um barulho diferente de todos os outros que eu tinha ouvido antes naquela casa.
Era um barulho seco de algo quebrando de uma vez só, vindo da sala. Eu me levantei da cama imediatamente. Minha mãe também acordou e saiu do quarto ao mesmo tempo que eu. Nós dois chegamos na sala juntos e paramos na entrada. O altarzinho da minha mãe tinha caído da parede. As imagens que ficavam lá estavam no chão, algumas partidas ao meio, outras completamente destruídas.
O terço estava espalhado pelo chão de terra. Minha mãe ficou parada, olhando para aquilo sem falar nada. Eu fiquei do lado dela sem saber o que dizer. Aquele altar nunca tinha caído antes. Tinha passado por chuva, por vento, por tudo que o tempo traz naquele sertão. E nunca tinha saído do lugar.
Não havia motivo nenhum para ele cair daquele jeito. Minha mãe se abaixou devagar e foi juntando os pedaços das imagens, um por um, com muito cuidado. As mãos dela estavam tremendo enquanto ela fazia aquilo. Ela não falou nada naquela noite sobre o que tinha acontecido, mas no dia seguinte, pela manhã, ela chegou perto de mim e disse que ia chamar o padre.
Disse que ele ia vir rezar na nossa casa. Eu não perguntei nada. Só balancei a cabeça e fiquei esperando. O padre chegou numa quinta-feira, mais ou menos no horário do meio do dia. Era um homem de idade, cabelo branco, andar calmo. Eu o conhecia desde criança. Todo mundo naquelas redondezas conhecia. Ele entrou pela porta da nossa casa, cumprimentou minha mãe com respeito, olhou ao redor dos cômodos com uma atenção que eu percebi logo de cara.
Não era o olhar de quem estava só visitando, era o olhar de quem estava prestando atenção em alguma coisa. Minha mãe contou para ele o que tinha acontecido. Falou do altar caído, das imagens quebradas, de tudo que eu tinha tentado contar nos dias anteriores e que ela não tinha acreditado de início. Eu fiquei de lado, ouvindo aquela conversa sem ser chamado para participar.
O padre ouviu tudo sem interromper, com o rosto quieto de quem já ouviu história parecida antes, e sabe que não adianta apressar nada. Depois que minha mãe terminou de falar, o padre pediu para percorrer a casa. Ele foi de cômodo em cômodo, rezando baixinho, jogando água benta em cada canto, em cada porta, em cada janela. Eu fui junto, alguns passos atrás, sem falar nada.
A voz dele era firme, o movimento das mãos era seguro. Dava para sentir que aquele homem estava acostumado a fazer aquilo e que não estava com medo do que pudesse encontrar. Quando terminou de percorrer todos os cômodos de dentro da casa, o padre parou na porta dos fundos e olhou em direção ao fundo do terreno. Lá estava o pé de juazeiro, com a cruz de madeira fincada na terra e as pedras ao redor, marcando o lugar onde meu pai tinha sido enterrado.
O padre ficou parado na porta por um momento, olhando para aquele lugar lá no fundo antes de dar o primeiro passo. e fui junto com ele e com minha mãe até o fundo do terreno. O padre caminhou devagar, sem pressa, rezando baixinho enquanto andava pelo chão de terra seca. Quando chegou perto do túmulo, ele parou. Ficou parado, olhando para aquele chão de terra por um tempo que pareceu mais longo do que devia.
A reza dele foi parando aos poucos até ficar completamente em silêncio. Eu olhei para o rosto dele e vi que tinha mudado. Ele estava pálido. Não era palidez de cansaço nem de calor do sertão. Era uma palidez diferente daquela que aparece quando alguém vê ou sente uma coisa que não esperava encontrar. Ele ficou de pé na frente daquela cova, com os olhos baixos, sem falar nada.
por uns minutos que pareceram muito longos para mim. Eu fiquei do lado sem saber o que fazer, sem entender o que estava acontecendo com ele. Minha mãe estava do outro lado dele. Eu vi a expressão do rosto dela mudar devagar enquanto observava o padre parado daquele jeito na frente da cova, em silêncio, sem rezar. Ela também percebeu que alguma coisa tinha acontecido quando ele chegou perto daquele lugar.
E depois de uns minutos, o padre levantou a cabeça devagar, olhou ao redor uma vez e chamou minha mãe de lado com um gesto da mão. Os dois foram andando juntos em direção a um canto do terreno, afastados o suficiente para que eu não pudesse ouvir o que estavam dizendo. Eu fiquei parado perto da cova, debaixo do juazeiro, olhando para os dois de longe, sem conseguir ouvir uma palavra.
Eles conversaram por um bom tempo, mais do que eu esperava. Eu tentei observar a reação da minha mãe de longe. Tentei ler alguma coisa no rosto dela ou no jeito do corpo dela enquanto o padre falava baixinho para ela, mas não conseguia entender nada do que estava sendo dito ali naquele canto do terreno. Só via os dois parados, a voz do padre baixa demais para chegar até onde eu estava esperando.
Quando terminaram de conversar, o padre voltou até onde eu estava, colocou a mão no meu ombro, me disse para cuidar bem da minha mãe e foi embora pela entrada da casa. Não explicou nada do que tinha sentido na frente daquela cova, não me chamou para conversar, não disse o que tinha visto ou o que tinha dito para minha mãe.
Só foi embora devagar, sem olhar para trás nenhuma vez. Minha mãe voltou para onde eu estava depois que o padre saiu pela entrada da casa. Eu olhei para o rosto dela e soube que alguma coisa tinha mudado ali naquela conversa com o padre. [música] Era uma expressão de quem já havia decidido alguma coisa dentro de si e estava firme naquilo, sem espaço para dúvida nenhuma.
Eu perguntei o que o padre tinha dito para ela. Ela me olhou por um momento e disse que não era hora de falar sobre aquilo e não falou mais nada sobre o assunto naquele dia, nem nos dias seguintes. Eu não insisti porque conhecia a minha mãe bem o suficiente para saber que quando ela fechava assim não adiantava forçar.
Ela ia falar quando quisesse, ou não ia falar nunca. Não demorou nem uma semana. Minha mãe começou a separar as nossas coisas aos poucos, sem fazer alarde nenhum. Primeiro as roupas, depois as coisas da cozinha, depois o pouco que a gente tinha de valor guardado. Eu fui entendendo o que estava acontecendo sem precisar que ela explicasse.
A gente ia embora daquela casa e daquele vilarejo e eu senti que não ia ser uma saída para voltar, mas uma saída de vez. Em menos de uma semana, a gente estava pronto para ir. Arrumamos o que cabia para carregar e deixamos o resto para trás sem pensar duas vezes. Minha mãe não olhou para o fundo do terreno quando saiu pela porta pela última vez.
Eu olhei, vi o pé de juazeiro lá no fundo, a cruz de madeira com o nome do meu pai, as pedras ao redor e depois virei as costas e fui embora junto com ela. Nunca mais voltamos para aquele lugar. Minha mãe viveu muitos anos ainda. Trabalhou, cuidou da vida e nunca mais tocou no assunto do que o padre tinha dito para ela naquele dia no fundo do terreno.
Eu tentei perguntar algumas vezes ao longo dos anos, em momentos diferentes, achando que ela estava mais aberta para conversar, mas ela sempre desviava, sempre mudava de assunto, sempre encontrava um jeito de não responder. Ela faleceu anos depois, levando aquilo consigo para sempre, sem me contar uma palavra sequer.
Hoje, com 68 anos, a dúvida ainda não me larga de jeito nenhum. O que o padre viu ou sentiu na frente daquela cova que o deixou pálido daquele jeito? O que ele disse para minha mãe que fez ela decidir ir embora? Minha mãe sempre dizia que existem mistérios tão pesados neste mundo que o melhor que o ser humano pode fazer é se afastar e deixar nas mãos de Deus.
Talvez ela tivesse razão. Eu não sei. O que eu sei é que essa dúvida vai me acompanhar até o fim dos meus dias. Será que era a alma do meu pai? Um homem que viveu com raiva e com violência e que depois de morto não encontrou paz e continuou preso naquele pedaço de terra onde foi enterrado.
Ou era outra coisa, algo que já estava com ele em vida, que morava dentro dele e que quando ele morreu simplesmente ficou ali naquele chão, naquela casa, como se o enterro não tivesse mudado nada. Escreve eu acredito nos comentários se você chegou até aqui e qual a sua opinião. Que Deus continue abençoando e guardando vocês e sua família de todo o mal.
Até o próximo relato.
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