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Simples Reforma de Casa Antiga — Até a Marreta Abrir uma Parede Murada Desde 1955

Era uma segunda-feira de março de 2023 quando Rogério Campos estacionou a carrinha na frente do sobrado da rua Coronel Batista Luz, no bairro do Jardim Paraíso em Franca, no interior de São Paulo. Rogério tinha 42 anos, trabalhava com reforma quase 20 e nesse dia o serviço parecia simples: derrubar uma parede divisória na cave, ampliar o espaço, preparar o pavimento para receber uma lavandaria.

O proprietário do imóvel, o médico que tinha comprado a casa no ano anterior, queria aproveitar o espaço subaproveitado, nada mais do que isso. O sobrado era antigo, construído provavelmente nos anos 40, com aquele arquitetura comum ao interior de São Paulo da época. Paredes grossas, tijolos maciços, janelas de madeira, telhado de telha colonial.

Por fora, encantador, por dentro, cheio das marcas do tempo, piso de taco desgastado, cablagem exposta, humidade acumulada em décadas de invernos secos e verões abafados. Rogério conhecia aquele tipo de construção como a palma da mão. Sabia onde as paredes cediam facilmente e onde resistiam. Sabia onde Reboco escondia surpresa, Zionde não havia nada além de areia velha.

O porão tinha um pé de jeito baixo, pouco mais de 1,80 m, o que obrigava a qualquer pessoa a curvar-se ligeiramente ao caminhar. A iluminação era deficiente, uma lâmpada de 40 W pendurada no centro. Rogério ligou a lanterna do telemóvel e caminhou pelo espaço antes de começar. 20 m quadrados, talvez menos, uma janela pequena na parede norte atulhada por no interior com tijolos, uma tubagem de água percorrendo a parede nascente e, no fundo, uma parede que não combinava com o resto. Ele parou à frente dela. Era

diferente. O reboco era mais liso, mais novo, ou pelo menos envelhecido. A tonalidade do tijolo aparente numa parte descascada era ligeiramente mais clara. do que o resto das paredes do porão. Rogério bateu com os nós dos dedos. Sou um oco. Bateu de novo em outro ponto. Oco também. Havia um espaço do outro lado.

Chamou o ajudante, um rapaz de 23 anos chamado Diru Alves. Os dois ficaram a olhar para aquela parede durante alguns segundos sem dizer nada. Dirseu perguntou se fazia parte do serviço derrubar aquela também. Rogério disse que não, mas que ia ligar ao dono só para confirmar. O médico atendeu na segunda chamada, disse que não havia nenhum quarto ali planeado, que nos documentos do imóvel aquela área aparecia como uma parede estrutural e que se havia espaço occo era provavelmente só um erro de construção da época.

Disse para verificar se comprometia a estrutura. Se não comprometesse para derrubar e ver o que lá estava, Rogério pegou na marreta. O primeiro golpe abriu uma fissura de quase 30 cm. O segundo golpe arrancou um grande pedaço de reboco, expondo uma fiada de tijolos. O terceiro golpe deslocou dois tijolos inteiros para dentro do espaço oculto e depois o cheiro saiu.

Dirceu recuou dois passos. O Rogério ficou parado com a marreta na mão, olhando para a abertura que acabará de criar. O cheiro era de terra velha, de humidade concentrada, de algo que Rogério, que tinha trabalhado em demolições de construções centenários, reconheceu instintivamente como sendo o cheiro de um espaço fechado muito, muito tempo.

Não era o cheiro de decomposição recente, era outro tipo de coisa. Era o cheiro do tempo em estado sólido. Aproximou a lanterna da abertura. havia um espaço de aproximadamente 2 m de largura por 1, me de comprimento, uma espécie de câmara acidental, como se alguém tivesse erguido aquela parede para selar um espaço que já existia entre duas estruturas originais da construção.

No chão daquele espaço, coberto durante décadas de poeira e por uma fina camada de terra que tinha entrado por alguma fresta ao longo dos anos. Havia um conjunto de ossos não espalhados, não fragmentados pelo desabamento, organizados na posição em que um ser humano estaria se estivesse deitado de lado, com os joelhos ligeiramente dobrados, os braços à frente do corpo, a posição de quem tinha se ali deitado por conta própria, a posição de quem tinha escolhido aquele canto.

Rogério ficou a olhar por um tempo que ele depois não soube precisar. Depois afastou-se da parede, saiu do cave, sentou-se no degrau da entrada da casa e chamou a polícia. A viatura da Polícia Militar chegou em 17 minutos. O primeiro sargento a entrar no porão esteve menos de 30 segundos antes de sair e pedir reforços.

Numa hora, a casa estava isolada com fita amarela. Em 2as horas, a perícia do Instituto de Criminalística de Ribeirão Preto havia chegado. Em 3 horas, os jornalistas locais já estavam no passeio. O perito responsável pelo local, um homem de 51 anos chamado Dr. Armando Fleury, foi metódico e silencioso no trabalho. Fotografou tudo antes de tocar qualquer coisa.

documentou a parede por fora, a espessura dos tijolos, o tipo de argamassa. Depois entrou no espaço com cuidado, agachou-se sobre os restos, passou vários minutos apenas a observar antes de dizer qualquer coisa. O que ele disse depois ao delegado responsável foi que aquele achado apresentava uma série de contradições que não faziam sentido à primeira vista.

A primeira contradição era o estado dos ossos. estavam notavelmente bem preservados para um espaço aberto ao solo com décadas de história. Esperava-se fragmentação, dispersão, colonização por raízes e insetos. O que ali havia era um esqueleto praticamente completo, com os ossos mantendo relações anatómicas coerentes.

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Isto indicava que o ambiente tinha sido excepcionalmente seco e fechado, o que o Dr. Fleury confirmou a medir a humidade relativa do espaço, 42% muito abaixo do ambiente externo. Aquela câmara tinha funcionado inadvertidamente como uma câmara de conservação. Segunda contradição era o vestido ou que restava dele, uma trama de fibra escura, provavelmente seda natural, que havia sobreviveu parcialmente graça, exatamente aquela secura excepcional.

Era impossível determinar a cor original com precisão, mas fragmentos maiores, preservados onde tinham ficado comprimidos entre os ossos e o chão, apresentavam uma tonalidade que os peritos descreveram como bordeaux escuro ou vinho. A terceira contradição era o calçado. No extremo inferior do esqueleto havia dois sapatos de salto, de couro com a sola, de couro também, parcialmente intacta. Isso era invulgar.

O couro, em condições normais de humidade, não sobrevive décadas de enterramento. Ali tinha sobrevivido, protegido pelo mesmo ambiente seco e selado que havia conservado os ossos. O Dr. Fleury fotografou sapatos com especial atenção. A sola de um deles apresentava uma marca de fabricante ainda legível, uma impressão em baixo relevo com as letras C e abaixo, menor, franca SP.

Aquele pormenor que naquele primeiro dia pareceu apenas uma curiosidade seria o fio que puxaria tudo. A quarta contradição e a que mais pesou sobre o Dr. Fleury foi a posição do corpo. Não era a posição de alguém ali depositado sem vida e depois acomodado. A curvatura da coluna vertebral, o ângulo dos joelhos, a disposição dos braços à frente do tronco.

Tudo isto era consistente com o movimento voluntário, com alguém que tinha entrado naquele espaço pelos próprios meios. com alguém que se tinha deitado de lado, dobrado os joelhos, aproximado os braços do peito com alguém que tinha escolhido aquela posição. O Dr. Flory não disse mais nada nesse dia, mas o delegado responsável Everton Macedo, que tinha ficado a ouvir análise do perito em silêncio, saiu do porão com uma expressão que os seus colegas mais jovens nunca tinham visto nele antes.

Para perceber o que estava naquele porão, era necessário voltar apenas alguns anos. Décadas, era necessário voltar à Franca de 1955. Franca, nesse ano, era uma cidade de pouco mais de 50.000 habitantes, conhecida como a capital brasileira do calçado. A indústria coueira dominava a economia local desde os anos 30 e na década de 50, concelho vivia um período de expansão acelerada.

Novas fábricas abriam, chegavam famílias do interior para trabalhar, o comércio crescia. E juntamente com o crescimento vinham as tensões de uma cidade que ainda operava segundo códigos sociais rígidos, onde o apelido importava, onde a honra familiar era um bem tanguível, onde o O silêncio sobre certos assuntos era considerada uma virtude necessária à sobrevivência.

Ondina Ferreira Castilho nasceu em Franca no dia 14 de setembro de 1929. era a segunda filha de Benedito Ferreira Castilho, comerciante de tecidos, e de ouvir Ramos Castilho. Tinha um irmão mais velho, Valdemar, e uma irmã mais nova, Neusa. A família vivia num sobrado na rua Coronel Batista Luz, o mesmo sobrado que 68 anos depois teria sua parede aberta por uma marreta.

Ondina era descrita pelos poucos registos que sobreviveram como uma mulher de presença forte. havia cursado o ginasial completo, o que não era comum para as mulheres da sua geração naquele contexto. Trabalhava na loja de tecidos do pai como assistente de contabilidade. Sabia ler folhas de cálculo, entendia de stock.

Era quem fechava o caixe no fim do dia. O seu pai Benedito, segundo o registo de cartório da época, havia transferido para ela em procuração poderes de gerência sobre a loja em 1953, 2 anos antes do desaparecimento, Ondina tinha 25 anos em fevereiro de 1955. não era casada, não estava noiva. Num contexto em que as mulheres da sua geração e condição social eram esperadas se casar por volta do 18, 20 anos no máximo, aquilo era notado, comentado.

Havia uma pressão silenciosa, constante sobre ela e sobre a família. E havia, segundo um documento que os Os investigadores encontrariam décadas depois, uma razão específica para que Ondina não tivesse casado. Ela não queria casar com o homem que a sua família tinha escolhido para ela. O homem chamava-se Arlindo Massocato, filho de uma família de sapateiros estabelecidos em Franca, proprietário de um pequeno curtume, 32 anos.

O casamento entre Ondina e Arlindo tinha sido arranjado por Benedito Castilho como parte de uma negociação comercial, uma fusão informal entre a loja de tecidos e o Cortume, que se tornariam parceiros fornecedores. O pai da Ondina queria o acordo, Arlindo Massocato queria o acordo. Ondina Castilho não queria o que ela queria e isso apareceria muito mais tarde. Era outra coisa completamente.

Em fevereiro de 1955, onina Castilho desapareceu. A família esperou quase um mês antes de registar qualquer coisa, tempo suficiente, como ficaria claro mais tarde, para construir uma versão coerente dos factos, alinhar os envolvidos e garantir que ninguém diria nada diferente do que tinha sido combinado.

O registo feito na esquadra local em março era notavelmente lacónico. Dizia apenas que Ondina tinha saído de casa por vontade própria e que a família acreditava que ela tinha ido em direção ao Rio de Janeiro, acompanhada por pessoa desconhecida. Não havia descrição física detalhada, não havia pedido de busca, não havia menção a qualquer investigação.

O delegado que recebeu o registo, um homem chamado Otacílio Braga, que apareceria noutros registos do Arquivo Histórico de Franca até 1961, assinou o documentos sem qualquer anotação adicional. O desaparecimento de Ondina Castilho foi arquivado como ausência voluntária no mesmo dia em que foi registado.

Ninguém mais procurou por ela. O Dr. Armando Fleury recebeu o relatório antropológico preliminar cinco dias após a abertura da parede. A análise dos ossos confirmou que a experiência já havia sugerido. Os restos pertenciam a uma mulher adulta entre os 20 e os 30 anos de idade, de estatura aproximada de 1,62 cm, sem evidência óssea de doenças degenerativas significativas ou de traumas anteriores ao falecimento.

A estimativa do tempo, desde o óbito, era consistente com o intervalo entre 60 e 80 anos, o que situava a morte em algum ponto entre 1943 e 1963. A causa da morte não pôde ser determinada com base nos restos ósseos. Não havia fraturas, não havia marcas de trauma croniano, não se verificaram lesões em costelas ou vértebras consistentes com violência física.

O que significava era que se tinha havido violência, ela tinha ocorrido de formas que não deixam marcas nos ossos, asfixia, envenenamento, privação de recursos dentro de um espaço fechado ou que a causa tinha sido natural, um colapso, uma condição cardíaca, uma falência que pode afetar qualquer pessoa a qualquer momento. O O Dr.

Fleuri anotou no relatório: “Causa mortes ineterminável com base no material disponível. circunstâncias do óbito por apurar, mas havia uma outra linha de investigação, o sapato com a marca CC Franca SP. O comissário Éton Macedo pediu a um investigador do Arquivo Público e Histórico de Franca que verificasse registo de fabricante de calçado locais que utilizassem aquelas iniciais na marcação de solas.

A resposta veio em três dias. Havia apenas uma empresa no registo histórico de Franca que utilizava aquela marca em produtos fabricados entre 1940 e 1960. Era Calçados Castilho, fundado por Benedito Ferreira Castilho em 1942 como extensão da loja de tecidos da família. Encerrada em 1961. O sobrado da rua Coronel Batista Lu, tinha pertencido à família Castilho.

A mulher dentro da parede estava a usar sapatos fabricados pela família Castilho. O delegado Éeverton Macedo era um investigador de 53 anos que tinha passado grande parte da sua carreira em Franca. conhecia a cidade, conhecia a sua história, conhecia a forma como certas as coisas eram tratadas no interior Paulista com uma espécie de pragmatismo silencioso que atravessava gerações.

Mas o que começava a emergir naquele porão era diferente. Era algo que tinha ficado enterrado literalmente durante décadas e que agora precisava de ser compreendido. Ele iniciou o levantamento genealógico da família Castilho. Bento Ferreira Castilho tinha morrido em 1978. Elvira Ramos Castilho tinha morrido em 1982.

O filho mais velho, Valdemar Castilho, tinha falecido em 2011. A filha mais nova, Neusa Castilho Prudente, casada com o apelido Prudente, estava viva. Tinha 82 anos. vivia em Ribeirão Preto. Macedo pediu a um investigador que localizasse Neusa Castilho Prudente com descrição, que não fosse de surpresa, que ligasse antes, explicasse de forma geral que tinha sido feito um achado histórico relacionado com a família Castilho de Franca e verificasse se ela estaria disposta a conversar.

A resposta de Neusa, transmitida pelo investigador por telefone para Macedo, foi elatada assim. Ela ficou em silêncio durante 22 segundos. Depois disse: “Eu sabia que um dia alguém ia abrir aquela parede”. Neusa Castilho Prudente aceitou receber os investigadores em sua casa em Ribeirão Preto. Era uma mulher pequena, de cabelos completamente brancos, que os recebeu sentada numa poltrona de couro na sala de estar.

Do lado dela, a sua filha, Rosângela Prudente, de 56 anos, que tinha insistido em estar presente. Neusa não esperou que os investigadores formulassem perguntas. começou a falar enquanto o café ainda estava a ser servido e falou durante quase 4 horas. O que ela contou e que os investigadores gravaram com autorização expressa foi o seguinte: Ondina não tinha saído de casa por vontade própria em fevereiro de 1955.

Nessa noite, o pai tinha descoberto correspondência guardada no armário do quarto de Undina. Cartas trocadas com uma professora de batatais com quem ela mantinha um relacionamento havia do anos. Um relacionamento que, se viesse a público, seria, nas palavras de Neusa, o fim de tudo para a família naquela franca daquele tempo.

Houve uma discussão violenta no andar de cima. Ondina desceu a cave, onde ela costumava guardar as correspondências originais, num baú que se encontrava no fundo do espaço. O porão, naquela construção, tinha um compartimento entre duas paredes estruturais que servia de depósito informal, acessível por uma abertura baixa, onde entrou naquele espaço para recuperar as cartas.

A família lá em cima tomou a decisão. A abertura foi fechada por fora. Quando desceram horas depois, Ondina tinha morrido ali dentro. O espaço era pequeno, o ar era limitado e o estado de agitação em que ela tinha entrado havia acelerado tudo. Ela tinha-se deitado de lado, dobrado os joelhos, aproximado os braços do peito, a posição que o Dr.

Fleury, décadas mais tarde reconheceria como voluntária, porque era, ela tinha tentado preservar o ar que restava, tinha tentado esperar, não havia conseguido. O médico de família, um homem chamado Dr. Aércio Mota, compadre de Benedito Castilho, foi chamado naquela madrugada. chegou, entrou no espaço, examinou-o, saiu sem dizer nada durante muito tempo.

Depois disse que não não havia nada a fazer, que qualquer registo oficial abriria uma investigação, que uma investigação descobriria as cartas, que as cartas destruiriam tudo. O que aconteceu nas horas seguintes foi a decisão que determinaria as décadas seguintes. Benedito Castilho reuniu a família naquela madrugada.

Ele, Elvira, Valdemar, o Dr. Laércio Mota e Arlindo Massocato, que tinha sido chamado porque era naquele momento considerado praticamente da família. A decisão tomada em conjunto foi esta: Não haveria certidão de óbito, não haveria velório, não haveria enterro no cemitério. O Dr. Mota não registaria o chamado. Ondina seria declarada ausente, partida por vontade própria, ir embora com alguém, e o assunto seria aí encerrado.

A abertura do compartimento seria selada com tijolos novos, a parede nova sobre a parede velha, o reboco por cima e o silêncio por cima de tudo. Arlindo Massocato não era o centro daquela decisão. Era, segundo Neusa, um homem que tinha chegado aquela madrugada sem compreender completamente que havia acontecido e que saiu dela transformado num cúmplice involuntário de algo que nunca tinha pedido para ser.

Ele nunca mais pisou aquela casa. O acordo comercial foi dissolvido em silêncio poucos meses depois, sem explicação registada. Neusa tinha 14 anos quando isso aconteceu. Ela soube porque ficou acordada durante toda aquela noite, ouvindo pela frincha da porta do quarto. Soube porque nos dias seguintes viu os tijolos, viu o cimento, viu o pai e o irmão descerem ao porão com ferramenta de subir sem elas.

Nunca perguntou nada, nunca disse nada para ninguém. durante 68 anos. O delegado Éton Macedo ficou em silêncio durante um longo tempo depois de Neusa ter terminado de falar. Depois pediu licença e saiu para o corredor para ligar para o Ministério Público. A situação jurídica que se apresentava era complexa, ao mesmo tempo de resolução inevitável.

Os responsáveis diretos Benedito Castilho, Elvira Castilho, Valdemar Castilho, o Dr. Laércio Mota, estavam todos mortos. Arlindo Massocato tinha falecido em 1993. Não existia, em termos legais, qualquer sujeito vivo imputável pelos acontecimentos daquela noite de Fevereiro de 1955. Neusa Castilho Prudente tinha sido uma criança de 14 anos que viu algo e se calou.

não tinha participado em nenhuma decisão, não tinha executado qualquer ato. O procurador de justiça responsável pela averiguação, após consulta com o Ministério Público do Estado de São Paulo, concluiu que não havia fundamento para qualquer ação penal contra ela. O que havia, isso sim, era a necessidade de registar o óbito de Ondina Ferreira Castilho, de providenciar um enterro digno e de documentar oficialmente que havia acontecido naquele porão para que constasse dos registos históricos do município. A identificação formal de

Ondina foi possível através de análise de ADN mitocondrial extraído dos restos ósseos comparado com o material genético recolhido de Rosâela Prudente, filha de Neusa, portanto sobrinha de Ondina pela linha materna direta. Como Ondina e Neusa eram filhas da mesma mãe, vira Ramos Castilho, partilhavam o mesmo ADN mitocondrial materno.

Rosângela, como filha de Neusa, herdou esse mesmo perfil. O resultado emitido pelo laboratório de genética forense do Instituto de Criminalística do Estado de São Paulo confirmou a compatibilidade com um nível de certeza estatística de 99,7%. A mulher encontrada na parede era Ondina Ferreira Castilho.

Em agosto de 2023, Ondina foi sepultada no cemitério municipal de Franca. Tinha uma certidão de óbito, tinha um túmulo com o seu nome, tinha flores levadas por Rosângela Prudente, que nunca tinha conhecido a tia e que chorou por ela assim mesmo. Rogério Campos, o pedreiro que tinha derrubado a parede, soube do desfecho pelo jornal local.

leu a notícia sentado na varanda de casa numa tarde de domingo. Ficou a reler o nome Ondina Ferreira Castilho, algumas vezes. Depois dobrou o jornal, colocou-o sobre a mesa e ficou olhando para o quintal durante algum tempo sem definição. A sua esposa perguntou o que tinha acontecido. Ele disse: “Nada.” Depois disse: “Na verdade, uma mulher foi enterrada.

” Ela perguntou quando? Ele disse: “Há 68 anos.” Ela disse: “Coitada, concordou. Ficaram em silêncio. No dia seguinte, Rogério voltou ao trabalho. Havia outra reforma começando numa casa de outro bairro. Paredes novas para deitar abaixo, paredes novas para erguer. Mas antes de entrar, parou um instante em frente da fachada e olhou para os tijolos por alguns segundos.

Depois respirou fundo e entrou. A história da Ondina não chegou até nós por nenhuma investigação formal, não chegou por qualquer denúncia. Chegou porque um médico comprou uma casa velha, porque um pedreiro encontrou uma parede estranha e porque uma marreta fez o que 68 anos de silêncio não tinham conseguido desfazer.

A apuração foi terminou sem condenações, sem julgamento, sem arguidos. O tempo correu mais rápido do que qualquer mecanismo de justiça consegue operar. Mas a Ondina tem um nome numa pedra de mármore, agora. Tem uma data, tem flores quando a sobrinha vai a Franca visitar. Às vezes é o máximo que se consegue.

E, por vezes, o máximo que se consegue é ainda mais do que nada. Se este conteúdo te tocou, deixe o like. Ele ajuda a levar histórias como a deina para mais pessoas. Inscreva-se se ainda não é inscrito e nos comentários diga-me, acha que a Neusa fez a escolha certa ao guardar silêncio durante todos estes anos ou houve um momento em que ela poderia ter falado? Não existe a resposta errada.

Existe apenas a complexidade de ter 14 anos numa família que acabou de colocar dentro de algo que não escolheu. Até ao próximo conteúdo.